Capítulo 50 – O fim – Parte 2

"Ele está em Hogwarts"

O patrono em forma de lince já se dissipara, sua branca fumaça espalhava-se pelo ar sumindo em meio as partículas de pó e vida daquela casinha. Respirações fortes e profundas foram dadas, perguntas perdidas em meio ao medo e as dúvidas. A mulher estava diante de si, olhando em seus olhos e perguntando alguma coisa, mas sua voz não chegava até seus ouvidos, a criança em seu colo o olhava com curiosidade, pequeno, com cabelos negros e lisos contrastando com sua pele alva e seus olhos azuis feito o mar. Ao lado, a menina que crescera alguns centímetros desde quando a viu pela primeira vez, com cabelos loiros e cacheados iguais aos da mãe, ela também perguntava algo enquanto o cachorro latia e abanava o rabo na expectativa de alguma coisa interessante.

Snape podia ver todos esses detalhes e até mais como a luz da lua que entrava pelas mínimas frestas entre a porta e o batente. O tremor suave do chão enquanto Vany caminhava na sua frente de um lado para o outro, hora falando com ele, hora consigo mesma. Conseguia entender as expressões dos presentes, até mesmo do bebê ou do cachorro, mas o que ele não conseguia era arquivar o que falavam, pois as vozes, provavelmente altas e temerosas, eram simplesmente ignoradas e a única voz que ainda reverberava por sua mente era a grossa e baixa de Kingsley.

"Ele está em Hogwarts"

- Ele está em Hogwarts.

Fora a única coisa que Snape dissera antes de sair disparada para dentro do mínimo quarto que dividia com Vany. A veela entregou a criança para Riley segurar por alguns instantes. A menina tentou protestar, mas a mãe não lhe deu atenção indo atrás de seu marido.

- O que está fazendo?

Snape não lhe respondeu, apenas continuou tirando de dentro do baú aberto uma antiga veste negra que há muitos meses não usava. Separou em cima da cama com lençóis brancos a bota grossa, a calça negra e gasta, o sobretudo de couro e pôr fim a capa negra e esvoaçante que por muitas noites fora o manto de seus pesadelos e o acalanto de seus medos. Suas mãos esbarraram-se na máscara prateada, seus dedos a puxaram para fora com um certo cuidado. Era uma lembrança antiga da qual deveria ter se livrado quando sua marca desaparecera de seu braço, mas não conseguiu visto que aquele pedaço de metal, coberto de riscos e manchas de sangue velho, era uma parte do seu ser, antigo, mas seu. Passou o dedo com delicadeza em cada marca feita, um risco para cada pecado. Não queria contar quantos riscos tinha ali. Por um único momento fechou os olhos e trouxe a máscara para perto de seu peito, não queria lembrar-se dos momentos de crueldade que compartilhara com ela, aqueles em que seu rosto ficara escondido e protegido enquanto os inocentes pediam por proteção. O que necessitava naquele momento era apenas da força daquele ser que estava dentro de si, adormecido. Aquele comensal calculista e frio. Precisava da força dele, pois a guerra fora iniciada e ele estava prestes a caminhar em direção a ela.

- Severus. – Chamou Vany baixinho.

Devagar e com a máscara ainda em suas mãos, segura contra o peito, o homem se virou e encarou o rosto da mulher. Pensou ver ali o desespero de uma esposa e mãe, os gritos calados do medo da perda, mas quando tocou de leve a bochecha rosada e aprofundou-se nos claros olhos dela a única coisa que viu foi a cena em seu laboratório da casa da Rua da Fiação. Assistiu novamente o quanto sua vulnerabilidade o deixara fraco e como Vany o erguera com sua confiança. Ouviu as palavras claras daquela que o aceitava como um ser único e imperfeito.

- Lembra o que te pedi para fazer antes de ir para a guerra?

