Extra – Dessert

Ele acordava todos os dias pontualmente às 5h da manhã.

Havia um único relógio em sua casa e que adornava uma das paredes da pequena sala de jantar, presente pessoal do Chefe da Família. De seu quarto era possível ouvir o som que fazia, mas após décadas seu corpo estava condicionado a recomeçar a trabalhar no mesmo horário. A primeira coisa que fazia era tomar um banho, seguido pelo ritual de barbear-se. Seu rosto estava sempre limpo e liso, seus cabelos negros perfeitamente penteados e lustrosos. Se as primeiras impressões eram as mais importantes, ninguém teria motivos para repreendê-lo por descuido ou falta de asseio pessoal.

O café da manhã era simples, o esperado de um homem que cozinhava para si mesmo e que não tinha tempo para refeições mirabolantes. O céu ainda estava escuro quando ele deixava sua casa, um sobrado pequeno e no meio da vila que fazia parte da propriedade da Família, local este onde basicamente todos os empregados viviam. As ruas eram pavimentadas com pedra batida e havia até mesmo um comércio de pequenos produtores, o que evitava que os moradores precisassem ir a Roma para fazer suas compras básicas. O lugar era calmo e tranquilo, afastado cerca de vinte minutos da mansão principal. Aquela era a vida que ele conhecia desde criança e que havia sido herdada do pai.

Servir os Cavallone era uma honra apreciada todos os dias.

A mansão estava quieta quando Niccolò estacionou seu carro, sendo recebido por um dos seguranças responsáveis pela guarda da noite. O guarda principal ainda estava dentro da casa esperando para fazer seu relatório antes de abandonar seu posto.

"O Chefe?"

"Acordou faz meia-hora. Está na biblioteca."

"Francesco e Catarina?"

"Ainda dormindo."

As perguntas seguintes foram relacionadas à propriedade e felizmente não houve nada a relatar além da tranquilidade. Niccolò afastou-se do estacionamento seguindo com o rapaz até a entrada da mansão. O guarda da noite os recebeu e mais uma leva de perguntas foi feita e, como anteriormente, as respostas não fugiram do esperado. Ele dispensou os dois rapazes e caminhou até a biblioteca, batendo três vezes antes de ouvir a autorização para entrar. Quando Ivan acordava cedo as ordens do dia eram repassadas diretamente, sem intermediários, o que ele apreciava com todo o seu coração.

"Bom dia, Chefe." Niccolò ofereceu uma polida reverência.

"Bom dia," Ivan tirou os olhos da pilha de papéis e sorriu sonolento.

Pela quantidade de trabalho sobre a mesa Niccolò deduziu que o Inspetor de polícia provavelmente viria naquele dia. O Chefe dos Cavallone não era uma pessoa preguiçosa ou que detestava seu trabalho, mas era de conhecimento de todos que ele só tinha liberdade para passar algumas horas com seu amante se o trabalho estivesse em dia. Pensar naquele assunto fez seu estômago dar voltas.

O motivo não era o relacionamento do Chefe com outro homem. Alaudi frequentava aquela casa há muito anos e fora o responsável por mudar completamente a vida daquela família. Qualquer pessoa, independente do sexo, que tivesse feito o que fez — da mudança de Ivan à criação dos herdeiros — seria bem-vinda.

A razão do mal-estar era outra.

Era ruiva e arrogante e degenerada.

A pessoa entrou na biblioteca antes que Ivan pudesse transmitir sua mensagem. Sua presença não foi vista, somente sentida, e Niccolò respondeu ao bom-dia com esforço. Lidar com aquele ser diariamente exigia uma dose extra de boa vontade e se não amasse seu trabalho certamente já teria pedido transferência para algum lugar que não tivesse que vê-lo nunca mais. Entretanto, aquele não era o caso, e sua função na Família tornava impossível que não tivessem contato.

"Bom dia, Mario, eu estava prestes a passar a agenda do dia para Niccolò. Você tem algo a adicionar?"

"Eu acho que não..." os passos eram abafados pelo tapete, mas ele pôde vê-lo se aproximar pelo canto do olho esquerdo.

"Certo," Ivan voltou a sorrir.

Os trabalhos daquele dia foram repassados, como acontecia diariamente. Niccolò ouvia e concordava, nomeando o empregado que seria responsável por determinado serviço e anotando em uma pequena caderneta que sempre levava dentro do bolso do casaco. Os serviços envolviam rondas pela propriedade, visitas a Roma, levar os herdeiros para a escola, etc. A última parte envolvia suas próprias tarefas e aquele foi o momento em que o discurso mudou se comparado ao do dia anterior. Ele guardou a caderneta e ergueu os olhos para o Chefe da Família. A próxima parte acontecia todo ano, naquele mesmo dia.

"Eu quero que tire o dia de folga, Niccolò." Os olhos cor de mel se abaixaram por um momento. "Mande meus cumprimentos a Elena."

"Obrigado, Chefe."

Ele fez uma reverência, dando meia-volta e deixando a biblioteca. A sensação em seu estômago não havia desaparecido, especialmente quando o incômodo o havia seguido até o corredor.

"Niccolò."

Seu corpo virou-se o suficiente para poder encará-lo sem soar desrespeitoso. Todo contato com aquela pessoa envolvia somente o básico da boa educação e o bastante para não parecer descortês.

"Lorenzo precisa ir a Roma comprar algumas coisas. Você poderia designar alguém para acompanhá-lo? Ele disse que gostaria de ir logo após o almoço."

"Entendido." O rosto do cozinheiro da Família brotou em sua mente.

"Boa viagem." Mario colocou a mão na nuca.

Niccolò repetiu a reverência da biblioteca, mas dessa vez por mera obrigação. Seus sapatos ecoavam pelo chão lustroso e quando virou o corredor seguinte suas reações puderam ser demonstradas sem medos. Os olhos negros se tornaram pequenos atrás dos óculos finos e suas mãos se fecharam. Como ele ousa? Os passos eram largos e a certeza de que não o veria mais naquele dia era o único consolo capaz de apaziguar a raiva que havia se alojado em seu peito. Aquela pessoa sempre conseguia tirá-lo do sério, lembrando-o de lembranças que ele gostaria de esquecer.

O final feliz que ele nunca obteve.

"Bom dia, Niccolò."

