Do lado de dentro do Templo de Virgem, mais precisamente na sala, um pisciano completamente desesperado, usando uma touca térmica na cabeça, usava de todas suas artimanhas para tentar encobrir uma falha imensa de cabelo na cabeça de um lemurianinho ruivo todo agitado.

— Dindoooo... Esse tloço dói o olho! – dizia Kiki a respeito do laque que Afrodite lhe espirrava sem nenhuma moderação.

— Tampa a cara como o dindo mandou! Com as mãos. Minha deusa, como foi me passar o pólen depilatório justo na cabeça? O Buda vai arrancar minha alma se vir isso! — dizia o cavaleiro de Peixes, que com um pente e o laque tentava puxar cabelo do meio da cabeça de Kiki para cobrir a falha na lateral.

Como não tivera tempo para terminar o que fazia em casa, pois Shaka já estava tendo um chilique ao telefone quando ligou do hospital lhe pedindo para ir ficar com Kiki, Afrodite teve a brilhante ideia de levar consigo todos os produtos de embelezamento para Virgem, a fim de terminar sua arrumação na sexta casa, enquanto fazia companhia para o lemurianinho. Porém, foi só Peixes se instalar na sala de Shaka e espalhar toda sua parafernália cosmética que lá vinha Kiki esfregando os olhinhos de sono e arrastando sua nâna pelo chão.

Curioso como era, logo quis ver o que o dindo fazia com a cara toda melecada de uma gosma verde, um capacete estranho na cabeça e as canelas cheias de um pozinho brilhante cor de ouro.

Afrodite não teve alternativa a não ser meter Kiki em sua sessão de embelezamento. Logo, padrinho e afilhado estavam com as caras besuntadas em uma massa grossa de abacate com açúcar. Peixes fez uma toca térmica com papel alumínio para Kiki e juntos curtiram a sessão com muita conversa e risadas.

No entanto, quando Afrodite deixou a sala para ir ao banheiro retirar o pólen depilatório das canelas, invenção dele próprio e que consistia em um pólen especial extraído de suas rosas, e o qual tinha a propriedade de desmanchar os pelos do corpo, inexperiente com crianças que era, deixou Kiki sozinho na sala, rodeado por seus produtos nada inofensivos.

Dito e feito. Quando Peixes voltou, seu coração deu um pulo tão grande que quase precisou engoli-lo para coloca-lo de volta no lugar, pois a sensação era de que ele lhe queria escapulir pela boca!

Kiki havia jogado um punhado generoso do pólen depilatório na própria cabeça, e seus cabelinhos ruivos já se desfaziam, enquanto o garotinho pulava todo alegre em cima do sofá, achando graça da poeirinha dourada que se levantava conforme ele se movimentava.

Peixes ainda tentou socorrer o menino e amenizar o estrago, mas a desgraça já estava concluída. Meteu a cabeça de Kiki debaixo da pia, lavou e sentiu seus cinco sentidos serem retirados lentamente do corpo, um a um, ao ver a enorme falha de cabelos no meio da cabeça da criança.

Não lhe restou outra alternativa a não ser a menos óbvia e mais burra. Tentar esconder o buraco.

Era isso que Peixes fazia quando Shaka e Mu entraram na sala aos risos e de mãos dadas. Risos esses que sessaram na mesma hora em que colocaram os olhos na dupla.

— Por todas as divindades do Ganges! O que estão fazendo? — perguntou Shaka, olhando para Kiki que tinha uma meleca verde grudada nas extremidades do rosto, já que Afrodite não lavou direito o rosto do menino.

— Bábaaa! Papai! — gritou o lemurianinho ao ver os pais, já indo de encontro a eles.

Mu por sua vez, ainda estava tão alterado e perturbado pela recente notícia da gravidez que nem se importou muito com o estado lamentável da criança, apenas soltou da mão de Shaka e se abaixou para pegar o filho no colo.

— Olha, bába! O Kiki fez máscala de beleza! Olha papai! – dizia dando leves tapinhas nas próprias bochechas.

