Quatro dias haviam se passado desde a extraordinária descoberta da gravidez do cavaleiro de Áries. Em comum acordo, o casal decidira manter a novidade em sigilo absoluto, pois Mu ainda sentia-se extremamente desconfortável, para não dizer constrangido, com a ideia de ter que explanar para todo o Santuário que estava grávido.
No entanto, tinham um grande problema. Bem, nem tão grande assim, mas com bem mais de meio metro, longos cabelos azuis piscina, olhos azuis curiosos e uma língua que mal lhe cabia na boca.
— Com mais de sete bilhões de pessoas nesse mundo, justo Afrodite está sabendo do meu... Da minha... gestação. — os farelos da bolacha de morango escapavam de sua boca e salpicavam o sofá da sala onde Mu estava sentado.
— Ele não vai contar. Fica tranquilo, amor. — disse Shaka, que já vinha com um paninho úmido recolher as migalhas. Tinha horror em sentar ali e pequenas formigas lhe morderem as costas por debaixo da túnica. E tudo porque Kiki e Mu viviam comendo onde não deveriam. Mas não ia implicar, não com seu amado ariano naquele estado — Já disse pro Baiacu que todos saberão quando você assim desejar, e que se ele não segurar aquela língua peçonhenta dentro da boca eu vou arrancar ela fora.
Mu suspirou. Esperava mesmo que Afrodite guardasse seu segredo, pois estava decidido a esconder a gravidez e adiar o máximo que fosse capaz sua vexatória realidade.
Tão certo o lemuriano estava de que continuaria a manter sua rotina normal, até para não levantar suspeitas, que seguia empenhadíssimo em todas suas tarefas. Auxiliava Saga e Camus na parte administrativa do Santuário pela manhã e meio período da tarde, e antes da noite cair ainda executava seu ofício na forja, porém sem dar-se a exageros.
Chegava em casa quase sempre muito cansado e tomava uma bronca do virginiano, que teimava em lhe dizer que precisava fazer repouso. Discutiam por alguns minutos, mas quase sempre terminavam o dia deitados à rede que Shaka colocara entre as Salas Gêmeas, onde viam, abraçadinhos, as primeiras estrelas a despontarem no firmamento.
Nas noites mais quentes o jantar era saboreado ali mesmo, no jardim, depois curtiam um momento em família, lavavam a louça e finalmente iam para a sala usufruir da melhor hora do dia, pelo menos para Shaka e Kiki, que era quando se aboletavam no sofá para assistia à novela.
Houve uma noite em especial em que Mu estava agitado, inquieto.
Findado o capítulo da novela, Shaka pegou Kiki no colo, que já estava quase entregue totalmente aos braços de Morfeu, e o levou para o quarto, enquanto Mu se dirigia ao quarto deles para tomar uma ducha.
Virgem logo se juntara ao amado e depois de um longo e relaxante banho entre beijos e carinhos trocados, deitaram-se na cama como sempre faziam. Aliás, como sempre faziam desde a descoberta da gravidez de Mu, já que antes mal se encostavam nos lençóis e já estavam se amando entre gemidos luxuriosos e sussurros eróticos, e desde quando voltaram do Hospital de Atenas pareciam estar se preparando para entrar em uma grande Universidade, tantos eram os livros que arrumaram, de uma hora para outra, para ler esperando o sono chegar.
Shaka acabava de abrir seu livro sobre amamentação e lactantes quando Mu fechou uma revista científica, a qual lia já há algumas noites, e tirou os óculos, os colocando sobre o periódico em seu colo.
Sentia um calor fora do comum. Não era de transpirar, mas em sua testa era possível notar pequenas gotículas de suor. Seu coração estava acelerado, suas mãos geladas e apesar do cheiro de sândalo que vinha de Shaka ainda o deixar um pouco enjoado, Mu sentia uma vontade louca de se esfregar no marido e tomar aquele odor para si. Não sabia por que, só sentia um desejo absurdo pelo virginiano, por isso virou o rosto para ele e agora o olhava com a gana de uma fera que cobiça a caça.
