Hallo. o/

Sim, último capítulo.

Foi difícil, mas ótimo poder colocar esta história no papel. ^-^


Disclaimer: Star Wars era do George Lucas, mas o Ratinho tomou o morro.

Musica: Black

Banda: Pearl Jam


Nota: As conversas que ocorrem neste capítulo foram inspiradas em um episódio da terceira temporada da série The Blacklist, onde um dos personagens principais tem uma interação interessante com alguém do passado. :)


Legendas:

-Blá blá: diálogos

-Blá blá: flashbacks

-Blá blá: entonações

-Blá blá: "pensamentos"


Capítulo 2 - O senhor da guerra

OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO

Sheets of empty canvas

(Pilhas de telas vazias)

untouched sheets of clay

(Peças intocadas de argila)

Were laid spread out before me as her body once did

(Dispostas diante de mim, como o corpo dela um dia esteve)

All five horizons revolved around her soul

(Todos os cinco horizontes girando ao redor da alma dela)

As the earth to the sun

(Como a Terra gira ao redor do sol)

Now the air I tasted and breathed has taken a turn

(E agora o ar que eu respiro está mudado)

O Império.

Thrawn não era cego àquela verdade simples. O Império não era, nem de perto, aquela utopia que a propaganda representava. Nenhum governo era e nem poderia ser; mais ainda um composto por várias espécies diferentes e cujas naturezas iam do povo mais amigável àquele capaz do maior dos horrores. Não havia solução simples neste caso. Era imperativo que houvesse uma mão forte que mantivesse às rédeas e uma voz maior que fosse ouvida sobre as demais

Neste ponto, o Império era bastante efetivo. E ele não via motivo algum para duvidar de suas ações. Pelo menos até um certo episódio.

A Batalha de Derra IV.

Uma marca eterna em sua existência. Não pela vitória sobre os rebeldes ou pela falta de crédito advinda dela. A bem da verdade, ele não se importava nem um pouco que os louros da vitória ficassem com Lorde Vader, a discrição lhe servia muito melhor. A questão maior que esta batalha trouxe foi a dor. Uma dor quase tão intensa quanto a que sentiu pela perda de Thrass.

Oh, and all I taught her was everything

(Oh, e o todo que ensinei a ela era tudo)

Oh, I know she gave me all that she wore

(Oh, eu sei que ela me deu tudo que possuía)

And now my bitter hands chafe beneath the clouds

(E agora minhas mãos amarguradas atritam sob as nuvens)

Of what was everything

(do que foi tudo)


Oh, the pictures have all been washed in black,

(Oh, todas as imagens foram banhadas em preto)

tattooed everything

(tatuaram tudo)

Ao seu redor, apenas o silêncio e a contemplação. Parte dos resquícios do que fora a base rebelde em Derra IV lhe foram trazidos em caixas e distribuídos ao longo do camarote. Equipamentos, armas, objetos pessoais e aleatórios abandonados para trás. Fragmentos de vidas. Lembranças. Mementos. Sozinho no seu camarote, sentado em sua poltrona, o grão-almirante Thrawn observava dois objetos em particular.

Um capacete e uma estatueta. Encontrados num dos alojamentos principais (de um líder, provavelmente). Em qualquer outra circunstância, ele não daria atenção alguma àqueles objetos, exceto pelo que é possível deduzir deles. Mas aquela não era uma circunstância comum, pois escrito naquele capacete estava o codinome de quem, um dia, fora o dono. Ou dona. Qualquer outro agente do Império olhasse aquelas letras não seria capaz de entender. Nenhum. Ninguém além dele.

As palavras eram Chama Vermelha.

Escritas em cheunh.

Quase como numa piada interna.

Sendo um filho de Csilla, o frio não o incomodava. Pelo menos, o frio climático. Mas o frio que ele sentia agora era interior e lhe parecia o inferno. Uma agonia maior do que a solidão do exílio. Thrawn passou anos lutando contra as evidências. Jorj Car'das fizera o máximo para que ele não soubesse, mas não havia como seu intelecto não juntar as peças.

Maris Ferasi fora uma rebelde.

Uma rebelde que morreu em Derra IV. Uma rebelde cuja morte residia em suas mãos. Mãos que, agora, ele levava ao rosto.

Kriff…

Ele disse para ninguém e, por horas a fio, o chiss permanece sentado em sua cadeira. Até adormecer.

Como num castigo, em sonhos, ela vem até ele. Como viera tantas vezes, ainda em Crustai. Os cachos castanhos caindo sobre os ombros, o uniforme rebelde poluindo o quadro, e uma expressão serena no rosto. Os olhos que o fitavam tinham aquela expressão sonhadora que o encantara quando eles se conheceram.

