Um mês e meio havia se passado desde o anúncio da cura de Kiki. O menino, agora novamente saudável, para a felicidade plena dos pais voltou a correr pela casa, a brincar descontraído com seus brinquedos, a pintar as colunas do Templo de Virgem com seus gizes de cera, para desespero de Shaka, que agora nem se importava mais em passar horas esfregando as rochas. Ver Kiki saudável novamente era sua maior alegria.
A rotina feliz e agitada que se partilha quando se tem uma criança em casa de fato parecia ter voltado ao lar do casal.
No entanto, o outro lemuriano que vivia ali misteriosamente passara a apresentar sintomas bem estranhos, os quais vinham se intensificando a cada dia. Seria uma nova doença desconhecida que acometia somente o povo muviano? Como acontecera com Kiki?
Não. Dessa vez não era uma nova doença que pairava sobre a família, mas algo muito mais incrível e surpreendente!
Mu não entendia o que estava acontecendo consigo. A pelo menos duas semanas, apresentava uma dificuldade absurda em conseguir comer qualquer tipo de alimento que fosse, exceto por apenas algumas castanhas e nozes, e também maçãs, peras e especificamente bolacha recheada sabor morango!
Com elas, as bolachas, ocorria justamente o contrário. Mu era capaz de devorar vários pacotes em pouquíssimo tempo, o que por si só já era deveras estranho, já que sempre as detestara por achar o sabor artificial e extremamente doce e enjoativo, porém era justamente essa porcaria que não lhe fazia mal algum, já que tudo que comia lhe provocava enjoos fortíssimos e, caso se forçasse a comer algo mais saudável, chegava a vomitar.
A restrição alimentar de Mu logo se tornara um problema, já que Shaka era um excelente cozinheiro e zelava pela saúde da família sempre preparando deliciosas refeições que, além de saudáveis e muito nutritivas eram deliciosas.
Procurando poupar o marido e o filho de quaisquer preocupações, afinal mal haviam superado ainda a doença de Kiki, Mu escondia como podia essa aversão repentina à comida, pois Shaka certamente ficaria magoado, além de extremamente preocupado, caso soubesse que os pratos que preparava com tanto carinho e dedicação não lhe causavam nada além de náuseas.
E ainda tinha o agravante de assustá-los com o fato de saberem que era obrigado, muitas vezes, a correr para o banheiro e colocar tudo para fora logo após as refeições. Por isso, Mu tentava disfarçar, mas ele mesmo estava muito apreensivo com seu estado, já que coisa boa não deveria de ser.
Como se não bastassem os problemas estomacais, recentemente também passara a sofrer quedas repentinas de pressão, e por vezes eram tão intensas que suas unhas chegavam a ficar roxas. Era quando Áries via tudo ficar escuro de repente e sentia a cabeça rodar numa velocidade ímpar, que ele procurava ligeiro algo em que pudesse se apoiar, uma parede ou móvel, para não cair direto com a cara no chão. Então ficava ali, escorando em algo, tentando controlar a respiração até sua pressão se normalizar, rogando aos deuses que qual fosse o mal que lhe acometia passasse logo e sua vida pudesse voltar ao normal.
Os dias se passavam e Mu ficava cada vez mais preocupado com seu estado de saúde. Passava horas sozinho em sua forja trabalhando e refletindo acerca do destino. Estaria ele o testando novamente? Contudo, agora ao invés do filho, seria ele a vitima de um golpe nefasto da sorte? Estaria acometido por alguma doença grave e misteriosa também?
Fosse a resposta positiva ou negativa, ele só saberia indo a um médico. Por isso mesmo decidiu que marcaria uma consulta assim que encontrasse um momento oportuno, pois desejava ir sozinho, assim, caso a noticia fosse ruim e seus medos mais íntimos se confirmassem, procuraria o melhor jeito de comunicar aos dois amores de sua vida.
E até que a oportunidade de ir se consultar com um médico aparecesse, Mu procurava disfarçar ao máximo seus sintomas, evitando a todo custo se alimentar em casa. Quando isso não era possível, mentia dizendo que já havia comido fora, o que não agradava em nada o cavaleiro de Virgem que sempre lhe passava um sermão.