O fato era que os hormônios do Santo de Áries estavam enlouquecidos em seu organismo, que jamais fora preparado para gerar uma vida. A libido de Mu estava altíssima e ele não sabia mais como lidar com todo aquele fogo que queimava dentro de si.
Vinha controlando seu desejo sexual há dias, na verdade desde que achara que tinha uma doença gravíssima e que iria morrer. Deprimido, não procurava o marido com a mesma frequência que tinha antes, mas agora que sabia que teria uma longa vida pela frente tudo que queria era nunca mais desperdiçar seu tempo, e sim gasta-lo todo fazendo amor com Shaka. Agora que a ideia de ser gestante já estava um pouco melhor digerida, tudo que Mu pensava era em matar a saudades do corpo do loiro.
Quase sufocado de tão excitado, Áries agarrou o livro que Shaka lia e sem pestanejar o lançou para longe, avançando sobre o marido sem prévio aviso, tomando a boca deliciosa do virginiano num beijo quente e lascivo.
Apesar de ter sido pego de surpresa, Shaka não o interrompeu. Estava tão saudoso do corpo do lemuriano quanto ele do seu, e senti-lo daquela maneira tão entregue e eufórico era instigante demais.
O beijo se aprofundava. Os lábios ansiosos se provavam com arrebatamento, as mãos ávidas pelo toque passeavam pelos corpos, apertando, arranhando, provando... As respirações se aceleravam na medida em que a excitação entre eles crescia, rapidamente.
— Humm... Sha... Adoro sua pele quente... Hum... O sândalo... Está forte, mas... Aaaaaaaahhhhh, amor que saudades do seu corpo. — mordeu de leve o lábio inferior de Shaka ao mesmo tempo em que se colocava sobre ele, se encaixando entre as longas e torneadas pernas do virginiano como fazia de costume.
Shaka em baixo dele gemia e se contorcia em volúpia, entregue à urgência que tinha em sentir o amado, porém quando Mu agarrou no cós de sua calça de pijama e com um só puxão para baixo o deixou seminu, Virgem arregalou os olhos parecendo assustado. Áries já abaixava a própria calça num gesto ligeiro e ansioso.
Então o cavaleiro de Virgem agarrou rapidamente o cós da calça do lemuriano e com um puxão para cima cobriu a nudez do amado, surpreendendo Mu que já sentia o membro latejar de tanto tesão.
— Espera! — disse Shaka num tom de voz elevado.
— O... O que foi? — respondeu Áries arfante.
— Espera, Mu... Eu... Eu não estou bem.
Shaka segurou o marido pelos ombros e gentilmente o afastou de si. Puxou as calças para cima, ajeitando-as no lugar e se sentou, fazendo um exercício respiratório para tentar se acalmar. Mu o olhava em assombro.
— Como assim, não está bem?
— Não sei... Não acha que é arriscado fazermos isso? — puxou os cabelos para trás com franja e tudo e os prendeu num coque. Estava com o corpo todo pegando fogo!
— Por Atena, amor. Arriscado por quê? Claro que não. — disse Áries, já se aproximando novamente do virginiano lhe dando um beijo molhado no pescoço — Eu estou louco para amar você, Sha, ouvi-lo gemendo para mim.
Novamente Shaka o repeliu o afastando com as mãos.
— Mu, espera...
— O que é Shaka?
— Não sei.
— Se você, que é o cavaleiro mais próximo de Deus e da verdade absoluta não sabe, então ninguém sabe. E nem precisa saber. Vem cá, quero você, amor. — disse pegando no braço de Virgem e o puxando para mais um beijo, que fora de pronto correspondido, pois nada no mundo era mais tentador a Shaka que os toques e beijos de Mu.
