Depois daquele enorme bola fora que Afrodite dera no quarto do casal, Shaka o colocou para fora de seu templo lhe despejando toda a sorte de pragas sobre a cabeça, mas Peixes não ouvia a nenhuma. Estava tão chocado e eufórico com a notícia da gravidez de Mu que subiu as escadarias todo ansioso e com a cabecinha cheia de minhocas.
Mais calmo do susto e recuperado do chororô desenfreado, Mu se ajeitou melhor na cama e devorou em minutos um dos pacotes de bolacha recheada que o marido lhe trouxera, distraindo Kiki com elas, as famigeradas bolachas, enquanto Shaka não voltava.
Quando Virgem entrou no quarto, Kiki estava sentadinho no meio da cama de frente para Mu o enchendo de perguntas como sempre. Áries contornava, mas, conhecendo muito bem seu filhote, sabia que o pequeno não sairia dali até que não soubesse direitinho que história era aquela de que havia um bebezinho dentro da barriga de seu pai.
Ora, Kiki também era muviano, portanto sensitivo. Mu sabia que não conseguiria mentir ou esconder a gravidez do filho por muito tempo, por isso achou melhor enfrentar o pequeno probleminha ruivo de uma vez por todas.
Assim, quando Shaka sentou-se na cama ambos se olharam nos olhos e soltaram um suspiro resignado. Era chegada a hora. Áries encostou as costas no peito de Virgem e puxou Kiki para seu colo, para sentar-se juntinho deles, enquanto começava uma longa e delicada conversa.
— Filhote, já te falei sobre milagres, não é mesmo? – disse Mu, acariciando os cabelinhos ruivos do pequeno lemuriano.
— O Kiki sabe o que é milague. – respondeu de pronto o menino – É quando uma coisa boa acontece sem a gente espelá.
— Sim, milagres. Coisas impossíveis que de repente se tornam possíveis. – disse Shaka puxando os fios da franja para trás, pois já começava a suar de nervoso e os cabelos colavam em sua testa.
— O Kiki sabe, Bába.
— Exato... Bem... – continuou Mu – Acontece que... Aconteceu um milagre bem aqui na nossa família.
— Aonde, papai? – perguntou o ruivinho eufórico, arregalando os olhões violetas enquanto olhava para o rosto assustado de Mu – Aqui na nossa casa?
— É... É quase. – disse Mu, que olhava para Shaka esperando algum auxílio, porém o virginiano olhava para si da mesma maneira que Kiki, com os olhões azuis arregalados, a espera do que ele iria dizer, e não vendo outra alternativa, Mu finalmente acabou com a angústia dos três – Kiki, filhote, eu... O seu pai, estou gerando um nenêzinho aqui, dentro da minha barriga. – colocou a mão em cima do próprio abdome.
Kiki olhou para o pai, depois para sua mão sobre a barriga, em seguida para Shaka e confuso disse:
— Tem um nenê molando na sua baliga? – perguntou.
— Tem. – respondeu o ariano.
— Mas você é menino, papai. Mesmo sendo menino e não tendo um vasinho pá plantá nenê tem uma quiança na sua baliga? – outra pergunta, agora se referindo à explicação que Mu e Shaka lhe deram meses atrás quando contaram a Kiki que ele nascera de uma lemuriana muito linda e corajosa, que não pode ficar com ele, mas que o confiara aos dois com muito amor, pois homens não podiam gerar crianças, já que para isso era preciso um "vaso", que nada mais era do que um jeito mais fácil de explicar o útero, onde os homens plantavam suas sementinhas. E esses maravilhosos vasos geradores de vida somente as mulheres possuíam.
— Exatamente filhote. Mesmo sem o vasinho tem um irmãozinho aqui dentro. Quer sentir? — perguntou Mu todo amável para o pequeno, enquanto Shaka apenas observava a tudo calado, deixando que os dois se entendessem naquele momento tão intimo.
Kiki aceitou na hora, balançando a cabeça afirmativamente e arfante de ansiedade.
— Então venha. Encoste sua testa aqui e use seus dons para senti-lo. Você consegue. – disse Áries com um sorriso gentil.
O pequeno lemuriano então se inclinou e como o pai lhe instruiu, encostou a testa no abdome de Mu. Concentrando-se ao máximo, e com um pouquinho da ajuda do lemuriano mais velho, através de seus dons Kiki conseguiu tocar a aura do embrião, percebendo o pequenino sopro de vida que emanava de dentro dele.
