O tempo passava rápido.
Mu já estava em seu sexto mês de gestação.
Sua rotina pouco havia mudado, porém não se podia dizer o mesmo de seu corpo, o qual agora apresentava sinais bem aparentes da gravidez. Esses, que por sua vez, deixavam o lemuriano cada dia mais consternado, já que Mu insistia em manter sua condição em segredo perante os outros cavaleiros.
O abdome agora adquirira um formato oval, e Mu finalmente tinha uma linda e adorável barriga de grávido, a qual ele ocultava por baixo das largas túnicas e lenços tibetanos que costumava usar. Não que conseguisse passar totalmente incólume aos olhos curiosos de todo o Santuário, que por sinal já notara as mudanças que seu corpo sofriam, mas, devido seu estado ser algo totalmente fora da realidade de qualquer um ali, julgavam que o rosto arredondado e rechonchudo, os dedos gordinhos e as bochechas coradas eram resultado do magnífico talento de Shaka para a culinária, ou seja, associavam o ganho de peso do lemuriano à sua ausência dos treinos na arena e ao casamento!
E de fato Mu engordara bastante nos últimos dois meses.
Os enjoos, tão comuns no início da gestação, não o incomodavam mais, e como se fosse impelido pela pequena vida que crescia dentro si a devorar tudo que lhe era oferecido, o ariano comia sem medo do amanhã.
Apesar do ganho rápido de peso, que Áries tentava de alguma forma compensar praticando ioga diariamente com Shaka em exercícios leves e moderados, doutor Adônis lhe assegurara que tudo estava dentro da normalidade. Se é que se podia chamar de normal um homem gravido!
Mas, para uma pessoa em particular, Mu jamais estivera tão belo e desejável quanto agora, mesmo que privado das formas naturalmente masculinas de seu corpo e pesando alguns bons quilos a mais.
Para Shaka, Mu era a personificação do amor, da beleza e do admirável! Três sentimentos que ele já cultivava pelo marido lemuriano, mas que agora sentia em dobro, já que a pessoa que mais amava carregava dentro de si outra centelha de amor tão intenso quanto.
O virginiano muitas vezes acordava no meio da noite e passava a velar o sono tranquilo do amado, enquanto acariciava a barrigona redonda sentindo a bebê se mexer. Nessas horas ele sorria e em completo estado de graça voltava a dormir aninhado ao corpo do lemuriano.
Foi em uma manhã quente, como tantas que há na Grécia, que enquanto preparava o café o cavaleiro Virgem notou a dificuldade com que Mu lutava para executar o simples movimento de sentar-se na cadeira e encaixar seu corpo no espaço entre a parede e a mesa, o qual sempre fora dele.
Áries havia acabado de sair da cama, e ainda vestia o pijama leve que consistia em apenas uma regata de algodão e calça larguinha, peças que deveriam lhe conferir conforto, mas que visivelmente aderiam a seu corpo rechonchudo lhe prendendo os movimentos.
— Mu, acho que precisamos comprar umas roupas para você. — disse Shaka, que foi até a mesa e a puxou para trás, ajudando o ariano a enfim caber no espaço que pelejava para entrar — Sei que não quer, mas logo não vai mais caber nem mais nos pijamas!
— Ah, que bobagem, Shaka. Eu estou ótimo. Nem engordei tanto assim... Engordei?
— Hum... Mu, nem seus chinelos entram mais nos seus pés. Que dirá suas calças! Deixa de ser teimoso, amor. E outra coisa. Hoje é o dia da cerimônia de entrega da armadura de Prata de Medusa a seu novo cavaleiro. Você sabe que precisamos ir, são os protocolos.
— Sim eu sei. Acha que vão desconfiar? Tenho conseguido evita-los há meses, mas hoje não tenho como não ir. — respondeu com um suspiro resignado.
— Se vão desconfiar que você é um homem grávido? É sério isso? — Shaka coava o café enquanto ria — Mu, claro que não. Isso não é algo que se passa pela cabeça de alguém. Mas, você deveria contar de uma vez por todas. Não vai poder esconder isso por muito tempo mais.
— Ótimo! Deixa-os acharem que estou gordo. — retrucou o ariano com veemência.