No entanto, quando o indiano sentiu novamente suas ereções se tocaram, dessa vez não só afastara Mu, como também descera rapidamente da cama, ficando de pé ao lado dela enquanto olhava para o rosto afogueado do marido que o encarava, agora com o semblante um tanto quanto irritado.
— Mu, tem um neném dentro de você, por Buda! Eu... Eu estou me sentindo estranho em fazer amor com você com ele ai dentro.
— Ah eu não acredito! Shaka, é um embrião ainda! Não vai acontecer nada com ele. Para com isso, amor. Vem aqui, vem. — esticou a mão para o amado, mas sem sucesso.
— Eu acho que... Não quero.
— O que? Não quer? Não quer fazer amor comigo?
— Não sei... Preciso pensar... Sei lá, me acostumar com a ideia de me entregar a um homem grávido. Não me sinto confortável em... Em... Bom, podemos trocar as posições de novo.
Mu estava chocado. Olhava para Shaka com os olhos arregalados sem acreditar no que acabara de ouvir. Achou um desplante do outro lhe propor aquilo, pois Virgem sabia muito bem que aquela não era, nem nunca fora, sua preferência. Até porque deveria sofrer de alguma sensibilidade extra, uma vez que nas poucas vezes em que fora o passivo amargurava dias todo dolorido em sua intimidade.
— Eu ouvi direito? — disse o lemuriano incrédulo — Você... Você me engravidou, Shaka de Virgem! Me engravidou e agora não quer mais transar comigo? E... E... E ainda me faz essa proposta absurda? Inver... Inverter, Shaka de Virgem?
Todo o destempero ariano veio à tona como um estouro de manada. Mu desceu da cama bufando furioso. Os hormônios em erupção dentro de si, somados a seu estado emocional fragilizado há dias, transformaram o gentil lemuriano em um furacão tropical digno de ser batizado com nome latino de mulher.
Shaka não estava em estado diferente. Era tão estourado quanto o marido, porém estava mais preocupado com seu descontrole do que em revidar. Por que propor uma inversão de posições era afinal tão absurdo para Mu?
— Sim inverter, qual é o problema, Mu de Áries?
— Qual é o problema? Qual é o problema? Você sabe que eu não gosto. Por causa disso eu estou gestante, Shaka de Virgem! Por causa dessa inversão! Quando era para você estar.
— Eu só não te dou um chacoalhão para colocar tuas ideias no lugar porque tem um filho meu ai dentro de você. Não era nem para você e nem para eu estar gestante, Mu de Áries. Agora se acalma. Vai fazer mal para o bebê.
Mu sentia-se, além de rejeitado, extremamente ofendido. Suas emoções e raciocínio não operavam dentro da normalidade e por isso mesmo ele começava a fantasiar mil e uma razões para ter sido repelido por Shaka.
— Eu... Eu... Eu fui um marido dedicado, por oitos anos! — dizia, sucumbindo novamente ao choro, que agora parecia ser seu companheiro mais fiel — Eu nunca te deixei faltar nada, Shaka de Virgem. Nunca! Até abandonei meu templo para morar com você. Ai eu resolvo agradar você um dia e te deixo me comer e o que você faz? Me engravida!... Meteu um filho dentro de mim e agora não me quer mais? É isso? — indagou revoltado.
— Por todas as lótus dos jardins sagrados dos santos!... Mu, claro que não! Você não está bem, amor. Não está dizendo coisa com coisa. — Shaka se aproximou dele com cautela, pois Mu estava agitado e andava de um lado para o outro gesticulando — Se acalma, vamos conversar direito. Não pode se exaltar assim.
— É porque eu vou ficar gordo? Afrodite disse que vou ficar gordo! — parou encarando Shaka em meio soluções e tremores — Eu não sou mais atraente?
— Que besteira, Mu. Claro que é atraente. Shaka é completamente louco por você, mas...