— Papai! Esse... Esse é o nenê? – disse eufórico, soltando alguns suspiros de espanto e arregalando os olhinhos curiosos.
— Sim filhote. Esse é o filhotinho que o papai esta guardando dentro dele até crescer.
Depois de alguns segundos calado ainda conectado ao embrião, Kiki se afastou e juntando as mãozinhas abriu um largo sorriso de satisfação, olhando para os pais com uma expressão de puro encanto. Agora que realizara o que de fato acontecia ali, o pequeno enlouquecia de alegria.
Aos gritinhos e risadas, Kiki ficou de pé sobre o colchão e pulava na cama em euforia, corria em círculos, batia palmas, festejava...
— O Kiki sentiu o nenê! Ele sentiu! Olha... Olha, tem um nenê dento do papai. O Kiki vai tê um imãozinho. – pulava feito um carneirinho montanhês — Êba! Êba! O Kiki vai tê um imãozinho pá bincá com ele!
Sendo a única criança no Santuário, Shaka e Mu olhavam para ele e entendiam perfeitamente toda sua alegria e festejo. Estavam felizes por ele, pois assim teria alguém para compartilhar as brincadeiras, medos e segredinhos infantis. Alguém para dividir a infância, uma fase tão importante para a formação do individuo. Porém, quando Shaka e Mu ainda plainavam pelas suaves e etéreas nebulosas do dever cumprido, uma pergunta cabeluda, bem ao estilo Kiki, desfez a nuvem vaporosa e fofa na qual Áries e Virgem pairavam, os lançando de cara ao solo sem nenhuma proteção aparente.
— Mas como o nenê entou ai dento, papai?
Mu sentiu ume leve vertigem. Deveria ser novamente a pressão. Shaka, que não estava grávido, sentiu o mesmo, percebendo os dedos das mãos começarem a formigar. Em silencio ambos pediam misericórdia, compaixão, mas o bombardeio não parecia perto do fim.
— Bába, poquê é o papai que tá com nenê e não você?
— Ué, e por que teria que ser eu? – disse Shaka, numa pergunta que era mais direcionada a si mesmo do que a Kiki.
— Shakaaa! – disse Mu o repreendendo.
— Como ele vai saí, papai? Pô onde vai tilá o nenêzinho?
— Eu... Eu não sei... – respondeu Mu meio vacilante, ao mesmo tempo em que se encolhia na cama se entregado ao desespero, pois essa também era uma pergunta que ele se fazia e para a qual não tinha resposta.
Afinal quando a deusa Réia os presenteou com a criança, não deixara nenhuma cartilha com instruções ao pobre pai gestante.
Percebendo o desconforto de Mu, Shaka tentou intervir.
— Kiki... Já chega, filho. – disse, pegando na mão do menino e o puxando para seu colo – Agora você sabe por que o Bába disse para não ficar pulando em cima do papai, nem perguntando um monte de coisas. Isso o deixa agitado e assusta o nenê dentro dele. Seu pai está muito sensível!
— Tá bom, Bába. Mas o Kiki só quelia sabe como tem nenê se não tem vasinho.
— E Buda sabe? – disse Shaka chacoalhando os ombros, mas devia uma satisfação ao menino, só que era tão ruim para tratar desses assuntos que só de pensar já voltava a suar frio — É... Bem... Realmente... Como a gente ensinou para você, o que a gente ensinou é o que é o certo... Ou não... Bem... Era para ser, mas não é. A verdade é que só as meninas têm vasinho mesmo e só elas podem gerar os bebês dentro delas, mas por isso que falamos que no caso do seu pai foi um milagre.
— E o milague acontece sozinho, Bába. – perguntou Kiki curioso.
— N-Não... É preciso um deus para fazê-lo... Puxa vida! Será que... – em algum momento Shaka se perdeu em seus próprio pensamentos, mas de tão absurdos que eram piscou os olhos algumas vezes, pisou novamente na Terra e continuou – Lembra-se da deusa Atena, né? A deusa cheia de amor pela humanidade para quem o Bába e o papai dedicam suas vidas?
— Sim, Bába. A gente mola na casa dela, não é? Essa é a casa dela! — disse Kiki se referindo ao Santuário.
