Continuando a saga do guerreiro Sasuke:

OOO

Capítulo 5

A manhã parecia arrastar-se conforme Sakura atendia os pacientes habituais. Não importava o quanto se esforçasse para se concentrar neles e em seus problemas, ela não conseguia. Repetidamente, ela via a pele e os intensos olhos ónix. E aquele sorriso... Gostaria que Sasuke nunca tivesse sorrido para ela. Aquele sorriso podia definitivamente ser sua perdição.

– ... e aí eu disse: "Shino, veja, se você quiser pegar minhas roupas emprestadas, tudo bem, mas deixe de fora meus vestidos caros e feitos sob medida porque, se você ficar melhor neles do que eu, vou querer doá-los para o Exército da Salvação". Então, eu estava certa, doutora?

Sakura desviou o olhar de seu bloco de anotações, onde rabiscava desenhos de homens-palito carregando lanças.

– O que, Hinata? – indagou a paciente sentada na poltrona à sua frente.

Hinata era uma fotógrafa que se vestia com elegância. – Eu estava certa em dizer a Shino para deixar de usar as minhas roupas? Quero dizer, droga, é bem ruim quando seu namorado fica melhor do que você nas suas roupas, certo?

Sakura assentiu. – Com certeza. As roupas são suas e você não deveria precisar trancá-las.

– Eu sabia! Foi o que eu disse a ele. Mas ele me escuta? Não. Ele pode se chamar de Shina o quanto quiser, e dizer que é uma mulher no corpo de um homem, mas, na verdade, ele ainda me ouve do mesmo jeito que meu ex-marido. Eu juro...

Sakura inadvertidamente checou de novo o relógio. Sua hora com Hinata estava quase acabando.

– Sabe, Hinata – disse, interrompendo a paciente antes que ela iniciasse o discurso habitual a respeito de homens e seus hábitos irritantes –, talvez devêssemos discutir esse assunto na nossa sessão de segunda-feira com Shino, não é?

Hinata anuiu. – Certo. E me lembre na segunda de que eu preciso falar sobre Akamaru.

– Akamaru? – O chihuahua que vive na casa ao lado da minha. Eu juro que o cachorro está me lançando aquele olhar. Sakura franziu o cenho.

Com certeza, Hinata não podia estar insinuando o que ela pensou ter entendido. – Aquele olhar?

– Você sabe. Aquele olhar. Ele pode parecer um cachorro, mas aquele animal tem sexo na cabeça. Toda vez que eu passo, ele olha por baixo da minha saia. E você não vai querer saber o que ele fez com meus tênis de corrida. O cão é um pervertido.

– Está bem – Sakura interrompeu-a outra vez. Estava começando a suspeitar que não havia nada que pudesse fazer por Hinata e sua obsessão de que todos os machos no mundo estavam desesperados para possuí-la. – Com certeza, nós falaremos sobre a paixão do chihuahua por você.

– Obrigada, doutora. Você é o máximo – Hinata pegou a bolsa que estava no chão e saiu do consultório.

Sakura esfregou a testa enquanto as palavras da paciente ecoavam em sua cabeça. Um chihuahua? Céus! Pobre Hinata. Seguramente haveria uma forma de ajudá-la. Contudo, seria infinitamente melhor ter um chihuahua olhando sob a saia com lascívia do que um escravo sexual grego.

– Oh, Porca – Sakura sussurrou –, como eu deixo você me enfiar nessas coisas? Antes que pudesse ponderar mais sobre o assunto, o interfone tocou.

– Sim, Tenten? – Seu paciente das onze horas cancelou a consulta e, enquanto estava com a Sra. Thibideaux, sua amiga Ino ligou milhões de vezes, e eu não estou exagerando ou brincando. Ela deixou uma porção de mensagens urgentes, pedindo que ligue para o celular dela o mais rápido possível.

– Obrigada, Tenten.

Pegando o telefone, Sakura ligou para a amiga. – Graças a Deus! – Ino falou antes que ela pudesse dizer algo. – Você precisa trazer o seu traseiro até aqui e levar o seu namorado para casa. Agora!

– Ele não é meu namorado, ele é seu...

– Ah, você quer saber o que ele é? – perguntou Ino, com um tom de histeria na voz. – Ele é um maldito ímã de estrógeno, é isso o que ele é. As mulheres estão aglomeradas ao redor da minha banca neste instante. Sunshine está adorando. Ela vendeu mais cerâmica esta manhã do que já tinha vendido antes. Tentei levá-lo para casa, mas não consigo reduzir esta multidão. Juro, você acharia que temos uma celebridade aqui. Nunca vi nada igual. Agora, traga o seu traseiro até aqui e me ajude! O telefone ficou mudo. Sakura amaldiçoou sua sorte. Interfonou para Tenten e pediu-lhe para cancelar todas as demais consultas do dia.

Assim que chegou à praça, Sakura percebeu o que Ino quisera dizer. Devia haver ao menos vinte mulheres ao redor de Sasuke, e outras tantas o olhavam, embasbacadas, ao passarem por lá. As que estavam mais próximas se acotovelavam e se empurravam, tentando chamar-lhe a atenção. No entanto, o mais inacreditável era a cena de três mulheres que tinham os braços sobre ele enquanto outra tirava uma foto.

– Oh, obrigada – uma mulher na faixa dos 35 anos murmurou para Sasuke, ao agarrar a câmera das mãos de quem tirara a foto. Ela acomodou a máquina fotográfica perto dos seios, de forma a desviar a atenção de Sasuke para lá, mas ele não parecia nem um pouco interessado.

– Isso é tão maravilhoso – ela continuou falando, efusivamente. – Eu mal posso esperar para chegar em casa e mostrar isto para o meu grupo literário. Elas nunca vão acreditar que eu encontrei um modelo de capa de romances no bairro francês. Algo a respeito da postura rígida de Sasuke levou Sakura a suspeitar que ele não gostava daquela atenção toda. Mas precisava reconhecer que ele tinha o mérito de não estar sendo abertamente rude. Ainda assim, o sorriso não lhe alcançava os olhos e era muito diferente daquele que ele lhe dera na noite anterior.

– É um prazer – disse ele para a mulher.

As risadinhas que irromperam eram ensurdecedoras. Sakura meneou a cabeça, descrente. Mulheres, alguma dignidade, por favor! No entanto, considerando o rosto, o corpo e o sorriso de Sasuke, ela também se sentia um pouco tonta cada vez que ele a fitava. Portanto, quem poderia realmente culpá-las por agirem como pré-adolescentes em um show de rock? De repente, Sasuke olhou através do mar de admiradoras com hormônios furiosos e encontrou seu olhar.

