Secondo
Francesco foi o último a sentar-se à mesa, como costumava acontecer todas as noites. De acordo com Giuseppe, o rapaz tinha o hábito de descer somente ao terminar as tarefas escolares, então se tornou rotineiro que os outros dois membros da família só jantassem quando o herdeiro decidisse dar o ar da graça. Naquela noite, em especial, não havia apenas Ivan e Catarina. Embora Mario não assumisse, a pessoa sentada ao lado direito do Chefe dos Cavallone vinha ocupando tal espaço há quase dez anos, o que o consolidava como um membro da família.
Em seu coração, Alaudi continuava um estranho.
"Eu não sabia que se juntaria a nós para o jantar, Peppe." A surpresa nos olhos cor de mel transformou-se em um largo sorriso e Francesco sentou-se ao lado do Braço Direito imediatamente.
"Seu pai disse que esta noite é uma ocasião especial," o louro ergueu levemente os olhos azuis, agradecendo com um tímido sorriso.
"Claro que sim." O sorriso de Ivan tremeu. "Não é todo dia que há mudança na cozinha."
"Mudança? Que mudança?" Catarina ajeitava o guardanapo sobre o colo. "Lorenzo ficou doente?"
"Não, Lorenzo está bem," a resposta foi dada às pressas antes que criasse um mal-entendido. "Esta noite um dos pratos foi preparado por Mario."
A resposta à notícia foi diferente para cada um dos presentes.
Enquanto Catarina soltou um baixo "ooh", seguido por duas finas sobrancelhas erguidas, Francesco olhou para Giuseppe com evidente preocupação. Ivan deu um longo gole em sua taça de vinho. Alaudi, por sua vez, manteve a mesma expressão vazia por alguns segundos.
"Aviso que não compartilharei dessa honra," o inspetor de polícia segurou a taça de água e lançou um sério olhar na direção de Mario, "meu estômago não suportaria."
Os dois empregados responsáveis pelo jantar surgiram pela larga porta que unia a cozinha à sala de jantar empurrando um carrinho. Os pratos foram colocados em frente a cada um, com exceção de Alaudi, que agradeceu com um menear de cabeça o fato de ter sido privado da experiência. Mario fitou o prato à sua frente, indagando se aquele ensaio ajudaria em sua situação. Todas as vezes que preparei uma refeição minha única ajuda foi Giuseppe e infelizmente meu irmão não pode ser utilizado como parâmetro para comparação.
Giuseppe era compreensível demais, preocupado demais e atencioso demais. O ruivo confiava em seu julgamento, mas sabia que precisaria de uma terceira opinião se quisesse que o presente de aniversário de Giulio realmente acontecesse. Dependendo do que eu ouvir esta noite decidirei o que farei. O sons dos talheres o motivaram a iniciar a refeição. O garfo girou sobre o macarrão, enrolando-o o suficiente para que fosse erguido sem cair. Mario o levou até a boca e o gosto da derrotada foi quase tão ruim quanto o molho de sua macarronada.
As reações foram lentas e seus olhos fizeram questão de assisti-las.
Como esperado, Giuseppe mastigou e engoliu sem dizer uma palavra e exibindo um meio sorriso ao notar que estava sendo obsevado. Ao seu lado, Francesco tentava disfarçadamente esconder o guardanapo onde havia devolvido o pouco de macarrão que se arriscara a comer. Ivan havia bebido uma taça de vinho cheia após a primeira garfada, portanto, foi fácil compreender sua opinião.
"Isso é muito ruim," a voz veio de um canto da mesa, "todos os pratos são como este? Papa, eu posso voltar para o meu quarto?"
O silêncio que seguiu o comentário mais honesto da noite foi pesado. O Chefe dos Cavallone se engasgou e os olhos de Francesco se arregalaram, fuzilando a irmã e tentando fazê-la entender o que havia acabado de falar. Mario encarou o próprio prato novamente antes de esboçar um sorriso que se transformou em gargalhada.
"Desculpe, Catarina. O jantar oficial será preparado por Lorenzo, não se preocupe." Ele virou-se para Ivan, "eu estou mais do que pronto para comer de verdade. Obrigado."
"C-Certo," o moreno fez sinal para que os empregados retirassem os pratos e apressou-se em tentar ajudá-los. "Eu acho que com um pouco mais de prática..."
