Capítulo 49 – O fim - parte 1

Seus passos eram longos e rápidos, odiava ser mandado, mas sabia que precisava obedecer. Apesar de seus esforços, ainda não era o queridinho do Lord, não recebia as melhores tarefas, ficava sempre na sombra de outros que levavam a glória pelos seus esforços. Mas faltava pouco, sabia disso, logo o Lord veria seu valor e assim conseguiria o que tanto queria, no entanto, por enquanto, reservava-se ao trabalho de levar recadinhos ridículos aos seus antigos professores.

- Senhor Malfoy, acredito que recebeu a devida educação de seus pais e sabe que deve bater à porta antes de simplesmente entrar.

Draco estava com a resposta na ponta da língua, sentiu uma grande vontade de chama-la de velha e demonstrar seu desprezo com palavras ferinas, mas apenas desdenhou a professora com uma careta e entregou um pergaminho que mandaram lhe entregar.

- O que é isso? – Perguntou a professora abrindo o pergaminho e começando a ler. – Ora essa, isso é um absurdo!

De uma coisa Draco não poderia nunca negar, mesmo velha, pálida e claramente cansada pelos dias exaustivos que Hogwarts andara vivendo, Minerva McGonagall ainda exalava poder e superioridade. A mulher levantara-se de sua cadeira com o pergaminho amassado em suas mãos e os olhos brilhantes de raiva. Podia perceber os dedos finos e enrugados querendo fechar-se em sua varinha, mas detendo-se no último instante.

- Melhor não fazer o que está pensando em fazer, McGonagall.

- Para você ainda é professora McGonagall, senhor Malfoy. E saiba que não duelo com o senhor nesse momento, afim de mostrar-lhe uma boa lição, pois ainda tenho esperanças no senhor. Sei que embaixo dessa carcaça vazia ainda está aquele menino mal educado, mas puro.

Draco ficou calado por um momento, nenhum aluno na sala respirava, todos olhavam de um para o outro querendo saber quem ganharia aquele jogo de palavras. Infelizmente Draco, mesmo sendo mais fraco e com menos inteligência, tinha todas as cartas na mão, sabia muito bem que Minerva, assim como os outros professores e funcionários, não rebelavam-se contra os comensais postos na escola a mando do Lord, pois precisavam cuidar dos alunos, caso contrário todos estariam perdidos.

- Estou pouco me lixando para suas esperanças. Tia Bellatrix está impaciente e acredito que já deva ter visto minha tia impaciente. Duvido que queira outra enfermaria lotada por causa da sua desobediência. Porque caso seja isso que queira, então vou ao gabinete da diretora e informo à ela que não enviou o que ela queria.

- Não! – Respondeu a professora com uma voz esganiçada de desespero. Seus olhos marejados de raiva e tristeza pelas lembranças do que Bellatrix fez com uma classe inteira de Grifinórios e Corvinais devido as pichações nas paredes apoiando Harry Potter contra o Lord das Trevas. – Posso ao menos saber o motivo desse interrogatório?

- O paradeiro de alguns alunos e principalmente de alguns artefatos que desapareceram.

- Já respondemos todas as perguntas sobre os alunos sumidos e duvido que qualquer aluno aqui tenha conseguido entrar na sala da diretora para pegar qualquer artefato.

Draco estava prestes a responder a professora, mas o som exasperado dos alunos que se encolhiam nas carteiras o distraiu fazendo-o olhar para a porta e ver parada ali a figura de Bellatrix Lestrange sorrindo loucamente para as crianças. Suas vestes negras estavam surradas, mas ela gostava daquela forma, dizia que não precisava se embelezar ou se preocupar com qualquer outra coisa que não seu mestre.

- Tia, o que faz aqui? – Questionou Draco fazendo Minerva franzir as sobrancelhas por sua voz trêmula. – Eu já ia levar os alunos que me pediu para o interrogatório.

- Você demorou demais, aposto que foi culpa dessa velha caquética que fica tentando defender todos os seus pupilos embaixo das asas. – Riu Bellatrix. Minerva fechou a mão em punho. – O fato é que o Lord pediu uma reunião e preciso estar presente logo, então resolvi eu mesma vir até aqui ver essas belezinhas.

