cap 4

Estavam lado a lado, cada um em sua maca, ocupando um dos quartos do Hospital de Atenas na ala dedicada à pediatria. Ao longe se podia ouvir todo tipo de choro de criança.

Ambos estavam ainda sonolentos após dormirem por alguns minutos, porém o efeito do sedativo já os permitia se manterem acordados e mais calmos.

Aguardavam doutor Adônis, que havia saído para tomar um café e também tentar se acalmar, enquanto a enfermeira Priscilla se encarregava de levar ao quarto do casal um aparelho de ultrassom portátil.

— Shaka... — disse Mu, virando a cabeça para o lado da maca do marido para poder olhar para ele —... Isso não está acontecendo, está? — perguntou muito assustado e esticou o braço até segurar na mão do loiro, que estava bem fria — Se bem que... Os... Os sintomas batem. Veja só, enjoo, pressão baixa, intolerância à comida... Mas... Ah, pelos deuses! Estou ficando louco... Mas no exame dizia seis semanas, Sha! Seis semanas! Foi bem quando eu... Pelos deuses, sei que parece loucura, mas estou com medo de que seja verdade.

Shaka, porém se mantinha imóvel sobre a maca. Tinha os olhos azuis arregalados e fixos no teto rosa coral do quarto. Não piscava. Na cabeça do virginiano nada fazia sentido, nada tinha nexo, nada estava certo. Com apenas uma exceção: Mu não estava grávido. Simplesmente porque homens não engravidam. E se por alguma peça do destino isso fosse capaz de acontecer, depois de passar oito anos sendo o passivo da relação, quem deveria estar gravido era ele e não Mu!

Quando se viu pensando nesse absurdo, Shaka piscou algumas vezes e apertou a mão do lemuriano, sem desviar os olhos do teto do quarto, onde um pequenino descascado de tinta com uma minúscula teia de aranha parecia mais interessante que qualquer outra coisa no mundo.

— Mu... Presta atenção no que você está falando. — disse Shaka, com a voz meio pastosa por causa dos tranquilizantes — Você não está esperando um filho, amor. Você é homem. Esse médico mal nascido está tirando uma com a nossa cara. Ele odeia gays... Eu... Eu é que deveria estar gravido, Mu... Não... Eu também sou homem... Buda! — levou a mãos ao rosto e esfregou os olhos.

Mu olhava para Shaka e concordava plenamente com o que ele dizia. Se alguém tinha que estar gravido ali esse alguém era o marido e não ele. Abriu a boca para dizer algo, mesmo sem saber o que dizer, mas na mesma hora a porta se abriu e por ela entraram doutor Adônis, Priscilla e a máquina portátil de ultrassom.

— Bom noite! Estão mais calmos? — perguntou o médico com um sorriso, porém os olhares que recebeu em resposta o fez arrepender-se amargamente da pergunta — Bem... vamos logo acabar com essa dúvida? Priscilla, me ajude a montar a máquina e preparar o paciente e ai pode sair.

Com tudo pronto, equipamento ligado, paciente posicionado, abdome todo besuntado de gel, a enfermeira Priscilla deixou a sala e Adônis iniciou o exame, deslizando o transdutor sobre a barriga de Mu, tendo um indiano loiro e pálido de apreensão de olhos colados na tela.

Já o cavaleiro de Áries estava tão apreensivo que mal respirava. Shaka segurava em sua mão, quase a esmagando de ansiedade.

Doutor Adônis não estava em um estado melhor. Suado e trêmulo, o pediatra fazia o ultrassom sem nem piscar, até que surgiu na tela um pequeno borrão.

— Aqui! — disse Adônis quase num grito — Aqui! Aqui!

— O que? — perguntou Mu assustado.

— O embrião! — disse Adônis apontando na tela do monitor a prova de que não estava louco — Está bem aqui, senhor Mu. Veja, senhor Shaka! Essa imagem mostra claramente um embrião.

— Não estou vendo nada. Ai só tem um borrão, seu maluco. — resmungou Shaka, estreitando os olhos para a tela.

— Esse borrão é o embrião. Essa bolinha aqui. — encostou o dedo na tela.

— Não me parece um bebê. Pode ser outra coisa. Um coágulo. — falou Mu em tom baixo, sem muita convicção.

— É um embrião de seis semanas, Mu. Ele é pequenininho e ainda não tem a forma exata de um ser humano. Ele está se formando agora... Como ele foi parar ai é que... não... sei... — Adônis disse constrangido, ficando com seu rosto corado e quente.