"N-Não é?" Francesco complementou. "Talvez mais algumas tentativas."
"Eu não quero nunca mais comer aquilo." Catarina sorriu ao ver o prato ser trocado. "É muito ruim."
"Se Giulio se tornar incapaz de trabalhar eu vou garantir que você seja responsabilizado." Alaudi mostrou-se presente e o olhar que lançou foi sério e dizia claramente que ele cumpriria aquela promessa.
O ruivo limitou-se a oferecer uma erguida de sobrancelha. Intimamente ele tinha inúmeras respostas mal-educadas, mas Catarina e Francesco estavam presentes e seria indelicado começar um desentendimento à mesa. Ele desculpou-se, porém, quando os novos pratos chegaram todos pareceram focados demais na comida e suas palavras foram recebidas com sorrisos. Onde foi que errei? Eu segui a receita que Giuseppe me passou... Ele não sabia se sua aventura na cozinha havia ou não chateado o cozinheiro, mas a verdadeira macarronada daquela noite estava incrivelmente saborosa, em um nível que ele sabia que jamais atingiria. Desculpe, Giulio, eu tentei...
x
A mesa havia terminado de ser arrumada quando os primeiros passos foram ouvidos descendo as escadas.
Giulio surgiu na entrada da sala de jantar, os cabelos ainda molhados e parecendo perfeitamente à vontade na calça escura e na camisa branca. Mario sentiu o cheiro da colônia quando ele se aproximou, imaginando que acordaria na manhã seguinte com o cheiro do amante.
"Por que você está arrumando a mesa?" O moreno fechava o botão do punho direito da camisa. "Achei que jantaríamos fora."
"Oh, não, esta noite comeremos em casa." Ele ajeitou os guardanapos e abriu o pequeno armário de madeira que ficava ao canto e onde estavam as bebidas. "Faz parte do seu presente de aniversário."
"Não me diga..." Giulio pareceu surpreso e olhou ao redor como se esperasse que a comida estivesse escondida.
"Você disse que gostaria de ter a honra de um jantar feito por mim," Mario puxou a cadeira e fez sinal para que o amante se sentasse.
"Eu devo me preocupar?" Giulio riu antes de se acomodar.
A resposta foi um largo e satisfeito sorriso.
A caminhada até a cozinha foi curta, visto que assim que Giulio subiu para tomar banho Mario apressou-se em deixar tudo organizado. O prato principal havia sido montado em sua casa e repousava dentro de uma bela travessa de vidro decorada por rosas e que pertencia à sua mãe. Os olhos verdes se abaixaram e ele sorriu antes de segurar a travessa e seguir em direção à sala de jantar.
A lasanha, ou o que deveria ser considerada uma lasanha, foi colocada no centro da mesa, entre a salada e a cesta de pães. Normalmente, o ruivo sentava-se em frente a Giulio, mas naquela noite sua cadeira foi puxada para o lado, próxima o bastante para que os joelhos se esbarrassem.
A reação de Giulio aconteceu em etapas. Seus olhos se abaixaram e ali permaneceram. Uma de suas sobrancelhas tremeu e ele percebeu que estava sendo observado, pois piscou como se acordasse de um sonho, encarando Mario como se um prato de lasanha precisasse de explicações.
"Parece... diferente." Ele não manifestava pressa em começar a comer, ainda mais quando a massa da lasanha havia prendido seu garfo, que ficou em pé ao tentar puxá-lo.
"Eu realmente me esforcei e tenho certeza de que fiz o melhor jantar da sua vida." O teatro era proposital. Mario faria o impossível para que Giulio se arrependesse de ter feito aquele pedido.
Dentre todos os talentos que ele possuía a culinária nunca fez parte de seu leque de opções. Giuseppe sempre foi o irmão talentoso e zeloso, fosse com a casa ou com os estômagos de seus moradores. Por esse motivo, e por sua total falta de interesse em aprender, Mario não sabia sequer cozinhar um ovo. Seu relacionamento com Giulio durava quase uma década e ele não acreditava que depois de todo esse tempo o amante tivesse coragem de pedir que ele preparasse seu jantar de aniversário. Se ele tivesse pedido para fazer sexo na cozinha, eu ficarei feliz em vestir somente um avental, mas não...