Shaka por sua vez, já estava há dias incomodado com algo que ele ainda não sabia definir bem o que era. Percebia Mu calado, mais introspectivo, com um humor muito oscilante, e todo aquele apetite de draga que o marido sempre tivera, como que por magia parecia ter desaparecido. Como sempre que o questionava Mu lhe assegurava estar tudo perfeitamente bem, Shaka ficou apenas observando e analisando. Julgou até ser fruto das emoções fortes pelas quais passaram recentemente. Áries poderia ainda estar abalado por elas e seu "estado de nervos" alterado. O que não demoraria a se normalizar, bastava ser paciente.
No entanto, a situação do lemuriano ficou ainda mais difícil de ser mascarada quando Mu passou a apresentar um novo sintoma de sua misteriosa enfermidade, um tanto quanto estranho, por sinal.
Há três dias, além dos vômitos, quedas de pressão e alimentação esquisita, Áries não conseguia mais suportar o perfume de sândalo do amado. O cheiro de Shaka, que antes era adorado pelo ariano, agora lhe causava verdadeira repulsa, chegando a lhe dar calafrios só de lembrar.
Foi em uma noite, quando o casal se preparava para dormir e Shaka abraçou Mu por trás para lhe dar um beijo apaixonado que a atitude do marido deixou Virgem verdadeiramente preocupado.
Em todos os anos de casados, uma das coisas que deixava Mu mais louco de desejo pelo virginiano, era seu cheiro quase natural de sândalo! Quase natural de fato, já que Shaka pouco usava perfume, mas como era indiano, e muito ligado aos costumes de sua terra natal, muitos dos produtos que usava para o banho, como sais, shampoo, sabonetes e essências, eram à base dessa planta, a qual era muito comum na Índia. Então, o que diabos estava acontecendo agora, que Mu mal podia chegar perto de Shaka e já se sentia enjoado com o cheiro de sândalo?
Mu simplesmente não conseguia se "concentrar" nas carícias do amado, porque aquele cheiro enjoado dele o estava deixando louco! E dessa vez não no bom sentido.
Seu estômago embrulhava, sentia calafrios e por mais que amasse o marido simplesmente não conseguia beijá-lo por culpa daquele perfume maldito.
Por fim, Áries desistiu. Sentia-se tão mal que empurrou Shaka para longe de si, interrompendo o beijo, fazendo uma careta e falando com certa irritação na voz.
— Shaka! Por favor, vá tomar um banho. — colocou a mão na frente do nariz — Para que tudo isso de perfume, amor? Parece que derramou o frasco inteiro no corpo! Passou tanto perfume que está fedendo a sândalo, Sha! Chega a arder o meu nariz, nossa... nossa... lava isso! Argh, tira! Não consigo fazer amor com você nesse cheirão, Shaka. Sinto muito, mas não dá.
O ariano falava rápido, sem o mínimo de delicadeza, enquanto já se sentava na cama meio afastado do loiro.
Inclusive, esse era outro sintoma estranho do qual Mu não sabia como lidar. Seu humor estava terrível, e variava com uma frequência absurda e incontrolável. O sempre calmo e amável lemuriano, agora parecia viver em uma montanha russa de emoções. De manhã estava alegre, no almoço irritado e no jantar sentia vontade de chorar até desidratar. Qualquer situação era motivo para uma nova oscilação.
Enquanto Mu ralhava, Shaka o observava de olhos abertos e semblante perdido. Estaca completamente confuso com aquela situação.
— Como assim, fedendo? — disse o indiano levantando o braço e cheirando sua axila, pois nem perfume tinha passado aquela noite, já que tinha acabado de tomar banho para ir se deitar. Além de que, dizer a um virginiano que ele está fedendo era praticamente uma heresia contra os preceitos astrológicos — Mas, acabei de tomar banho, Mu! Ficou louco? Se não quer transar é só dizer que não está afim, não precisa inventar desculpas absurdas! Vê se pode... eu... fedendo...
Shaka suspirou fundo e se sentou de frente para Mu. Não podia mais tratar de toda aquela estranheza com naturalidade e paciência apenas. Por isso, encarou os olhos verdes do amado e disse com toda a sinceridade:
— Mu... Não é de hoje que você está agindo estranho comigo. Não quer comer minha comida, não conversa mais comigo, anda distraído... E agora não quer fazer amor porque... porque diz que estou fedendo? Quer me dizer o que está acontecendo, amor? — disse preocupado, pois chegou a pensar que Mu não o amava mais. Virgem sentiu um aperto no peito ao formular essa possibilidade em sua cabeça.
