Capítulo 47 – Os dias antes da guerra.

Parecia que o verão tinha virado inverno, que o sol havia sumido por entre as nuvens indo para longe onde jamais poderia achá-lo e sentir seu calor novamente. O calor abandonou seu corpo enquanto tocava seus dedos no globo de vidro que trazia em seu interior uma fumaça azulada. A superfície era quente, se apertasse por muito tempo talvez queimasse a ponta de seus dedos e ainda assim um calafrio percorreu sua espinha.

Uma profecia direcionada a si, palavras ditas ao vento e magicamente gravada e arquivada naquele globo, como se fosse possível quebrá-lo e simplesmente desaparecer com qualquer vestígio de destino traçado. Não havia como e Snape sabia disso, tinha consciência plena do funcionamento das profecias, não adiantava fugir, tudo levaria àquilo de uma forma ou de outra. Poderia correr e se esconder, fugir de qualquer obrigação, mas jamais conseguiria tirar de seu peito o ardor da responsabilidade, o destino é traiçoeiro e te leva para onde quer levar, sua mente e alma não decidem, o destino é sozinho e insólito, ele pode matar se quiser.

Sabia que a qualquer momento as palavras apareceriam na superfície de vidro e a voz asmática da velha preencheria seus ouvidos, mas não queria ouvir, não queria saber. Prendeu os olhos na mulher e se pôs a apenas observá-la. Viu que era exatamente a mesma que vira nos sonhos de Vany, os cabelos brancos ainda estavam bagunçados e emaranhados em um coque solto. As roupas eram antigas, rasgadas pelo uso e comida pelas traças, não tinha joias, unicamente um anel de casamento que já não brilhava no dedo enrugado. A pele era pálida, enrugada, velha e caída. Ela tremia um pouco e os olhos caídos estavam semiabertos como se estivesse cansada.

Sentiu nas pontas dos dedos que o globo começava a esquentar, a profecia estava pronta para ser ouvida pelo seu receptor.

"No dia em que o sol virar lua, quando a luz não mais pertencer ao mundo e o mal der início ao seu reino uma escolha cruel deverá ser feita por aquele que marcado fora duas vezes e traz em si o equilíbrio das trevas e da luz. A escolha entre sangue ou coração."

Os olhos negros de Snape permaneceram grudados no globo como se o leve desviar fosse capaz de transformá-lo em fumaça e então se perder no ar. Sentiu um peso cair em seu estomago como um martelo em uma parede de concreto. Respirou fundo ainda olhando para o globo e o apertou em sua mão, sentiu que não estava mais quente, não tinha mais utilidade, fizera o seu trabalho e se fora. Simples assim. Soltou de leve a respiração que não havia percebido estar prendendo e olhou em direção a casa, viu Vany na janela da sala olhando-o preocupada, a varinha posta em suas mãos, preparada para qualquer eventualidade. Mas a única eventualidade era o conhecimento que o queimava por dentro. Doía, mas não demonstrava, seu rosto era de pedra, uma escultura de mármore.

"Marcado duas vezes", não havia dúvidas de que era ele, não havia no mundo alguém que fizera a loucura de se marcar duas vezes, se prender a dois mestres. Ele fizera. Era ele, ele deveria fazer a escolha, alguma escolha que acarretaria na perda de algo, alguém. Olhou novamente para a casa e viu as silhuetas de Harry e Riley espiando no andar de cima. A menina estava nas pontas dos pés querendo ver tudo com olhinhos curiosos que somente crianças como ela teriam, era bela, era dona de seu coração sem nem ter pedido licença e ao seu lado estava Harry, a varinha presa firmemente nas mãos, seu rosto trazia a dureza de um jovem guerreiro, alguém que crescera em pouquíssimo tempo. Olhou então para Vany, mas não diretamente para seus olhos e sim para seu ventre. Era pequeno, liso, nada ali demonstrava o crescimento de um ser, mas estava ali, seu sangue, seus genes, seu filho. Talvez o único filho que pudesse ter carregando seu sangue.

"A escolha entre sangue e coração."

A única coisa que podia fazer era rezar para estar errado, rezar muito, fortemente e pedir a todos os deuses em quem não acreditava que aquilo fosse outra coisa. Não poderia escolher, jamais.

O globo de vidro rolou por seus dedos abertos e espatifou no chão. Cacos finos de cristais voaram para todos os lados do gramado, pareciam estrelas cadentes caindo sobre a superfície da terra. Bonito e triste de se ver. Seus dedos não estavam mais quentes, agora pareciam congelar, fechou-os em punho e desviou o olhar dos estilhaços para prendê-los na mulher, ela permanecia no mesmo lugar. A voz da profecia estava clara em sua mente e a frase não parava de correr de um lado para o outro na superfície lembrando-o. Não queria lembrar, queria enterrar fundo, esquecer. Forçou-se com oclumência, mandou aquilo para os confins de suas lembranças, guardou embaixo daquelas que mais lhe traziam angustia. Colocou-as ao lado das lembranças do pai e deixou ali.

- Deve ter muitas perguntas. – Disse a velha quando deu um passo em sua direção.

- Sim, nenhuma a respeito disso. – Respondeu Snape fechando a mão sobre a varinha. – Quero saber sobre a profecia de Riley. Conte-me por que eu estava na profecia dela, porque eu sou o responsável por protegê-la e como tenho uma ligação tão forte com ela.

- Por que, como, quando, onde. – A velha sorriu grotescamente para Snape quase fazendo-o enjoar com a visão dos dentes podres. – Acha que temos todas as respostas que quer, mas não temos, ninguém tem. Não há como saber o porquê dessas coisas. Você está ligado a ela por que a vida quis assim, simples. Isso se chama destino.

- Não acredito em destino. – Mentiu sem demonstrar em suas feições firmes e atentas.

- Mas o destino existe e é tão cruel quanto uma criança com lupa em um formigueiro decidindo por si só quais serão queimadas e quais viverão para contar a história e continuar a trabalhar. Não há um motivo para sua ligação com ela, simplesmente existe como uma energia cósmica que a magia trouxe para sua vida. Você estava destinado a nascer com essa ligação e assim estava destinado a fazer parte dessa família e a ter a segunda marca. Aceite.

- O que sabe de minha marca com Marcus?

- Sei que ela não é nada, mas o motivo de sua criação sim. Não posso lhe falar muito mais do que isso, pois não sei.

- Conte-me o que sabe sobre os sonhos de Vany.

- Estão piores não estão? – A velha riu do esforço que Snape fizera para manter suas feições intactas. - - Deve estar se perguntando como sei sobre isso. Bom, eu sei tudo sobre Vany Smean. – Snape estava tão perto da velha agora que ela poderia apenas sussurrar que ele escutaria. – Isso nunca aconteceu antes, comigo ou com qualquer bruxa profetisa que eu conheça. Por algum motivo fui escolhida para cuidar dela, zelar. – A velha tinha olhos vidrados como se tivesse se perdido em antigas histórias. – Por muito tempo eu só sonhava com ela, via o rosto dessa mulher em todos os lugares e todas as horas. Alguma coisa me puxava para ela, algo mais forte do que o meu querer e eu quis muito fugir da responsabilidade de guardá-la, protege-la ou melhor, proteger a verdade sobre seu destino. Mas não podia fugir disso, era uma obrigação, minha obrigação. Não foi alguém que mandou. Tive um sonho e nele eu fui avisada por um ser sem face, mas de extremo poder que estava designada ao futuro de Vany e Riley, agora consequentemente você também.

