Naruto não me pertence, nem a história!
E como nos velhos tempos, não é? Hinata sorriu para a amiga, que a fitava com alegria quase infantil.
Tenten e ela haviam cursado a mesma escola, e tornaram-se amigas desde o primeiro dia de aula. Depois que os pais de Hinata morreram em um acidente de carro quando ela tinha apenas catorze anos, a amizade tornou-se ainda mais sólida.
Quando a tutela de Hinata foi assumida pela melhor amiga de sua mãe, uma adorável senhora chamada Kurenai, passaram a morar no mesmo bairro de classe média, nas imediações de Sidney. Durante as férias escolares, ela costumava dormir na casa de Tenten. Às vezes, ficava por muitos dias. Kurenai não se importava. Ao contrário, estimulava a saudável amizade. As garotas tornaram-se inseparáveis e compartilhavam os sonhos e expectativas do futuro, conversando até de madrugada, deitadas naquele mesmo quarto em que estavam naquele momento.
— É como se tivéssemos quinze anos novamente — Hinata comentou com um sorriso triste.
— Bem, você não parece ter quinze anos — Tenten censurou-a.
Avaliou a amiga, inconformada com a mudança que sofrerá. Hinata fora uma mulher maravilhosa, com cabelos longos e sedosos, olhos vivos e expressivos e uma silhueta que sempre fora motivo de inveja de todas as garotas do bairro.
Porém, a doença de Kurenai e os quatro anos de dedicação, cuidando da mãe adotiva, haviam sugado toda a vitalidade de sua amiga.
Embora tivesse recuperado alguns quilos e, quando sorria, fosse possível vislumbrar um relance da beleza vibrante que ela tivera, Hinata era uma simples sombra da mulher que fora um dia.
Tenten, ao contrário, nunca estivera tão bem. Estava apaixonada, mais feliz do que nunca e, para completar, estava grávida.
Ela contemplou a amiga com ternura. Talvez no dia seguinte, na festa de seu casamento, Hinata se deixasse contagiar pela alegria e ficasse feliz.
— Prometa que vai deixar que eu cuide de seus cabelos e maquiagem amanhã — Tenten insistiu, segurando as mãos da amiga. — Cabelos negro azulados vão combinar muito mais com seu vestido azul-turquesa. E vamos cortá-los na altura dos ombros. Nada de cabelos presos, por favor! Lee acha horrível mulheres que prendem os cabelos. Vamos fazer uma boa maquiagem também, e não quero ouvir um não!
— Farei tudo que você quiser — Hinata suspirou, resignada. — Afinal, é seu casamento. Mas quero uma tintura temporária. Não posso ir trabalhar com os cabelos tingidos de negro-azulados na segunda-feira.
— Por que não?
— Você sabe por quê. Uma das razões de Sasuke me contratar como sua assistente pessoal foi minha aparência, exatamente oposta à de minha predecessora. Mikoto nos falou sobre ela, lembra-se?
— Não acho que a cor dos cabelos represente uma ameaça — Tenten comentou, voltando os olhos para o teto.
— Talvez não, mas não quero me arriscar. Adoro meu trabalho, Tenten. Não quero fazer nada que o coloque em risco.
— Bem, a julgar pelos boatos que correm sobre Sasuke Uchiha, acho que tem razão. Há muitos comentários sobre sua recente separação... — Tenten recostou-se na cabeceira da cama, com ar pensativo. — Começo a pensar que há um fundo de verdade no que se fala a respeito dele. Além de ter o apelido de Eremita, dizem que nunca fica satisfeito com o trabalho de suas secretárias.
— Talvez ele seja apenas um profissional exigente — Hinata tentou ponderar. — Afinal, um executivo de tanto prestígio precisa de uma assistente pessoal à sua altura.
— Não sei... Mikoto nos contou que, no último ano, ninguém conseguiu trabalhar com ele por mais de dois meses. Querida, um homem divorciado que não quer uma secretária atraente, ou é um neurótico grave, ou é gay.
— Ele não é neurótico. Aliás, tem sido muito gentil comigo.
— É mesmo? — Tenten a fitou, surpresa. — Você disse que ele mal a olhava, e que nunca haviam trocado mais que algumas palavras! E ficou arrasada quando ele se zangou com você, logo no primeiro dia de trabalho.
— Mas foi apenas porque cometi a estupidez de apagar um arquivo que levou seis horas para ser resgatado — Hinata disse de pronto, irritada consigo mesma por tentar defendê-lo. — Em geral, ele é equilibrado e profissional.
