A leitora caminhava em direção ao quarto. A noite já ia alta e seu corpo reclamava por banho e cama. Abriu a porta displicentemente, estranhando o fato de que a luz se encontrava acesa. 'Estou mesmo perdendo a sanidade.' Pensou. No entanto, ao adentrar o quarto, a figura de Boromir sentando em sua cama com o Volume I de SDA aberto em suas mãos lhe amoleceu o queixo.

- Ai, meu Eru! – Exclamou, levando as mãos ao peito – Ainda morro disso!

Boromir ergueu os olhos, abandonando a suposta leitura e sorrindo irresistivelmente.

A leitora suspirou.

- Não antes de eu tê-la em meus braços novamente. – ergueu-se o homem de Gondor, abandonando o livro sobre a cama e segurando delicadamente os braços dela.

- Não acredito que você voltou!

- Sim. Voltei. E me parece, minha cara leitora, outros encontros como esse ainda hão de ocorrer.

- Como sabe disso?

- Algumas coisas me foram reveladas. No entanto, muito ainda permanece oculto, pois, conforme me foi dito, minha natureza mortal me impede de compreender o todo.

- Ah, sim. Sei como é. – disse, baixando os olhos.

Boromir segurou-lhe delicadamente o queixo com o dedo indicador enquanto passava o polegar pelo lábio feminino.

A leitora estremeceu. Ele sorriu novamente. 'Pode me pedir o que quiser desde que me sorria assim!' Ela pensou. Boromir pareceu advinhar. Aproximou lentamente seus lábios dos dela, brindando-a com um beijo inesperadamente casto e observou a reação. Os olhos fechados e a face celeste encantaram-no. Uma mão tomou-a pela cintura, enquanto a outra segurou sua nuca. A leitora o envolveu em seus braços, enquanto o beijo se aprofundava. Arrebatador.

'Não, ainda não.'Pensou Boromir. 'Agora que sei que terei tempo, ei de aproveitar cada minuto.' E o homem de Gondor diminuiu aos poucos o ritmo do beijo, apenas para encontrar uma quase inconsciente leitora em seus braços. Percebendo que o momento findara, ela abriu os olhos, segurando firmemente os ombros masculinos:

- Por Niena! Você não pode ser real!

- Sou tão real quanto suas mãos podem comprovar, Nimrondel... E estou aqui para você – concluiu, acariciando a face morena.

As mãos da leitora abandonaram os ombros de Boromir e envolveram seu rosto. Sentindo algo impetuoso dentro dela despertar, mordeu os lábios buscando pelas palavras certas.

- Ainda não te creio tão real assim. Talvez precise de um pouco mais de evidências.

Nimrondel aproximou novamente seus lábios dos dele, beijando-o de forma surpreendente. O homem de Gondor quedou-se sem reação, a princípio. Todavia, a paixão já se insinuava entre eles novamente e o beijo prolongou-se, sendo interrompido apenas por algo totalmente inesperado.

Nimrondel soltou o rosto do amado ante o ruído inusitado.

- O que foi isso? – perguntou ela.

- Acho que foi meu estômago – ele respondeu, desconcertado com a situação.

A leitora riu.

- Que indelicadeza a minha. Vou trazer algo para você comer. – disse, indo em direção a cozinha – Espero que esteja aqui quando eu voltar.

- Eu também espero. – disse, sorrindo.

Boromir olhou em volta. Roupas e livros espalhados. 'Ela gosta mesmo de ler...' pensou, enquanto manuseava os exemplares. Segurou um entre as mãos, aleatoriamente. O autor era o seu criador. 'O Hobbit', leu mentalmente.

Folheou o livro por alguns momentos, antes de ser surpreendido por ela.

- O que está tramando? – Indagou a leitora, segurando a bandeja.

- Você lê muito sobre a Terra Média...

- É minha grande paixão – respondeu – ou era, agora que um certo personagem assumiu tal posto.

Boromir sorriu novamente. As maneiras dela o encantavam.

- Sobre o que fala este livro?

- Quer mesmo saber?

- Quero saber tudo sobre você.

- Então sente-se, vou lhe mostrar.

O casal tomou lugar na cama, pondo de lado a bandeja. A leitora falou apaixonadamente sobre seu livro favorito. Leram alguns trechos juntos, muitos dos quais Boromir conhecia das aulas de História da Terra Média.

- Reconhece então esses acontecimentos?

- Alguns. Nunca dei muita importância às Lições de História, ao contrário de Faramir... Faramir!

Disse, erguendo-se da cama.

- Preciso ir encontrá-lo antes que o dia amanheça. Foi o combinado!

- Faramir? Ele está...?

- É melhor você não saber. Pelo menos por enquanto. Preciso ir, mas antes...

Boromir sentou-se novamente. Não poderia negar nem a ele nem a ela mais alguns segundos de paixão. Tomou o rosto da amada entre as mãos, brindando a ambos com um último beijo. Ao soltá-la, estavam lá os olhos fechados e a face celeste. Ele ficou deveras satisfeito como que seus olhos viram.

'É... Aragorn... parece que essa você perdeu...'

- Adeus... – sussurrou o homem de Gondor, antes de sair pela porta do quarto.

A leitora demorou-se um pouco, antes de abrir os olhos.

- Ai, meu Eru! Isso não pode ter sido um sonho!

Olhou ao redor. A bandeja no criado mudo. O livro aberto: 'Lá e de Volta Outra Vez'. Sorriu.

- Lá e de volta outra vez... – repetiu – ele vai voltar... agora sei que vai...

Ela dormiu sorrindo, abraçada ao livro que compartilharam juntos.