Duas horas havia se passado desde que Mu fora colocado no quarto de espera do hospital.
No corredor, Afrodite travava uma batalha com a máquina de refrigerantes, enquanto em seu colo Kiki parecia cada vez mais aflito.
Peixes intencionava distrair o garotinho lhe servindo uma latinha colorida da bebida doce e geladinha, enquanto ele mesmo lutava para manter a própria calma, o que não era tarefa fácil, já que os gritos de Mu podiam ser ouvidos ecoando pelo corredor, cada vez mais intensos e agonizantes.
— Dindo, o Kiki tá peucupado. — murmurou o pequeno lemuriano com os olhões violetas pregados à porta do quarto em que estavam seus pais.
— Ah, não fique, meu amor. Está... — um chute na base da máquina finalmente fez a engenhoca funcionar e a latinha de refrigerante cair no compartimento externo —... Está tudo bem. É assim mesmo.
— Mas o papai tá guitando muito, dindo! E ele tá xingando o Bába!
Aflito, Afrodite esqueceu-se do propósito pelo qual estava ali e abrindo a latinha em desespero a levou à própria boca, sorvendo em segundos a bebida gelada em goles generosos.
— É... é normal também! — disse amassando a lata e piscando os olhos, depois encarou o rostinho aflito do ruivinho — Olha, o seu pai é um dos guerreiros mais poderosos desse planeta, e não vai ser uma bebezinha querendo vir ao mundo que irá abatê-lo. Cofie no seu dindo, está tudo...
O som de algo se espatifando contra a parede, súbito interrompeu a fala do Santo de Peixes, que assustado olhou para a porta do quarto de Mu, e enquanto ouvia a voz rouca e potente do lemuriano despejando uma enxurrada de palavrões cabeludos, todos direcionados a seu companheiro virginiano, viu a porta se abrindo num rompante e de dentro do cômodo Camus de Aquário saltando afobado para fora.
— Pela deusa! — exclamou o pisciano com os olhos arregalados, vendo o francês bater a porta atrás de si e levar uma das mãos à testa, onde um galo enorme despontava — O que está acontecendo lá dentro?
— Ele está usando telecinese... E está com uma pontaria péssima! — Camus resmungou, esfregando o galo na fronte.
O ruivo estava pálido e atordoado. Respirava ofegante e parecia ter visto o séquito inteiro do senhor do Submundo á sua frente, pronto a atacar, dado seu assombro.
— Ele não pode usar telecinese agora, não no estado em que está! Alguém tem que fazer alguma coisa! — Afrodite desesperou-se.
— Shaka tem que fazer alguma coisa! — Camus desencostou da porta e caminhou apressado até o pisciano, diminuindo o tom de voz ao sussurrar em seu ouvido — O marido é dele e ele que fez o filho nele! E pensar que você queria que eu passasse por isso, seu irresponsável! — deu um croque na cabeça de Afrodite.
— Ai! Eu já pedi desculpa, mon amour! Já disse que não quero mais. — resmungou o sueco, que a pedido de Camus entregou Kiki a seu colo.
— Venha, Kiki. O que acha de ir com o tio até a lanchonete tomar um sorvete de chocolate? Hum? Non é o que você mais gosta? Ouvi dizer que aqui tem um ótimo! — tentava convencer e tranquilizar o pequeno enquanto já caminhava ligeiro para o fim do corredor.
— Mas, e o papai? E o Bába? Eles tão bigando? O Kiki não qué fica longe deles! — dizia com voz chorosa, ainda com os olhos pregados à porta do quarto.
— E non vai ficar, non é mon amour? — Camus buscou Afrodite com os olhos lhe fazendo um sinal para que o ajudasse a acalmar o menino.
— Ah! Sim! — Peixes correu até eles para acompanha-los — Vamos só pegar o sorvete, que aliás ouvi dizer que é um dos melhores de toda a cidade de Atenas, e voltamos rapidinho para cá. Quem sabe a gente traz um para sua irmãzinha também? O que acha? Eu acho que quando a gente voltar ela já vai ter nascido!
