Continuando a saga de Sasuke da Macedônia:
OOO
Capítulo 4
Sasuke ergueu a sobrancelha ante aquela analogia crua e totalmente inesperada.
Porém, ainda mais surpreendente do que as palavras foi a amargura que sentiu na voz de Sakura. Ela devia ter sido perversamente usada no passado. Não era de espantar que ele a deixasse nervosa. Uma imagem de Penélope passou por sua mente, e ele sentiu uma pontada de dor tão violenta no peito que somente seu firme treinamento militar impediu que estremecesse. Ele tinha muito a expiar. Pecados tão grandes que nem mesmo dois mil anos podiam compensar. Não era um bastardo apenas de nascimento; por causa de uma vida brutal de desespero e traição, ele verdadeiramente se tornara um.
Fechando os olhos, obrigou-se a afastar esses pensamentos. Aquilo era literalmente história antiga, e este era o presente. Sakura era o presente. E ele estava ali por ela. Compreendia, agora, o que Ino quisera dizer quando lhe falara a respeito da amiga. Era por isso que estava ali. Precisava mostrar a Sakura que sexo era agradável.
Nunca tinha se deparado com uma situação semelhante. Ao fitá-la, um sorriso lento curvou seus lábios. Esta seria a primeira vez na vida que precisaria perseguir uma mulher para que fosse sua amante. Nenhuma delas jamais recusara seu corpo. Com a inteligência e a teimosia de Sakura, sabia que levá-la para a cama seria tão desafiador quanto superar o exército romano.
Sim, ele iria saborear isso. Assim como a saborearia. Cada pedacinho doce e sardento dela.
Sakura engoliu em seco diante do primeiro sorriso verdadeiro que via naquele belo rosto. Um sorriso que suavizava as feições duras, tornando-o ainda mais devastador. No que ele estaria pensando? Pela milésima vez, ela sentiu o rosto se aquecer ao se lembrar das palavras duras que dissera. Não pretendera deixar aquilo escapar. Não costumava revelar seus pensamentos para ninguém, especialmente para um estranho. Mas havia algo tão atrativo nesse homem... Algo que a tocava de uma forma perturbadora. Talvez fosse a dor mal disfarçada que brilhava nos ónix, quando o pegava distraído. Ou talvez fossem apenas seus anos de treinamento em psicologia que a impediam de suportar o pensamento de ter uma alma tão inquieta em sua casa e não ajudá-la. Não sabia.
O relógio de pêndulo que ficava no corredor do andar de cima soou uma hora. – Meu Deus! – ela exclamou, chocada por já ser tão tarde. – Preciso me levantar para o trabalho às seis.
– Você vai para a cama? Para dormir?
Se o humor dele não estivesse tão sombrio, seu olhar atordoado a teria feito rir.
– Eu preciso fazer isso. As sobrancelhas dele se uniram em... Sofrimento?
– Algo errado? – ela quis saber.
Ele meneou a cabeça.
– Bem, então eu vou mostrar onde pode dormir e...
– Não estou com sono.
Sakura espantou-se. – O quê? Sasuke olhou para ela, incapaz de encontrar as palavras que pudessem exprimir o que sentia. Estivera preso no livro por tanto tempo que tudo o que desejava fazer era correr ou pular. Queria fazer qualquer coisa para celebrar sua repentina liberdade de movimento. Não queria ir para a cama. O pensamento de se deitar na escuridão por mais um minuto... Esforçou-se para respirar.
– Eu estou descansando desde 1895 – ele explicou. – Não tenho certeza de quanto tempo faz, mas, pela aparência das coisas, faz bastante tempo.
– Estamos em 2016 – Sakura informou-o. – Você está "dormindo" há cento e vinte um anos. – Não, ela se corrigiu. Ele não estivera adormecido. Sasuke havia lhe contado que podia escutar tudo o que era dito perto do livro, o que significava que ele estivera acordado e trancado todo aquele tempo. Isolado. Sozinho. Ela era a primeira pessoa em mais de cem anos com quem ele podia falar ou estar. Seu estômago se contraiu em solidariedade. Ainda que a prisão representada por sua timidez não fosse tangível, ela sabia como era estar em algum lugar escutando as pessoas e não fazer parte do grupo. Permanecer do lado de fora, olhando para dentro.
– Eu gostaria de ficar acordada – disse, suprimindo um bocejo. – De verdade. Porém, se eu não durmo o suficiente, meu cérebro vira gelatina e eu não consigo pensar direito.
– Entendo.
Notando o desapontamento dele, Sakura sugeriu: – Você poderia assistir TV.
– TV?
Ela pegou a tigela vazia e lavou-a antes de conduzi-lo de volta à sala de estar. Ligando o aparelho, mostrou-lhe como mudar de canal com o controle remoto.