Mu nem piscava. Mantinha os olhos pregados à tela enquanto apertava com força a mão do marido, até que Shaka a soltou e se afastou alguns centímetros dos dois.

— Chega. — disse o loiro visivelmente perturbado — Por todos os infernos do Samsara, eu não aguento mais isso! Meu filho pode estar morto em casa, porque aquele baiacu e nada para cuidar de uma criança é a mesma coisa, quando tudo isso pode ser resolvido muito facilmente se você, Mu, simplesmente usar seus poderes. Você detecta a aura das pessoas... — Virgem então voltou a se aproximar de Mu e segurou em ambas as suas mãos, o olhando nos olhos verdes assustados — Amor, Shaka sabe que é absurdo o que ele vai dizer, mas... Se tiver uma vida crescendo dentro de você, sei que vai conseguir se conectar a ela! Vai sentir sua aura. Por Buda, Mu... Acabe logo com isso.

Mu olhou para o marido e mordeu os lábios indeciso. De fato, poderia ter usado seus poderes desde o inicio, sabia disso, mas não o fez por puro medo de que aquele absurdo fosse verdade, pois há exatas seis semanas percebeu uma alteração em sua aura. Sua energia corporal também havia mudado e um leve, quase imperceptível, pulsar de vida já bem conhecido por ele, uma vez que descobrira a gravidez de muitas amazonas da mesma forma, lhe enchia a própria aura felicidade.

Porém, antes de tudo era homem e sua lógica e razão ignoravam solenemente essa possibilidade absurda, já que era muito mais viável acreditar que estava com uma doença grave do que esperando um bebê.

Vendo que não teria mais como fugir, e notando que tanto o marido, quanto o médico esperavam uma atitude sua, Mu apanhou o bloco de papel toalha que havia sobre a maca e limpou seu abdome. Áries tremia tanto ao fazê-lo que Adônis precisou ajuda-lo.

Ao lado dele Shaka aguardava apreensivo. Nunca havia roído unhas em sua vida. Achava um hábito execrável e anti-higiênico, mas naquela hora parecia existir um imã poderoso que ligava sua boca a seus dedos, e roendo as unhas via o marido fechando os olhos e espalmando ambas as mãos sobre o próprio abdômen.

Mu então concentrou seus poderes telepáticos nas palmas das mãos, e irradiando sua energia por toda a região procurou pela semente viva crescendo dentro de si.

Foi rápido e preciso.

Segundos depois o rosto plácido do ariano se contorceu e de seus olhos lágrimas começaram a escorrer em abundancia. Mu sentiu uma aura frágil dentro de seu corpo. Não lhe restava mais duvidas de que havia uma alma pequenininha crescendo ali. Uma alma que mesmo ínfima ainda já lhe irradiava calor e amor, e que respondia de imediato ao estímulo de seus poderes.

— Sha... — balbuciou o ariano ao erguer a cabeça e aos soluços olhar para o marido.

Shaka tirou os dedos da boca e atônito devolvia o olhar, encarando Mu com os olhos azuis marejados. Mesmo antes de o amado lhe dizer alguma coisa, Virgem já sabia a resposta. Eram oito anos de convívio juntos, dia após dia. Antes disso, cresceram juntos, sendo cumplices de uma vida inteira. Era tempo o suficiente para que conhecesse Mu como a palma de sua mão. Somente o olhar dele já dizia tudo!

— Por todos os deuses! T-tem um... filhotinho aqui dentro, Shaka! Tem um bebê aqui! — Mu dizia olhando para o virginiano aos prantos.

As lágrimas do defensor da primeira casa zodiacal eram de emoção, mas ainda de medo, pavor, susto... Porém, no meio desses temores tão naturais diante do incompreensível e do novo, havia espaço, um grande espaço aliás, para a felicidade, afinal, carregava um filho dos dois, gerado por eles!

Shaka olhava para Mu assustadíssimo! Parecia estar vendo uma assombração no lugar de seu marido.

Percebendo o espanto e emoção do marido, Mu esticou o braço e apanhou a mão de Shaka, a colocando sobre seu abdômen devagar. Fazendo uso de seus dons, Áries criou uma conexão telepática entre Virgem e o pequeno embrião dentro de si, e o virginiano finalmente pode sentir o que o outro sentia.

