Boromir tremia sentado sobre a rocha. A primeira vista poder-se-ia dizer que o frio daquele início de noite era o culpado de roubar-lhe o calor do corpo, todavia o motivo era bem outro. Aqueles encontros inesperados e até então julgados impossíveis o deixaram mais exaurido do que qualquer campanha militar da qual houvesse participado.
Uma pequena Borboleta dourada pousara por sobre seu ombro, trazendo após si o jovem príncipe élfico. Boromir, contudo, não percebeu sua presença. Nem tampouco a de Legolas. Este, por sua vez, manteve certa distância, ainda inseguro de como faria para revelar a Boromir o motivo de seus tormentos – e venturas recentes.
Aproximou-se da pedra sobre a qual Boromir se assentara, chamando-o pelo nome.
- Boromir, filho de Denethor.
O soldado deu um sobressalto, erguendo-se diante do eldar.
- O príncipe do Reino da Floresta – disse com voz rouca.
O elfo assentiu.
O ádan olhou em volta, dando-se conta de que não sabia onde estava. Percebendo a confusão de seu interlocutor, Legolas interviu.
- Está em Eryn Lasgalen, no Reino de meu pai.
Boromir, todavia, não dava mostras de que compreendia melhor do que antes o que estava acontecendo. O elfo conduziu-o.
- Sente-se, por favor. Asseguro-lhe que posso lhe explicar tudo.
O homem de Gondor continuava sem compreender. Legolas insistiu com o olhar e Boromir cedeu, sentando-se novamente. Contudo, tomou a iniciativa do diálogo.
- Diga-me, príncipe, o que está acontecendo?
O eldar tomou fôlego, antes de iniciar suas explicações.
- Você passou por muitas coisas ultimamente, não?
- Pode-se dizer que sim – respondeu Boromir.
- E receio que eu tenha... digamos... certa responsabilidade sobre boa parte delas.
Boromir franziu o cenho.
- Não está falando sobre a Sociedade do Anel, está, príncipe?
Legolas balançou a cabeça em uma negativa.
- Refiro-me, caro Boromir, a algo de natureza um pouco mais pessoal.
O homem de Gondor quedou-se com a boca entreaberta. E após um instante de silêncio intentou uma indagação.
- E-ela...
O elfo assentiu.
- Co-como?
Há muita coisa que você não sabe. Ainda que tenhamos sidos criados pelo mesmo autor, meu caro Boromir, nossas naturezas são distintas. Nós, os elfos, somos imortais. Criados para seguir o destino do mundo até o seu final. Vocês, os edain, têm com o mundo outro tipo de relação. Tal é passageira e fugaz. Seus corações estão voltados para algo maior do que o que os olhos podem alcançar: O Dom de Ilúvatar. A brevidade de vida aqui em troca de uma eternidade que só Ele pode oferecer e sobre a qual a morte não terá mais poder.
Boromir piscou. Um discurso sobre os Filhos de Iluvatar não era exatamente o que ele esperava. O eldar percebeu e apressou-se prosseguir.
- Por conta disso, mellon, nossas habilidades élficas nos permitem absorver mais histórias do que vocês.
O ádan estreitou o olhar. Uma luz querendo surgir em sua mente.
- Mais... histórias...?
O elfo assentiu.
- Podemos vivenciar as histórias de nosso criador e ...
- E?
- E outras histórias além das dele.
Legolas parou. Algo no semblante do homem de Gondor lhe dizia que ele havia começado a compreender.
- As histórias... delas... – Comentou o elfo.
- Delas...
- Sim...
- Você?
Legolas assentiu novamente, antes de prosseguir.
- Vocês não se lembram de tudo o que acontece. São muitas experiências para a natureza humana suportar. Então elas ficam em suas lembranças apenas como sonhos e sensações diversas.
Boromir buscou ar enquanto Legolas prosseguia.
- Pense bem. Você não acha que enlouqueceria caso vivesse dezenas de vidas ao mesmo tempo?
Boromir segurou a cabeça entre as mãos.
- Acredite, uma vida apenas e já estou em pedaços.
Um silêncio perdurou entre eles por alguns instantes até que o homem de Gondor se deu conta de algo que ainda carecia de explicações.
- E como, pelos Poderes de Arda, você poderia ter alguma responsabilidade sobre isso?
O eldar engoliu seco.
- Eu... quer dizer... nós...
- Nós quem? Fale, elfo!
- Eu e minha amiga Borboleta...
Boromir franziu novamente o cenho, enquanto o animalzinho pousava no ombro de Legolas.
- Ela é uma de minhas... escritoras...
Os olhos do ádan miravam alternadamente o elfo e a pequena borboleta, buscando pela compreensão que lhe escapava.
- Ela sugeriu... quer dizer... me pediu para...
O coração de Boromir disparou. O homem de Gondor mal conseguia segurá-lo em seu peito. A respiração entrecortada revelando a Legolas que não poderia mais ocultar-lhe a verdade.
- Com a ajuda de... bom... nós conseguimos fazer com que você transcendesse a folha escrita e se encontra-se com uma escritora muito especial. Alguém com a qual eu imaginei que você se identificaria e encontraria uma felicidade tal que valesse o risco – concluiu em um fôlego só.
Os sentimentos que invadiram o coração do mortal mal podiam ser contidos e entre raiva, surpresa e euforia, os olhos do homem de Gondor vislumbraram uma possibilidade.
- As autoras não podem... vir para o nosso mundo?
- Sob certas circunstâncias, como minha querida Borboleta aqui.
Pela primeira vez naquela tarde Boromir sorriu quando a pequena Borboleta dourada balançou as asas em um cumprimento.
- Ela também sente muito. Nós não devíamos...
- Não se desculpe, príncipe – disse Boromir, recuperando-se do susto – não posso dizer que não gostei de sua... intromissão, mas...
Boromir fitou um ponto qualquer no chão. Um vazio quase palpável tomando conta do seu coração.
- Se ela não é um personagem... como eu poderia voltar a vê-la?
O elfo sorriu um sorriso triste.
- Infelizmente eu não tenho a resposta para essa pergunta, meu caro Boromir. No entanto posso lhe assegurar de que aquela que tornou possível por duas vezes o encontro de vocês não me pareceu disposta a parar. Sei que tem algo em mente. E em se tratando de quem é, advirto que não será nada fácil desvendar-lhe o objetivo.
- Quem?
- Galadriel...
Boromir quedou-se com a boca entreaberta.
Fitou Legolas sem conseguir segurar dentro de si a pergunta que lhe queimava a garganta.
- E agora? O que fazemos?
- O que fazemos?
Boromir assentiu.
- Esperamos.
O homem de Gondor baixou os olhos. Não era exatamente a resposta que ele gostaria de ouvir.
A borboleta agitou as asas chamando para si a atenção de Legolas que estendeu a Boromir o que trazia consigo. O semblante do Homem de Gondor se iluminou. O mesmo livro através do qual sentira as carícias dela...
E enquanto as mãos dele tomavam o precioso objeto, a Borboleta dourada levantava voo.
E Legolas deu as costas, após um cumprimento final...
E quando Boromir abriu o livro...
Ele já não estava mais em Eryn Lasgalen...
