Capitulo 2

Trato mal feito

Ao chegar em seus aposentos, o príncipe se deparou com um homem de cabelos castanhos e barba cerrada, musculoso, seminu, apenas com uma calça para a parte de baixo. Ele estava acorrentado a parede de seu aposento, de cabeça baixa, limpo e cheiroso como ele queria. Assim que fechou a porta atrás de si, Jared levantou o olhar azul cinza para o príncipe. Parecia fraco.

- Seu nome é Jared? – perguntou se aproximando. Afinal o homem não podia fazer-lhe mal uma vez que estava com pesadas algemas de braços abertos.

Jared fez que sim tristemente com a cabeça.

- Não vai falar comigo, homem bonito?

- O que o príncipe quer com um ferrado como eu? Pode me soltar e eu volto pra minha família, alteza... – respondeu humildemente

- E porque eu faria isso se prometi cuidar da sua família?

Jared fez uma expressão de raiva.

- Por que eu não acredito em nada do que a realeza diz... meu pai morreu lutando pelos Kvens...

Jensen se mostrou triste e pesaroso.

- Sinto muito, mas não somos todos iguais. Eu não sou meu pai, meus irmãos não são eu, nem eu sou eles...

- Lamento, príncipe, eu não acredito...

Levou outro tapa, revirando o rosto e deixando os cabelos ainda molhados escorrerem pelo rosto, escondendo seus olhos marejados de lágrimas.

Não vou aguentar muito disso, pai...me leve com você... – pensava Jared

- Por que não acredita que eu sou um bom homem?

Jared levantou o rosto e respondeu para não apanhar mais.

- Se fosse eu não estaria acorrentado aqui...

Jensen ficou chocado com a petulância de sua resposta porém não pôde achar incorreto. De fato estava acorrentado a sua parede e não era um homem livre como os demais. Mas como deixar livre tal criatura tão encantadora? Como deixar por ai ao alcance de outros príncipes de outros reinos, a alcance de mulheres baixas e vis, não podia mais permitir isso, estava envolvido.

- Eu salvei sua mão direita... não me deve nenhuma consideração homem? – Jensen se ajoelhou diante dele observando ainda mais de perto seu rosto, nenhuma cicatriz de batalha tinha ele, parecia um lorde.

- Sim, alteza, devo minha vida ao senhor... tenho imensa gratidão mas minha família morre de fome lá na aldeia.

- Quantas vezes vou lhe dizer que cuidarei disso hoje ainda? Você quer ir até lá ver com seus próprios olhos o que sou capaz de fazer? Nós iremos e verá...

- Se for possível, eu quero muito alteza...

- Será feita a vossa vontade, polonês. Mas antes eu quero tocar em você...- Jensen estava completamente embriagado pelo cheiro másculo do rapaz, pelos lindos olhos e boca, estava como que enfeitiçado.

- Alteza, depois que eu ver minha família receber o que o senhor tem a fazer, pode me tocar da forma que quiser...

- Eu não vou esperar tanto tempo...- estava sedento pelo toque de um homem, há quanto tempo não tocava ou era tocado por ninguém e mulheres não o satisfaziam. Ele queria possuir um homem como nunca havia possuído, nunca havia encontrado um a sua altura como agora.

Jensen tocou Jared no rosto com a ponta dos dedos, Jared tentou se mover e não permitir.

- Não se oponha a mim... – sussurrou bem perto do rosto perfeito – Salvei sua vida..

- Eu preciso ver minha família. – foi segurado a força e beijado, mas não esboçou qualquer reação. Apenas encarava os olhos do príncipe com raiva.

Jensen vasculhou o corpo do moreno com as mãos, de olhos fechados, sentindo cada curva, cada músculo perfeito, cada pelo masculino, afundando o rosto nos cabelos do outro. Jared começava a esboçar uma ereção mesmo sentindo tanta dor e fome. Aquele toque masculino o excitava e o príncipe era belo demais. Não sabia quanto tempo resistiria tentando conter uma ereção. Jensen se afastou.

- Certo... Nós vamos ver sua família, já que você só vai ser meu por inteiro quando eu cumprir minha parte no trato.

Bateram a porta dos aposentos.

-Sim?!

- Guardas reais, viemos trazer o pedido de vossa alteza!

- Podem entrar!

Os guardas evitaram olhar Jared, apenas entraram com uma cesta imensa de verduras, frutas, pães, leite em um galão, grãos e sementes. Parecia um banquete de um mês para uma pobre família de Kvenland.

- A cabra esta la fora, alteza, quer que levemos agora tudo?

- Não, ele vai junto, ele quer ver! Preparem uma comitiva real!

- Sim, vossa alteza.

Os guardas saíram.

- Parece que minto muito não? – Jensen sorriu

Jared o olhava ainda um tanto incrédulo.

- Será que o sabor desse beijo e o gosto desse corpo vão me recompensar?

Jared ergueu o olhar para ele e decidiu colaborar.

- Pode ter certeza, alteza, meu corpo será seu mas a ajuda deve ser mensal.

- Que seja, o que você desejar, mas não quero só o corpo...

Jared não entendeu.

- Quero sua alma, quero confiar em você, quero te libertar e que sinta vontade de ficar e não de me matar ou partir...

- Enquanto cumprir sua parte, eu cumprirei a minha, somos homens de negócios não somos?

Jensen olhava curiosamente para ele. Falava tão bem. Não falava como um aldeão sem instrução. Estava curioso em saber a fundo quem era mas isso seria uma tarefa árdua.

