Continuando a saga:

OOO

Capítulo 3

Sakura fez o que quase qualquer mulher faria ao se defrontar com um homem em sua sala de estar.

Ela gritou.

E então correu até a porta da frente. Porém, esqueceu-se das almofadas que ainda estavam no chão, onde Ino e ela as tinham empilhado. Tropeçando em duas delas, estatelou-se no chão. Não!, ela gritou mentalmente ao cair de forma dolorosa. Precisava fazer algo para proteger-se.

Aterrorizada e tremendo, ela se mexeu em meio às almofadas, procurando uma arma. Sentindo algo, ergueu a mão e viu que segurava uma pantufa cor-de-rosa de coelhinho. Diabos!

Com o canto do olho, viu a garrafa de vinho. Rolou na direção do objeto e agarrou-o, antes de se virar para encarar o intruso. Mais rápido do que ela poderia reagir, ele envolveu seu pulso com a mão cálida, imobilizando-a com delicadeza. – Está ferida? – indagou ele.

Deus! A grave voz masculina era melodiosa, com um forte e ritmado sotaque que podia apenas ser descrito como musical. Erótico. E delicioso.

Com a razão entorpecida, Sakura olhou para cima e... Bem... Honestamente, ela viu apenas uma coisa, e aquilo deixou sua face mais quente do que ensopado. Afinal, era impossível não ver aquilo, uma vez que estava tão perto. E era um aquilo grande.

No instante seguinte, ele se ajoelhou ao seu lado e afastou os cabelos de seus olhos com gentileza. Passou a mão por sua cabeça, como se estivesse procurando um ferimento. O olhar dela deleitou-se com o peito dele.

Incapaz de se mexer ou de olhar para qualquer outro lugar que não fosse aquela pele fantástica, Sakura lutou contra o ímpeto de gemer ante a sensação intensa e pecaminosa provocada pelos dedos masculinos em seus cabelos. Seu corpo inteiro parecia arder.

– Você bateu a cabeça? – perguntou ele.

De novo, o estranho e glorioso sotaque reverberava pelo corpo de Sakura como uma carícia quente e suave.

Ela olhou fixamente para aquela abundância de pele, que parecia atrair sua mão para um toque. Ele praticamente brilhava!

Sentiu-se compelida a ver o rosto dele, a verificar por si mesma se tudo nele era tão maravilhoso quanto o corpo. Ao olhar para cima, para além dos músculos esculpidos dos ombros, ficou boquiaberta. A garrafa de vinho escorregou de seus dedos dormentes.

Era ele! Não! Não podia ser possível.

Isso não podia estar acontecendo com ela, e ele não podia estar nu em sua sala de estar com as mãos em seus cabelos. Coisas assim não acontecem na vida real. Especialmente com pessoas comuns como ela.

E ainda assim... – Sasuke? – ela sussurrou.

Ele tinha a compleição vigorosa e forte de um ginasta. Os músculos eram firmes, delgados, lindos e bem definidos em lugares que ela nem mesmo sabia que um homem podia ter músculos. Nos ombros, bíceps e antebraços. No peito e nas costas. Do pescoço às pernas. Ele emanava puro vigor masculino por todos os poros.

Até mesmo aquilo começou a inchar.

Os cabelos negros caíam livremente em ondas ao redor de uma face com a barba bem feita, que parecia ter sido esculpida em pedra. Extraordinariamente atraente e fascinante, o rosto não tinha um tipo de beleza delicada, mas era definitivamente de tirar o fôlego. Lábios carnudos e sensuais que se curvavam em um sorriso indiferente, revelando covinhas que talhavam profundas luas nas faces belas.

E os olhos... Encantadores! Eram de um límpido ónix, com as extremidades das íris destacadas por uma minúscula risca azul-escura. Chamuscantes em intensidade, os olhos revelavam uma inteligência apurada. Ela tinha a sensação de que aquele olhar realmente podia matar.

Ou, no mínimo, devastar.

E ela, com certeza, estava devastada no momento. Cativada por um homem perfeito demais para ser real. De forma hesitante, ela estendeu a mão e colocou-a no braço dele. Ficou pasma quando o braço não evaporou, provando que tudo aquilo era apenas uma alucinação provocada pela bebida. Não, aquele braço era real. Real e sólido e quente. A pele sob sua palma flexionou-se em um músculo poderoso, que fez seu coração se acelerar. Atordoada, ela não conseguiu fazer outra coisa senão encará-lo.