— Isso. Talvez Atena quem tenha feito esse milagre, pois ela achou que nós, eu, o seu pai e você merecíamos ter a alegria de ter mais um filhinho. Os deuses tem esse poder. Por isso, dessa vez, e só dessa vez, um menino, que é seu papai, está podendo fazer crescer dentro dele essa sementinha, mesmo não tendo um vasinho. Entendeu?
— Sim, Bába, o Kiki entendeu. Mas, como você plantou a sementinha dento do papai?
Mu arregalou os olhos, engoliu seco e encarou o rosto de Shaka, que a essa altura se arrependia de não ter tirado os sentidos da fala de Kiki para não ter que chegar naquela famigerada pergunta. Então respirou fundo e fechou os olhos.
— Com uma pá!
A resposta fora tão seca e automática, além de completamente absurda que tudo que Mu conseguiu fazer foi explodir em gargalhadas, enquanto Kiki olhava para cima como se visualizasse em um balão de pensamentos uma cena onde o Bába, fazendo uso de uma pá de jardinagem, jogava montantes de terra sobre a barriga de Mu, que estava deitado sobre a grama do jardim. Depois Shaka pegava uma sementinha e enfiava no umbigo de Áries, tampando com terra e dando um beijinho em cima.
O filminho imaginário se desfez como sol que dispersa o nevoeiro quando Shaka pegou Kiki pela mão e o ajudou a descer da cama.
— Agora chega de tanta pergunta. Vá já tomar seu banho que daqui a pouco a novela vai começar e se eu perder o capítulo vou ficar bem nervoso!
— Não Bábaaaa! O Kiki já tá indo! O Kiki qué vê o casamento do Ralej. Depois qué vê o filme dos elefantes nadadoles do Ganges! – dizia enquanto corria para fora do quarto, mas logo voltou e colocou a cara na porta - Baba? O Kiki tem que lavá o cabelo de novo? O dindo já lavou o cabelo do Kiki hoje cinco vezes.
— Não, não precisa! Até porque, o que sobrou para lavar depois do estrago que aquele Baiacu fez na tua cabeça?
— Mas o que sobô tá cheio de lasquê!
— Então lava! Por Buda, vai logo tomar esse banho, Kiki! — disse Shaka esfregando o rosto, enquanto o menino corria para o banho.
Voltou para a cama e se jogou de costas sobre o colchão, descansando a cabeça sobre o colo de Mu.
— Preferia lutar contra Hades a ter que falar desse assunto com ele.
— Nem me fale. – disse Áries um pouco desanimado.
— Mu, precisa de algo? – perguntou, se virando de bruços para olhar para o rosto do marido - Quer que te leve em algum lugar? Você não pode ficar andando! Acho bom pedir licença maternidade para o Saga. Deve se afastar da Forja também, carregar peso no seu estado não é bom. Precisamos arrumar o quarto do bebê... E comprar fraldas! Muitas fraldas!... Puxa... Eu vou ser pai! Ainda não caiu a ficha! Será que ele vai puxar a mim ou a você?
— Sossega Shaka. Eu não preciso de nada. – disse Mu, puxando o virginiano para perto até ficarem deitados nos braços um do outro – Só preciso ficar quieto aqui, está bem? Ainda não caiu a minha ficha também, mas o fato é que estou grávido, não inválido. Portanto, creio que ainda vou poder trabalhar auxiliando Saga na administração do Santuário. E por enquanto vou manter os trabalhos leves na Forja até onde conseguir.
Ficaram ali deitados conversando e se acarinhando até o filho voltar do Banho.
Juntos os três assistiram ao tão esperado capítulo da novela indiana a qual Shaka e Kiki acompanhavam fielmente, porém agora ambos mimavam o lemuriano mais velho com beijos e carinhos e a novela passou a ficar em segundo plano. Todas as atenções eram voltadas à Mu.
O casal de cavaleiros ficou impressionado, e porque não dizer feliz, com o fato de Kiki não se sentir enciumado pelo novo membro da família. O pequeno lemuriano no fundo sabia que era tão filho de Shaka e de Mu quanto o futuro irmãozinho ou irmãzinha que logo viveria com eles. Apenas havia nascido de outro vasinho, mas depois fora adotado como filho do coração.
A verdade é que não havia espaço para duvidas, pois Kiki sentia o amor arrebatador dos pais por si transbordar de suas auras toda vez que olhava para eles.
Naquela noite dormiram os três juntinhos. Mu ainda um pouco receoso e temeroso pelo que estava por vir, mas assim como o marido e o filho imensamente feliz com o milagre recebido.