— Dindooo, ela num vai pode toma sovete quando saí de dento do papai. Ela só podi toma leite!
— Jura?
Logo estavam longe do corredor e finalmente mantendo Kiki distraído.
Dentro do quarto de espera, porém, a tensão entre Áries e Virgem só aumentava.
Procurando não exaltar ainda mais o lemuriano, Shaka não rebatia sequer um grito, ofensa ou agressão.
Na verdade, nem conseguia se aproximar de Mu, pois toda vez que tentava uma garrafa de soro, um pedestal, ou qualquer objeto que estivesse naquela sala voava em sua direção.
Nada, no entanto, que não fosse fácil de desviar.
O que deixava Virgem assustado eram de fato os gritos de dor e agonia, além do descontrole de Mu.
— Mu, por Buda, se acalme! Precisa manter o controle, você está muito nervoso, isso vai te fazer mal! — pedia, ora desviando dos objetos lançados contra si, ora tentando uma mínima aproximação — Eu sinto muito. Não sabia que a hora ia chegar antes do esperado. Dr. Adônis disse daria tempo!
Vez ou outra Shaka apanhava um relógio de dentro do bolso e dava uma espiadinha. Torcia para o tempo passar rápido e os astros assumirem a posição correta para o nascimento de sua filha, mas segundos pareciam horas e as horas séculos!
— Mas, não deu... Argh... Não deu tempo, Shaka de Virgem! — Mu gemia sobre o leito, contorcendo-se dentro do avental hospitalar enquanto segurava a barriga enorme com ambas as mãos, cujas veias canuladas recebiam apenas soro, já que não podia receber nenhum medicamento — Estou com tanta raiva de você ... Ahhh... que tenho vontade de te esganar.
Era contra indicado dar analgésicos fortes antes da cirurgia, pois eles passariam as barreiras biológicas e chegariam até o bebe podendo afetar os reflexos da criança quando nascesse. Por isso, Mu fora instruído a caminhar pelo quarto e fazer um trabalho de respiração para tentar amenizar a dor das contrações irregulares.
Esse era seu único alívio, e parecia não surtir efeito, porém era só o que tinha.
— Vem aqui, Shaka! — esticou o braço chamando o marido — Ai... Preciso ficar de pé, preciso andar! Alivia... minimamente, mas alivia. Arhg... Vem, me ajuda!
Shaka imediatamente correu a seu auxilio, e com todo cuidado e amor ajudou o ariano a se por de pé e caminhar.
Lado a lado seguiam calados. Mu segurando firme a barriga com uma das mãos e a mão de Shaka com a outra, até darem duas voltas completas no cômodo.
— Vai dar tudo certo, Mu. Logo nossa filha estará aqui conosco e tudo isso vai passar. — Virgem dizia tentando tranquilizar o marido.
— Não fala comigo! Eu ainda estou... Ahh... Aii... Muito bravo! — respondeu ofegante o lemuriano.
Poucos minutos depois de caminharem pelo quarto, a porta tornou a se abrir e três enfermeiros entraram acompanhando Dr. Adônis para preparar o Santo de Áries para a cesariana.
Shaka nessa altura já nem sentia mais sua mão, de tanto que Mu a apertara buscando alívio das contrações.
— Boa noite, senhor Mu. — disse o médico, enquanto os outros dois preparavam a medicação — Dra. Helena terminou a cirurgia e já está se preparando para a sua cesariana. Venha, vamos ajuda-lo a subir na maca para receber os medicamentos pré-anestésicos. Em seguida encaminharemos o senhor ao centro cirúrgico.
— Louvada seja a deusa! — Mu disse em um sussurro, e sem pensar duas vezes se dirigiu à maca.
