A leitora apoiava a cabeça sobre o peito do Homem de Gondor, sentindo-lhe a essência. A mão dele pousada sobre a sua, enquanto o polegar masculino fazia uma leve carícia. Ela simplesmente não conseguia parar de sorrir...
Boromir, recostado à cabeceira da cama, também sorria discretamente.
- Pensei que o perderia... – comentou a leitora após um longo silêncio.
- Eu também pensei...
- Como veio parar aqui? – indagou pausadamente. Temia acordar de seu sonho.
- Eu não sei.
- Como pode não saber? – ergueu a cabeça, buscando pelo rosto de Boromir.
- Sou apenas um personagem. Minha existência depende da leitura de alguém. Sempre foi assim. Nunca soube de mais nada além daquelas páginas – disse, apontando o livro que ainda jazia sobre a cama.
A leitora suspirou.
- Talvez devamos deixar como está – disse docemente – ou você poderá ir embora se eu teimar em compreender o que não pode ser compreendido.
Boromir olhou-a longamente. Sabia que ela esperava dele uma resposta que ele mesmo não possuía.
- Eu realmente não sei o que está acontecendo. – sussurrou – Não sei por quanto tempo ficarei...
- Nunca houve momentos como esse antes? – perguntou ela. Ciúmes se insinuando.
Boromir percebeu, sorrindo-lhe em seguida.
- Não.
-...
- Não estou mentindo. Algumas conversas aconteceram antes. Trocas de olhares, enquanto as páginas eram folheadas, porém nunca algo assim – concluiu passando a ponta dos dedos no rosto dela – tão real. Nunca havia transcendido a folha escrita.
- Sei de muitas leitoras que sonharam com você – disse honestamente, enquanto se ajoelhava na cama – e que confessaram ter tido longas conversas e bons momentos.
- Apenas em suas mentes, posso lhe garantir.
A leitora sorriu. Era verdade. Nenhuma de suas amigas nunca havia descrito algo sequer semelhante ao que lhe ocorria naquele momento.
- Você tem um lindo sorriso... – disse o homem de Gondor, apercebendo-se de um detalhe importantíssimo que fora por ele negligenciado. Baixou os olhos.
- O que aconteceu?
Boromir corou, antes de responder.
- Eu... ainda não sei seu nome...
- Ah – disse, permanecendo em silêncio.
- E então?
- Então o quê?
- Não vai me dizer seu nome?
- É que eu não sei qual dos dois devo dizer...
- Qual dos dois? Ah, sim. Você tem algum título?
A leitora sorriu mais uma vez.
- Sim. Acho que posso dizer que é um título.
- E qual seria?
- ...
- Vamos. Preciso saber como chamá-la.
- É que eu teria que explicar de onde veio... o título.
- Então explique. Eu não vou a lugar nenhum.
A leitora passou a mão pela testa.
- Sabe aquelas leitoras de quem lhe falei?
- Sim...
- Elas... quer dizer... nós...
Boromir não tirava os olhos de sua companhia, deliciando-se com seu desconcerto.
- Nós também... escrevemos.
O homem de Gondor inclinou a cabeça para o lado.
- Escrevem? Sobre o quê?
- Sobre vocês.
Boromir quedou-se com a boca entreaberta, enquanto a leitora prosseguia com sua explicação. Se ela parasse, não saberia dizer ao certo se conseguiria retomar.
- E quando escrevemos usamos outros nomes que não os nossos.
- Seus títulos.
- Sim.
- Então quer dizer – ele prosseguiu, enquanto tomava o livro nas mãos – que existem outras histórias além dessas?
- Existem.
- E por que vocês fazem isso?
- Cada uma tem seus motivos. Amamos essas histórias como se elas fossem a continuação de nossas vidas. Amamos os personagens – disse, sem conseguir parar de corar – e escrevemos continuações, mudamos o que não gostamos, criamos novos personagens.
Boromir baixou os olhos, enquanto refletia consigo mesmo.
- Então, talvez seja isso – sussurrou.
- Isso o quê?
- Às vezes, a medida que a história vai se desenrolando, eu me sinto compelido a tomar outros rumos, embora saiba claramente o caminho que devo seguir. Vejo pessoas que não estão lá, em lapsos de tempo diminutos. Ouço vozes, porém sei que não fazem parte da história.
Foi a vez da leitora quedar-se com a boca entreaberta. Nunca imaginara antes que seus singelos textos poderiam alcançar seus queridos personagens.
Boromir voltou seus olhos para ela, com um sorriso enigmático.
- Então – prosseguiu o homem de Gondor – você escreve.
- Sim. – a leitora estremeceu.
- E já escreveu alguma coisa sobre...mim? – indagou, erguendo as sobrancelhas.
- Já, quer dizer, sobre você e seu irmão.
- Faramir – sussurrou o nome.
