Três anos se passaram.
Lakshimi já era uma menininha tão esperta quanto bonita. Tinha os olhos de um verde afogueado, bisbilhoteiro, que não se cansavam de analisar o mundo a sua volta e que se deslumbravam a cada nova descoberta. Os cabelos louros, de um dourado como os primeiros raios de sol de uma manhã de primavera, lhe caiam pouco abaixo dos ombros, e eram cortados acima dos olhos em uma graciosa franja de simetria impecável.
Ela era o xodó da Sexta Casa Zodiacal, e logo em seus primeiros dias de vida também se tornou o xodó de todo o Santuário. Uma menina que crescia como uma princesinha em meio a todos aqueles cavaleiros e amazonas severos.
Ainda não tinha completado quatro meses de vida quando já passou a se comunicar com os pais e o irmão mais velho através de telepatia, lhes transmitindo seus desejos e sensações ainda que de forma branda, e com pouco mais de um ano seus dons telecinéticos herdados de Mu já começaram a se manifestar, divertindo a pequena que fazia levitar pequenos objetos ou jogando água em Mu quando este lhe dava banho, o deixando todo molhado.
Em Shaka Laki gostava de pregar outra peça.
Sempre que o pai loiro ia assistir sua novela, a menininha desligava a televisão usando telepatia. Em uma ocasião Virgem chegou a levar o aparelho ao conserto acreditando estar com defeito, até que Mu percebeu se tratar de uma travessura da filha e avisou o amado.
Kiki por sua vez, fazia o papel de irmão protetor e coruja. O lemurianinho passava o dia bajulando a irmãzinha, por quem sentia um amor sem precedentes, tanto que lhe presenteara com os seus melhores dinossauros!
E Lakshimi adorava dinossauros... e bailarinas!
A pequena princesinha de Shaka e Mu era completamente louca pelos répteis gigantes tanto quanto o irmão, porém os via com outros olhos, não como monstros ou bichos perigosos, mas como belas e graciosas bailarinas. Por isso, toda boneca que ganhava do padrinho Afrodite, Laki executava o mesmo ritual. Retirava-lhe os vestidinhos e os vestia nos dinossauros. Nem os de Kiki escapavam, o que deixava o pequeno ruivinho louco!
Aliás, em tudo Lakshimi vestia uma exuberante saia de tutu feita em tule. Nem as cadeiras do Templo de Virgem escapavam, e assim móveis, abajures, pés de mesas, até as Salas Gêmeas de Shaka compunham uma grande e inanimada companhia de balé, todos vestidos em seus tutus coloridos.
Shaka mesmo costurava as saias para a filha. No começo ainda tentou lhe explicar que coisas como o vaso sanitário não usavam saia de tule, mas logo se rendeu à fantasia da menininha, rendendo boas risadas a Mu toda vez que ia ao banheiro e dava de cara com o vaso bailarina.
Não havia nada que Lakshimi pedia a Shaka que ele não fizesse sorrindo!
Por falar no guardião da Sexta Casa, este não poderia estar mais feliz.
Depois do primeiro aniversário da pequena lemuriana, Mu parou de amamenta-la e os seios do ariano começaram a diminuir. Em pouco tempo o corpo do Santo de Áries já tinha voltado a ser como sempre fora antes da gestação milagrosa, forte e viril.
Contudo, muitas foram as vezes em que Áries e Virgem estavam fazendo amor e o indiano, ao acariciar o peito másculo do marido, confessava que sentia saudades dos seios. Dizia que eram pesados e gostosos de apertar.
Mu então fazia uma careta e soltava um queixume, mas logo ambos começavam a rir e se amavam novamente.
Depois da gravidez extraordinária, também raras foram as vezes em que o Santo de Áries aceitou ser passivo novamente durante o sexo, e quando não tinha como negar obrigava Shaka a usar preservativo. Só por garantia, afinal ainda não sabiam como aquela concepção milagrosa se dera.
Mu não queria nem pensar em gerar outro filho, fora uma experiência incrível, porém dolorosa e traumática, mas seu maior orgulho era ter gerado uma criança tão especial como Lakshimi. Ela era seu maior orgulho!