Shaka também ficou aliviado, porém não podia negar que um tanto quanto apreensivo, uma vez que ainda faltavam quarenta minutos para o posicionamento astrológico que ditava as primeiras horas em que o Sol passaria a reger o signo de Virgem.
Não aguentava mais ver o amado sofrendo daquela maneira, ainda mais sabendo que tudo poderia ter sido evitado e que, inclusive, já estariam a dias com a filha nos braços.
No entanto ela seria leonina...
Ao menos que todo o esforço de Mu em segurar a bebê tivesse valido a pena!
Quando guardava o relógio no bolso, Shaka ouviu novamente a porta se abrir e ao olhar para ela viu Camus, Afrodite e Kiki adentrarem o quarto afoitos.
— Papai! Ela ainda não nasceu? — o pequeno lemuriano entrava correndo na frente, trazendo metade de um sorvete de chocolate nas mãos.
— Não. Ainda não, filhote. — Mu suspirou cansado, sentado à maca.
— Por Dadá, finalmente! Já vão leva-lo? — Afrodite perguntou ao enfermeiro que aplicava o medicamento no acesso preso a Mu.
— Sim. — disse Dr. Adônis — Podem esperar aqui mesmo, no quarto, mas se Shaka desejar assistir o parto pode vir conosco.
— Sim! Claro que quero assistir! — disse Shaka eufórico.
— Então vista isso antes de entrar na sala de cirurgia. — um dos enfermeiros lhe entregou um pacote plástico com roupas esterilizadas — E também prenda bem os cabelos e coloque a máscara.
— Está bem! — respondeu pegando o pacote.
Kiki olhava a tudo um pouco assustado.
— Minha imãzinha vai sai agola, Bába? — perguntou baixinho ao colar nas pernas do pai loiro.
— Sim! Vai sim, filho! Logo vocês vão poder se conhecer pessoalmente! — Shaka se abaixou e deu um beijo na testa do pequeno, logo depois lhe afagou os cabelos ruivos — Tenho certeza que vocês serão grandes amigos! Fique com o dindo, e obedeça a ele enquanto seu pai e eu não voltarmos, tudo bem? Pensando melhor... obedeça o tio Camus, ele tem mais juízo.
— Tá bom, Bába!
— Eu heim! Hum... Até parece que sou eu que não tenho juízo! — Afrodite pegou na mão de Kiki.
— Non vão começar um bate boca agora, vão? — Camus aproximou-se pegando o lemurianinho no colo e Afrodite pela mão — Venham, vamos assistir uns desenhos na televisão enquanto esperamos sua irmã chegar, que tal?
Os três seguiram para a sala de espera, onde havia um aparelho de televisão enorme, enquanto Shaka retirava a roupa esterilizada do pacote para vesti-la.
Na maca, Mu já estava um pouco menos agitado por conta do efeito dos tranquilizantes pré-anestésicos, porém não menos nervoso.
Já todo paramentado, Shaka aproximou-se dele e lhe deu um selinho nos lábios.
— Mu, eu amo muito você. Vai dar tudo certo, e eu estou aqui! Em nenhum momento vou te deixar sozinho. Pode esmagar a minha mão, pode me jogar o hospital inteiro na cabeça... Eu não vou sair do seu lado!
— Acho bom! — o ariano fez um bico, que logo se desmanchou dando lugar a uma expressão aflita — Estou com um pouco de medo.
Shaka iria confessar que também tinha medo, mas no exato momento os enfermeiros destravaram a maca e começaram a empurra-la para fora do quarto.
— Vamos? — Dr. Adônis sorriu, fazendo sinal para que seguissem.
Virgem seguia ao lado, segurando a mão de Áries na sua.
O caminho até a sala de cirurgia parecia interminável, até que finalmente, após um longo percurso por corredores brancos de luzes fortes e cheiro pronunciado de desinfetantes, chegaram à sala onde Dra. Helena os aguardava com os braços levantados para cima ao lado de uma mesa cirúrgica.
