A mulher se aproximou incrédula, enquanto olhava de um lado para o outro como uma criança que adentra um ambiente totalmente novo para ela. Mirava a árvore branca, as construções de pedra e o homem a sua frente.

'Gondor! Estou em Gondor!'

O sorriso na face morena e o brilho nos olhos de estrela atraíram a atenção de Boromir que se dispôs a caminhar em direção a ela. Quando a distância entre ambos havia sido vencida, homem e mulher viram-se um diante do outro e a mão masculina se ergueu, passando a parte de trás dos dedos pela face suave. A jovem fechou os olhos, sentindo o toque em sua pele.

Boromir sorriu prodigamente. Ela estava lá para ele, como Tulkas havia prometido que estaria.

- Bênção dos Valar... – ele sussurrou, fazendo com que ela abrisse os olhos. – Eu poderia passar a eternidade aqui, contemplando seu sorriso.

Nimrondel o observou.

- Sorriu porque o que tenho diante dos olhos é mais do que eu jamais ousei esperar ou pedir.

Boromir tomou as mãos femininas nas dele, sentindo a leveza que delas emanava. Nimrondel era toda ternura e o homem de Gondor, acostumado a uma vida de batalhas e combates sem fim, seguiu o conselho de Tulkas e deixou que a alegria do presente suplantasse as dúvidas que insistiam em se insinuar.

- Ambos fomos atendidos então – ele completou. – Venha. Desejo lhe mostrar algo.

O homem de Gondor a tomou pela mão e a conduziu até a murada de onde se podia ver quase toda a Cidade Branca.

Nimrondel buscou ar, sem conseguir conter o turbilhão de sensações que a invadiam. Boromir a abraçou por trás, passando os braços pela sua cintura.

- Obrigada – ela sussurrou.

- Pelo quê? – ele não havia compreendido.

- Por haver impedido que eu caísse. Como conseguir ficar de pé, contemplando uma visão como essa?

Boromir sorriu novamente.

- Sempre estarei por perto quando você precisar de mim. – Ele sussurrou-lhe ao ouvido, fazendo-a estremecer.

- Boromir! – ela exclamou, quando sentiu a mão dele afastando o cabelo dela e os lábios mornos depositarem um beijo em seu ombro.

- O que foi? – ele indagou entre risos. – Está com medo de que lhe faltem as forças outra vez?

- Você não existe!

- Não? Então que mãos são essas cujos dedos estão se entrelaçando com os seus? – ele disse, enquanto suas mãos deixavam a cintura feminina e tomavam as mãos dela nas dele. – E de quem é esse corpo que apóia o seu, impedindo-a de desmoronar? – Ele sentiu o corpo dela amolecer junto ao dele. – E de quem é essa boca que deseja desesperadamente beijar a sua? – Ele indagou com os lábios junto ao ouvido dela.

A jovem fechou os olhos, inebriada com as perguntas sedutoras.

- Eu a deixei sem resposta? – Boromir prosseguiu, soltando as mãos dela e caminhando com as suas pelos braços esguios até chegar aos ombros. – Eu quero que diga. – Ele insistiu. – De quem são essas mãos?

A mulher buscou ar.

- Diga – ele solicitou novamente.

Ela decidiu ceder.

- São de Boromir de Gondor. O capitão de minha vida!

Ouvindo o nome dele nos lábios de Nimrondel, o homem compreendeu o quanto poderia ser compensador seguir o conselho de Tulkas e deixar para trás seus questionamentos. Não poderia haver felicidade maior do que aquela! Era tanta que quase lhe arrebentava o peito. Ele se moveu, postando-se de frente a ela com as mãos ainda em seus ombros.

- Como é possível? – ele sussurrou.

Ela questionou com o olhar.

- Como é possível ama-la tanto?

A mulher estremeceu e envolveu o rosto do guerreiro com suas mãos, mirando-o com brilho nos olhos. O tempo parou para eles, enquanto se viam um nos olhos do outro.

A figura que se aproximou hesitou por um momento e recuou, dando as costas.

Boromir ergueu os olhos.

- Faramir... – o capitão de Gondor percebeu a chegada do irmão. Nimrondel acompanhou o olhar de Boromir.

- Preciso falar com meu irmão... – ele lamentou.

- Não demore... – ela sorriu.

Boromir assentiu e foi ao encontro de Faramir.

Nimrondel voltou sua atenção para a Cidade Branca. Vendo seu amado se afastar, uma lembrança lhe veio em mente. Uma música bela e triste tomou forma em sua garganta e a canção ecoou junto às muralhas de Minas Tirith.

- Ó Boromir! Dos altos muros para o distante Oeste olhei.

Mas você não retornou das terras desertas,

Onde nenhum homem habita!

Quais notícias no Sul, Ó suspiro do Vento, você traz para mim nesta tarde?

Onde está agora Boromir, o Justo? Eu sofro com sua demora.

- Não me pergunte onde ele acaso habita, tantos ossos lá jazem.

Nas praias brancas ou escuras, sob o céu tempestuoso.

Tantos passaram pelo Anduin para encontrar o mar.

Pergunte ao Vento Norte sobre eles. O Vento Norte lhe contará.

- Que notícias do Norte, ó Poderoso Vento, você traz para mim hoje?

Quais notícias de Boromir, o bravo? Ele está tão distante!