Ferasi diz ele.

Comandante Mitth'raw'nuruodo responde a Maris-que-não-era-Maris Há quanto tempo!

Grão-almirante Thrawn, Ferasi corrige o chiss. Não há mais um comandante Mitth'raw'nuruodo.

O que é uma pena ela para diante dele. Eu gostava do comandante.

Permita-me manifestar minha preferência pela contrabandista Maris sorri. Por que, Maris?

Por que o quê?

Esta escolha? esclarece ele. Por que caminhar para a morte certa?

Pelo mesmo motivo que você luta, Thrawn a postura jovial some e é substituída por uma pesada melancolia Por algo maior.

Acha mesmo que o delírio infantil da Aliança é mais eficaz que o Império? questiona o grão-almirante Permita-me dizer que não vejo o mérito.

Que valor tem essa discussão? As escolhas já foram feitas e o meu destino foi selado uma pausa. Mas eu temo pelo seu.

E porque?

Porque aquele a quem eu amei nunca teria descido tão baixo.

Àquele a quem você amou não era real a frase soava cruel até mesmo aos seus ouvidos. Seu idealismo patológico o criou.

Você percebe que sua fala só reforça o meu argumento? pergunta a humana. Mas isso não importa, não é?

Não o silêncio entre eles não era desconfortável. Pelo contrário, era como um eco dos muitos momentos que passaram desse jeito na juventude. Eu sinto muito, Maris.

Não sinta ela leva às mãos ao rosto dele e sorri marota. Gostou do meu capacete?

O sonho muda subitamente de quadro. Estão agora na base de Derra IV, conhecida por ele graças aos hologramas. A Maris Onírica se afasta e começa a passear por entre os objetos e caças não mais existentes e ele apenas a segue.

Achei irônico Thrawn bem se lembrava da opinião dela sobre as palavras em questão. Você incorporou o ideal da Chama?

Ele me ajudou muito ao longo dos anos comenta ela. Mas era interessante como ninguém nunca conseguiu entender o que aquilo significava.

Porque você não queria que ninguém entendesse.

Ninguém além de você ela diz e dá uma piscadela.

Ele desperta, por mais que não quisesse. A perspectiva de despertar num universo onde ela não mais existia lhe parecia verdadeiramente terrível; mas aquele sonho foi apenas o primeiro de muitos que ele teve nos meses após a morte de Maris. Seu luto por ela foi silencioso, como quase todas as suas ações. Mesmo sem vê-la, Thrawn sentia a presença dela consigo. Como sempre sentiu. Desde que se despediram décadas atrás.

I take a walk outside

(Eu saio para dar uma volta)

I'm surrounded by some kids at play

(Estou cercado por crianças brincando)

I can feel their laughter,

(Eu ouço a risada delas)

so, why do I sear?

(Então, por que o desânimo?)


Oh, and twisted thoughts that spin round my head

(Oh, os pensamentos deturpados que passam pela minha cabeça)

I'm spinning, oh, I'm spinning

(Estou girando, oh, estou girando)

How quick the sun can, drop away

(Quão rápido o sol pode se pôr)

Os anos se passam. A batalha de Endor. A morte do Imperador.

A vitória da Aliança, conquanto surpreendente, não era difícil de compreender. Tão somente o poder pessoal do Imperador conseguia manter as estruturas funcionando, e sem ele, instaurou-se o caos no que restou do Império. Seu trabalho de reconstrução seria longo e bastante cansativo, Thrawn sabia, mas não havia outro que pudesse fazê-lo.

Por isso seu trabalho incessante nas Regiões Desconhecidas. Não adiantaria tentar lutar contra os Rebeldes e reforçar sua base em Nirauan ao mesmo tempo. Seria só um desperdício de tempo e recursos. Por isso, grão-almirante manteve-se anônimo e longe dos olhos inconvenientes de seus inimigos. Sempre pensando e planejando.

Ele bem sabia que seus subordinados no Quimera questionavam o motivo que o levava a passar tanto tempo trancado em seus aposentos; mas todos eram suficientemente razoáveis a ponto de não tecer comentários. Na verdade, aqueles momentos eram um bálsamo. Um momentâneo alívio de tudo que lhe pesava sobre os ombros.

Ele contempla as estatuetas de fogo que sempre mantinha em seu camarote. Uma era a dela, encontrada em Derra IV. A outra lhe foi dada por Maris e ele manteve consigo mesmo durante o exílio. Por incontáveis vezes, quando se percebia tentado a enlouquecer, Thrawn tocava aquele objeto e fugia mentalmente até aqueles momentos passados em companhia de Ferasi.