— Olá, senhor Mu! — disse sorridente por debaixo da máscara — Vamos enfim trazer essa menininha ao mundo? — uma das enfermeiras de sua equipe lhe calçou as luvas estilizadas e foi auxiliar os colegas na locomoção do paciente para a mesa de cirurgia — Já está mais que na hora!
— Ah, sim... Já passou até da hora! — respondeu o ariano já sendo acomodado na mesa.
— Como o avisamos, não será feita uma cesariana convencional, já que o senhor não tem um útero. O que faremos será uma laparotomia exploratória.
— Dá para falar em língua de gente normal? — perguntou Shaka, que estralava os dedos de nervosismo.
— É o nome técnico para dizer que abriremos seu abdome, Mu, e com cuidado iremos explorar a membrana que envolve o bebê para então retirá-lo com segurança. Está preparado? — explicou Dr. Adônis.
— Estou aflito... mas, preparado. Vamos logo com isso.
— Ótimo! — sorriu o médico.
Com tudo pronto, giraram Mu na maca para que ficasse deitado de costas e lhe aplicaram a anestesia Raquidiana, a qual anestesiava o corpo do peito para baixo, e depois Dra. Helena deu início aos procedimentos cirúrgicos.
Do lado da maca, Shaka segurava a mão do ariano, atento a cada detalhe, especialmente aos ponteiros de seu relógio, o qual havia trazido consigo, e vez ou outra dava uma espiada.
"Por Atena! Tem que dar tempo! Tem que dar tudo certo! Vai dar tudo certo! Minha filhota vai ser perfeita! Mu vai ficar bem!" — o loiro pensava quase em desespero.
Colou seu rosto ao de Mu quando Dra. Helena passou o bisturi de uma extremidade à outra de sua enorme barriga e escorregou uma das mãos pelo corte.
— Buda! — fechou os olhos aflito.
— O que foi, Sha? — Mu arregalou os olhos apreensivo.
— Nada. Amor, vai dar tudo certo. — olhou para o lemuriano o tranquilizando, mas ele mesmo tentando manter-se firme — Fica tranquilo. Está doendo?
— Não... — respondeu com voz pastosa, meio grogue pela anestesia, mas acordado — Não dói mais nada, Sha... Mas, eu ainda quero te bater.
— Quando estiver totalmente recuperado, eu deixo você me bater. — fez uma carícia na fronte de Áries, passando os dedos pelos pontinhos lemurianos enquanto prendia-se a cada detalhe de seu rosto delicado — Eu te amo, Mu.
Áries sorriu sereno, e enquanto Shaka procurava distraí-lo e tranquiliza-lo, a obstetra estudava mil maneiras de fazer aquele parto tão peculiar e extraordinário.
Uma gestação masculina era algo totalmente novo e a cada passo dado uma descoberta tornava o trabalho ainda mais minucioso e demorado, para alegria de um virginiano aflito que torcia para dar tempo de sua princesinha nascer sob a mesma constelação protetora que a sua.
Mu, apesar de todo o cuidado da equipe médica e também do marido, não escondia a preocupação com a saúde de sua pequena, e passou a monitorá-la com seu Cosmo.
Todo o procedimento era acompanhado de perto por Dr. Adônis, que com a permissão de Mu filmava cada passo da cirurgia, afinal era um momento único na história dos registros médicos.
Após abrir todas as camadas de pele, músculos e finalmente ter acesso à cavidade abdominal do lemuriano, com muito zelo a cirurgiã localizou a cápsula protetora onde o bebê estava.
Era possível ver nitidamente a criança dentro dela, movendo-se envolta por líquido.
Sem querer prolongar mais a cirurgia, e vendo o tanto que o bebê estava agitado, Dra. Helena afastou os órgãos internos de Mu, protegendo-os com campos cirúrgicos umedecidos, e posicionou a cápsula fetal o mais próximo que conseguiu da abertura abdominal.
