A rotina na sexta casa havia mudado completamente por conta do bebê que esperavam. Sim, esperavam, pois apesar de quem carrega-lo no ventre fosse Mu, Shaka e Kiki participavam ativamente daquela gravidez.
O lemurianinho adorava ter longos monólogos com a irmãzinha enquanto desenhava na barriga do pai. Já Shaka, se empenhava em fornecer tudo o que Mu precisasse, desde alimentação balanceada até abraço carinhoso com cafuné após o dia de trabalho.
Com quatro meses e meio de gestação, Mu enfim conseguira estabilizar seu humor e não mais chorava por qualquer coisa, apesar de ainda apresentar a sensibilidade exacerbada tão natural nas mães.
Seu corpo, sempre muito definido pelos treinamentos, também já mostrava alterações visíveis, as quais ele esforçava-se muito para disfarçar.
Por causa dos hormônios da gravidez, a pele do lemuriano tornara-se extremamente sedosa e aveludada. Os cabelos agora exibiam um brilho extra digno de causar inveja a qualquer propaganda de shampoo que se preze, e os lábios, ainda mais corados que o normal, lhe conferia um ar mais delicado, o qual não passava despercebido por Shaka, que a cada dia achava o marido ainda mais belo.
Os enjoos terríveis pareciam enfim ter desaparecido para alívio do ariano, pois a convivência com Camus e seu perfume francês enjoado já o estava levando à loucura.
Porém, resolvidos os problemas do humor instável e das náuseas, agora outro fator parecia enlouquecer o pobre gestante. Mu sentia uma fome avassaladora.
Se antes mal conseguia fazer uma refeição descente, agora nada que lhe ofereciam parecia ser o suficiente para aplacar o apetite voraz que o consumia. Comia durante todo o dia, e, às vezes, até acordava de madrugada para assaltar a geladeira e fazer um lanchinho noturno.
Mu tornara-se uma draga, da qual Shaka tinha dificuldade em manter satisfeito.
Justamente por isso, com tão pouco tempo de gestação já havia ganhado uma quantidade considerável de peso. A barriga já se mostrava um tanto saliente e ele precisava se esforçar para disfarça-la optando por usar roupas bem larguinhas.
No entanto, se Mu obtinha sucesso em esconder o ventre inchado, o mesmo não se podia dizer de seu rosto, o qual começava a adquirir um leve formato arredondado.
Além disso, também começava a notar que ao final do dia uma leve dor nas costas surgia junto com um cansaço excessivo. Por isso, adquirira o hábito de sentar-se na cadeira de balando que ficava na varanda, de frente com o jardim da casa de Virgem, pra descansar quando chegava do trabalho do escritório do décimo terceiro Templo.
Era onde ele estava nesse momento, balançando-se na cadeira enquanto lia um livro sobre os cuidados na educação de meninas. Esperava pelo marido que havia ido ao mercado acompanhado do filho.
Concentrado em sua leitura, o lemuriano passava as páginas usando telepatia, enquanto aproveitava as mãos livres para cutucar a parede de pedra ao lado da cadeira dançante. Vez ou outra arrancava um pequeno pedaço da rocha e, distraído, levava o fragmento à boca, divertindo-se em triturar os farelos de pedras com os dentes, por fim os engolindo sem nem se dar conta do que fazia.
Foi na hora exata em que Mu arrancava um pedaço da parede e o levava a boca que Shaka retornava das compras com Kiki.
Pai e filho subiram as escadarias lado a lado. O pequeno ruivo vinha em silêncio, concentrado, já que levitava as sacolas com as compras a fim de treinar sua telecinese, sendo monitorado pelo pai loiro.
O menino simplesmente adorava fazer aquilo. Mesmo que ainda desajeitado, sentia-se incentivado e seguro, visto que cada vez que derrubava algum item, Shaka vinha de pronto apanha-lo do chão para devolvê-lo à sacola voadora.
— Não levite muito para o alto, filho! Deixe no nível de sua cintura. Assim, se cair não danifica as frutas! — dizia simplesmente, já avistando a entrada de seu Templo.
Virgem estava tão feliz com a gravidez de Mu que pequenas coisas que o irritavam simplesmente deixaram de existir, como nas vezes em que Afrodite ia buscar Kiki para brincar no Templo de Peixes, ou quando levava o filho para tomar sorvete e o menino sempre voltava sujo e todo rabiscado de canetinhas coloridas. Agora nada era mais importante que Mu e o bebê.