– Incrível – ele sussurrou, zapeando pela primeira vez.
– É legal mesmo.
Aquilo deveria mantê-lo ocupado. Afinal, homens precisavam de apenas três coisas para serem felizes: comida, sexo e um controle remoto. Duas dessas três coisas iriam satisfazê-lo por algum tempo.
– Bem – ela falou, dirigindo-se à escada –, boa-noite. Quando passou por ele, sentiu que ele a tocava no braço. Mesmo sendo um toque leve, provocou um arrepio em seu corpo. Ele manteve a expressão impassível, mas emoções intensas chamejavam nos olhos. Sakura viu o suplício, o anseio e, acima de tudo, a solidão. Ele não queria que ela fosse embora. Lambendo o lábio subitamente ressecado, ela disse algo inacreditável: – Tenho outra TV no meu quarto. Por que você não assiste lá enquanto eu durmo?
Ele lhe deu um sorriso encabulado. Sasuke seguiu-a escada acima, pasmo com o fato de ela tê-lo compreendido sem palavras. De ela ter considerado sua necessidade de não estar sozinho, mesmo tendo as próprias preocupações. Isso o fazia sentir-se estranho em relação a ela. Provocava uma sensação esquisita em seu íntimo. Seria ternura? Não sabia ao certo. Sakura levou-o até um enorme dormitório, com uma grande cama com quatro colunas disposta no centro de uma das paredes. Uma cômoda de tamanho médio ficava diante da cama e, sobre o móvel, havia, como ela chamara, uma TV? Sakura observou-o andar pelo quarto, olhando as fotos nas paredes, e, sobre a penteadeira, fotos de seus pais e avós, dela e de Ino na faculdade e do cão que tivera quando criança.
– Você vive sozinha? – ele indagou.
– Sim – respondeu, aproximando-se da cadeira de balanço ao lado da cama, em cujo encosto sua camisola estava pendurada. Pegando-a, ela o fitou. Sasuke ainda tinha a toalha verde enrolada nos quadris delgados. Não podia deixá-lo juntar-se a ela na cama daquele jeito. Claro que pode. Não, eu não posso. Por favor? Quieta,
Sakura, deixe-me pensar.
Ela ainda guardava o pijama do pai no quarto de seus pais, onde conservava tudo o que lhes pertencera. Dada a largura dos ombros de Sasuke, a parte de cima nunca serviria, mas as calças tinham cordões e, mesmo que não servissem no comprimento, ao menos o cobririam. – Espere aqui – falou. – Volto logo.
Após vê-la sair, Sasuke andou até as grandes janelas e afastou as cortinas de renda branca. Observou as estranhas coisas que pareciam caixas, que deveriam ser automóveis movendo-se diante da casa, e faziam esquisitos ruídos que iam e vinham como a maré. Luzes iluminavam as ruas e outros edifícios por toda a parte, como as tochas haviam feito no passado em sua pátria. Como este mundo era esquisito... Tão estranhamente similar ao seu e, ainda assim, tão diferente. Tentou associar o que via com todas as palavras que escutara ao longo de décadas, palavras que não compreendera antes, como TV e lâmpada. E, pela primeira vez desde a infância, sentiu medo. Não gostava das mudanças que via, da velocidade com a qual haviam se estabelecido neste mundo. Como seria da próxima vez que fosse chamado? Quão diferentes as coisas ainda podiam se tornar? Ou, ainda mais apavorante, e se ele nunca mais fosse evocado? Engoliu em seco ao pensar nisso. Como seria ficar preso pela eternidade? Sozinho e alerta. Sentir a escuridão opressiva ao seu redor, esmagando-o, arrancando o ar de seus pulmões e dilacerando seu corpo de dor. Nunca mais andar como um homem? Nunca mais falar ou tocar? Aquelas pessoas agora tinham coisas chamadas computadores. Ele escutara a lojista falar a respeito deles com uma porção de clientes. E um deles dissera que um dia, provavelmente logo, eles substituiriam completamente os livros. Então, o que aconteceria com ele?