A mentira e falsidade são atos complexos e necessitam de muita força do corpo e do cérebro para que um não traia o outro. Naquele momento o corpo de Draco queria traí-lo, estava louco para se manifestar e só mantinha-se parado pela imensa razão e vontade de sua mente que sabia da necessidade de permanecer quieto. Ainda assim era horrível sentir essa luta interna, parecia queimar seu corpo e alma, como se estivesse ele mesmo cometendo os pecados apenas vistos pelos seus olhos e nunca realizados por suas mãos. Sabia que sua missão ao lado do Lord era difícil, sabia que deveria aguentar muitas coisas ruins se quisesse permanecer ao lado dele. Estava completamente ciente disso no momento em que olhou nos olhos verdes de Harry, naquela noite na ala hospitalar, e aceitou ocupar o lugar de Snape no ciclo de comensais. Valeu a pena, sua mãe permanecia escondida, protegida por membros da Ordem da Fênix que sabiam de seu disfarce. Não a via há tempos, mas valera a pena. Porém, mesmo que seus esforços tenham, de certa forma ajudado a Ordem no combate ao Lord, com mensagens sobre atentados e próximos passos que conseguia saber e passar adiante, odiava-se por ter que presenciar a crueldade com aqueles alunos.

Confessaria um dia que teve prazer com atentados a vilas trouxas, que gostara e sentira vontade de entrar cada vez mais no mundo sujo e negro da morte e violência, mas naquele momento em que uma menina do terceiro ano era estapeada pelas mãos grossas de sua tia para que contasse algo que ela provavelmente não sabia, a única coisa que mais desejaria fazer era afastar Bellatrix dali, apontar a varinha para seu peito e lançar a maldição da morte. Ah, como queria.

- Fala!

- Não está vendo que ela não sabe de nada! Largue a menina Bellatrix. Deixe esses alunos em paz!

O loiro amaldiçoou-se por estar diante de McGonagall que postara-se entre sua tia e a menininha chorona e com coragem enfrentara a algoz de seus pupilos. Como queria poder fazer isso. Postar-se na frente de todos os alunos e mostrar que tinha força e coragem para proteger a todos e a cada um deles. Não podia, e esse fato corroía-o por dentro. Muitas vezes beirou a loucura e desespero do que via e chegou a tocar em sua varinha, mas no último instante ouviu a voz de seu padrinho falando arrastado que deveria ser forte, que as provações seriam imensas e pesadas como o próprio mundo, mas que ele teria força para seguir em frente, que acreditava nele. Também via os olhos verdes lhe dizendo sem palavras que também acreditava nele, que estaria sempre ao seu lado, mesmo que no final o ódio em seus olhos fosse pior que um cruciatos do Lord.

- Humm, corajosa Minerva. – Disse Bellatrix rodeando a professora e a aluna que se escondera atrás dela. – Mas imprudente. Como ficarão seus aluninhos quando eu acabar com você?

- Precisará muito mais do que uma Bellatrix para me derrotar. Não se esqueça que fui eu quem te reprovou na escola, criança.

- Não me chame de criança! Sua velha maldita!

- TIA! – Gritou Draco segurando o pulso de Bellatrix com força. Seu coração disparou quando a mulher lhe olhou e vira um fogo ardente em sua íris, como uma sombra viva. – Ele está chamando, precisamos ir.

Bellatrix olhou de relance para o braço esquerdo, não havia sentido a dor do chamado antes, mas agora conseguia sentir o queimado em sua pele. O Lord requisitava sua presença imediata.

- Salva pelo gongo, Minerva. Mas não pense que acabamos por aqui.

- Não tenho medo de você, ou dos outros comensais e nem mesmo do seu Lord.

- Você não, mas os seus alunos têm.

Com um último sorriso ameaçador a mulher saiu da sala, demorou alguns segundos para Draco segui-la, mas no fim ignorou o olhar significativo de Minerva e adiantou-se para fora da classe.

- Está tudo bem querida. – Disse McGonagall para a menina encolhida. – Ela já foi, pode se acalmar.

- Fiquei com medo, professora.

- Eu também.

- Professora? – Chamou um grifinório do fundo da sala. – Por que a senhora não acaba com ela ou então com esse loiro nojento? Ele parece ser descartável.