Em seu íntimo, Mu cultivava uma insegurança angustiante acerca da maneira como os outros cavaleiros reagiriam a sua gravidez extraordinária. Temia virar motivo de chacota ou algo do tipo. Não que sentisse vergonha de estar gerando uma vida dentro de si, a qual já amava incondicionalmente, mas tinha receio do quão maldosas poderiam ser as brincadeiras direcionadas a si.
— Por sorte, ir de armadura é facultativo, mas mesmo que elas se adaptem ao copo do usuário acho que a minha ficaria estranha em mim nesse momento. — falava o ariano enquanto corria as mãos pela barriga com carinho — Vou com roupas civis mesmo. Coloco aquela túnica maior, um lenço volumoso jogado sobre o peito e ai tudo vira um volume único.
Shaka soltou um suspiro. Fazia ideia do que o amado estava sentindo, entendia sua insegurança, mas algo lhe dizia que não era a melhor escolha, nem a mais segura. Porém, era a escolha de Mu, e a respeitaria acima de tudo.
— Faça como preferir, então. — disse, lhe servindo o café — Ainda acho que tiraria um peso das costas contando, mas se prefere se preservar, que assim seja. — beijou o rosto do ariano e puxou uma cadeira para se sentar a seu lado.
Não tiveram muito tempo para debater mais sobre o assunto, pois logo um pequenino lemuriano de cabelos ruivos adentrou a cozinha arrastando seu inseparável cobertor com estampas de carneirinhos. Como de costume, ainda tinha um dos olhos fechados, sonolento, mas fora desperto pelo cheiro delicioso do café e do pão quentinho que perfumou toda a casa, e faminto procurou seu assento ao lado do pai indiano.
Terminado o dejejum, logo a serva encarregada de cuidar de Kiki chegara, e enquanto Mu e Shaka se arrumavam para a cerimonia ela e o pequeno carneirinho foram brincar na sala, onde passariam boa parte da manhã montando quebra cabeças de dinossauros, colorindo livros e contando histórias.
Na grande arena do Santuário, os preparativos para a cerimônia recebiam os últimos ajustes quando o casal de cavaleiros chegou.
Para alívio do lemuriano os outros cavaleiros de Ouro também estavam sem suas armaduras, trajando os corriqueiros trajes civis de treinamento. Porém, seu conforto fora breve, pois assim que foram vistos pelos companheiros de armas logo tornaram-se o foco principal de olhares curiosos e acenos festivos.
Timidamente, Mu acenou de volta com um sorriso hesitante no rosto, vendo Milo, Aiolia, Shura e Máscara da Morte, que já estavam no centro da arena, cochichar algo entre si, e julgava ser ele o assunto.
Apertou a mão de Shaka receoso, mas quando fora pedir ao marido que seguissem até seus lugares fora engolido por uma sombra enorme que lhe tomara a frente.
— Mu, meu amigo, você sumiu. — era Aldebaran, que com seu indefectível sorriso e bom humor viera cumprimentar pessoalmente o amigo ariano de longa data — Que que aconteceu cara? E essa barriga de chope aí? Pediu exoneração do exército de Atena para servir a Sabazius, o deus da cevada? — outra gargalhada descontraída.
Porém, quem não achara a mínima graça daquela piada fora Mu, que ficou ainda mais constrangido, e sem saber o que responder ficou olhando para Touro num misto de aflição e acanho.
Felizmente, sentindo o desconforto do marido Shaka tomou a frente, e encarando Aldebaran nos olhos lhe respondeu com um sorriso forçado no rosto:
— Ora, ora, mas olha só quem fala! Você também não está em sua melhor forma Aldebaran. Deve ser muito churrasco com farofa. — olhou para Mu que arregalou os olhos surpreso o encarando de volta — Tome cuidado, Touro. Mu é um cavaleiro cujos poderes lhe exigem apenas a mente, já você...
— Qualé, Shaka? — o taurino pousou as mãos sobre a barriga, apalpando o abdome — Tá de sacanagem?... Tu acha mesmo que engordei, é?
O Santo de Virgem olhou para Mu e após trocarem olhares cumplices ambos caíram na risada, e o lemuriano, já bem mais a vontade, se permitiu responder ao brasileiro.
— Você sempre foi mais "avantajado", né Debão? Mas, nesse caso, deve ser as feijoadas! Se cuida que de mim o Shaka já ta cuidando. Agora é melhor nos juntarmos aos outros que a cerimônia já vai começar.