Como poderia esquecer? Não haveria nada no mundo que um dia o fizesse esquecer do que prometera àquela mulher. Cumprindo sua palavra, Snape sentiu a máscara finalmente se dissolver em fumaça entre seus dedos enquanto seus lábios tocavam os dela sentindo o gosto doce do mel. As mãos então livres apressaram-se a rodear-lhe a cintura e puxar-lhe para cima em um aperto forte e saudoso. Enquanto suas línguas bailavam entre si e as mãos tentavam tocar cada centímetro de pele que podiam, Snape tentava não pensar que aquele poderia ser o último beijo, não queria deixar Vany com o gosto de despedida e sim com o doce sabor da esperança. Ele voltaria para ela, em algum momento, naquela vida ou em outra, talvez até mesmo em outro mundo ou dimensão, ele voltaria para ela, para seus quentes braços e leve sorriso.

- Não deveria usar seu charme de veela em um homem prestes a ir para a guerra. – Sussurrou Snape em seu ouvido ainda a apertando contra o corpo.

- Não estou usando.

- Eu sei.

A velha piada do charme da veela. Snape sempre lhe dizia isso quando lhe via e Vany sempre sorria quando respondia que não estava usando, pois sabia que a resposta era a mesma "Eu sei". E ele sabia, pois ao não usar o charme de veela com o mestre de poções, permitiu que um homem visse como era uma veela de verdade. Apenas uma mulher, bonita, mas comum, com algumas pequenas rugas de preocupação, o cabelo mais natural, a pele um pouco mais pálida e algumas sardas nos ombros e nas maçãs do rosto. A única coisa imutável eram os olhos claros mudando de cor conforme seu humor. Snape amava a simples mulher e era essa mulher que ele terminava de beijar colocando no chão com cuidado, percebendo que estava então vestido com suas vestes negras.

- Estranho.

- O que? – Perguntou Snape.

- Nada. – Respondeu Vany espalmando as mãos no peito firme de Snape. – É que quando eu te conheci você só vestia roupas pretas, no caso as vestes da escola. Mas depois me acostumei a te ver usando camisas brancas. É estranho te ver todo de preto de novo.

- Quando eu voltar ficarei só de camisa branca para você.

- Espero que não queira morrer naquela guerra então senhor Snape, pois sempre cobro as promessas feitas a mim.

- Fique aqui.

Vany apenas assentiu e deixou suas mãos caírem dos ombros dele diretamente para o vazio do quarto. Snape rodopiara sobre os calcanhares esvoaçando sua capa enquanto marchava a passos firmes para fora de lá. A menina sentada no sofá apenas levantou o olhar e por um instante viu a dor nos olhos negros do homem que não parou para se despedir. Não havia espaço para as dúvidas dentro de Snape, se parasse para falar com Riley ou beijar o topo da cabeça de Daniel, talvez fosse seu fim.

- Mamãe, o que está acontecendo?

- Nada querida. Severus voltará logo.

- Mamãe! – A voz alta de Riley chamou a atenção de Vany que a olhou com surpresa. A menina continuava segurando Daniel com cuidado. – O Harry estava certo, eu não sou mais uma criancinha. Quero saber o que está acontecendo e quero saber agora!

- Harry, onde está indo? – Gritou Hermione enquanto tentava passar por entre os vários alunos que corriam pelos corredores.

- Preciso falar com a mulher cinzenta, Luna disse que ela fica lá embaixo, próximo aos armários da cozinha. – Gritou Harry de volta.

- Espera Harry, precisamos te falar uma coisa. – Dessa vez foi a voz que Rony que se sobressaiu a todas as outras, ainda assim Harry não parecia querer dar atenção a nenhum deles até que Rony o pegou pelo braço arrastando-o até uma sala vazia.

- Me larguem, não tenho tempo para besteiras.

- Cala a boca Harry! – Disse Rony com o rosto vermelho. – Escuta! Durante todos esses meses te seguimos fielmente, mesmo depois que vimos você agir completamente estranho.

- Foi o colar de ...

- Não foi o colar, sabe que não foi. Alguma coisa dentro de você mudou e eu sei que pode ser culpa dessa guerra e toda essa loucura, mas não dá mais para você querer ditar as ordens sem nem mesmo nos ouvir.

- Do que está falando, Rony? Eu ouvi vocês o tempo todo, eu aceitei muitas ideias de vocês, ir procurar o pai da Luna por exemplo.