Sasuke arqueou a sobrancelha, confuso. Nunca uma mulher fugira dele antes. Nem o rejeitara após recitar o cântico de evocação. Todas as outras tinham aguardado, com expectativa, sua encarnação, e depois haviam caído instantaneamente em seus braços, exigindo que ele as satisfizesse. Mas não aquela... Ela era diferente. Sentiu vontade de sorrir ao percorrê-la com o olhar. Os cabelos rosados alcançavam o meio das costas, e os olhos verdes esmeraldas lembravam o mar antes de uma tempestade. Olhos salpicados de minúsculos pontinhos prateados e verdes que brilhavam com inteligência e calor. A pele pálida e macia era revestida por pequenas sardas. Ela era tão adorável quanto sua voz suave, marcada pelo sotaque. Não que isso importasse. Independentemente da aparência, ele existia apenas para servi-la sexualmente. Para dedicar-se a provar o corpo dela com o seu; e era isso o que pretendia fazer.

– Venha – disse ele, pegando-a pelos ombros. – Deixe-me ajudá-la.

– Você está nu – sussurrou Sakura, olhando-o dos pés à cabeça, com perplexidade enquanto se levantava. – Você está completamente nu.

Ele ajeitou as pontas dos cabelos dela atrás das orelhas.

– Eu sei.

– Você está nu!

– Já constatamos isso.

– Você está feliz e nu.

Confuso, Sasuke franziu o cenho. – O quê?

Ela olhou para baixo, indicando que ele estava excitado.

– Você está feliz – ela repetiu, com um olhar eloquente. – E nu.

Então, era assim chamavam aquilo neste século. Ele precisaria se lembrar disso. – E isso a deixa desconfortável? – indagou, espantado com o fato de uma mulher se importar com sua nudez, já que isso nunca acontecera.

– Bingo!

– Bem, eu conheço um remédio – disse Sasuke, e sua voz caiu uma oitava enquanto ele fitava os mamilos se enrijecendo sob o fino tecido branco.

Mamilos que ele mal podia esperar para ver. Para saborear. Moveu-se para tocá-la. Sakura deu um passo para trás, sentindo o coração bater com força. Isso não era real. Não podia ser real. Ela estava apenas bêbada, e era tudo uma ilusão. Ou talvez tivesse batido a cabeça na mesinha de centro e estivesse inconsciente e sangrando até a morte. Sim, era isso! Isso fazia sentido.

Pelo menos, fazia muito mais sentido do que o profundo pulsar que percorria seu corpo. Um pulsar que implorava para ela se atirar naqueles braços fortes. Quando você tem uma fantasia, garota, você vai fundo mesmo. Deve estar trabalhando demais nos últimos tempos. Está começando a trazer para casa os sonhos dos seus pacientes.

Ele tomou o rosto dela entre as mãos. Sakura não conseguia se mexer. Tudo o que pôde fazer foi permitir que ele inclinasse sua cabeça até que ela fitasse aqueles olhos penetrantes, que, com certeza, eram capazes de ler sua alma. Eles a hipnotizavam, como os de um predador mortal acalmando a presa. Estremeceu naquele abraço.

Então, lábios calorosos e exigentes cobriram os seus. Sakura reagiu com um gemido. Durante toda a sua vida ouvira falar de beijos que enfraqueciam os joelhos das mulheres, mas era a primeira vez que experimentava um. Oh, era bom senti-lo. Ele cheirava bem e tinha um sabor ainda melhor. Por iniciativa própria, seus braços enlaçaram os ombros largos e firmes dele. O calor do peito forte infiltrou-se nela, atraindo-a com a promessa erótica e sensual do que estava por vir.

E, o tempo todo, ele arrebatava sua boca com habilidade, como um saqueador viking tencionando a devastação total. Cada centímetro do corpo magnífico estava intimamente pressionado ao seu, roçando-a de forma a intensificar a consciência feminina que tinha dele. E, oh, céus, ela estava consciente dele como nunca estivera de outro homem. Deslizou a mão pelos músculos esculpidos das costas desnudas e suspirou ao senti-los enrijecer sob sua mão. Naquele instante, Sakura decidiu que, se aquilo era um sonho, ela não queria que o despertador soasse. Ou que o telefone tocasse.

Ou... As mãos dele desceram por suas costas, e então envolveram suas nádegas pressionando seus quadris contra os dele, enquanto a língua se entrelaçava à sua. O aroma de sândalo preencheu seus sentidos. Derretendo-se, Sakura explorou os músculos tesos das costas nuas com as palmas, sentindo os longos cabelos oscilarem de leve ao encontrarem o dorso de suas mãos, em uma carícia erótica.