- Não fale assim Pedro. – Ralhou a professora. – Esse é o pensamento de pessoas como eles, que nos acham descartáveis e prontos para sermos jogados no lixo. E respondendo sua pergunta eu não acabo com eles, pois ela não vale a pena e algo me diz que Draco Malfoy ainda tem muita importância nessa guerra.

Ao chegar diante dos portões de sua antiga mansão que já não pertencia aos Malfoy e sim ao Lord, Draco fechou os olhos por um segundo e esforçou-se para esconder todos os pensamentos que tivera a pouco sobre Snape e Harry, inclusive seu ódio pela crueldade da tia e a grande vontade de matá-la. Sabia que o fim de tudo estava próximo e não poderia falhar agora. Seu disfarce precisava manter-se por mais tempo. Precisava se manter forte e firme como Severus fizera durante anos. Conseguiria, faltava pouco.

- Milorde. – Cumprimentou Bellatrix curvando-se diante do homem na ponta de uma mesa repleta de comensais. Draco apenas acenou com a cabeça afastando os olhos.

- Sentem-se, estávamos esperando unicamente vocês para iniciarmos. – Todos se sentaram em silêncio e aguardaram. Draco observava suas próprias mãos em cima da mesa. – Quero dizer, meus amigos, que nossos planos estão indo muito bem. O Ministério da Magia está completamente em nossas mãos, os jornais divulgam as notícias conforme devem ser lidas pela população bruxa, agora eles saberão quem são as páreas em nossa comunidade, aqueles que contaminam os sangues puros.

- Apoiado milorde. – Ouviu-se em coro.

- E quanto a Hogwarts, Bellatrix?

- Está tudo sobre controle, milorde.

- Já encontrou o menino Longbottom e sua gangue de rebeldes?

- Ainda não, milorde. – Respondeu Bellatrix abaixando a cabeça sabendo o quanto a falta da localização do mentor das manifestações de Hogwarts deixava o Lord nervoso. – Mas estamos avançando nas investigações dos alunos.

- Espero que me traga algo mais do que respostas vazias na próxima vez que vier a uma reunião, Bellatrix, ou não gostará de sentir minha cólera.

- Não, milorde, quer dizer, sim milorde.

- Assim espero. Mão podemos ter alguém motivando nossas crianças contra mim. Eles tem que saber desde pequenos a quem devem respeito.

Voldemort respirou fundo e olhou nos olhos de cada um de seus comensais, que imediatamente fizeram grande esforço para manter o contato visual sabendo que estavam sendo lidos, que seu mestre buscava nos confins de suas mentes qualquer tipo de traição. O alivio fora claramente visto nos rostos de todos quando nenhum comentário foi feito.

- Ótimo, vejo que meus amigos continuam leais a mim. E cada vez mais a lealdade do mundo bruxo passa a ser minha. Todos aqueles que antes eram subjugados pelo Ministério agora procuram minha proteção, agora entendem o nosso propósito e nos apoiam sem medo de represálias, pois quem deve ser repreendido devem ser apenas aqueles cujo sangue é sujo.

- Malditos sangues ruins! – Rosnaram todos em uníssono.

- Milorde? – Chamou Yaxley ao seu lado esquerdo. – Questiono-me novamente se não devemos nos preocupar com as ações de Harry Potter. Estamos em Fevereiro e ainda não o temos capturado, mesmo que tenhamos reforçado a busca após o acontecido no Ministério. O senhor mesmo esteve diante do menino no Natal e ele conseguiu fugir. Não devemos então reforçar um pouco mais as buscas por ele?

- Acredito que deixei bem claro na última reunião que Harry Potter é um assunto já resolvido. O menino conta apenas com a boa sorte e a inteligência da amiga sangue ruim, não demorará para que ele tenha um deslize e pare em minhas mãos. – Os olhos vermelhos e reptilianos de Voldemort prenderam-se nos azuis de Yaxley. O comensal tentou afastar o olhar, mas não conseguiu, pode apenas encolher-se na cadeira. – Parece-me Yaxley, que tem um interesse em enfatizar o fato de Harry Potter escapou por entre meus dedos no Natal. Quer mesmo dizer a todos em todas as reuniões que seu mestre não tem poder de pegar um garotinho?

A voz de Voldemort era baixa e letal. Ele não precisava se mexer, não precisava nem mesmo respirar, seu olhar era predador, transmitia poder e medo. Muitas mãos fecharam-se em punho e gargantas engoliram a saliva. Draco podia até mesmo tremer, mas fez o possível para apenas manter-se quieto.