- Não é isso que o Rony quer dizer Harry. – Disse Hermione se aproximando. – Em todas as vezes que dávamos uma ideia ou sugeríamos alguma coisa você simplesmente não dava a mínima atenção, isso quando não era um idiota ignorante com a gente, como se querer salvar o mundo fosse algo que só você quisesse fazer. As vezes que nos ouviu foi quando algo interessava você também. Ir até Xenófilo só foi aceito por você porque queria saber mais sobre as relíquias.

- Olhem! Eu não sei o que os dois estão querendo, mas eu não tenho tempo, Voldemort está aqui e os comensais estão me caçando, matando os outros.

- Nós sabemos cara, mas queremos que agora confie na gente. Precisamos nos separar. Eu e Hermione lembramos de uma coisa importante e temos que ir procurar. Dentes de basilisco, precisamos ir até a câmara secreta ver se conseguimos algumas presas com veneno. Você ficará sozinho, mas tem que nos encontrar depois, não conseguirá terminar isso sem a gente. Entendeu?

- Tá eu entendi, agora me solta. – Rony afastou as mãos do menino e se afastou olhando para Harry de forma penosa. – Espero que no fim disso tudo você volte a ser o velho Harry.

- O Harry fraco?

- Não, o Harry com alma.

Rony e Hermione saíram da sala e misturaram-se a multidão, Harry nem ao menos conseguia ver os cabelos ruivos do amigo ou os volumosos da amiga, sua mente agora ficava processando o que Rony dissera. Eles não entendiam, o que fazia, o que estava acontecendo consigo era para o bem deles. Se não fosse forte o suficiente para derrotar Voldemort todos morreriam, inclusive eles. E daí se o uso de Magia Negra custava coisas como sua alma? No fim não haveria nada para ele, perderia tudo, sua vida seria sacrificada por eles, então por que se importar? Mas ainda assim se importou e o mínimo segundo que levou para sentir o arrependimento foi o suficiente para derrubá-lo de joelhos no chão enquanto os olhos azuis de Tia Petúnia reverberavam em sua íris. Ele a matara, a matara, a matara.

- Não. Ela mereceu, ela mereceu! – Rosnou Harry entre dentes apertando os olhos até doeram e a imagem sumir. – Não posso ser fraco. Não posso.

Harry cambaleou pelo corredor até conseguir afastar esses pensamentos e se colocar a correr descendo as escadas rumo a cozinha, nem mesmo reparou no par de olhos cinza o observando.

- Então, essa guerra é por minha culpa?

- Oh, Riley, não. É claro que não.

- Mas Você-Sabe-Quem me quer por causa do que papai fez e vai punir Severus por isso.

- Entenda, meu amor, essa guerra está travada muito antes do seu pai. Daniel fez o que podia para impedir que aquele homem se tornasse o que é hoje, mas infelizmente não conseguiu e agora Harry e Severus estão tentando completar a tarefa do seu pai.

- Ele voltará?

- Não sei. Eu não sei de nada, Riley. – Respondeu Vany olhando pela janela da sala a lua no alto. Severus saíra há duas horas. Pelo que sabia ele poderia estar morto naquele exato momento. – Preciso ir até lá.

Vany foi até o quarto e abriu um velho baú que sempre carregava consigo, ao abri-lo viu diversas vestes lindas que herdara de sua família, eram vestidos caros feitos para festas requintadas. Vany sempre odiou aquelas roupas, mas elas serviam para esconder o verdadeiro proposito de sua busca. Do fundo retirou um pacote preto, fechado com um laço prata. Dentro havia uma veste de um tom vinho. Ao terminar de vestir olhou-se no espelho e se surpreendeu com a imagem. Estava linda e se possível, poderosa. Toda a roupa fora feita por uma veela anciã, os tecidos eram resistentes e firmes, encaixavam corretamente em seu corpo não deixando espaço para desconforto. Não era nada demais, uma calça, um colete e um sobretudo. Era simplesmente lindo. Antes de guardar a varinha fez um feitiço que deixou seus louros cabelos devidamente arrumados em um rabo de cavalo trançado.

- Mamãe, não pode ir.

- Preciso ir ajudar, não posso ficar aqui.

- Se for, vai se machucar ou alguém será machucado, usará a cura e isso diminuirá sua vida. Você já está em 67.

- Eu sei, meu amor, calma. Riley, por favor, não chora.

- Não quero te perder mamãe.