Conforme crescia, a aparência da menininha chamava mais e mais a atenção por sua semelhança com o pai virginiano. Laki era uma cópia perfeita de Shaka. Traços delicados, cabelos lisos, nariz fino e o mesmo semblante sereno e sério, mas com uma doçura ímpar no olhar que herdara de Mu.
Ao contrário de Kiki ela era muito quieta e tranquila. Passava a maior parte do dia brincando quietinha com seus dinossauros bailarinos, livros de colorir e joguinhos interativos.
Shaka era puro orgulho da filha, e apesar de curtir integralmente aquela fase deliciosa de bebê e criança já não via a hora de chegar o tempo de treinar a filha para ser sua sucessora, pois enxergava um potencial grandioso nela. No entanto, Virgem nunca iria influenciar as escolhas da filha. No fundo, bem no fundo, o que Shaka queria mesmo era manter sua princesinha longe do mundo maluco que os cercava, já que tinha um ciúmes doentio, e só de pensar nos marmanjos que futuramente iriam corteja-la seu corpo todo já se cobria de urticárias. Agora mais do que nunca teria que por em prática sua sabedoria budista e treinar o autocontrole para não matar os futuros namoradinhos de sua Laki!
Mu por sua vez, havia desenvolvido um lado "maternal" muito forte que o tornou extremamente preocupado, além de superprotetor.
Inúmeras eram as noites em que o ariano acordava de madrugada apenas para ir conferir se sua filhotinha estava dormindo, se estava aquecida, ou apenas para monitorar seu sono.
Ter gerado aquela criança fez com que Mu ainda a sentisse como se fizesse parte essencial de si mesmo. Não era raro leva-la para o trabalho para que passasse o dia brincando debaixo de sua mesa entre seus pés só para poder ficar perto de sua princesa.
Quando alguém queria ajudar o casal, para que tivessem algum descanso, e se oferecia para levar Kiki e Lakshimi para um passeio, Mu passava inúmeras recomendações e cuidados e, mesmo assim, pouco tempo depois lá estava ele indo buscar seus filhotes de volta, pois seu lado mãe coruja não lhe deixava descansar em paz se seus filhos não estivessem bem seguros consigo.
Era até engraçado, visto que era o mesmo comportamento maternal exagerado que vira muitas vezes em Shaka em relação a Kiki quando o ruivinho era mais novo, e ainda agora. Talvez por isso Kiki jamais tivera ciúmes ou qualquer tipo de carência em relação aos pais com a pequena Lakshimi.
E assim os dois irmãos cresciam saudáveis e unidos. Unidos até demais! Como agora, em que Lakshimi, não satisfeita em vestir de bailarinas princesas todos os seus dinossauros, lhes colocando tutus coloridos e coroas brilhantes, invadira o quarto de Kiki e vestia também os dele.
— Lakiiii, monstlo canívolo não usa saia! — disse um inconformado lemurianinho, que apressado terminou de amarrar os tênis verdes com estampa de fosseis de brontossauro para logo ir retirar as saias de seus brinquedos.
— Usa si! — retrucou a pequena Laki, que ajoelhada no chão vestia um por um dos bonecos — Eles vai na féta! E a féta é de pincesa dinossaula.
Laki adorava festas! E naquele dia era sua festa de três anos.
Como uma excelente comunicadora, a pequena fizera questão de convidar pessoalmente todos para sua festa de aniversário, cuja temática seria duas de suas maiores paixões: dinossauros e princesas bailarinas. Assim, ora junto com Shaka, ora com Mu, Laki convidou os padrinhos Camus e Afrodite, sua prioridade, e também, em uma visita rápida ao hospital, Dr. Adônis, seu filho de quatro anos, com quem já tinha feito uma amizade especial, e Dra. Helena. Passou de casa em casa convidando todos os cavaleiros e também fora até o alojamento das Amazonas para lhes fazer o convite.
Chegado o grande dia, a menina era toda alegria e euforia. O Templo de Virgem já se agitava nas primeiras horas da manhã quando servas vieram ajudar Shaka e Mu com os preparativos dos comes e bébes.