— Mas o que? Você está inventando uma desculpa para não fazer amor comigo, Shaka. Admite! Transamos semana passada, dois dias antes de eu ir ao médico e eu já estava gravido! Há seis semanas que transamos quase todos os dias e eu já estava grávido. Você se entregou a mim esse tempo todo e nada de diferente aconteceu.
— É diferente, Mu. Sabe que é. Eu não sabia, agora eu sei.
Áries estreitou os olhos e suas íris verdes cintilaram. Estava com muita raiva de Shaka. Tanta que não conseguia nem mais ficar ali e olhar para ele.
— Quer saber? Eu vou embora. — disse, e imediatamente correu até o closet, onde apanhou uma maleta e em meio a lágrimas e praguejadas desandou a tirar suas roupas das gavetas e cabides para soca-las de qualquer jeito dentro da mala.
— O que pensa que está fazendo, Mu? — dizia Shaka logo atrás dele. Estava assustado. Poucas vezes na vida havia visto o marido tão perturbado e sem saber como lidar com aquela situação inusitada, começou a tirar as roupas que Áries enfiava na maleta, as devolvendo às gavetas, extremamente irritado — Para com isso! Você não vai sair daqui! Por tudo que é mais sagrado, se acalme.
Mu estacou onde estava. Perplexo ele assistia Shaka devolver suas roupas aos lugares devidos e, num rompante de lucides desvairada, encarou o marido, imprimiu uma irritação ímpar à sua fala e disse:
— Você tem toda razão. Eu não vou sair daqui. Sou eu quem está grávido. Sou eu quem está sensível e meu filhotinho precisa de uma cama quente e macia para repousar.
— Exatamente amor. Que bom que percebeu a besteira que estava fazendo.
— Quem vai sair daqui é você.
A sentença fora dita quase num rosnado, e na mesma hora, Mu abriu o armário que competia à parte de Shaka, agarrou um montante generoso de roupas e correndo para fora as arremessou de uma só vez sobre a cama.
— Como é que é? — Shaka vinha logo atrás todo esbaforido.
— É isso que você ouviu. Eu não quero ficar sob o mesmo teto que você, Shaka de Virgem. — repetiu o gesto entrando no closet e apanhando mais um bolo de roupas do loiro, para em seguida juntá-lo ao monte sobre a cama — Você é um grosso, um brucutu!... Neandertal! Cavalo!
A face de Virgem era um misto de alarme e assombro. Era óbvio que Mu não estava em seu juízo perfeito, mas Shaka não sabia o que fazer, como lidar com aquela situação. Pensou em ligar para doutor Adônis, mas o que diria? Que não quis transar com Mu e ele surtou? Não. Nunca abriria sua intimidade para terceiros. Sendo assim, tudo que fazia era acompanhar Áries nas viagens entre closet e cama, enquanto tentava trazê-lo de volta à razão. Mas parecia em vão.
— Por Buda, Mu! Você está descompensado! Olha o que está fazendo!... Pare com isso. — tentava pegar o ariano pela mão, mas aos prantos Áries não lhe dava ouvidos, fazendo um verdadeiro escândalo. Até que Shaka se irritou e agarrou a túnica que Mu retirava do cabide para arremessar no bolo que se formava sobre a cama, arrancou a peça das mãos do lemuriano com um solavanco, deixando Mu estático — PARE AGORA COM ISSO MU DE ÁRIES!
O Santo defensor da primeira casa olhava para o Virgem com os olhos arregalados mergulhados em duas vigorosas poças de lágrimas. Shaka havia gritado consigo, ele nunca fazia isso. Respirou fundo, enxugou o rosto com as palmas das mãos e extremamente magoado disse:
— Você me usou. E agora que estou prenhe não sirvo mais para você. Não sirvo mais nem para te amar.
— Mas que absurdo!
— Absurdo é eu achar que você me amava! Que amava nosso filhotinho... Estava todo carinhoso comigo esses dias... Mas não! Shaka de Virgem é um Ogro insensível que me rejeita e grita comigo! Eu quero que vá embora dessa casa! — correu novamente para perto da cama, onde com extrema ligeireza embolou as roupas do virginiano fazendo uma trouxona usando o lençol.