O ruivo pegou os talheres e espetou a lasanha. Superficialmente o prato não parecia em nada com as lasanhas que ele estava acostumado a comer na mansão dos Cavallone, preparadas por um dos melhores cozinheiros da Itália. A Família sempre teve o hábito de manter ótimos cozinheiros, desde a época do pai de Ivan. O vermelho do molho de tomate parecia uma mistura de vinho e verde. O garfo não sentiu a tenra massa, ficando preso, como se alguma força imaginária a puxasse para baixo. O corte foi pequeno, o suficiente para que Giulio saciasse sua curiosidade.
"Parece... única." O moreno encarou o pedaço pousado em seu prato, sem saber se olhava para o recheio endurecido ou a massa queimada.
"O sabor é tão bom quanto sua aparência, eu garanto." Mario sentou-se e abriu a garrafa de vinho.
"Você não vai se servir?"
Mais uma vez, a resposta foi um meio sorriso.
Ele viu quando Giulio engoliu seco, juntando coragem para erguer seus talheres para começar a comer. O amante ensaiou o gesto duas vezes, mas na terceira tentativa Mario achou que já vira o bastante. Sua mão direita parou o garfo antes que ele tocasse os lábios.
"Chega, eu não vou deixar que você coma isso."
"Obrigado..." O amante parecia visivelmente aliviado. "E, desculpe. Não achei que você fosse levar até o fim aquele pedido."
"A experiência foi interessante e eu quase envenenei a Família com a primeira tentativa. Os Cavallone perderiam o Chefe e os herdeiros. Pode imaginar?"
"Alaudi me contou sobre o jantar," Giulio riu, "mas não falou que você havia cozinhado. Apenas mencionou que o primeiro prato foi um desastre."
Mario escondeu a surpresa o máximo que conseguiu. Por que ele não contou toda a verdade? Pensar que Alaudi pudesse ter omitido a informação para que Giulio não soubesse do jantar o fazia ter arrepios de asco. Provavelmente ele fez isso pelo amigo.
"Eu vou trazer o jantar de verdade."
O ruivo retirou seu erro e retornou da cozinha com outra travessa, um pouco maior do que a anterior. Ela foi colocada na mesa e dessa vez a surpresa foi positiva. O cheiro da lasanha inundou a sala de jantar e seu estômago roncou ao lembrar-se de que sua última refeição fora um pedaço de bolo no meio da tarde.
"É o presente de Giuseppe. Ele pediu que lhe desejasse feliz aniversário."
"Parece ótima," o moreno prosseguiu, "não que a sua não tivesse uma boa aparência."
"Eu tenho plena consciência das minhas limitações, não se preocupe." Mario serviu ambos os pratos com pedaços generosos de lasanha.
Giulio fez menção de fazer um comentário, no entanto, limitou-se a comer. Os talentos culinários de Giuseppe eram velhos conhecidos, e ambos saborearam aquela refeição como se fosse mais um dos jantares que compartilhavam em sua casa. A sensação era tão familiar que havia a nítida impressão de que o louro fosse aparecer a qualquer momento vindo da cozinha para se sentar à mesa. O vinho escolhido combinava perfeitamente com a massa e o molho vermelho, e por alguns minutos não houve conversa, apenas trocas esporádicas de olhares que diziam mais do que frases inteiras.
Se por um lado Mario era uma pessoa naturalmente social e falante, os anos ao lado daquela pessoa o moldaram e o amadureceram. Giulio não era propriamente uma pessoa taciturna, mas reservada e quieta. Ele só abre a boca quando tem alguma coisa para agregar à conversa. A convivência o transformou em uma pessoa menos impulsiva e explosiva. A personalidade calma do amante apaziguou um pouco sua alma eufórica e aquela mudança foi gradual e significativa. A única coisa que Giulio não conseguiu alterar foi sua sexualidade. Mario era, e provavelmente sempre seria, uma pessoa guiada por suas necessidades físicas e naquele quesito o moreno lhe satisfazia completamente.
Ao lado de Giulio, tanto seu corpo quanto seu coração estavam satisfeitos.
As travessas vazias foram levadas para a cozinha e o ruivo recusou ajuda em todas as suas curtas viagens, alegando que o aniversariamente não deveria fazer nada além de estar ali. Quando a mesa da sala de jantar foi devidamente arrumada, os dois seguiram até a sala de estar, levando uma garrafa fechada de vinho e duas taças. A lareira já estava acessa e, embora a primavera estivesse no auge, o inverno não parecia ter se desvencilhado totalmente, deixando dias amenos, mas noites geladas e que exigiam mais do que finos cobertores.