Vestida com a larga e comprida camiseta cor-de-rosa que usava para dormir, Sakura parou no quarto de seus pais ao lado da penteadeira, sobre a qual havia uma floreira de cristal onde ela colocara as alianças de casamento, no dia seguinte ao funeral. Ela podia ver o cintilar do diamante navete de meio quilate. Com a garganta constringida pela dor, lutou contra as lágrimas que se formaram em seus olhos. Na época com 24 anos, ela fora arrogante o suficiente para pensar que era adulta e capaz de enfrentar qualquer coisa que a vida pusesse em seu caminho. Achava-se invencível. E, em um segundo, sua vida desintegrara-se. As mortes dos pais fez com que perdesse tudo o que tinha. Segurança, fé, senso de justiça, e, acima de tudo, ela perdera o amor devotado e o apoio emocional oferecido por eles. A despeito de sua vaidade juvenil, não estava preparada para ficar à deriva, desorientada e sem família. E, mesmo já tendo se passado cinco anos, ela ainda chorava por eles. Profundamente. O velho ditado de que era melhor ter conhecido o amor e tê-lo perdido era uma enorme tolice. Não havia nada pior do que ser amado e protegido para, então, perder as pessoas queridas em um acidente completamente desnecessário. Incapaz de enfrentar as mortes de ambos, ela fechara o quarto no dia seguinte ao enterro e deixara tudo exatamente como era. Abrindo a gaveta onde ficavam os pijamas do pai, Sakura engoliu em seco. Ninguém os tocara desde a tarde em que sua mãe os havia dobrado, antes que, juntas, elas levassem as roupas para cima e as guardassem.
Ela ainda se lembrava do riso da mãe. Da forma como ela brincara a respeito do gosto conservador de seu pai em relação aos pijamas de flanela. Pior, lembrava-se do amor de um pelo outro. Ah, o que ela não daria para encontrar um companheiro perfeito, como acontecera com seus pais. Eles haviam sido casados por vinte e cinco anos antes de morrerem, e eram tão apaixonados quanto no dia em que se tinham conhecido. Ela não se recordava de um momento na vida em que sua mãe não estivesse sorrindo enquanto seu pai gentilmente a provocava. Todos os lugares aonde iam, ficavam de mãos dadas, como adolescentes, e roubavam beijos rápidos quando achavam que ninguém estava olhando.
Mas ela via. Ela se lembrava. Desejara aquele tipo de amor. Porém, por algum motivo, nunca encontrara um homem que a deixasse sem fôlego. Ou que fizesse seu coração bater mais forte e perturbasse sua razão. Um homem sem o qual não pudesse viver.
– Ah, mamãe... – ela sussurrou, desejando que seus pais não tivessem morrido naquela noite. Desejando... Não sabia. Queria apenas algo em sua vida que a fizesse ansiar pelo futuro. Algo que a fizesse feliz, como seu pai sempre fizera sua mãe imensamente feliz. Mordendo o lábio, ela apertou a calça do pijama xadrez azul-escuro e branco e correu para fora do quarto.
– Aqui está – disse ela, atirando a calça para Sasuke e apressando-se até o banheiro no corredor. Não queria que ele visse suas lágrimas. Nunca mais demonstraria sua vulnerabilidade para outro homem.
Sasuke trocou o tecido ao redor dos quadris pela calça, antes de ir atrás de Sakura. Ela passara rapidamente pela próxima porta do corredor e a batera com força.
– Sakura – ele chamou, empurrando a porta com delicadeza. Ficou imóvel ao vê-la chorando. Ela estava em um tipo de lavatório, com duas pias embutidas e um balcão diante dela, enquanto segurava um tecido sobre a boca, em um esforço para abafar os soluços sentidos.
Apesar de sua austera criação e da eternidade de controle, uma onda de compaixão assolou-o. Ela chorava como se tivesse o coração partido. Aquilo o deixou desconfortável. Inseguro.
Cerrando os dentes, ele afastou os estranhos sentimentos. Algo que aprendera muito cedo em sua infância era que não fazia bem conhecer as pessoas. Importar-se com elas. Toda vez em que ele cometera esse erro, pagara caro. Além disso, seu tempo neste lugar era curto demais... Quanto menos se envolvesse com as emoções e a vida de Sakura, mais fácil seria suportar seu próximo confinamento.
Nesse instante, as palavras que ela dissera o atingiram diretamente no peito. Ela o classificara com perfeição. Ele nada mais era do que um gato que se satisfazia e ia embora. Sasuke apertou a maçaneta fria ao pensar nisso. Não era um animal. Também tinha sentimentos. Pelo menos costumava ter.
Antes que pudesse reconsiderar seus atos, ele entrou no aposento e a abraçou. Ela o enlaçou pela cintura, agarrando-se a ele como se fosse um salva-vidas, enquanto enterrava o rosto em seu peito e chorava. O corpo inteiro dela sacudia de encontro ao dele. Algo estranho se formou em seu íntimo. Um desejo profundo por algo que não sabia nomear. Nunca em sua vida confortara uma mulher em pranto.
Fizera sexo mais vezes do que conseguia contar, mas nunca abraçara alguém daquela forma. Nem após o sexo. Assim que esgotava sua parceira, ele se levantava, limpava-se e ia encontrar algo com o que se ocupar até que fosse novamente chamado. Mesmo antes da maldição, nunca demonstrara ternura a ninguém. Nem mesmo à sua esposa.