Afrodite havia passado boa parte da noite passada no Sexto Templo ajudando os pais de Laki com a decoração, bem peculiar por sinal.
No jardim mesas com toalhas cor de rosa e estampa de dinossauros vestidos de princesa com saias de tutu.
Aliás, tutu era o que não faltava! Estavam nas cadeiras, na mesa do bolo, que era um exuberante T-Rex cor de rosa recheado com morangos e chocolate, envolvendo as colunas de mármore da sempre sóbria morada do Santo de Virgem, nas árvores gêmeas e até na grande piscina de bolinhas que seria a diversão de crianças e marmanjos.
Lógico que a aniversariante vestia um tutu também, porém esse circundava sua cintura fina e caia sobre uma grande cauda de brontossauro feita em pelúcia verde e rosa, presa a um gracioso macacão enfeitado com rendinhas.
— A festa é da plincesa dinossaula, mas os dinossaulos do Kiki são homens e homem não usa saia. — disse Kiki retirando um tutu de um T-Rex com cara e invocado.
Nessa hora Shaka adentrava o quarto trazendo a camiseta que Kiki queria usar na festa, a qual tinha acabado de passar.
— Ei, que papo é esse? — disse o cavaleiro de Virgem chamando a atenção das duas crianças que olharam para si — Homem usa saia sim... Se ele quiser. Vem cá. — sentou na beirada da cama e chamou Kiki para vesti-lo.
— Mas Bába, saia não é de menina? — questionou o lemurianinho.
— Saia é só uma peça de roupa. — disse Shaka colocando a camiseta no filho — Não é a roupa que vai definir o gênero de uma pessoa. Se ela é menino ou menina. As pessoas são livres para usarem o que lhes faz sentir bem e não devemos julgá-las. O seu padrinho Afrodite usa batom e saltos e ele é menina?
— Não.
— É a mesma coisa. Não é porque o seu T-Rex está de saia que ele deixará de ser feroz e temido... ou o Kiki deixará de ser o Kiki. Entendeu?
— O Kiki acha que sim, Bába. — disse o ruivinho.
— Ótimo! Um dia você vai entender melhor. — disse Shaka dando um beijo no rosto do filho, depois olhou para Lakshimi sentadinha no chão — Os convidados já estão chegando, Laki. Vai ficar ai botando saia nos lagartões ou vai lá ver o que te trouxeram de presente?
— Meus pesente! Meus pesente! — a loirinha pulou o chão eufórica — A Laki vai vê os pesente, Bába! Vem com a Laki, Kiki! — saiu correndo chacoalhando a enorme cauda de pelúcia que a seguia arrastando pelo chão.
Nem foi preciso chamar, pois assim que ouviu o pai loiro falar dos presentes Kiki correu junto da irmã para receber os convidados, já que o aniversário podia ser dela, mas os dois recebiam presentes de todos, que jamais deixariam de levar algo também para o pequeno lemuriano.
Na sala, Mu recepcionava os amigos com um orgulho que não cabia em si.
As festinhas de aniversario de seus filhos acabaram por se tornar pequenos eventos sociais do Santuário, onde todos se reuniam para conversar e saber as novidades.
Saga, por exemplo, aproveitou a ocasião para apresentar aos amigos sua nova namorada, a amazona de Serpente, Geisty.
Mas, nenhuma novidade seria maior do que a dada pelo casal Afrodite e Camus.
Quando Shaka, Lakshimi e Kiki chegaram à sala, encontraram uma pequena rodinha ao redor dos dois cavaleiros, Peixes e Aquário.
Shaka achou estranha aquela aglomeração, porém mais estranho ainda era o silêncio que se fazia em torno dela, e a maneira como Mu, um pouco mais afastado, os olhava com ambas as mãos pregadas a ao rosto, visivelmente surpreso.
Assim que Áries notou a presença dos filhos e do marido ali na antessala, imediatamente os chamou, em voz baixa.
— Filhotes! Shaka! Venham aqui, depressa! — acenou para eles com um sorriso que não lhe cabia no rosto.
