Enquanto a porta se abria lentamente, revelando o cômodo à meia luz mergulhado num silêncio cerrado, – Mu havia desligado a televisão – Shaka observava a figura do marido sobre a cama que, cabisbaixo e visivelmente irritado, enxugava as lágrimas que ainda escorriam pelo rosto, usando as palmas das mãos.
O cavaleiro de Áries empregou novamente telecinese para fechar a porta quando Virgem entrou trazendo consigo a trouxona de roupas, a qual colocou no meio do quarto. Ainda não conseguia olhar diretamente para ele, pois apesar da conversa com Afrodite ao telefone lhe ter sido bem elucidativa, estava muito magoado pelo loiro o ter rejeitado daquela forma. Contudo, resignado decidiu dar uma chance a Shaka.
O virginiano então se acercou da cama, primeiramente reparando na quantidade de farelos de bolacha de morango que havia ali, tanto sobre os lençóis ao entorno de Mu, quanto no chão. Sentiu ganas em limpar tudo aquilo antes que as famigeradas formigas minúsculas que lhe mordiam doído as costas chegassem para garantir as provisões do inverno, mas até desse hábito congênito Shaka abriu mão para resolver sua situação com o amado.
Assim, o Santo de Virgem sentou-se na beirada que competia seu lado da cama e imediatamente Mu se virou para o outro lado, obstinado.
Por mais que o ariano soubesse que seu comportamento estava sob forte influência dos hormônios da gravidez, não conseguia colocar freio em seus ímpetos. Mu tinha como certo que jamais seria o passivo da relação novamente, visto que, isso lhe resultou em uma gravidez insólita e, portanto, aquela proposta estupida de Shaka estava fora de cogitação totalmente.
Não inverteriam as posições novamente. Estava decidido. Não iria morrer por não fazer sexo. Vivia muito bem sem quando era solteiro... Era só questão de tempo para se acostumar.
Porém, nessa tentativa de convencer-se a si mesmo, Mu falhara miseravelmente, pois só de sentir o calor de Shaka se aproximando de si na cama já se dera conta de que podia sim, abdicar do sexo, mas não de Shaka de Virgem, não dos toques do seu amado indiano, do calor de sua pele aveludada, do perfume dos cabelos dourados como os raios do sol...
Definitivamente seria um tormento ficar sem amar Shaka, e essa angustiante dúvida fazia seu coração disparar a cada minuto. Como seria dali para frente?
Para Shaka também não era nada fácil resistir ao marido. Amava tanto aquele ariano cabeça dura que mais difícil que controlar seus próprios desejos era negar-se a ele.
Quando faziam amor experimentavam uma conexão tão sublime que poucas vezes tivera arrebatamento igual. Era um amor puro, forte e que transcendia a barreira entre carne e espírito.
Contudo, mesmo toda essa força não fora o suficiente para lhe deixar em paz com o que lhe atormentava.
Ver seu amado ali, amuado, calado, magoado, sentindo-se rejeitado, deixava seu peito apertadinho e procurando acabar logo com aquele sofrimento, foi que se levantou, deu a volta na cama e ajoelhou-se na beirada ao lado de Mu, tomando sua mão com pressa, antes que ele resolve-se se virar de novo. Precisava fazer com que o amado lhe ouvisse e entendesse seus motivos, e não sairia dali até se acertar com ele.
— Mu... — fixou seus olhos aos dele, mas como imaginou Áries desviou o olhar. Mesmo assim Shaka persistiu — Não faz assim, amor, por favor... Eu sei que está triste e sensível. Sei também que deve estar muito assustado. Se eu estou, imagino você!... Mas... Mas... Não sei exatamente o que me deixou desconfortável, mas tenha certeza que não foi você, Mu. Estava tudo indo bem, como sempre foi, adoro te beijar e os seus beijos para mim sempre serão a minha razão de viver... Mas... Quando seu corpo tocou o meu daquela forma mais íntima eu... eu não sei o que houve, mas me senti tão desconfortável.