Como soldado, ele fora treinado, desde sua primeira lembrança, a ser selvagem, frio. Cruel. Volte aqui com seu escudo ou sobre ele. Fora isso o que sua madrasta tinha lhe dito ao agarrá-lo pelos cabelos e atirá-lo para fora de casa, a fim de que começasse o treinamento para a guerra, aos 7 anos. Seu pai havia sido ainda pior. Um lendário comandante espartano, não tolerava fraqueza. Nem emoção. O homem tinha levado a infância de Sasuke na ponta de um chicote de couro trançado, ensinando-o a esconder a dor. A não permitir que ninguém o visse sofrer. Sasuke ainda sentia o impacto do chicote nas costas desnudas, escutava o som que fazia ao cortar o ar na direção de sua pele.
Via a expressão de escárnio no rosto do pai.
– Sinto muito – Sakura sussurrou contra seu ombro, fazendo seus pensamentos retornarem ao presente. Ela inclinou a cabeça para fitá-lo. Os olhos brilhantes começaram a derreter as extremidades de um coração congelado séculos atrás, pela necessidade e pelas circunstâncias.
Desconfortável, ele se afastou. – Está se sentindo melhor?
Sakura enxugou as lágrimas e limpou a garganta. Não sabia o que levara Sasuke a ir atrás dela, mas fazia muito tempo desde que alguém a confortara enquanto ela chorava. – Sim – sussurrou. – Obrigada.
Ele não disse nada. No lugar do homem terno que a abraçara instantes atrás, estava novamente o Sr. Estátua, com o corpo inteiro rígido e frio.
Inspirando profundamente, Sakura passou por ele. – Eu não teria agido assim se não estivesse tão cansada e ainda um pouco embriagada. Eu realmente preciso dormir. Sabendo que ele a seguiria, rumou obedientemente para o quarto e subiu na cama alta, acomodando-se sob o cobertor.
Logo depois, o colchão afundou com o peso dele. Seu coração acelerou ao sentir o súbito calor do corpo próximo ao seu. Ele instantaneamente aconchegou-se a ela, passando um braço grande e musculoso por sua cintura.
– Sasuke! – disse ela, com um tom de advertência na voz ao sentir aquilo ereto próximo a seu quadril. – Acho que seria melhor você ficar do seu lado da cama, e eu ficar do meu.
Ele não escutou. Em vez disso, inclinou a cabeça e mordiscou a nuca dela. – Achei que você quisesse que eu aliviasse sua virilha da dor – ele sussurrou em seu ouvido. Com o corpo em chamas por causa da proximidade dele e do aroma de sândalo que a inebriava, Sakura corou ao se lembrar das palavras que dissera a Ino. – Minha virilha está ótima, e feliz assim.
– Juro que poderia fazê-la muito, muito mais feliz.
Ela não duvidava nem um pouco daquilo.
– Se você não se comportar, vou fazê-lo sair do quarto.
Ao virar-se para fitá-lo, viu a descrença nos belos olhos.
– Não entendo por que você me mandaria embora – disse ele.
– Porque não vou usá-lo como um brinquedinho anônimo que não tem outro propósito exceto servir a mim. Certo? Não quero ser íntima de um homem que eu não conheço.
Com os olhos atormentados, Sasuke por fim afastou-se e acomodou-se ao lado dela. Sakura respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado e domar o fogo em seu sangue. Deus, ele era um homem difícil de recusar! Acha mesmo que vai conseguir dormir com esse sujeito deitado ao seu lado? Você tem pedras no lugar do cérebro?
Fechando os olhos, ela recitou sua aborrecida ladainha. Ela precisava dormir. Não havia espaço para desculpas ou dúvidas. E nem mesmo para lindos como Sasuke. Colocando as almofadas nas costas, ele olhou para Sakura. Seria a primeira vez em sua excepcionalmente longa vida que passava a noite com uma mulher sem fazer amor com ela. Era inconcebível. Nenhuma delas o rejeitara antes.
Ela se virou com outro controle, parecido com o que lhe mostrara no andar de baixo. Apertou um botão e ligou a TV, depois abaixou o som das pessoas falando.
– Este é para as luzes – ela explicou, pressionando outro botão. De imediato, as luzes se apagaram, deixando apenas a TV iluminando a parede e formando sombras atrás dele. – Durmo profundamente, então não acho que você vai me acordar. – Ela entregou-lhe o controle remoto. – Boa-noite, Sasuke da Macedônia.
– Boa-noite, Sakura – ele sussurrou, vendo como os cabelos macios se espalhavam sobre o travesseiro enquanto ela se aconchegava para dormir. Ele pôs o controle remoto de lado e a observou por um longo tempo enquanto a luz da TV bruxuleava sobre o rosto relaxado.