O andar apressado cessou e naquele instante ele se deu conta de que havia chegado ao hall. A raiva que o havia acompanhado desde a biblioteca dissipou-se e seus olhos, que até um segundo atrás só viam vermelho, de repente enxergavam tudo branco. Não havia mágoa, aversão ou pessoas indesejáveis, pelo contrário. Seu corpo virou-se completamente e ele sentiu o sorriso, contido e tímido e que sempre surgia para aquela pessoa, iluminar seu rosto taciturno.

"Bom dia, Giuseppe."

Niccolò sorriu o que provavelmente seria o único sorriso do dia. Seus lábios se repuxaram sem que ele pudesse ter controle, percebendo que toda a sua ira havia desaparecido, o que geralmente acontecia quando estava na presença daquela pessoa. Ao contrário do irmão, depravado e uma total falha como ser humano, Giuseppe era um exemplo a ser seguido. Honesto, simpático e profissional, não havia pessoa mais íntegra entre os empregados da Família. Ele não possuía a confiança de Mario ou sua facilidade em lidar com as pessoas, porém, seu senso de responsabilidade não ficava aquém, além de ser mais acessível do que o irmão. E ele é puro. Giuseppe é a pessoa mais pura que conheço.

A fama de Mario era conhecida desde os tempos de juventude. Niccolò era alguns anos mais velho, mas acompanhou de perto as aventuras do ruivo. Cada semana era um amante, ou uma amante, diferente. Mario nunca estava duas vezes com a mesma pessoa. Aquele carisma e capacidade de conquistar tudo e todos sem o mínimo de esforço era inexplicável, principalmente porque, aos seus olhos, o ruivo não tinha nenhuma qualidade relevante. A antipatia que sentia nascera naquela época, embora houvessem sido outros os motivos que o levaram a total aversão que sentia nos dias atuais.

Giuseppe, por outro lado, sempre foi correto e Niccolò nunca escutou nenhuma história ou boato sobre sua vida privada. O jovem homem de sorriso contido, brilhantes olhos azuis, e longos cabelos louros parecia saído de uma pintura, iluminando seus dias e tornando até mesmo os invernos aquecidos e cheios de vida.

"Não se preocupe, eu levarei os dois para a escola hoje," Giuseppe disse após uma conversa breve sobre a agenda daquele dia. O sorriso se desfez aos poucos e sua expressão ganhou uma bela complacência. "E boa viagem."

O moreno agradeceu antes de fazer a reverência, deixando a mansão sorrindo e esquecendo-se momentaneamente o que aquele "boa viagem" significava.

x

Ele assistiu ao nascer do sol de dentro do carro, tendo como única companhia o buquê de rosas brancas no banco do passageiro. Aquelas estradas e aqueles caminhos não lhe eram estranhos, tendo sido percorridos pelos últimos anos naquele mesmo dia. A distância normalmente levava de duas a três horas de viagem, mas Niccolò não notava o passar do tempo, percebendo apenas que havia chegado ao estacionar o carro. Naquele dia seu corpo se moveria automaticamente, realizando ações e respondendo a perguntas de forma ensaiada e mecânica.

Niccolò foi casado por dois anos, quatro meses e seis dias.

O casamento, no entanto, durou menos tempo. Nunca houve amor, mas respeito. Nenhum deles derretia-se de paixão e o compromisso foi mais político do que emocional. A Família da noiva queria formar uma aliança com os Cavallone e não havia melhor maneira do que o casamento. Niccolò teve pouca escolha no assunto e, ainda que soubesse desde o começo que era a segunda opção, ele aceitou o que a vida lhe oferecia.

O campo era vasto e verde até onde seus olhos conseguiam alcançar. Árvores vistosas foram estrategicamente plantadas e ao seu redor havia um círculo de flores, como se estivessem ali unicamente para protegê-las. As flores não eram iguais, assim como suas cores. No auge da primavera, aquele cenário inundou seu coração com gratidão por ter a chance de ver tal espetáculo, mesmo que os motivos que os levaram até ali não fossem tão alegres.

A caminhada durou alguns minutos e naquele curto espaço de tempo Niccolò não teve companhia. O local que ele procurava surgiu embaixo de uma vistosa macieira protegida por belas flores amarelas. Seus olhos se fecharam e seus joelhos se flexionaram enquanto pousava o buquê de rosas brancas em frente à lápide.

"Olá, Elena."

Eles se casaram há pouco mais de dez anos, uma pequena e simples cerimônia em uma pequena e simples igreja. Muitos dos membros da Família gostariam de ter participado, contudo, uma comitiva tão grande acabaria chamando atenção indevida e para todos os efeitos aquele era um casamento comum, de pessoas comuns, e não mafiosos. Ivan, todavia, fez questão de participar e foi o primeiro a abraçá-lo depois que foram declarados marido e mulher. Aquele dia, que para muitas pessoas é considerado o mais importante de suas vidas, para ele foi somente mais um dia. Sua vida sempre fora uma sucessão de acontecimentos premeditados e padronizados, como se o poder de escolha nunca houvesse, de fato, chegado até suas mãos. Desde criança cada passo havia sido dado na sombra de seu pai.

Elena era a única filha mulher de uma nova Família. Como era costume, a melhor maneira de manter uma duradoura aliança com outra Família era através do casamento. Casar-se com o Chefe dos Cavallone estava fora de cogitação, então ficou a cargo de Niccolò aceitar a mão da moça, apesar de a tarefa ter passado para ele porque outro a recusou. Nenhum deles fez objeção ao casamento, pois sabiam que o direito de escolha era inexistente. Elena carregava o peso de unir sua Família aos Cavallone e Niccolò não viu motivos para rejeitá-la. Seu próprio pai havia se casado após um acordo, logo, não haveria outro caminho para ele.

A paixão deu lugar à convivência harmoniosa e por alguns anos o moreno teve sob seu teto a companhia de outra pessoa. Elena era quieta e modesta, atenciosa com os vizinhos e benquista pela Família. A coexistência entre eles era tranquila e por essa razão não foi difícil disfarçar ao ser questionado quando a casa ganharia mais um membro. Niccolò sempre respondia com um olhar baixo e recebia sorrisos e risadas como resposta, seguidos por discursos de incentivo. A casa em que moravam dois não moraria três.

Elena não podia ter filhos.