— Muuu! Você está me assustando! — Shaka vinha atrás tentando impedi-lo, mas quando menos se deu conta, Mu havia teleportado a trouxona de roupas e o próprio Shaka para a entrada da Casa de Virgem, nos degraus da escadaria de rocha.
Em seguida, Áries correu para a janela e debruçando-se sobre o parapeito, olhou para um Shaka totalmente incrédulo lá embaixo, que erguia a cabeça e olhava de volta para si com os olhões azuis arregalados.
— Já que você não me quer, Shaka de Virgem, eu também não te quero! Vai embora daqui! — bateu a janela com força.
Foi tudo tão rápido, dramático e tão assustadoramente inusitado, que quando Shaka se viu expulso de sua própria casa, tudo que fez foi sentar-se sobre a trouxona de roupas e tentar se acalmar. Estava assustadíssimo, totalmente perdido, mas se tinha uma certeza naquela hora era de que não deveria enfrentar o marido. Não no estado em que ele se encontrava.
Suspirou abatido, esfregando o rosto com as mãos e coçando freneticamente o couro cabeludo em seguida, num gesto claro de nervosismo.
— Buda, o que foi que Shaka fez de errado dessa vez? — balbuciou para si mesmo — Não consigo me habituar à ideia de transar com um homem que tem um filho meu dentro dele... E... Ainda ser o passivo. É como se... Não! Buda! — jogou-se de costas na trouxona de roupas e abriu os braços comtemplando a abóboda celeste e seus diamantes noturnos com os olhos amedrontados — Afaste esse pensamento nefasto da mente do Shaka! Oh, Buda! Atena!... Shaka deveria ter meditado mais e assistido menos novela! Agora ele não sabe como lidar com essa provação!
Enquanto Virgem maldizia sua sorte do lado de fora da sexta casa zodiacal, do lado de dentro, Mu corria até a cozinha para ver se afogava suas mágoas e aplacava sua libido em chamas com comida. Apanhou três maçãs, quatro pacotes de bolacha de morando e um pote de nozes.
Inconformado e chorando muito, voltou ao quarto bufando feito um carneiro bravo e jogou-se na cama na companhia dos petiscos. Ligou a televisão e triturando tudo aquilo na velocidade voraz de uma lima nova, em meio a lágrimas e praguejamentos, Mu procurava ele mesmo um motivo para tanto destempero emocional, pela parte de ambos.
— A culpa é dele! — ralhou olhando para a TV. Nem se ligara ao que passava na tela. Sua cabeça estava na escadaria da casa de Virgem — Eu sei que eu estou feio, que vou ficar gordo, mas e dai? E o amor onde fica? Eu amaria ele mesmo gordo e sem os braços. Ogro. Ogro!... Me engravidou e agora foge das responsabilidades. Não me quer? Não quero você também Shaka de Virgem!... Buda insensível!
Praguejava baixinho com a boca cheia de bolacha, espalhando migalhas pela cama toda, até que parou de súbito e encarando um ponto qualquer na parede teve uma epifania.
— Será possível que esse temperamento estranho do Sha também é devido minha gravidez? Ele sempre foi tão compreensivo... Atena, o que está acontecendo com a minha vida?
Áries não conseguia aceitar que seu estado atual poderia influenciar em sua vida sexual com o marido, afinal estava explodindo de libido e com Shaka se negando a fazer amor consigo isso significaria que teria que amargurar um longo jejum de oito meses sem sexo.
— Não, não, não, não! Não vou aguentar! — se afundou na cama entre os travesseiros. Estava aflito, perdido, confuso, precisava falar com alguém, mas não queria falar com Shaka, estava com raiva do marido. Então debruçou-se no colchão, esticou a mão até o criado mudo e apanhou seu celular, discando o número da única pessoa com quem poderia chorar suas pitangas.