Novamente de mãos dadas, Virgem e Áries seguiram até o centro da arena onde Saga aguardava que todos se posicionassem para dar início ao evento, o qual era bem simples.
Haveria a entrega da armadura ao novo cavaleiro de Prata de Medusa, depois os cavaleiros de Ouro costumavam fazer uma demonstração de suas técnicas de luta corpo a corpo, por fim uma pequena confraternização era realizada para simbolizar a união e boa convivência entre os guerreiros que viviam no Santuário.
O casal de cavaleiros então seguiu até um circulo formado pelos Santos de Ouro, assumindo suas posições. Mu acenou para Afrodite que ao lado de Camus vestia trajes civis de treinamento como todos os outros presentes. Peixes era o único ali que lhe sorria animado e cheio de entusiasmo, a despeito de todos os outros que lhe dirigiam olhares curiosos.
Não era para menos, Áries estava tão gordo como jamais estivera aos olhos de todos, que intimamente se perguntavam o que havia acontecido com o sempre tão disciplinado e agitado guardião da primeira casa.
Assim que todos assumiram seus lugares, Saga iniciou a cerimônia, a princípio renovando os votos do compromisso firmado para com Atena e depois finalmente entregando a sagrada armadura de Medusa a seu novo portador, e quando todos já haviam ouvido seu juramento as formalidades se deram por encerradas.
Logo a seriedade nos rostos sinceros foi substituída por largos sorrisos e as posturas em guarda por apertos de mãos descontraídos e abraços amigáveis.
Após os cumprimentos e felicitações, o Grande Mestre do Santuário se colocara ao centro da arena juntamente com Shura de Capricórnio, e juntos, contemplados por mais de trinta pares de olhos deslumbrados e admirados de jovens guerreiros e aprendizes, faziam uma pequena demonstração de suas técnicas de luta num combate ensaiado.
Em outra extremidade da arena, um coquetel era servido aos convidados.
Foi para lá que Áries e Virgem seguiram após o encerramento das formalidades a fim de se juntarem a Aquário e Peixes, que provavam alguns dos quitutes oferecidos.
— Hum... Mu, que bom que veio! — Afrodite cumprimentou o amigo com um sorriso — Toma, experimenta esses canapés de azeitonas. Estão uma delícia! — disse estendendo três dos belos salgadinhos ao lemuriano que de pronto já juntou as mãos para apanha-los.
— Vai com calma, Afrodite. Azeitona tem muito sal. A pressão dele não pode subir. — Shaka recomendou com toda sua cautela virginiana, e agora também paternal.
Na mesma hora, Camus, que estava ao lado de Afrodite e que ouvira o que Shaka dissera, mesmo o virginiano tendo praticamente sussurrado ao ouvido de Peixes, franziu o cenho confuso.
— Por que a pressão dele non pode subir? Mu, você está doente? — perguntou preocupado o francês.
Não era de hoje que aqueles dois andavam bem estranhos, sem contar que o ariano havia engordado muito em pouco tempo, e isso preocupava Aquário.
— Não... — Mu respondeu com a boca cheia de canapés — Quer dizer, eu me descuidei um pouquinho e acabei engordando, por... — pensava em uma desculpa convincente enquanto engolia os canapés —... Por causa do estresse com a doença do Kiki, mas é só. O Shaka só está sendo cuidadoso.
Camus ainda olhava para o lemuriano com um semblante receoso quando Afrodite, distraído, apanhava outro canapé da mesa para logo jogá-lo dentro da boca.
— Mas, mon amour, eu já te disse que é porque Mu está esperando um bebê. Eu li no livro de gestantes que comprei que gravidas não podem ter a pressão muito alta ou...
— AFRODITE DE PEIXES, VOCÊ...
O grito partiu de Shaka.
Virgem não podia crer no que acabara de ouvir, que Afrodite tinha contado a Camus sobre a gravides de Mu, sendo que próprio Áries lhe pedira sigilo absoluto.
Irritado, Shaka deu dois passos à frente em direção ao pisciano e o agarrou pelo braço, o puxando imediatamente para perto de si.
— Buda, segure as minhas mãos! — Virgem rosnava as palavras em baixo tom — Eu não posso acreditar que você contou! Mu confiou a você o segredo da gravidez dele, seu baiacu da língua solta!