A descoberta veio após dois anos de casados, quando Elena foi examinada por um médico inglês. O casamento nunca foi regado por desejo, mas ele cumpria seu papel como marido e achou estranho que depois de anos sua esposa não houvesse engravidado. A notícia foi recebida com grande tristeza pela família de Elena, que desejava ardentemente que um herdeiro pudesse uni-los definitivamente aos Cavallone, ainda que indiretamente.

Elena mudou após a descoberta da infertilidade. Eles nunca mais voltaram a dividir a mesma cama e aos poucos ela deixou de frequentar a sociedade. Seus dias eram passados dentro do quarto, entre livros e cochilos, e esse estilo de vida durou pouco mais de dois meses. E, então, de um dia para o outro ela passou a voltar a sair de casa. O sorriso retornou e com ele os longos passeios que duravam quase todo o dia. Muitas vezes Niccolò retornava para casa e a esposa ainda não havia chegado. A mudança aconteceu diante de seus olhos, mas ele nada fez para evitá-la. Por algumas semanas ele sentiu como se houvesse voltado a morar sozinho e intimamente isso muito lhe agradou. Uma vida tranquila e sossegada era tudo o que o moreno sempre desejou.

O último passeio de Elena aconteceu em um chuvoso dia de primavera. As temperaturas estavam baixas e há dias a chuva não dava trégua. As estradas estavam péssimas, os pastos encharcados e havia muito trabalho na mansão. A vida dos Cavallone mudara com a presença de Alaudi e a rotina de Ivan foi alterada completamente. Niccolò às vezes não retornava para casa, ilhado e dormindo em um dos quartos de hóspedes da grande casa. Naquele dia, porém, ele voltou tarde da noite. Elena estava em casa, molhada pela chuva e inconsciência na sala de estar.

A esposa nunca mais deixaria aquela casa, pelo menos com vida. Devido à friagem, Elena adoeceu e seus últimos dias foram passados sobre a cama, delirante e recebendo cuidados. O médico da Família foi o responsável por sua saúde, mas nada poderia ser feito pela paciente. Niccolò não mudou sua rotina, contudo, passava as noites em uma cadeira ao lado da cama. Em uma dessas noites, a esposa o acordou de um cochilo, chamando-o com sua fraca voz. Aquele foi um raro momento, visto que devido à medicação ela dormia basicamente todo o tempo.

Aquela seria a última conversa que teriam, embora Niccolò se lembrasse de apenas alguns pedaços. A cada frase Elena pedia perdão, desculpando-se por estar doente, por não poder ter filhos e por não ser a esposa que ele merecia. Sua voz soava quase um sussurro e ele ouvia a tudo quieto e amparando-a com um de seus braços. Em determinado momento duas gordas lágrimas escorreram pela magra face e seu último pedido de desculpas foi por tê-lo traído.

"Eu sei," foi a única coisa que ele conseguiu dizer. "Eu sempre soube."

Elena faleceu no fim da manhã do dia seguinte. O enterro foi em sua cidade natal, e pelos últimos anos ela dormia embaixo daquela macieira. Em todas as primaveras, no dia de sua morte, Niccolò a visitava, presenteando-a com um buquê de rosas brancas, suas favoritas. Aquele era o único dia do ano em que ele se ausentava do trabalho, muito mais por pressão de Ivan do que vontade própria. Casar-se com Elena o havia ensinado uma valiosa lição, ainda que ele não guardasse rancor da falecida esposa. Como homem, talvez, ele devesse ressenti-la por traí-lo, mas Niccolò não conseguia juntar energia suficiente para se importar.

Quando todos os pertences de Elena retornaram para casa e ele viu-se novamente sozinho, o moreno percebeu que o motivo de sua indiferença era a inexistência de sentimentos em relação ao seu finado casamento. Durante aqueles anos ele honrou seu papel como marido, respeitando-a e estando ao seu lado na alegria e na doença. Nenhuma mulher esteve em seus braços ao longo do tempo em que foram casados e nunca havia faltado comida na mesa. Então, onde estava o Amor? Havia Elena encontrado amor na relação com outro homem? Aquela pessoa foi capaz de fazê-la feliz? Fora ele o motivo dos renovados olhos brilhantes e do sorriso de menina que surgira depois de tantos meses trancada em seu quarto? Niccolò nunca saberia.

O que ele sim sabia era que sua parte estava feita. O que a sociedade esperava dele havia terminado com a morte da esposa e não haveria mais motivos para que lhe cobrassem responsabilidades conjugais. Ele havia se tornado um viúvo e ganhara o direito de receber olhares complacentes e toques amigáveis em seu ombro esquerdo, além de poder dizer que não tinha interesse em um segundo casamento. As pessoas eram incrivelmente simpáticas e compreensivas, provavelmente achando que a falecida esposa era insubstituível. Niccolò nunca desfez aquele mal-entendido, sentindo-se confortável com a ideia de não ser mais cobrado para ter uma família.

Os galhos da macieira moveram-se com o vento e as flores dançaram. Seu corpo virou-se e, ajeitando o chapéu em sua cabeça, ele retornou pelo caminho que havia feito.

"Até o próximo ano, Elena."

x

O sol havia se posto quando Niccolò retornou a Roma. A viagem de volta sempre parecia levar mais tempo e talvez por esse motivo naquela noite ele faria algo que raramente estava em seus planos. Após jantar em um restaurante, o moreno deixou a rua conhecida pela diversidade gastronômica e seguiu pela região central a pé. O carro fora deixado em um ponto estratégico, longe dos olhares e seguro para o seu retorno. Normalmente, aquele tipo de passeio era dado esporadicamente, já que o trabalho consumia quase todas as horas de seu dia. Entretanto, em algumas noites ele deixava a propriedade da Família e seguia até Roma atrás de companhia. Não havia ninguém lhe esperando em casa e a vida deveria ser vivida pelos vivos.

Longe das residenciais, Roma possuía diversão garantida para todos os gostos. Alguns estabelecimentos só funcionavam aos finais de semana, entre eles o que Niccolò estava acostumado a frequentar. O local era considerado de classe alta e as acompanhantes custavam quase metade de um salário, mas não havia um cliente que saísse insatisfeito. Pelos últimos anos aquele foi seu refúgio, mesmo que naquela noite tudo o que o recebeu foi a porta fechada e o aviso de que estariam totalmente operantes no final de semana. E hoje ainda é segunda-feira...