"Agradeça a Giuseppe. O jantar estava delicioso," Giulio abriu a garrafa e serviu ambas as taças. "E obrigado pela tentativa, de verdade."
"Desculpe por ter falhado. A experiência me motivou a aprender, então talvez em um futuro distante eu tente novamente."
"Esperarei ansiosamente por esse dia." O moreno sorriu sincero.
"E para não perder a oportunidade," Mario levantou-se e foi até a pequena estante que ficava atrás do sofá onde estavam sentados. Ali, na terceira porta à esquerda, estava um pequeno embrulho que fora guardado assim que ele chegou. "Este é seu presente oficial, feliz aniversário, Giulio."
O embrulho escondia uma caixa de tamanho médio e forrada por camurça. No interior havia um jogo de pincéis, cujas palavras não eram o italiano comum. Giulio arregalou os olhos e corou, agradecendo várias vezes. Vê-lo tão contente fez seu coração se tornar aquecido, tendo certeza de que havia sido inteligente encomendar aquele jogo de pincéis em uma de suas viagens ao Oriente. O moreno pintava muito menos agora, devido ao trabalho na sede de polícia, contudo, Mario adorava chegar à casa e vê-lo sentado em frente a uma tela. Fazer amor enquanto Giulio cheirava a tinta era extremamente excitante.
"E como estão as coisas na mansão? Alaudi disse que Catarina está extasiante agora que terá aula de Arte."
"Sim, eles passarão a dar aula de pintura uma vez por semana. Francesco recusou, mas Catarina já avisou a Ivan que participará."
Giulio sorriu e Mario teve certeza de que ele aprovava a ideia da garotinha. Por várias vezes ele havia visto os dois conversando sobre quadros, nenhum assunto profundo ou rebuscado, apenas comentários a respeito de cores e cenários. Ao contrário do irmão, Catarina adorava arte e literatura, a ponto de passar horas dentro da biblioteca com um livro na mão. Francesco passou a ler mais depois que cresceu e tenho certeza de que Giuseppe teve sua parcela de culpa. Falando no meu irmão...
"Eu acho que Giuseppe está apaixonado."
O comentário foi feito displicentemente e enquanto ele girava o vinho em sua taça. Em nenhum momento ele teve a intenção de causar alarde então foi curioso ver sua companhia tossir ao engasgar com a bebida.
"S-Seu irmão?"
"Sim," Mario serviu-se de mais vinho. "Eu ouvi um dos empregados comentando que tentou apresentá-lo à irmã, mas que Giuseppe recusou e disse que não tinha interesse."
"Isso não quer dizer nada, Mario. Você mesmo me disse que desconfiava que talvez Giuseppe não gostasse de mulheres."
"Ele está cantando no banho, Giulio... cantando!" O ruivo passou as mãos nos cabelos e recostou-se melhor ao sofá. Aquele assunto vinha martelando em sua mente nas últimas semanas e ele desconfiava que Giuseppe tinha um amante às escondidas.
"Bem, você conhece seu irmão melhor do que eu, mas tem ideia de quem possa ser?"
Mario fitou o teto antes de piscar longamente.
"Niccolò."
"Niccolò? O chefe da segurança? Aquele que não gosta de você?"
"O próprio."
"Ele não era casado?"
"Viúvo." Mario virou o rosto e apertou os olhos. "Não que isso signifique qualquer coisa. Você foi noivo e olha onde estamos agora."
Giulio preferiu não responder.
"Eu percebi que Giuseppe e Niccolò estão bem próximos ultimamente. Eu os vejo pelos cantos sorrindo e conversando às escondidas. De qualquer forma, acredito que será benéfico. Giuseppe precisa de uma vida própria antes que Francesco assuma a Família e se case."
"Francesco tem somente quinze anos. Ainda há muito tempo para se pensar nessas coisas."
"Eu não sei. Ele é tão popular quanto o pai costumava ser quando jovem. Eu não ficaria surpreso se aparecesse na mansão com uma garota. Giuseppe ficaria devastado."
Aquele era um assunto que Mario tentava evitar pensar o máximo possível. Giuseppe era extremamente apegado ao herdeiro e ele sabia que aquela dedicação era fruto de sua capacidade como Braço Direito. Quando Francesco finalmente decidisse casar e ter filhos, o irmão certamente sentiria que perdera seu espaço e acabaria se entristecendo. Se Giuseppe realmente tem um amante, então eu vou apoiá-lo no que for preciso.