Assustado e desconcertado, Aquário olhava para Shaka com os olhos arregalados, a boca entreaberta e a face pálida, em seguida olhava para Afrodite que parecia engasgado, concluindo, finalmente, que a história absurda da gravidez de Mu que o pisciano lhe contara então parecia ser mesmo verdade.
Foi no exato momento em que Camus tentava minimamente por ordem em seus pensamentos atarantados, e Afrodite tentava engolir o canapé enroscado em sua garganta enquanto era chacoalhado por Shaka, que Mu, um pouco mais afastado, sentiu alguém lhe agarrar o antebraço com extrema força e lhe dar um puxão para trás, o tirando dali em segundos.
Com o solavanco que sofrera, Áries deixou cair os canapés que tinha nas mãos, e quando se deu conta estava sendo lançado para o centro da arena, onde caiu de joelhos ao solo de areia e terra, rodeado pelos Santos de Prata e Ouro que ensaiavam golpes de luta.
O susto fora desconcertante a tal ponto, somado por um sentimento de medo que jamais havia experimentado em toda sua vida, que Mu simplesmente não conseguiu reagir.
Estava em choque!
Sentia os Cosmos agitados e exaltados de todos ali e temeu por sua filha.
Tudo que Áries conseguiu fazer no pequeno percurso entre o lugar de onde fora tirado até o campo de batalha foi curvar o tronco para frente e abraçar seu abdome com força, usando ambos os braços para proteger a barriga, enquanto batia o queixo no solo soltando um gemido rouco e amedrontado.
— Ma andaimo, Mu! — a voz grave era de Máscara da Morte, a pessoa que puxara Áries para o centro da arena — Vamos mostrar para esses stronzos como é que se battaglia! — colocava-se em posição de ataque saltado sobre o lemuriano.
— Vamos lá! Mexa esse traseiro gordo, Mu! — Milo já vinha correndo em sua direção com um sorriso intimidador no rosto bronzeado — Você sempre gostou de um mano a mano. Agora é que eu quero ver!
— Isso ai! Vamos ver quem é que está fora de forma! — com uma gargalhada sonora, Aldebaran também já saltava para o centro da arena, mesmo que estivesse estranhando o comportamento incomum do amigo, o qual não reagia.
Contudo, Aldebaran não era o único que estranhava.
Mesmo Máscara da Morte e Milo estranharam a postura do lemuriano, o qual mantinha-se encolhido na mesma posição, mas nem por isso abortaram seus ataques. Um em cada flanco vinham ávidos a atingir o cavaleiro no centro da arena, quando de repente foram repelidos por uma rajada de Cosmo energia poderosíssima que os arremessou para longe.
— KHAN!
O golpe de Shaka envolveu Mu em uma redoma dourada intransponível, ao mesmo tempo em que repelia Máscara da Morte, Milo e Aldebaran, os fazendo voarem, literalmente, metros de distância dali, chamando a atenção de todos que ocupavam a arena.
Aprendizes, cavaleiros, de Ouro e Prata, convidados, servos, todos agora olhavam para o centro do estádio, onde sobre um campo de força que protegia o Santo de Áries pairava Shaka de Virgem em sua ameaçadora posição de ataque, pernas cruzadas, mãos à frente do peito e olhos fechados. O Cosmo exalando agressividade.
— Toquem nele e morrerão no mesmo instante!
Shaka então desfez o domo de Cosmo energia que protegia Mu e descruzando as pernas levitou até ele ajoelhando-se a seu lado, enquanto sem entender absolutamente nada do que acontecia ali, Saga e os outros cavaleiros observavam de longe o casal.
— Mu, por Buda, você está bem? — perguntava aflito o indiano, pousando ambas as mãos nos ombros do marido, sentindo seu corpo tremer freneticamente — A bebê está bem? Você está ferido? Como fui deixar isso acontecer? — completamente desesperado, Virgem tentava ajudar Áries a se levantar, mas o lemuriano estava em choque.
Um pouco mais afastado, Máscara da Morte, Milo e Aldebaran se levantavam do chão batendo a poeira de areia das roupas, enquanto Camus ajudava Afrodite a desengasgar do canapé que tinha engolido torto devido o susto de minutos antes.
— Aju... Aju... Ajuda, Camus... Ajuda ele... o Mu... — Peixes tossia enlouquecidamente, apontando para Mu e Shaka no centro da arena, enquanto Aquário lhe dava tapas nas costas — Para de me bater e ajuda eles!
