cap 3
Shaka chegou ao hospital em milésimos de segundos. Conhecia-o muito bem, já que quase morou naquele conjunto de prédios por praticamente um ano, período em que Kiki estivera em tratamento. Por isso, nem passou pela recepção, driblou a todos e foi direto para o corredor onde ficam os consultórios dos médicos.
Ao chegar ao o consultório do Dr. Adônis, Virgem abriu a porta com um solavanco, quase fazendo o pobre médico enfiar a espátula de madeira goela a baixo do pequeno paciente sentado sobre a maca e que sofria de uma faringite aguda. A mãe deu um grito, a criança começou a chorar e o médico enxugou a testa com o estetoscópio.
—Por deus, Shaka! Quase me mata de susto! — disse doutor Adônis, apanhando a criança chorona da maca e a entregando à mãe, aflito por estar vendo Shaka, sempre tão recatado, ali sem camisa e com o marido desacordado no colo.
Na mesma hora uma manada de enfermeiros raivosos e seguranças entravam na sala para dar conta do invasor, mas doutor Adônis, que por sorte estava de plantão naquela noite e já conhecia muito bem o temperamento daquele cavaleiro, botou panos quentes, lhes fazendo um sinal para que não interferissem.
— Doutor, o Mu... ele... — dizia o virginiano aflito, enquanto se aproximava do médico — Não sei o que está acontecendo com ele... ele... desmaiou e... Doutor faça alguma coisa, por Buda! Não fique ai olhando para minha cara feito um idiota! — disse em desespero, mostrando o marido inconsciente ao médico.
— Acalme-se, Shaka... — dizia Adônis, enquanto conduzia a mãe com a criança para junto dos enfermeiros e seguranças parados na porta — Podem ir. Deixem que eu cuido disso, e vocês... — disse olhando para os seguranças — Acham mesmo que são uteis aqui? Eles são cavaleiros de Atena! Vão. — falou, fechando a porta do consultório.
— Shaka, o coloque na maca para eu poder examiná-lo e, por favor, acalme-se, senão você só me atrapalha! — disse o médico e depois que Shaka cumpriu a ordem, começou a examinar Mu minuciosamente, enquanto um virginiano enlouquecido corria para a mesa do médico e apanhava o celular dele.
— Vou usar seu celular, doutor. Deixei meu filho sozinho em casa. — disse.
O médico nem ouviu por estar com o estetoscópio nos ouvidos auscultando os batimentos cardíacos do lemuriano desacordado.
Shaka então ligou para Aldebaran, que era padrinho de Kiki, mas o celular do brasileiro só chamava e nada de ele atender. Aliás, Touro nunca atendia o maldito celular, o que forçou o virginiano, a muito contra gosto, ligar para o outro padrinho do filho, Afrodite de Peixes.
Na décima segunda casa zodiacal, Afrodite estava terminando uma sessão de embelezamento caseiro. Com uma máscara de abacate e açúcar sobre o rosto para esfoliar a pele, cabelo todo preso para cima besuntado de hidratantes e as pernas cheias de pólen depilatório, o sueco enchia a banheira para preparar seu banho de sais quando seu celular tocou e ele o atendeu distraído.
— Alô... quem?... Ah, fala Shaka... Como?... O que ele tem?... Tá tá fala! ... Já calei!... Agora?... Mas eu estou... Estúpido!... Você que é!... Não precisa fazer isso, eu vou lá... TÁ, JÁ ESTOU INDO!... Ora, mas quanto mais você ficar falando mais eu vou demorar para chegar na sua casa!... Tchau!... Deusa, que homem grosso!
Afrodite desligou o telefone e sem pestanejar desceu do jeito que estava mesmo até a casa de Virgem para ficar com Kiki. Shaka não lhe dera detalhes, só dissera que estava no hospital com Mu e pediu para que Peixes ficasse com o filho até voltarem. O sueco assim o fez, mas antes de descer passou a mão em todos os seus produtos de beleza para terminar sua sessão de estética por lá mesmo.
