Duas horas após o parto, Mu estava sozinho no quarto descansando, já que Shaka e Kiki estavam ambos com as testas coladas no vidro do berçário babando na menininha que acabara de nascer, a qual estava toda enrolada em uma mantinha lilás.
— Bába, a imãzinha do Kiki vai pa casa com a gente hoje? Ela é tão pequena! — perguntou um agitado ruivinho que se remexia todo ansioso no colo do pai.
— Hoje ainda não. — respondeu sorridente o virginiano enquanto analisava orgulhoso a filha dormindo do outro lado do vidro.
— Po que não? — insistiu Kiki.
— Porque seu pai precisa ficar aqui no hospital mais um pouco, e ela vai ficar com ele.
— Po que o papai tem que fica aqui?
— Porque ele está tomando remédio. — Shaka disse, agora olhando para o pequeno — Sabia que quando você nasceu você era ainda menor que ela?
— E o Kiki agola é gande! — o lemuriano sorriu orgulhoso de si, mas logo voltou a ficar sério — Po que o papai ta tomando remédio, Bába?
— Porque ele está com a barriga cortada.
— Po que cotaram a barriga dele, Bába?
— Cortaram para tirar a nenê!
— Quédu! Coitado do papai! — disse assustado o pequeno ariano.
— Sim, mas ele vai ficar bem, filho! Deram um remédio para ele e ele não sentiu nada!
— Ainda bem, né Bába! E a imãzinha do Kiki vai come leite, né? Mas o Kiki guado pilulito, bolacha e bala pá ela, Bába!
— Ah, ela vai adorar, filho! Daqui doze meses você dá para ela.
— Doze meses demola, Bába?
— Um pouquinho. — Shaka sorriu novamente, dando um beijo estalado na bochecha rosada do pequeno lemuriano.
Acabaram as perguntas, mas não os questionamentos. Em sua cabecinha, Kiki tentava calcular o tempo que demoraria para poder dar os doces que guardara para a irmã, enquanto um pouco mais à frente, afastado apenas alguns passos, outro par de olhos envaidecidos analisava a recém-nascida dormindo no berçário enquanto sua mente também trabalhava a todo vapor.
Afrodite de Peixes era todo sorrisos para a criaturinha enrolada nas cobertas. A cada bocejo dela, cada pequeno gesto das pequenas mãozinhas um suspiro escapava de seus lábios. Vez ou outra olhava para o lado e então via Shaka no mesmo estado de graça. Era raro ver o sisudo e sempre muito sério Santo de Virgem sorrindo, alegre e descontraído daquele jeito.
Ser pai deveria ser algo único mesmo, era o que o pisciano pensava, não podendo evitar um pontinha de inveja que surgira ali, mas que logo soube contornar quando repassou em sua mente todo o acompanhamento daquela gestação milagrosa de Mu. Sabia que seria muito ligado aquela menininha, e isso o deixava feliz, mas não menos melancólico.
Aquela gravidez inesperada e extraordinária havia plantado no pisciano a semente da paternidade, mas Afrodite tinha plena consciência de que aquele seria um episódio único, e tentava se conformar. Depois, Camus já havia deixado bem clara sua posição quanto à questão. Nada de filhos!
O ruivo, que havia ido buscar um café para o amado, chegava bem na hora em que via Afrodite colar a testa no vidro do berçário e de olhos fechados soltar um suspiro longo e pesado.
Camus aproximou-se dele e de maneira carinhosa o abraçou por trás, lhe dando um beijo no rosto.
— O seu café. — disse gentil lhe entregando o recipiente com a bebida quente.
Afrodite abriu os olhos e sorriu para o amado.
— Obrigado, mon amour.
— O que você tem? — Camus perguntou enquanto olhava para a menininha através do vidro — Parece triste. Incomodado com algo.
— Não é nada, Camy. Estou muito feliz. — o sueco respondeu em voz baixa.