Sakura arqueou uma sobrancelha para ele, divertida. Imediatamente, o sorriso dele desvaneceu.

Os olhos a focalizaram, como os de um predador faminto que acabara de encontrar a próxima refeição.

– Se me dão licença – disse ele, abrindo caminho por entre as mulheres e se dirigindo até ela.

Sakura engoliu em seco, notando a hostilidade instantânea das mulheres, que fecharam a cara em massa para ela. Porém, o pior foi a súbita e intensa explosão de desejo que sentiu, fazendo seu coração disparar. E, a cada passo que ele dava, a sensação se multiplicava por dez.

– Saudações, agapeemenee – disse Sasuke, erguendo-lhe a mão para beijar os nós de seus dedos.

Sua espinha foi percorrida por uma onda de calor. E, antes que pudesse se mover, ele a abraçou e deu-lhe um beijo ardente e emocionante. Instintivamente, ela fechou os olhos e saboreou o calor daquela boca, deliciando-se com os braços fortes que a seguravam perto do peito. Sua cabeça girava. Oh, mas o homem sabia beijar! Sasuke tinha um jeito inexplicável com os lábios. E o corpo... Nunca sentira nada semelhante àqueles músculos firmes flexionando-se ao seu redor.

Foi apenas o quase inaudível "devassa", sussurrado com zombaria por uma das mulheres, que rompeu o encanto. – Sasuke, por favor – ela murmurou. – As pessoas estão olhando.

– Você acha que eu me importo?

– Eu me importo! Ele afastou a cabeça com um resmungo baixinho e a ajudou a recuperar o equilíbrio. Somente nesse instante, ela percebeu que largara todo o seu peso sobre ele, e que Sasuke a amparava sem esforço. Com as bochechas ardendo, Sakura notou os olhares invejosos das mulheres enquanto se dispersavam com relutância. Revelando no rosto a intensidade de seu desagrado e relutância, Sasuke soltou-a e deu um passo para trás.

– Finalmente! – Ino suspirou. – Meus ouvidos estão quase se recuperando. – Ela meneou a cabeça. – Se eu soubesse que isso funcionaria, eu o teria beijado.

Sakura deu um sorriso torto. – Bem, isso é culpa sua.

– Ah, é? Posso saber por quê? – Ino indagou.

Sakura apontou para as roupas de Sasuke. – Veja como ele está vestido. Você não traz a público um deus grego usando shorts e uma camiseta regata dois números menores. Céus, Ino, no que você estava pensando?

– Está fazendo 39 graus aqui fora, e a umidade do ar está enorme. Eu não queria que ele morresse de hipertermia.

– Moças, por favor. – Sasuke colocou-se entre elas. – Está quente demais para ficarem aqui na rua brigando por algo tão insignificante quanto as minhas roupas. – Ele deslizou um olhar faminto por Sakura, e então deu um sorriso que derreteria qualquer mulher. – E eu não sou um deus grego. Sou apenas um semideus.

Sakura não registrou o que ele dizia, pois o som da voz de Sasuke a fascinava. Como ele fazia isso? Como carregava a voz de erotismo daquela forma? Seria o sotaque acentuado e melodioso? Não, era mais do que isso. Porém, mesmo se esforçando, não conseguia descobrir. Na verdade, tudo o que queria era encontrar uma cama em algum lugar e deixar que ele fizesse o que desejasse com ela.

Olhando para Ino, reparou no modo como a amiga olhava para as pernas e o traseiro de Sasuke. – Você também sente isso, não é? – Sakura indagou.

Piscando, Ino levantou o olhar. – Sinto o quê?

– Ele. É como se ele fosse o Flautista Mágico, e nós fôssemos ratos encantados pela música. – Sakura olhou ao redor, notando a forma como as mulheres o encaravam. Algumas até mesmo estendiam o pescoço para conseguir uma visão melhor. – O que há a respeito dele que nos atrai contra a nossa vontade?

Sasuke arqueou a sobrancelha de um jeito arrogante. – Contra a sua vontade?

– Bem, honestamente, sim. Eu não gosto de me sentir assim.

– E como você se sente? – ele indagou. – Sexual – Sakura respondeu, antes de conseguir se controlar. – Como uma deusa? – ele quis saber, a voz abaixando uma oitava.

– Sim – disse ela, enquanto ele se aproximava um passo.

Sasuke não a tocou, mas isso não era necessário. A simples presença masculina a dominava. Ele a inebriou ao baixar o olhar magnético para seus lábios e depois para o pescoço. Sakura praticamente sentia o toque da boca sensual em sua pele. E o homem nem sequer se movera.

– Eu posso dizer o que é – ele murmurou.

– É o feitiço, não? Ele meneou a cabeça, estendendo a mão para traçar suavemente o contorno de sua face com o indicador.

Sakura fechou os olhos ao se sentir percorrida por uma onda de desejo selvagem, e se esforçou para não virar a cabeça e tomar-lhe o dedo entre os lábios. Sasuke aproximou-se e roçou sua face na dela.

– É o fato de eu conseguir apreciá-la em um nível que os homens da sua época não conseguem.

– É o fato de ter os glúteos mais firmes que eu já vi – disse Sunshine, interrompendo-os. – Sem mencionar a voz e o sotaque maravilhosos. Eu realmente gostaria que alguém me dissesse onde consigo um desse. Sakura gargalhou ao ouvir os comentários inesperados.

Parecendo aborrecido, Sasuke virou-se para encarar Sunshine. – Olhe para ele. – Sunshine gesticulou na direção de Sasuke, com o lápis na mão coberta de carvão. Ela também tinha sujeira de carvão na bochecha direita. – Quando foi a última vez em que você encontrou um homem com um corpo tão bem definido que é possível ver o sangue pulsando nas veias? Seu namorado é... bem... espetacular. Mesmo. – Com uma expressão séria, ela acrescentou: – Céus! Ele é incrível! – Sunshine virou o caderno de esboços, mostrando a Sakura o desenho que fizera de Sasuke. – Vê o modo como a luz destaca a cor da pele? É quase como se ele fosse beijado pelo sol.

Sakura franziu o cenho. Era verdade. Sasuke inclinou-se para ela, e os olhos ónix a aqueceram. – Venha para casa comigo, Sakura – ele sussurrou em seu ouvido. – Agora. Deixe-me tomá-la nos braços, tirar suas roupas e mostrar-lhe como os deuses queriam que uma mulher conhecesse um homem. Juro que vai se lembrar disso para o resto da eternidade.