No hospital, Shaka desligava o telefone e ia assistir Dr. Adônis examinar Mu. Fora ele quem estudara toda a fisiologia do lemuriano a fim de poder tratar da doença de Kiki de forma mais eficiente, então, ainda que fosse pediatra, naquele hospital era o único que conhecia a fisiologia do povo muviano.
A queda repentina da pressão sanguínea havia causado a Áries um desmaio leve, e como Shaka fora extremamente rápido em lhe levar ao médico, pouco tempo após ser examinado Mu tremia as pálpebras abrindo os olhos lentamente e meio confuso. Não sabia com ao certo onde estava e quando se deu conta de que estava no consultório de Dr. Adônis, já que o conhecia como ninguém, se perguntou como foi que chegara ali, pois sua única lembrança era de estar indo ao banheiro de seu quarto em Virgem.
O médico, que terminava de verificar os sinais clínicos do paciente, assim que notou que Mu havia acordado o ajudou a se sentar na maca com cuidado.
— Doutor Adônis? Shaka?... O que?... Eu... — perguntou meio desnorteado, olhando para o rosto calmo do homem à sua frente e para a cara de espanto do marido ao lado dele.
—Calma Mu. Não se esforce. Você está no hospital, porque teve uma queda de pressão, desmaiou e seu marido o trouxe para cá. Acabei de te examinar e aparentemente os seus sinais vitais já se normalizaram.
O médico explicava o que havia acontecido à Mu, enquanto Shaka já se aproximava e pegava na mão do ariano, visivelmente aflito.
— Como pode notar, seu marido ficou muito preocupado — Adônis sentou-se ao lado dos dois com uma prancheta em mãos onde anotava algumas observações — Shaka me disse que você contou que nos últimos dias tem apresentados alguns sintomas preocupantes. Quer me falar sobre eles, Mu?
— Amor, você me deu um susto. — Shaka dizia, pegando na mão do ariano e lhe fazendo uma carícia — Por favor, conte para ele o que me disse agora a pouco.
Mu percebeu ali que não tinha mais escapatória. Tudo que mais desejava era descobrir sobre sua doença sozinho, mas sabia que nada no mundo iria desviar o foco de Shaka. Olhava para o virginiano ali, totalmente aflito, só de calças, sem camisa, descalço e decidiu que era melhor não lhe esconder nada mesmo.
Buscando amparo emocional na presença reconfortante de Virgem, Áries respirou fundo e tomou coragem para revelar seu estado de saúde e seus piores anseios.
— Está bem. Eu... Eu não estou bem, doutor Adônis, estou todo estranho.
— Estranho como, amor? — perguntou Shaka.
— Senhor Shaka, por favor. Deixe que eu faça as perguntas, tudo bem? — disse Adônis, suspirando fundo e esfregando os olhos. Nunca fora fácil lidar com o virginiano — Estanho como, Mu. Diga-me o que anda sentindo.
— Bom, a mais ou menos umas duas semanas eu não consigo me alimentar direito, porque tudo que eu como me causa náuseas, ânsias e acabo vomitando depois.
— Mas é porque você se enche de porcarias fora de casa, Mu. Eu sempre te falo que a comida da rua é contaminada. — disse Shaka.
— Senhor, Shaka, não interrompa, por favor. — disse Adônis, anotando o relato em sua ficha médica.
— Bom, os únicos alimentos que param no meu estômago são peras, maçãs, nozes e bolacha recheada de morango. — relatava sobre o olhar curioso tanto do médico quanto do loiro ao seu lado que gentilmente o confortava com uma discreta caricia em sua mão.
— Alá! Não disse! Bolacha recheada é um veneno para a saúde. — disse Shaka, fazendo doutor Adônis suspirar cansado.
— Esses alimentos são bem aceitos, Mu? —perguntou o médico.
— Sim, mas o engraçado é que eu nem gosto delas doutor, no caso, das bolachas. Mas posso comer pacotes e mais pacotes que não me fazem mal algum. No entanto, fora esses alimentos, não posso nem chegar perto dos outros que fico todo embrulhado.