Ao contrário de certo alguém que ele conhecia e que não merecia ser mencionado, Niccolò não tinha muito conhecimento sobre bons lugares para frequentar na busca por boas companhias. Seu lugar favorito (e o único que ele conhecia) lhe fora apresentado por um dos motoristas e ele não se deu ao trabalho de procurar outros. A ideia de voltar para casa e terminar o dia com uma garrafa de vinho parecia tentadora, mas seria um desperdício retornar de mãos vazias. O som de risadas chamou sua atenção e ele se deu conta de que havia caminhado até uma rua repleta de bares.

O local escolhido era um pouco afastado das risadas e gargalhadas. Niccolò queria degustar sua bebida em um ambiente não muito barulhento e sem muitas pessoas. Obviamente que tal empreitada era difícil, portanto a escolha foi feita por eliminação. A porta foi aberta e a luz irritou seus olhos por alguns instantes. O ar não estava tão carregado da fumaça de cigarros e charutos e não havia vozes muito altas. Como de costume, ele passou um rápido olhar pelo entorno apenas para garantir que não havia conhecidos. Não existe nada pior do que ser abordado por um rosto familiar no meio de uma bebida. Não havia muitas mesas vazias, a grande maioria fora tomada por grupos, com exceção de algumas mesas individuais localizadas nas extremidades. Perfeito.

Niccolò optou mentalmente pela cadeira próxima à parede, puxando-a sem fazer barulho e sentando-se. No entanto, algo fez barulho em contraste com seus movimentos silenciosos e que evitavam ao máximo chamar a atenção. Seus olhos se ergueram e foi então que ele percebeu que não estava sozinho na mesa. A pessoa à sua frente havia feito os mesmos movimentos, ao mesmo tempo, mas sem a leveza e claramente sem intenção de passar despercebida.

"Quem é você?"

As vozes soaram em uníssono. O moreno arrependeu-se rapidamente de ter escolhido aquele lugar, sabendo que não teria opção além de se levantar.

Não havia chance de ele ganhar a mesa quando seu oponente era uma mulher.

"Desculpe, eu não sabia que a mesa já estava reservada." A voz soou mais suave e os olhos menos intimidantes. A moça fez menção de se levantar, mas sentou-se quando Niccolò se colocou de pé.

"Não está," ele ergueu os olhos para procurar por outro lugar, porém, todas as mesas haviam sido ocupadas. Não me resta nada além de voltar para casa.

"Você está esperando por alguém?"

"Não, boa n—"

"Ótimo, então você pode me fazer companhia!"

A moça levantou-se e ergueu a mão para chamar um dos rapazes que passavam pelas mesas anotando pedidos e servindo os clientes. Niccolò viu-se voltando ao seu assento devagar, percebendo que havia perdido sua chance de ir embora. Uma mulher sozinha em um bar tarde da noite. Isso não pode ser bom... Seu olhar ergueu-se, fitando sua inusitada companhia que continuava a acenar para o rapaz. Ela aparentava ser jovem, vinte anos ou menos, tinha altura mediana, cabelos castanhos claros, levemente enrolados nas pontas e que batiam acima da altura dos ombros. Seu vestido era salmão, ou talvez rosa, embora a luz do local não ajudasse muito. Seu corpo era magro e suas curvas inexistentes, visto que a linha do busto mal era vista. A visão o fez suspirar.

Niccolò gostava de curvas.

O rapaz atravessou quase todo o bar para chegar até a mesa e pelo sorriso que ofereceu à moça era óbvio que se conheciam.

"O que você vai querer?" A jovem o encarou e naquele instante o moreno percebeu que, apesar de seu corpo deixar a desejar, seu rosto era absolutamente belo. Os lábios rosados e bem preenchidos, os dentes brancos e alinhados, e o nariz fino. Agora, eu entendo...

"Vinho... tinto..."

"O mesmo para mim," a moça sorriu, "traga a garrafa, Fabrizio."

O rapaz sorriu e voltou a cruzar o bar, deixando-os sozinhos.

"Você não é daqui." Niccolò percebeu o sotaque quando ela perguntou o que ele gostaria de beber. Por isso ela está sozinha. Em seu país talvez seja normal frequentar bares tarde da noite e desacompanhada.

"Não, mas achei que já havia conseguido disfarçar um pouco."

"Eu não teria percebido se não estivesse prestando atenção."

Ele só notou o que havia dito quando viu o meio sorriso acompanhado por um charmoso ajeitar de cabelo que roubou toda a sua atenção. Talvez fosse o ambiente, a fumaça dos cigarros. Talvez por aquele dia ser o pior dia do ano. Ou, talvez, por estar na rua com o intuito de companhia, estar próximo de uma mulher tão estranhamente atraente o fez dizer aquilo. Geralmente não havia necessidades de rodeios quando lidava com prostitutas, mas a moça à sua frente não parecia estar naquele ramo de profissão, logo, certas sutilezas eram necessárias.

"D-Desculpe, eu não tive a intenção..."

"Eu não me ofendi," a moça desviou os olhos por um instante antes de voltar a encará-lo. "Mas, agradeço a atenção."

O retorno do rapaz aconteceu no momento perfeito, uma vez que o silêncio havia reinado sobre a mesa e a pressão era esmagadora. A garrafa de vinho foi pousada ao centro, seguida por duas taças. Ela tem bom gosto. O líquido preencheu ambas as taças e Niccolò só fez menção de pegar a sua depois que a moça o fez. Havia um magnético charme no modo como ela bebericava o vinho, levando somente uma parte do vidro aos lábios e deixando que o líquido descesse por sua pequena boca. Ele sentiu a garganta seca, ainda que sua boca houvesse se enchido de saliva. Seu baixo ventre respondeu prontamente e qualquer dúvida da atração que pudesse, ou não, sentir pela moça desapareceu.

"Delicioso..." a taça foi pousada sobre a mesa com menos da metade de seu conteúdo. "Este é o único estabelecimento que vende este vinho. Eu me acostumei a vir aqui todas as semanas somente para apreciá-lo."

"Certamente, é uma excelente safra," Niccolò conhecia o sabor. Era o favorito de Ivan Cavallone. "Você tem muito bom gosto."