Nessa hora, Mu finalmente olhou para os olhos de Virgem, porém não desmanchou o semblante austero indiferente que sustentava, e mesmo diante daquela indiferença toda, Shaka prosseguiu.
— Eu... Não sei o que fazer, Mu! Você está gerando uma criança ai dentro de você... Será que... Será que podemos transar normalmente enquanto estiver com ela ai? Digo... Os movimentos todos, o esforço, os trancos... Você não tem um ventre, ela está sendo gerada no seu abdome... Não seria bom marcarmos uma consulta com o Dr. Adônis antes de... Antes de fazer amor? — a pergunta esperou uma resposta que não veio, já que Mu praticamente era uma porta com quem Shaka tinha um monólogo — Eu estou perdido, Mu... Será que não entende? Eu procurei entender você o tempo todo e tudo que peço é que faça o mesmo por mim. Mu, é meu filho que está ai dentro de você!... Como quer que eu... que eu me deite e... Buda, não sou nem capaz de dizer!... Só sei que não consigo... Você continua lindo como sempre foi e eu o amo ainda mais agora que temos mais esse elo que nos une. É o presente mais sublime que você poderia ter me dado, Mu... Mas você não me deixa participar... Não me deixa cozinhar para vocês, não me deixa encontrar o meu tempo... Não pode se alimentar só de bolacha... Eu... Queria tanto poder cuidar de vocês, ser o marido que você queria, mas... Eu não sei o que fazer. Não sei!
Shaka de Virgem nunca chorava.
Muito menos na frente de quem quer que fosse.
Era muito difícil para o rígido virginiano colocar para fora seus sentimentos, mostrar-se frágil e assumir suas fraquezas. No entanto estava perdido, completamente sem Norte, e com Mu se fechando para ele daquela forma tão crua não via como poderiam tentar encontrar uma solução juntos. Então baixou a cabeça e escorando a testa na borda da cama não conteve mais as lágrimas, as deixando escapar em silêncio, enquanto ainda segurava nas mãos do lemuriano.
Apesar de Áries resistir bravamente durante todo o monólogo de Virgem em seu intento de ignora-lo, diante daquela entrega do outro não foi mais capaz de manter-se fingindo indiferença. Deu um longo suspiro e apertou as mãos dele, que estavam frias e trêmulas.
— Shaka. — chamou e fora prontamente atendido com Virgem erguendo a cabeça e olhando em seus olhos verdes — Se eu não estivesse casado com você há oito anos, iria até duvidar de que é mesmo o meu marido falando. Pelos deuses, Sha, quanta bobagem! Mas sabe o que eu mais acho engraçado? Você diz que não consegue dar, mas me comer você consegue? Não sou mais homem suficiente para você só porque vou ter um bebê?
— Por Buda, Mu, mas é lógico que não... E por todos os seis infernos de Samsara não me faça explicar a diferença entre... Entre uma coisa e outra coisa, porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. — dizia todo sem jeito.
— Mas é o que parece! Pois, saiba que eu nunca te achei menos homem por ser passivo. Nunca vi nesse fator algo que pudesse diminuir sua masculinidade. Muito pelo contrário, eu sou gay, então é justamente sua sensualidade suave, porém extremamente masculina que me atrai. Mas agora que engravidei, parece que eu não sou mais atraente como homem...
—Para com isso, amor... Eu sou muito bem resolvido comigo mesmo e não é nada disso... E você é o homem mais atraente do mundo, Mu. Shaka está ainda mais apaixonado agora e o Mu está mais atraente que nunca! — esticou um braço e fez uma caricia terna no rosto do lemuriano — Apenas me dê um tempo para colocar minhas ideias no lugar... Eu... Eu quero você, amor. Eu o desejo como jamais desejei... — de vagar, subiu na cama e se acercou de Áries com cuidado, pousando a cabeça no mesmo travesseiro, de modo a seus rostos ficarem juntinhos, quase se tocando — A gravidez deixou sua pele ainda mais macia, seus cabelos ainda mais brilhantes... O Shaka nunca viu o Mu tão lindo antes!... Mas... tem o bebê.