Era cálido, gentil e cheio de amor!

A vida dentro do ariano pulsava aconchegante e quentinha, reagindo ao toque do loiro e feliz por estar ali. O mais incrível era perceber que ela era formada por uma junção perfeita das energias vitais de Mu e de Shaka, não deixando duvidas de ser filho dos dois.

Doutor Adônis por sua vez, olhava para a cena ao mesmo tempo emocionado e confuso. Tinha vontade de dar um pescoção em cada um dos dois. Já que Mu poderia saber que estava grávido desde o início, porque então o fizeram passar por tanto estresse? Desconfiou de sua própria formação por ter chegado a um diagnostico absurdo, e fora até ameaçado de morte! Só não socou a cara daqueles dois, porque até piada exige um mínimo de verossimilhança. Desligou o aparelho de ultrassom, e se levantou da cadeira.

— Bom... Já que está tudo resolvido, eu perdoo vocês pelas ofensas e... Meus parabéns Mu, parabéns Shaka! Tenho certeza de que serão ótimos pais para essa criança, assim como são para o Kiki. — retirou um bloco de receituário do bolso do jaleco e pegando uma caneta anotou algumas coisas — Senhor Mu, quero que faça exames periódicos a partir do segundo mês. Trata-se de uma gravidez... Bem... Digamos que diferente. Se é diferente, portanto requer cuidados especiais. Apesar de não ser obstetra, sou pesquisador da fisiologia lemuriana e posso acompanhar sua gestação e inclui-la na minha pesquisa. Daqui a um mês, quero que volte para fazermos outra bateria de exames e monitorar o avanço gestacional. Senhor Shaka, pegue. — disse, entregando uma receita ao indiano, que a apanhou com as mãos ainda trêmulas — Aí estão algumas vitaminas que ajudarão no alívio dos enjoos e também uma dieta especial que Mu terá que seguir. Nada de bolachas. Já podem ir para a casa e tentem ficar calmos. É o que vou fazer agora. Têm meu celular, qualquer coisa me liguem.

Adônis se despediu do casal com um aperto de mãos e um sorriso sincero. Ainda suava em bicas e tremia de nervos. Mal podia acreditar que teria uma gravidez masculina em seu currículo! Teria que chegar em casa tomar sedativos para conseguir dormir.

Shaka segurava a receita na mão estático. Não conseguia falar, nem piscar conseguia. A ideia de ser pai era maravilhosa. Um filho seu de verdade! Com seus genes, seu sangue, seu DNA e de Mu! Mas no fundo estava meio decepcionado por não ser ele a gerar esse filho.

Já Mu estava em conflito. Por um lado, a ideia de ter um filho com Shaka era incrível e maravilhosa. Sua raça lemuriana era tão rara e o fato de estar quase extinta fazia com que qualquer novo membro que nascesse fosse visto como uma dadiva divina. Kiki ficaria louco quando soubesse! Por outro lado, estava completamente apavorado e aterrorizado com a ideia de gestar aquela criança. Só de pensar nisso sentia os olhos marejarem e o peito apertar. Era obvio que foram agraciados com um presente divino, mas porque justo ele?

Ficaram os dois ali no quarto alguns minutos em completo silêncio, cada um com seu pensamento, até que, um pouco mais recuperados, porém não menos atordoados, voltaram ao Santuário.

Na entrada do sexto Templo, Shaka conseguiu, enfim, dizer a primeira palavra depois do susto.

— Mu... — disse o loiro, pegando na mão do lemuriano — Eu... Eu... — não conseguia dizer nada, até que abriu um sorriso enorme para o lemuriano e o puxou para um abraço forte, levantando seu corpo do chão e girando com ele no ar — Eu vou ser pai! Não sei mais o que dizer dessa... Dessa loucura toda, mas... Eu vou ser pai! Shaka vai ser pai! — dizia aos gritos.

Mu não respondeu de imediato, apenas abraçou Virgem com mais força e deixou que um sorriso tímido se formasse no belo rosto. Assustado ou não, a felicidade de se descobrir que terá um filho é única e jamais tiraria esse momento de Shaka.

Após alguns giros mais, Mu foi colocado no chão e finalmente pode olhar para seu amado virginiano e partilhar com ele toda sua alegria.

— Sim meu amor! Você vai ser pai... E eu também! Por Athena! Nós dois vamos ser pais, ou eu vou ser... Não importa, Sha! Eu vou ter um bebê!