And now my bitter hands cradle broken glass

(E agora minhas mãos amarguradas embalam os cacos)

Of what was everything

(do que foi tudo)


All the pictures have all been washed in black,

(Todas as imagens fora pintadas de preto)

tattooed everything

(totalmente tatuadas)

All the love gone bad

(Todo aquele amor se tornou um mal)

O camarote no Quimera estava quase todo escuro, e ele, como de costume, sentado em sua poltrona. Uma caneca cheia de caf repousava por perto. O aroma da bebida trazia certo conforto ao sombrio ambiente, iluminado apenas por hologramas de estatuetas de chamas de Corellia. Um planeta que vinha ocupando parte de seus pensamentos recentemente. Terra natal de um de seus atuais inimigos (Han Solo), de um possível oponente (Garm Bel Iblis) e de seu segundo-em-comando (capitão Gilad Pellaeon).

No entanto, Corellia nunca saiu totalmente de seus pensamentos. Uma vez que seu grande amigo (Jorj Car'das) e seu grande amor também vinham de lá.

Sim.

Agora, anos depois da morte dela, Thrawn finalmente se permitia admitir qual era o nome do sentimento que o ligava à Maris. Mesmo que só fosse fazê-lo para si mesmo e na privacidade absoluta de seus pensamentos. Os olhos rubros abandonam a análise da arte e vão até a caneca, admirando o negro profundo. Tão profundo quanto os olhos dela.

E pensar que você odiou caf na primeira vez que bebeu.

Um dos supostos e mais conhecidos sinais de loucura era ouvir vozes. Ainda mais a voz de alguém que ele sabia estar morta. Morta há anos. E, como se em prol de uma confirmação de seu diagnóstico, ela (ou a ilusão que sua mente inconveniente insistia em projetar) parou ao lado dele, apoiando um dos cotovelos no encosto da poltrona, naquele gesto displicente que ele a viu fazer tantas vezes.

Um gosto adquirido ele sorve o líquido, como em confirmação. O que faz aqui, Ferasi?

Ele finalmente se digna em olhar para ela. O sorriso maroto estava ali, naquela face jovem e impossível.

Visitando ela começa a passear em meio às estatuetas de fogo. Como você está?

Enlouquecendo, ao que tudo indica responde o grão-almirante.

Talvez sua condição fosse pior do que ele imaginava. Lá estava Maris, morta, usando um vestido vermelho (e por que vermelho? Ou por que um vestido? Ele nunca a viu de vestido). O problema é que Thrawn sabia que não poderia ser um "respingo" da loucura clônica de Joruus C'baoth, pois os ysalamiri seguiam vivos e bem distribuídos pela nave.

Você é brilhante demais para enlouquecer comenta a humana. Mas há quem diga que a loucura e a genialidade são faces da mesma moeda.

Tenho uma missão a cumprir, Maris ela não prestava atenção nele, apenas circulava, leve e etérea, em meio às estatuetas. E sua presença não me ajuda.

Ah, sim ela o fita. Solucionar o único enigma que vale à pena.

Sim, destruir a Rebelião completa o alienígena.

Eu soube que o nome é Nova República, agora o comentário soou descompromissado, mas o brilho nos olhos dela indicava enorme satisfação. Soa bonito.

Soa pretensioso e nada mais retruca o chiss. E como é que você soube?

Os mortos sabem de muitas coisas responde Maris. Além disso, esse nome, Nova República, soa como algo pelo qual eu teria dado a minha vida

Golpe baixo, Maris. ele sorve mais do caf Essa sua tentativa de me fazer sentir culpa.

Ela caminha até ele e se aloca no colo dele, como fazia naqueles momentos furtivos em Crustai. Por alguns segundos, Maris apenas o fita, exibindo aquele trejeito tão marcante dela enquanto viva: inclinar levemente o pescoço para o lado de morder o lábio.

Eu não o culpo, Thrawn responde ela. Eu fiz a minha escolha e não me arrependo.

Claro que não se arrepende mais um gole de caf. Você sequer existe.

Eu vou existir enquanto você existir ela se levanta do colo dele e, para sua vergonha, Thrawn percebe o quanto o peso falso do corpo dela fazia falta. Mas posso ir embora.

E por que não vai?

E não é óbvio? - ela ri discretamente. Porque você não quer.

Não, realmente.

Eu nunca quis que você fosse embora a voz dele sai quase como um sussurro. Não quis antes, não quero agora. "E nunca vou querer."