— Então, só nos resta considerar a hipótese de que seja gay. O que você acha? Será que a esposa o deixou por este motivo?
— Honestamente, não sei e não me importo. A vida particular de meu chefe não é da minha conta.
— Mas você disse qu ele é bonito... Tem certeza de que não está se sentindo nem um pouco atraída?
— Não! — Hinata quase gritou, sustentando o olhar penetrante sobre ela.
— Não acredito. Há pouco tempo você me disse que estava cansada de sua solidão. E aqui está você, trabalhando para um homem interessante, heterossexual, disponível... e está tentando me convencer de que não teve nenhuma fantasia erótica sobre ele?
Hinata não precisou responder. O olhar fulminante que endereçou à amiga bastou para dizer mais que mil palavras.
— Você está deprimida, Hina, mas não está morta. Sou sua melhor amiga, lembra-se? Sua confidente durante todos estes anos. Não me esqueci que você perdeu a virgindade com Naruto, aos vinte e dois anos, e nunca mais teve um namorado depois que ele rompeu o namoro. Entendo que esteja decepcionada com os homens, depois do que aquele miserável fez, mas...
— Ainda acredito em alguns homens — Hinata interrompeu-a. — Lee, por exemplo, é um homem digno de confiança.
— Bem, mas ele é o pai do meu filho e vai se tornar meu marido amanhã. Então, trate de esquecê-lo! — apressou-se a dizer, com bom humor. — Concordo com sua postura de evitar envolvimentos com seu chefe. Nesse tipo de situação, as mulheres sempre saem perdendo, além de perder o emprego. Você terá de encontrar outro homem disponível para satisfazer suas necessidades sexuais.
— Quem disse que tenho necessidades sexuais? — Indignada, Hinata cruzou os braços sobre o peito.
— E não tem?
— Claro que não! Acho que nunca tive necessidades desse tipo — ela comentou como se estivesse pensando em voz alta. — Sexo é apenas outra face da paixão. Perder minha virgindade não foi uma urgência sexual, e sim uma necessidade emocional. Eu amava Naruto.
— É possível ter sexo sem amor, Hina.
— Talvez para você, mas para mim é impossível. Se eu fosse para a cama com o primeiro homem que aparecesse depois que Kurenai morreu, seria apenas para suprir minha carência e solidão. Não posso fazer isto. Preciso estar apaixonada e, francamente, depois de minha experiência com Naruto, acho que perdi a capacidade de me apaixonar.
— Você está muito melhor sem aquele bastardo egoísta! — Tenten murmurou por entre os dentes. — Tenho certeza de que encontrará alguém quando menos esperar.
-— Você diz isto porque teve a sorte de conhecer Lee. Não faz muito tempo que sua opinião sobre os homens era muito diferente.
— É verdade. Passei a maior parte da minha juventude me apaixonando pelos homens errados. Mas, se tive tanta sorte, por que não poderá acontecer o mesmo com você?
— Estou feliz assim, Tenten. Gosto muito do meu trabalho, embora não tenha experiência na área de consultoria financeira. Estou aprendendo muito sobre o mercado de ações, e pretendo fazer um curso de especialização na universidade, à noite. Como pode ver, tenho planos para minha vida. Não se preocupe comigo. Estarei bem.
Tenten a fitou. Hinata era uma mulher de fibra. Quando Kurenai morrera, ninguém tinha dúvidas que seria a única beneficiária do testamento, feito depois que o marido da mãe adotiva a abandonara.
Hinata havia planejado vender a casa e investir o dinheiro em um apartamento na cidade, quando descobrira que não tinha direito a nada. Todos os bens de Kurenai haviam sido interditados pelo ex-marido, que contestara o testamento alegando que fora feito quando ela já sofria do mal de Alzheimer, e não estava em condições mentais para assinar documentos legais.
Hinata fora avisada de que poderia recorrer, mas o processo levaria tantos anos e seria tão dispendioso que, quando acabasse, ficaria sem dinheiro. Então, desistira de lutar e aceitara a oferta de Tenten. Mudara-se para a casa da amiga levando apenas seus objetos pessoais, suas roupas e uma máquina de costura antiga.
Concordara em morar com Tenten até que ela voltasse da lua-de-mel. Mesmo com a insistência da amiga para que continuasse na casa, pagando um aluguel simbólico, recusara-se a aceitar.