— Non minta para mim, mon amour. — o francês insistiu — Estou vendo esses olhinhos brilharem, mas seu rosto parece triste. Eu conheço você, Afrodite.
Peixes então virou-se de frente para o marido e como não sabia esconder nada do homem que amava, confessou.
— Eu amo você, Camus de Aquário, com todo o meu coração. Tentar te engravidar foi errado, eu admito e reconheço meu erro, mas eu...
— Oui, foi muito errado. — Camus o interrompeu — Mas já passou. Já disse que está tudo bem.
— E sei, mas é que eu...
— Mon amor, esqueça o passado. Eu também errei, tive uma reação meio... exagerada. — disse Camus acariciando o rosto extenuado do pisciano — Vamos esquecer esse episódio? O momento agora é de alegria, Mu vai precisar da nossa ajuda com a bebê e você agora tem mais uma afilhada! Non tem motivo para essa carinha triste.
Afrodite divisou os olhos avelãs do francês por alguns segundos em silêncio e então lhe sorriu, um sorriso tão tímido quanto resignado.
— Sim... Tem razão. Eu tenho mais uma afilhada... E ela é linda, não é? — disse o pisciano voltando ficar de costas para o francês para olhar para dentro do berçário.
Abraçado às costas do amado, Camus agora apoiava o queixo em seu ombro e olhava também para a bebê de Shaka e Mu. Era incrível como, mesmo ainda tão pequenina, ela já se parecia tanto com eles. Talvez fossem as pintinhas lemurianas na testa, ou o cabelinho ralo tão louro quanto o do pai virginiano. Olhou para o lado e viu Shaka e Kiki sorridentes festejando cada pequeno gesto da menininha, e juntos ali eram a própria definição da felicidade.
Camus então pensou que talvez devesse reconsiderar o desejo de Afrodite de ser pai, mas jamais da forma como o sueco imaginara!
Mu começava a despertar devido a movimentação repentina que se fazia dentro do quarto onde estava internado. Ainda muito cansado por causa do "trabalho de parto", que na verdade só dera trabalho mesmo, já que a bebê nascera cirurgicamente, abriu lentamente os olhos e viu quando Shaka, Kiki, Camus e Afrodite entravam e já se dirigiam a seu leito.
— Ele tá acodando! — disse Kiki animado ao olhar para o rosto do pai lemuriano.
— Hum... O que... — Mu resmungou ao olhar para eles enquanto tentava se sentar na cama.
Shaka então apressou-se a ajuda-lo apertando o passo.
— Ei! Não se esforce, amor. Deixa eu te ajudar. — disse o indiano todo solícito enquanto arrumava os travesseiros nas costas de Mu para que ele tivesse onde se apoiar — O Dr. Adônis e a Dra. Helena já examinaram nossa pequena Lakshmi.
— E ela está bem? — o ariano perguntou.
— Está ótima! — Virgem respondeu e em seguida deu um beijo na fronte do marido — A enfermeira foi busca-la no berçário para trazê-la para cá. — a ansiedade era visível no rosto do virginiano.
Mu mal teve tempo de responder, pois logo a porta se abria novamente e por ela passava a enfermeira com um embrulhinho lilás nos braços.
— Olá, senhores! Aqui está a pequena. — disse a simpática mulher de sorriso vivas.
Todos se alvoroçaram indo para cima dela, querendo ver o bebê, mas a mulher avistou Mu que emocionado esticava os braços em um pedido mudo pela filha, por isso caminhou diretamente até o lemuriano e a entregou em seus braços.
— Calma, senhores, primeiro a... o pai. — sorriu meio constrangida — Aqui está a sua pequena, senhor Mu, ela é muito saudável e mal chora.
Mu sorria, ainda meio atrapalhado ao segura-la, enquanto era cercado pelos curiosos. Com carinho, o ariano abaixou o rosto e cheirou a pequena que dormia, lhe dando um beijo no rostinho rosado.