Logo as crianças se enfiaram na rodinha passando por entre as pernas de Milo e Aldebaran, que se acotovelavam entusiasmados, procurando o melhor ângulo para ver a novidade, e quando enfim perceberam do que se tratava, por um momento todos os embrulhos coloridos nas mãos dos convidados ficaram em segundo plano.
— Dindo deixa o Kiki vê! — o lemurianinho pulou animado em volta do cavaleiro de Peixes.
— Dindo a Laki tabém qué vê! — a loirinha erguia os bracinhos para cima olhando para o rosto sorridente de Camus.
Shaka chegou ao lado de Mu e então seus olhos se iluminaram, em surpresa e alegria.
— Por Buda! Então era essa a surpresa! — disse o virginiano sorridente.
Irradiando felicidade, Afrodite segurava no colo um bebê de não mais que quarenta dias de vida, de pele extremamente branca e cabelinhos lisos e ralos de um vermelho acobreado vivo. Dormia quietinho e sereno enrolado em uma mantinha fina branca.
Ao lado do pisciano, Camus também segurava um bebê em seu colo da mesma idade e aparência, porém seus cabelinhos eram um pouco mais cheios e possuíam um tom azulado bem claro. Não dormia, olhava a tudo e todos com enormes olhos azuis curiosos.
Após ter acompanhado a gestação milagrosa de Áries e visto a euforia do marido, Camus sentiu nascer também em si, pouco a pouco, o desejo de ter filhos.
Como sabia que não gerariam um filho, Camus propôs a Afrodite uma inseminação artificial em uma barriga de aluguel.
Peixes topou na mesma hora, mal cabendo em si de tanta alegria.
Não fora um processo muito fácil, mas depois de meses de procura enfim conseguiram encontrar uma mulher que cedesse o ventre para que eles pudessem ser pais. Assim, juntos inseminaram metade dos óvulos da doadora com o material genético de Camus e outra metade com o de Afrodite, e após muitas tentativas falhas, por isso mantiveram em segredo o que faziam, enfim a doadora conseguiu engravidar.
— Papai, pega a Laki! Ela qué vê o nenê! — Lakshimi pediu e de pronto fora atendida sendo pega no colo por Mu.
— Pelos deuses! Então todo o mistério era isso! Por que não falaram antes! — disse Mu sorrindo.
— Por que queríamos fazer surpresa! — disse Afrodite ninando a filha — E também porque foi uma gravidez que exigiu muito acompanhamento médico e cuidados por serem gêmeos. Mas, graças a Dadá deu tudo certo! Essa é a Marie. — ele sorriu.
— Oui. — disse Camus todo orgulhoso — E esse é Aegir... Non foi muito fácil manter sigilo até agora, principalmente segurar a euforia de ma belle, mas queríamos mesmo que tudo já estivesse bem para apresentar nossos filhos a todos vocês. Que estivessem fortes e saudáveis.
— Pelos deuses! Eles são lindos! — disse Mu.
Shaka ao lado deles segurava Kiki no colo para que o pequeno também pudesse ver os novos amiguinhos.
— Meus parabéns! — disse o virginiano — Filhos são sempre uma benção, não importa a maneira como chegam até nós. — dito isso deu um beijo na bochecha de Kiki e trocou um olhar cumplice com Mu.
— Rapaz! Agora esse Santuário está cheio de criança! Quem diria! — Aldebaran falou animado.
— E olha só! Aegir tem até uma pintinha! — Milo apontou para o rostinho sorridente do bebê no colo de Camus, o qual tinha uma graciosa pintinha na bochecha bem parecida com a de Afrodite.
— Minha genética é forte, meu bem! — Peixes disse todo orgulhoso, e na mesma hora todos caíram na risada.
— Oui, oui... — chamou a atenção o Santo de Aquário — Sei que nossos filhos são a novidade da vez, mas hoje o dia é da pequena Laki! Parabéns, ma petite! — estendeu para a menininha uma grande sacola que trazia pendurada no braço.
— Ebaaa! — Laki apanhou a sacola eufórica — Bigada dindo!