Ao entrarem em casa, Kiki levitou as sacolas até à mesa da cozinha, todo orgulhosa de ter cumprido sua tarefa. Shaka então o pegou no colo, o ajudou a lavar as mãozinhas na pia e sentindo a presença de Mu na varanda, caminhou com Kiki até lá, vendo a cena tão inusitada do ariano comendo pedra.
— Bábaaa... O papai tá comendo a nossa casa! — exclamou Kiki arregalando os olhos, assustado.
Shaka imediatamente colocou o menino no chão e correu até Mu segurando em seu punho antes que, distraidamente, colocasse mais um pedaço de pedra na boca.
— MU! O que está fazendo? — questionou espantado o virginiano.
Distraído, Áries quase soltou um grito de susto ao ser abordado daquela forma pelo marido e sem entender o motivo do espanto do loiro, surpreendeu-se ainda mais ao ter a boca invadida por dois dedos de Shaka, que segurando em seu queixo procurava pela pedra que o vira surpreendentemente colocar ali.
No chão, Kiki olhava para o buraco na parede e incrédulo levava a mão até ele para retirar uma pedrinha bem pequena. Como era de se esperar, a colocou na boca de pronto, ansioso para descobrir que gosto tinha, já que seu pai parecia deliciar-se com elas.
— Mmmmm...Sha... Shakaaa! — resmungou o ariano reclamando dos dedos do marido em sua boca, até que finalmente se viu livre deles — O que deu em você? Quer arrancar minha língua?
— Eu que pergunto o que deu em você Mu de Áries! — respondeu mostrando a pequena pedra entre seus dedos, vitorioso por conseguir impedir o ariano a tempo de engoli-la — Desde quando está comendo pedra?
Mu olhou absorto para o marido, alternando o foco entre rosto zangado e pedra farelenta. Então tomou consciência de que há algum tempo havia desenvolvido esse habito ruim de ingerir coisas estranhas.
No escritório havia destruído todas as pontas dos lápis e canetas que encontrava os mordendo, mastigando e, por fim, engolindo.
— Eu... Não sei, alguns dias, eu acho... — confessou meio sem jeito
— É ruim, papai — disse Kiki de supetão, enquanto cuspia a pedrinha que havia colocado na boca — O Kiki não gostô!
— Por Buda! Mais um! — disse Shaka jogando a pedra de Mu fora e indo já fiscalizar a boca de Kiki para certificar-se de que não havia mais pedras ali — Estão tentando me deixar senil antes da hora?
— O Kiki só quelia vê que gosto tinha, Bába! Poque tá comeno a palede, papai? Tava com fome poque acabô o papá? Não pecisa, o Kiki e o Bába compô comida gotosa pa você e pá nenê. — avisou o menino muito sério, esticando o dedinho para Mu e lhe dando uma bronca com propriedade — Casa não é di comê, é di molá! A baliga vai ficá pesada.
Mu olhava para Kiki e se segurava para não rir, pois aquele dedinho esticado e a postura firme o deixavam extremamente fofo. Mas, o menino tinha toda razão. Teria que passar a ser mais vigilante, já que fazia aquilo de modo inconsciente.
— Desculpe, filhote, o papai não sabe por que fez isso. A neném as vezes faz o papai fazer umas coisas estranhas.
Kiki então se aproximou do pai, colocou a mãozinha em sua barriga e cochichou para a irmãzinha.
— Nenê, péda não é gotoso! Não pede isso pô papai. Chocolate e pilulito é que é gotoso! Não faz mais o papai comê a palede. O Kiki divide os pilulito com o papai, mas não é mais pa fazê ele comê nossa casa tá?
Shaka olhava toda a cena ainda desconfiado e indignado. — "Comer pedras? Não li a respeito em nenhum dos livros! Será que era normal?" — pensava, então piscou os olhos azuis algumas vezes, recuperando a concentração que fora perdida por poucos segundos e olhou para Mu.
— Mu... A menos que queira usar uma dentadura depois do parto, eu acho melhor você não comer mais isso. Tente, sei lá, abstrair a mente com outra coisa quando te der esses desejos estranhos, amor! Eu compro tanta coisa para você comer... Anda, saia dai! Vamos para a cozinha que vou fazer uma vitamina para você e para nossa filhotinha! — disse pegando na mão do ariano e o ajudando a sair da cadeira.
Kiki já corria na frente, pulando e levitando. Falou de comida, era com ele mesmo!
Na cozinha, correu até a dispensa onde pegou o liquidificador e o colocou sobre a pia todo animado.
— O Kiki ajuda, Bába! Vai ficá muito gotoso e o papai não pecisa mais come a nossa casa!