- Não quero você responsável por nada na minha vida.

- Acha que pedi por isso? Tudo que tenho feito é simplesmente observar a vida dela e de sua filha. Tive que aprender proteções, feitiços antigos e encantamentos fortes. Anos da minha vida foram gastos com essa família. Conheci Daniel um dia, quando o avisei sobre seu futuro e o que o reservava. Tentei que tivesse cuidado, mas infelizmente não pude evitar o ocorrido com ele. – A voz da velha deu uma falhada visível nesse momento, mas ela rapidamente se recompôs e voltou a andar de um lado para outro, seus cabelos brancos balançando. Os olhos agora atenciosos e presos em Snape. – Por fim fiz o possível para proteger as duas, isso me desgastou demais, quase não consigo mais fazer feitiços. Então você chegou como a profecia dizia que aconteceria, mas o destino não é certo, você mudou as linhas, levou a história a outro rumo e agora não pode mais sair dele. O destino de Riley e de seu filho estão em suas mãos, Severus Snape.

- O que posso fazer para Riley não ir para o lado errado? – Perguntou Snape agora levantando a varinha e apoiando abaixo do queixo da velha. – Diga o que tenho que fazer ou juro que a mato

- Não tenho medo de você, comensal. Tenho anos demais para ter medo de você, a morte que me daria seria um presente. Não há o que fazer quanto a Riley além do que já fazem. Essa escolha não é sua. – A voz da bruxa era ríspida.

Nada, não poderia fazer nada, mesmo sendo poderoso e inteligente, tendo milhares de feitiços decorados em sua mente, mesmo podendo destruir dezenas de comensais de uma única vez e vencer um duelo com dois bruxos, não podia fazer nada. Essa ideia era tão errada e nova que Snape nem mesmo percebera quando o feitiço saiu de sua varinha em direção a bruxa, mas ela já havia ido embora, desaparatou para algum lugar muito longe onde não poderia chama-la para responder suas perguntas. Em seu lugar ficara apenas algumas letras brilhantes no ar onde se lia:

"Prepare-se"

Seus passos de volta a casa foram rápidos e pesados e ao fechar a porta pode sentir o peso da ansiedade em suas costas. Olhou ao redor e viu Vany do lado da janela aguardando-o, a varinha ainda em suas mãos. Olhou para o alto da escada e viu Harry com os músculos tensos. Não olhou por muito tempo para os dois apenas dirigiu-se para a escada.

- Severus... – Começou, mas calou-se ao vê-lo levantar a mão pedindo silêncio.

O homem trazia em seus olhos uma sombra, algo pesado e ruim, algo que ele não diria naquele momento, Vany sabia disso, ele diria quando tivesse que dizer.

- Ela não vai ajudar.

Foi a única coisa que ele a deixara saber antes de subir os degraus e fechar-se em seu quarto. O silencio era esmagador. Seus dedos formigaram sentindo falta do globo de vidro, um objeto tão pequeno e que carregava seu destino, falta da sensação de ter o controle ao menos uma vez. Que tolo, sempre fora e sempre seria uma marionete. Dumbledore, Lord das Trevas, Marcus e agora a profecia. Um suspiro escapou de seus lábios quando a marca de Marcus esquentou em seu braço como se o bruxo conseguisse saber que pensava sobre ele. Sabendo que não poderia se negar ao chamado pegou o casaco e saiu do quarto passando por Vany que inutilmente tentara dizer uma ou duas palavras, a porta já batera levando-o embora.

Os comensais que normalmente rondavam sua casa não estava ali e talvez isso fosse a maior sorte que poderiam ter, pois Snape estava louco para pôr as mãos na garganta de um desses malditos.

- Você mentiu para mim! – Rosnou entre dentes ao abrir a porta da residência de Marcus e avançar sobre ele prendendo-o na parede com uma mão em seu pescoço. – Aquela velha maldita não me levou a nada.

- Eu não disse que ela te daria a resposta do que precisava, só que a acharia e achei, Severus, eu fiz o que disse que faria, agora acalme-se e me largue. – Os dedos de Snape prenderam-se com mais força na garganta de Marcus, ele ficava sem folego. – Me legue, eu ordeno.

Por mais que desejasse continuar a apertar a garganta dele, a marca ardendo em seu braço ardia como carvão em brasa obrigando-o a soltá-lo. Marcus tossiu ao cair no chão, mas rapidamente ergueu-se tentando manter a respiração firme e constante.

Snape afastou-se um pouco sem tirar os olhos de Marcus e sem abaixar a varinha, seu braço ainda ardia, mas a dor era suportável, na verdade a dor lhe dava poder e força. Enquanto Marcus se recuperava se deixava pensar no que o outro dissera. Não poderia dizer que era mentira, Marcus prometeu levá-lo até a velha e de uma forma ou de outra cumprira com sua palavra. Lembrava-se do dia em questão, logo após a marca ser feita Marcus o levara para o interior ao leste da Inglaterra, um lugar inóspito e desconhecido ou esquecido. Aparataram em um vale com uma cidadezinha próxima, Marcus dera as costas para cidadezinha e embrenhara-se no meio de um bosque. Severus achara impossível que alguém morasse naquele lugar, era distante, vazio e completamente perigoso, mas alguém morava ali sim. Um pouco mais adentro do bosque havia uma clareira ao lado de um rio e na clareira havia uma casa simples e pequena, mas não fora aquilo que chamara a atenção de Severus e sim a mulher lavando roupa na beira do rio. Seus cabelos eram castanhos claro quase loiro, sua pele tão branca quanto a neve e seus traços finos e delicado. Era bela.

- Quem, é? – Perguntou Snape sem desviar os olhos da pequena graciosidade.

- A única que pode contatar quem você precisa. – Explicou Marcus enquanto descia a colina. – Você está procurando por uma bruxa que não sabe nem mesmo o nome, uma profetisa antiga. Aquela na beira do rio é Davine Delora, um aborto.

- E como um aborto pode me ajudar Marcus?

- De uma forma única. – Respondeu rindo e andando, dando as costas para Snape enquanto continuava a falar. – Davine nasceu sem seus poderes, ela não pode fazer magia, jamais conseguiria nem mesmo um Leviosa, mas ela tem, de alguma forma, uma conexão com os bruxos do mundo, consegue ver, saber e achar a maioria dos bruxos do mundo.

- Por que ainda não a usaram para descobrir a localização do Lord e dos comensais?

- Porque para o mundo bruxo Davine foi morta há mais de quinze anos por comensais do Lord que invadiram a antiga vila da sua família e a destruíram queimando casas e possuindo as mulheres.