— Olha só! Estou vendo! — disse Mu rindo — Mas máscara de beleza não é pra deixar bonito? Você já é bonito, meu filhotinho. Essa máscara ai só te deixou sujo! – dizia Mu com a voz meio vacilante, pois agora sim, olhando para o rosto do filho, só pensava em como lhe contaria sobre sua gravidez. Sendo que dias antes haviam ensinado ao pequeno que meninos não engravidavam e que por isso ele havia sido adotado.

— O Kiki tá mais bonito sim, pai. Mas ai, o Kiki passô o pozinho dolado e PUF!

— PUF? – disse Shaka, que estava até então tentando se manter calmo, afinal era só abacate a meleca no rosto do filho – Que diabo é PUF? – perguntou preocupado olhando para Kiki no colo de Mu.

— PUF e caiu o cabelinho do Kiki, bába! Aqui ó. – disse o ruivinho, abaixando a cabeça e mostrando a falha de cabelo ao virginiano – O dindo tem um pozinho que delete os pelo... Ai caiu! Mas foi só um poquinho. O dindo disse que nem dá pa vê se passa o lasquê.

Shaka olhou para aquele buraco na cabeça do garoto e seu olho esquerdo pulou. Na mesma hora olhou para Afrodite que se mantinha no meio da sala estático, branco e imóvel feito uma estátua de cera. No entanto, Virgem estava tão cansado, atordoado, e perturbado pela história da gravidez do marido, que não teve nem ânimo o suficiente para tirar os sentidos de Afrodite. Apenas caminhou até ele, pegou em seu braço e disse em um tom cansado e repreendedor.

— Será possível que não tem uma única vez que você consegue fazer uma coisa certa na sua vida, Peixes? O Kiki está com um buraco no cabelo! Era... Era só pra você olhar ele dormir!

— Mas eu olhei! — disse Afrodite piscando várias vezes, enquanto saia do transe — Dai ele acordou e... Dois minutos que tirei os olhos dele... PUF!

— De novo isso? – disse Virgem quase num rosnado, soltando o braço do pisciano e se afastando uns passos – É Buda! É Buda quem segura minha mão, Afrodite!

— Menos, Shaka, faz favor! – disse o pisciano recolhendo sua quinquilharia cosmética e guardando tudo em uma grande sacola em forma de peixe dourado – Kikizinho está ótimo! Já já o cabelo cresce... Mas e o Mu? O que ele tem? – falou espichando os olhos azuis curiosos para o lemuriano, que colocava Kiki no chão e fazia uma careta nada agradável.

O cheiro do abacate no rosto de Kiki embrulhou o estômago de Áries violentamente. Atordoado, ele passou por Afrodite e Shaka tentando disfarçar e então correu até o lavabo no corredor e debruçou-se sobre a pia. Foi só o tempo de se apoiar na porcelana que Mu vomitou uma mistura desagradável e amarga de bile com água, já que seu estômago estava vazio.

Shaka correu atrás dele e assim também fizeram Kiki e Afrodite, que atrás do loiro mantinham os olhões arregalados fixos em Mu, que limpou a boca com um bochecho de água, fechou a torneira e se virou para eles muito pálido.

— Shaka... Eu não me sinto bem. Vou descansar na cama. Cuide do Kiki, amor e... Me traga um pacote de bolacha de morango, por favor? Estou com fome.

— Por Buda, Mu! Não pode comer essa porcaria. Eu faço...

— Shaka de Virgem... Não. – disse Mu, olhando para o marido e lhe apontando o dedo indicador – Não... Você ouviu. Bolacha... de morango. Estão escondidas na segunda prateleira da dispensa. Por favor, amor.

Sem teimar mais, Shaka foi para a cozinha, acompanhado de Kiki que também estava interessado nas bolachas, enquanto Mu foi para o quarto, acompanhado de Afrodite que estava em cólicas de ansiedade para saber o que estava acontecendo com o amigo lemuriano.

Na cozinha, Shaka pegava as famigeradas bolachas de morango enquanto Kiki o observava.

— Bába, o papai tá dodói?

— Ah... Não. Quer dizer, sim. Ou melhor, mais ou menos.

— O que eli tem?

— Fome.

— Não. O Kiki tá peguntando po que o bába levo eli no hospital! Po que dexô o Kiki falano sozinho no telefone?... Po que o papai qué come bolacha de noite? Não pode come bolacha de noite, né bába? As fumiga canívola vão ataca o papai se sentilem o chêlo.