A cabeça de Sasuke girava ante o toque quente e a sensação prazerosa provocada pelos braços que o envolviam com força, enquanto explorava a pele macia e sardenta de Sakura. Adorava os sons que ela emitia ao lhe corresponder de forma tão provocante. Mal podia esperar para ouvi-la gritar ao atingir o êxtase, para vê-la inclinar a cabeça para trás ao ser percorrida por espasmos de prazer. Fazia tanto tempo desde a última vez que sentira um toque feminino... Tanto tempo desde que tivera qualquer contato humano. Seu corpo estava inflamado de desejo e, se aquela não fosse a primeira vez com Sakura, ele a devoraria como a um pedaço saboroso de chocolate.

Ele a deitaria e a arrebataria, como um homem faminto em um banquete. Mas isso teria de esperar até que ela se acostumasse com ele. Aprendera, séculos atrás, que as mulheres sempre desfaleciam após a primeira união. E ele definitivamente não desejava que aquela desmaiasse. Ainda não, de qualquer forma. Mesmo assim, não podia esperar outro minuto para possuí-la. Erguendo-a nos braços em um movimento rápido, dirigiu-se à escada.

A princípio, Sakura não conseguiu se libertar da fantástica sensação de ser envolvida por braços fortes e calorosos, de ser carregada, de fato, por um homem que não gemia com o esforço. Porém, conforme eles passaram pela grande base de madeira do corrimão, ela despertou, sobressaltada.

– Pode parar, grandalhão! – vociferou, agarrando-se ao corrimão de mogno entalhado, como se fosse um colete salva-vidas. – Aonde você pensa que está me levando?

Ele parou e a fitou com curiosidade. Naquele instante, Sakura deu-se conta de que, grande e forte como era, ele podia fazer o que quisesse com ela, pois seria impotente para detê-lo. Um tremor de medo a percorreu. Contudo, apesar de todo o perigo, parte de si não estava temerosa. Algo em seu íntimo lhe dizia que aquele homem não a feriria intencionalmente.

– Vou levá-la para o seu quarto, onde poderemos terminar o que começamos – ele respondeu, como se estivessem falando sobre o tempo.

– Acho que não.

Ele encolheu aqueles ombros maravilhosamente largos. – Você prefere as escadas, então? Ou talvez o sofá? – Ele olhou ao redor, como se estivesse avaliando as opções. – Na verdade, não é má ideia. Faz muito tempo desde que eu possuí uma mulher no...

– Não, não e não! O único lugar no qual vai me possuir é nos seus sonhos! Agora me ponha no chão, antes que eu fique realmente brava.

Para seu choque, ele obedeceu. Sentindo-se um pouco melhor quando seus pés tocaram o chão com segurança, ela subiu dois degraus. Com os olhos de ambos no mesmo nível, ficaram em condições mais iguais... Caso fosse possível que alguém, em algum momento, se igualasse a um homem com tanto poder e autoridade inatos.

De repente, o impacto da presença dele a atingiu com força. Ele era real! Santo Deus, ela e Ino o tinham invocado à vida de verdade! Com os olhos cravados nela e o rosto estoico e completamente desprovido de divertimento, ele disse: – Não compreendo por que estou aqui. Se não me deseja dentro de você, por que me chamou?

Ela quase gemeu ao ouvir essas palavras. E o pior foi que a imagem daquele corpo delgado e forte sobre o seu passou por sua mente. Como seria ter um homem tão incrivelmente delicioso fazendo amor com ela a noite inteira? E não havia dúvida de que ele seria delicioso na cama. Com a destreza e os movimentos que ele demonstrara até o momento, não havia como determinar o quão bom seria... Sakura ficou tensa com esse pensamento. O que havia com aquele homem? Nunca, durante toda a sua vida, ela experimentara um apetite sexual como esse. Nunca! Ela poderia literalmente deitá-lo no chão e devorá-lo. Não fazia sentido. Ao longo dos anos, acostumara-se às descrições detalhadas do sexo. Alguns de seus pacientes tentavam, inclusive, chocá-la ou excitá-la. Porém, nunca alguém conseguira provocar uma reação tão ardente. No entanto, no que dizia respeito àquele homem, ela só conseguia pensar em tomá-lo em seus braços e deitar-se sobre ele no chão.

O pensamento totalmente incomum chamou-a de volta à razão. Sakura abriu a boca para responder à pergunta, mas se deteve. O que faria com aquele sujeito? Além daquilo. Meneou a cabeça, incrédula. – O que eu devo fazer com você?

A luxúria escureceu-lhe os olhos, conforme ele estendia as mãos na direção dela. Oh, sim, seu corpo implorava, por favor, me toque.