— Outro sintoma além do problema estomacal?
— Sim. Os desmaios. São meio que fulminantes e repentinos. Não aconteceu só hoje, mas foi a primeira vez que Shaka viu. De repente estou normal e então ao me levantar, ou me virar tudo escurece e se não me apoiar em algo a tontura é tanta que eu caio no chão desmaiado. — contava, agora se sentindo mal, pois sabia que eram sintomas de alguma moléstia grave e que deveria ter dito ao marido antes. Mal conseguia olhar para Shaka ao seu lado.
Virgem estava de fato indignado. Olhava para Mu com os olhos arregalados e a feição assustada. Como que não percebera tudo aquilo? Via no lixo os pacotes vazios de bolacha e um dia até repreendera Kiki por estar comendo demais aquela porcaria. O pobre ruivinho não tinha comido uma sequer. Começou a ficar muito preocupado.
— Mu! Por que não me falou nada disso antes? Por Buda! Você passando mal todo esse tempo e não fala nada? Já deveríamos ter vindo buscar ajuda mais cedo! — o medo também corria a alma de Shaka, que apertava a mão de Mu contra as suas lhe olhando nos olhos. Seu peito doía e sua respiração ficava pesada só de imaginar que Mu pudesse estar doente e que teriam que passar por todo o pesadelo vivido com Kiki novamente.
Áries olhou para o marido, depois para o médico que ainda fazia anotações me seu formulário.
— Eu... Eu estou doente doutor? Não! Não precisa responder. Eu sei que sim! Eu sinto! Sinto uma alteração na minha aura e também no meu corpo. Só que não sou capas de entender. Porém, suspeito ser algo grave, afinal eu sou um cavaleiro de Athena, ferreiro, treino todos os dias, meu organismo sempre foi forte... E agora mal consigo me alimentar, ou abaixar para arramar as sandálias sem sentir vertigens! — Mu falava com certa dificuldade, pois mais uma vez a sombra da doença do filho se fazia presente, fazendo sua voz embargar e seus olhos marejarem — Foi assim que começou com Kiki... Só não sangrei pelo nariz como ele. Eu não queria assustar minha família... Eu... Eu estou com tanto medo, doutor.
Nesse momento Áries não resistiu e deixou que lágrimas escorressem por seus olhos, se entregando a um pranto de aflição e medo. Seu organismo estava muito alterado e isso lhe deixava extremamente sensível.
Shaka imediatamente o amparou o puxando para um abraço. Estava tão abalado quanto ele, mas como fizeram com Kiki, encontrariam forças um no outro.
— Shii! Não fique assim, amor. Não sabemos o que você tem, mas seja o que for iremos dar um jeito. Sempre damos um jeito. — o virginiano tentava transmitir segurança ao amado, mesmo não a tendo.
— Shaka... Eu acho que estou com um tumor, ou um coágulo... — Mu dizia em soluços ao marido, então se virou para o médico e falando quase em um fio de voz confessou seu pior medo — Eu não quero morrer agora doutor! Meu menininho esta bem novamente... Estávamos tão felizes... e ...eu ...eu quero ver ele crescer e... — o lemuriano foi incapaz de continuar, pois chorava tanto que mal conseguia falar.
Adônis logo notou que Mu estava tendo uma crise de pânico e assustando muito o marido. Se o lemuriano não conseguisse controlar seus nervos, logo teria dois adultos poderosíssimos surtando em seu consultório de pediatria. E era tudo que não precisava naquela noite.
O quadro era de fato preocupante, mas não tiraria conclusões precipitadas antes de uma bateria de exames, então a primeira coisa a fazer era acalmá-los.