— Kiki... – Shaka fechou o armário já depois de ter pego três pacotes de bolachas, e então olhou para o menininho a seus pés — Por favor, filho... O bába está ficando zonzo com tanta pergunta. E já não te disse para não ficar colocando tudo que acha por ai na sua cabeça? E se esse troço do seu padrinho fosse venenoso? Ah... Shaka vai enlouquecer com duas crianças! — quando percebeu já tinha dito.

Kiki olhou para ele curioso.

— Duas quiança? Cadê a ota, bába? E o papai? Papai tá dodói igual o Kiki, bába?

— Não! Graças a Buda que não! Ele não está doente... Ele... — dizia, mas não tinha coragem de contar para Kiki que Mu estava gravido. O melhor seria esperar o marido melhorar e então, juntos, darem a notícia. Afinal, Mu era bem mais jeitoso para falar desses assuntos – Ele... Ele está com dor de barriga. Então, deixe-o descansar, e também não peça colo para ele, não pule em cima dele, não o faça fazer esforço... E não pergunte mais nada, tudo bem, filho? E... bem... É isso. — disse Shaka para um Kiki mais curioso ainda.

No quarto, Afrodite estava sentado ao lado de Mu e o abanava com uma revista de colorir de dinossauros que Kiki havia deixado ali. O lemuriano estava extremamente pálido e parecia se sentir muito mal.

— Mu... Pelas sandálias de Aquiles, o que você tem? Não era melhor ter ficado no hospital? Você está transparente de pálido! Você fez exames? O que o médico disse? — perguntava o sueco, muito preocupado com o amigo.

De olhos fechados, Mu tentava amenizar o enjoo fazendo um exercício respiratório. Não queria espalhar a notícia, pois ainda nem sabia como lidar com ela, mas Afrodite era um de seus melhores amigos e precisava tanto conversar com alguém...

Sem pensar muito resolveu contar.

—Dido... – disse, abrindo os olhos e se ajeitando melhor na cama – Você não iria acreditar se eu te contasse. Por isso, me da sua mão e se concentra que eu vou te mostrar.

— Ai Mu, está me assustando. Não me diga que também tem um coágulo? – disse o pisciano encolhendo os braços assustadíssimo.

— Shii... Dá logo aqui a mão. – falou Áries, puxando a mão de Peixes e a colocando sobre seu abdome – Fica quieto... E... Sinta.

Mu então fechou novamente os olhos e fazendo a ligação mental através de seus poderes, assim como fez com Shaka no hospital, permitiu que Afrodite sentisse a aura do embrião em conexão com a sua.

— Dido está sentindo? É um bebê se formando dentro de mim. Não me pergunte como.

— C-Como? – perguntou Afrodite arregalando os olhos e abrindo a boca, em completo estado de choque.

Sentia algo que jamais havia sentido em toda sua vida. A aura viva de um ser, bem fraquinha, porém abarrotada de vitalidade. Aquilo era tão incrível que Peixes ficou um tempo inerte, apenas olhando para sua própria mão sobre a barriga de Mu, sentindo todo aquele pulsar de vida dentro do amigo.

— Eu falei para não perguntar... – disse Mu dando um suspiro – Eu não faço ideia. Eu só sei que vou ter um bebê, mas nem tenho útero! Como será que ele vai crescer ai dentro, Dido? – Áries já chorava sem perceber, olhando para um Afrodite ainda em choque.

Até que Peixes recolheu a mão do abdome de Mu para levar a ambas as mãos ao próprio rosto, arrebatado em espanto e estarrecimento.

— Por Atena, Mu!... Um... Um bebê? Mas... Mas é de verdade? Como? Como você fez ele? Digo... Como vocês... Você nem é o passivo!

— Exatamente. – disse Mu baixando a cabeça, enquanto enxugava as lágrimas concordando.

— Como assim, então você não está doente, está... Está grávido!

— Sim, grávido. Droga! Estou com hormônios estranhos no meu corpo. Não consigo parar de chorar. Mas, Dido, eu estou feliz, eu acho. O Shaka eu sei que está.

— Mas, Mu... Como isso aconteceu? Você não é hermafrodita, é?