O assunto morreu com aquele último comentário. O ruivo não se sentia disposto a falar do irmão, ainda mais com a possibilidade de seu interesse amoroso ser Niccolò. O moreno, como sempre acontecia, somente escutava. A taça foi pousada sobre a mesinha de madeira que ficava no centro da sala de estar e em cima de um belo tapete florido. Mario apoiou uma das mãos sobre o sofá, inclinando o corpo e pendendo para frente. O amante sorriu, pousando sua taça antes de recebê-lo em seus braços.
"Feliz aniversário..."
A voz sussurrada foi seguida por um sorriso antes que os lábios se encontrarem. As bocas se encaixaram com perfeição e Mario sentiu a língua deslizar para dentro de sua boca. O beijo foi longo e intenso, resultado de duas garrafas de vinho e o incessante desejo que sentiam um pelo outro. As mãos de Giulio o trouxeram para perto, acomodando-o melhor entre suas pernas e tornando o contato perigosamente tentador. O ruivo sabia exatamente como aquela noite terminaria e seu corpo estava pronto para a sobremesa.
"Quer subir?" A voz rouca entrou por seu ouvido esquerdo e o arrepiou completamente a ponto de fazê-lo gemer.
Os dois levantaram-se, mas sem interromper o beijo. As grandes mãos de Giulio seguraram seu rosto enquanto as línguas se moviam com pressa e luxúria. O ruivo sentiu seus dedos brincarem com os botões da camisa, abrindo-os um a um e sorrindo satisfeito ao ver o tecido deixar os ombros do amante. Os olhos se abriram e ele fez questão de admirar o largo peitoral pelo canto dos olhos, suspirando com a ideia de que muito em breve não haveria camada alguma de roupas para atrapalhá-los.
Mario estava certo em sua conjectura, já que, assim que chegaram à escadaria, metade das roupas havia ficado pelo chão. Os beijos e toques estavam menos comportados e a subida foi uma mistura de esfregões e apertões. Por duas vezes ele achou que fosse tropeçar, mas Giulio o manteve firme nos degraus, pelo menos até chegar ao topo. Ali, o ruivo sentiu-se deitar, livrando-se de sua própria camisa e ficando um pouco surpreso ao ver sua calça e roupa de baixo retiradas de uma única vez.
O moreno inclinou-se sobre ele, roubando-lhe um afoito beijo antes de abaixar-se. Mario viu quando seu sexo desapareceu dentro da boca do amante e não havia nada a fazer além de gemer. O chão frio não pareceu atrapalhar e quando suas pernas se apoiaram nos largos ombros ele soube que não teria como escapar. A língua deslizava por sua ereção, tocando as partes mais sensíveis e arrancando-lhe suspiros e gemidos indecentes. Sexo era uma de suas atividades favoritas e poder praticá-lo com aquele que amava era um privilégio. Giulio era muito mais do que ele merecia, em todos os sentidos.
O orgasmo o desarmou totalmente, deixando sua respiração alta. Os movimentos em seu baixo ventre não cessaram e Giulio continuou o que fazia por mais algum tempo, dando atenção ao interior das pálidas coxas e deixando marcas vermelhas que no dia seguinte estariam roxas. Os lábios tocavam delicadamente a pele, apenas para que, no instante seguinte, os dentes a marcassem de leve. Mario arrepiava-se com cada provocação, imaginando quando o amante decidiria que era hora de prepará-lo.
"Você consegue ficar de pé?"
A voz veio de algum lugar e ele abriu os olhos devagar, piscando algumas vezes antes de menear a cabeça em positivo. O moreno o ajudou a levantar-se e Mario viu-se novamente entre seus braços e beijos. A caminhada até a cama pareceu curta e ele jogou-se sobre o colchão, afundando-se na roupa de cama. Seu corpo virou-se ao mesmo tempo em que Giulio pendeu sobre ele como um predador, beijando seus ombros enquanto delineava suas costas e cintura com as mãos. Os beijos desceram, marcando a pele e deixando um rastro avermelhado por onde passavam. Mario usou os joelhos para suportar o peso do corpo e afundou o rosto em seus braços. As mãos seguraram seu quadril e quando a língua tocou sua entrada seu corpo inteiro arrepiou-se, aprovando a carícia.