— O que tem ele? — o ariano indagou olhando o marido nos olhos — Se o que diz é verdade, se estou tão bonito e desejável assim, por que não podemos nos amar como antes? Nenhuma grávida para de fazer sexo, Sha. Não afeta em nada o bebê. Ele não tem consciência de nada que eu faço. Está quietinho aqui, na minha barriga. Se fosse uma gravidez de risco eu entenderia, mas não é. O doutor disse que estou saudável e contínuo normal, e que mesmo quando estiver barrigudo, isso não interferiria em nossa vida sexual. Inclusive as mulheres dizem que sentem até mais prazer por causa da sensibilidade causada pelo excesso de hormônios.
— Mas você não é mulher. — Shaka postulou.
— E eu estou começando a duvidar de sua inteligência. Estou conversando com quem aqui? Com o Afrodite?
— Mu! Não me ofenda! — Shaka ergueu a cabeça fazendo menção em se levantar, mas na mesma hora se deu conta de que não adiantaria bater de frente com Áries, isso só deixaria o marido ainda mais estressado e poderia fazer mal para o bebê.
Foi assim que, reunindo toda sua paciência zen budista, adquirida a anos de treinamento árduo, deitou novamente a cabeça no travesseiro e deu um selinho nos lábios de Mu, soltou um suspiro longo e acariciou os cabelos lavanda que tanto amava com extrema ternura.
— Mu, vamos parar com essa briga. Assim não chegaremos a lugar algum. Não é hora de discutir o que é certo ou errado, ou quem está com a razão... Nós dois nos exaltamos, amor... Sei que está magoado comigo, mas eu te prometo que vou fazer tudo que está ao meu alcance para afastar essas ideias inconvenientes da minha mente... Acho que você se adapta melhor à novidades que eu. Só preciso de um tempo... Lembra que nunca pensei em ser pai e você já falava que era seu sonho? Pois bem, adotamos o nosso Kiki e eu descobri na paternidade um amor sublime que ainda me era desconhecido, e devo isso a você, mas... Lembra que no começo não foi fácil para mim ter uma criança aqui em casa? Hoje não conseguiria mais viver sem aquele furacãozinho ruivo trançando minhas pernas, pedindo comida a cada cinco minutos... Kiki nos completou, Mu e meu amor por você e por ele só aumenta a cada dia. E agora eu vou ser pai novamente, de um filho nosso e... Você não tem ideia do quanto estou feliz!
Mu olhava para Shaka e era embalado tanto pelos carinhos que o virginiano lhe fazia, quanto por suas palavras, as quais fizeram o cavaleiro de Áries refletir sabiamente. A quem ele queria enganar fingindo indiferença ou até mesmo mágoa? Amava aquele virginiano metódico mais que tudo na vida e a ultima coisa que queria era fazê-lo sentir-se pressionado a algo. Agora Mu conseguia perceber que talvez tivesse sim, passado da conta, afinal a única diferença entre eles era que o bebê estava sendo gerado em seu corpo, não no de Shaka, mas que Virgem estava tão perdido quanto si.
— Vem cá, amor. — disse o ariano desfazendo a marra e puxando Shaka para um abraço forte, que imediatamente fora correspondido, pois o loiro em nenhum momento culpava Mu por seu destempero. Era a gravidez que o estava deixando tão alterado — Então... Você ainda me quer? Ainda tem tesão em mim?
— Sim, Mu... Muito! Todos os dias... Todas as horas... — Shaka respondeu entre sussurros, enquanto afundava o rosto na curva do pescoço do ariano e beijava a pele quente e perfumada de lavanda.