— Ei, senhor Mu, se acalme. — disse o médico, colocando a prancheta sobre a escrivaninha e indo buscar um copo com água para o ariano — Sei que estão ainda assustados pelo que ocorreu com Kiki. E não é para menos. Eu acompanhei toda a batalha de perto. Por isso, eu digo para não tirarem conclusões precipitadas. — entregou o copo com água a Mu e colocou a mão sobre seu ombro — O senhor é um cavaleiro e por isso tem a saúde privilegiada. Tudo o que teve agora pouco foi apenas uma queda de pressão. Agora, seus outros sintomas são muito vagos para chegarmos a uma conclusão definitiva. Então, vamos fazer assim: vou pedir uma bateria de exames, os quais podem ser feitos agora mesmo se ficarem aqui. O hospital possui o registro do seu histórico completo, já que mapeamos o senhor todo para o tratamento de Kiki.
Comparando os resultados que obtivermos hoje com os anteriores, poderemos identificar quais alterações você apresenta e, quem sabe, hoje mesmo podemos descobrir o que vem causando esses sintomas.
Mu concordou apenas com um aceno de cabeça, buscando os olhos do marido como amparo para sua angústia. Já Shaka fazia orações a Buda pedindo para que tudo não passasse de um susto.
Decidido que ficariam ali para os exames, Adônis mandou chamar duas enfermeiras que vieram coletar o sangue e a saliva de Áries. Após a coleta, uma delas acompanhou o lemuriano até a sala de Raio-X, onde foram feitas algumas radiografias do tórax e do abdômen.
Em seguida, Mu foi encaminhado para a sala de ultrassom e endoscopia. Como o ariano se queixava muito de enjoos, lhe fizeram exames completos dos órgãos internos, principalmente do estômago, para verificar se havia alguma úlcera ou nódulo.
Terminado o ultrassom, Mu foi encaminhado para outra sala, agora para realizar uma tomografia.
Encerrados todos os exames possíveis de serem feitos ali no hospital, doutor Adônis pediu um quarto vago para que o casal aguardasse os resultados, os quais demorariam em torno de três horas. Enquanto isso Mu ficaria tomando uma medicação intravenosa para cortar o enjoo e o mal estar.
Shaka acompanhou o marido em todos os procedimentos. Estava muito apreensivo e angustiado. Tudo que não queria era estar ali, naquele hospital novamente, agora com Mu. Aquilo parecia um pesadelo.
Três horas haviam se passado quando doutor Adônis entrou no quarto do lemuriano trazendo consigo os resultados dos exames. Assim que o médico fechou a porta, Mu percebeu, que sua aura estava estranha, perturbada e vacilante, o que não contribuiu muito para sanar os temores do lemuriano.
Shaka por sua vez, se levantou da poltrona, que ficava do lado da cama, e olhou fixamente para o médico.
— E então, doutor? O que ele tem? — perguntou o loiro ansioso.
— Bem... Me desculpem pela demora, mas não foi muito fácil analisar os dados obtidos, por que... — disse Adônis meio confuso e sem jeito.
Assim como fora com Kiki, no início da pesquisa para descobrir a doença misteriosa que acometia o pequeno, novamente Adônis não tinha um diagnóstico preciso para dar àqueles dois cavaleiros. Isso já parecia ser uma sina em sua vida. Por isso olhava para eles aturdido.
— Por que, o que? Desembucha, doutor! — disse Shaka completamente aflito.
— Porque os resultados dos exames do senhor Mu estão absolutamente normais, a não ser por um detalhe... bem... bem intrigante!
— E o que é? Fala logo doutor! E por todas as contas do rosário de Buda, não me diga outra vez que não sabe por ele ser muviano e ter fisiologia diferente! Não vou aturar isso de novo! Já me basta termos passado por isso com Kiki. — disse Shaka.
— Calma Sha... d-deixa o doutor falar... — Mu dizia, sentindo as palmas das mãos suarem, demonstrando sua ansiedade.
— Tenha calma, senhor Shaka. Não me pressione, porque... porque eu realmente não sei! — disse o médico coçando a cabeça em confusão — Os exames de sangue indicaram uma concentração muito grande de hormônio HCG, que é a Gonadotrofina Coriónica Humana. Os níveis estão acima de 50 mUl/ml! — passou a mão por trás da nuca e apertou em sinal de constrangimento.
— Quer falar na minha língua, por favor? — disse Shaka já pressionando o médico.