— Lakshmi! Eu adorei o nome, luz da minha vida. Ela é tão bonita.
— Sim Mu! Olha quanto cabelo! — disse Shaka acariciando as madeixas loirinhas que caiam sobre a fronte da bebê — Ela está tão tranquila!... E tem uma aura serena... Parece com a sua.
— Bába o Kiki qué vê! — do chão Kiki erguia ambos os bracinhos, e seu pedido de pronto fora atendido pelo pai indiano que o pegou no colo para que pudesse ver a irmã — A Laki palece uma boneca. — disse, com os olhões violetas arregalados grudados na menininha.
— Já vi que teremos um novo xodó no Santuário. — disse Camus do lado oposto do leito — Parabéns ao dois. A filha de vocês é realmente encantadora.
— Encantadora apenas não! Essa carneirinha budista é linda! — Afrodite disse já espiando por cima dos ombros de Shaka.
— Sim, e é virginiana! — falou o orgulhoso guardião da sexta Casa Zodiacal.
— Ah, mas o importante é que tem saúde. — disse o Santo de Peixes, arrancando um resmungo de Shaka e várias risadas de Camus e Mu.
Ficaram alguns minutos todos ali, espiando e adulando a pequena. Logo Camus resolveu que era hora de ir embora, pois alguém tinha que avisar os demais cavaleiros que a essa altura deveriam estar preocupados e ansiosos, já que não podiam deixar o Santuário desprotegido por completo e por isso não estavam ali. A família também havia de querer um pouco de privacidade, mas Afrodite estava tão eufórico que se não o arrastasse na marra dali era bem provável que passaria a noite no hospital.
Sendo assim, Aquário e Peixes se despediram dos amigos, deixaram as chaves do carro com Shaka e voltaram ao Santuário de taxi.
No quarto, a pequena despertava resmungando.
— Ei Lakshmi! O que foi? Hm? — disse Mu num sussurro, embalando a filha nos braços.
Faminta e encostada ao peito de Mu, a pequena sentia o cheiro do leite, então abriu os olhos e começou a esfregar desesperadamente a bochechinha rosada contra o tecido do pijama hospitalar de Mu.
Sem entender aquele gesto, os dois pais se olharam confusos.
— O que a Laki tá fazeno papai?
— Eu não sei.— Mu respondeu com confusão sincera ao observar a pequena se remexer ainda mais, o encarando e esfregando o rostinho em si — Luz da minha vida, será que ela está bem?
— Eu creio que sim. Ela não está chorando... Mas, também não sei, Mu. O Kiki nunca fez isso quando bebê.
Vendo a confusão nos olhos dos pais, a enfermeira, que ainda estava no quarto monitorando a recuperação de Mu, logo foi ao auxílio.
— Ela quer mamar, Senhor Mu! — disse apontando para a pequena — Ela sentiu o cheiro do leite e agora está esfregando o rostinho à procura da origem do cheiro para poder sugar.
Mu arregalou os olhos na hora devido à constatação óbvia.
— Como eu não pensei nisso? — disse espantando.
— Ora, por motivos óbvios. — Shaka falou meio confuso.
— Pelos deuses, a minha filhotinha está com fome. Foi por isso que Kiki nunca fez isso Shaka. Pela deusa, coitadinha, deve estar esganada de fome.
— Por Buda! Como ia saber? — Shaka coçou a nuca meio atarantado — E, o que tem que fazer?
Mu olhou para Shaka, aflito. Ambos sabiam o que tinham que fazer, mas a situação era tão extraordinária que pareciam paralisados, à espera de uma primeira iniciativa um do outro. No entanto, ela veio mesmo foi da enfermeira.
— O senhor tem que dar o peito para ela. — disse a mulher, tão espantada quanto os pais, mas completamente confortável em orientá-los — Dr. Adônis me instruiu que sua gravidez, apesar de única e extraordinária pelo fato de o senhor ser um homem, é uma gravidez padrão e os procedimentos são os mesmos.