Ela fechou os olhos ao sentir o aroma de sândalo. O hálito dele tocou seu pescoço, e a bela face estava tão perto da sua que ela jurou poder sentir as costeletas dele roçando-a. Cada parte sua queria render-se a ele. Sim, por favor, sim. Seu olhar recaiu sobre o ombro forte e deslizou pelos músculos firmes e esculpidos até a base do pescoço. Oh, como ela desejava correr a língua sobre aquela pele dourada. Descobrir se o restante do corpo tinha um sabor tão bom quanto a boca. Ele seria magnífico na cama. Não havia dúvida. Mas ela não significava nada para ele. Nada.

– Não posso – ela murmurou, afastando-se.

O olhar dele revelou desapontamento antes de tornar-se duro e determinado. – Você poderá – assegurou-lhe.

Em seu íntimo, Sakura sabia que ele, provavelmente, falava a verdade. Por quanto tempo uma mulher podia rejeitar um homem como ele? Livrando-se desse pensamento, ela olhou para o Jackson Brewery, o shopping center que ficava no edifício da antiga cervejaria, do outro lado da rua.

– Precisamos comprar algumas roupas que sirvam em você.

– Tenho culpa se ele é mais alto que Shikamaru e tem o dobro da largura? – Ino perguntou. – Foi uma brilhante ideia sua que eu o trouxesse comigo.

Sakura fez uma careta para a amiga. – Certo. Estaremos no Jackson Brewery, se precisar de nós.

– Tudo bem, mas tome cuidado.

– Cuidado? – Sakura estranhou.

Ino indicou Sasuke com o polegar. – Se as mulheres começarem a avançar, escute o meu conselho e saia do caminho. Eu ainda não estou sentindo o meu pé direito depois do último grupo.

Rindo, Sakura dirigiu-se à rua, sabendo que Sasuke a seguiria. Na verdade, ela o sentia logo atrás. Com uma presença marcante, ele tinha um modo terrível de invadir todos os seus pensamentos e sentidos. Nenhum dos dois disse uma palavra enquanto atravessavam a rua movimentada e entravam na primeira loja que encontraram. Sakura olhou ao redor na loja de departamentos, procurando a seção de roupas masculinas. Identificando-a, foi até lá.

– Que estilo de roupas você prefere? – ela indagou, parando diante do mostrador sobre o qual estavam expostos os jeans dobrados.

– Para o que eu tenho em mente, a nudez funciona melhor. Sakura revirou os olhos.

– Você está tentando me chocar, não é?

– Talvez. Tenho de admitir que eu gosto do rubor em seu rosto – disse ele, adiantando-se um passo em sua direção.

Sakura recuou, colocando o mostrador entre eles.

– Acho que você vai precisar de pelos menos três calças jeans enquanto estiver aqui. Sasuke suspirou, olhando para a roupa.

– Por que vai se dar ao trabalho de fazer isso, se eu irei embora em algumas semanas?

Ela o encarou. – Céus, Sasuke! – ela exclamou, irritada. – Você age como se ninguém o tivesse vestido nas encarnações passadas.

– Elas não me vestiram.

Assombrada com o tom vazio e o significado daquelas palavras, ela o fitou com ceticismo.

– Está me dizendo que nos últimos dois mil anos ninguém se incomodou em pôr roupas em você?

– Apenas duas vezes – disse ele, no mesmo tom monótono. – Uma vez, durante uma nevasca, no período de regência na Inglaterra, uma das mulheres que me evocou me cobriu com um vestido cor-de-rosa de babados e me empurrou para a sacada, a fim de evitar que o marido me encontrasse na cama. E a segunda vez é embaraçosa demais para ser mencionada.

– Você não é engraçado. E eu sei que nenhuma mulher ficaria com um homem durante um mês inteiro sem vesti-lo.

– Olhe para mim, Sakura. – Ele abriu os braços para mostrar-lhe o corpo firme e deleitável. – Sou um escravo sexual. Ninguém, antes de você, pensou que eu precisava de roupas para cumprir minha obrigação.

O olhar exaltado de Sasuke prendeu o dela, mas o que a magoou foi a dor naqueles intensos olhos nervos, que ele tanto se esforçava em ocultar. Uma dor que a tocava profundamente. – Eu lhe asseguro – ele falou tranquilamente – que, assim que elas me tinham dentro de seus corpos, faziam todo o possível para me manter ali, incluindo uma mulher na Idade Média que trancou a porta do quarto e disse a todos que ela estava com a peste negra.

Sakura desviou o olhar conforme as palavras a atingiam. As coisas que ele descrevia eram inacreditáveis e, ainda assim, pela expressão no rosto dele, sabia que ele não estava exagerando. Não podia imaginar as degradações que ele sofrera ao longo dos séculos. Deus! As pessoas tratavam animais de uma forma melhor.

– Elas o evocavam, mas nenhuma sequer conversou com você ou o vestiu?

– A fantasia de todo homem, não é? Ter um milhão de mulheres se atirando em cima dele, sem desejar compromissos ou promessas. Sem desejar nada dele, além de seu corpo e algumas semanas de prazer.

As palavras levianas não mascaravam o tom ácido. Aquela podia ser a fantasia de outros homens, mas Sakura sabia que não era a dele.

– Bem – disse ela, voltando aos jeans –, eu não sou assim, e você vai precisar de algo para vestir quando nós estivermos em público.

A raiva tomou os olhos de Sasuke de modo tão ameaçador que ela deu um passo involuntário para trás.

– Eu não fui amaldiçoado para ser visto em público, Sakura. Estou aqui para você, e somente para você.

Como aquilo parecia bom... Ainda assim, ela não cederia. Não poderia usar um ser humano da maneira que Sasuke descrevera. Era errado, e ela nunca seria capaz de viver consigo mesma se fizesse algo assim com ele.

– De qualquer forma, eu quero levá-lo para sair – ela afirmou com determinação. – Portanto, você vai precisar de roupas. – E começou a procurar o jeans do tamanho certo.

Ele ficou em silêncio. Sakura fitou-o e notou a expressão sombria e brava. – O que foi?

– O que foi? – ele devolveu.

– Não importa. Vamos ver qual destes cai melhor.

Pegando diversos tamanhos, entregou-os a ele. Pela reação de Sasuke ao pegar os jeans, alguém poderia muito bem achar que ela estivesse lhe entregando uma porção de sujeira de cachorro. Ignorando a expressão intimidadora, ela praticamente o empurrou para o provador e fechou a porta atrás dele. Sasuke entrou no pequeno cubículo e paralisou-se, assaltado simultaneamente por três frentes hostis.