"Não é?" A moça agradeceu depois que o moreno a serviu mais uma vez. "Então, o que você faz aqui? É a primeira vez que lhe vejo."

O gole foi longo o bastante para incentivá-lo a contar a história imaginária que o momento exigia. Quando vinha a Roma atrás de diversão, Niccolò sempre tinha uma história pronta para contar quando questionado, assim como um nome falso. Ele já foi Fabiano, Luccas, Alfonso e Gustavo, mesmo que as prostitutas dificilmente perguntassem seu nome. O importante era o dinheiro no bolso, mas isso não seria o suficiente naquela noite.

"Acabo de voltar de viagem. Fui à Nápoles a trabalho." Niccolò estudou a jovem esperando algum sinal de dúvida, mas não viu nada. "Você?"

"Eu moro aqui, digo, não aqui, mas em Roma. Este é meu refúgio às segundas-feiras."

"É um pouco perigoso para uma jovem estar desacompanhada a essa hora."

"Eu vivo na Itália há anos e conheço quase tudo, mas agradeço a preocupação."

A conversa trivial continuou até a garrafa terminar. Niccolò pediu que uma segunda fosse trazida e recebeu um caloroso sorriso como resposta. Sua tolerância para álcool não era alta e ele tinha certeza de que após aquela garrafa não conseguiria dirigir para casa, mas não se importava. Os assuntos pessoais mudaram para opiniões sobre comidas e lugares e ele surpreendeu-se ao perceber que a moça já havia visitado outros países. Ouvi-la falar sem timidez e de maneira assertiva era hipnotizante.

O moreno estava acostumado às mulheres de sua sociedade, cujas vozes eram baixas demais e os modos recatados e falsos. Ver uma mulher tão diferente criava um impasse em sua moral: parte dele gostaria de ouvi-la falar sobre qualquer coisa enquanto bebiam noite adentro; a outra desejava vê-la nua sobre uma larga cama, perdida entre lençóis de seda, chamando seu nome, seu verdadeiro nome, todas as vezes que a possuísse.

A realidade o atingiu quando a terceira garrafa terminou. Seus dedos começavam a formigar e aquele era o estado máximo que ele se permitiria ficar em público. Sua posição na Família não consentia que ele acabasse inconsciente em alguma vala, então o melhor a ser feito era despedir-se e arrastar-se até o carro, onde provavelmente passaria a noite.

"Eu acredito que cheguei ao meu limite." Ele perdera a conta de quantas taças havia bebido.

"Você está adoravelmente corado," a moça sorriu. Ela não parecia afetada pela bebida.

"Eu me sinto confiante de que posso pelo menos acompanhá-la até sua casa."

"Agradeço o convite, mas meu carro está na esquina. Posso confortavelmente chegar em casa sem problemas."

"Você dirige?" Seus olhos se arregalaram. Aquela era a primeira vez que ele ouvia sobre uma mulher que dirigia. A ideia soava absurda.

A moça o olhou e soltou uma gostosa gargalhada. Ao contrário das risadas que ele procurou evitar ao passar pelos bares daquela rua, aquela muito lhe agradou. A jovem cobriu os lábios com uma das mãos e o modo como suas bochechas coraram enquanto ela tentava conter-se o fez sentir-se bem. Ela realmente é uma rara mulher.

"Bem, eu me despeço aqui."

Niccolò levou a mão ao bolso do casaco e pousou o valor das garrafas de vinho sobre a mesa e uma boa quantia para o rapaz que os havia atendido. A moça apressou-se em dizer que pagaria uma parte, mas aquela gentileza era demais para ele. Não havia a menor chance de Niccolò deixar uma mulher pagar por sua bebida, ainda mais uma que havia sido tão boa companhia. Ela pode andar sozinha à noite, frequentar bares e dirigir, mas continua sendo uma mulher. Um breve gesto com a mão deixou claro que ele não aceitaria e então o moreno sentiu que estava pronto para ir. Suas pernas o colocaram de pé e a próxima coisa que ele viu foi o bar inteiro girar. Oh, não...

A certeza do encontro ao chão foi tão viva que seus olhos se fecharam por puro instinto. Eu bebi demais. Meu Deus, que vergonhoso... Imaginar-se caindo de bêbado em um bar e na frente de uma mulher como aquela o fez sentir um profundo embaraço, que foi provavelmente o que o impediu de entender que a situação não era tão fatídica quanto ele esperava. O chão continuou onde estava e, ao invés de encontrá-lo, alguém o havia amparado e evitado sua iminente queda.

"Você está bem?" Seus olhos se abriram e a primeira coisa que viram foi o belo rosto da jovem, tão próximo que se ele quisesse poderia beijá-la sem esforço.

"Sim... e não." Com exceção do rosto, todo o restante parecia girar.

"Eu vou levá-lo até o meu carro e você me diz onde devo deixá-lo."

A jovem não esperou resposta, acenando para o atendente e dizendo meia dúzia de palavras que ele não compreendeu.

Niccolò ganhou a rua com passos curtos e envergonhado demais para olhar ao seu redor. A noite estava fresca se comparado ao interior do bar e os sons foram ficando para trás conforte eles seguiam pela rua. Sua consciência parecia flutuar e ele se esforçava para não tropeçar e causar uma comoção maior. Os passos cessaram e Niccolò sentiu quando foi colocado dentro de um carro. Sua cabeça encostou-se ao banco e seus olhos se fecharam, tentando concentrar-se na tarefa de lembrar-se de onde havia estacionado o próprio carro.

"Como se sente?"

A voz entrou por seus ouvidos como parte de um sonho, trazendo-o para a realidade aos poucos. Niccolò abriu os olhos devagar e mais uma vez a bela face estava próxima o bastante para um beijo. Dessa vez, porém, ele não perderia a oportunidade. Seu rosto abaixou-se um pouco e a bebida o deixara ousado a ponto de roubar um beijo daquela estranha e hipnotizante mulher, o que provavelmente lhe renderia um tapa.

Os lábios eram macios como ele imaginou e ela cheirava tão bem que Niccolò se arrependeu de não tê-la beijado antes. Agora, o tapa... Seu rosto inclinou-se um pouco para trás a fim de encerrar o beijo que lhe custaria um dos lados da face, ao mesmo tempo em que sua companhia pendeu para frente. O que começou com um esbarrar de lábios se intensificou quando a moça deslizou a língua para dentro de sua boca. Ele não teve tempo para ficar perplexo, segurando-a pelo rosto e recebendo de braços abertos aquela surpresa.