Ela sorri, como se tivesse lido seu pensamento, mas continua transitando pelo ambiente. Serena, distraída e tão condizente com as memórias que ele tinha que Thrawn quase conseguia acreditar que Maris Ferasi estava realmente ali com ele. A bordo do Quimera, como estivera em Crustai e no Springhawk. Viva. Próxima. Com ele.

Outra vez, aquela dor aguda em seu interior. E tudo porque seu cérebro não conseguia abrir mão desse delírio. Dessa necessidade compulsiva de manter viva a memória de Maris. Nem mesmo seu desprezo pelo ideal pelo qual ela havia morrido o impediam de dar vida à ela. De empenhar-se em mantê-la consigo de algum jeito. Numa situação assim, era impossível não pensar nas muitas vezes em que ele deixou que a palavra "se" dominasse seus pensamentos quando o assunto era ela. E se ele tivesse pedido que ela ficasse com ele em Crustai? Se eles tivessem tido mais alguns anos juntos? E se…

Não teria dado certo, Thrawn ela o fita e fica claro para o chiss o quanto ela era íntima de seus pensamentos. O que era óbvio, considerando ser aquela figura uma projeção de sua mente. Que vida nos teríamos? Você tinha sua missão, eu tinha a minha.

De fato. Mas creio que você não teria se envolvido na Rebelião se…

Se tivéssemos tido uma vida? ela caminha de volta até ele e se põe no colo dele novamente Acha mesmo que eu teria seguido você? Que eu teria aceitado o Império? as mãos irreais dela passam pelos cabelos dele. Não, meu querido. Eu teria entrado para a Aliança do mesmo jeito, só teria demorado mais.

Duvido muito.

E por que? pergunta a mulher. Por causa da sua capacidade de se antecipar ao inimigo?

A voz dela assume um tom incisivo.

Cuidado, Thrawn. Sua genialidade tem limites e todos nós temos um ponto cego ela se cala e o fita por alguns segundos. E temo pelo momento em que você perceber o seu.

turned my world to black

(pintou meu mundo de negro)

Tattooed all I see, all that I am, all that I'll be, yeah

(Tatuou tudo que vejo, tudo que sou, tudo que serei)


I know someday you'll have a beautiful life

(Eu sei que um dia você vai ter uma ótima vida)

I know you'll be a star

(Sei que você será uma estrela)

In somebody else's sky,

(No céu de outro alguém)

But why? Why? Why?

(Mas por que? Por que? Por que?)

Can't it be, can't it be mine

(Não pode ser, não pode ser no meu?)

As palavras proféticas de Maris se provaram reais naquela última batalha com a Rebelião. Em Bilbringi. Naquele momento em que a vitória esteve praticamente certa, mas no qual o ponto cego de que a mulher falara se tornou evidente. Tão evidente quanto a faca que atravessou seu peito. Naqueles momentos que antecedem a morte, quando o tempo perde sentido e nada mais importa. Ela apareceu de novo.

Diante dele. Bela. Serena. Enquanto o caos se espalhava pelo destróier e todo o seu trabalho ruía. A Maris ilusória se ajoelha diante dele. De modo periférico, ele ouve o que seriam vozes.

—Veio se vangloriar, Ferasi? — ele sabia que isso não era da índole dela.

—Não.

—Então, por que está aqui?

Um sorriso melancólico surge nos lábios dela.

—Para um gênio, você consegue ser bem tolo — comenta a mulher. — Será que é tão difícil assim de entender? Eu só apareço quando você chama por mim, Thrawn.

Sim, isso fazia sentido. Ele chamou por ela no exílio, e ela veio em memórias. Guardou luto por ela, e ela veio em sonhos. Pensou em Corellia e em tudo o que aquele planeta representava, e Maris veio ter com ele. Agora, nos últimos momentos, e mesmo sem perceber, Thrawn chamou por ela novamente.

—Eu avisei você sobre o ponto cego, meu querido. — comenta ela. — E era tão óbvio.

—Realmente — concorda ele. —Eu devia ter prestado mais atenção aos noghri.

—Devia tê-los libertado, mas o seu teatro de guerra precisava deles.

—Teatro de guerra, Maris? - foi inevitável que aquela expressão lhe trouxesse um sorriso aos lábios.

—Sim, Mitth'raw'nuruodo. Um teatro. — ela pousa uma das mãos sobre o vermelho que brotava de seu branco uniforme. —Intenso, preciso e visceral; mas ainda um teatro. E, como todo espetáculo, ele deve ter um fim.

—Mas foi feito com arte.

O sorriso desapareceu. O brilho nos olhos vermelhos esmaeceu...e Thrawn, o grão-almirante, se foi.

We, we, we, we, we belong together! Together!

(Nosso lugar é um com o outro! Juntos!)

(FIM)