— Bem... O fato é que não era nem para existir esse hormônio no sangue do senhor Mu, pois... Como posso dizer... Talvez tenhamos que fazer um exame de urina, para ver se ele esta presente na urina também... Mas... Eu não sei o que isso significa... O ultrassom também não é preciso... e...
— CHEGA! COMO NÃO SABE O QUE ISSO SIGNIFICA? QUE DROGA DE MÉDICO É VOCÊ? — gritou Shaka se colocando na frente do médico, enquanto Mu olhava para eles com os olhos esbugalhados cheios de lágrimas novamente.
— Então é isso!... — sussurrou Áries baixinho, para si mesmo. Estava com uma doença novamente desconhecida e provavelmente letal igual a de Kiki.
O médico, muito assustado, vendo o lemuriano atordoado sobre a cama e o cavaleiro de Virgem prestes a desintegrá-lo com o olhar, não viu outro jeito de sair daquela enrascada a não ser dar seu parecer, mesmo o julgando absurdo e completamente fora da realidade dos preceitos da ciência e da medicina. No entanto, se não dissesse nada corria um risco de morte iminente.
— Calma, por favor! Tenho que achar o melhor jeito de dizer isso... Mas... Como vou dizer isso meu Deus?
— Abrindo essa boca e falando! — disse Shaka furioso — O senhor por acaso está tentando me enlouquecer?
— Não! Mas acho que eu já enlouqueci senhor Shaka. Porque eu nem compreendo o que vou dizer, mas os exames indicam que o senhor Mu... Bem... O senhor está grávido! — disse enfim um trêmulo, confuso e perturbado pediatra.
Mu, que estava sentado na maca choramingando baixinho, imediatamente arregalou os olhos em espanto. Outro sintoma seu deveria ser delírios auditivos, pois acabara de ouvir que estava grávido. Teria que relatar esse sintoma ao médico.
Já Shaka tremia tanto que seus cabelos chegavam a balançar sozinhos. Sim, sozinhos, pois estava mais duro no lugar que as árvores gêmeas enraizadas em seu jardim. Sua única explicação para o que acabara de ouvir era que Adônis, por seu um médico pediatra, apenas entendia de crianças e quando examinou um adulto fez aquele laudo ridículo e absurdo. Suas mãos se fecharam inconscientemente. Ele apertou os dedos contra as palmas se controlando para não socar a cara de Adônis por debochar deles daquela forma. No entanto, se culpou por tudo aquilo. Primeiro por não ter percebido que o marido estava doente, depois por ter sido idiota ao ponto de leva-lo a um pediatra.
— Eu deveria matar você por debochar dessa forma num momento como esse. — disse Shaka, respirando fundo para se acalmar.
—Acredite, senhor Shaka, estou tão chocado quanto vocês. —disse Adônis, enxugando a testa com a barra do jaleco — Mas é a única explicação que encontrei. Esse hormônio que falei só é encontrado no sangue de mulheres grávidas. Além disso, o ultrassom mostra um... bem, pelo menos é o que parece... um embrião alojado em sua cavidade abdominal, senhor Mu.
— Em... Embrião? E-Embrião? — Mu questionou depois de um longo silêncio, só para ter certeza de que não estava ouvindo coisas.
— Sim! — Dr. Adônis disse, balançando os ombros e abrindo as mãos em sinal de que também achava aquela informação completamente surreal.
As lágrimas de Mu pareciam ter sido sugadas de volta para dentro seus olhos, enquanto ele levantava a cabeça e olhava para o médico em completo estado de choque. Adônis estava tendo a pachorra de lhe dizer que ele, um cavaleiro de ouro, guardião da primeira casa zodiacal, homem, homossexual ativo, estava grávido?
Olhou para Shaka e o marido parecia estar com os dois pés plantados no piso, com raízes profundas que o mantinham ali, imóvel. Então Mu surtou, mostrando que por mais calmo e tranquilo que fosse, honrava o signo que o regia.