– Pare com isso! – falou de forma ríspida para si mesma e para ele, recusando-se a perder o controle. A racionalidade iria imperar ali, e não os seus hormônios. Ela já cometera esse erro antes e não o repetiria.

Subiu mais um degrau e encarou-o. Deus, ele era deslumbrante! Os cabelos longos e negros caíam a meio caminho das costas, onde estavam presos por um cordão de couro marrom escuro, com exceção de três finas tranças, que tinham contas atadas às pontas, que se agitavam conforme ele se movia. Sobrancelhas escuras encimavam olhos que eram sedutores e assustadores ao mesmo tempo. Olhos que a observavam com calor demais.

Naquele momento, definitivamente ela desejava matar Ino. Mas não tanto quanto desejava atirar-se na cama com aquele homem e afundar os dentes naquela pele. Pare com isso!

– Não entendo o que está acontecendo – disse, por fim. Ela tinha que refletir sobre aquilo, imaginar o que fazer. – Eu preciso me sentar por alguns instantes, e você... – Percorreu com os olhos aquele corpo perfeito. – Você precisa se cobrir.

Os cantos da boca de Sasuke se contraíram. Em toda a sua vida, ela era a primeira pessoa a dizer-lhe aquilo. Na verdade, todas as mulheres que conhecera antes da maldição não tinham feito nada além de tentar tirar-lhe as roupas o mais depressa possível. E, desde a maldição, aquelas que o evocavam haviam passado dias observando sua nudez, correndo as mãos por seu corpo, apreciando vê-lo. – Fique aqui um minuto – disse ela, antes de correr para cima.

Ele observou o movimento dos quadris femininos, e seu corpo instantaneamente se aqueceu e enrijeceu. Cerrando os dentes em um esforço para ignorar o ardor na virilha, obrigou-se a olhar ao redor. Tinha que distrair-se, pelo menos até que ela cedesse. O que não demoraria. Nenhuma mulher conseguia resistir a ele por muito tempo. Sorrindo amargamente ante o pensamento, olhou à sua volta. Onde e em que época estava? Não sabia por quanto tempo estivera preso. Tudo o que podia recordar eram os sons de vozes, a sutil alteração de sotaques e dialetos conforme os anos passavam.

Olhando para a luz sobre sua cabeça, franziu o cenho. Não havia fogo ardendo. O que era aquela coisa? Seus olhos lacrimejaram, em protesto, e ele desviou o olhar. Aquilo devia ser uma lâmpada, concluiu. Ei, eu preciso trocar a lâmpada. Faça-me um favor e mexa no interruptor perto da porta, certo? Lembrando-se das palavras da lojista, ele olhou na direção da porta e avistou o que presumiu ser o interruptor. Sasuke desceu os poucos degraus da escada e apertou a minúscula alavanca. De imediato, as luzes se apagaram. Em seguida, ele voltou a acendê-las. Apesar de tudo, conseguiu sorrir de novo. Que outras maravilhas aquela época oferecia?

– Aqui está. Sasuke olhou para Sakura, que se encontrava no degrau mais baixo da escada. Ela lhe lançou um retângulo comprido de tecido verde-escuro. Ao segurá-lo contra o peito, ele foi consumido por uma onda de descrença. A mulher estava falando sério quando mencionou cobri-lo? Que estranho!

Franzindo ainda mais a sobrancelha, envolveu o tecido ao redor dos quadris. Sakura esperou até que ele se afastasse da porta para fitá-lo de novo. Graças a Deus, ele finalmente estava coberto! Não era de surpreender que os vitorianos insistissem em folhas de figueira. Pena ela não ter algumas no jardim. A única coisa lá fora eram azevinhos, e Sakura duvidava que ele as apreciasse. Ela foi até a sala de estar e sentou-se no sofá.

– Ajude-me, Porca – ela sussurrou. – Você vai me pagar por isso.

E, então, ali estava ele, sentado ao seu lado, acelerando todos os hormônios em seu corpo com aquela simples presença. Deslocando-se para o extremo oposto do sofá, Sakura fitou-o com cautela.

– Quanto tempo vai ficar aqui? Ah, excelente pergunta, Sakura. Por que não pergunta sobre o tempo ou o signo dele? Caramba!

– Até a próxima lua cheia. Os olhos glaciais dele se derreteram um pouco. E, ao percorrer o corpo dela inteiro, o olhar transformou-se de gelo em fogo no espaço de dois batimentos cardíacos. Ele se inclinou em sua direção, estendendo a mão para tocá-la na face. Sakura levantou-se de repente e foi até o outro lado da mesinha de centro.

– Está me dizendo que estou presa a você pelo próximo mês?