— Ai, por favor, não exagerem os dois. — disse Mu, que vinha sendo trazido pela mão pelo marido — Não estava comendo a casa. Mas, aceito a vitamina... E um sanduiche também não faria mal, né filhota? — concluiu alisando a barriga, já com água na boca.
O lanche foi um sucesso e após se empanturrarem fizeram um breve descanso para logo mais retornarem ao jardim, onde Shaka já havia disposto tapetes de ioga para ele e Mu praticarem uma sessão de ioga gestacional que havia aprendido em um dos livros que comprara.
Foi uma sessão tranquila. Mu era um ótimo aluno. Fazia os movimentos com facilidade, enquanto Kiki tentava copiar os pais, meio desajeitado. Sem obter muito sucesso, o pequeno logo abandonou a sessão e foi brincar com seu terrário de formigas ali mesmo, no jardim.
Ao fim da sessão, um pouco cansado Mu ajudou Shaka a recolher as esteiras e encostou-se em uma das Salas Gêmeas. Logo Virgem veio juntar-se a ele, dentando a seu lado e encostando a cabeça em seu colo. Trocavam carícias mútuas, Shaka acarinhando a barriga de Mu e Áries fazendo um cafuné nos cabelos dourados do virginiano.
De longe eles viam Kiki alimentar suas amigas formigas dentro do terrário que fizeram para ele. O menininho levitava, pairando sobre os montes de terra, enquanto arrumava os dinossauros nos lugares que julgava ser as trilhas por onde seus gigantes de plástico caminhavam naquele mundo em miniatura, e também colocando balinhas em pontos estratégicos.
Shaka e Mu riam da devoção com a qual Kiki criava aqueles insetos, até que um acontecimento chamou a atenção de Virgem.
A princípio achou que estava tendo algum pressentimento, mas enquanto afagava a barriga do amado com o rosto, novamente sentiu um cutucão em sua orelha.
— MU! — elevou a voz, afastando o rosto e olhando para a barriga do ariano, depois ergueu a regata de ginástica que ele usava e encostou o rosto novamente. Um sorriso enorme se desenhou no belo rosto do virginiano quando sentiu sua filha chutar novamente — Mu, mexeu! Mexeu! Ela se mexeu! Sente! KIKI... VEM AQUI! — gritou esticando o braço no ar.
Mu, que havia dado um pequeno pulinho ao sentir a pontada por dentro, estava ainda meio atônito, enquanto olhava para baixo esperando para ver se ocorreria de novo.
Já havia sentido alguns movimentos sutis antes, algo semelhante aos movimentos normais dos órgãos internos na digestão. Mas, aquele cutucão forte era de fato uma novidade que o deixava eufórico e maravilhado.
— Sha... — Mu não sabia o que dizer. Estava tomado por uma emoção desmedida.
Shaka então pegou a mão do amado e a colocou sobre o local onde sentira o bebê se mexer, ao passo que Kiki vinha correndo todo afoito para junto deles, com as mãos cheias de balinhas e várias formigas a correr frenéticas por seu corpo.
— Que foi, Bába! O papai qué come nossa casa de novo?
— Não... Vem cá! — chamou o loiro, mas na mesma hora franziu as sobrancelhas em reprovação — Ah, mas você está cheio de insetos, Kiki... — como que por impulso, Shaka se inclinou para frente e puxando o menininho pelo braço começou a bater a mão nas roupas dele a fim de espantar as formigas.
— NÃO BÁBA! NÃO! ELAS VÃO SE PEIDEEEE! — gritou Kiki em desespero, e livrando-se do pai loiro apressou-se em procurar as amigas que sofreram aquele atentado as recolhendo do chão e as colocando sobre sua cabeça — Depois o Kiki leva elas pa casinha!
— Urgh! Que nojo! — Shaka fez uma careta — Que seja... Vem aqui. Vem ver uma coisa. — pegou na mãozinha do pequeno e a colocou também sobre a barriga de Mu — Fique em silêncio! Espera... Vamos, filhotinha, dá mais um chutinho!
Dito e feito. A neném chutou para a alegria de todos e também para o espanto de Kiki, que levou as mãozinhas à cabeça e arregalou os olhos.
— Papai! A nenê qué sai?
— Não, luzinha da minha vida. — Mu respondeu sorrindo, enquanto acariciava a barriga, emocionado — Ela está só trocando de posição. Eu acho, né. É quentinho na barriga do papai, mas também é pequeno. Quando ela se meche às vezes empurra a barriga do papai com força e nós sentimos aqui por fora, entendeu?
— Tendi papai. — Kiki disse já colocando de novo as mãozinhas para tentar continuar sentindo.