O lemuriano olhava para o marido ali, sentado ao seu lado lhe fazendo aquelas perguntas e se sentiu encurralado. Acreditava estar muito doente e não queria contar ao marido, pois pelos sintomas, os desmaios, os vômitos, julgava ser algo muito grave, como um tumor no estômago, ou até mesmo no cérebro, e saber da gravidade da doença lhe alterava o humor e deixava suas emoções confusas. Só não entendia porque o cheiro do marido, o qual sempre amou, passou a lhe ser insuportável.
Áries se sentia muito inseguro, além de assustado com a possibilidade de morrer e não ver o filho crescer. A atitude de Shaka, no entanto, não lhe ajudou em nada, porque o lemuriano se sentiu acuado. Sem saber como reagir, Mu fez algo completamente inesperado: Caiu no choro.
— Shaaaa! Eu... eu não sei o que está acontecendo! Eu... sinto-me tão estranho e... eu gosto da sua comida... mas... — Áries falava aos soluços, com o rosto banhado em lágrimas abundantes, enquanto agarrava-se ao travesseiro o mantendo junto ao corpo como se a espuma macia pudesse protegê-lo dos males do mundo.
— Mas... mas o que, Mu? — perguntava Shaka, assustado com aquela reação, aquele chororô desenfreado. Mu sempre fora uma pessoa tão racional, tão ponderada, que aquela reação não combinava consigo. Diante de daquela explosão de choro, Shaka só conseguia pensar que Mu estava querendo terminar consigo e não sabia como dizer.
— Eu passo mal, Sha... Só consigo comer algumas coisas, mas... acabo vomitando... E... eu desmaio ás vezes também. Eu acho que...— Mu ia contar ao marido da sua suspeita acerca da doença gravíssima que suspeitava ter, mas não foi capaz, se calando abruptamente.
Por causa do choro descontrolado, da emoção e dos soluços, Mu sentiu o estômago embrulhar, lhe causando uma ânsia violentíssima e por isso precisou parar de falar para respirar fundo e tentar se acalmar.
Já Shaka, quando escutou o relato dos sintomas os quais o marido se queixou finalmente, mudou em definitivo sua postura. Virgem deixou de ficar angustiado, para ficar preocupado!
— Como assim, Mu? O que está me dizendo? Desde quando vem sentindo essas coisas? Por Buda, Mu! Por que não me disse nada? —Shaka dizia aflito, tentando tocar nos joelhos do ariano, que se encolhia na tentativa de se afastar dele, tampando o rosto com travesseiro para sentir o menos possível seu cheiro de sândalo.
Na verdade, Mu travava uma batalha contra o próprio estômago, a qual estaria prestes a ser perdida.
Tentava conter a ânsia de vômito desesperadamente, mas quando se deu por vencido e aceitou que não conseguiria, jogou o travesseiro para o lado e se levantou às pressas, num movimento brusco e meio desajeitado, correndo direto para o banheiro. Mas antes que pudesse chegar a seu destino, sua pressão sanguínea despencou de repente, não lhe dando tempo nem sequer de segurar em nada. Em um instante estava correndo e no outro já não enxergava nada, pois suas vistas se escureceram e imediatamente ele estava caído no chão, com as pontas dos dedos azuladas e desacordado.
— MU! — gritou Virgem, já se jogando de joelhos no chão ao lado dele em desespero.
Shaka segurou Mu pelos ombros e o virou de frente, levantando seu tronco e o apoiando no seu. Tomou um susto ao olhar em seu rosto e constatar que estava absurdamente pálido, com os lábios levemente arroxeados, assim como as unhas.
Assustadíssimo, Shaka nem sequer pensou duas vezes. Aproveitou que Kiki estava dormindo, tomou Mu em seus braços e do jeito que estava, com os cabelos ainda molhados pelo banho recente, sem camisa, vestido apenas com uma calça de algodão levinha e descalço, partiu para o Hospital de Atenas usando a velocidade da luz.