Soube o instante exato em que ela adormeceu, pela regularidade da respiração. Apenas então ousou tocá-la, traçando o delicado contorno da face com a ponta do dedo indicador. Seu corpo reagiu com tamanha intensidade que ele mordeu o lábio para reprimir uma imprecação. Fogo corria por seu sangue. Conhecera apetites dolorosos durante toda a sua vida; primeiro, a necessidade de comida em seu ventre; então, uma sede de amor e respeito; por fim, o exigente anseio de sua virilha pela maciez úmida de um corpo feminino. Mas nunca experimentara algo semelhante. Era um desejo tão forte e brutal que chegava a ameaçar sua sanidade. Só conseguia pensar em afastar as coxas sedosas e alvas dela e afundar-se no corpo suave. Em mover-se repetidas vezes até que ambos gritassem ao atingir, juntos, o clímax.
No entanto, isso nunca aconteceria. Sasuke afastou-se, mantendo-se a uma distância segura na cama, de onde não conseguia sentir o doce aroma feminino, nem o calor do corpo sob as cobertas. Ele podia proporcionar a ela prazer ininterrupto durante dias, mas, para ele, nunca haveria paz.
– Maldito seja, Príapo! – ele rosnou, mencionando o nome do deus que o condenara àquele destino. – Espero que Hades esteja lhe dando o que merece. Com a raiva atenuada, ele suspirou, percebendo que isso era o que ele certamente estava recebendo das Parcas e Fúrias.
Sakura despertou com uma sensação incomum de calor e segurança, algo que não experimentava havia anos. De repente, sentiu um beijo delicado nas pálpebras, como se alguém estivesse roçando os lábios em seus cílios. Mãos quentes e fortes acariciavam seus cabelos.
Sasuke! Ergueu-se tão rapidamente que bateu sua cabeça na dele, e o escutou emitir um ruído de dor. Esfregando a testa, ela abriu os olhos e o viu fazendo uma carranca.
– Desculpe – disse Sakura, sentando-se. – Você me assustou.
Ele abriu a boca e pôs a ponta do polegar no dente da frente, para verificar se ela o derrubara com o golpe. Sakura não deixou de notar o movimento da língua quando ele checou o dente. A visão dos dentes incrivelmente brancos e perfeitos que ela amaria que a mordiscassem...
– O que você quer para o café da manhã? – ela indagou, distraindo-se dos próprios pensamentos. Ele olhou para o profundo decote de sua camiseta de dormir. Acompanhando o olhar dele, ela percebeu que, pela forma como estava sentada, ele podia ver tudo, inclusive sua embaraçosa roupa de baixo cor-de-rosa com estampa do Mickey Mouse.
Antes que pudesse se mexer, ele a puxou para o seu colo e tomou-lhe os lábios. Sakura gemeu de prazer de encontro à boca macia e quente enquanto a língua de Sasuke fazia as coisas mais pecaminosas com a dela. Ficou zonza com o beijo intenso, com o hálito morno mesclando-se ao seu. E, quem diria, ela nunca gostara de beijar. Devia ter estado louca! Ele a apertou entre seus braços. Milhares de chamas percorriam seu corpo, queimando-a, estimulando-a e concentrando-se entre suas coxas, onde ansiava por ele.
Sasuke afastou os lábios e percorreu sua pele com a língua, traçando um caminho ardente ao longo do pescoço, chegando ao lóbulo da orelha... O homem parecia conhecer cada zona erógena do corpo de uma mulher! E, melhor ainda, sabia como usar a língua e as mãos para massagear todos, extraindo o máximo de prazer. Ele respirou de leve em seu ouvido, enviando arrepios por todo o corpo dela, fazendo-a tremer enquanto ele acariciava a parte interna de sua orelha com a língua. Seus seios formigaram e incharam e enrijeceram, implorando por um beijo.
– Sasuke – ela murmurou, incapaz de reconhecer a própria voz. Sua mente queria que o mandasse parar, mas as palavras ficaram presas na garganta. Havia tanto poder naquele toque. Tanta mágica. Ela desejava mais. Ele a deitou de costas. Mesmo através da calça do pijama, Sakura sentiu a ereção, quente e rígida, contra os quadris, quando ele pegou suas nádegas com as mãos e ofegou em seu ouvido.
– Você precisa parar – ela conseguiu dizer, por fim, a voz soando fraca.
– Parar com o quê? – ele perguntou.
– Com isto? – Sasuke brincou com a língua ao redor de sua orelha. Ela emitiu um ruído de prazer. Arrepios a percorriam, e eram como brasas queimando cada centímetro de seu corpo. Os seios enrijeceram ainda mais de encontro ao peito forte.