— Só não consegue relaxar, não é mesmo? — perguntou Áries com um sutil gemido diante à carícia que o outro lhe fazia.
— Isso mesmo. Shaka não consegue relaxar. — encostou mais seu corpo ao do marido, como quem procura alento numa noite fria e tempestuosa.
— Como era quando namorávamos? Você só conseguiu se sentir em paz com sua consciência para consumarmos nosso amor, após o casamento.
—É... É mais ou menos isso, Mu. Eu também não tenho certeza. Preciso meditar sobre a questão... Procurar respostas... Um ponto de equilíbrio! Quem sabe Buda não sane minhas dúvidas e inseguranças!
— Vou ter que esperar o bebê nascer para fazer amor com você, Shaka? — a pergunta fora tão direta quanto um murro no nariz.
— É... Não... Quer dizer... Não sei... — gaguejou, enquanto se ajeitava melhor na cama, procurando, com receio, os olhos do outro que cintilavam em ansiedade — Mu, por favor. Acabei de pedir um tempo para poder refletir, ficar em paz para te dar paz e... e está me pressionando de novo.
— Sha... Eu... Eu não vou conseguir... Só de estar assim, abraçado a você, eu sinto meu corpo pegar fogo! Será que são os hormônios no meu corpo? É como se uma fornalha queimasse dentro de mim e só você pudesse apaga-la.
A voz de Mu era um tanto repleta de angustia, tanto pela situação presente, quanto por medo do futuro. Estava realmente com a libido em ebulição e mesmo sabendo que muito do desejo absurdo que sentia era consequência de seu estado, não conseguia controlar o fogo que lhe queimava as entranhas. Porém, jamais iria forçar Shaka a fazer sexo consigo. Lembrava-se muito bem do quão penoso foram os tempos em que eram namorados e Virgem não conseguia dar o segundo passo. Tanto que, em poucos meses de namoro já estavam casados e com as benções de Buda Shaka finalmente se libertara de suas amarras auto impostas. Talvez agora a insegurança do virginiano fosse fruto da mesma árvore e, como fizera no passado, era só esperar um pouco, com paciência e amor, que tudo se resolveria.
Como se pudessem ler os pensamentos um do outro, substituíram as palavras por um longo beijo apaixonado e que selava silenciosamente outro pacto entre eles. Minutos depois, já arfantes novamente, Virgem afastou o rosto e mais uma vez encarou os olhos de Áries com seriedade.
— Confie em mim. Vou encontrar um meio o quanto antes, porque não posso viver também tanto tempo longe de seus toques, de seu corpo... Seus gemidos... Me dê alguns dias apenas, meu amor.
— Eu tenho escolha? Você sabe que eu confio em você, sempre confiei, Shaka. Mas, não demore, ou eu acho que terei de viver essa gravidez INTEIRA debaixo de um chuveiro com água bem gelada! Enquanto isso, vou tentar fazer alguma meditação, exercícios, e... — a fala foi interrompida, pois Mu se afastou abruptamente do marido para em seguida se virar de costas, ajeitando-se sobre os lençóis ao mesmo tempo em que enxugava a testa suada —... E ficar bem longe de você, porque assim de pertinho é tentação demais para mim, Shaka. Olha para isso!
Virou o quadril para o lado do virginiano e apontou para o volume enorme em sua calça de pijama.
Virgem raspou a garganta e engoliu a seco, tanto pela cena constrangedora, quanto pela força que fazia para não pular em cima do ariano e abocanhar aquele desaforo deliciosamente provocativo dentro da calça dele. Só não o fez porque se conhecia muito bem e sabia que iria travar novamente, e dessa vez Mu não o perdoaria, e com toda a razão!
— Eu... Sinto muito te fazer passar por isso novamente, Mu... — disse em um tom melancólico.
— Me desculpa também, Sha. — o ariano respondeu, ainda com o corpo ligeiramente virado para o lado do loiro — Sei que me exaltei. Não sei o que deu em mim. Me perdoa?