- Claro que não, milorde! Perdão se me expressei mal. – Pediu Yaxley interrompendo as lamurias quando Nagini subiu devagar por sua perna e torso. – Perdão milorde, perdão.

- Nagini. – Chamou Voldemort fazendo a cobra chiar diante do rosto do comensal e recuar até seu mestre. – E ainda há quem diga que eu não sou misericordioso. – Riu-se recebendo risadinhas fracas e amarelas dos presentes à mesa. Yaxley tentava respirar. – Fiquem avisados que farei uma viagem muito importante e não devo ser interrompido por besteiras. Acredito que meus comensais são capazes de resolver quaisquer problemas sozinhos. Usem a marca unicamente se Harry Potter, por algum motivo, aparecer. Agora saiam.

Draco aguardou todos saírem em ordem, primeiro os comensais mais importantes e depois os outros, porém franziu a testa quando sua tia permaneceu sentada em seu lugar.

- Milorde, desculpe minha intromissão, mas quem sabe posso ajudá-lo em sua viagem, se me permitir acompanha-lo.

- Bellatrix, já estou muito desgostoso com seu desempenho em Hogwarts. Já deveria saber o paradeiro do menino Longbottom e no entanto, ao invés de pensar como captura-lo vem me pedir algo que não ofereci.

- Milorde, só quero ajudá-lo.

- Não preciso de sua ajuda. O Lord das Trevas não precisa de ajuda de ninguém, Bellatrix. Será que precisarei te ensinar a não ser intrometida?

- Não, milorde.

- Então saia daqui, a reunião acabou.

Draco sentiu a força da raiva de Voldemort, era um ar arrepiante que congelava a alma, o Lord levantou-se e seguiu para o fundo da sala onde desapareceu por uma porta junto com sua cobra. Bellatrix caminhou em sua direção e sem dizer nada saiu da sala também. No fim apenas Draco permaneceu ali, estava completamente sozinho e por mais que quisesse se livrar do peso do comensal que era, apenas aguardou os comensais irem embora para depois ir também.

- Vamos Draco, temos uma vistoria criteriosa para fazer em Hogwarts. – Disse Bellatrix.

- Vai na frente tia, tenho alguns assuntos para resolver.

- Assuntos, que assuntos?

- Algo pessoal.

- Entendo. – Disse Bellatrix se aproximando e dando um sorrisinho estranho e nojento. – Vai atrás de trouxas para se satisfazer, não é? Esse meu afilhado está saindo melhor do que a encomenda. Melhor pelo menos do que seus pais que fugiram. Ainda não sei como o Lord não os capturou. Não é para eles que está indo, certo? Porque se você estiver escondendo seus pais traidores eu mesma farei questão de matá-los na sua frente e depois matar você.

- Prometo que quando os traidores aparecerem eu mesmo matarei aqueles que se dizem meus pais, mas que são unicamente traidores do Lord.

- É assim que se fala garoto. Agora vai atrás da sua trouxazinha. Não se esqueça de acabar com ela depois, assim tiramos mais um do mundo.

Draco apenas assentiu com a cabeça e seguiu adiante até o portão da mansão. Já não sentia mais vontade de olhar para atrás ao passar do portão. Aquela mansão já não era mais sua casa. Ali não havia lar, só uma casca infestada por magia negra. De costas para a mansão o loiro esforçou-se para que o destino ficasse claro em sua mente, e então desaparatou.

Dentro daquela casa simples e humilde, em um porão mal equipado e com uma meia luz como apoio, Snape concentrava-se na dosagem de uma poção muito importante. Suas mãos ágeis cortavam uma vagem em pedaços minúsculos que somente alguém com habilidade precisa conseguiria fazer. Um caldeirão borbulhava o liquido roxo claro ao seu lado, mudando imediatamente para azul escuro quando adicionou a vagem e mexeu cinco vezes no sentido horário e depois duas vezes no sentido anti-horário. Parecia cansado enquanto observava a poção dar o resultado esperado de transparência e odor doce, havia olheiras em seu rosto e sua pele estava mais pálida do que normalmente, se possível estava mais magro. Seus cabelos tão negros quanto sempre fora, porém maiores, chegavam a passar um pouco de seus ombros.