O vento jogou os cabelos negros de Snape em seu rosto, mas não o impediram de observar a menina. Era jovem, não parecia ter mais de trinta anos. Sua beleza por si só já era motivo para guardá-la a sete chaves, mas se ela tinha mesmo aquele dom tão fascinante então era mais do que sábio que Marcus a escondesse. Olhou para Marcus ao seu lado e o viu sorrir vendo a menina, era um sorrio simples, leve e humano, totalmente verdadeiro, o típico sorrindo que ele demorara para conseguir dar.

- Como soube dela?

Os olhos firmes de Marcus se desviaram de seu destino e se firmaram em Snape. Uma sombra passou por trás de sua íris.

Marcus, apesar de fazer parte dos comensais, frequentar mesmos bares e espeluncas e ter um poder considerável, jamais fora conhecido por seus atos maléficos. Ele tivera a chance de se juntar a esse grupo pelo que podia fazer. Sempre fora um homem do mundo, um negociador, alguém que todos procuravam quando precisavam achar outra pessoa. Sem revelar seu segredo ele vendia as informações e em troca recebia o que quisesse pedir desde bonequinhos de plástico até sua liberdade. Então um dia o Lord pede que seu servo se apresente a sua frente. Ele pediu o máximo que poderia pedir para Marcus, pediu Devine.

- Porque a mãe dela morreu ao dar à luz. Davine é minha irmã. É por isso que preciso mantê-la longe de todos. Não há mais ninguém para ficar com ela. Ela é minha responsabilidade.

Marcus tentou continuar a andar, mas as mãos de Snape se fecharam em seu braço e o jogaram atrás de uma árvore. Seus rostos ficaram próximos, tão perto um do outro que podiam ler os ancestrais em cada traço de seus rostos. Snape mantinha os olhos negros afiados, mas Marcus não demonstrava medo.

- Por que me trouxe aqui, Marcus?

- Porque me pediu.

- Não acredito em você. Acho que está tentando me enganar, por algum motivo acha que sou tolo o bastante para cair em uma armadilha. – A ponta da varinha de Snape tocou o pescoço de Marcus afundando-se em sua pele. – Isso jamais vai acontecer, então, sugiro que diga logo o que quer de mim.

- Nada, não quero nada de você além do seu rancor e ódio contra o Lord. – Snape franziu a testa demonstrando suas dúvidas, mas a varinha continuou afundada no pescoço do outro bruxo. – Entenda Severus, por anos eu servi ao Lord, marquei-me como você fizera, achava que ele era o máximo, que ele traria paz a esse mundo e que sua filosofia era verdadeira. Eu fui ludibriado pelas palavras poderosas dele. Nunca fui do primeiro escalão, jamais cheguei aos pés de comensais como você, Lucius ou Lestrange, mas fazia tudo que me era mandado, sempre, jamais falhei com meu mestre. Mas havia algo que ele queria de mim, algo que soube por outro comensal, alguém que hoje não pode mais abrir sua boca. – A voz de Marcus era baixa e calma, porém havia alguns pontos minúsculos de tremor. – E eu não pude dar isso à ele. Ele me pediu Devine, soube que mesmo sendo um aborto ela podia se conectar com outros bruxos do mundo pela mente e ele precisava encontrar alguém, só depois descobri que ele buscava pelos Potters. Ele a usaria, a torturaria, faria coisas cruéis com Devine, coisas que nós, comensais, fazemos com os inocentes. Então eu a escondi e jamais contei a ninguém que ela estava aqui. Usei todo o meu poder com a legilimencia para fingir que ela morrera, foi difícil, mas fiz um bom trabalho e depois de algumas horas o Lord se convenceu de que eu estava contando a verdade e Devine permaneceu viva. Mesmo após a suposta morte do Lord eu não podia trazer Devine para o mundo dos bruxos, os comensais livres a matariam ou a usariam. Por isso a deixei aqui.

- E foi assim que ganhou e manteve a fama de conseguir encontrar tudo que os outros procuravam.

- Todos que os outros procuravam. – Corrigiu Marcus. – Devine só consegue se conectar com bruxos vivos, não conseguimos saber como. Não me olhe desse jeito como se tivesse nojo de mim, eu era um comensal marcado, ninguém me aceitaria em um emprego, precisava de dinheiro, por isso a usei algumas vezes em busca de bruxos que alguém estava procurando. Nunca tive um Dumbledore na minha vida para me dar uma chance.

- Não fale de Dumbledore. – Disse Snape cerrando os dentes e espetando a varinha mais fundo na garganta de Marcus antes de recuar alguns centímetros.

– Tudo bem, não falo mais nele, se isso te incomoda tanto. – Marcus percebera pelo olhar de Snape que Dumbledore era um campo perigoso para se caminhar ao redor de Snape, por isso decidiu que mudar de assunto seria a melhor opção. – Bom, eu o trouxe aqui, Severus, porque quero o lord morto tanto quanto você, mas você foi o único a conseguir sobreviver a maldição da marca para traidores e esse poder é muito mais forte do que qualquer um que eu possa imaginar.

Snape se afastou devagar, sua testa ainda franzida.

- Devine precisa voltar a viver e ela não pode viver nesse mundo enquanto o Lord estiver vivo, Severus. Por isso o ajudarei com o que você procura, pois preciso que mate o Lord das Trevas.

"Preciso que mate o Lord das Trevas". Marcus podia tentar imaginar, mas jamais saberia o tamanho de sua vontade de cumprir com essa frase, de matar o Lord das Trevas, olhar em seus olhos vermelhos e vê-lo perder a cor. Ah como queria, mas não era esse caminho que ele trilharia e sim Harry, o menino dos olhos verdes era o único capaz de mata-lo e ainda que fosse doloroso admitir, e que tentasse levar Harry para o mais longe possível desse final, sabia que isso deveria acontecer, tão bem como sabia que a menina Devine merecia mais do que uma cabana no meio do nada tendo a visita apenas de seu irmão.

- O destino do Lord não está nas minhas mãos.

- Eu sei, mas você irá com Potter até o fim e é com isso que estou contando. Devine fez o que eu pedi naquele dia Severus, ela contatou a profetisa que viu em sua mente, você viu o quanto foi difícil, o quanto ela precisou de força para encontrá-la, mas ela fez e mandou sua mensagem. Nem ela e nem eu temos culpa que sua busca foi em vão. Minha palavra foi cumprida.

Sim, a palavra dele fora cumprida, mas era tão frustrante que sua busca não resultara em nada que desejava descontar em alguém, mesmo que fosse no dono de sua marca. Queria tanto uma resposta para o destino de Riley, a profecia feita quando a menina era ainda um nada no ventre de Vany dizia que o Lord estaria atrás dela para usá-la como vingança contra o traidor do Daniel Smean e que ele seria o protetor da menina. E agora uma nova profecia dizendo que deveria escolher entre o coração e o sangue. Como tudo poderia ser tão difícil?

- Tire a marca. – Disse Snape em um sussurro com o olhar penetrante em Marcus. – Se quer minha ajuda, se quer Devine fora daquele lugar, então tire a marca.

- Coloquei a marca para ter acesso a você caso precisasse, o que me garante que você não irá sumir?

- Nada. Não há como você saber, mas se quer minha ajuda terá que confiar em mim e deixar que faça as coisas do meu jeito.