A primeira era o reduzido tamanho do local e o terror frio e brutal que o assolou por causa disso. Por um minuto inteiro, não conseguiu respirar, enquanto combatia o impulso de sair correndo do cubículo fechado. Mal conseguia se mover sem colidir com as paredes, com a porta ou com o espelho. Porém, ainda pior do que a claustrofobia era o rosto no espelho. Ele não vira o próprio reflexo por séculos. E a face que o encarava de volta era tão semelhante à de seu pai, que ele desejou despedaçá-la. Viu os mesmos traços bem delineados, os mesmos olhos desdenhosos...

A única coisa que faltava era a cicatriz profunda e irregular que marcava o lado esquerdo do rosto de seu pai. E, pela primeira vez em incontáveis séculos, Sasuke teve a desagradável visão das três finas tranças de comandante que caíam sobre seus ombros. Com a mão trêmula, ele as tocou enquanto fazia algo que não fizera durante um tempo excepcionalmente longo: ele se lembrou do dia em que as ganhara. Fora após a batalha de Tebas, quando seu comandante caíra e as tropas macedônias tinham começado a entrar em pânico e a se retirar. Ele agarrara a espada do comandante, reagrupara as tropas e as liderara à vitória contra os romanos. No dia seguinte à batalha, a rainha macedônia trançara seus cabelos e colocara as próprias contas nas pontas.

Sasuke segurou as minúsculas contas de vidro. Aquelas tranças tinham pertencido a um comandante macedônio forte e orgulhoso, que liderara um exército vitorioso com tanto vigor que obrigara os romanos a fugirem aterrorizados. A visão o assombrou. Olhou para o anel na mão direita. Ele o usara por tanto tempo que se tornara imune à sua presença. E havia muito que não recordava seu significado.

Mas as tranças... Não havia pensado nelas por um tempo realmente longo. Tocando-as, lembrou-se do homem que fora. Lembrou-se dos rostos de seus familiares. Das pessoas que tinham se apressado para servir às suas necessidades. Daqueles que o haviam respeitado e temido. Lembrou-se de uma época em que comandara o próprio destino e que o mundo que conhecia estivera em suas mãos.

E agora ele era... Com a garganta apertada, fechou os olhos e removeu as contas das pontas de seus cabelos, antes de começar a desfazer as tranças. Quando seus dedos soltaram a primeira delas, ele olhou para baixo, para as calças que derrubara no chão.

Por que Sakura estava fazendo aquilo? Por que ela precisava tratá-lo com um ser humano? Ele se acostumara de tal forma a ser tratado como um objeto que a bondade que Sakura lhe demonstrava era intolerável. A distância fria e impessoal das outras mulheres o tinham habilitado a tolerar sua sentença, a não se lembrar de quem fora, do que fora. Do que havia perdido. Aquilo o capacitava a concentrar-se apenas no momento presente e nos prazeres fugazes a serem desfrutados. Mas os seres humanos não viviam daquele jeito. Eles tinham famílias, amigos, futuros, sonhos. Esperanças. Coisas das quais fora privado séculos atrás. Coisas que nunca teria de novo.

– Maldito seja, Príapo – sussurrou, desfazendo com violência a última trança. – E maldito seja eu.

Sakura arregalou os olhos quando Sasuke finalmente saiu do provador, usando calças jeans que pareciam ter sido feitas exclusivamente para ele. A camiseta regata justa, que Ino lhe emprestara, parava logo abaixo da cintura firme e estreita e o jeans era baixo nos quadris delgados, permitindo um minúsculo vislumbre do abdômen definido e dos pelos castanho-escuros que partiam do umbigo e desapareciam sob a calça. Ela sentiu um forte desejo de aproximar-se dele e deslizar a mão pela convidativa trilha, investigando até onde ia.

Então se lembrou vividamente da imagem do corpo nu à sua frente. Inspirando fundo, teve de admitir que ele ficava bem de jeans. Melhor do que usando shorts, se isso fosse possível. Sunshine estava certa, ele tinha o melhor traseiro que um jeans já envolvera, e tudo o que podia pensar era em correr a mão por ali e apertá-lo com força.

A vendedora e a mulher ao lado dela pararam de falar e o encararam, boquiabertas.

– Estes estão satisfatórios? – ele indagou a Sakura.

– Oh, sim, meu bem – ela respondeu, ofegante, antes que pudesse se controlar.

Sasuke deu-lhe um sorriso divertido, mas o sentimento não se refletiu nos olhos. Sakura moveu-se ao redor dele até conseguir ver o número da calça. Oh, sim, era um belo traseiro! Distraída pelas nádegas bem feitas, ela inadvertidamente deixou os dedos roçarem a pele das costas ao tocar a etiqueta.

Sentiu Sasuke ficar tenso. – Sabe – disse ele, olhando-a por sobre o ombro –, isso seria muito melhor se estivéssemos sem roupa. E na sua cama.

Ela escutou o arfar da vendedora e da cliente. Com as faces quentes, endireitou-se e o encarou. – Nós realmente precisamos conversar sobre o tipo de comentário apropriado a quando estamos em público.

– Se me levasse para casa, não precisaria se preocupar com isso.

O homem era implacável. Meneando a cabeça, Sakura pegou mais duas calças jeans, algumas camisetas, um cinto, óculos de sol, meias, sapatos e várias cuecas boxer grandes e feias. Nenhum homem ficaria bem naquelas cuecas, ela decidiu. E a última coisa que queria era que Sasuke fosse ainda mais atraente.

Ela o fez vestir uma das camisetas novas, jeans e tênis ainda na loja. – Agora você parece quase humano – provocou-o, quando ele saiu do provador.

Ele lhe lançou um olhar frio e apático. – Apenas por fora – falou em uma voz tão baixa que ela não teve certeza de ter escutado.

– O quê? – ela indagou.

– Sou humano apenas por fora – ele repetiu, mais alto. Sakura notou-lhe a angústia no olhar, e seu coração se apertou.

– Sasuke – disse em tom de censura –, você é humano.

Ele comprimiu os lábios, com um olhar sombrio e cauteloso. – Sou? É humano viver por mais de dois mil anos? Ter permissão para andar pela Terra algumas semanas por vez? Sasuke olhou ao redor, para as mulheres que tentavam espiá-lo por entre as prateleiras. Mulheres que se imobilizavam ao vê-lo. Agitou a mão, indicando o espetáculo ao redor deles. – Você as vê fazendo isso com mais alguém? A face dele se tornou dura e perigosa, e o olhar intenso mergulhou no dela. – Não, Sakura, eu nunca fui humano.

Precisando confortá-lo, ela o tocou com gentileza no rosto. – Você é humano, Sasuke.