O beijo foi longo e intenso, com direito a baixos gemidos. O moreno não se lembrava da última vez que havia sido beijado com aquele desejo, uma carícia tão impetuosa que a sensação de satisfação se espalhava por todo seu corpo, especialmente seu baixo ventre. O modo como os lábios se moviam em uma perfeita sincronia com sua língua era excitante. A certeza de que ele desejava possuir aquela mulher fez seu sexo tremer, como se já pudesse imaginá-la tocando-o intimamente, seus longos dedos ao redor de sua ereção... como realmente acontecia.

Os ruídos do beijo abafaram os movimentos iniciais, mas já não era possível omitir os sons que a mão fazia quando subia e descia vigorosamente por seu sexo. Niccolò abriu os olhos, recebendo uma leve mordida em seu lábio inferior, que foi seguida por um travesso sorriso. A moça abaixou-se sem aviso e a mão esquerda foi substituída por sua boca, que envolveu o membro por completo e deixou que atingisse o fundo de sua garganta.

Ele não gostava de fazer nada sexual sob o efeito da bebida, pois ofuscava as sensações e não permitia que sentisse totalmente os estímulos. Contudo, aquele minuto foi sentido completamente, a língua, os lábios, o interior úmido e quente daquela pequena boca. Cada segundo conseguia suas melhores reações e o gemido que seguiu o orgasmo foi genuinamente prazeroso.

A moça ergueu-se devagar, passando discretamente a ponta dos dedos pelos lábios. Niccolò não esperou que ela se endireitasse, beijando-a novamente e sem se importar que aqueles mesmos lábios estiveram em seu sexo. Sua companhia apreciou o gesto, pois retribuiu a carícia e por mais uma vez ele sentiu aquele beijo capaz de afastar qualquer outro pensamento.

"Eu quero você," foi a única coisa que ele conseguiu dizer. Suas mãos seguraram a face à sua frente e ele esperava que sua voz não houvesse vacilado e que seus olhos demonstrassem sinceramente o desejo que sentia.

"Você tem certeza?" A pergunta foi feita com seriedade e Niccolò, naquele momento, não viu motivos para mentir. Seu corpo era honesto o suficiente para ter deixado claro que sua declaração fora verdadeira. "Então vamos sair daqui."

O que aconteceu depois que o carro deslizou por aquela rua foi um conjunto de confusos fragmentos. Sua atração por aquela pessoa era tão forte que seus lábios não conseguiam deixar sua pele, beijando o pálido pescoço enquanto suas mãos procuravam uma maneira de entrarem por debaixo do vestido. A moça apenas ria, pedindo sem muita convicção que ele se comportasse, embora não fizesse nenhum gesto sério que demonstrasse que gostaria que parasse. Niccolò não percebeu quando desceram do carro, mas notou quando entraram em um hotel noturno. As escadas foram percorridas às pressas e quando a porta finalmente foi fechada seu autocontrole desapareceu.

Os finos braços foram passados ao redor de seu pescoço e suas mãos abriram o vestido sem gentileza e sentindo os botões sendo estourados. Mentalmente ele prometeu a si mesmo que a levaria na manhã seguinte a loja mais cara da cidade para que pudesse escolher o melhor e mais belo vestido da Itália. As roupas foram ficando pelo chão e formando um caminho indecente que só parou quando chegaram à larga cama.

O depois, no entanto, foi uma sequência de cenas e ocorridos. Ele sentiu os beijos, os toques e a sensação incrível de devorar aquela mulher. Eles experimentaram posições e lugares, da cama ao tapete, da poltrona de veludo à parede decorada por rosas vermelhas. Niccolò a amou como se fosse sua última noite na Terra, ainda que não se lembrasse de nada.

A única coisa que ele se recordava era de que alguma coisa diferente havia acontecido, algo novo e que ele nunca havia feito antes. E, então, sua consciência se esvaiu.

x

Cinco horas da manhã, foi a primeira coisa que ele pensou quando seus olhos se abriram.

Aquele não era seu teto.

Aquela não era sua cama.

E aquele definitivamente não era seu quarto.

Niccolò sentou-se com rapidez, somente para voltar a se deitar devagar, sentindo como se um peso estivesse sobre sua cabeça. A dor era tão pontual que lhe roubou preciosos segundos de cognição, um tempo que ele infelizmente não tinha. A realidade retornou aos poucos, mas ele precisou esforçar-se para lembrar-se de onde estava. O rosto da moça é a única coisa que vale a pena ser lembrada. O bar, as garrafas de vinho, a sua quase-queda... depois disso tudo desapareceu. O que eu estou fazendo aqui? Seus olhos fitaram o quarto e pela qualidade dos móveis ele deduziu que estivesse em um caro hotel.

Seu corpo colocou-se de pé com esforço e o levou até a janela. O céu ainda estava escuro e as ruas desertas. Não havia ninguém no quarto além dele, e tudo parecia perfeitamente limpo e arrumado. Ela deve ter me trazido para cá depois que desmaiei. Que vergonha, meu Deus. Niccolò respirou fundo, caminhando até o pequeno lavatório dentro do quarto. Sua mente racional não demorou a começar a funcionar, mesmo que a dor de cabeça tentasse a todo custo impedi-lo de pensar. A viagem até a mansão lhe consumiria pouco mais de uma hora, o que tornava seu atraso iminente.

A ideia de apresentar-se diante de Ivan naquele estado estava fora de cogitação, então ele precisou aceitar a ideia de que, pela primeira vez desde que começara a trabalhar para os Cavallone, chegaria atrasado. A água fria em seu rosto serviu para acordá-lo e ele gastou menos de dois minutos para estar apresentável. A última olhada pelo quarto deixou um gosto estranho em sua boca. Ele sentia que estava se esquecendo de alguma coisa, mas não sabia exatamente o quê.

"Sua estadia já foi paga, senhor." A moça da recepção cordialmente respondeu ao ser questionada sobre o valor devido. "Espero que tenha se divertido."