Afrodite, que também trazia uma sacola no braço, a entregou para Kiki e depois que foram colocados no chão e todo o frenesi dos bebês de Camus e Afrodite deu uma trégua, os presentes voltaram a ser o foco das crianças.
Logo Kiki e Lakshimi estavam sentados no chão rodeados de pacotes que eram colocados ali pelos convidados. Como esperado ganharam muitos dinossauros, livros para colorir, brinquedos e jogos. Laki logo elegeu seu preferido, um Tricerátopo todo articulado vestido em uma bela e brilhante roupa de bailarina, feita a mão por Afrodite. Unhas esmaltadas em rosa, coroa de brilhantes, brincos e batom compunham o look do réptil que fez a alegria da pequena lemuriana.
— OLIA PAPAI, OLIA... UMA PINCESA BALALINA COM COLOA E TUDO! — a menininha falou ao saltar de alegria.
— Olha Bába... O do Kiki também veio de roupa. — Kiki disse, curioso pelo fato de seu lagartão estar usando uma gravata borboleta.
— É poque elis são namolados! — se adiantou Laki juntando seu brinquedo ao do irmão, tirando risos dos adultos.
— Pela Roda do Samsara! Namorados! — disse Shaka em espanto, com uma rusga de preocupação entre os olhos — Como ela sabe disso? Isso não é muito precoce para ela?
— Relaxa, luz da minha vida. — Mu sorriu pegando na mão do virginiano — Para uma criança que quis nascer sem a ajuda de ninguém nada é muito precoce.
Logo, mais e mais convidados chegaram, e o número de presentes aumentava. O certo seria abri-los após o bolo, mas os dois irmãos ficavam tão empolgados que não conseguiam esperar.
Entre salgadinhos, brincadeiras e muitos risos, o tempo passou depressa e logo chegou a hora mais aguardada.
— Atenção pessoal! — Mu chamou a atenção de todos enquanto ia até a mesa do bolo — Está na hora de cortar o bolo. Vem aqui minha princesa dinossaura. — chamou pela filha enquanto Shaka já apagava as luzes e acendia a vela.
— To ino papai.
Correndo de forma muito desajeitada e engraçada por conta do rabão de pelúcia, Lakshimi logo chegou à mesa e levitou até subir no banquinho posicionado para que ficasse a altura do bolo.
— Vamos lá pessoal, vamos cantar os parabéns! — disse o ariano abraçando Kiki pelos ombros.
Logo que todos se posicionaram em volta da grande mesa decorada, Shaka puxou o coro de vozes.
— Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida... VIVA A LAKSHIMI! VIVAAA!
Enquanto todos assoviavam e batiam palmas, Shaka sussurrou no ouvido da filha.
— Vamos lá meu amor, faça um pedido e apague as velinhas!
Eufórica a menininha cessou as palminhas e após uma breve pausa puxou o folego e assoprou com força a velinha.
Quando a vela se apagou, por um instante tudo se escureceu, e foi nesse exato momento que Mu e Shaka, que estavam lado a lado, viram algo que apenas eles puderam perceber.
Por cima de Laki, pairando como uma aparição milagrosa, uma forma feminina se erguia emanando poder e divindade.
Era a deusa Reia que viera derramar sua benção sobre a pequena, concedendo a Lakshimi todo amor e felicidade que aquela vida na Terra pudesse lhe dar.
Por momentos breves Áries e Virgem sentiram como se o Tempo tivesse parado. Estáticos e boquiabertos, ambos divisavam a deusa, que ao perceber que era observada os encarou lhes dando uma piscadinha travessa.
Ali, finalmente Mu e Shaka tiveram a resposta para aquela concepção milagrosa do ariano, mas quando pensaram em dizer algo para a divindade a luz foi acesa por Aldebaran de Touro, e Reia desapareceu.
De pronto, o casal de cavaleiros encarou o brasileiro com semblantes assustados.
— Ué gente, não era para acender luz não? — disse Aldebaran confuso — Quero comer bolo meu povo! — concluiu com uma gostosa gargalhada.
Mu tinha os olhos marejados levemente e Shaka prendia a respiração ainda, e quando finalmente se olharam trocaram um sorriso cumplice e emocionado, e um rápido selinho.