A dúvida no olhar dele oprimiu seu peito. Incerta quanto ao que fazer ou dizer para que ele se sentisse melhor, Sakura deixou o assunto de lado e dirigiu-se à porta. Tinha quase chegado à saída, quando percebeu que Sasuke não a acompanhava.

Virando-se, ela o avistou com facilidade. Ele se desviara para a seção de lingerie e estava perto de uma prateleira repleta de minúsculos negligês negros. Seu rosto ardeu. Jurava que podia escutar os pensamentos luxuriosos que cruzavam a mente dele. E o pior era que precisava alcançá-lo antes que uma das mulheres se oferecesse como modelo para ele. Rapidamente foi até lá e pigarreou.

– Está pronto? Ele a percorreu por inteiro com um olhar lento que dizia que tinha na mente uma imagem vívida de Sakura usando aquela coisa diáfana.

– Você ficaria excitante nisso.

Ela o fitou com ceticismo. A coisa era tão fina que chegava a ser transparente. Ao contrário de Sasuke, ela não tinha um corpo que chamava a atenção, a menos que o homem estivesse desesperado. Ou que tivesse permanecido na cadeia por um par de décadas.

– Eu não sei se ficaria excitante, mas com certeza eu sentiria frio.

– Não por muito tempo.

Ela ofegou ante as palavras, não duvidando delas nem por um instante. – Você é horrível.

– Na cama, não. – Inclinou a cabeça em sua direção. – Na verdade, eu sou bastante...

– Aí estão vocês! Sakura sobressaltou-se ao ouvir a voz de Ino.

Sasuke disse a Ino algo em uma língua estranha, que Sakura não entendeu. – Ora, ora... – Ino falou com um tom de censura na voz. – Testuda não entende grego antigo. Ela dormiu na aula o semestre inteiro. – Então, olhou para ela e estalou a língua. – Viu? Eu lhe disse que um dia seria útil.

– Ah, sim – Sakura respondeu, rindo. – Como se eu soubesse, naquela época, que um dia você evocaria um grego como escrav... – ela se interrompeu ao perceber o que quase dissera diante de Sasuke.

Embaraçada, mordeu o lábio. – Está tudo bem, Sakura – Sasuke afirmou tranquilamente.

Ainda assim, ela sabia que o aborrecera. Não havia como não tê-lo afetado com aquilo. – Eu sei o que sou. Você não pode me ofender com a verdade. Na realidade, eu fico mais ofendido com o termo grego do que com escravo sexual. Fui treinado em Esparta e lutei pelos macedônios. Tornei um hábito evitar a Grécia o máximo possível, antes de ser amaldiçoado.

Sakura ergueu a cabeça ao dar-se conta do que ele dissera ou, mais especificamente, do que ele não dissera. Não falara nada a respeito da infância. – Onde você nasceu? – ela indagou.

A mandíbula de Sasuke começou a pulsar, e os olhos se escureceram de forma nefasta. Onde quer que tivesse nascido, era óbvio que ele não gostava do lugar. – Muito bem, eu sou metade grego, mas não reivindico essa metade da minha herança.

Certo, aquele era obviamente um ponto nevrálgico. Dali em diante, ela eliminaria grego de seu vocabulário. – De volta à lingerie negra – disse Ino. – Acho que aquela vermelha ali cairia bem melhor nela.

– Ino! – Sakura a repreendeu. Ignorando-a, Ino conduziu Sasuke ao local onde estavam as peças vermelhas. Ela pegou um baby-doll transparente e aberto na frente, atado apenas por duas fitas nos ombros e uma no meio. Uma calcinha, também vermelha e transparente, com uma abertura frontal, e uma cinta-liga completavam o conjunto.

– O que você acha? – Ino indagou ao mostrar o traje diante de Sasuke.

Ele lançou a Sakura um olhar especulativo. Se eles continuassem com aquilo, ela morreria de vergonha.

– Vocês dois podem parar? – ela pediu. – Eu não vou usar isso.

– Vou comprar para você de qualquer forma – Ino afirmou. – Tenho quase certeza de que Sasuke pode convencê-la a vestir isso.

Sasuke lançou-lhe um olhar brincalhão. – Eu prefiro convencê-la a despir isso.

Sakura cobriu o rosto com as mãos e gemeu.

– Ela vai mudar de ideia – Ino falou, em tom conspiratório.

– Não vou – disse Sakura por trás das mãos.

– Vai, sim – afirmou Sasuke, enquanto Ino ia pagar a compra.

Havia tanta arrogância e confiança naquelas palavras... Ela sabia que o homem não estava acostumado a ser desafiado.

– Você já fracassou alguma vez? – ela indagou.

A provocação nos olhos dele desvaneceu, e ela viu a máscara cobrir-lhe o rosto. Sabia que ele estava escondendo alguma coisa por trás daquele olhar. Algo muito doloroso, a julgar pela súbita tensão em seu corpo. Ele não disse mais nada até que Ino retornasse e lhe entregasse a sacola.

– Agora – disse ela –, estou pensando em luz de velas, boa música e...

– Ino – Sakura interrompeu-a –, eu aprecio o que está tentando fazer, mas em vez de focar em mim, por um minuto, podemos falar sobre Sasuke?

Ino fitou-o. – Claro. O que tem ele?

– Você sabe como tirá-lo do livro? Para sempre?

– Não tenho nem ideia. – Ino voltou-se para ele: – Você sabe?

– Eu já disse para ela que é impossível.

Ino assentiu. – Ela é teimosa. Nunca escuta uma palavra, a menos que seja a palavra que ela quer ouvir.

– Teimosa ou não – Sakura falou, virando-se para Sasuke –, não posso imaginar por que você iria querer ficar amaldiçoado em um livro.

Ele desviou o olhar. – Sakura, dê um tempo ao homem.

– É o que estou tentando fazer.

– Ótimo! – Ino cedeu, por fim. – Sasuke, que terrível e vil ato você cometeu para ser sugado para o livro?

– Hubris.

– Oh... – disse Ino, de forma sinistra. – Isso é bem ruim.

Sakura, ele pode ter razão. Eles costumavam fazer coisas como retalhar as pessoas por causa disso. Você devia ter prestado atenção às suas aulas de estudos clássicos. Os deuses gregos são realmente maus no que se refere às punições. Sakura apertou os olhos.

– Eu me recuso a acreditar que não haja uma forma de libertá-lo. Não podemos destruir o livro ou invocar um de seus espíritos ou algo para ajudar?

– Ah, então agora você acredita na minha magia vodu?

– Não de verdade, mas você conseguiu trazê-lo até aqui. Você consegue ajudá-lo?