O ruivo sentiu o cheiro dos lençóis limpos, percebendo que todos os seus sentidos estavam alertas e operantes, como sempre acontecia durante o sexo. Seus dedos percorriam a roupa de cama, apertando-a todas as vezes que a língua de Giulio invadia seu corpo. A ereção retornou aos poucos, mas ele jamais perderia a chance de ser mimado daquela forma. Em determinado momento a língua deu lugar a dois dedos e o aroma do óleo lubrificante o arrepiou em antecipação. Os dedos brincavam com seu corpo ao tocarem seu ponto especial com uma insistência torturante. As mãos subiram por seu quadril e, ao chegarem à cintura, Mario sentiu o membro invadi-lo.
A dor foi seguida por um gemido mais alto. Fisicamente falando, Giulio precisaria passar muito mais tempo preparando-o se quisesse que aquela relação fosse indolor. Entretanto, aquilo não era o que Mario queria. A ereção o penetrou sem resguardo, invadindo seu corpo como já havia feito centenas de vezes. O ruivo não negaria que apreciava preparações longas e sensuais, com direito a dois ou três orgasmos antes do prato principal. No entanto, o que realmente fazia seu sangue ferver era ser devorado daquela forma, com o mínimo de preparação possível e somente para não tornar o ato impossível. A dor o excitava, o modo como o sexo tremia dentro de seu corpo, os gemidos roucos de prazer... o ato sexual se transformava em muito mais do que a busca por prazer.
Desde o começo de sua descoberta sexual Mario poderia contar nos dedos as vezes em que assumiu uma postura passiva. Quando envolvia um amante, ele sempre se empenhava em satisfazê-lo, achando inconcebível que alguém deixasse seus braços sem um sorriso de satisfação. Suas experiências sendo evolvido, por outro lado, foram de ruins a péssimas, com amantes desajeitados e que não sabiam sequer prepará-lo. O ruivo sempre acabava se sentindo usado, como se sua função naquela relação fosse unicamente ser um buraco. Por esse motivo, ele passou a rejeitar convites, mesmo quando seus parceiros eram belos e charmosos. Encanto pessoal nenhum valia a sensação de decepção pós-sexo.
Giulio foi algo completamente inesperado, uma das melhores surpresas de sua vida.
Quando todos os assuntos foram resolvidos, e não havia nada mais que impedisse aquela relação de dar o passo final, Mario precisou de algum tempo até processar a ideia de que, pelo menos inicialmente, ele teria de abdicar de sua confortável posição. O moreno não tinha experiência com homens e o ruivo se sentia intimidado com a simples menção de envolvê-lo. Eu já estava resignado e nem sabia. Na época eu achava que a atração que sentia era o motivo de eu não conseguir me imaginar dentro dele.
Para sua total surpresa, Giulio era um amante impecável. O prazer que Mario sentia em seus braços era tão intenso que com o tempo a ideia de envolvê-lo desapareceu e só foi ressuscitada quando, após alguns anos, Giulio perguntou se ele não sentia falta de estar em sua velha posição. Nós estávamos nesta cama, um nos braços do outro, quando ele me fez aquela pergunta. Eu precisei de um minuto, pois sequer me lembrava de já ter estado em outra posição antes.
A resposta foi um sorriso provocador e ele fez questão de perguntar se Giulio estava sugerindo que eles trocassem de posição imediatamente. Ele ficou sério e travou. Eu vi em seus olhos a preocupação. Foi hilário. Aquele assunto não voltou a ser mencionado e pelos próximos anos Mario aceitou ser feliz e decidiu aproveitar cada momento que tivesse ao lado daquela pessoa, fosse sobre a cama ou fora dela.
O fim das lembranças foi o começo do prazer. Ele sentiu quando o membro de Giulio deslizou quase para fora, o que marcou o início das sensações intensas que ele conhecia tão bem. Os pelos de seus braços se arrepiaram e o gemido rouco foi a música de fundo para o clímax. O moreno gemeu baixo, provavelmente sentindo os efeitos das contratações dos músculos ao redor de seu sexo. As mãos voltaram a segurar o quadril do ruivo que, por sua vez, não sabia o que lhe dava mais prazer: o recente orgasmo ou Giulio movendo-se dentro dele, ignorando a dificuldade do movimento e continuando a devorá-lo.