- Finalmente. – Sussurrou para si mesmo após preencher todos os vidros vazios com a poção, rotulá-los e guardar corretamente na caixa endereçada a Madame Rosmerta.

- Ainda usando a garçonete como intermediária de Hogwarts?

- Até mesmo alguns comensais tem educação o suficiente para bater na porta antes de entrar, Draco.

- Eu não sou um deles. - Draco deu um sorrisinho cumplice antes de se aproximar e estender a mão para Snape.

- Foi Vany quem abriu a porta?

- Não, foi a menininha. Sua filha, não me lembro o nome dela.

- Riley.

- Isso mesmo, mas vi a Senhora Snape sentada no sofá, a barriga dela está enorme. Então falta pouco para ela dar à luz?

- Sim, acredito que nessa mesma semana, no máximo no começo da próxima. – Snape falava categoricamente enquanto arrumava a bancada velha que usava para fazer as poções. Draco apenas o observava.

- Deve estar odiando ter que usar esse lugar imundo como laboratório.

- Não posso dizer que é o melhor lugar do mundo. Preferia muito mais meu higiênico laboratório, mas não posso mais voltar à Rua da Fiação, não depois daquele ataque aos vizinhos trouxas. Fizeram aquilo para me fazer sair.

- Ora, ora, padrinho. Você não é do tipo que se sacrifica por trouxas, ainda mais aquele tipo de trouxas que moram no seu bairro.

- Eu não, mas Vany é. Tive que amarrá-la para que não saísse e matasse aqueles comensais.

- Essa eu queria ver.

- Não subestime minha mulher, Draco. Mesmo com uma barriga de sete meses e dormindo muito mal, Vany é uma veela muito poderosa quando quer. Poderia facilmente ter derrotado muitos comensais sozinha, mas isso a desgastaria e colocaria em risco a vida do meu filho. Por isso tivemos que mudar para essa casa no interior. Mesmo sendo o Fiel do Segredo era muito perigoso permanecer lá.

- Para um morcego das masmorras, você está se mostrando um ótimo pai, super protetor e preocupado. Seus filhos têm sorte.

- Seus pais também se preocupam com você Draco.

- Sei. Mas então, teve notícias dele?

Snape sentou-se em um banco e olhou para Draco, sabia que o loiro não falava de Lucius quando perguntava sobre ele. Ele era um assunto delicado para Snape que ainda se amaldiçoava por ter sido enganado e estuporado pelo menino que agora estava sumido pelo mundo com seus amigos.

- Não sei mais do que sai nos jornais.

- Mas e aquela ligação estranha que você disse ter com ele, de conseguir senti-lo e essas coisas? – Perguntou Draco levantando-se do banco. Queria muito uma notícia sobre ele.

- Não sinto mais desde que Harry começou a mexer com Magia Negra.

- Ainda não consigo entender como ele foi se meter nisso. Ele é poderoso, não precisava de Magia Negra, não é como se ele tivesse que virar um comensal da morte.

- Harry é e sempre foi vulnerável. – Disse Snape, desta vez com um tom seco, como se estivesse falando sobre uma matéria em aula e não sobre o menino que tornou-se seu filho. Draco ficava cada vez mais inquieto. – Tentava demonstrar que era forte e que não precisava de ninguém, por isso o complexo de herói, de querer salvar todo mundo. Por um tempo isso o deixou bem, em Hogwarts e até mesmo com a Ordem da Fênix e o mundo bruxo. Mas acredito que no último ano, com todos aqueles acontecimentos, ele percebeu que sozinho não conseguiria muito, sem ter a inteligência da senhorita Granger e o apoio do senhor Weasley. Harry é poderoso, é verdade, mas não sabe dominar esse poder, se mostra fraco. Por isso a Magia Negra. Ela é antiga e poderosa, se alimenta da vulnerabilidade transformando em frieza. Quanto mais frio, menos medo se tem e assim o poder aumenta. Entretanto o uso dessa magia tem um preço.

- Que preço? – Perguntou Draco em um sussurro.

- Não pode imaginar, Draco. – Snape estava próximo do menino, cara a cara. Podia ler os olhos cinzento do loiro. – Você é um comensal, fez coisas horríveis, coisas que não quer lembrar e pede a Deus que ele exista para redimi-lo de seus pecados. Você conhece Magia Negra, convive com ela. Qual é o preço, Draco? O que você sente que está perdendo ao usá-la?