Ino mordeu a unha enquanto refletia.

– Sasuke, que deus era mais favorável a você?

Ele inspirou profundamente, como se estivesse entediado com as perguntas. – Na verdade, nenhum deles gostava muito de mim. Como era um soldado, eu fazia sacrifícios especialmente a Atena, mas tinha um contato mais direto com Eros.

Ino sorriu com malícia. – O deus da luxúria e do amor. Entendo.

– Não é pelas razões que você imagina – disse ele.

Ela o ignorou. – Então, você já tentou apelar a Eros? – Não estamos nos falando. Sakura revirou os olhos ante o sarcasmo impertinente. – Por que você não tenta chamá-lo? – sugeriu Ino.

Sakura a encarou. – Você poderia tentar ser um pouco mais séria, Ino. Sei que zombei das suas crenças ao longo dos anos, mas estamos falando da vida de Sasuke.

– Eu estou sendo séria – disse Ino, com ênfase. – O melhor jeito seria Sasuke evocá-lo diretamente e perguntar se ele pode ajudar.

Que diabos!, Sakura pensou. Na noite anterior, ela nunca teria acreditado que alguém pudesse evocar Sasuke. Talvez Ino estivesse certa. – Você tentaria fazer isso? – Sakura perguntou a ele.

Sasuke deu um suspiro frustrado. Parecendo extremamente aborrecido, ele inclinou a cabeça para trás e disse com calma para o teto: – Cupido, seu bastardo imprestável, eu o evoco para que assuma a forma humana.

Sakura ergueu as mãos. – Nossa, eu nem posso imaginar por que ele não responde!

Ino riu. – Certo – disse Sakura –, eu não acredito nessa bobagem, de qualquer forma. Podemos pôr essas coisas no meu carro, almoçar e tentar pensar em algo um pouco mais produtivo do que "Cupido, seu bastardo imprestável". Vamos?

– Está bem – Ino concordou. Sakura entregou para Ino a sacola com as roupas que ela lhe emprestara.

– Aqui estão as coisas do Shikamaru. A amiga olhou para a sacola e franziu o cenho.

– Onde está a camiseta regata branca? – Vou devolver depois.

Ino riu de novo. Sasuke as seguiu, escutando as duas enquanto saíam da loja.

Por sorte, Sakura encontrara uma vaga rara na frente do shopping.

Sasuke as observou colocar as sacolas no carro. Se tivesse coragem de admitir, apreciaria o fato de Sakura estar tão interessada em ajudá-lo. Ninguém estivera antes. Ele caminhara a vida inteira em solidão, contando apenas com sua força e inteligência para salvá-lo. Mesmo antes da maldição, estivera fatigado. Cansado da solidão, cansado de não ter ninguém na Terra, ou alguém que lhe desse um pouco de importância. Era uma pena que não tivesse conhecido Sakura antes da maldição. Ela teria sido um bálsamo agradável para seu desassossego.

Por outro lado, as mulheres de sua época eram bem diferentes. Sakura o via como um igual, enquanto as mulheres de seu tempo o viam como uma lenda a ser temida ou apaziguada.

O que tornava Sakura única? O que havia nela que lhe permitia ajudá-lo, quando sua própria família virara as costas para ele? Não sabia ao certo. Ela era apenas especial. Um coração puro em um mundo povoado por egoístas. Nunca imaginara encontrar alguém como ela.

Desconfortável com o rumo de seus pensamentos, ele olhou para a multidão de pessoas que não pareciam se importar com o calor opressivo da estranha cidade.

Escutou um casal discutindo a alguns metros. A esposa estava brava por causa de algo que o homem esquecera. Um garotinho de três ou quatro anos andava entre eles, conforme se aproximavam da calçada. Sasuke sorriu para eles. Não se lembrava da última vez em que vira uma família junta, lidando com tarefas do cotidiano. A cena tocou uma parte dele que mal recordava ter... Seu coração. E imaginou se eles sabiam a dádiva que tinham um no outro.

Enquanto os pais continuavam discutindo, a criança parou com a atenção focada em algo do outro lado da rua. Sasuke prendeu o fôlego, quando seu instinto lhe disse o que o garotinho estava prestes a fazer. Sakura fechou o porta-malas do carro.

Com o canto do olho, viu um borrão azul dirigir-se para a rua. Levou um segundo inteiro para perceber que era Sasuke correndo. Franziu o cenho, confusa com a atitude, até avistar o garotinho que saía da calçada rumo ao tráfego.

– Oh, meu Deus – ela murmurou, ao ouvir os guinchos de freios.

– Konohamaru! – uma mulher gritou. Com um movimento digno de Hollywood, Sasuke pulou o pequeno muro do estacionamento e agarrou a criança, tirando-a da rua. Segurando o menino junto ao peito, ele saltou sobre o para- lama do carro que freava e, com um ágil movimento lateral, afastou-se do veículo.

Eles pousaram em segurança na outra pista, um instante antes de um segundo carro desviar do primeiro e avançar na direção deles. Horrorizada, Sakura observou Sasuke chocar-se contra um velho Chevrolet. Ele deslizou sobre o capô, bateu no para-brisa e foi arremessado na rua, onde rolou por alguns metros até, por fim, parar. Ficou deitado de lado, imóvel. O caos eclodiu conforme as pessoas gritavam e se aglomeravam ao redor do acidente.

Apavorada, Sakura tremia por inteiro ao abrir caminho em meio à multidão, tentando chegar até Sasuke.

– Por favor, esteja bem, por favor, esteja bem – ela sussurrava repetidamente, rezando para que ambos tivessem sobrevivido ao choque.

Quando conseguiu passar pelas pessoas que os circundavam, Sakura percebeu que ele não largara a criança. O menino ainda estava cuidadosamente envolvido pelos braços fortes. Incapaz de crer no que via, ela se deteve, com o coração martelando. Eles estavam vivos?

– Nunca vi nada assim na minha vida – disse um homem ao seu lado. O sentimento dele ecoava por todo o lugar. Devagar e com medo, Sakura aproximou-se de Sasuke conforme ele começava a se mexer.

– Você está bem? Ela o ouviu perguntar para a criança. O menino respondeu com um choro agudo.

Alheio ao som alto, Sasuke ergueu-se com cuidado, sem soltar o garoto. Aliviada por vê-los vivos, Sakura não conseguia acreditar em seus olhos. Como ele era capaz de se mover? Como conseguira manter a criança nos braços durante tudo aquilo?

Ele cambaleou, mas logo recuperou o equilíbrio, ainda sustentando o menino. Sakura pôs a mão nas costas dele para ampará-lo.