Puxando Aquário pela mão, Afrodite correu até o centro do estádio, mas fora impedido por Shaka de se aproximar.
— Não se aproximem! — gritou, encarando os dois cavaleiros a sua frente.
— Shaka, se acalme. Seu Cosmo está muito elevado, irá ferir os aprendizes e os servos... E Mu não está bem, está assustado, me deixa ajudar. — disse Afrodite se aproximando lentamente.
— Alguém por Dieu pode me explicar o que está acontecendo? Shaka, non pode usar seu Cosmo na arena! — Camus disse extremamente confuso e apreensivo — Eu devo estar ficando louco! Mu está mesmo... grávido?
Percebendo que o virginiano também estava extremamente nervoso, Afrodite se aproximou com cautela e tocou em seu ombro, antes de ajoelhar-se a seu lado e com a outra mão tocar o rosto trêmulo de Mu.
— Gente... vamos manter a calma. Já passou, está tudo bem. — dizia o pisciano tentando tranquiliza-los — Mu, querido, não aconteceu nada. Seu loirudo está aqui, botou todo mundo pra correr. — olhou para Shaka e deu uma piscadinha e um sorriso — Ele protegeu vocês, como um verdadeiro pai de família! Se acalme. Mas... você viu que está se tornando muito arriscado esconder sua condição dos outros cavaleiros... Você precisa contar, Mu.
Ao ver Afrodite ali e sentir Shaka lhe amparando com extrema devoção, Mu levantou o rosto e olhou para eles. Seus olhos estavam marejados e os lábios empalidecidos ainda tremiam.
— Me... Me desculpem. — disse com voz trêmula e vacilante — Eu... Fiquei com tanto medo de acertarem minha bebê que...
— Shii... Não aconteceu nada, Mu. Está tudo bem. — Shaka lhe disse acariciando seu rosto.
— Achei que ia perder nossa filhotinha, Shaka... Eu não sabia o que fazer.
— Então... Então é verdade! — a voz estremecida de Camus denunciava seu abalo emocional — Você... Mu você está mesmo... está... gravido! Sacre Bleu! — levou as mãos ao rosto num claro gesto de perplexidade.
— Ué, mas eu te disse que ele estava, mon amour. — Afrodite olhou para o francês despreocupado.
— Oui... Você... disse... — Camus respondeu e em seguida contorceu seu belo rosto numa expressão zangada e lascou um tapão na cabeça do pisciano.
— Ei! Por que está me batendo agora? Posso saber?
— Non posso acreditar que... Que... Esse tempo todo você estava falando sério em tentar me... DIEU!... Nós temos muito que conversar hoje em casa, Afrodite de Peixes!
— Dá para ter a DR* de vocês em outro lugar? — Shaka disse passando um dos braços pela cintura rechonchuda de Mu para ajuda-lo a se levantar — Vem, Mu, levante-se... Vocês estão bem? — perguntava enquanto batia a terra dos joelhos do amado e depois de seu rosto — Não me esconda nada, por Buda! Nossa filha está bem?
— Sim... Está tudo bem, eu acho... — respondeu Áries alisando a barriga por cima das roupas largas —... Preciso me acalmar primeiro. Não consigo monitorá-la tremendo desse jeito.
Shaka então abraçou Mu com ternura, afagando seus cabelos e o ajudando a controlar a respiração para que vencesse aquele estado de aflição que o tomara.
— Mu, eu detesto admitir, mas o baiacu tem razão. Não tem mais condições de esconder essa gravidez de todos, amor. Está se tornando arriscado, você está ficando estressado, aflito... Isso não é bom para você nem para nossa filhotinha.
— Aqui, Mu, sente-se nesta cadeira. — Camus disse, finalmente convencido de que Mu era um homem grávido, e que, portanto, inspirava cuidados — Seus joelhos estão sangrando.
— Obrigado, Camus. Isso não foi nada. — o ariano agradeceu sentando-se na cadeira — Me desculpe ter escondido isso de você por tanto tempo.
— Non tem que se desculpar... Era um direito seu. Quem me deve desculpas é outra pessoa. — olhou de forma severa para Afrodite que não entendia o porquê de toda aquela zanga, já que tinha dito a verdade ao amado desde o princípio, mas deixaria para se entender com o aquariano em casa.