— Você enlouqueceu, Adônis? O que está tentando fazer me dizendo esse absurdo? — o ariano berrava, enquanto já arrancava os acessos que lhe haviam colocado no braço para tomar o medicamento e descia da maca, indo em direção ao médico que estava mais pálido que papel manteiga — Como assim, grávido, doutor Adônis? Eu sou homem, porra!
A postura de Mu agora era totalmente diferente da figura chorosa e sensível de antes. Estava possesso e seus olhos até faiscavam.
— O senhor deveria ter vergonha de me dar um diagnóstico desse! Seu médico de uma figa. — gritava revoltado — Eu sou macho! Tá ouvindo? Que papo furado é esse de gravidez?
— Eu s-sei... Mas é o que dizem os exames. — o médico tentava explicar.
— Não! O senhor é que está tirando uma com a minha cara, confessa! Agora só queria saber o por que! — o ariano dizia agora com o tom de voz mais baixo, porém não menos exaltado, enquanto Shaka parecia ter sofrido um apagão, ou ainda estava processando a informação em sua mente, pois nem piscava. Estava catatônico, com os lábios pálidos e mais duro que um poste de cimento.
— Não tenho porque debochar de vocês. Não façam isso comigo. Estou tão surpreso e chocado quanto vocês! Mas sabem que a medicina nunca foi uma ciência exata... O impossível é sempre considerado nessa ciência! — disse Adônis, procurando acalmar seu próprio espírito ao procurar uma explicação lógica para o fato.
— Puta que me pariu! Eu aqui doente, com alguma coisa séria de verdade e o senhor vem com esse papo de embrião no meu abdômen? Acorda! Eu nem tenho vagina! Por onde isso entrou? ... Não responda! Não responda ou eu... eu... — transtornado, Mu andava de um lado para o outro esfregando a testa, até que caminhou até o médico e tomou os papéis das mãos dele — Me da essas merdas de exames. Deixa eu ver essa porra.
O ariano então olhou pessoalmente todos os exames, um por um, e para seu completo horror e incredulidade, lá estava a dosagem hormonal diferente na comparação das coletas sanguíneas. Para piorar, na imagem do ultrassom havia uma flechinha apontando um pequeno borrão onde estava escrito ao lado: Embrião com 6 semanas de gestação.
— Mostrei seus exames a dois obstetras e um oncologista que trabalham aqui. Todos foram unânimes. Isso é um embrião, senhor Mu. Um embrião de uma gestação abdominal de aproximadamente 6 semanas. Não há outro diagnóstico. — disse Adônis.
Em completo estado de terror, Mu deixou cair os exames no chão, começando a tremer. Com olhos arregalados e tampando a própria boca com ambas as mãos devido ao espanto ele falou:
— Eu... Atena! Eu... Doutor não pode ser... Não! ... Eu... Eu nem sou o passivo. Está entendendo? O encaixe... Eu... Não sou eu que... deveria... Não...
Foi então que sua mente teve um estalo.
Há exatas 6 semanas havia feito amor com Shaka. Comemoravam a cura de Kiki e a volta de sua rotina sexual. Justamente nessa noite havia sido o passivo, e somente uma vez. Quis agradar Shaka. Mas, mesmo assim, não era possível que esse fato estive ligado ao que acabava de acontecer ali. Ou podia?
Imediatamente, Mu começou a murmurar baixinho, enquanto balançava a cabeça em negação.
— Zeus... não! ... Não... Não... Não... Não... Foi só uma vez! Só uma... não pode...
Shaka nesse momento começou a rir, saindo se seu transe. Estava tão nervoso com o desaforo daquele médico, que precisava meditar por ínfimos minutos para não mata-lo ali mesmo e mandar aquele hospital para os ares. Ao ver Mu desesperado, correu até ele parando a seu lado e apontando o dedo para Adônis.
— Se acalme, Mu. É óbvio que esse doutorzinho está tirando uma com a nossa cara! Quis pregar uma peça no casal gay, doutor? Pois fique sabendo que sua piadinha não funcionou, idiota. Eu sou o passivo, você se enganou, ô babaca. Fique sabendo também que eu vou denunciá-lo ao conselho de medicina e depois arrancar esse seu senso de humor deplorável, seu... — não terminou sua ameaça, pois Mu o encarou nos olhos lhe dando um empurrão e soltando os cachorros para cima dele.