A falta de tempo o impediu de pensar profundamente no teor daquela declaração e Niccolò percorreu as ruas às pressas, sem precisar se preocupar com carros ou pessoas perambulando pelas calçadas. Seu veículo estava um pouco afastado e ele martirizou-se por ter de caminhar quase dez minutos até finalmente chegar até seu carro. A viagem de volta à mansão poderia ter sido mais rápida se a neblina não o tivesse obrigado a diminuir a velocidade por mais da metade do caminho. O sol já havia nascido quando ele cruzou o portão principal, seguindo para sua casa sem questionar nenhum dos empregados.

O banho foi rápido e Niccolò agradeceu por ser uma pessoa metódica e ter sempre várias trocas de roupas novas e passadas dentro do guarda-roupa. Ao deixar sua casa, contudo, o peso do atraso o acertou ao ver que já havia vida na pequena vila. Receber os cumprimentos dos vizinhos era reconfortante, mas serviu unicamente para lembrá-lo de que, em um dia normal, ele já estaria na mansão repassando ordens. Eu espero não vê-lo ao chegar. Meu dia não pode ficar pior do que isso.

Mario estava na escadaria principal quando ele cruzou o jardim com passos apressados. A mão direita arrumou seus cabelos, garantindo que eles estivessem perfeitamente arrumados. O ruivo, porém, nada demonstrou, apenas retirou os olhos do jornal que tinha em mãos e desejou um desinteressado bom dia, voltando a descer como se não houvesse notado seu atraso. Niccolò não teve tempo de sentir raiva ou responder ao cumprimento. A porta principal se abriu e Francesco e Catarina saíram juntos e seguidos por Giuseppe.

"Bom dia, Nicco!" Catarina saltitava, pulando os degraus e ouvindo represálias de Francesco, que pedia que a irmã parasse.

"B-Bom dia," foi a única coisa que ele conseguiu dizer.

"Bom dia," a voz o fez tirar os olhos dos herdeiros e Giuseppe o recebeu com um sorriso tão puro e sincero que Niccolò teve certeza de que era daquela forma que as pessoas eram recebidas ao chegaram ao Céu. Meu anjo...

"B-Bom dia e perdoe o atraso, eu n—"

"Niccolò," Uma das mãos do louro tocou seu braço com tanta gentileza e compaixão que se sua personalidade permitisse seus olhos teriam lacrimejado. "Você não precisa se explicar, eu entendo. Ivan está na biblioteca se você quiser falar com ele. Eu levarei Francesco e Catarina hoje. Sairemos mais cedo porque buscaremos Enrico antes. Você não precisa se preocupar com nada."

O moreno piscou várias vezes, consentindo com a cabeça e recebendo um sorriso como resposta. Giuseppe desceu o restante das escadas e ele permaneceu imóvel até vê-lo seguir na direção do estacionamento ao lado dos herdeiros. Seu corpo então se virou e Niccolò entrou na mansão, seguindo até a biblioteca e pronto para se ajoelhar se fosse preciso. A vergonha de encarar Ivan fazia seu estômago dar voltas e nem a angelical figura de Giuseppe conseguiu afastar a sensação de derrota.

O Chefe dos Cavallone o cumprimentou com um largo sorriso. O ar ao seu redor estava leve e por um instante Niccolò achou ter visto flores brotarem ao redor de Ivan. Ah, eu esqueci. O Inspetor de polícia passou a noite aqui. Talvez por aquele motivo o Chefe nada disse sobre seu atraso e a agenda daquele dia foi repassada como de costume. Ao final, ele mencionou que Giuseppe levaria Francesco e Catarina ao colégio, mas que Niccolò os buscaria no final do dia. Aquela foi a oportunidade que ele esperou para se desculpar e foi com uma longa reverência que pediu que Ivan o perdoasse pelo atraso.

"Do que você está falando, Niccolò?" Ivan pediu que ele se endireitasse. "Você não tem que se desculpar por isso."

"Sim, eu preciso, Chefe. Eu tenho a responsabilidade de levar seus filhos ao colégio todos os dias e hoje, por um descuido, precisei passar a tarefa para outra pessoa. Giuseppe tem seu próprio trabalho e eu não encontro palavras para me desculpar por isso." A voz soou grave e ele manteve-se na mesma posição enquanto falava. Encará-lo naquele momento estava fora de cogitação. "Aceitarei qualquer punição."

"Por que eu iria lhe punir?"

Ele ouviu quando seu interlocutor se levantou e seu rosto ergueu-se. O Chefe dos Cavallone caminhou até ele e com a maior naturalidade do mundo pousou uma mão em seu ombro.

"Niccolò, você é um dos melhores homens que eu tenho. Você nunca tirou férias, nunca se ausentou do trabalho e eu sei que você teve seus motivos para não cumprir com suas obrigações." Os olhos cor de mel se abaixaram e Niccolò entendeu o que estava acontecendo. Ele acha que me atrasei por causa da viagem para ver Elena. Recordar-se do motivo real de seu atraso o fez engolir seco. Aquela vergonha dificilmente deixaria sua mente tão cedo. "Tire o tempo que precisar. O trabalho estará aqui quando você voltar."

"Obrigado, Chefe, mas eu não preciso de mais tempo. E o que aconteceu hoje não voltará a se repetir. Se me permite, eu gostaria de seguir imediatamente para os meus afazeres."

Uma nova reverência acompanhou aquelas palavras e Ivan suspirou.

"Tem minha permissão."

Ele deixou a biblioteca sentindo-se a pior das pessoas e decidido a nunca mais trair a confiança de seu Chefe com bebidas ou mulheres. Nenhum dos empregados mencionou seu atraso, mas Niccolò se desculpou com cada um dos homens que estava sob sua responsabilidade, recebendo a mesma compaixão que Giuseppe e Ivan haviam oferecido. Seu trabalho daquele dia foi realizado com o mesmo compromisso e zelo, da inspeção em todos os carros da Família à viagem a Roma para buscar os herdeiros no fim da tarde. O colégio em que estudavam ficava afastado do centro e recebia somente os filhos das Famílias. Era um local de classe alta e todos os alunos possuíam alguma ligação com a máfia.

Como de costume, o carro foi deixado no estacionamento e ele caminhou até a entrada principal. Ali haveria dois ou três professores que só liberariam os alunos que estivessem acompanhados. Niccolò era velho conhecido, então basicamente todos os professores já sabiam que ele estava ali por Francesco, Enrico e, agora, Catarina. Os alunos eram dispensados por classes, dos mais novos aos mais velhos. Catarina foi a primeira a sair, aproximando-se com o mesmo sorriso travesso e lhe oferecendo sua mochila.