– Sim.

Atordoada, ela esfregou os olhos. Não podia entretê-lo por um mês. Um mês inteiro! Tinha responsabilidades, obrigações. Precisava encontrar um novo hobby.

– Veja bem – ela disse –, acredite você ou não, eu tenho uma vida. Uma vida que não inclui você.

Sakura soube, pela expressão no belo rosto, que ele não apreciou suas palavras. Nem um pouco.

– Se acha que eu estou animado por estar aqui com você, está tristemente enganada. Asseguro-lhe que não estou aqui por opção. As palavras a feriram.

– Bem, não é você por inteiro que se sente assim. – Ela dirigiu o olhar para a parte dele que ainda estava ereta.

Olhando para a protuberância sob a toalha, ele suspirou. – Infelizmente, eu não tenho controle sobre isto da mesma forma que não tenho sobre o fato de estar aqui.

– Ali está a porta – ela falou, apontando na direção da saída. – Não deixe que ela bata em seu traseiro quando sair.

– Acredite em mim, se eu pudesse ir embora, eu iria.

Sakura hesitou diante daquelas palavras e de seu significado. – Está me dizendo que eu não posso desejar que você vá embora? Ou fazer com que volte para o livro?

– Acho que a palavra que você usou foi bingo.

Ela ficou em silêncio.

Levantando-se devagar, Sasuke encarou-a. Durante todos os séculos em que estivera amaldiçoado, era a primeira vez que algo desse tipo acontecia. Todas as outras mulheres que o haviam evocado sabiam o que ele era e estavam mais do que desejosas de passar o mês em seus braços, usando alegremente o corpo dele para o prazer. Nunca em sua vida, nesta ou na mortal, encontrara uma mulher que não o desejasse fisicamente.

Era... Estranho. Humilhante. Quase embaraçoso.

A maldição poderia estar enfraquecendo? Talvez, por fim, ele pudesse ser livre?

Assim que a ideia cruzou sua mente, ele soube que não poderia ser possível. Quando os deuses gregos decidiam punir, eles o faziam com estilo e com um ímpeto que nem mesmo dois milênios abrandariam. Houvera uma vez, muito tempo atrás, em que ele tinha lutado contra a maldição. Uma época em que acreditara que podia ser livre. Contudo, mais de dois mil anos de confinamento e impiedosa tortura lhe haviam ensinado uma coisa... resignação. Ele merecera seu inferno e, como o soldado que fora uma vez, aceitara sua punição.

Engolindo a bile presa na garganta, Sasuke abriu os braços, oferecendo a ela o seu corpo. – Pode fazer o que quiser comigo. Apenas me diga como agradá-la.

– Então, eu desejo que vá embora.

Ele abaixou os braços. – Exceto isso.

Frustrada, Sakura começou a andar de um lado para o outro. Com os hormônios finalmente sob controle e a cabeça mais livre, ela buscava uma solução. Porém, por mais que se esforçasse, não parecia haver saída. Uma dor terrível começou a pulsar em suas têmporas. O que iria fazer um mês inteiro com ele? De novo, foi torturada por uma imagem de Sasuke sobre seu corpo, e dos cabelos negros e macios dele envolvendo ambos, enquanto ele a penetrava profundamente. – Preciso de algo... – A voz dele sumiu. Ela se virou para encará-lo, ainda desejando-o. Seria tão fácil ceder... Mas seria errado. Recusava-se a usá-lo daquela forma. Como... Não, ela não pensaria naquilo. Ela se recusava a pensar naquilo.

– De quê? – ela indagou.

– De comida – disse Sasuke. – Se não vai me usar agora, você se importaria se eu comesse? – O olhar encabulado e um pouco raivoso no rosto dele revelava que não gostava de pedir nada. Então, por mais estranho e difícil que aquilo tudo fosse para ela, Sakura imaginou como ele se sentia. Ser arrastado de onde vive para ser atirado em sua vida devia ser terrível.

– Claro que não. – Ela gesticulou para que ele a seguisse. – A cozinha fica aqui. – Conduziu-o pelo corredor curto até o fundo da casa. Abrindo a geladeira, afastou-se para que ele a examinasse.

– Do que você gostaria? Contudo, em vez de enfiar o rosto na geladeira, ele se manteve a cerca de um metro de distância.

– Sobrou alguma pizza?

– Pizza? – ela repetiu, chocada. Como ele conhecia pizza?

Ele deu de ombros. – É algo que você pareceu gostar bastante de comer.

Sakura corou ao lembrar-se da brincadeira que ela e Ino tinham feito. A amiga comentara alguma coisa a respeito da substituição de sexo por comida, e ela imitara um orgasmo enquanto saboreava seu último pedaço.