- Não vai perder, meu amor. Não vai. Eu prometo que voltarei para você, eu e Severus.

- Por que precisa ir?

- Quando você ficar mais velha, encontrar alguém para amar e tiver filhos então entenderá porque não posso apenas ficar aqui esperando que a guerra acabe. Deixar a decisão do futuro de vocês nas mãos de outro.

- E nós ficaremos aqui?

- Sim. Cuide de Daniel. A casa está protegida e ninguém sabe que estamos aqui. Vá para o quarto e fique lá, leve Almofadinhas com você.

- Mas e se algo acontecer?

- Nada irá acontecer, mas caso aconteça então você pega a velha varinha da mamãe, pega sua escova de dente e diz "Portus". Sua escova é uma chave de portal, é só ativá-la e pensar onde você quer ir para ficar segura como por exemplo o chalé de contas onde a Senhora Weasley te levou uma vez para ver o Gui e a Fleur. Mas só use se realmente acontecer alguma coisa.

- Está bem.

- Agora pegue seu irmão e vá para seu quarto. Eu deixarei a casa trancada e reforçarei os feitiços para que ninguém entre. Logo logo estaremos juntas de novo.

Riley obedeceu e junto com Daniel e Almofadinhas a menina foi para seu quarto segurando a varinha velha da mãe e sua escova de dente. Vany respirou fundo e contou até cinco para se estabilizar, então virou e foi embora sem nem mesmo perceber o movimento do arbusto perto do ponto de desaparatação.

Assim que seus pés tocaram o chão a saudade o invadiu. Poderia negar a qualquer um que perguntasse, mas não para si mesmo que Hogwarts sempre fora o seu lar, assim como para todas as outras crianças que como ele o tiveram em suas casas e com suas famílias. Ver o céu estrelado velando o castelo, as árvores diversas da Floresta Negra balançando com o vento forte, o negror da água brilhante do lago e o cheiro de magia que somente Hogwarts tinha. Deixou-se sentir aquela saudade por mais alguns minutos, estava sozinho naquela campina, não precisava mentir ou fingir. Foi com a mente aberta e a saudade ribombando no peito que marchou até o alto da campina, no meio do lago negro e ajoelhou-se ao lado do jazigo de mármore branco.

Os últimos eventos ao lado do ex diretor foram um tanto quanto cruéis. Ter que conviver com as mentiras, falsidades, segredos e planos da única pessoa que sempre esteve ao seu lado, apoiando e erguendo quando a queda era iminente, não era algo fácil ou indolor. Doeu vê-lo morrer e ainda doía olhar para seu corpo naquela cova recém aberta.

Como desejava que ele estivesse vivo, que suas pálpebras abrissem e seus olhos azuis olhassem para si lendo todas as linhas de seu rosto e sabendo exatamente o que deveria ser dito. As palavras sempre foram uma arma poderosa para Dumbledore, ele sabia usá-las tão bem quanto usava sua varinha. Muitas noites foram passadas ao lado do homem, ouvindo seus conselhos, sermões e divagações. Sentia vergonha por isso, mas já até dormira enquanto ouvia Dumbledore ler um livro em voz alta. Ah, como sentia falta daquela voz, do sorriso singelo atrás da barba branca, da mão em seu ombro direcionando-o para o caminho certo.

- Ah, Dumbledore, meu velho.

O suspiro se perdeu no ar. Um clarão subiu ao céu. A guerra continuava, precisava ir. Como um último adeus, arrumou as mãos velhas em cima do peito, ajeitou o cabelo e a barba branca, acariciou de leve e rapidamente a bochecha gelada e refez o jazigo.

- Adeus.

Snape deu as costas para Dumbledore e desceu a colina até a beirada do lago negro e assim como foi ensinado pelo mestre, antes de desertar de sua posição, flexionou levemente os joelhos, segurou firme a varinha e recitou o encantamento curto que o fez subir ao céu. Quem o visse poderia jurar ser um morcego devido sua capa negra, mas era unicamente Snape, voando sobre o lago negro em direção ao castelo, aterrissando ao lado de Kingsley e Remus.

- Pensei que nunca viria. – Comentou Kingsley, sua roupa exótica estava suja e amarrotada.

- Qual é a situação?