– Ou isto? – ele inseriu uma das mãos sob sua calcinha, tocando-a no ponto onde ela mais ansiava por ele. Sakura retesou o corpo, excitada, em resposta à mão entre suas pernas, e arqueou as costas. Oh, ele era maravilhoso! Ele massageou a pele macia e pulsante com um dedo, fazendo-a arder por inteiro, antes de finalmente penetrá-la com dois dedos. Enquanto fazia movimentos circulares, provocando, acariciando, Sasuke massageava a protuberância sensível com o polegar.
– Oohh... – ela gemeu, inclinando a cabeça para trás diante de tamanho prazer. Agarrou-se a ele, conforme os dedos e a língua prosseguiam a implacável investida. Sem controle, esfregou-se ousadamente nele, buscando ainda mais o calor e o toque masculinos.
Sasuke fechou os olhos, deliciando-se com o aroma de Sakura, com a sensação dos braços que o envolviam. Ela lhe pertencia. Sentia-a estremecendo e vibrando ao redor de sua mão, enquanto o corpo macio se contraía com suas carícias. A qualquer momento, ela atingiria o clímax. Pensando nisso, ergueu a camiseta dela e abaixou a cabeça até um mamilo teso, sugando gentilmente a aréola e desfrutando a sensação da carne enrijecida provocando sua língua.
Não se lembrava de uma mulher ter um gosto tão bom. Era um sabor que ficaria marcado em sua mente, um sabor do qual nunca se esqueceria. E ela estava pronta para ele. Quente, úmida, apertada... do jeito que apreciava um corpo feminino.
Rasgou o fino tecido da calcinha, que impedia seu acesso à parte dela que ansiava explorar completamente. E por um bom tempo. Sakura escutou o tecido sendo rasgado, mas não conseguiu detê-lo. Sua vontade já não lhe pertencia mais. Fora consumida pelas sensações, tão intensas que tudo o que ela desejava era a satisfação. Precisava atingir o clímax!
Enterrou as mãos nos cabelos negros, não querendo que ele se afastasse nem por um segundo. Sasuke livrou-se das calças e afastou suas pernas. Tomada pelo calor que fazia seu corpo arder, Sakura prendeu o fôlego enquanto ele acomodava o corpo grande e forte entre suas coxas. Sentindo a masculinidade pressioná-la, arqueou os quadris e agarrou os ombros largos, desejando-o dentro de si com um desespero inacreditável. De repente, o telefone tocou. Sakura sobressaltou-se com o som, recuperando o controle.
– Que barulho é esse? – ele resmungou.
Grata pela interrupção, ela saiu de baixo dele, trêmula, com o corpo ardendo.
– É um telefone – ela explicou, antes de se inclinar sobre o criado-mudo e pegar o aparelho. Suas mãos tremiam ao levar o fone ao ouvido. Sasuke praguejou, rolando para o lado.
– Ino, graças a Deus é você! – ela exclamou assim que ouviu a voz da amiga. Oh, como estava grata pela habilidade de Ino saber o momento exato de telefonar!
– O que foi? – perguntou Ino.
– Pare com isso – Sakura repreendeu Sasuke ao sentir que ele lambia suas costas na direção das nádegas. Empurrou-o para trás e afastou-se um pouco.
– Não estou fazendo nada – disse Ino.
– Não é você, Porca. Do outro lado da linha, houve um silêncio tumular.
– Escute – Sakura falou, com a voz severa –, preciso que pegue algumas roupas do Shikamaru e traga para cá. Agora.
– Funcionou! – o grito agudo quase estourou o tímpano de Sakura. – Oh, meu Deus, funcionou! Aleluia! Não consigo acreditar! Estou indo!
Sakura desligou o telefone, enquanto a língua de Sasuke traçava um caminho de suas nádegas para sua...
– Pare com isso! Ele se afastou e fitou-a, chocado.
– Você não gosta quando eu faço isso?
– Não foi isso que eu disse – ela respondeu, antes que pudesse conter-se. Ele se aproximou de novo... Sakura saiu às pressas da cama.
– Preciso me aprontar para o trabalho. Ele se apoiou em um dos braços e a observou recolher a calça do pijama e atirá-la em sua direção. Pegou-a com a outra mão, deslizando lentamente o olhar pelo corpo de Sakura.
– Por que você não liga e avisa que está doente?
– Ligar e avisar que estou doente? – ela repetiu. – Como você sabe o que é isso?
Ele deu de ombros. – Eu já lhe disse. Posso escutar durante o meu confinamento. É isso que me permite aprender idiomas e compreender as alterações na sintaxe.
Como uma graciosa pantera erguendo-se, ele empurrou o cobertor e saiu da cama. Sem a calça. Com o corpo ainda totalmente ereto.
Fascinada, ela não conseguiu se mover.