A vantagem de um quarto gigantesco como aquele era que as reações, por mais exageradas que fossem, jamais chegariam aos ouvidos alheios. As paredes do sobrado eram grossas e o quarto forrado por um tapete escuro, o que impedia que o ranger da cama fosse ouvido. Os momentos passados naquela casa sempre eram mais livres e eróticos. Em sua própria casa Mario tinha certo receio de soltar-se completamente, temendo que o irmão pudesse aparecer sem aviso. Giulio foi o primeiro amante que levei para casa. Todos os outros terminavam antes mesmo de começarem.
Mario perdeu a noção do tempo quando sua nova ereção surgiu. Os movimentos de Giulio haviam se tornado mais intensos e ritmados, coincidindo com seus gemidos. O clímax aconteceu sem aviso, preenchendo-o e o fazendo sorrir por ter um de seus fetiches satisfeitos. O contato, no entanto, não cessou, e ele virou-se assim que o amante deslizou-se para fora, sendo beijado quando achou que seria o responsável pelo beijo. Os corpos se uniram e uma das mãos de Giulio deslizou por sua testa, colocando os cabelos vermelhos para trás.
Ele deixou que seus dedos descessem até o baixo ventre do moreno, tocando o membro e começando a masturbá-lo. Os gruídos de Giulio eram adoráveis e eles permaneceram naquela posição até que a nova ereção crescesse em sua mão. Não houve necessidade de nenhum comentário. As mãos subiram pelo largo peitoral enquanto Giulio guiava sua ereção, que o penetrou sem dificuldades. Mario gemeu baixo, envolvendo-o pelo pescoço e sentindo-se novamente preenchido.
A noite havia apenas começado e nenhum deles tinha intenção de desperdiçar um segundo sequer longe da companhia do outro.
x
O sol ainda não havia nascido quando Mario deixou a larga cama de casal, cruzando o quarto com passos silenciosos, como um gato, e abrindo o guarda-roupa fazendo o mínimo de ruído possível. Sua nova troca de roupas estava passada e engomada em uma das gavetas, e com as mãos cheias de roupa ele seguiu até o andar de baixo. Geralmente, ele usaria o banheiro do quarto, mas receava acordar Giulio com o barulho, então preferiu o banheiro pouco usado do primeiro andar. Seu banho foi longo, limpando seu corpo das horas passadas sobre a cama na noite anterior. As marcas deixadas pelo amante demorariam dias para sumirem completamente, mas nada que um lenço ao redor do pescoço não resolvesse.
De banho tomado e perfeitamente vestido, o ruivo passou na sala de estar e deixou um bilhete avisando que havia retornado para a mansão. Infelizmente, nenhum deles poderia se dar ao luxo de passar aquela quarta-feira juntos. Ambos tinham trabalho, Giulio na sede de polícia e Mario com a Família. Eu comerei alguma coisa quando chegar. Preciso estar em casa antes que Ivan acorde. Aquelasescapadas durante a semana eram raras, mas ele apreciava poder vê-lo além do final de semana. Alguns dias eram tão ocupados que Mario sequer notava a aproximação da sexta-feira. Em outros, a distância parecia ainda mais acentuada e a vontade de vê-lo se tornava quase impossível.
Mario ganhou a rua, fechando mais um dos botões do fino casaco que vestia. As manhãs continuavam frescas, e ele não poderia se dar ao luxo de pegar um resfriado. O interior do carro estava quente e aconchegante, e o ronco rouco do motor ao dar partida o fez questionar se um dia existiriam veículos silenciosos e que não denunciassem suas escapadas sorrateiras. Espero que isso não o tenha acordado, olhos verdes e fiscalizantes fitaram o segundo andar da casa somente para ver Giulio recostado ao vidro. Seu peitoral estava completamente nu e Mario soltou um baixo tsk achando aquela exposição desnecessária. O amante acenou por trás da janela fechada e a despedida foi um sorriso e a certeza da saudade que sentiriam pelos próximos dias.
O carro cortou o centro como se todos os demais cidadãos houvessem desaparecido. Com exceção da área comercial, as demais ruas pareciam desertas. Em alguns minutos Roma ficou para trás e ele encarou a longa estrada vazia, cujo silêncio seria seu companheiro até avistar a propriedade dos Cavallone. Mario era naturalmente barulhento, mas apreciava esses momentos quietos, principalmente quando queria ruminar alguns assuntos. Naquela manhã, a imagem de Giuseppe brotou em sua mente e foi impossível não se lembrar da conversa que tivera com Giulio no final da noite anterior.