– Você nos escutou?

Com o rosto impassível, ele disse tranquilamente: – O escravo sexual escuta tudo que é dito perto do livro.

Se suas bochechas ficassem um pouco mais quentes, explodiriam. – Eu não tenho pizza – ela falou depressa, querendo enterrar a cabeça na geladeira para refrescá-la. – Tenho sobras de frango e macarrão.

– E vinho? Ela assentiu.

– Está bom.

O tom autoritário a enraiveceu. Daqueles tons de Tarzan, que queriam dizer: "Sou o homem, meu bem, traga-me comida". E isso fazia seu sangue ferver. – Escute aqui, grandalhão, não sou sua cozinheira. Me provoque e eu vou alimentá-lo com Aipo.

Ele arqueou a sobrancelha. – Aipo?

– Não importa.

Ainda irritada, ela retirou o frango da geladeira e preparou-o para ser aquecido no microondas. Ele se sentou à mesa, transbordando aquela aura de arrogância masculina que testava sua tolerância.

Desejando que tivesse uma lata de ração para cães, Sakura forçou-se a colocar uma grande porção de macarrão em uma tigela. – Bem, há quanto tempo você está naquele livro? Desde a Idade das Trevas? – Pelo menos, era assim que ele agia.

Ele se manteve imóvel como uma estátua. Sem emoções, nada. Se ela não conhecesse a situação, juraria que ele era um androide. – Fui evocado pela última vez em 1895.

– Deixe disso! – Sakura lançou-lhe um olhar embasbacado enquanto punha a tigela no microondas. – 1895? Está falando sério? Ele assentiu. – Em que ano você foi preso pela primeira vez? A raiva que cruzou o rosto dele foi tão intensa que a assustou.

– 149 a.C., de acordo com o seu calendário.

Os olhos dela se arregalaram. – 149 a.C.? Cento e quarenta e nove anos antes de Cristo? Céus! Quando eu falei Sasuke da Macedônia, significa que você realmente é da Macedônia. Daquela Macedônia.

Ele acenou brevemente com a cabeça. Sakura tinha os pensamentos como um turbilhão enquanto fechava o micro-ondas e o ligava. Isso era impossível. Tinha que ser impossível!

– Como você ficou preso no livro? Quero dizer, os gregos antigos não tinham livros, não é?

– Originalmente, eu fui sepultado em um pergaminho que, mais tarde, foi encadernado, a fim de ser protegido – ele afirmou sombriamente, com o rosto ainda impassível. – Em relação a como eu acabei sendo amaldiçoado, eu tomei Alexandria.

Sakura franziu o cenho. Aquilo não fazia o menor sentido; não que o restante fizesse algum sentido para ela. – Por que tomar uma cidade iria...

– Alexandria não era uma cidade. Ela era uma virgem priápica. Ela ficou tensa ante as palavras, pensando em que sentido "tomar" uma mulher poderia levar um homem a ser preso pela eternidade.

– Você estuprou uma virgem?

– Eu não a estuprei – ele respondeu, encarando-a com um olhar duro. – Foi com consentimento mútuo, eu lhe asseguro.

Certo, aquela era uma questão sensível. Sakura via isso claramente na frieza dele. O homem não gostava de falar sobre o passado. Ela precisaria ser um pouco mais sutil em seu questionamento.

Sasuke escutou o estranho sino badalar, antes que Sakura pressionasse uma barra e abrisse a caixa preta onde colocara sua refeição. Ela pôs a tigela de comida que emitia vapor diante dele, junto com um garfo e uma faca de prata, guardanapo de papel e um cálice de vinho. O aroma quente atingiu-lhe o cérebro, fazendo o estômago dele doer de fome. Supôs que ele deveria chocar-se com o modo e a velocidade com que ela cozinhara, mas, após ouvir falar de coisas chamadas trem, câmera, automóvel, toca-discos, foguete e computador, ela duvidava que algo mais pudesse surpreendê-lo.

Na verdade, não havia nada mais para sentir, uma vez que, por necessidade, ele banira suas emoções há muito tempo. Sua existência nada mais era do que fragmentos de dias encadeados ao longo de séculos. Seu único propósito era servir às necessidades sexuais de quem o evocava. E algo que tinha aprendido nos últimos dois milênios era aproveitar os poucos prazeres aos quais tinha acesso durante cada encarnação.