- Guerra, essa é a situação. – Zombou Remus girando os olhos e jogando as mãos para o alto. – Os comensais invadiram a escola, estamos conseguindo segurar a maioria na entrada, mas alguns conseguiram entrar.

- Onde está o Harry?

- Não sabemos, viemos assim que disseram que ele estava aqui, mas logo depois ele sumiu junto com Rony e Hermione. Ei, espere. Snape!

Seus olhos estavam atentos enquanto corria pela escola gritando o nome de Harry. Passou por alunos desesperados correndo de um lado para o outro, destroços espalhados e corpos inertes no chão, até acertara alguns comensais no caminho.

- Espera, Snape! Não me mate.

- Marcus?

- É, fui convocado também. Para o Lord não há lado neutro, tive que vir. Severus, preciso saber se nosso acordo está de pé. – Os olhos de Marcus eram suplicantes. – Me ajude a matá-lo, preciso dar um futuro para minha irmã. Por favor, me ajude.

- Está bem, mas preciso que me dê informações do Lord. Você é do ciclo dele, descubra onde ele está e me informe.

- Como? Não posso realizar um Patrono.

- Com isso. – Disse Snape mostrando um galeão ao homem que claramente não entendeu. – Dá para mandar mensagem, descubra onde ele está e escreva na moeda, eu receberei.

- Ok, consigo fazer isso.

- Mais uma coisa, você viu Harry Potter?

- Sim, ele subiu correndo as escadas, acho que o ouvi gritar que tinha que ir até a Sala Precisa, mas não sei onde é essa sala.

Snape olhou para cima vendo a quantidade de degraus e sem falar nada começou a subir correndo. Sentia os músculos arderem, mas continuava. Precisava chegar até Harry e garantir que estava bem.

O castelo estava em colapso, as paredes caiam aos seus pés, os escombros levantavam a poeira cinza igual seus olhos.

- Tem certeza disso, Draco?

- Claro que sim Crabbe, tenho algo a fazer, uma ordem do Lord. – Disse Draco olhando para o menino de cabelos negros que se aproximava da parede no final do corredor. Não se preocupava em mentir bem, Crabbe era burro, não conseguiria perceber a nuance que diferenciava a verdade da mentira. – Vamos.

A Sala Precisa estava repleta de bugigangas antigas, muitas das quais teve que conviver nos meses em que preparava o armário sumidouro para a entrada de comensais da morte no castelo. Aquelas lembranças ainda o castigavam, pois os resultados foram devastadores, talvez piores do que poderia ter imaginado quando ingressou no ciclo de comensais.

O silêncio era devastador, tudo estava quieto, nem mesmo o barulho irritante das pequenas criaturas escondidas nos recantos escuros e abafados. Fez um sinal para que os companheiros não fizessem barulho enquanto deveriam segui-lo pelos corredores. Caminhou devagar, varinha em riste, olhos atentos. Potter estava ali, por mais que não o visse e nem o ouvisse, conseguia senti-lo em sua pele. E não estava errado. Sentiu um cutucão em suas costas ao ver o menino logo a frente. Ergueu a varinha apontando para as omoplatas do moreno.

- Ora, ora, o que encontramos aqui.

Harry largou o objeto que estava segurando assim que ouviu a voz atrás de si. Por mais que tentasse não se apegar a esses momentos enquanto estava correndo contra o tempo, não pode evitar se lembrar dos doces momentos que vivera com o loiro dentro daquela mesma sala, mas com um ambiente diferente, um ambiente só deles.

- Quem diria que encontraria você aqui, Draco. Pensei que não te veria mais depois do último encontro.

Draco apertou os dedos contra a varinha e sentiu-a tremer. O fatídico dia em que Harry fora preso pelos sequestradores e levado até a mansão Malfoy. Aqueles minutos em que ficara ajoelhado diante de Harry, olhando para seu rosto desfigurado pelo feitiço da Granger e, o que era mais estranho e cruel encarar aqueles olhos escuros, sabendo que eram dele e não o encontrando ali. Harry estava muito diferente, alguma coisa havia mudado em si, alguma coisa dentro dele. Não havia mais luz, havia apenas névoa.

- Vim buscar algo que é meu.