- Deixe-me ver – solicitou.
- Ver o quê?
- O que você escreveu!
A leitora tremeu. Olhou o notebook no canto do quarto. Ponderou, antes de se explicar ao guerreiro.
- Está bem. Talvez você estranhe um pouco este... bem... objeto.
Boromir sorria, enquanto a leitora abria o livro de metal. Pelo menos era isso que lhe parecia ser.
Ela abriu sua lista de histórias. Acessou as três que publicara. Borimir viu seu nome e o do irmão. Olhou para o objeto e para a face da mulher.
- Então esse é seu título?
- Sim, o que achou?
- Não poderia ter escolhido melhor. E sobre o que falam essas outras histórias?
A leitora estremeceu, sentindo que poderia ter problemas. 'Não', pensou consigo mesma. 'Ele não é nenhuma criança.'
- Bom, esta fala sobre o Arathorn...
Boromir franziu o cenho, antes de indagar:
- O pai de Aragorn?
- Sim...
- E esta? – apontou o dedo, decifrando as letras – Crônicas Arag...
O olhar de Boromir mudou. Ficou gélido. A leitora pode sentir o frio que vinha dele tomar conta de si.
- Escreveu sobre Aragorn?
- Sim, mas ainda não conclui – tentou disfarçar, sem perceber que havia piorado a situação.
- Então quer dizer que estava escrevendo sobre ele enquanto chorava por mim? – indagou colérico, erguendo-se da cama.
- Boromir! – chamou em vão.
O homem de Gondor bateu a porta do quarto. Ela se desesperou, levando a mão ao rosto. Como poderia ter explicado isso a ele? Fora Aragorn quem sempre a encantara. Desde o início. Aquela aparição em Bree. Os cabelos grisalhos. A descrição de Tolkien a cativara por completo.
Sempre admirara Boromir, porém o contato mais aprofundado com ele fora recente, ainda que intenso e houvesse resultado naquele encontro inaudito. Estava perdida. Não conseguia explicar nem para si mesma. Como poderia fazê-lo compreender? Não estava certa do que havia entre eles.
Correu em direção à sala, rezando para que ele ainda estivesse ali.
Estava.
Boromir permaneceu de pé, de costas para a porta do quarto. Ponderando. Esperando. A decepção corroendo-lhe o peito, enquanto buscava pelo equilíbrio perdido, que aos poucos retornava, e por explicações que o acalmassem e não o roubassem dela. Não agora...
A leitora não encontrava as palavras de que precisava para esclarecer a situação. Nem para ela mesma. Sentia-se como naqueles momentos nos quais os dedos não encontram o caminho que história deve seguir e param por semanas... meses... anos... encalhadas nos sites...
- Boromir... – sussurrou quase sem forças.
O homem de Gondor voltou-se para ela. Olhos cheios de sentimento. Alguma ira, porém, não apenas isso. Tristeza.
- Sinto se o decepcionei...
O guerreiro suspirou.
- Talvez eu tenha lhe decepcionado desde o princípio... – ele considerou.
A leitora quis responder, porém as mãos masculinas pousaram em seus lábios.
- Eu não nasci para ser rei. Não tenho a nobreza dos dunedain. Não resisti ao poder do anel. Falhei em muitos pontos. Como poderia competir com... – virou o rosto, sem conseguir concluir. A antiga inveja querendo se insinuar.
- Não poderia competir com meu Rei – disse firmemente, retomando a promessa que fizera a Aragorn. Não era homem de duas palavras.
A escritora-leitora estava consternada. Duas grossas lágrimas brotaram de seus olhos. E foram os dedos de Boromir a enxugá-las.
Um silêncio pousou sobre eles, acalmando os ânimos e trazendo conforto.
- Eu preciso ir – ele sussurrou.
- Não, por favor, fique, eu sinto muito.
- Shiii – disse com os dedos nos lábios femininos – não é culpa sua. Não estou mais com raiva. Sinto apenas que meu tempo acabou. Não sei explicar o fim, assim como não sei como tudo isso começou.
Dos lábios, os dedos percorreram a face, o pescoço, o ombro, antes de envolvê-la em um abraço repleto de ternura.
- Eu realmente preciso ir – disse novamente enquanto a muito custo se separava de sua... admiradora... – Adeus.
O homem de Gondor deu as costas lentamente, caminhando em direção à saída.
- Será que poderei vê-lo novamente?
Ele parou, voltando o rosto para ela com um sorriso enigmático.
- Talvez... quando você decidir escrever uma história sobre mim...
Boromir caminhou até a porta e ainda com a mão na maçaneta, concluiu:
- Ah... – disse, voltando-se novamente para ela – e se Aragorn tiver uma participação especial... eu não ficarei com ciúmes. Estou disposto a competir com ele de forma justa. Adeus... Nimrodel Lorellin.