— Claro que não. Eu também não sei como isso aconteceu, Dido. Eu continuo sendo homem. Um homem normal. O que aconteceu foi que há seis semanas eu troquei com o Shaka... Você sabe, de posição.

— Você deu.

— S-sim... Não precisava ser tão indiscreto, né Afrodite. Enfim, depois disso que comecei a ficar esquisito, a passar mal, enjoar... Achei que estava doente, que ia morrer. Então hoje depois do jantar eu desmaiei e o Sha me levou no doutor Adônis. Fiz um monte de exames e foi então que descobrimos. Não estou doente, estou gestante.

Mu falava meio conformado, limpando as lagrimas que escorriam agora com menos abundancia. Porém, ao se lembrar dos companheiros de armas e constatar o olhar de espanto de Afrodite sobre si, Áries se agarrou ao travesseiro amedrontado.

— Dido e agora? – dizia soluçando, enquanto voltava a chorar - Como vou encarar os outros? Isso não está certo. Eu sou homem, não posso parir uma criança! Eu nem tenho seios, Dido! Como vou alimentar esse pobre ser? Por que eu e não o Shaka? Eu estou com medo...

Mu então se arrastou e deitou a cabeça no colo do amigo. O ariano estava muito fragilizado devido aos hormônios femininos, os quais o deixavam choroso e carente, por isso buscava conforto no pisciano.

— Calma, Mu. Uma coisa de cada vez. Não fica assim... Você pode por peitos!... Esquece o que disse. A touca térmica já deve ter torrado meus miolos. Tenta se acalmar! Vai ser simples. Você só vai ficar gordo, nada vai mudar. – dizia Afrodite, ao mesmo tempo em que fazia cafuné no cabelo do lemuriano.

Na cabecinha fantasiosa e confusa do cavaleiro de Peixes, mil pensamentos tomavam forma ao mesmo tempo — "Minha deusa! Que loucura! Será que o Shaka tem algum poder especial para engravidar homens? Ou o Mu que tem um poder diferentão, sendo lemuriano, para gerar filhos? Que confuso! Será que eu conseguiria engravidar também? Puxa! Seria legal ter filhos ruivinhos como o Camus. Todos rabujentinhos e carrancudos! Será que o Shaka faria um filho em mim com esse poder de engravidar homens? Alôca! Mas... Será? Puxa... Será que eu conseguiria engravidar o Camus? Ah, depois de tantos anos pegando aquele francês gostoso já era para ter acontecido! Ah... que pena! Poderia tentar uma inseminação com o Shaka... Ai não seria traição. Ou seria?"

Quando Shaka entrou no quarto com Kiki em um braço e três pacotes de bolacha de morango no outro, Afrodite foi desperto de seus pensamentos, porém encarou o virginiano com um semblante questionador e curioso.

— Ele está chorando de novo? — disse Shaka se aproximando dos dois na cama e colocando o filho sobre o colchão — Mu... Amor, trouxe suas bolachas. Não precisa chorar!

— Dindo, po que o papai tá cholando? - perguntou Kiki se aproximando deles e passando a mão sobre a cabeça do pai.

— Ah, porque seu pai vai ser mamãe e está muito feliz! Tem um irmãozinho aqui dentro da barriga dele! - disse o sueco sorrindo para Kiki.

— AFRODITE DE PEIXES! — gritou Shaka exacerbado, deixando cair os pacotes de bolacha sobre a cabeça de Mu.

— O que foiii? Não tinham contado a ele? - perguntou Afrodite assustado.

— Eu... Eu devia arrancar a sua língua e te enforcar com ela! Buda... Me põe juízo que se me por coragem eu... Eu mato! – rosnava Virgem, fuzilando o pisciano com o olhar, quando os três subitamente ficaram em silêncio ao ouvirem a voz suave e doce de Kiki.

— Um imãozinho dento da barriga do papai? Não, dindo. Num pode... Os bebes não molam na baliga dos meninos, só na baliga das meninas. O papai ensino o Kiki!

Todos se olharam, mas ninguém teve coragem de dizer nada.

O único a quebrar o silêncio fora justamente Mu, que se enfiava debaixo do lençol se entregando a um choro ruidoso.