"Nicco, eu preciso resolver um assunto urgente antes de irmos."

"Onde pretende ir, senhorita?" Ele manteve a expressão séria, embora fosse um esforço. A garotinha tinha um jeito adorável de fazer coisas triviais soarem sérias.

"Eu preciso falar sobre uma das minhas aulas." O pequeno dedo indicador da mão direita apontou para o lado do portão onde os professores estavam parados e assistindo aos alunos saírem.

"Eu vou com você e esperaremos seu irmão e Enrico."

A garota assentiu e correu na frente. O moreno seguiu devagar, observando os alunos que deixavam o portão e imaginando que a grande maioria cresceria e se tornaria Chefe de sua respectiva Família. Às vezes ele lembrava-se de que Francesco e Catarina também faziam parte daquele mundo, ainda que fosse difícil imaginá-los adultos. Francesco será o novo Chefe e Catarina provavelmente se casará com alguém com laços com os Cavallone. A ideia de ver a preciosa menina de sorriso largo e olhos brilhantes passada adiante como mercadoria fazia seu coração ficar apertado. Em seu íntimo, Niccolò esperava que Ivan não colocasse a filha em tal destino. O que aconteceu com Elena ele não desejava a ninguém.

Catarina estava próxima ao portão de entrada, falando alegremente com alguém que a escutava com atenção. O meio sorriso em seus lábios por vê-la tão alegre, no entanto, foi desfeito tão gradativamente que foi impossível conservar-se inalterado. Ele viu quando a garota virou-se em sua direção, acenando com alegria. Sua companhia virou o rosto e como se alguém lhe houvesse atingido no estômago a noite anterior retornou tão bruscamente que ele mal sentiu a mochila deslizar por seus dedos e tocar o chão.

"Ah, Nicco! Minha mochila, minha mochila!"

"Você tem certeza?", foi repetido mentalmente várias e várias vezes.

A menina correu em sua direção enquanto a pessoa ao seu lado caminhava.

Niccolò esqueceu-se de onde estava e que deveria ficar atento para qualquer risco que pudesse colocar a vida dos herdeiros em perigoso. Catarina falava algo sobre sua mochila, mas infelizmente as palavras não chegavam aos seus ouvidos. Ele estava ocupado demais se recordando da noite passada. Do que aconteceu dentro do carro. Das roupas jogadas no chão do quarto de hotel, dos beijos, dos toques, da sensação de estar dentro daquela pessoa e de fazer sexo como ele nunca havia feito antes.

Porque, de fato, ele nunca havia feito aquele sexo antes.

"Boa tarde."

A voz era igual, mas diferente.

O mesmo rosto, os mesmos cabelos, mas roupas completamente diferentes. A bela mulher da noite anterior usava um vestido salmão com três botões nas costas e um laço na cintura. Ele lembrava-se bem do som que os botões fizeram ao serem estourados, batendo no abajur ao lado da cama antes de tocarem o chão. A pessoa à sua frente, entretanto, vestia calças, uma camisa social branca e um colete cinza. A semelhança era tão atordoante que sua mente se recusava a aceitar o que seus olhos lhe mostravam. Pois, não importava o quanto ele se esforçasse para negar, a pessoa que havia caminhado e parado à sua frente era definitivamente um homem.

"Seu nome," o jovem rapaz tocou sua mão direita, erguendo-a. O mero toque o arrepiou, obtendo a certeza que ele não queria admitir. Ele conhecia aquela pele. Ele havia tocado e beijado cada pedaço daquele corpo. "Você não me disse o seu nome. Seu verdadeiro nome."

"Niccolò."

Foi a única coisa que ele conseguiu dizer. O rapaz apertou sua mão, um aperto firme e masculino.

Em sua mente, o que ele via eram as costas nuas, movendo-se no ritmo das estocadas com aquela voz que pedia que ele fosse mais agressivo. A noite passada havia acontecido, não fora um sonho. Aquele à sua frente havia sido sua real companhia e nada daquilo fazia sentido.

"Perdão?" Ele viu os lábios se moverem, mas não escutou o que o rapaz disse.

"Jules. Meu nome é Jules."

A realidade retornou quando Catarina o puxou com força para avisar que Francesco e Enrico haviam chegado. Aquele breve momento de distração foi o bastante para acordá-lo do estupor e, quando voltou a olhar para frente, o jovem de nome Jules havia se afastado e caminhava na direção da entrada da escola.

Niccolò passou a mão na nuca, percebendo que suava frio. Ele não sabia o real motivo, mas sentia que alguma coisa estava para acontecer.

Sua vida estava prestes a mudar completamente.

- FIM.


Notas da autora:

Giulio e Mario finalmente ganharam uma história só deles 3

Sim, ela é curtinha, mas achei justo que esses dois tivessem a chance de brilhar sem os demais personagens. Francis x Giuseppe já tiveram um especial, agora só falta o Ivan x Alaudi...

Esta fanfic nasceu uma oneshot, e como SEMPRE acontece a história ficou longa demais para ser contada em um único capítulo. Além disso, eu precisava introduzir o novo personagem, então decidi fazer essa mini-fanfic. Antipasto é exatamente o que o nome sugere: um aperitivo para a futura longfic que postarei este ano. Nesses três capítulos eu deixei algumas dicas sobre o que escreverei na longfic, além de ter adicionado mais um personagem à narrativa.

O Niccolò era para ter entrado na história na última fanfic, mas não consegui encontrar uma maneira de encaixá-lo naquele enredo. Porém, dessa vez é impossível deixá-lo de fora e, poxa, o Jules merece ser feliz (ou não!). Muitas das perguntas que vocês me fizeram serão respondidas na longfic.

Sobre o lançamento, ele será no segundo semestre, possivelmente setembro. Já comecei a trabalhar na história e se seguir esse ritmo não precisarei adiá-la. Pode soar longe, mas já estamos em maio, setembro é um pulo! Entretanto, não pretendo sumir totalmente. Entre julho/agosto postarei uma fanfic de Kurobasu que já tenho guardada e o hiatus parecerá ainda mais curto~

Enfim, espero que tenham gostado do especial e agradeço por terem lido até aqui!

Obrigada a todos pelo carinho 3