– Nós não terminamos – disse ele, em uma voz baixa e profunda, alcançando-a.
– Ah, nós terminamos, sim! Ela correu para a segurança do banheiro e trancou a porta.
Frustrado, Sasuke cerrou os dentes e teve um impulso súbito de bater a cabeça na parede. Por que ela estava sendo tão teimosa? Olhou para o corpo excitado e praguejou: – E por que você não se comportar por cinco minutos?!
Sakura tomou um longo banho frio. O que havia em Sasuke que fazia seu sangue literalmente ferver? Ela ainda podia sentir o calor daquele corpo másculo junto ao seu. Os lábios dele em sua... – Pare com isso, pare com isso, pare com isso!
Ela não era uma ninfomaníaca incapaz de controlar-se. Era uma doutora, com um cérebro... e sem hormônios. Ainda assim, seria tão fácil apenas se esquecer de tudo e passar o mês inteiro na cama com Sasuke.
– Certo – disse a si mesma. – Vamos dizer que você se enfie com ele na cama por um mês. O que vai acontecer depois?
Ela se ensaboou, e a irritação dispersou o restante do desejo. – Vou lhe dizer o que vai acontecer. Ele vai embora, e você, querida, vai ficar sozinha de novo. Lembra o que aconteceu depois de Sai? Lembra como se sentiu, vagando pelo quarto, nauseada por ter deixado alguém usar você? Lembra como foi humilhante? E o que era pior, ela ainda conseguia escutar a risada zombeteira de Sai ao gabar-se para os amigos e cobrar a aposta.
Como ela desejara ter se transformado em um homem por tempo suficiente para chutar a porta do apartamento dele e espancá-lo. Não, ela não permitiria que a usassem. Levara anos para superar Sai e a crueldade dele, e não arruinaria tudo aquilo por um capricho. Nem mesmo por um lindo capricho! Não, não e não!
Da próxima vez em que se entregasse a um homem, seria a alguém com quem estivesse comprometida. Alguém que se importasse com ela. Alguém incapaz de fazer pouco-caso de sua dor e continuar usando seu corpo para o próprio prazer, como se ela não significasse nada, ela pensou, enquanto as memórias reprimidas vinham à tona de forma turbulenta. Sai agira como se ela nem mesmo estivesse lá. Como se ela não fosse nada além de uma boneca sem emoções, projetada unicamente para proporcionar-lhe prazer.
E ela não permitiria que ninguém, especialmente Sasuke, a tratasse daquela forma. Nunca mais.
Sasuke desceu as escadas, maravilhando-se com a luz do sol que penetrava pelas janelas. Era engraçado como as pessoas não valorizavam coisas pequenas como essas. Recordava-se de um tempo em que ele também não reparava em algo tão simples quanto uma manhã ensolarada. Agora, cada vez era um verdadeiro presente dos deuses. Um presente que ele apreciaria durante o próximo mês, até que fosse novamente forçado a viver na escuridão.
Com o coração pesado, foi até a cozinha e dirigiu-se ao armário grande onde Sakura armazenava a comida. Ao abrir a porta, a baixa temperatura o surpreendeu. Estendeu a mão, deixando o ar frio passar sobre sua pele. Incrível!
Pegou vários recipientes, mas não conseguiu ler os rótulos. – Não coma nada que não consiga identificar – lembrou a si mesmo, recordando algumas das coisas repulsivas que vira as pessoas comerem ao longo dos séculos.
Inclinando-se, procurou mais um pouco até encontrar um melão maduro em uma gaveta na parte de baixo. Após levá-lo até a ilha no centro da cozinha, pegou uma faca grande de um bloco no qual havia outras, e cortou-o ao meio. Retirando uma fatia, levou-a até a boca. Gemeu baixinho quando a deliciosa umidade atingiu suas papilas gustatórias. A polpa doce fez seu estômago roncar com uma necessidade intensa. A garganta ansiava por mais daquele umedecimento suavizante. Era tão bom ter comida outra vez. Ter algo com o que saciar a fome e a sede.
Antes que conseguisse deter-se, deixou a faca de lado e agarrou o melão, arrancando pedaços e enfiando-os na boca o mais rápido possível. Deus, ele estava faminto! E sedento. Porém, só tomou consciência de suas ações ao notar que agarrava a casca.
Parou e olhou para a mão coberta com o caldo da fruta, para os dedos presos na casca, como as garras de um animal. Vire para cá, Sasuke, e olhe para mim. Agora, seja um bom menino e faça o que eu lhe disser. Toque-me aqui. Hum... sim, é isso. Bom menino, bom menino. Se me agradar bastante, eu trarei comida para você daqui a pouco. Ele se encolheu com a lembrança involuntária de sua última encarnação.