- Ah, claro, sua varinha. – Disse Harry mostrando a varinha de Draco rodando pelos seus dedos. – Por que não vem buscar?

- Pega logo ele, Draco. – Disse Crabbe rosnando em seu cangote.

- É Draco, por que não vem pegar logo?

Os nervos de Draco estavam a flor da pele, por um lado tinha que manter seu disfarce de comensal que seguia a ordem do Lord e segundo as ordens dele tinha que levar Harry imediatamente para o ponto de encontro, sem mata-lo. Mas por outro lado tinha os sentimentos gritantes dentro de seu peito que superavam qualquer tentativa de oclumência. Só havia uma coisa a fazer. Respirou fundo, juntou coragem e gritou com força.

- Estupefaça!

Almofadinhas bocejou e se arrumou no tapete pronto para tirar uma soneca enquanto Riley comia uma maçã e olhava Daniel no berço que a mãe colocara em seu quarto antes de sair. O bebê estava acordado e mexendo os bracinhos enquanto olhava para o enfeite balançando acima. Não sabia ao certo quanto tempo havia passado, mas parecia uma eternidade sem notícias. Talvez devesse descansar também, quem sabe se dormisse um pouco conseguisse fazer o tempo passar mais rápido. Cuidadosamente arrumou a cama, verificou se a janela estava fechada e deu uma última olhada no bebê que estava devidamente seguro com os feitiços de segurança que a mãe colocara no berço. Agora era só deitar e tentar dormir um pouco, se tivesse algum problema Almofadinhas daria o alarme.

Riley se deitou deixando a varinha embaixo do travesseiro, ficou apenas deitada esperando o sono chegar. Seus olhos azuis fechavam-se devagar, o sono estava quase a abraçando. Foi então que aconteceu.

Almofadinhas se ergueu em menos de um segundo, suas orelhas erguidas e apontadas para o céu, seus dentes amostra e sua postura dura e rígida. Um rosnado saiu de sua garganta ao mesmo tempo que Riley apontava a varinha de sua mãe para a porta do quarto.

- Ninguém pode entrar aqui, Almofadinhas, ninguém. Está protegido com o Feitiço Fidelius. Ninguém pode entrar aqui.

- Olá mocinha! Sabemos que está ai dentro e que está sozinha.

Riley deu um pulo quando a voz propagada por magia reverberou pela casa. Alguém estava ali fora e sabia que ela estava ali dentro. Almofadinhas latiu ao seu lado, Daniel chorou com o barulho.

- Não podemos entrar devido o feitiço, mas acredito que sabe disso, então que tal você vir aqui fora para podermos conversar? Tem alguém que quer muito te conhecer, você e seu irmãozinho.

Riley não se mexeu, apenas se aproximou do berço e colocou a mão no bracinho do bebe tentando fazê-lo parar de chorar. A varinha quase escorregava de suas mãos suadas. Chamou Almofadinhas para perto e estava pronta para fazer o feitiço do portal para ir embora dali, mas no último instante aquele que estava lá fora jogou sua moeda de valor para o alto fazendo-a paralisar.

- Estamos com seus pais. Temos os dois presos conosco. Prometemos soltá-los se vier aqui fora. Você escolhe. Te damos cinco segundos.

Cinco segundos.

Apenas cinco segundos para decidir entre sua própria vida e a de seus pais.

Quatro segundos.

Olhou para Daniel e viu a mesma tonalidade de azul que via muitas vezes em sua mãe quando ela lhe dizia que a amava.

Três segundos.

Teria coragem de não fazer nada e apenas saber que eles morreriam?

Dois segundos.

"Não seja uma criancinha, faça o que deve ser feito". A voz de Harry era gritante em sua mente.

Um segundo.

Fechou a mão firmemente na varinha e respirou fundo.

- Acabou o tempo garota. – Gritou o comensal. – Ou você sai agora ou matamos seus pais.

Um segundo de silêncio e expectativa, para então vir o som da porta se abrindo. Do meio do nada na paisagem obscura apareceu a menina loira carregando um embrulho nos braços. Atrás de si uma luz apareceu de relance.

- O que era aquilo? - Perguntou alguém no meio da neblina.

- Não era nada. – Respondeu Riley corajosamente. – Eu é que sou importante, estou aqui, apareça.