– Você não deveria se levantar – disse ela ao ver o sangue no braço esquerdo dele.

Sasuke não pareceu escutá-la. Os olhos dele estavam escuros e estranhos. – Sh, pequenino – ele murmurou, segurando o garoto em um dos braços enquanto envolvia-lhe a face com o outro. Movendo apenas a parte de cima do corpo, ele embalou a criança de uma forma tranquilizante e segura, como apenas um pai faria. Com o olhar assombrado, Sasuke apoiou a face no topo da cabeça do menino.

– Sh, eu peguei você – ele murmurou. – Está seguro agora.

Aquelas ações a surpreenderam. Era evidente que aquele era um homem que já confortara crianças antes. Mas quando um soldado grego poderia ter estado com crianças? A não ser que ele tivesse sido pai. A mente de Sakura girava ante essa possibilidade, enquanto Sasuke entregava com cuidado o garoto soluçante para a mãe histérica, que chorava mais alto do que o menino.

Deus, seria possível que Sasuke fosse pai? Nesse caso, onde estavam os filhos? O que acontecera com eles?

– Konohamaru – a mãe chorava ao apertar o menino contra o peito –, quantas vezes eu lhe disse para ficar ao meu lado? – Você está bem? – o pai e o motorista perguntaram a Sasuke.

Fazendo uma careta, Sasuke passou a mão pelo bíceps esquerdo, como se estivesse examinando o braço.

– Estou bem – ele respondeu, mas Sakura reparou no modo como ele evitava apoiar-se na perna direita, atingida pelo carro.

– Você precisa de um médico – disse enquanto Ino se unia a eles.

– Estou bem. De verdade. – Sasuke deu um sorriso indiferente, e então baixou a voz para que apenas Sakura escutasse: – Mas, preciso dizer, bigas machucam muito menos do que carros quando batem em você.

Sakura ficou consternada com o humor inoportuno. – Como você pode brincar agora? Achei que estivesse morto.

Ele deu de ombros. Enquanto o homem continuava agradecendo-o profusamente por ter salvado seu filho, Sakura olhou para o sangue no braço de Sasuke, acima do cotovelo. Sangue que evaporava da pele como algum estranho efeito de filme de ficção científica.

De repente, ele voltou a apoiar todo o peso na perna machucada, e a dor que enrugava sua testa desapareceu.

Ela trocou um olhar arregalado com Ino, que também acompanhara a cena. Que diabos era aquilo? Sasuke era humano ou não?

– Não posso agradecer o suficiente – disse o pai, de novo. – Achei que ele estivesse morto.

– Estou feliz por tê-lo visto – Sasuke sussurrou, estendendo a mão na direção da cabeça no garoto. Os dedos estavam prestes a roçar as madeixas, quando ele se deteve.

Sakura observou as emoções conflitantes no rosto de Sasuke, antes que ele recuperasse o estoicismo e abaixasse a mão. Sem uma palavra, ele se dirigiu ao meio-fio.

– Sasuke? – ela o chamou, correndo para alcançá-lo. – Você está bem mesmo?

– Não se preocupe comigo, Sakura. Nada em mim quebra e eu raramente sangro. – A amargura era evidente na voz. – É uma dádiva da maldição.

As Parcas proíbem que eu morra e escape do meu castigo. Ela se encolheu ao ver a angústia nos olhos azuis. Porém, o fato de ele ter sobrevivido não era a única pergunta que desejava fazer. Queria indagar-lhe a respeito da criança, do modo como ele olhara para o menino, como se revivesse algum horrível pesadelo. Contudo, as palavras ficaram presas em sua garganta.

– Gente, ele merece uma recompensa! – Ino exclamou ao alcançá-los. – Vamos subir até a loja de pralinê.

– Ino, eu não acho...

– O que é pralinê? – Sasuke indagou.

– É um manjar dos deuses – falou Ino. – Você, com certeza, vai apreciar.

Contra quaisquer argumentos de Sakura, Ino conduziu-os para dentro, até a escada rolante. Ela subiu no primeiro degrau e virou-se para trás, a fim de fitar Sasuke, que estava entre as duas.

– Como você fez aquilo quando saltou sobre o carro? Foi impressionante! Sasuke deu de ombros.

– Ah, homem, não seja modesto. Você parecia o Keanu Reeves em Matrix. Testuda, você viu o movimento que ele fez?

– Eu vi – ela respondeu suavemente, notando como os elogios de Ino estavam deixando Sasuke desconfortável. Reparou também na forma como as mulheres ao redor deles o encaravam. Sasuke estava certo. Aquilo não era normal. Porém, com que frequência alguém como ele surgia em carne e osso? Um homem que emanava atração sexual? O homem era puro feromônio ambulante. E, agora, um herói. Mas, acima de tudo, era um grande mistério para Sakura. Havia muito a respeito dele que ela estava louca para saber. E, de uma forma ou de outra, durante o próximo mês, ela iria descobrir. Quando chegaram à doceria no andar de cima, Sakura comprou dois pralinês de noz-pecã e uma Coca-Cola.

Sem pensar duas vezes, ela estendeu o doce para Sasuke. Em vez de pegá-lo de sua mão, ele se inclinou para a frente e o mordeu enquanto ela ainda o segurava. Sasuke saboreou o confeito açucarado de uma forma que enviou ondas de calor para o corpo Sakura, enquanto os penetrantes olhos negros a encaravam como se desejassem que fosse com ela que ele estivesse se deliciando.

– Você tinha razão – ele falou naquele tom baixo que a deixava arrepiada. – É delicioso.

– Uau! – exclamou a balconista. – Você tem sotaque. Não deve ser desta região.

– Não – Sasuke respondeu. – Não sou.

– De onde é?

– Macedônia.

– É na Califórnia? – a garota indagou. – Você parece um daqueles surfistas que ficam na praia.

Ele franziu o cenho. – Califórnia?

– Ele é da Grécia – Ino respondeu.

– Ah! – disse a garota.

Sasuke arqueou a sobrancelha de um jeito censurador. – A Macedônia não é...

– Amigo – Ino falou com a boca cheia de pralinê –, por aqui você teria sorte de encontrar alguém que soubesse a diferença.

Antes que Sakura pudesse responder às palavras ásperas de Ino, Sasuke pôs as mãos em sua cintura e a aproximou do peito forte. Inclinando-se, tomou seu lábio inferior entre os dentes e gentilmente o acariciou com a língua.

Ela ficou zonza com o abraço carinhoso. Ele aprofundou o beijo um instante antes de soltá-la e afastar-se. – Você tinha açúcar no lábio – ele explicou com um sorriso malicioso que revelava as covinhas perfeitas. Sakura piscou, surpresa com as reações de calor e frio que o toque de Sasuke provocava.