Draco não respondeu de imediato, apenas prendeu-se nos olhos negros sentindo o peso da verdade, lembrando-se dos momentos mais cruéis de sua vida, aqueles em que quase desistiu. Seus olhos brilharam quando respondeu.

- Perdendo minha humanidade. É como se minha alma ficasse cada vez mais ...

- Quebrada. – Concluiu Snape.

- Como você conseguiu? Foi comensal durante anos, fez muito mais coisas do que eu fiz ou sequer posso imaginar.

- Eu não sentia que tinha humanidade ou alma, apesar de Dumbledore sempre dizer que ainda estavam dentro de mim. Eu sempre fui movido pela culpa de algo que fiz há anos e não poderia parar até conseguir pagar a promessa feita.

- Até que ele chegou.

- Sim e assim como você está fazendo agora eu me segurei nele para ter de volta minha humanidade.

- Onde será que ele está?

- Não sei. A última vez que o vi foi quando levei a espada para ele. Sorte nossa que Bellatrix permite que você entre no escritório dela quando não está. Por mais manipulador que Dumbledore seja ainda consegue nos ajudar. O ex-diretor não escutou mais nada?

- Não. Apesar de ser o único diretor sonserino de Hogwarts, aquele quadro é inútil, não escuta nada, ou então a Granger fez alguma coisa para que ele não escutasse nada.

- Não duvido. Então, vamos para a sala, posso lhe servir um copo de whisky.

- Agradeço, padrinho. Mas ainda preciso ir ver meus pais, quis apenas saber notícias.

- Ainda não os perdoou?

- Eles nunca se importaram comigo e me deram de bandeja para o Lord, mas os perdoei, são meus pais. Já vou indo, até mais padrinho.

Apesar de um aperto de mão ser o suficiente para aquela rápida conversa Draco abraçou Snape com força. Seu padrinho sempre fora o mais chegado a si e sentia falta de sua presença. A guerra se aproximava e todos podiam sentir. Muitas perdas ainda estavam por vir, não dava para saber quando o adeus seria o último adeus.

- Alguma novidade? – Perguntou Vany sentada acariciando a barriga enorme.

- Não nenhuma.

- Ele parece cansado.

- Todos estamos, inclusive você. Não tem dormido direito, talvez eu consiga fazer uma poção para que possa dormir bem.

- Severus, sabe que não tem os ingredientes aqui, o máximo que consegue fazer são as poções para Hogwarts que Madame Pomfrey pede através da Rosmerta. Estamos em um lugar inóspito, literalmente no meio do nada. Não tem como fazer a poção.

- Logo o bebe irá nascer e estamos escondidos aqui no nada.

- Não se preocupe com isso querido. – Disse a mulher sorrindo e se levantando com dificuldade. – A senhora Weasley vem para cá hoje e ficará aqui até o bebê nascer.

O copo de Whisky que Snape estava tomando bateu com força na mesa ao lado.

- Não era isso que eu queria para o nascimento de nosso filho, tê-lo aqui nessa casa velha e com uma mulher que nem ao menos é enfermeira.

- Mas que já teve sete filhos e sabe o que fazer. Infelizmente é o que temos Severus. Vold... esqueci que o nome é um tabu agora. Você-Sabe-Quem ainda está atrás de mim, ainda mais agora que sabe que estou grávida de você. Ele me quer, assim poderá se vingar de Daniel e de você de uma única vez.

- Acha que não sei disso?

- Claro que sabe e é por isso que concordou com a Ordem e veio para cá comigo e Riley. Nós teremos esse bebê e tudo ficará bem.

- Tudo ficará bem, minha querida, é só respirar.

- Estou respirando.

Snape andava de um lado para o outro no corredor, conseguia ouvir nitidamente os gritos da mulher dentro do pequeno quarto. Era aterrorizante ficar ali apenas esperando sem poder fazer nada além de se desesperar.

- Severus. – Chamou a senhora Weasley da porta do quarto, seus cabelos estavam grudados na testa de tanto suor.

- Quanto tempo mais vai demorar? – Perguntou demonstrando claramente seu desespero.

- Não é uma poção que tem o tempo certo para ficar pronta, Severus, a criança virá ao mundo na hora que tiver que vir.