Então o comensal apareceu com suas vestes pesadas, botas negras e sorriso amarelado.

- Até que não foi difícil. Pensei que eu teria que argumentar mais com você, fazer mais ameaças aos seus pais, mas olha só você aqui. Prazer, garotinha, sou Rodolphus Lestrange.

- Não tenho prazer em te conhecer, quero ver meus pais.

- Claro que quer. Eu te levo até eles.

Riley sabia que não deveria confiar naquele homem, mas não havia muito o que pudesse fazer. Tinha que seguir seus instintos e conseguir manter sua mãe viva, por isso deu dois passos a frente onde o homem a esperava de braços abertos. Sentiu a mão pesada em seu ombro dando-lhe arrepios. Abraçou melhor Daniel em seus braços e rezou para que a chave de portal entregue para Almofadinhas antes de sair tenha dado certo e a família Weasley possa receber seu bilhete informando que fora pega pelos comensais.

- Vamos então.

O mundo rodopiou quando Rodolphus desaparatou com Riley diretamente para a Floresta Negra. Quando seus pés tocaram o chão Riley pensou que vomitaria, mas o peso de Daniel em seus braços a fez se equilibrar e manter-se firme. Respirou fundo olhando para baixo, seus sapatos estavam imundos. Podia até mesmo ouvir a voz áspera de Severus ralhando por ter se metido com terra novamente e se sujado inteira. Ah, se ele a visse ali ficaria louco assim como sua mãe. Mas pelo que podia ver ao levantar os olhos para a clareira era que não havia sinal algum de Severus ou de Vany. Talvez estivessem escondidos ou, o que era mais provável, fora terrivelmente enganada.

- Ora, ora, ora, quem estou vendo aqui. O pequeno fruto do traidor do Daniel e o minúsculo fruto do traidor Severus. Dois inimigos que serão destruídos ainda hoje e de boa vontade.

A voz asmática e arrastada, porém não menos letal, chegou aos ouvidos de Riley como uma lixa rasgando sua pele. Engoliu em seco ao vê-lo se aproximar. Era alto e magro, uma pele tão pálida quanto a de um fantasma e assim como tal, flutuava no chão sem nem mesmo espalhar as folhas secas e vermelhas que haviam caído da arvore velha. Sentiu a onda de poder antes mesmo de conseguir ver os olhos vermelhos. Sua pele arrepiou, seus músculos tremeram e seus olhos começaram a arder. Jamais havia sentido tamanha magia, era algo inimaginável para si. Daniel começou a chorar, seu coraçãozinho batendo forte contra o peito, os pulmões fazendo força para expulsar todo o ar em meio as lágrimas.

- Não se aproxime. – Disse Riley corajosamente observando os olhos reptilianos. – Está assustando ele.

- Ah, mas que grosseria a minha fazer com que esse lindo bebê chore. Narcisa!

- Sim, milorde? – Respondeu a mulher ao seu lado esquerdo. Riley percebeu que ela já fora bonita um dia, talvez uma dama da alta sociedade, vaidosa e orgulhosa de seus dotes, mas que naquele momento não passava de uma mártir que tentava se aguentar como podia. A mulher se aproximou de cabeça baixa e com as mãos nervosas esfregando-se.

- Leve a criança chorona, quero conversar com essa garota impertinente antes de qualquer coisa.

- Não! – Gritou Riley tentando segurar Daniel com um braço e erguer a varinha com a outra, mas descobrindo que era fraca demais para isso, ou derrubava o bebê, ou largava a varinha.

- Não seja tola, menina! Não vou machucá-lo, preciso dele e de você para me vingar de seus "pais".

Riley ouviu as palavras saindo da boca sem lábios dele e no fundo sabia que era verdade, o corpo morto de Daniel ou mesmo o seu não teriam valor, não para Voldemort. Sabia, pelo que ouvia seus pais conversarem quando pensavam que estava dormindo, que aquele bruxo era inteligente o suficiente para saber usar os artifícios a seu favor. Ele tentaria atingir seus pais da forma mais brutal possível, só não sabia como seria isso.