Quando se deram conta, os quatro cavaleiros que ali estavam eram a atração principal da arena.
Todos os aprendizes e cavaleiros se aproximaram lentamente para entender o que havia acontecido, afinal, para descobrir o real motivo que levou o Santo de Virgem a atacar seus colegas de Ouro daquela forma tão agressiva.
Milo, Aldebaran e Máscara da Morte se acercavam deles com cautela e olhos curiosos, preocupados e confusos ao mesmo tempo.
Aiolia, Shura e Saga também vieram averiguar o que havia acontecido, com Gêmeos tomando a frente.
— Cavaleiro de Virgem, o que aconteceu na arena? Por que o cavaleiro de Áries não se defendeu? E por que você atacou e ameaçou Touro, Escorpião e Câncer com tamanha fúria? — Saga questionou de maneira firme.
Shaka olhou para Gêmeos sem saber o que responder. Não queria desrespeitar a decisão de Mu, mesmo que agora achasse que o melhor que o marido tinha a fazer era contar a verde. Contudo, era uma decisão que cabia somente a ele, e quando se preparava para dar uma desculpa qualquer ao Grande Mestre, foi a vez de Mu tomar a frente e falar em seu lugar.
— Shaka agiu instintivamente para me proteger, Grande Mestre. — disse, chamando a atenção de todos ali para si.
— E você não é mais capaz de se defender sozinho, Áries? — Saga retrucou.
— Certamente que sim. — Mu respondeu com solidez e segurança, então se levantou da cadeira, respirou fundo, se muniu de coragem e acabou com aquela história que tanto o afligia — Mas... Não no estado em que me encontro. Shaka, Grande Mestre, agiu por instinto para proteger a mim e... à nossa filha, a qual eu carrego aqui, dentro de mim.
Levando as mãos ao volumoso lenço vermelho que envolvia seus ombros e pescoço, Mu o desenrolou lentamente. A cabeça baixa e o olhar tímido denunciavam seu desconforto, mas ele estava firme em sua decisão, e mesmo diante dos olhares incrédulos e sobressaltados sobre si, agarrou a barra da túnica que vestia e com um puxão para cima expôs a barriga redonda a todos ali.
— Madonna mia! — Máscara da Morte exclamou em voz alta, com os olhos atracados ao barrigão do lemuriano.
Assim também estavam Milo, Aiolia, Shura, Aldebaran, Camus, Saga e todos ali, que não podiam crer no que viam. Um homem gravido! Um fenômeno que derrubava totalmente as leis da Biologia!
— Cê tá tirando!... Rapaz! — Aldebaran balbuciou em baixo tom.
— Eu... Eu não me senti confortável em contar a nenhum de vocês, confesso, porque eu mesmo ainda não consigo compreender esse milagre... Nem como e nem por que ele aconteceu para mim e para o Shaka... Ainda me sinto totalmente estranho e anormal, mas... Eu estou esperando um bebê, e não poderia estar mais feliz!
O silêncio que se fizera de súbito naquela arena logo atingira o lemuriano, o qual sentia seu peito apertado em angústia.
Esta logo fora notada por Shaka, que vendo a aflição estampada no rosto do amado foi até ele, segurou em suas mãos o fazendo cobrir novamente o corpo com a túnica, recolheu o lenço que havia sido jogado ao chão o jogando sobre as costas do ariano, e lhe tomando a mão na sua o puxou dali.
— Vamos embora. Chega disso. — falou Virgem visivelmente incomodado.
Mas antes que pudessem deixar o local, Saga os impediu.
— Esperem! Por favor. — pediu o geminiano — Eu... Não posso acreditar no que acabei de ver! Como isso é possível? Pelos deuses! Mu, tem a ver com sua raça?
Mu olhou para Gêmeos meio desconcertado. Sabia que não tinha nada a ver com sua raça. Independente de ser humano ou não era homem, jamais deixara de ser homem apenas porque estava gerando um bebê. Não sabia o que responder, quando outras perguntas já começavam a surgir.
— Claro que deve ter a ver com a raça dele. — quem disse foi Aiolia — Já viu outro homem grávido na sua vida?
— Vai ver ele é igual cavalo marinho! Entre os cavalos marinhos é o macho que engravida. — Milo disse dando uma risada que logo fora acompanhada pelos colegas cavaleiros.