- No Amon He eu ouvi seu choro, lá muitos inimigos ele enfrentou.

Seu escudo partido, sua espada quebrada pela água foram trazidos.

Sua cabeça erguida, sua face tão justa e seu corpo deitaram para descansar.

E o Rauros, quedas douradas de Rauros, o carregaram sobre seu peito.

- Ó Boromir! A Torre da Guarda sempre contemplará o Norte.

Em direção a Rauros, douradas quedas de Rauros, até o fim dos dias!

A voz que havia começado a entoar a canção soava cristalina a princípio. Porém os últimos versos foram cantados a muito custo e uma lágrima escorreu pela face morena quando a música foi concluída.

- Nunca houve uma mulher esperando por mim – o capitão de Gondor disse com voz rouca. – Pelo menos não com esse tipo de sentimento. Como uma mulher espera por um homem que retorna.

Nimrondel se voltou surpresa.

- Você estava ouvindo? – perguntou retoricamente.

- Faramir não se demorou.

A mulher baixou os olhos e o capitão de Gondor se aproximou, erguendo o queixo dela com as pontas dos dedos e observando a lágrima.

- Você chora por mim... – ele murmurou. – Sempre chora por mim.

- Temo perdê-lo. – Ela esclareceu.

Ele passou os polegares pela face morena, enxugando as lágrimas e depositando um beijo inesperado nos lábios salgados. Seus braços a envolveram com firmeza, mandando embora todo temor que a canção havia despertado. Boromir aprofundou o beijo e a trouxe ainda mais para junto de si até que o fôlego de Nimrondel falhou e ela buscou ar. O homem de Gondor mirou a face avermelhada da mulher e o peito que arfava e o sorriso brotou em seu rosto, insinuante.

- Como pode ver, minha cara escritora, eu estou bem vivo e ainda me restam forças suficientes para lhe tirar o fôlego.

Nimrondel sorriu e pôs as mãos nos ombros de seu guerreiro.

Boromir se sentia pleno naquele momento e se permitiu esquecer seus fantasmas, erguendo sua amada nos braços.

A jovem soltou um grito de surpresa ao perceber que seus pés não mais tocavam o chão. Boromir a segurava no colo e girava em torno de si mesmo, inebriado com a presença feminina. Ele, que nunca havia se interessado por mais nada além de batalhas e treinos com armas, se via enredado em uma teia de felicidade e prazer. Todavia mesmo ele, forte e seguro, também possuía seus limites e o movimento circular acabou por lhe roubar o equilíbrio, fazendo com que ambos, homem e mulher, se vissem caídos no chão.

O som das risadas do casal era cristalino e cessou apenas quando o fôlego não mais resistiu. O corpo dele estava sobre o dela, enquanto os risos silenciavam e os dois arfavam, mirando um ao outro.

Boromir passou a mão pela face morena e Nimrondel estendeu os braços para traz, fechando os olhos. Ele aproximou novamente seu rosto do dela e a mulher sentiu o toque morno dos lábios de Boromir em sua face, fazendo-a estremecer. Ele sorriu ao perceber a reação dela.

- Fique comigo... – ele sussurrou ao ouvido dela. – Já não me imagino sem você – o homem de Gondor roçou seus lábios nos dela. – Eu me sinto inteiro quando estou com você. - Ele a mirou nos olhos. – Eu deixaria meu mundo por você.

- Eu... – ela silenciou, sem conseguir fazer frente à paixão demonstrada por ele.

- Shiiiii – ele pôs o dedo sobre os lábios dela. – Não estou lhe cobrando nada – ele sussurrou. – Apenas não posso ocultar o que o meu coração quer desesperadamente – ele a mirava com o olhar escuro de desejo.

- Boromir... – ela murmurou e uma lágrima escapou de seus olhos.

- O que houve? – ele se preocupou.

- Eu... quer dizer... ninguém nunca... me quis tanto...

O homem de Gondor sorriu irresistivelmente e passou a mão pelos cachos negros.

- Sorte a minha! Ilúvatar a ocultou aos olhos dos tolos que não puderam ver o tesouro que estava reservado só para mim – os olhos dele brilhavam enquanto falava.

- Acredita mesmo nisso? – ela indagou ternamente.

- Com toda a minha alma, Nimrondel... – e depositou um beijo morno nos lábios ainda trêmulos, antes de mirá-la com um sorriso iluminado.

- Seu sorriso mandou embora o medo e a tristeza que eu estava sentindo... – ela comentou docemente.

- 'O mal sempre foge de um sorriso que nasce do coração' – ele repetiu as palavras de Tulkas. – Sorria, Nimrondel, sorria. E o mal jamais a alcançará.

- Meu guerreiro é um poeta? – ela indagou, pousando a mão na face masculina.

Boromir soltou um riso fraco.

- Não – ele respondeu sem conseguir parar de sorrir. – Sou apenas um homem apaixonado.

"Não entregues tua alma à tristeza, não atormentes a ti mesmo em teus pensamentos. A alegria do coração é a vida do homem, e um inesgotável tesouro de santidade. A alegria do homem torna mais longa a sua vida. Tem compaixão de tua alma, torna-te agradável a Deus, e sê firme; concentra teu coração na santidade, e afasta a tristeza para longe de ti, pois a tristeza matou a muitos, e não há nela utilidade alguma." Eclo 30,22-25