O braço de Snape formigava onde antes havia a marca de Marcus, agora havia apenas fracas linhas que formavam o desenho de um brasão. Retirar uma marca era doloroso, demorado e cansativo, já era madrugada quando entrara em sua casa. Estava escuro e quieto, nem mesmo o vento se pronunciava. Tirou o casaco e colocou no encosto da poltrona. Desceu ao laboratório e analisou as poções que deixara fervendo, precisava terminar a remessa pedida por Madame Pomfrey para o estoque da escola.

O mexer do caldeirão, o borbulhar do liquido e o leve aroma de seus vapores eram como relaxantes para ele, algo que penetrava em sua mente nublando quaisquer pensamentos que pudesse ter. Aquele era seu ambiente seguro, um caminho que sabia trilhar, o único caminho onde podia controlar cada elemento com maestria e conhecer seu final antes mesmo do primeiro passo.

Quando desligou o fogo e viu a poção aquietar em um liquido azul celeste opaco sentiu seus braços e pernas amolecerem, estava exausto. Espalmou as mãos na superfície da mesa sentindo a textura da madeira e sua temperatura morna, fechou os olhos por um instante e respirou fundo. Seus passos dali em diante eram imprecisos e por isso deveriam ter o dobro de cuidado. Soltou um bufo de deboche ao pensar em como ficava se se remoendo por ser um homem marcado pela culpa, que morreria sozinho em lima poça de lama e sangue em meio ao início de um esquecimento inevitável e agora ficava pensando em como amar e ser amado, era difícil. Snape abriu os olhos devagar, ainda sentia a moleza nos músculos, mas isso não era nada para lhe ocupar a mente o que ele ocupava eram as palavras da velha, a cada segundo, uma vez atrás da outra a frase se repetia. Incontáveis vezes como um mantra maldito. Essa era a maldição do amor, a maldição de que tanto fugira, mas que sempre o encurralara e que não se acovardava diante de sua negação. A maldição de desejar a sua própria morte no lugar do outro. Primeiro com Lily, depois, quando até mesmo a esperança havia desistido de si, veio Harry abrindo as portas há muito trancadas, entrando de mansinho e desarmando suas muralhas, cavando os cantos inóspitos de sua alma e plantando a semente de seu ser. Então Riley com sua inocência doada aproveitando de sua vulnerabilidade e trazendo Vany, ah querida Vany, que foi capaz de amá-lo e aceita-lo acima de seus erros, aquela que não lhe negara a imagem de Lily e entendera que mesmo podendo amá-la, jamais se livraria da menina dos olhos verdes, aquele que a aceitara como uma de suas cicatrizes. E então seu próprio sangue, um sangue que ainda nem conseguia aceitar ou acreditar e talvez um sangue que não exista futuramente.

Com esse pensamento suas mãos fecharam-se em punho fortemente sobre a mesa, a respiração ficou pesada, difícil, os olhos fechados com tanta força que doía, o peito subia com força ao mesmo tempo que os dentes cerrados seguravam o urro em sua garganta. Não era um urro de raiva ou ódio, era algo mais forte, mais poderoso, algo que se escapasse destruiria tudo a volta. Era um urro de medo. Medo de falha, medo de que a aceitação desses traiçoeiros sentimentos tenha sido seu maior erro. Medo de ter medo. Snape não deveria ter medo, ele era Severus Snape.

Os olhos se abriram quando ouviu o barulho da porta do laboratório abrindo. Rapidamente e com esforço engoliu o urro, abriu as mãos duras e se recompôs antes que a imagem de Vany aparecesse no batente da porta.

- Oi. – Disse a mulher fechando o robe de seda pelo frio do laboratório, Snape não lhe respondeu. – Eu te esperei, vi quando chegou, como demorou para subir imaginei que estava aqui.

- E comprovou suas suspeitas óbvias, afinal onde mais eu estaria se não em meu laboratório trabalhando? Na cozinha assaltando a geladeira?

Vany franziu a testa, fazia muito tempo que Severus não era assim tão rude consigo, nem se lembrava quando fora a última vez. Sentiu vontade de lhe responder, mas calou-se e apenas o encarou sem fugir daquele rio negro refletido na íris do homem.

- O que houve?

- Nada.

- O que houve, Severus?

- Não consegue ouvir direito? Quer que eu marque uma consulta no ST'Mungus?

- Seus insultos não vão me atingir, Severus, sabe porquê?

- Não, eu não tenho a menor ideia, me elucida, por favor. – Snape quis morder a língua, nem mesmo sabia por que estava agindo daquela forma, mas vê-la na sua frente vestindo apenas sua camisola embaixo do robe de forma tão vulnerável e bela o deixou instável, intragável, insuportável.

- Porque você faz isso quando está na defensiva, quando está com medo. Tenta se livrar do obstáculo da pior forma possível, faz com que as pessoas queiram se afastar de vocês. – Disse a mulher se aproximando devagar, os olhos grandes brilhavam. Snape apenas a encarou e não se alterou ao ouvir a voz baixo. – Por que está na defensiva comigo, Severus? Do que está com medo?

- Não tenho tempo para perder com suposições errôneas sobre meus atos Vany, melhor voltar para a cama.

- Não. – Retrucou a mulher cruzando os braços diante do corpo. – Quem você pensa que eu sou, Severus? Uma criança? Um de seus alunos? Eu sou sua mulher, posso não ser oficialmente e perante um juiz, mas eu sou sua esposa e mãe de seus filhos.

- Isso não lhe dá o direito de bisbilhotar a minha vida.

- Sua vida? Caso não se lembre isso tem haver com Riley, minha filha, e você nem ao menos me dá uma satisfação sobre a vinda daquela bruxa a nossa porta. – Vany baixou as mãos que gesticulavam enquanto quase gritava. – O que está havendo Severus?

Snape sentou-se em um dos bancos da bancada e fitou o nada por alguns segundos antes de quebrar o silencio.

- Queria nunca ter te conhecido.

Vany se sentara a sua frente, estava prestes a pegar em sua mão quando ouviu aquela frase, imediatamente recuou o braço para o peito como se quisesse se proteger. As palavras dele eram baixas, era o que tornava a dor pior. Seu peito ardeu, podia sentir o coração começar a rachar, estava frio e tudo ao redor derretia como lama negra. Quis se afastar, mas as mãos grandes, frias e fortes dele alcançaram seu braço desfazendo o aperto e tocando em suas mãos. Seus olhos brilharam, a dor da verdade dita a fazia querer apenas correr para longe, mas Snape a olhava de uma forma única, era doce e triste.

- Entenda. – Continuou Snape. – Nesse momento o que eu mais queria era jamais ter visto ou conhecido você. Porque assim eu não teria amado você e não teria medo de te perder.

- Você não vai me perder. – Disse Vany dando a volta na bancada e ficando de frente para Snape, seu peito começava a aliviar-se das palavras amargas. Apertou a mão dele. – Eu disse que estaria aqui com você, sempre estarei.

- Eu não posso ajudar Riley. – Vany franziu a testa.

- Mas a profecia diz que você a protegeria.

- E vou, protegerei Riley enquanto eu puder, não deixarei que nada aconteça a ela, mas não posso evitar que o Lord a encontre e que faça a proposta de reinar ao lado dele e muito menos decidir a resposta dela. Desculpe.