"Faz alguma diferença?" O amante havia se virado na cama, apoiando a cabeça no braço direito e o olhando com seriedade.
"Hm?" Mario ainda respirava com dificuldade. Depois do terceiro orgasmo ele parou de contar, mas não importava quantas vezes repetisse seu corpo parecia querer mais.
"Giuseppe. Você disse que acredita que ele está saindo com o chefe da segurança, mas, honestamente, faz alguma diferença quem seja o suposto namorado de seu irmão?"
"Não... claro que não." O ruivo ponderou. "Giuseppe parece genuinamente feliz, como eu não o via há anos. Quem quer que esteja colocando um sorriso nos lábios do meu irmão tem meu eterno obrigado."
Aquele curto diálogo desapareceu de sua mente, visto que a noite não havia terminado. Porém, ali, sozinho e sem nada para fazer além de manter os olhos na estrada, as palavras de Giulio o deixaram curioso. Ele se referia ao fato de Giuseppe talvez estar interessado em outro homem? Ele achou que isso poderia me incomodar? As sobrancelhas se juntaram e Mario perdeu-se por mais alguns minutos naquele assunto até que o trabalho tomou seus pensamentos. Ivan tinha uma viagem marcada na próxima semana e, ainda que fosse dentro da Itália, isso significava planejamento.
Em determinado momento ele foi agraciado pelo sol que nasceu preguiçoso e lhe fez companhia pelo resto do caminho. Os seguranças do portão principal o receberam com um sonolento bom dia e Mario passou em frente à mansão apenas para se certificar de que ela dormia profundamente. Niccolò já estava em seu posto e conversava baixo com meia dúzia de seguranças, cujo diálogo cessou quando seu carro aproximou-se do chafariz.
"Bom dia," Mario sentiu a aversão do homem por trás de seus óculos. "Algo para reportar?"
"Não, senhor." Um dos seguranças respondeu prontamente.
O chefe da segurança, por sua vez, nada disse.
Niccolò lançou um rápido olhar em sua direção, retomando a conversa como se o ruivo nunca houvesse estado ali. O tratamento frio e indiferente não o incomodava mais, e ele tinha plena confiança nas capacidades do homem e sabia que se algo houvesse, de fato, acontecido, ele não hesitaria em lhe comunicar. O carro seguiu pelo caminho de pedra à direita e na direção que levava à sua casa. A saudade de Giulio havia diminuído um pouco durante o percurso, mas ele pegou-se estranhamente desejando vê-lo. Ele provavelmente já acordou. Depois da viagem da próxima semana eu estarei parcialmente livre. Talvez consiga ficar com ele além de meros dois dias.
Os pensamentos no amante o impediram de notar qualquer coisa que estivesse ao seu redor, reparando que as luzes de sua casa estavam acessas somente ao girar a maçaneta e abrir a porta de entrada. O cheiro de café fresco entrou em seu nariz e o relaxou totalmente. Seu estômago roncou e Mario sorriu largamente, lembrando-se de todas as vezes que voltou de suas noitadas na cidade e foi agraciado pelo delicioso café de seu irmão. Seu peito tornou-se apertado e ele questionou se algum dia aquela rotina mudaria.
A ideia de Giuseppe saindo de casa e constituindo sua própria família soava quase impossível. Ele conhecia as preferências de seu irmão, contudo, isso não o impediria de morar com seu atual ou futuro amante. Quando Francesco assumir a Família, casar e ter seus filhos, Giuseppe terá o dobro da responsabilidade. Talvez seja bom que ele esteja aproveitando seu tempo livre.
O rosto de Niccolò surgiu em sua mente e o ruivo suspirou. A mudança na rotina dos irmãos teria de partir de Giuseppe, já que Mario sequer cogitava deixar a casa, como se fosse seu destino estar resignado a morar para sempre no local em que havia sido criado. Tal pensamento, ou a falta dele, derivava de sua incapacidade de colocar-se como prioridade quando o assunto era o louro e por achar que a vida já havia lhe oferecido mais do que ele merecia.
Mario estava errado... sobre muitas coisas.
"Giuseppe, estou em casa."
- FIM.