Tenten conhecia a amiga. Estava sempre disposta a ajudar quem precisasse, mas quando se tratava dela própria, recusava-se a aceitar ajuda. Sempre fora independente e orgulhosa, e a melhor pessoa do mundo.
Esperava apenas que um dia encontrasse alguém que valesse a pena, um homem de caráter e sensibilidade, que pudesse amá-la sem reservas.
Hinata corria apressada pela rua na manhã de segunda-feira, ansiosa por não chegar atrasada ao trabalho. Aquele seria mais um dia de sol escaldante, concluiu com pesar, enxugando as gotículas de suor que brotavam em sua testa. A primavera chegara tarde naquele ano, e atingira temperaturas recordes que não combinavam em nada com o tailleur sóbrio, de mangas longas e decote fechado até o pescoço. Resignada, concluiu que aquele era o preço que teria de pagar para manter seu emprego.
Apressou o passo, lembrando-se com alívio do ar condicionado do escritório. Quando entrou no saguão do suntuoso edifício comercial, olhou de relance para sua imagem no espelho e conteve um grito. Seus cabelos continuavam negro-azulados, mesmo depois de lavá-los diversas vezes naquela manhã.
Enquanto esperava o elevador, se pôs a pensar em uma boa desculpa para justificar aquela mudança radical em sua aparência. O mais remoto risco de prejudicar o relacionamento baseado em respeito mútuo que conquistara com seu chefe a fazia arrepiar-se. Sasuke lhe dissera, na semana anterior, que era um alívio respirar o ar puro da manhã sem estar impregnado de algum perfume enjoativo.
Observou, aliviada, que ninguém a notara enquanto esperava o elevador. Porém, ao ver seu reflexo no espelho, concluiu que não havia razão para que a olhassem. As mulheres que trabalhavam no luxuoso edifício vestiam-se com requinte e elegância, usavam maquiagem, saltos altos, e deixavam uma nuvem perfumada no ar depois que passavam. A imagem que via no espelho revelava uma mulher sem brilho, que mais parecia uma recatada senhorita saída diretamente de um rígido colégio interno para moças...
Reconfortou-se ao pensar que seu chefe costumava receber poucas visitas no escritório, admitindo para si própria que se isolara do mundo. Gostava da segurança solitária de seu dia-a-dia, longe do contato com pessoas que não conhecia. Tornara-se tímida e reclusa, com exceção de seus amigos mais próximos como Tenten e Lee.
Quando a mãe de Sasuke se oferecera para indicá-la ao cargo de assistente pessoal do filho, imaginara que ele trabalhasse em alguma empresa financeira importante. Porém, sentira-se aliviada ao descobrir que ele tinha seu próprio escritório, embora fosse contratado para prestar assessoria financeira ao Banco Internacional de Sidney. O banco lhe oferecera um amplo escritório no décimo quinto andar do luxuoso prédio, de onde se podia apreciar a maravilhosa vista da cidade.
Hinata ocupava a área da recepção, com uma sala adjacente que funcionava como copa. O escritório de Sasuke era espaçosa e iluminada, e contava com duas salas adjacentes para reuniões e encontros de negócios menos formais. Mas o que realmente a agradava era poder ficar em paz o dia todo.
Tenten sempre lhe dizia que se preocupava com seu isolamento e que, quando encontrasse a pessoa certa, voltaria a ser alegre e expansiva como antes.
Porém, Hinata começava a duvidar da opinião da amiga. As experiências pelas quais passara transformaram-na em uma mulher introspectiva, séria e amargurada.
O fato de ter tingido os cabelos não traria de volta tudo que perdera. Ao contrário, sentia-se tola e fútil.
Ao entrar no elevador, um raio de sol incidiu sobre os fios azulado e, mais uma vez, ela se arrependeu por não ter comprado tintura castanha no dia anterior. Prometeu a si mesma que, na hora do almoço, sairia à procura de uma perfumaria. Até lá, teria de se explicar a Sasuke antes que ele chegasse a conclusões erradas.
Desceu do elevador e abriu a porta da recepção, esperando que Sasuke ainda não tivesse chegado. Ele costumava ir à academia de ginástica todas as manhãs antes do trabalho, e não perceberia seu atraso.
Notou com alívio que a porta da sala dele ainda estava trancada. Sentou-se à sua escrivaninha e ligou o computador para que ele pensasse que estava completamente envolvida no trabalho quando chegasse.