— A CULPA É TODA SUA SHAKA! Se não tivéssemos invertido as posições era você quem deveria estar com esse troço na barriga.
— Como é que é? — disse Shaka transtornado, encarando os olhos furiosos do marido.
— Shaka olha para mim. Vamos refazer todos os exames agora mesmo! — disse Áries irresoluto — Quero refazer tudo! Faço o de urina e o ultrassom de novo também... Isso é um tumor no cérebro. Tem que ser! Eu estou tendo alucinações! Juro que acabei se escutar o doutor dizer que eu estou grávido e ver um embrião naquele exame de ultrassom ali... — apontou para os exames caídos e começou a gargalhar — Imagina! Eu, gravido! Viu? Estou claramente alucinando. Isso deve ser outro sintoma do tumor cerebral... Vamos lá repetir os exames.
Mu falava tremendo dos pés à cabeça. Estava em estado de choque e negação, começando a passar verdadeiramente muito mal. Sentia falta de ar, vertigem e o coração acelerado. Estava à beira de um colapso!
Virgem agora o olhava preocupado. Tudo que conseguia absorver do que ele dizia fora coágulo, gravidez, e tumor no cérebro. Antes fosse gravidez mesmo! Voltou a ficar pensativo. Se o próprio Mu vira o tal embrião no ultrassom, ai a coisa era mais séria do que pensava.
Nessa hora, o corajoso e destemido doutor Adônis chegara perto deles e lhes tocara os ombros gentilmente.
— Shaka, eu não estou brincando. Não tenho motivos para fazer uma piada dessas com vocês, que são meus amigos. Acalme-se, por favor. E Mu... — quando Adônis olhou para Mu, tomou um susto. Os lábios dele estavam roxos e ele perdia a cor conforme seu corpo ia ficando cada vez mais débil — MU! — gritou o médico e rapidamente segurou o lemuriano segundos antes de ele perder a consciência.
— Rápido, Shaka! Toca a campainha e chama a enfermeira! Ele desmaiou.
— Eu vou é tocar a minha mão na sua cara! Está vendo o que você fez? Meu marido aqui precisando de cuidados de verdade e você com essa historia absurda de gravidez. Mu!— o virginiano pegou o marido no colo as pressas e o colocou de volta sobre a maca, apertando a campainha seguidas vezes para chamar os enfermeiros.
Adônis recebeu os auxiliares na porta, e já passou a instrui-los.
— Priscilla, corre! Traga um tranquilizante leve! — disse, se acercando de Mu para lhe medir a pressão e auscultar seus batimentos cardíacos.
Virgem então se afastou dando uns passos para trás. Com as mãos enfiadas entre os cabelos ele só conseguia olhar em desespero para o médico tentando acordar seu marido.
Tudo aquilo era uma insanidade plena e desmedida! Era naturalmente e biologicamente impossível o diagnóstico daquele médico estar certo. Colocou a mão no bolso, pegou o celular de Adônis tremendo e ligou para casa. Dessa vez quem atendeu foi Kiki.
— Kiki? Por que está acordado há essa hora?... Ah, eu deveria imaginar que ele ia te acordar. Que bom, precisava ouvir sua voz... Para ter certeza de que não estou sonhando! ... O Afrodite o que?... Ele colocou o que no seu rosto?... Abacate?... Pó que desmancha pelo?... Onde?... Um buraco na... na cabeça?... Eu... eu acho que não... estou... bem.
Dr. Adônis de repente ouviu um barulho de coisa caindo no chão e ao olhar para trás assustado viu Shaka estirado no piso. Virgem havia desmaiado também.
— Priscilla... Mande trazer outra maca e prepare mais uma dose de tranquilizante porque essa noite vai ser longa! — disse o médico com um suspiro cansado, enquanto aferia a pressão de Mu novamente.