— E ai, Mu, quando vai ser o chá de bebê? — Aldebaran arrematou com sua característica gargalhada.
— O parto não vai ser normal, né? — Aiolia ria ao perguntar.
— Deixem ele em paz seus retardados! O que há com vocês? — Afrodite disse em tom elevado de voz, fazendo cessar as risadas imediatamente.
— Foi justamente temendo reações desse tipo que Mu não quis dividir com vocês nosso milagre. — Shaka se colocou a frente deles, encarando um por um de forma hostil e ameaçadora — Sim, porque ele estar esperando um filho nosso é certamente um milagre do qual nós dois fomos merecedores, coisa que vocês jamais serão. Almas mesquinhas e vazias. Quando a Guerra Santa acontecer, eu e Mu teremos por quem lutar, vencer e viver, e nossa vontade e esperança será maior do que qualquer outra. E vocês? Lutarão por Atena, mas desejarão viver por quem? A paz na Terra não é mais importante que a paz que reina dentro do homem, e o amor é o que lhe dá forças para alcança-la. Eu amo a minha família e é esse amor que torna Mu e eu mais fortes que vocês, espíritos famintos.
— Sha... Vamos embora. — Mu puxava o loiro pelo braço, tentando evitar um conflito ainda maior.
— Sim, nós vamos embora, Mu... Mas antes quero deixar avisado que não são bem vindos em minha casa, e se eu perceber que meu marido e meus filhos estão sendo hostilizados de alguma forma, estejam preparados para a Guerra dos Mil Dias... Mas saibam que não entro em um combate para perdê-lo!
— Ei, fica frio Shaka. — quem falou foi Aldebaram, que tentava acalmar os ânimos exaltados — Foi mau... Mas é que... Poxa, é que é estranho, né!... Releva. Se soubéssemos tenho certeza de que ninguém teria puxado o Mu para a arena... Depois, eu sou padrinho do Kiki. Acha que já não estou ansioso para conhecer o molequinho que está ai dentro do Mu?
Vendo que Shaka não encarava aquele discurso como um pedido de desculpas, praticamente fuzilando o taurino e todos ali com o olhar, Saga viu sua hora de agir.
— Cavaleiro de Virgem, por favor, seja maleável. E Áries... Ninguém aqui irá hostilizar você. — disse o grego encarando a todos com uma expressão repreendedora — Tem minha palavra, como Grande Mestre desse Santuário, que ninguém irá perturbar sua paz, nem de sua família. Para mim, sendo um homem, um cavaleiro de Atena a gerar uma vida dentro de si, é um claro sinal de que recebeu uma benção divina de nossa deusa, ou de alguma outra divindade que julgou ser, você, merecedor desse milagre. Sendo assim, nós, como cavaleiros sagrados que somos, devemos louvar esse milagre. Compreendo perfeitamente sua insegurança, mas o aconselho a não mais omitir novamente algo tão importante quanto isso, Mu. Para o seu próprio bem e segurança.
— Obrigado Saga. — respondeu o ariano em tom cordial, mas não menos desconfortável com toda aquela situação.
— Isso mesmo, Mu. Saga tem razão. — Milo falou um tanto quanto acanhado — Sinto muito. Quero que saiba que pode contar comigo para o que precisar... Foi bem... É... Estranho ver você com esse barrigão, mas, somos uma família. Conte conosco.
— Obrigado, Milo... Tá tudo bem... — Áries disse deixando escapar um pequeno sorriso —... Eu sei que devem estar chocados, eu até hoje estou... Enfim... Bem, e Deba, não é um moleque não, estou esperando uma menininha.
— Uma menina! — exclamou o brasileiro erguendo as volumosas sobrancelhas em surpresa — É sério cara? Então é uma moleca! — concluiu sorrindo.
— Sim! — Mu lhe sorriu de volta.
Vendo que o marido já estava bem mais a vontade, Shaka baixou a guarda, soltando um suspiro longo de alívio e permitindo que todos se aproximassem para conversar com Mu, mas atento a tudo que era dito, pois no mínimo sinal de desconforto do amado o tiraria dali de imediato.
No entanto, enquanto todos se espremiam na rodinha que se formava em volta de Mu de Áries, um cavaleiro em particular se afastava. Não que não quisesse partilhar daquele momento tão único e alegre com os amigos, mas porque estava furioso!