Shaka, transbordando de alegria, também tocava o ventre do ariano. Estavam os três em expectativa, esperando mais um sinal da pequena.
— Vamos filhotinha não seja tímida. — Shaka pedia.
E como se ouvisse a voz do pai, a bebê se mexeu em resposta mais algumas vezes até se acalmar, e os chutes acabarem em definitivo.
— Nossa! Que legal, ela ta quecendo, né papai? — Kiki dizia já se ajeitando no colo de Mu — Da pa senti ela de fola agola. Isso mesmo nenê, o Kiki ta ajudano o Bába e o papai a faze um quatinho lindo pa você. — o lemurianinho havia ajudado a pintar o quarto da irmãzinha e agora contava a ela seus feitos — o Kiki quis pô um dinossaulo, mas o Bába não dexo. Quando sai, fala pa ele que gosta de dinossaulo também, tá? O Kiki e o papai são pincipes e agola você vai cê pincesa, então vamo cuidar muito muito muito de você viu?
Kiki e aproximou da barriga, deu um beijinho nela e esfregou o rostinho como se fosse na própria irmãzinha que estivesse fazendo aquele carinho. Os pais apenas observavam sem interromper o momento, maravilhados com a doçura com que o pequeno tratava a bebê.
Era com imenso carinho que Mu sentia as carícias feitas por Kiki em sua barriga. Shaka por sua vez, um pouco enciumado daquela atenção toda, brincou com os cabelinhos ruivos do filho e fez um pouco de charme.
— Hum... Então eu serei o único plebeu dessa família de três membros da realeza! — disse, puxando Kiki para seu colo — E você pode fazer um desenho bem bonito, do que você quiser, na parede do quarto da sua irmãzinha, de presente para ela! Que tal? Melhor que encher o quarto com dinossauros, não?
— Ebaaaa... O Kiki faz, Bába! Kiki vai fazê uma pincesa, dois pincipes e o Bába!
— Isso! Ótimo! Ficarei honrado em fazer parte desse retrato real! — disse Shaka rindo — Ah, Mu... Você podia fazer um bracelete igual ao do Kiki para ela!
— Vou sim amor, mas depois que ela nascer. Estou entrando já num estado avançado da gestação. Doutor Adônis me proibiu de forjar qualquer coisa, por conta do esforço.
— Tem razão. Já não gostava quando ia à forja com dois meses, agora então nem pensar. — Shaka colocou Kiki no chão e deu um tapinha em seu bumbum — Vá lá levar suas amigas para a casa delas que está quase na hora do jantar! — disse e o lemurianinho obedeceu de pronto.
Depois do jantar, Kiki e Shaka foram até Rodório comprar sorvete de pistache para Mu, que estava com desejo.
Ao chegarem em casa, lemuriano pai e lemuriano filho detonaram dois potes de sorvete enquanto assistiam à novela.
Shaka e Kiki não desgrudavam os olhos da tela da televisão, pois no capítulo daquela noite Raj revelaria seu grande segredo. Mesmo Mu aguentara até o final sem dormir para, enfim, saber que Raj na verdade era Rajhara, não era um homem, como todos acreditavam ser, mas sim uma mulher! Uma ambiciosa executiva que tomara o poder da empresa, se casara com a prometida do ex-diretor e agora era chefe absoluta da uma grande multinacional!
No sofá da sala, três pessoas olhavam para a TV atônitas!
— Bába... O Raj é menina?
— Parece que sim... Are babá! — balbuciou Shaka boquiaberto.
— Mas, e a Kali? A malida dele? Ela sabia? — perguntou Kiki curioso.
Shaka olhou para o filho sem saber o que lhe responder, já se culpando por permitir que ele, tão pequenininho, assistisse novelas. Por isso elas não eram indicadas para crianças!
— Ah, já passou da hora do senhor estar na cama! — disfarçou levantando-se do sofá e indo desligar o aparelho — Eu acho que ela não sabia não. Afinal, era um segredo. Bem... Hora de ir dormir!
Mu ria do embaraço do loiro tentando driblar a curiosidade do filho. Em seu íntimo, perguntava-se como seria quando tivessem duas crianças curiosas, de universos diferentes, um feminino, outro masculino, os questionando dia e noite.
Nessas horas sentia medo. Medo de errar, medo de falhar, mas ao ver Shaka pegar Kiki no colo com zelo e doçura e o trazer para junto de si para que o pequeno pudesse lhe dar um beijo de boa noite e com ele seguir aos risos para o corredor que levava aos quartos, Mu soube que não estava sozinho e que nada tinha a temer. Jamais deveria temer.