Já se preparava para fazer a incisão que romperia a membrana fetal quando o Santo de Áries a interrompeu com um grito.
— Espere! Doutora, por favor, espere! — para assegurar-se de que Helena o ouviria, não apenas gritou como também usou telepatia para falar diretamente à sua mente.
— O que foi, Mu? — Shaka o questionou aflito, enquanto a cirurgiã conferia os sinais vitais dos dois na tela do aparelho que os monitorava.
— Algum problema, senhor Mu? — perguntou a médica.
— Não, mas... Vocês sabem que eu estou conectado telepaticamente à minha filha, e ela... ela sabe que está nascendo. Não como nós, não com a nossa percepção, mas ela sabe, é instintivo.
Dra. Helena olhou confusa para Dr. Adônis, que não estava em melhor condição de lhe elucidar qualquer dúvida, mas que por ser conhecedor dos dons lemurianos e também dos extraordinários poderes dos cavaleiros de Atena, pediu a Mu que prosseguisse.
— Quando a luz do campo cirúrgico a iluminou, ela... ela ficou mais agitava, e chamou por mim...
— Sim ela está se mexendo bastante dentro da cápsula. Por isso devemos nos apressar para retirá-la. — doutora Helena confirmou e vários curiosos, entre enfermeiros e auxiliares foram olhar.
— Não! — um novo grito, e agora o ariano também erguia o pescoço para olhar diretamente para o rosto de Dra. Helena — Não quero que a tire, que a arranque de mim. Ela quer sair por si mesma.
— Mu, o que é isso agora? Ficou maluco? — Shaka perguntou apreensivo, apertando a mão do lemuriano.
— Eu... Eu não sei se é possível, Dra. mas... — Mu falava agora em tom baixo, pois tinha total atenção do centro cirúrgico — Há alguma maneira de deixa-la sair sozinha?
— Como assim, Mu? Isso pode ser perigoso! — Shaka indagou o marido sem entender bem o que ele pretendia.
— Ela está tentando sair, Shaka, eu sinto! A mente dela está conectada à minha, seus instintos a estão fazendo romper a membrana e se mover sozinha, como em um parto normal. Bem... eu pensei que podíamos dar um voto de confiança a ela. Em vez de tirá-la à força, podemos deixar que ela decida vir quando estiver preparada.
Shaka ponderou por alguns segundos, depois olhou para Dra. Helena, que estava ainda processando a ideia.
— É possível doutora? — perguntou o loiro.
— Bem, eu nunca vi nada parecido.
— Mas nada nesse parto é comum, não é mesmo? — disse Adônis — Eu acho, desde que os sinais vitais estejam normalizados, que podemos fazer a abertura da cápsula e deixar a pequena sair.
A médica olhou em volta, um a um para os rostos de sua equipe.
— Pois bem, vou precisar de mais compressas e mais dois campos cirúrgicos para proteger os órgãos, que vão ficar expostos por mais tempo. Abaixem a intensidade das luzes e... Alguém ai curte Mozart? Coloquem uma música bem tranquila. Vamos fazer esse parto miraculoso acontecer "naturalmente"! — disse animada, e dando uma piscadinha para Mu posicionou-se novamente para fazer uma incisão na membrana que envolvia o bebê.
— Eu... queria ver! — Mu pediu suplicante, e fora atendido de pronto por um dos enfermeiros que lhe trouxe um espelho grande, o qual foi posicionado de modo a lhe permitir ver tudo que ocorria.
Incisões alinhadas, todos se afastaram apenas um passo e passaram a observar o milagre acontecer.
Emocionados, Mu, Shaka e toda a equipe médica acompanhavam a pequena se mover lentamente para fora, e somente quando dois terços de seu corpo já estavam livres foi que Dra. Helena resolveu auxilia-la a puxando pelas perninhas.
— Data do nascimento: 23 de Agosto, uma hora e quinze minutos. — anunciou a obstetra ao cortar o cordão umbilical.