Em meia hora estavam em comitiva até a aldeia, quatro cavaleiros armados até os dentes, a carroça real com um guarda junto ao príncipe e o prisioneiro. Meia hora de cavalgada e estavam no terreno dos poloneses.

Jared saltou com lágrimas nos olhos ao ver a mãe na cancela de casa.

- Mãe! – ele correu mesmo com as correntes e a abraçou, ela chorava muito.

- Meu filho!

Jensen saltou escondendo algumas lágrimas que insistiam em brotar de seus olhos. Naquele momento sentiu-se a pior pessoa do mundo inteiro. Mas precisava levar seu plano de ter aquele homem para ele a frente. Viu as irmãs menores saírem de casa assustadas e abraçarem o irmão mais velho.

- Mamãe, eu não posso demorar – ele a levou até Jensen que sorriu para a velhinha. – Esse é o príncipe Kven, Jensen seu nome... Ele vai me levar de volta em segurança ao castelo Kven mas vai trazer comida todos os meses para a senhora ta bem?

- Como meu filho? Você vai para o castelo?

- Vou sim, mãe, eu vou entrar para a guarda real, não é maravilhoso?

Jensen sentiu-se péssimo ao ouvir aquilo. Sabia que o desejo de todo jovem Kven era pertencer a guarda real, receber um salário em moedas de cobre e ouro e cuidar de sua família mesmo que ainda fosse guerreando. Sabia que não era isso que propunha a Jared e sentiu-se um canalha.

- Sim, meu querido, é maravilhoso...- ela olhou para o príncipe já com dificuldade devido a catarata e se ajoelhou.

- Não por favor, senhora!- gritou Jensen

- Não, mãe!

Ambos choraram. Choraram ao ver a senhora de joelhos no chão agradecendo por algo que não era verdade muito menos digno. Jared já não sentia mais forças para levantá-la pois não comia há dois dias. Sentiu tonturas.

- Mãe...mãe...eu vou conseguir tudo para a senhora, mãe...

Jared ainda pôde ver a cesta, a cabra sendo entregues a ela pelos guardas reais antes de desmaiar. Acordou na carroça ainda voltando para o castelo. Jensen passava um pano com água em sua testa e lhe oferecia leite e pão. Jared mal conseguia segurar o que lhe era oferecido mas Jensen ofertou-lhe na boca. O moreno mastigou e parecia melhorar a olhos vistos.

- Toda sua família é muito bonita... Precisa mesmo protege-las. Mas só eu posso fazer isso, sabe disso não sabe?

- Sim, alteza...

Chegaram aos aposentos reais e os guardas ajudaram Jared a deitar-se e recolocaram suas algemas em um leito perto do príncipe. Então, o pobre homem conseguiu dormir depois de comer o pão todo e beber o leite.

Jensen ficou observando aquele moreno escultural que bem poderia ser um guarda real. Poderia sim se seus planos fossem evitados pelo Rei. Ele poderia nomeá-lo guarda real e não soldado para que pudesse ficar sempre por perto, para que pudesse ser sempre o dono do moreno. Observava seu peito subir e descer com a respiração sob a luz do luar que já descia sobre a cidade de Kvenland. Teve vontade de tocá-lo mas não conseguia esquecer o choro da mãe polonesa, das irmãs com fome. Não achava decente fazer isso naquele momento, mas o desejo crescia forte dentro dele. Jared dormia profundamente. Achou que o melhor a fazer seria isso mesmo. Deitou-se e adormeceu.

~x~

Pela manhã, Jensen acordou e olhou Jared instantaneamente. Lá estava o moreno lhe olhando.

- Bom dia , príncipe...

- Você está bem? Está com fome?

Jared estranhou o trato carinhoso do príncipe. Jensen foi até ele e o tocou na testa.

- Você desmaiou de fome ontem mas ainda viu eu entregar tudo a sua mãe?

Parecia um tanto preocupado demais para alguém da família real.

- Vi sim, alteza...- fez uma pausa e olhou para a boca de Jensen – Acho que já quer saber se sou todo seu? Se vou colaborar?

Jensen se afastou.

- Não estou pensando nisso... preciso pegar café da manhã para você...

Jared levantou a cabeça, preocupado. Não era nada bom ter um príncipe tão interessado e de repente cheio de desinteresse, parecendo arrependido.

- Alteza, estou bem, não estou fraco mais.

- Mesmo assim, é preciso comer e beber água...- Jensen saiu do aposento.

Jared parecia transtornado. Por que de repente o príncipe não o queria mais? Do lado de fora, ele pediu aos copeiros comida, leite e água e assim que ficou sozinho, desatou a chorar. O que vira na aldeia tocou seu coração. Conseguiu algo que seu pai jamais conseguira em toda a vida. Ser tocado pela desgraça dos outros, do seu povo. Ele voltou ao quarto e sentou-se perto de Jared.

- O acordo foi quebrado meu príncipe? – perguntou Jared.

- N- não, eu estou apenas sentindo coisas que nunca senti...

Ficaram em silêncio alguns instantes, apenas quebrado pelo moreno.

- Minha mãe vai ficar bem...todos vão ficar bem se seguirmos o acordo.

- Eu fiquei meio louco por você assim que o vi – disse o príncipe

- E isso não é bom?

- Seria se não fosse um tormento para você...

Jensen ia se afastando.

- Principe, espera! – Jared falou um tanto desesperado- Quero ser seu...Não era o que queria? Que eu estivesse de acordo?

Mas algo tocou o príncipe profundamente. Não teve vontade de olhar para trás. Jensen saiu do quarto para pensar. Estava reflexivo demais para aquele momento.