O homem de Gondor havia se sentado junto à Árvore Branca de Minas Tirith a fim de aguardar pelo irmão. O poderoso símbolo da Bênção dos Valar sobre a Terra Média costumava trazer serenidade ao coração do guerreiro. Boromir pensou nos Poderes de Arda que habitavam o distante Oeste. Nunca fora muito propenso a tais reflexões, deixando-as a cargo de Faramir. A elas ele sempre preferiu os exercícios de combate e a leitura de batalhas antigas. Contudo os pensamentos que vinha tendo ultimamente, cedo ou tarde, o faziam pensar nos Senhores do Oeste. E os Valar não haviam ficado indiferentes ao que perturbava os pensamentos do ádan, decidindo enviar a ele um mensageiro.
- Boromir, o bravo. – disse o Vala.
O homem de Gondor ergueu os olhos, porém não conseguiu se convencer da veracidade da visão que se acercava dele.
O Guerreiro loiro, alto e forte fazia jus à fama que possuía. O filho de Denethor reconheceu que a autoridade que reconhecia naquela voz não poderia ter outra origem.
- Tulkas? – Boromir empalideceu e prendeu a respiração. Não era comum os Poderes se manifestarem e quando tal fato ocorria, a terra raramente saía incólume.
- Aquiete seu coração, filho de Denethor. – disse o Vala. – Venho em paz.
Boromir esvaziou os pulmões e normalizou a respiração ante as palavras do Senhor do Oeste, fazendo menção de se levantar. No entanto Tulkas o surpreendeu, sentando-se ao seu lado, pois a estatura que o Vala havia assumido era semelhante à dos homens mortais.
O olhar dele era penetrante e Boromir tremeu com a proximidade estabelecida.
- E então? O que Boromir, o justo, anda maquinando a ponto de fazer com que Manwë me envie até ele?
O mortal abriu a boca, porém as palavras não encontraram o caminho. Tulkas sorriu, apiedando-se de seu protegido.
- Já que você não se dispõe a falar, serei eu a fazê-lo. – O Vala prosseguiu após uma breve pausa. – Seus pensamentos chegaram até os Senhores do Oeste, bravo Boromir, e embora não sejam maus, se afiguram inquietantes, pois a recusa em aceitar a si mesmo e a suas próprias limitações pode acarretar males difíceis de serem remediados.
Boromir baixou os olhos, entendendo finalmente o motivo da visita do Vala.
- Você é filho de uma nobre casa e sua missão é árdua. Não poderia ter sido concedida a outro que não a você mesmo. Há diversas formas de realeza neste mundo, Boromir, muito superiores a coroas e cetros. Você é um príncipe de Gondor e não deve abrir mão deste título por se achar incapaz de carregá-lo.
Tulkas esperou que o ádan se prontificasse a falar, todavia diante do silêncio persistente e não sendo a paciência uma de suas maiores virtudes, ele prosseguiu.
- Não se compare a ninguém, seja para se considerar melhor ou pior do que qualquer outro. Tais comparações servem apenas para inquietar os corações dos homens e enredá-los em uma busca que lhes traria apenas a infelicidade. Sabe do que estou falando, não sabe? Sei pelo que procura, Boromir.
- Como pode saber? – o homem de Gondor finalmente se pronunciou. – Não conhece a morte, nem a solidão, nem o medo. Não há limites para sua força. O que um Senhor do Oeste pode saber das penas e dos sofrimentos dos homens mortais?
Tulkas sorriu.
- O que o faz acreditar nisso?
Boromir fechou os olhos, recordando-se das lições de outrora e citou o texto de cor:
"O maior dos Valar na força e nos atos de bravura é Tulkas, o Valente. Chegou a Arda por último, para auxiliar os Valar nas primeiras batalhas contra Melkor. Aprecia a luta corpo a corpo e as competições de força; não cavalga nenhum corcel, pois supera em velocidade todas as criaturas providas de patas, além de ser incansável. Seu cabelo e sua barba são dourados; e sua pele, corada. Suas armas são suas mãos. Não tem serventia como conselheiro, mas é um amigo destemido."*
- O autor de tais canções foi bastante generoso comigo, não posso negar. – disse o Vala, sorrindo. – Mais algum trecho que você deseja citar?
Borimir prosseguiu.
"... e Arda se encheu com o som de seu riso. Assim veio Tulkas, o Forte, cuja ira circula como um vento poderoso, afastando a nuvem e a escuridão à sua frente. E Melkor fugiu de sua fúria e de suas risadas."*
- Para alguém que não era propenso a viver trancado em uma biblioteca, você me parece bem versado nos ensinamentos de Arda. – Tulkas observou.