Pensando nisso, levou um bocado de comida à boca e saboreou a deliciosa sensação do macarrão quente e cremoso em sua língua. Era puro êxtase. Permitiu que o aroma do frango e dos condimentos o invadisse totalmente. Fazia uma eternidade desde que comera pela última vez. Uma eternidade de fome constante. Fechando os olhos, ele engoliu. Mais acostumado à fome do que à alimentação, seu estômago contraiu-se dolorosamente em reação ao primeiro pedaço de comida. Sasuke apertou a faca e o garfo, enquanto lutava contra a dor brutal. Porém, não parou de comer. Não pararia enquanto tivesse comida. Aguardara tanto tempo para finalmente saciar a fome, e ele não se deteria agora.

Após mais algumas mordidas, as cólicas diminuíram, permitindo que ele apreciasse a refeição. E, ao sentir as dores se esvaírem, precisou de toda a força de vontade para comer como um ser humano, impedindo-se de enfiar a comida na boca com as mãos, em uma necessidade desesperada de debelar a corrosiva fome em seu ventre. Em momentos como este, era difícil lembrar-se de que ainda era um homem, e não um animal selvagem e inquieto recentemente solto da jaula. Ele perdera a maior parte de sua humanidade séculos atrás, mas pretendia manter o pouco que restara.

Sakura inclinou-se sobre o balcão, observando-o alimentar-se devagar, quase mecanicamente. Não sabia dizer se ele estava apreciando a comida; porém, ele continuava comendo. O que a surpreendia eram os modos perfeitos à mesa. Nunca conseguira comer daquela maneira, e imaginou quando ele aprendera a usar a faca para equilibrar o macarrão no dorso do garfo antes de levá-lo à boca.

– Eles tinham garfos na antiga Macedônia? – ela indagou.

Ele parou. – Como?

– Eu estava apenas imaginando quando o garfo foi inventado. Eles já os tinham em... Você está divagando!, sua mente gritou. Bem, quem não faria isso? Olhe para o sujeito. Quantas vezes você acha que alguém agiu como uma idiota e fez uma estátua grega ganhar vida? Especialmente uma estátua com aquela aparência! Não com frequência.

– Acho que o garfo foi inventado em algum momento do século XV.

– É mesmo? – perguntou Sakura. – Você estava lá?

Inexpressivo, ele ergueu o olhar e indagou:

– Na invenção do garfo ou no século XV?

– No século XV, é claro. – Então, pensando melhor, ela acrescentou: – Você não estava lá quando o garfo foi inventado, estava?

– Não. – Ele pigarreou e limpou a boca com o guardanapo. – Fui evocado quatro vezes durante aquele século. Duas na Itália, uma na Inglaterra e uma na França.

– É mesmo? – Ela tentou imaginar como as coisas teriam sido naquela época. – Aposto que você viu muitas coisas ao longo dos séculos.

– Na verdade, não.

– Ah, vamos lá, em dois mil anos...

– Eu vi principalmente quartos, camas e closets. O tom monótono a fez parar para pensar enquanto ele voltava a comer. A imagem de Sai feriu seu coração. Ela conhecera apenas um cretino egoísta e insensível. Aparentemente, Sasuke conhecera muito mais pessoas desse tipo.

– Então, me diga, você fica lá no livro até que alguém o chame?

Ele assentiu.

– O que você faz no livro para passar o tempo?

Sasuke deu de ombros, e ela reparou que ele não possuía uma gama muito ampla de expressões. Ou de palavras. Sakura moveu-se para a frente e sentou-se à mesa diante dele.

– Sabe... se, como você disse, vamos passar um mês juntos, por que não o tornar mais agradável e conversar?

Sasuke fitou-a, surpreso. Não se lembrava da última vez em que alguém, de fato, conversara com ele, exceto para pronunciar palavras estimulantes ou fazer sugestões que ajudassem a intensificar o prazer que ele proporcionava. Ou para chamá-lo de volta para a cama. Aprendera muito cedo na vida que as mulheres queriam apenas uma coisa dele... certa parte do seu corpo enterrada profundamente entre suas pernas.

Com isso em mente, correu seu olhar lentamente pelo corpo de Sakura, detendo-se nos seios, que se enrijeceram sob o olhar prolongado. Indignada, ela cruzou os braços sobre os seios e esperou até que ele a encarasse. Sasuke quase riu. Quase.

– Sabe... – disse ele, imitando-a – há coisas muito mais agradáveis para se fazer com a língua do que falar... como deslizá-la por seus seios nus e pela base de seu pescoço. – Ele baixou o olhar para o ventre dela. – Sem mencionar outros lugares...

Por um instante, Sakura ficou muda. Depois, divertida. Por fim, muito excitada.