Foi exatamente daquela forma que ele a encontrou, dez minutos depois. Hinata sentiu o coração disparar ao vê-lo passar por ela, com os cabelos negros ainda úmidos do banho. Ele carregava uma pasta repleta de papéis em um braço, e o paletó do terno em outro. Parecia distraído, os olhos negros perdidos num ar de preocupação. O que diria quando notasse seus cabelos?
— Bom dia — murmurou ele enquanto atravessava a área da recepção. — Por favor, leve meu café em dez minutos.
Quando ele fechou a porta do escritório atrás de si, Hinata lembrou-se de respirar novamente.
— Bom dia para você também! — disse por entre os dentes, irritada com a indiferença de seu chefe.
Como fora tola por imaginar que ele a notaria! Pensou com ironia que poderia aparecer completamente nua que ele não olharia para ela!
Hinata riu para si mesma. Onde estava com a cabeça ao pensar tal absurdo? Não fazia o menor sentido.
A culpa era de Tenten, que colocara bobagens em sua cabeça. De onde ela havia tirado a idéia de que poderia sentir algum tipo de atração por Sasuke?
Durante os dez minutos seguintes, Hinata recrutou todo seu autocontrole para que sua irritação não aumentasse. Preparou o café e caminhou com passos firmes para o escritório de Sasuke com uma caneca de café na mão, exatamente dez minutos depois da ordem que ele lhe dera. Sabia que ele não tolerava atrasos, e quanto antes pudesse explicar a razão de ter tingido os cabelos, melhor seria. Só então poderia sentar-se e trabalhar tranquilamente, colocando de lado o receio de ser mal-interpretada.
— Entre — ele ordenou quando ela bateu à porta.
Encontrou-o sentado diante do computador, de costas para ela. Havia tirado o paletó e a gravata, que estavam jogados sobre a cadeira.
— Coloque sobre a mesa — ordenou ele com um gesto vago, sem se voltar.
Frustrada, ela obedeceu e estava a ponto de deixar a sala quando mudou de idéia.
— Sasuke...
— Hum...
— Preciso falar com você — arriscou, tentando controlar o tremor da voz, ainda mais irritada por ele continuar com o olhar fixo na tela do computador.
— Sobre o quê?
— Gostaria de explicar sobre a cor dos meus cabelos.
— Que cor? — Ele finalmente ergueu os olhos e franziu o cenho. — Ah... eu não havia notado. Está um pouco... carregado, não acha?
— Mudei a cor para o casamento, no sábado — ela disse, orgulhosa por enfrentá-lo com dignidade.
— Casamento? Que casamento? Meu Deus, Hinata, não me diga que você se casou!
Ela se esforçou para não rir.
— Acho que você nunca terá de se preocupar com isso — disse com um traço de tristeza. — Fui madrinha de minha melhor amiga e ela insistiu para que eu mudasse a cor dos cabelos. Achei que a tintura sairia depois de algumas lavagens mas, como você pode ver, isto não aconteceu. Asseguro-lhe que amanhã tudo voltará ao normal.
— Por que está tão preocupada? Não ficou tão mal. Além disso, quando crescer, voltará a ter a cor original.
Hinata apertou os dentes, mal acreditando no que ouvira. Levaria no mínimo dois anos para tirar todos os vestígios da tintura azulada! Seria possível que ele a julgasse tão desleixada a ponto de passar tanto tempo com as raízes escuras?
Contendo-se para não perder o controle, ela saiu do escritório com passos firmes, antes que fizesse algo de que pudesse se arrepender depois.
Podia senti-lo observando-a enquanto marchava para a porta, provavelmente tentando entender o que estaria errado com ela. Nunca se dirigira a ele naquele tom antes. Mas quando se voltou para fechar a porta, ele voltara a atenção para a tela do computador, completamente esquecido dela!
Hinata não entendeu a intensidade de sua raiva enquanto tentava se concentrar no trabalho. Por que estava tão furiosa com Sasuke? A reação de indiferença deveria fazê-la feliz! Porém, sentira ímpetos de atirar o café sobre ele!
Talvez ele tivesse percebido a agressividade contida, e essa fosse a razão de não ter saído, do escritório pelo resto da manhã, e nem solicitado seus serviços.
Com um sorriso irônico, Hinata se recriminou. Claro que Sasuke não estava pensando nela, e menos ainda preocupado com seu rancor! Na certa, estava concentrado em algo muito mais interessante...