— É claro que sim. — respondeu um pouco mais aliviado.
— Ótimo. Então vamos dormir que toda essa energia que não gastei hoje com você pretendo descarregar na forja logo mais. Haja martelo e bigorna, Atena! — deu novamente as costas ao virginiano e se ajeitou para dormir, quando Shaka lhe chamou a atenção.
— É... Mu, por que não vai tomar uma ducha refrescante? Assim aproveito para trocar esse lençol cheio de migalhas e arrumar essa bagunça de roupas que você jogou pelo quarto... Buda! Tem mais comida em cima dessa cama do que na cozinha! As formigas vão comer a gente vivo desse jeito. — ajoelhado sobre o colchão, Shaka batia as mãos nos lençóis jogando os farelos de bolacha no chão para poder recolhê-los com o aspirador de pó.
— Não começa, Shaka. Acabamos de fazer as pazes! — Mu respondeu num resmungo. Porém, de costas para o amado ria baixinho, pois sentia-se muito mais leve. Levar aquela bronca do Santo de Virgem significava que tudo tinha voltado ao normal entre eles. Era como afastar de si uma nuvem carregada e ver o sol brilhar novamente.
Por isso mesmo que sentou-se na cama e puxou Shaka para um beijo, o jogando de costas sobre os lençóis apenas porque sabia que ele teria um chilique ao sentir os farelos lhe arranhar a pele.
— Eu amo você. — disse Áries antes de dar um selinho no loiro e se levantar, indo em seguida para o banheiro para tomar a tal ducha, rogando para que a água fria levasse todo seu tesão ralo abaixo.
— Eu também amo você, Mu. — respondeu Shaka rindo, enquanto se levantava da cama e com uma das túnicas que apanhou do chão batia os farelos das costas — Seu carneiro bagunceiro.
Um pouco mais confiante, Shaka pegou a trouxona de roupas e a colocou sobre uma poltrona. No dia seguinte teria que passar todas as peças novamente para guarda-las e, enquanto retirava os lençóis da cama, pensava no quanto a gravidez de Mu estava alterando o humor de ambos. Seria assim nos próximos nove meses? — "Por Buda! Que provação!" — pensou, indo buscar roupas de cama limpas no armário.
Teria que meditar muito, e também comprar mais livros, muito livros!
Casa de Peixes – Momentos antes.
— Eu ouvi direito, Peixinho? — Camus indagou, extremamente confuso.
— Não, mon amour. Abafa o caso... Você... Você sonhou! — tentou controlar a respiração acelerada devido o susto e a apreensão.
—Non! Eu estou bem acordado! Non tente me enrolar... — a voz era grave e vigorosa, tanto no timbre, quanto na intenção — Você estava falando com o Mu, ouvi muito bem! E que maluquice é essa de gravidez, Afrodite? Que conversa de doido foi essa?... Você... Merde! Non me diga que você... Afrodite, você tomou algum remédio estranho de novo? — os olhos reluziam uma faísca rubra que denotavam toda sua inquietação, pois Camus não era cachorro, mas já farejava uma presepada do pisciano naquela conversa esquisita.
Afrodite ficou estático. Encarava o rosto irrequieto de Aquário com a face pálida, esperando que seu cérebro pegasse no tranco e lhe presenteasse com uma epifania divina — "Droga, droga, droga, de boca aberta! Isso é ajé! É ajé*! O Buda vai arrancar a minha língua! Pensa em algo, Afrodite, pensa!"— matutava consigo mesmo e, como era de se esperar, sem conseguir encontrar uma desculpa verbal, apelou para a tática da qual sempre fazia uso quando queria desviar o foco da atenção de Camus. Tática esta, aliás, que sempre dava certo:
Jogou-se em cima do amado o enchendo de beijos.