Como terapeuta, ela escutara coisas muito mais chocantes do que aquela, lembrou-se. Sim, mas não de uma língua que ela desejava que fizesse outras coisas com ela além de falar.

– Está certo, há outras coisas a se fazer com uma língua, como arrancá-la – ela falou, experimentando certa satisfação com a surpresa que lampejou nos olhos de Sasuke. – Mas eu sou uma mulher que gosta de falar, e você está aqui para me agradar, não é?

Houve apenas uma sutil tensão no corpo dele, como se resistisse ao papel que precisava desempenhar. – Sim.

– Então, me diga o que você faz enquanto está no livro.

Ele a fitou com uma intensidade raivosa que ela achou enervante, intrigante e um pouco assustadora.

– É como estar preso em um sarcófago – por fim, respondeu calmamente. – Escuto vozes, mas não posso ver a luz ou qualquer outra coisa. Só fico ali, incapaz de me mexer. Esperando. Escutando.

Ela se encolheu ante a ideia. Lembrou-se de uma vez, muito tempo atrás, quando se trancara por acidente no quartinho de ferramentas de seu pai. Não havia luz, nem saída. Aterrorizada, ela sentira dificuldade para respirar e ficara tonta com o pânico. Gritara e batera na porta até machucar toda a mão. Por fim, sua mãe a ouvira e a libertara. Sakura ainda era ligeiramente claustrofóbica por causa da experiência. Nem conseguia imaginar como seria passar séculos em um local como esse.

– Que horrível – ela sussurrou.

– Você se acostuma. Com o tempo.

– É mesmo? – ela não sabia o porquê, mas duvidava disso. Quando sua mãe a soltara do quartinho de ferramentas, ela descobrira que havia passado apenas meia hora ali, mas para ela parecera uma eternidade. Como seria passar realmente a eternidade daquela forma?

– Você já tentou fugir?

O olhar que ele lhe lançou foi bastante expressivo.

– O que aconteceu? – perguntou.

– Obviamente, eu fracassei.

Sakura sentiu-se péssima por ele. Mais de dois mil anos passados em uma cripta escura. Era um milagre que ele ainda estivesse são. Que fosse capaz de sentar-se ali com ela e falar. Não era de surpreender que ele quisesse comida. Aquele tipo de privação sensorial era uma tortura impiedosa. Naquele instante, soube que iria ajudá-lo. Não imaginava como, mas devia haver algum modo de acabar com aquilo.

– E se conseguíssemos achar um jeito de libertá-lo?

– Eu lhe garanto que não existe nenhum.

– Fatalista, não é?

Ele lhe lançou um olhar jocoso. – Ficar preso por mais de dois mil anos faz isso com uma pessoa.

Sakura continuou observando-o comer, enquanto sua cabeça funcionava rapidamente. A otimista que havia nela recusava-se a levar a sério aquele pessimismo, assim como sua parte terapeuta negava-se a deixar de ajudá-lo. Fizera um juramento de aliviar o sofrimento quando pudesse, e levava muito a sério seus juramentos. Quando se decidia, sempre havia um jeito. Chovesse ou fizesse sol, ela encontraria um jeito de libertá-lo! Enquanto isso, faria por ele algo que duvidava que alguém tivesse feito. Providenciaria para que ele desfrutasse da liberdade temporária em Nova Orleans. As outras mulheres podiam tê-lo mantido confinado em seus quartos ou closets, mas ela não acorrentaria ninguém.

– Bem, então vamos dizer que esta encarnação é para você, companheiro.

Ele desviou os olhos da comida e fitou-a com um súbito interesse. – Eu vou servir a você. – Sakura prosseguiu. – Faremos o que você quiser fazer, veremos o que você quiser ver.

Um canto da boca de Sasuke ergueu-se, revelando uma estranha diversão, enquanto ele tomava um gole de vinho. – Tire a blusa.

– O quê? – ela indagou.

Ele pôs o cálice de vinho de lado e encarou-a com um olhar sensual. – Você disse que eu posso ver o que eu quiser ver e fazer o que eu quiser fazer. Bem, eu quero ver os seus seios e depois quero passar minha língua...

– Ei, grandalhão, pode esfriar – Sakura o interrompeu, com as bochechas ardendo e o corpo quente. – Acho que devemos estabelecer algumas regras básicas enquanto você está aqui. Número um: não haverá nada daquilo.

– E por que não?

Sim, seu corpo exigiu em uma voz interior e, ao mesmo tempo, implorativa e zangada, por que não? – Porque eu não sou uma gata vira-lata com a cauda erguida, esperando que o macho mais próximo monte, se satisfaça e vá embora.

OOO

Obrigado pelas reviews!

Comentem.