A tristeza era visível no rosto da mulher. Suas feições endureceram, seus olhos choraram e seus dentes cerraram-se. Snape podia senti-la tremer enquanto os olhos vidrados imaginavam sua menininha nos braços de Voldemort.

- Não vou permitir! – Gritou Vany tentando se soltar das garras de Snape que se fecharam com força em seus pulsos.

Vany gritou enquanto vidros quebravam ao redor.

- Ela não irá para o lado dele.

- Eu sei.

O único movimento que Snape fez enquanto Vany gritava de raiva e atirava frascos de ingredientes para todos os lados foi puxá-la para mais perto e segurar seu queixo forçando-a a encará-lo.

- Amaldiçoo o dia em que te conheci Vany Snape. – Disse Severus com sua voz arrastada fazendo a mulher parar de se debater e encará-lo com os cabelos loiros grudados no rosto úmido e lágrimas. – Amaldiçoo a mim por não te afastar, porque eu sabia que ficando comigo você seria vulnerável. Mas eu te queria tanto Vany, tanto.

Os sussurros de Severus eram urgentes, seus olhos predadores e inocentes, suas mãos garras afiadas e macias. Vany se soltou lentamente e tocou lhe a face vendo-o fechar os olhos perdido nas contradições de seus dizeres. Aproximou-se devagar beijando-lhe as pálpebras sentindo os braços dele enlaçarem sua cintura com firmeza e carinho.

- Por que sempre brigamos, Severus? Por que estamos brigando agora?

- Porque eu fico confuso com você. – Respondeu Snape abrindo os olhos. – Sempre fui condicionado a obedecer. Meu pai, o Lord, Dumbledore. Eu não tinha preocupações, sentimentos, só fazia o que me pediam, mas quando você chegou, quando você me amou, eu me perdi. Não podia mais ser quem sempre fui porque você vinha em minha mente e meus atos eram condicionados a você. Eu só penso em você, no que você dirá, no que irá pensar de mim. Eu reneguei um mestre por você, por Harry e Riley também, mas principalmente por você. Quando a marca começou a me queimar e eu desejei morrer, você me fez ficar. E agora, quando a guerra está tão próxima, quando o Lord tem o comando no Ministério e os poucos da Ordem colocam suas esperanças em pessoas como eu, eu falho.

- Você não falhou, Severus.

- Mas falharei.

- Como pode saber?

- Porque antes eu marcharia para a guerra sem pensar nas consequências, eu só mataria e mataria, me sujaria com o sangue dos malditos e os mandaria para o inferno. Não teria nada na mente além do ódio e fome de morte, e no fim se eu morresse seria ótimo para mim, o fim e libertação que eu precisava após tantos anos remoendo a culpa pela morte de Lily e pela promessa feita em seu tumulo de que eu cuidaria de Harry. Agora não consigo esvaziar minha mente, vocês aparecem e se a guerra vier eu vou querer que no fim eu volte para casa, para você. Não entende como isso me deixa instável? Eu brigo com você na esperança de que perceba o quanto é perigoso ficar ao meu lado e apenas vá embora levando Riley para bem longe onde o Lord não a pegue. Mas você sempre fica.

- Já disse que não vou a lugar algum, Severus. Eu sempre estarei aqui para você.

- Não deveria, eu sou errado para você, um homem marcado.

- Severus, em sua sala de aula você pode dizer o que os outros devem ou não fazer, mas não para mim. Acha que eu não sei quem você é, o que foi, o que sente? Eu conheço suas marcas, até as que não posso ver, eu seu da sua sede, das suas condições de comensal, eu sei e eu escolhi ficar ao seu lado, porque você não seria você sem elas, sem seu passado, sua arrogância, ignorância e sarcasmo. A guerra vai nos chamar e quando você for quero que vá de cabeça erguida, de varinha nas mãos e que mate aqueles malditos sem se preocupar conosco. – A voz de Vany quebrou-se, as lágrimas escorreram por seu rosto enquanto seus olhos ardiam ao encará-lo. Severus era uma pedra de concentração, nem ao menos se mexia, mas Vany conseguia sentir a vibração que suas palavras causavam nele. – Mas antes de ir você me dará um beijo, e vai colocar o máximo de amor que você puder nesse beijo, porque se você morrer na guerra eu terei todo o seu amor como a última lembrança. Se você morrer, que morra sendo você, sendo o Severus Snape que todos tanto temem, o homem poderoso e conhecedor de feitiços que muitos só sonham. Não quero que fique pensando em voltar para mim, mas se puder, volte.

Não houve palavras, não houve olhares, nem sussurros que pudesse explicar audivelmente o que Snape sentia naquele momento ouvindo a aceitação completa daquela mulher. Alguém que sabia os riscos e aceitava. Alguém que sabia de si e aceitava. Vany nem ao menos esperava quando foi puxada para um beijo apertado, urgente e intenso. Snape a apertava contra si, sua língua bailava na boca dela, suas mãos passeavam pelas costas puxando o robe para baixo jogando-o no chão. Vany arfava ao ser levada para perto da mesa no fundo do laboratório. Sem parar de beijar seus lábios Snape jogou todos os papeis, como suas anotações, no chão, ergueu Vany com uma mão e a pôs sentada ficando entre suas pernas.

- Severus. – Sussurrou Vany abrindo os botões do sobretudo do homem antes de abrir sua camisa deixando seu peito amostra. Snape afastou-se um segundo quando a falta de ar lhe exigiu respirar, suas mãos postas nos quadris dela, seu dedo espertamente encaixado na beirada da calcinha branca. – Eu te amo, Severus. – Sussurrou Vany beijando lhe devagar. – Não precisa repetir, sei que é difícil para você dizer essas palavras e fico grata pelas poucas vezes em que disse.

Em resposta Snape beijou-lhe docemente enquanto descia sua calcinha pelas pernas alvas e a jogava no chão. Vany arquejou as costas quando ele a penetrou de uma única vez, suas mãos apertaram com força os ombros fortes sentindo a ondulação das cicatrizes nas postas dos dedos. Snape mordeu o pescoço dela fazendo a gemer de leve antes de lamber a pele subindo até seu rosto. Tomou-lhe os lábios nos seus e sentiu o tamanho desejo aumentar, pegar fogo e queimá-los como brasa. Vany não conseguia se concentrar em nada mais além da imagem de Severus em cima de si, seus cabelos negros balançando e grudando em sua pele suada, seus olhos ardentes, seus lábios inchados. A respiração era difícil, mas ele fazia questão de beijá-la, ela fazia questão de tocar-lhe a pele, sentir os músculos enquanto se movimentava dentro de si. Ambos faziam questão de se olharem gravando na memória cada segundo daquele momento.

Quando o ápice veio o nome dela saiu rouco de sua garganta. Era difícil se concentrar, o torpor queria leva-los para o sono profundo, mas antes de enterrar a cabeça no pescoço dela a fim de sentir seu perfume único percebeu que em algum momento retirara todas as peças de roupa e a puxara para o chão deitando-se sobre sua capa negra e agora ali estavam, suados, cansados e realizados. Severus rolou para o lado e puxou Vany para deitar a cabeça em seu ombro cobrindo-a com o pano negro. A veela só teve tempo de sorrir antes de fechar os olhos e adormecer.