Casa de Peixes, 00h37min am
— A-Alô. — a voz pastosa, porém um tanto quanto exaltada, era reflexo do susto que levara com o toque do celular, o qual estava carregando sobre o móvel ao lado da cama. Tinha acabado de cair em sono profundo a poucos minutos e mal podia acreditar que fora acordado daquela maneira — Quenhé?
— "Eu, Dido, o Mu."
— Mu?... Por que está me ligando? E por que essa hora? O que aconteceu? — virou-se de costas na cama esfregando os olhos.
— "Eu não quero usar telepatia, porque o Shaka pode invadir o canal." — falava em sussurros — "Eu posso dormir ai?"
— Aqui?... Ué, sim, sempre que quiser, mas... O que está acontecendo, Mu?
— "Bem... É que..." — o lemuriano tentava se controlar, mas descompensado como estava caiu no choro — "O Shaka, Dido, ele não me quer mais."
— Como é que é? — agora Peixes se sentava na cama exacerbado — O Shaka não te quer mais? Tá de truque?
— "Não. Estou falando sério. Ele não... Ele não me ama mais Dido... Agora que me comeu e me engravidou eu não sou mais homem pra ele... Dido... Eu vou embora!"
— Miserável! Como ele teve coragem de fazer isso com você? Você está com um filho na barriga! — disse indignado, até que num rompante de consciência pensou melhor — Não. Espera. Ele não faria isso... E... Como assim vai embora? Mu para onde você vai?
— "Para a sua casa, sabe áries está vazio. Não estou bem, Dido. Expulsei o Shaka de casa e agora estou sozinho no quarto. Por favor, me deixe ir para ai. Não vou atrapalhar. Eu agora sou pai solteiro, Dido. O brucutu só quis me usar... Agora não presto mais pra ele."
Afrodite conhecia muito bem tanto Mu, quanto Shaka, para saber que aquela conversa estava por demais estranha. Tinha consciência da relação de amor e cumplicidade que havia entre os dois e as palavras do amigo ariano pareciam mais com lamúrias descabidas de uma mente perturbada. E para Mu estar naquele estado só poderia ter a ver com a gravides.
Peixes tinha um conhecimento limitado sobre o tema. Tudo que sabia sobre gestantes era que eram paranoicas, ficavam sensíveis até ao ouvirem a buzina do sorveteiro, queriam comer geleia de morango com bacon e ficavam gordas, mais nada. No entanto, ao monitorar rapidamente os Cosmos de Mu e também de Shaka, Afrodite sentiu o do lemuriano triste e o do virginiano muito confuso e percebeu que estavam passando por algum mal entendido.
— Mu, meu querido, é claro que você pode vir aqui quando quiser, mas se quer um conselho... Fique com seu marido, Mu. Você não pode expulsar o Shaka do Templo de Virgem, meu amor. Atena quer o loirudo ai, na sexta casa, ele é o guardião dela, lembra? E eu sei que você também quer.
— "Não quero! Para quê o quero aqui? Para me dizer que sou uma anomalia? Que não sirvo mais para comer ele?"
— Mu, escute... Pensa bem, o loirudo deve estar confuso e assustado tanto quanto você! Você está gravido e merece todas as atenções, mas e ele?
— "Mas eu quis dar atenção para ele, e muito mais que isso. Quis dar amor, carinho e ele me rejeitou! Me rejeitou!"
— Mu de Áries! Seja menas! O Buda te deu a bunda por oito anos! Ele não tem culpa que o taco dele é melhor que o seu e quem engravidou foi você! Ah, tá boa! Não pode fazer isso com ele!
— "Ah, então eu que estou errado?"
— Não... Quer dizer, não sei. Acho que nenhum dos dois está. Só acho que você tem que dar um tempo para ele se acostumar com a ideia de dar a rosquinha para alguém que tá com um filho dele dentro da barriga!
— "E o que tem demais isso? Não justifica ele ser um Ogro."