O homem de Gondor baixou os olhos.
- Creio terem sido estes os únicos trechos que cheguei a saber de cor. Sempre o admirei. Pergunto-me se não é justamente por isso que você foi o escolhido para me prevenir.
Os olhos de Tulkas fitaram o mortal.
- Então reconhece que há algo a ser prevenido?
Boromir assentiu.
- Não questione aquilo que lhe foi dado. Não lhe será de nenhuma serventia se comparar aos outros. Os Filhos do Único possuem suas fraquezas na medida em que Ilúvatar as permitiu, pois em sua sabedoria Eru conhece a capacidade que cada ser em Arda tem de superá-las.
- Não me vejo em condição de superar minhas fraquezas, Senhor do Oeste. Meu caminho é repleto de quedas e eu estou farto delas. Se eu pudesse apenas deixar tudo isso... – Boromir divagou, olhando em volta. - ... ir para outro mundo onde meus caminhos fossem menos obscuros...
- Não cometa o mesmo erro que Thórin Escudo de Carvalho, Boromir. Não desafie os Senhores de Oeste. Mesmo Galadriel, que é conhecida por sua altivez e não se dobra de todo aos Valar, tem agido com cautela ao desbravar o mundo fora do nosso. Vocês estão pisando sobre um terreno desconhecido e perigoso. Não é sábio desrespeitar os próprios limites.
Após um instante de silêncio concedido pelo Vala para que Boromir assimilasse suas palavras, ele prosseguiu.
- Em que exatamente estava pensando?
O homem de Gondor fitou o Vala.
- Eu invejo seus poderes, sua força, sua imortalidade. Gostaria que possuí-los, assim eu seria capaz de... – ele parou, temendo as próprias palavras.
Tulkas ergueu as sobrancelhas.
- De ir ao encontro dela e não mais deixá-la... – Boromir concluiu.
O Senhor do Oeste balançou a cabeça afirmativamente. O sorriso sempre presente no rosto queimado pelo sol.
- E ela vale a pena? – Tulkas provocou.
Boromir ficou sério.
- Calma, bravo e justo guerreiro. Vejo pelos seus olhos que vale. Contudo, apesar de suas canções dizerem que não sou um bom conselheiro, a recomendação que trago provém de Manwë e é digna de crédito. Seja paciente e verá que os Senhores do Oeste vêm com bons olhos o sentimento que o une ela. – disse, erguendo-se e estendendo a mão a Boromir, ajudando-o a se levantar.
- Desejo que saiba – prosseguiu o Vala sem soltar a mão de Boromir, transformando o auxílio em um aperto de mão – que angariou um amigo e admirador. E se for verdade o que suas canções dizem... 'um amigo destemido'. Não precisa me invejar, guerreiro. É mais parecido comigo do que pensa. Coragem não lhe falta, tampouco força. – Tulkas apertou ainda mais a mão de Boromir – Assim como não precisa invejar a ele. – o Vala apontou com os olhos em direção à árvore do Rei de Gondor e o filho de Denethor baixou os olhos. – Deixe que o sorriso lhe chegue ao rosto e será capaz de mais feitos do que a maioria dos homens. O mal teme a força, porém a enfrenta, ao passo que sempre foge diante de um sorriso que nasce do coração.
- Tulkas é um poeta? – indagou o ádan, finalmente sorrindo.
- Devo admitir que não. Essas palavras pertencem a Nessa, minha esposa. E há sabedoria nelas!
Boromir assentiu.
- Agora eu me retiro e deixo minha confiança depositada em você, bravo Boromir. Não me decepcione. Pois se Tulkas é lento para chegar à ira, também é lento para esquecer.*
- Disso não há como duvidar. – reconheceu.
Após se despedir, o Vala deu as costas ao homem de Gondor, mas antes de iniciar suas passadas firmes, foi como que tocado por uma centelha, se voltou e mirou o ádan. Boromir não compreendeu, porém o Senhor do Oeste apontou com os olhos na direção oposta e sorriu. Boromir seguiu o olhar de Tulkas e seu coração deu um sobressalto ante a visão que percebeu surgir no horizonte. O homem de Gondor voltou a olhar o Vala que em uma frase resumiu um discurso inteiro.
- Sorria, Boromir, sorria. E o mal jamais o alcançará.
E Tulkas não estava mais lá quando as mãos de Boromir tocaram a face morena daquela que se acercava.
*(Silmarillion)