O torpor passou assim como o tempo, mas Snape permanecia acordado olhando para o teto e apenas pensando. Vany estava completamente adormecida ao seu lado, seu ressonar era leve e delicioso de ouvir. Achando que deveria descansar um pouco Snape se desvencilhou da mulher, ergueu-se e foi procurar sua varinha, foi então que viu algo que não havia notado antes, sua estante de livros. Se Vany acordasse naquele instante e olhasse para a estante diria que não havia nada de diferente, que estava tudo certo, mas Snape sabia que não estava, havia algo faltando, um livro, um poderoso e perigoso livro contendo magias além de sua maldade. Sem sequer deixar seu cérebro pensar na possibilidade de quem pudesse ter pego, seus olhos apontaram para o teto como se pudesse ver por através delas o quarto do menino de cabelos rebeldes que estaria roncando em sua cama com o cachorro enrolado aos seus pés.

- Potter! – Sussurrou fechando as mãos em punho.

Não era hora de pensar na enorme loucura que aquele menino estava fazendo metendo-se em magia negra, não naquele momento, não quando ainda estava com o cheiro dela na pele. Pegou a varinha no chão e voltou para onde Vany se encolhia em sua capa. Ele podia não ligar para o frio do laboratório batendo em seu corpo nu, mas Vany não podia pegar nem mesmo uma gripe, seu dom não podia ser usado, jamais. Com a mulher acomodada em seus braços Snape desaparatou para seu quarto, deitou-a na cama e a cobriu entrando embaixo das cobertas logo em seguida. Vany se aconchegou com as costas no peito dele que a abraçou e fez o que achava que ela nunca saberia que fazia em seus momentos de sono, deixou que sua mão descesse pelo corpo dela encaixando-se perfeitamente em seu ventre. Não havia pensamentos, desejos futuros, não havia nada, Snape esvaziava sua mente e apenas se deixava sentir a vibração de seu filho em seus dedos e assim dormia sonhando com uma linda menininha de cabelos tão negros quanto os seus, cacheados caindo como cascatas em suas costas enquanto corria para seus braços, ela tinha os olhos claros da mãe e como os de Vany mudam de cor conforme o humor, hora azul claro, depois mais escuro passando para o verde, então caramelo, mas nunca pretos. Eram belos sonhos do qual ele nunca se lembrava ao acordar.

Snape preferiu não falar diretamente com Harry, claro que encontrou o livro idiotamente guardado embaixo da cama do menino. Algumas páginas haviam sido folheadas, até mesmo marcadas em feitiços que Harry jamais conseguiria fazer, mas o devolveu ao lugar sem se importar se estava igual como encontrou, Harry não perceberia, pensou Snape saindo do quarto do menino. Porém, invalidando seu julgamento, Harry percebera. Estava em pé ao lado da cama, o colchão levantado, olhava para o livro com os dentes cerrados, fora descoberto. Mas então porque Severus não fora falar consigo? Deveria levar um sermão maior que o mundo, ser castigado, sentir-se mal, no entanto estava sozinho em seu quarto, Severus estava na sala conversando com membros da Ordem da Fênix que lhe traziam notícias sobre o Ministério, e o livro estava no mesmo lugar.

- Você quer jogar, Severus? Então vamos jogar.

Colocando o colchão no lugar Harry arrumou sua cama e se aproximou da janela vendo o rio imundo passando ao lado. Aquela paisagem era grotesca, assim como praticamente tudo naquele bairro, Severus dissera que quando a guerra acabasse mudariam para uma casa melhor localizada. Por Harry tudo bem, ele não estaria lá para ver a nova casa, seus planos não iam tão longe, sabia disso, contava com isso. O iniciar a jornada pela magia negra sabia que não haveria volta, iria até o fim para derrotar Voldemort, livrar Riley de um destino pior que a morte e então iria embora, sua alma corrompida não poderia se juntar a Severus e sua família, ainda mais com o filho dele com Vany sendo um inocente.

Faltavam poucos dias para atingir a maioridade bruxa e assim que acontecesse iniciaria a parte pratica da magia negra.

Sem poder descer devido a reunião da Ordem, Harry se jogou na cama e olhou para o teto, sentia-se estranho desde que começara a ler aquele livro. No começo teve receio, mas com o tempo ficara apenas com um frio na barriga e um vazio no peito, mas com o tempo passou e percebeu que conseguia se concentrar melhor nos feitiços, aprender a essência usava na magia. E mesmo que tentasse negar para si mesmo, usara a magia negra para tapar a dor da falta de Draco, cada vez que sentia falta do loiro e de seus leves beijos começava a ler, então a dor passava, porém vinha o vazio, o enorme buraco cada vez maior em sua alma. Muitas vezes pensou se Draco se sentia assim quando começou a ser comensal da morte e então esse pensamento voava entre o infinito e perdia-se em dúvidas de como estava o loiro, se estava bem, se ainda estava vivo e ao lado do Lord. Deveria estar, se Draco tivesse morrido sairia nos jornais, os Malfoy ainda eram uma família de prestigio, mas será que Draco ainda sentia o mesmo que ele? Ainda o amava, o queria? Será que pensava nele?

A dor chegou como um tiro, rápido e sem aviso. Postou a mão em seu peito e tentou respirar, sentia que desmaiaria a qualquer momento. Com dificuldade saiu da cama e puxou o livro de baixo do colchão, abriu em uma página qualquer com escritas velhas e inclinada exigindo-lhe concentração. Era sobre um ritual que se feito conforme descrito arrancaria a alma do inimigo. Em outro momento Harry fecharia o livro na hora, pois o pensamento de destruir uma pessoa desse jeito o deixaria com náuseas, mas na fome de afastar a dor e na loucura de conseguir qualquer coisa para acabar com Voldemort ele devorou aquelas páginas. Quando devolveu o livro para seu esconderijo e deitou novamente na cama não havia mais Draco em seus pensamentos, só havia a imagem de um vulto de quebrando em pedaços como uma alma que se despedaçava. Com essa imagem Harry dormiu e um sorriso estranho nasceu em seu rosto.

E assim seguiu-se os dias até uma semana antes do aniversário de Harry. O menino se comportou adequadamente perto de Snape que tentava a todo custo ver qualquer coisa diferente no modo como o menino agia, chegou até mesmo tentar ler sua mente, mas Harry se esforçara muito em oclumência chegando a treinar com Hermione nos poucos dias em que a menina fora lhe visitar. Claro que ainda era pouca coisa, se Snape fizesse um pouco mais de força conseguiria penetrar facilmente, mas ele não faria isso, seria como se quisesse gritar que sabia de alguma coisa.