Ainda aflito e sem reação, Mu deixava que a gentil mulher lhe instruísse e o ajudasse a abrir os botões do pijama com o qual estava vestido. Vez ou outra lançava um olhar ansioso para Shaka, que acompanhava a tudo sem ao menos piscar.
Outro que observava curioso cada detalhe era Kiki, que com os olhões lilases via a pequena bebezinha procurar ávida o peito de Mu.
— Ela tá com fome, Bába?
— Sim... parece que ela está com muita fome! — Shaka sorriu. Achava que aquela cena podia, de algum modo, lhe causar certa estranheza, mas surpreendeu-se ao se ver encantado com o marido alimentando a filha, o que parecia criar entre os dois um laço ainda mais forte.
— Isso... Assim mesmo, senhor Mu. Deixa ela encontrar o ritmo dela. — disse a enfermeira ajeitando os travesseiros debaixo dos braços do Santo de Áries, que todo desajeitado ainda tentava se acostumar com a ideia de amamentar.
— Ai... ela é... forte! — Mu sorriu, depois fez uma careta ao sentir a bebê sugar seu peito com tanta avidez que, sensível como estava, lhe causava um pouco de dor e desconforto.
— As primeiras vezes é meio dolorido, depois você se acostuma. Nós lemos no livro de amamentação, lembra? — disse Shaka cheio de propriedade.
— Eu lembro sim, Shaka de Virgem. — Mu lançou um olhar sisudo para o virginiano, porque Shaka tudo sabia bem na teoria, mas na prática quem sabia era unicamente Mu, as dores, as aflições, os medos... Mas, o momento era tão maravilhoso e a felicidade do casal era tão plena que tudo ficou para trás e Mu só tinha sorrisos e candura para compartilhar com a família — Ai, vai com calma, filhotinha.
Assim, com Shaka de um lado lhe acariciando os cabelos e os ombros, e Kiki sentado na cama analisando o momento com seus curiosos olhos infantis, Mu alimentou Lakshmi, que assim que se viu saciada dormiu quase que imediatamente. Então esse foi o momento de Shaka, que pôde segurar a filha nos braços pela primeira vez como queria. Os olhos azuis, quase sempre fechados, agora a observavam vidrados, brilhantes, encantados e em estado de graça.
Sentou-se ao lado de Mu na cama e enquanto o ariano descansava não conteve mais a emoção. Sentindo o peso da filha nos braços, o calor do seu corpinho frágil e seu cheirinho gostoso, os olhos de Virgem ficaram marejados.
— Você tem o mesmo nome da deusa da luz, da beleza, da sorte, do amor, da graciosidade e da riqueza. Ela é a protetora das famílias, e você, minha pequena, é a minha pequena luz. Minha amada, Lakshmi. — disse fazendo um carinho nos cabelinhos loiros, e em seguida puxou Kiki para seu colo o sentando sobre suas pernas — Meus filhotes. Amo muito vocês! E você também, Mu! Sem você eu não teria nada disso! Não conheceria a felicidade de ter uma família e ser pai!
— O Kiki também ama o Bába! Ama também o papai e a Laki! — disse o lemurianinho dando um abraço em Shaka, enquanto Mu sorria para eles voltando a cochilar, deixando a filha sobre os cuidados do outro pai e do irmão babão.
Passaram quase a tarde toda juntos no quarto e no dia seguinte Mu teve alta do hospital.
Ao retornarem ao Santuário foram recebidos com uma festinha em Áries e uma comitiva de amigos babões, mas depois de todos conhecerem a menina Mu, muito cansado e em recuperação da cirurgia, se despediu dos colegas e foi descansar em casa, no sexto Templo, junto com Shaka, Kiki e a bebê.
Naquele dia dormiram muito tarde, todos juntos na enorme cama do quarto do casal, pois ninguém conseguia tirar os olhos daquela coisinha miúda e rosada entre eles.