Não era de admirar que agisse como um animal; fora tratado como um por tanto tempo que mal se lembrava de ser humano. Pelo menos, Sakura não o acorrentara à cama. Ainda.
Desgostoso, olhou ao redor, grato por ela não ter presenciado aquela falha de autocontrole. Ofegando, pegou a metade do melão e jogou-a no receptáculo de lixo que vira Sakura usar na noite anterior. Então, foi até a pia para lavar a doçura viscosa de suas mãos. Assim que a água fria tocou-lhe a pele, ele suspirou de prazer. Água. Pura e fria. Era do que mais sentia falta durante o confinamento. Era pelo que ansiava hora após hora, enquanto sua garganta ressecada ardia. Permitiu que o líquido deslizasse por sua pele antes de represá-lo nas mãos em forma de concha, inclinar-se e bebê-lo de suas palmas, sugá-lo dos dedos. A água provocava um enorme alívio, conforme invadia sua boca e descia por sua garganta ardente, satisfazendo sua sede. Não queria nada além de poder subir na pia e senti-la percorrer seu corpo inteiro. De...
Ouviu uma batida na porta, seguida de passos apressados nas escadas. Fechando a torneira, Sasuke pegou o tecido seco perto da pia e enxugou as mãos e o rosto. Ao retornar para a outra metade do melão, reconheceu a voz de Ino.
– Onde ele está?
Sasuke meneou a cabeça ao notar o entusiasmo dela. Aquilo era o que tinha esperado de Sakura.
As duas mulheres entraram na cozinha. Ao desviar o olhar do melão, ele se deparou com olhos azuis tão grandes quanto escudos espartanos. – Meu Deus! – Ino falou de modo ofegante. Sakura cruzou os braços sobre o peito, com os olhos brilhando, em uma mescla de irritação e divertimento.
– Sasuke, esta é Ino.
– Meu Deus! – ela repetiu.
– Ino? – Sakura abanou a mão diante do rosto da amiga, mas ela nem piscou.
– Meu De...
– Você pode parar com isso? – Sakura a repreendeu.
Ino derrubou as roupas que estava segurando e moveu-se pela cozinha, até conseguir avistar o corpo de Sasuke por inteiro. Olhou fixamente para o topo de sua cabeça e percorreu o corpo até os pés descalços. Ele mal suprimiu a fúria diante dessa atitude.
– Você gostaria de examinar meus dentes agora, ou prefere que eu tire as calças para sua inspeção? – ele indagou com mais maldade do que pretendera. Afinal, tecnicamente, ela estava do seu lado. Se ela apenas fechasse a boca e parasse de fitá-lo daquela forma. Nunca fora capaz de aguentar uma atenção tão anormal.
De modo hesitante, Ino estendeu a mão para tocá-lo no braço.
– Bu! – ele exclamou depressa, fazendo-a pular. Sakura riu. Ino franziu o cenho e encarou os dois. – Muito bem, vocês dois! Já acabaram de zombar de mim?
– Você mereceu – Sakura pegou um pedaço do melão que ele acabara de fatiar e pôs na boca. – Sem mencionar que você vai ficar com ele hoje.
– O quê? – perguntaram Sasuke e Ino, em uníssono.
Ela engoliu o pedaço da fruta. – Bem, eu não posso levá-lo para o trabalho comigo, posso?
Ino deu um sorriso malicioso. – Aposto que Karin e suas pacientes adorariam.
– Assim como o homem que eu tenho marcado para as oito. No entanto, não seria produtivo.
– Você não pode cancelar? – perguntou Ino.
Sasuke concordava. Ele não tinha a mínima vontade de estar em um lugar público. A única parte da maldição que ele achava remotamente tolerável era o fato de que quase todas as mulheres que o evocavam o mantinham escondido em aposentos privados e jardins.
– Você sabe que não – respondeu Sakura.
– Eu não tenho um marido advogado que me sustenta. Além disso, não acho que Sasuke queira ficar sozinho em casa o dia todo. Tenho certeza de que ele gostaria de sair e conhecer a cidade.
– Eu prefiro ficar aqui com você – ele falou. O que realmente desejava era vê-la estremecendo sob ele outra vez, sentir o corpo macio deslizando por sua ereção, enquanto ele a fazia gritar em êxtase.
Os olhos de Sakura encontraram os dele, que viu o desejo chamejar nas profundezas dos ónix. Naquele instante, notou o que ela fazia. Iria para o trabalho a fim de evitar estar com ele.
Bem, mais cedo ou mais tarde, ela retornaria. E então seria sua. Assim que ela se rendesse, ele lhe mostraria que tipo de resistência e paixão um soldado macedônio treinado em Esparta tinha a oferecer.
OOO
Obrigado pelas reviews!
Continuem comentando.