Foram ótimos dias de férias apesar da eminente guerra. Ainda que fosse arriscado todos foram alguns dias para A Toca a pedido da senhora Weasley que queria ter certeza que Harry estava bem. Snape os acompanhou apenas porque não queria colocar a segurança de sua família nas mãos de outra pessoa, caso contrário estaria enfurnado em seu laboratório. Foram apenas três dias, mas que pareceram apenas três segundos. Apesar das ruins notícias que o rádio antigo da senhora Weasley emitia, todos puderam se divertir bastante, os gêmeos tiraram alguns dias de folga das Gemialidades Weasley, Hermione chegara um pouco depois e até mesmo Lupin e Tonks estavam ali com uma novidade incrível que fez todos festejarem. Muitos ficaram curiosos em conhecer Vany, porém poucos se aproximaram da veela que estava sempre acompanhada por Severus. Snape era só carranca, mas Vany era toda sorrisos, pois sua barriga já começara a crescer. Riley ria muito com os gêmeos que rapidamente a elegeram a mascote da Gemialidades e prometeram a ela um cargo em sua loja quando fosse maior de idade, inclusive encheram-na de presentes que Snape confiscou depois dizendo serem perigosos. A última surpresa antes de irem embora fora o Ministro da Magia com o testamento de Dumbledore. Snape exigira ao Ministro que ficasse presente na hora da leitura, mas para sua surpresa Dumbledore lhe deixara algo também.

Harry, Rony e Hermione acharam estranho estarem no testamento do diretor de Hogwarts, mas mais estranho ainda eram os presentes e principalmente o fato da espada ter sido roubada. Porém fora Snape que ficara mais surpreso quando o Ministro lera que todos os pertences pessoais, suas economias no Gringotes e a casa em Godric's Hollows, que pertencera a família Dumbledore, ficaria com ele para compensar todo o mal que causara a sua vida.

- Deve estar errado, Aberforth é irmão legítimo de Dumbledore, ele é quem tem que receber essa herança, principalmente a residência dos Dumbledore.

- Ele recebeu. – Disse o Ministro. – Alvo Dumbledore vinha de uma família humilde, mas com seus feitos conseguiu mais do que apenas ser um excelente bruxo, ele tinha uma pequena fortuna que usara para comprar outras duas residências, as quais deixara com Aberforth já com os pertences direcionados ao irmão e um pequeno valor para ajudar na manutenção do Cabeça de Javali. Bom, se já terminamos, preciso falar com o senhor Snape a sós, por favor.

- Por que? – Perguntou Harry.

- Não questione, Potter. Saia, senhor Weasley e senhorita Granger também.

Harry não gostou da resposta, mas saiu da sala acompanhado por seus amigos. Snape aguardou calado, apenas observava o Ministro que coçava o queixo enquanto andava de um lado para o outro parecendo nervoso.

- O senhor tinha algo importante para falar, senhor Ministro, ou só queria que eu desse nota pelo desfile?

- Fiquei a par do seu caso pelo Quim.

- Que caso?

- Ora essa, ser o ex comensal da morte que voltou para o lado do bem, mas que estava claramente ao lado do Lord e que depois deserdou do mestre, perdeu a marca e agora é praticamente o membro mais influente do grupo intitulado Ordem da Fênix.

- E o que isso tem a ver com o Ministério da Magia?

- Precisamos de alguém que possa influenciar as pessoas, alguém que entenda o que está acontecendo e possa passar perspectivas diferentes. Você lutou contra o poder da marca e venceu. O Ministério ficaria muito grato se participasse de uma ou duas reuniões públicas.

- O senhor acredita mesmo que irei aceitar ser seu bichinho de estimação para que me coloque em exposição quando bem entender? Se for isso então, senhor Ministro, é melhor ir embora ou posso muito bem demonstrar porque o Lord marcou minha pele e eu era seu braço direito. Acho que isso não é algo que queira mostrar nos tabloides, não é, senhor Ministro?

Logo após o Ministro ir embora Snape fora para casa com sua família e se trancara no laboratório descontando sua raiva nas poções, raiva não do Ministro, mas de Dumbledore por ainda o fazer sentir-se mal por querer odiá-lo. O velho conseguia ser manipulador até depois de sua morte. No finalzinho de agosto fizeram uma visita a Madame Pomfrey no castelo para que examinasse o bebe, segundo a enfermeira estava tudo certo, então estavam prontos para ir ao Beco Diagonal.

- Sei que não deveria estar mentindo para eles, Edwiges, principalmente Severus, mas preciso. Eles têm que pensar que irei para Hogwarts esse ano. Eles não podem saber.

A coruja deu um pio mostrando sua indignação para com a mentira do dono, mas Harry apenas acariciou suas penas e pegou sua bolsinha dada adiantadamente por Hagrid, devido seu aniversário em apenas dois dias, já com pertencer importantes guardados como o medalhão de RAB que sempre lhe lembrava seu destino e sua obrigação com as Horcrux, o livro de magia negra de Severus, o álbum de fotos que Hagrid lhe dera no primeiro ano com fotos de seus familiares agora atualizado com fotos dos amigos da escola e de sua família, Vany, Riley e Severus, havia também os recortes de jornais sobre Dumbledore, o pomo de ouro que ganhou no testamento e o pedaço do espelho que Sirius lhe dera. Tudo já preparado e devidamente guardado para qualquer eventualidade, se tudo desse certo hoje mesmo estaria no mundo em busca das Horcrux. O reinado do lord estava aumentando consideravelmente, o número de comensais era gigante, a maioria não passava de homens comuns que a sociedade subjugou e que por medo ou simplesmente por não terem quem os defendessem tomaram como sua a luta do Lord pelo poder do mundo bruxo e agora vestiam as pesadas e negras vestes de comensal. Mas ainda havia aqueles poucos que eram feitos no manto da maldade como Bellatrix Lestrange.

- Harry! – Chamou Riley batendo na porta antes de entrar devagar. – Papai pediu para chamá-lo.

- Já estou descendo, vou só terminar de colocar o sapato.

- Tá bom. Está tudo bem com você Harry?

- Sim, porque?

- Não sei, você parece estranho. Está diferente de antes, de quando te conheci, parece mais quieto.

- Impressão sua apenas. – Respondeu Harry olhando a menina. – E você como está?

- Estou bem também.

- Certeza? Da última vez que me disse que estava bem você queria fugir de casa.

- Não fugirei de casa, ela está protegida, lembra? – Falou a garota dando um sorrisinho falso que não enganou Harry, o menino a olhou mais sério até que desistindo Riley se sentou na cama dele e bufou. – Não queria que mamãe tivesse engravidado, antes era só eu, tudo era para mim e agora não é mais.

- Você não teve problemas comigo.

- Você não é um bebe. Eles estão tão felizes, papai não demonstra muito, mas mamãe não para de alisar a barriga, sorrir e falar que ele é o bebezinho da mamãe.

- Harry, Riley, vamos! – Chamou a voz de Vany na escada.

- Riley, todos te amamos e não vamos te deixar de lado, está na hora de parar de ter ciúmes. – A voz de Harry saiu um pouco mais grossa e bruta do que queria, mas era necessário, Riley já tinha dez anos, a guerra estava próxima e o Lord poderia colocar as mãos nela a qualquer momento usando-a para sua vingança contra Vany e o falecido Daniel. Ela precisava acordar e agir, estava na hora de parar de ser a menininha infantil. – Se quiser que eles não te esqueçam, pare de agir como uma menininha birrenta e demonstre que você está aqui. Tem uma frase trouxa que muitos usam. "Se não pode com o inimigo, junte-se a ele."