— O que tem demais? Mu, esse cavaleiro a quem você está chamando de Ogro, só porque não quis apagar tua vela, era pra ser um monge. Um clérigo. Um Santo! Casto e virgem! Ele largou tudo isso para poder dar a rosquinha dele em paz para você, e agora ele vai ser pai... Pelo amor de Atena, você precisa ouvi-lo e procurar entende-lo, ou vão quebrar louça pelos próximos nove meses. Eu sei que essa gravidez inesperada está te deixando maluco, mas não pode perder a cabeça, querido. Kiki vai sofrer se vocês não conseguirem se entender e você também vai. Você precisa do loirudo do teu lado, Mu. Vocês vão ter um bebê. Não pode passar por uma gravides sozinho.
— "Você está certo, Dido. — disse Áries após refletir por alguns minutos — Me desculpe. Eu... Eu vou tentar falar com Shaka."
— Sim, faça isso. Se quiser pode subir, mas tentem se entender. Boa noite, querido. Cuida desse bebezinho ai dentro de você.
Afrodite desligou o celular e soltou um suspiro longo. Colocou o aparelho no mesmo lugar de onde o apanhara, espreguiçou-se lentamente, erguendo os braços acima da cabeça e puxou o lençol para se cobrir, mas quando virou-se para o lado deu de cara com Camus de Aquário, que sentado entre os lençóis encarava o marido com um par de olhos avelãs arregalados e semblante perturbado.
— Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhh! — o grito de susto do pisciano irrompeu pela noite grega.
Casa de Virgem, 01h10min am
Nas escadarias do sexto Templo, Shaka andava de um lado para outro atordoado, quando pensou ter ouvido um grito ao longe. Parou de súbito olhando para o horizonte. Nada parecia fora do comum. O pico de Star Hill estava envolto em uma fina neblina, do outro lado o relógio de fogo apagado refletia a luz do luar que incidia sobre os símbolos zodiacais em ouro. Tudo em perfeita normalidade, não fosse pelo fato de que dentro de sua mente nada era como antes, nada estava normal, porque seu marido, um ferreiro forte e viril estava grávido e por mais que estivesse morto de saudades de fazer amor com ele, só o fato de pensar na ideia de se entregar a Mu, com seu filho sendo gerado em seu interior, dava arrepios no cavaleiro de Virgem.
Shaka era um homem muito sábio, porém toda aquela sabedoria, adquirida tanto nessa quanto em outras vidas, de nada lhe valia para ajuda-lo a lidar com aquela situação.
— Buda... Atena... Alguém ajude Shaka a achar isso normal! — dizia, enquanto apertava as têmporas com ambas as mãos só de pensar em se deitar com o amado naquela condição — Ele tem que me ouvir, entender o que sinto!
Não suportando mais aquela situação, resignado Shaka pegou a trouxa nos braços, entrou em seu Templo e caminhou às pressas até o quarto. Parou em frente a porta, colocando as roupas amontoadas aos seus pés e espalmou ambas as mãos na madeira. Sentia o Cosmo de Mu do outro lado, mas não entrou. Não queria deixa-lo nervoso então respirou fundo e encostando a testa na porta começou a conversar com o marido ali mesmo.
— Mu? Mu de Áries?... Sei que está me ouvindo, Mu. Eu não rejeitei você, eu só... Estou confuso. Você não mudou em nada e mesmo que mudasse o que sinto por você jamais mudaria. Continua lindo como sempre foi e sempre será. Shaka sempre amará o Mu do jeito que ele é. Só que... Por favor. Me dê um tempo para me acostumar com a ideia de... de fazer amor, afinal o meu filho está dentro de você, amor. Não sei como posso me acostumar a isso. Não torne essa situação mais difícil do que já é para nós, Mu.
De súbito ouviu-se a porta se destrancando e abrindo lentamente.
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Dicionário Afroditesco
- Apagar a vela: fazer sexo