— Vamos para casa. — Camus disse quase num rosnado, enquanto apanhava Afrodite pelo braço e o puxava para fora da rodinha — Quero ter uma conversa muito séria com você.
— Ei, calma ai! — dizia o pisciano meio confuso — Mas já?
— Oui, já!
— Mas eu nem me despedi do Mu.
— Non precisa.
— Mas e os canapés? E o bolo? Nem serviram o bolo ainda, Camy. Por que essa pressa?
— Bolo é o que eu vou te dar para o resto da vida, Afrodite, se non formos para a casa já! Anda.
Diante daquelas palavras ditas entre dentes cerrados e olhares ameaçadores, Afrodite se calou e se deixou ser levado para fora da arena, onde depois seguiu ao lado de Camus, em completo silêncio, até a décima primeira casa zodiacal.
Ao entrarem, Aquário deu passagem a Peixes e quando o pisciano ainda caminhava para o centro da grande sala principal ouviu a porta ser batida com tanta força que quase levou um tombo com o susto, tropeçando em uma das poltronas e caindo sentado todo tordo sobre ela.
— Cruzes! O que deu em você? Quer me matar do coração? — perguntou levando a mão ao peito.
— Non... Eu non... Mas, você sim! Você quer me matar do coração! — Camus dizia bufando pela boca — ENTÃO VOCÊ ESTAVA TENTANDO ME ENGRAVIDAR DE VERDADE, AFRODITE DE PEIXES? QUE MERDE DE IDEIA FOI ESSA, SEU CABEÇA DE BAGRE!
Enquanto em Aquário rolava uma verdadeira quebra de louças, depois de muita conversa Mu e Shaka finalmente retornavam para casa.
Ainda um pouco exaltado e com os joelhos feridos doloridos, o lemuriano foi direto para o quarto para trocar de roupa, fazer uns curativos e esticar seu corpo pesado na cama.
Kiki tirava um cochilo em seu quarto, e após dispensar a serva e passar no cômodo do filho para verificar se estava tudo bem com ele, Shaka foi encontrar o marido lhe levando um gostoso chá de camomila.
— Deixa que eu faça isso, amor. — disse o virginiano ao ver o marido se esforçando para limpar os machucados com gaze, mas sua barriga o impedia de alcançar os próprios joelhos — Tome o chá, eu faço o curativo para você. — entregou a xícara a Mu e se ajoelhou a frente dele, apanhando o kit de primeiros socorros que estava sobre a cama — Se eles acham que eu esqueci que te machucaram só por causa dos pedidos de desculpas estão muito enganados.
— Ah, Sha, não começa. — o ariano disse provando o chá que lhe fora entregue — Hum... Está uma delícia!... Tirando a confusão do começo, até que foi tranquilo. Até menos pior do que imaginei. Estou realmente aliviado de não ter mais que esconder isso de ninguém.
— Que bom! Eu também estou, confesso.
— E mesmo que estejam ainda estranhando... O que é completamente normal, vamos combinar, né? Até que pareceram bem acolhedores e até empolgados! Acho que teremos uma fila de candidatos a padrinhos da nossa bebê, Shaka.
— Está brincando né? — Shaka parou de limpar o ferimento para olhar para o rosto de Mu — Nenhum deles merece. Eu não quero nenhum desses espíritos famintos para padrinho da minha filha. Onde já se viu, Buda?... Compararem você a cavalos marinhos... Isso deve ser uma provação, um teste de paciência!...
Mu deixou o marido resmungar o quanto quisesse para próprio alívio dele. Sabia que Shaka tinha um forte instinto protetor e precisava "por para fora" toda a tensão que vivera naquela manhã. Sendo assim, enquanto o virginiano excomungava aquele Santuário todo, Mu tomava seu chá tranquilamente, vez ou outra contendo um riso devido à zanga do marido.
Terminados os curativos e também o chá, Áries colocou a xícara sobre o criado mudo e esticando o braço segurou na mão de Shaka, o puxando para junto de si. Podia até parecer loucura sua, mas toda aquela rabugice nata do indiano era o que o tornava único e encantador a seus olhos apaixonados.
Passaram o resto da tarde deitados um ao lado do outro. Agora o mundo lhes parecendo bem mais leve sem nenhum segredo a ser escondido, apesar de que para Mu leveza era uma palavra que ainda demoraria alguns meses a voltar a fazer parte de seu dicionário!