— A Laki qué cota o bolo! — exclamou a pequena chamando a atenção dos pais.
— É... Ah! Sim! O bolo, claro! — Mu disse ainda atrapalhado indo até a filha pequena para lhe entregar um cortador — Papai te ajuda filhota.
Com cuidado Mu e Lakshimi cortaram uma fatia generosa do bolo, a qual foi estendida para um ruivinho ansioso ao lado da mesa.
— O pimelo pedaçu é pala meu imão Kiki. — disse Laki sorrindo e aos pulinhos.
— Obigado, Laki. O Kiki tava com muita fome! — disse o pequeno lemuriano.
— KIKI! Por Buda! — Shaka repreendeu o filho, morrendo de vergonha, afinal o garotinho tinha comido mais que todo mundo na festa — Não fala isso! Quer matar seu Bába de vergonha?
— Mas Bába é vedade! O Kiki tem muita fome! — disse baixinho o ruivinho, já enchendo por ele mesmo a lateral do pratinho com doces.
A festa, que começou no meio da tarde, ainda se estendeu por boa parte da noite, já que quando os cavaleiros e amazonas se reuniam o que não faltava era assunto para conversarem.
Os bebês de Afrodite e Camus foram a grande diversão. Todos queriam segura-los no colo nem que fosse um pouco apenas.
Antes de irem embora, Aquário e Peixes convidaram Virgem e Áries para serem padrinhos das crianças, e assim os laços familiares que uniam os quatro cavaleiros se fortaleceria ainda mais.
Quando todos foram embora e as crianças, exaustas, foram colocadas para dormir, Shaka e Mu finalmente puderem se recolher em seu quarto para descansar.
— Quem diria, né Sha? — disse Mu ajeitando alguns travesseiros atrás de si para se deitar — Você alguma vez pensou que a deusa Reia fosse a responsável por tudo isso?
— Não. — Virgem respondeu enquanto acendia um incenso de lavanda no parapeito da janela. Fazia uma noite quente e a brisa que entrava refrescava o aposento — Cheguei a pensar em tudo, toda possibilidade, tanto cientifica quanto espiritual, que explicasse você ter engravidado, mas nunca pensei em Reia... Por que será que ela escolheu você?
— Não faço a menor ideia, mas... Sou muito grato a ela. — disse Mu.
Shaka então se juntou ao amado na cama engatinhando por cima do corpo dele até se debruçar e lhe roubar um beijo.
— E eu também sou. — disse olhando ternamente nos olhos verdes do lemuriano — Sou muito grato a Reia e a você por terem me dado uma filha linda. — outro beijo, agora mais acalorado, até que Shaka de súbito afastou seu rosto, e arregalando os olhos azuis encarou Mu com um semblante sério.
— Que foi Shaka? — Áries perguntou curioso.
— Mu, já pensou que Reia pode ter aparecido para nós hoje para nos conceder uma nova concepção milagrosa?
— O QUE? — Mu arregalou os olhos, atônito!
Mais que depressa o lemuriano se sentou na cama e encarou os olhos azuis de Shaka em um silêncio pesado, e após uma breve pausa, estreitou as pálpebras lançando um olhar intimidador ao amado.
— A Lakshimi te contou o que ela desejou ao apagar as velinhas de aniversário, Shaka de Virgem? — disse Mu aproximando seu rosto ao do virginiano com um sorriso sacana nos lábios.
— Ora, não. — Shaka respondeu simplesmente — Os desejos de aniversário são segredos. — sorriu de volta.
Então, com um movimento ágil o Santo de Áries segurou o loiro pelos ombros e o jogou para o lado fazendo Shaka se deitar de costas no colchão para em seguida se deitar sobre seu corpo e com os rostos colados sussurrar em seu ouvido.
— Pois para mim ela contou! — disse com voz grave e lasciva — Ela desejou ter mais um irmãozinho!
Shaka arregalou os olhos em choque.
Deitado sobre Virgem, Mu encarou o rosto assustado abaixo de si e sorriu novamente de forma sedutora e alarmante.
— Eu te avisei que teria volta!
Fim