- Ora essa, sua mulherzinha...

- Mulherzinha que está fazendo o parto da sua esposa. É melhor se acalmar, Severus, não vai ajudar ficando nervoso desse jeito. – A senhora Weasley mostrava claramente como conseguira cuidar de uma casa com sete crianças e um esposo, Snape engoliu as injurias e apenas escutou. – Preciso que me traga um pouco de essência de morstigo e mais toalhas limpas.

- Está bem. Riley, venha comigo.

A menina que estava sentada no chão levantou-se e seguiu Snape até o porão onde ele guardava os poucos ingredientes que tinha. Sentou-se em um banco e observou o homem procurando o ingrediente pedido e preparando a essência.

- Mamãe ficará bem?

- Sim, ela ficará muito bem.

- Quando que o bebê vai nascer?

- Logo. Está ansiosa?

- Não sei. Só quero que a mamãe fique bem.

- Ela ficará, todos nós ficaremos.

Riley assentiu e permaneceu calada o restante do tempo, mesmo tendo voltado para perto do quarto onde sua mãe gritava devido as contrações. No fundo queria sentir-se feliz pela chegada do irmão ou irmã, mas por algum motivo não conseguia. Dentro de si sentia-se dividida entre o amor pela família e o ciúme pela vinda do bebê. Harry desaparecera e seus pais agora estavam preocupados unicamente com a chegada daquela criança. Ela, por mais que tentasse pensar o contrário, era muitas vezes ignorada e deixada sozinha em seu quarto que agora era um cubículo com uma cama velha e um armário pequeno. Sua única companhia era Almofadinhas que estava sempre ao seu lado. Cuidava dele conforme Harry pedira. Mas um cachorro comum, por mais amável e adorável que fosse, não suprimia a falta que sentia da atenção de sua mãe.

Talvez devesse fazer o que Harry tinha dito e parar de ser um bebezinho como aquele que berrava dentro do quarto.

Snape entrou assim que ouviu o choro do bebê. Viu Vany em cima da cama, estava suada e respirava com dificuldades, mas tinha um sorriso grande no rosto como se não pudesse estar mais feliz na vida, mesmo estando fraca daquele jeito.

- Nasceu, Severus, nosso filho, nasceu.

- Um menino?

- Sim, um meninão. Olha.

Vany mostrou o pequeno embrulho em seus braços, ali dentro estava a pequena criatura que por nove meses deixou a todos felizes e preocupados. Era pequeno, enrugado e feio, como toda criança deve ser ao nascer, mas era lindo em todo o seu esplendor.

- Parabéns papai e mamãe. – Disse a senhora Weasley sorrindo enquanto limpava o quarto. – Parabéns, querida, seu irmãozinho é lindo, não acha?

- É sim. – Respondeu Riley.

- Ah, não. Cachorro perto do bebê recém-nascido não. Fora! – Ralhou a senhora Weasley saindo com Almofadinhas.

- Vem aqui filha. – Chamou Vany estendendo a mão. – Vem ver seu irmãozinho.

Riley se aproximou aos poucos e devagar. Se sentou ao lado de Snape na cama e sentiu seu braço em suas costas a abraçando carinhosamente como fizera algumas vezes, principalmente ao leva-la para a cama de noite quando dormia no tapete ou no sofá. Sua mãe a olhou com brilho nos olhos, estava tão feliz e queria compartilhar consigo a felicidade. Naquele momento em que o bebezinho mexia-se entre o cobertor, com olhinhos fechados e mãozinhas tão pequeninas não havia no coração de Riley os sentimentos ruins que vinha sentindo. Naquele momento ela estava feliz.

Naquele momento.

Mas momentos passam rápidos demais, vem como uma chuva fina que cai do céu sem nenhum aviso, algo bonito e singelo que molha as folhas e flores, que rega os jardins da vida e faz aparecer um arco-íris nos sorrisos, mas tão rápido quanto aparece ela piora e transforma-se em uma tormenta, um temporal que destrói e mata. Um temporal sem fim. O temporal chegou e Snape soube dele pelo patrono de Kingsley que iluminou a casinha humilde onde Riley lia no chão junto com Almofadinhas e Vany fazia o pequeno Daniel de quase três meses dormir.

"A guerra foi declarada, todos estão vindo. Ele está em Hogwarts."