- Vejo algo interessante em você garota. – Disse Voldemort se aproximando o suficiente para estender o braço e agarrar o queixo de Riley com a mão gelada e áspera. – Vejo sentimentos confusos. – Os olhos vermelhos eram intensos e afiados, pareciam vidrados. – Ah, pobre garotinha. Acho que precisamos conversar, temos muito o que discutir.

- Não tenho nada para discutir com você.

- Tenho certeza que tem.

Voldemort aproximou-se estendendo a mão pálida e esquelética em sua direção. Riley olhou diretamente para os olhos dele e então, como hipnotizada pelas fendas que continham os olhos de rubis, deu um passo adiante. Nem ao menos percebera que Narcisa já estava com Daniel em seu colo e o balançava docemente nos braços fazendo-o calar-se. Sua respiração estava rápida e sua pele gelada, sua mente começava a cansar, queria dormir.

- Venha comigo minha querida, venha com o Lord. – Disse Voldemort baixinho enquanto a sentia desfalecer aos poucos em seus braços. Riley estava quase inconsciente quando ouviu o urro do meio gigante no fundo da clareira.

- Não! Riley, não faça isso.

- Sim, Riley, faça isso, venha com o Lord. – Voldemort sorriu ao ouvir as últimas palavras saídas da boca

- Sim, milorde.

Snape estava impaciente, olhava para a parede com fúria, queria destruí-la, quebrar cada pedaço de pedra que a formava e invadir aquele lugar atrás de Harry, mas sabia que isso não adiantaria em nada. A Sala Precisa era uma das mais carregadas com magia e por isso uma das mais difíceis de invadir. Talvez se tentasse alguma coisa Harry pudesse ficar preso para toda a vida lá dentro. Por isso se conteve a apenas esperar andando de um lado para o outro naquele corredor, matar alguns comensais que passavam por ali e se surpreendiam com sua imagem e rosnar para alunos idiotas que tremiam de medo ao lhe ver.

O tempo parecia não passar, mesmo que soubesse que ele estava passando mais rápido do que deveria e com ele passavam as vidas dos inocentes que lutavam andares abaixo. Sua varinha estava apertada em suas mãos, suor descia de seu rosto, mas caso alguém olhasse para si não veria mais do que o semblante de um homem calmo. Um semblante que fora terrivelmente abalado quando aquele arrepio gelado atingiu sua espinha. Sentiu que poderia cair a qualquer momento e apoiou-se na coluna de mármore ao lado.

- Severus!

A voz da mulher o distraiu apenas por um momento, assim que a viu correndo em sua direção soube que o arrepio era verdadeiro. O feitiço que colocara em Riley e Daniel se rompera, eles não estavam mais em casa, não estavam em segurança.

O corpo de Vany bateu com força contra o seu, o abraço era apertado e desesperado. A mulher afastou-se de si o suficiente para lhe beijar e ver que estava bem. Snape não respondeu as milhares de perguntas que ela fazia, não deu atenção aos seus olhos desesperados e nem mesmo as tentativas dela de tirá-lo dali. A única coisa que importava era a sensação em sua espinha, a quebra do feitiço e o destino de seus filhos.

- Severus o que foi?

- Por que você saiu de casa, Vany?

- Precisava vê-lo Severus, não consegui ficar lá e apenas aguardar para receber uma notícia sua.

- Riley...

- Está tudo bem, ela está em casa com Daniel e está protegida pelo feitiço Fidelius.

- Não...

- O que?

Outro chamado ao longe distraiu Severus e Vany, no fundo do corredor outra veela corria em sua direção. Fleur Delacour tinha o rosto manchado e arranhado, mas eram seus olhos que pareciam mais devastados.

- Snape! Você precisa ver isso. – Disse Fleur estendendo uma folha de papel dobrada de qualquer forma. - O cachorro me trouxe há poucos minutos.

Ele não precisava ver, já sabia o que era. Nem mesmo evitou que Vany estendesse a mão e pegasse o bilhete escrito em uma caligrafia infantil. A desesperança era visível nos negros olhos de Snape assim como o ódio mortal que o preenchia como lama em uma enchente.

- Não! – Gritou Vany olhando do bilhete para Snape. – Severus, não pode. Como? Não pode ser verdade.

- Mas é. – Disse Snape simplesmente. – O Lord das Trevas está com nossos filhos.