Harry jamais saberia que aquela frase fora o gatilho do desastre.

Compras, em meio a ameaças do Lord, comensais e medo, eles estavam fazendo compras no Beco Diagonal, agora quase todo vazio.

- Não sei que ideia mais doida é essa da gente sair no meio dessa confusão para fazer compras, como se fossemos voltar para Hogwarts.

- Cala a boca Rony. – Ralhou Harry dando um tapa no braço do amigo, seu coração estava na boca, jurava ter visto Severus virar levemente a cabeça em sua direção. – Ninguém pode nem mesmo pensar em algo como isso. Nossa fuga é segredo.

– Só não sei como conseguiremos fazer isso aqui, afinal estamos cercados de membros da Ordem e de seus pais. – Sussurrou Hermione.

Harry também estava pensando nisso, parecia impossível que conseguissem sequer ir ao banheiro sem chamar atenção, Severus seguia bem a sua frente com Vany ao lado, ambos com as varinhas em mãos. O senhor e a senhora Weasley estavam atrás junto com Gui e Quim. Outros membros da Ordem estavam espalhados, todos a postos para qualquer eventualidade. Apesar da surpresa Harry gostou de encontrar outros amigos como Neville que o fizera rir ao contar como sua vó fugiu de comensais que queriam sequestra-la, ele estava junto com Simas e carregavam algumas sacolas de compras.

- Tomem cuidado garotos, mandamos o aviso dizendo que hoje era mais seguro para fazer as compras devido muitos membros da Ordem aqui. – Comentou o senhor Weasley. – Mas ainda é preciso cautela, vocês já são maiores de idade, certo?

- Eu ainda não, senhor. – Respondeu Neville. – Só no dia trinta e um de agosto, próxima sexta.

- Ah! Mesmo dia de aniversário do Harry, interessante. – Exclamou o senhor Weasley.

- O importante é estar acompanhado de alguém que possa fazer uma desaparatação acompanhada. – Disse Snape secamente interrompendo a exclamação do senhor Weasley. – Acredito que o senhor Finnigan tenha capacidade para isso além de explodir caldeirões.

Neville parecia querer se enfiar dentro da terra, tanto tempo se passara e ele ainda tinha medo de Snape, ainda mais com o professor tão perto e vestido com as mesmas vestes negras e grandes, porém sem as regras da escola. Tão temível quanto nos últimos seis anos.

- Não se preocupe senhor, posso muito bem desaparatar junto com Neville caso os comensais apareçam, apesar de que dar uma surra naqueles idiotas seria muito bom.

- Isso não é uma brincadeira, senhor Finnigan, sua presença, assim como a do Longbottom ou de qualquer outro acéfalo em meio a uma batalha só causaria mais mortes.

- Bom, acho que precisamos ir, as compras têm que ser finalizadas, não é mesmo? – Tenham um bom dia meninos e cuidado, qualquer coisa fujam daqui rapidinho.

- Tudo bem, senhora Weasley, até mais galeras, nos vemos no trem.

- Até mais Neville. Tchau Simas.

Duas horas mais tarde todos estavam com as sacolas cheias. Hermione olhou as horas no relógio de pulso e deu um olhar significativo para Harry.

- Agora Rony.

- Ei mamãe, será que não podemos dar uma parada no caldeirão furado para beber e comer alguma coisa? Estou com fome.

- Você está sempre com fome Rony. – Comentou Gui rindo. – Mas acho que é uma boa ideia. Essas compras me cansaram e pelo que vemos não tem comensais por perto.

- Bom, eu também estou com sede. – Comentou Vany, o que Harry sabia, daria um voto de sim para Snape. Riley apenas assentiu com a cabeça.

- Bom, então todos ao caldeirão furado, mas não vamos demorar. – Disse o senhor Weasley.

Todos se dirigiram até lá e sentaram-se nas inúmeras mesas vazias, Tom, o garçom, assustou-se ao ver tantas pessoas em seu bar em tempos como aquele e principalmente por ver Snape ali. A fama de comensal ainda o perseguia onde fosse, nem todos sabiam de sua deserção ao cargo de braço direito do Lord.

- Sirva firewhisky aos adultos e cerveja amanteigada às crianças. – Dissera a senhora Wesley fazendo Rony sorris ao imaginar uma caneca de Firewhisky a sua frente, mas quando tom o serviu sua boca cerrou em um xingamento que jamais poderia falar. – Não faça essa cara Rony, você fez dezessete há pouco tempo, por isso apenas cerveja amanteigada. Viu? Hermione não está reclamando.

- Está uma delícia, senhor Weasley. – Disse Hermione com o lábio sujo de espuma da cerveja. Ela voltou a tomar a cerveja e só parou após a senhora Weasley sair de perto e Rony se curvar para cochichar.

- Então, qual é o plano?

- Temos que despistá-los no mundo trouxa, a essa hora as ruas de Londres estão lotadas e conseguiremos passar despercebidos até poder desaparatar para bem longe. – Disse Harry baixinho. – Não teremos outra oportunidade, nossos pais estão nos prendendo dentro de casa, aqui pelo menos não há milhões de feitiços de segurança. Rony, pegou o pó escurecedor do Peru na loja dos gêmeos?

- Peguei, acho que tem o bastante.

- Hermione você está pronta para desaparatar com a gente?

- Estou nervosa, Harry.

- Hermione você é a única que conseguiu desaparatar acompanhada, precisamos que faça isso hoje.

- Tudo bem.

- O plano é agirmos normalmente até a hora de sair daqui, a passagem para o mundo trouxa não é vigiada, então jogaremos o pó escurecedor e correremos para a saída e de lá para bem longe,

- E então ir atrás das Horcruxes.

- Isso mesmo.

Não havia como negar, ambos estavam nervosos, cada segundo perdido era uma batida nervosa em seus corações, o relógio demorava a passar. Finalmente a senhora Weasley agradeceu Tom e disse que precisavam ir embora. Todos se levantaram e começaram a se ajeitar. Harry, Rony e Hermione permaneceram mais ao fundo fingindo terminar uma bebida e então, quando ninguém estava olhando Rony jogou as pedrinhas de pó escurecedor. A nuvem negra subiu no mesmo momento em que os gritos começaram. Harry pegou o braço dos amigos e os guiou para a saída enquanto ouvia a senhora Weasley gritar para não lançarem os feitiços porque podia atingir as crianças.

Harry sentiu as pernas bambas de nervoso, mas continuou a andar, finalmente saíram do caldeirão durado direto para a rua movimentada de Londres, ninguém nem reparou neles, apenas andavam para seus destinos como se nada tivesse acontecido. Os meninos por sua vez agiam com completo nervosismo olhando para todos os lados. Quando chegaram a um beco pararam para respirar. Harry queria dizer algo, mas faltava-lhe folego. Hermione precisava desaparatar com eles naquele exato momento, caso contrário os membros da ordem os pegariam. Rony estendeu a mão e pegou a da menina, mas antes que Harry conseguisse fazer o movimento a porta atrás dele abriu. Hermione deu um grito, Rony tentou pegar a varinha, mas era tarde. Já estava tudo escuro para Harry.