Shaka olhava para aquele bebezinho tão pequeno em estado de graça.
Não falava, não piscava, mal respirava.
Era como se o tempo tivesse congelado, a Terra parado de girar e ali só existia aquele momento, para todo o sempre.
Foi então que se deu conta do horário do nascimento dito pela médica.
O sorriso em seu rosto foi instantâneo, assim como as lágrimas!
— Minha... filha!... Minha... minha virginiana! — disse emocionado, correndo os olhos azuis por aquele pedacinho de milagre nos braços de Dra. Helena, que se apressava em retirar o líquidos dos pequeninos pulmões — Mu! Deu tempo, amor! Foi por pouco, mas o Sol já está regendo Virgem! Ah, Mu... Deu tudo certo! Nossa filha! Nossa filhotinha! — baixou a máscara e deu um selinho nos lábios do ariano.
— Cadê ela, Sha? — perguntou ansioso, e sem demora o choro da pequenina inundou a sala acelerando ainda mais o coração dos pais.
Logo uma das enfermeiras pegou a bebê das mãos da médica e a trouxe para Mu, que a recebeu nos braços emocionado.
Ao pegar a filha, Mu perdeu as palavras, enquanto Shaka prendia-se a cada detalhe, desde os fios claríssimos de seu cabelinho ainda ralo e sujo, até a força que fazia para chorar.
Mesmo ainda sujinha ela era linda!
Em sua testa os dois pontinhos lemurianos chamavam a atenção, e ao contrário da maioria dos recém-nascidos logo a pequenina parou de chorar e abriu os olhos, exibindo duas enormes esferas verdes que encararam Mu.
Nessa hora o lemuriano começou a tremer, e enquanto segurava uma das mãozinhas diminutas beijava um por um dos dedinhos.
— Oi filhotinha!... Eu te amo tanto! — sussurrou em meio a sorrisos e choro — Shaka, olha! Ela é loirinha, luz da minha vida, ela é loirinha igual a você!
Toda a raiva que sentiu do marido havia desaparecido. Agora só o amor dominava o coração do ariano.
Tudo valeu a pena apenas para ter aquele bebezinho lindo o olhando daquela forma tão terna.
Sua filha! Sua e de Shaka!
— Sim, Mu. E ela tem os seus olhos! — respondeu Virgem emocionado.
— Ela não tem nome... Como iremos chama-la?
Shaka então sorriu, pois desde que soube que seria pai sua filha já tinha um nome, e fizera surpresa até para Mu.
— Oi filhinha! — disse o virginiano ao aproximar o rosto da bebê e ganhar também um terno olhar daqueles olhos verdes tão doces — Papai te ama muito! Seja bem vinda... minha Lakshmi!
— Lakshmi? — Mu sorriu — A deusa da boa sorte?
— Sim, e da beleza, da fartura, da generosidade... Tudo que ela representará para nós, Mu... Você me deu uma filha linda, meu amor. — completou dando um beijo na fronte do ariano.
Logo a enfermeira voltou e acabou com a alegria dos pais babões levando a bebezinha para os procedimentos padrões.
Na sala, Dra. Helena e Dr. Adônis se preparavam para dar andamento à cirurgia de Mu e seus procedimentos finais.
Foi tudo bem tranquilo e ligeiro, e em poucas horas o Santo de Áries já era encaminhado para o quarto.
Shaka vinha na frente, já sem a roupa especial e apenas com os trajes que viera do Santuário, mas mal dobrou o corredor deu de cara com Afrodite, Camus e Kiki que correram em sua direção agoniados, ansiosos para saber noticias de Mu e da bebê.
Shaka estava tão feliz e tão emocionado com sua filha virginiana que ao ver os três ali abriu os braços e atirou-se a eles dando um abraço coletivo e um beijo na testa de cada um, pegando a todos de surpresa.
Realmente aquele dia foi um dia de acontecimentos extraordinários!