Os lábios ansiosos do pisciano percorriam o pescoço alvo e o rosto quente de Camus até tomarem a boca do aquariano num beijo ardente, o qual não demorou muito para ser correspondido e aprofundado pelo francês, que já sentia seu corpo responder às caricias sempre tão despudoradas do marido.
— Hum... Camus... Já que está acordado... Mon amour... Nós podíamos fazer o nosso bebê... AAAHH! NÃO! ATENA, NÃO! — interrompeu-se arregalando os olhos, inconformado consigo mesmo e dando um risinho sem jeito — Mas que droga, Camus! Você sonha com essas coisas absurdas e acaba me deixando abilolado*!
Na tentativa de escapar daquela sinuca de bico, Afrodite tomou novamente a boca de Aquário num beijo digno de cinema, daqueles que fazem com que a mocinha se esqueça de tudo, até do próprio nome! No entanto, Camus de Aquário não era uma heroína das telonas, estava muito mais para o herói másculo e viril, e nem um pouco disposto a esquecer o absurdo que ouvira.
—Hum... — Camus correspondia ao beijo, mas sua resposta viera rápida, na forma de um solavanco e um movimento ligeiro que invertera as posições deles na cama. Agora Peixes estava deitado de costas, enquanto Aquário, sentado sobre seu quadril, segurava seus punhos acima da cabeça, o imobilizando enquanto encarava seu rosto — Afrodite de Peixes, je ne suis pas né hier!**
— Aiii... Não fala francês não, amor... — apelou com um gemidinho manhoso — Só fala em francês quando está bravo! Você está bravo?... Nossa, Camus, me dá um tesão quando você fica bravo... Vem, amour! — fechou os olhos e fez um bico, esperando ser beijado, mas Camus estava irresoluto.
— Non tente me enganar que non vai conseguir. Eu ouvi muito bem você dizer que o Mu está esperando um bebê, e preciso saber o que está acontecendo, porque se ele está tendo uma gravidez psicológica ele precisa de ajuda especializada, Afrodite, e non de um maluco que o incentive! Será que perdeu o juízo de vez? Mon Dieu!
Peixes abriu os olhos e olhou no fundo dos olhos do amado por alguns segundos, então soltou um suspiro resignado.
— Não é psicológica... É natural! — finalmente se rendeu.
Na verdade, pensou que seguraria o segredo de Mu e Shaka por mais tempo, mas considerando que jamais escondia nada de Camus, tê-lo guardado por quatro dias era um verdadeiro feito em sua vida!
Devagar, puxou os braços para baixo e quando Camus soltou seus pulsos o segurou pela cintura e gentilmente tombou o corpo do francês para o lado, para poder sentar-se de frente para ele. Tomou as mãos do Santo de Aquário nas suas, olhou em seus olhos com atenção e abriu o jogo.
— Camus, mon amour, sei que o que ouviu parece truque* e não tem lógica alguma, mas... É a mais pura verdade... Mu está grávido! Tem um carneirinho budista bem dentro da barriga dele. — um sorriso largo e elevado se desenhava no rosto do pisciano, enquanto ele esperava ansiosamente por uma reação do aquariano, que apenas o fitava calado e inerte, até que, longos e desgastantes segundos depois, Camus fora tomado por uma crise de riso, explodindo em gargalhadas.
O francês nem de longe lembrava o sério e sempre sisudo Cavaleiro de Aquário. Deixou-se jogar de costas na cama, de olhos fechados e mãos espalmadas sobre o abdome forte e definido, enquanto seu corpo sacodia com a crise de riso que o acometia.
Quando conseguiu, enfim, controlar-se, se sentou novamente sobre a cama, inclinou-se para frente e deu um beijo carinhoso na testa do pisciano, que apenas o observada calado.
— Amour... Ma vie!**... Homens non engravidam, Peixinho. — disse, como o rosto bem próximo ao do outro e de forma muito gentil.
— Engravidam sim! Mu está grávido, Camus. — insistiu o sueco.
— Hum, Sei... Vocês estão aprontando alguma e você non pode me contar, non é? O Mu vai adotar outra criança e quer fazer uma surpresa para o Shaka, é isso? Ou, quem sabe estão pensando em barriga de aluguel?
— Não. Mu vai dar um filho para o Shaka sim, mas a barriga não é de aluguel. E a dele mesmo! E também não é adotado, eles que fizeram... Mas, por Dadá, Camus, não pode contar isso para ninguém, ou o Buda tira meu sentido do tato e me deixa broxa para o resto da vida, e ai quem vai sofrer vai ser você, Alice.*
— Ah bon! Eu é que non vou contar. — disse o aquariano segurando o riso pra não cair em outra crise — Sabe que guardo segredo, só non gosto que minta para mim, mon amour.
— Não estou mentindo! Mu vai ter mesmo um bebê! Não é o máximo?
Camus analisou rapidamente o marido e, julgando por seu histórico de maluquices, nada impedia mesmo que ele e Mu estivessem armando alguma e se o cavaleiro de Áries lhe pedira sigilo não seria ele a intrometer-se. Confiava muito em Afrodite e se ele não queria dizer a verdade não insistiria.
— Oui! É incrível, ma vie! — Camus respondeu risonho.
— Eu também achei. Um verdadeiro milagre! Se não foi o Buda quem conseguiu essa façanha divina só pode ter sido Atena. — o pisciano falava muito sério, diferente de Camus que ainda ria, mas que de súbito teve o riso abafado por um beijo eufórico de Afrodite, que em uma manobra ligeira o jogou de costas contra os lençóis, já se aboletando novamente por cima de seu corpo — Hum... Vamos fazer o nosso Camy, vamos?
— O... Nosso? — perguntou Aquário entre gemidos, enquanto abria as pernas para que o pisciano se encaixasse melhor entre elas.
— Sim. Nosso bebê! Quem sabe Atena nos conceda essa graça conceptiva também, mon amour... Vamos encher esse Templo de peixinhos ruivos, vamos? — enchia o pescoço do francês de beijos, já baixando o cós da cueca que Camus usava, ao mesmo tempo em que lhe arranhava delicadamente a pele pálida enfeitada por minúsculas sardas graciosas.
— Você quer me engravidar, Afrodite? É isso? — o ruivo suspirou, já sentindo seu membro enrijecer novamente diante dos toques ousados do amado.
— Quero! Quero muito! Quero ter doze filhos com você, mon amour, um de cada signo... Aaahhh... Vau te mostrar que não é só o Buda que é bom de taco!... Hummm...
— Ah... Peixinho, você é ótimo de taco, ma vie! Mas, se queria me comer era só ter dito. — riu já despindo o pisciano com urgência — Sabe que non me importo em revezarmos. — afinal, o francês achava que Afrodite só estava inventando uma desculpa para que ele fosse o passivo .
— Eu sei, eu sei... Só que não podia fazer um filho em você sem o seu consentimento né, mas agora que você também quer um filho meu, eu serei o papai mais feliz do mundo, Camus! Mon amour! Eu amo tanto você... Hummmm...
— Eu também... Je t´aime, Afrodite!... Aaaahhhh... Vem... Vem, mon amor, que lugar de Peixinho é dentro do Aquário!... Me engravida!... Usa esse teu taco delicioso e vamos fazer nossos doze peixinhos ruivos! Um de cada signo!
E assim, Camus imaginava estar realizando mais uma das fantasias malucas de seu amado Peixinho. Se Afrodite queria brincar de tentar engravidá-lo, ele é quem não iria negar, pois sabia que seria deliciosamente compensado com uma noite quente e delirante de amor!
*Abilolado – doido, confuso.
*Alice – bicha que vive num mundo de fantasias.
*Ajé – ruim, péssimo.
*Truque – conversa fiada. Enganação.
**Je ne suis pas né hier! – Eu não nasci ontem!
** Ma vie! – Minha vida!