– Você poderia ter dito algo.

– É verdade, mas do meu jeito foi bem mais gostoso.

Ela não tinha argumentos contra isso. Afastou-se depressa, tentando ignorar o sorriso sagaz de Ino.

– Por que você tem tanto medo de mim? – Sasuke perguntou de forma inesperada ao alcançá- la.

– Não tenho medo de você.

– Não? Então o que a assusta tanto? Cada vez que eu me aproximo, você se encolhe.

– Eu não estou me encolhendo – Sakura insistiu.

Diabos, havia um eco ali? Ele a envolveu com o braço e Sakura esquivou-se depressa.

– Você está se encolhendo – ele afirmou ao retornarem para a escada rolante. Mesmo Sakura estando um degrau abaixo, ele pôs um braço de cada lado dela e inclinou a cabeça para perto da sua. A presença dele a envolvia, deixando-a estranhamente tonta e quente. Ela observou a firmeza das mãos apoiadas no corrimão da escada rolante atrás das suas e a forma como as veias se destacavam para enfatizar-lhes a força e a beleza.

Como o restante dele, as mãos e os braços eram deslumbrantes. – Você nunca teve um orgasmo, teve? – ele sussurrou em seu ouvido.

Sakura engasgou com o doce. – Este não é o lugar para falar desse assunto.

– É isso, não é? – ele indagou. – É por isso...

– Não é isso – ela o interrompeu. – Na verdade, eu já tive.

Certo, aquilo era uma mentira, mas ele não precisava saber.

– Com um homem?

– Sasuke! – ela o repreendeu. – O que acontece com você e com Ino que acham que podem discutir minha vida particular em público?

Ele inclinou ainda mais a cabeça, para perto de seu pescoço, tão perto que ela sentia o hálito morno dele contra sua pele e o delicioso aroma masculino.

– Sabe, Sakura, eu posso lhe proporcionar um prazer que você não é capaz de imaginar.

Um arrepio percorreu-a. Ela podia facilmente acreditar naquilo. Seria fácil deixá-lo comprovar aquelas palavras. Mas ela não poderia. Seria errado e, independentemente do que ele dissera, isso a incomodava.

E, em seu íntimo, suspeitava que o incomodasse também. Ela se inclinou um pouco para trás e encarou-o.

– Já lhe ocorreu que eu não quero isso?

Ele pareceu chocado com essas palavras. – Como é possível?

– Eu já lhe disse. A próxima vez em que eu tiver intimidade com um homem, quero mais do que as partes indispensáveis dele envolvidas. Quero o coração.

Sasuke fitou os lábios dela com desejo. – Posso lhe assegurar de que você não sentiria falta disso.

– Sentiria, sim.

Recuando como se ela o tivesse estapeado, ele se endireitou.

Sakura sabia que atingira outro ponto nevrálgico. Desejando descobrir mais a respeito dele, virou-se para encará-lo.

– Por que é tão importante que eu ceda? Algo acontece com você se eu não consentir?

Ele riu amargamente. – Como se alguma coisa pudesse ser pior.

– Então, por que você não pode apenas apreciar o seu tempo aqui comigo sem nenhum... – ela abaixou a voz – ... sexo?

Os olhos dele flamejaram. – Apreciar o quê? Conhecer pessoas cujos rostos vão me assombrar pela eternidade? Você acha que eu gosto de olhar ao redor, sabendo que, em alguns dias, serei arrastado de volta para um buraco vazio onde eu posso escutar, mas não posso ver, saborear, sentir ou cheirar, onde meu estômago se contrai constantemente de fome e minha garganta arde com uma sede insaciável? Você é a única coisa que tenho permissão para apreciar. E você me nega isso.

Sakura sentiu lágrimas encherem seus olhos ao escutá-lo. Não queria magoá-lo. De verdade, não queria. Mas Sai a manipulara de forma muito semelhante para levá-la para a cama, e ela acabara com o coração partido. Após a morte de seus pais, Sai alegara importar-se com ela. Ele a confortara e a abraçara. E, então, quando ela finalmente lhe confiara seu corpo, ele a magoara com tanta intensidade e crueldade que até hoje ela sentia a alma ferida.

– Sinto muito, Sasuke. Muito mesmo. Mas não posso fazer isso.

Ela saiu da escada rolante e continuou andando no shopping.

– Por quê? – indagou, quando ele e Ino a alcançaram.

Como poderia explicar-lhe? Sai a ferira tanto aquela noite! Ele não tivera consideração por seus sentimentos. Ela havia implorado para que ele parasse, mas ele continuou. A primeira vez dói mesmo, ele dissera. Nossa, pare de chorar! Vou terminar em um minuto e, então, você poderá ir embora.

Quando ele terminou, ela se sentiu tão humilhada e ferida que chorou durante dias.

– Sakura? – A voz de Sasuke interrompeu seus pensamentos. – O que foi?

Ela precisou de toda sua força para conter as lágrimas. Mas não choraria. Não em público. Não daquela forma. Não seria digna de piedade.

– Nada – ela respondeu. Precisando respirar, mesmo que o ar estivesse mais quente e espesso do que vapor, ela saiu do shopping e caminhou até o calçadão que beirava o rio Mississípi.

Sasuke e Ino seguiram-na. – Sakura, o que fez você chorar? – Sasuke perguntou.

– Sai. – Sakura escutou a amiga sussurrar para Sasuke.

Sakura encarou-a enquanto se esforçava para acalmar-se. Depois, inspirando profundamente, virou-se para Sasuke e disse: – Eu gostaria de poder me atirar na cama com você, mas não posso. Não quero ser usada dessa forma, e não quero usar você! Não consegue compreender isso?

Com a mandíbula contraída, ele desviou o olhar. Acompanhando a direção do olhar de Sasuke, Sakura viu um grupo formado pelo que pareciam ser seis motociclistas desordeiros que caminhavam até eles.

As roupas de couro provavelmente eram sufocantes naquele calor, mas eles não pareciam notar, enquanto faziam troça e riam. Foi então que ela avistou a mulher que os acompanhava. Uma mulher cujo andar lento e sedutor era o equivalente feminino ao caminhar gracioso e elegante de Sasuke.

Ela também tinha o tipo de beleza rara que superaria o de qualquer atriz ou modelo.

Alta e loira, usava um corpete justo de couro e shorts curtos, que envolviam uma silhueta que Sakura mataria para ter. E a mulher estava diminuindo o ritmo, ficando atrás dos homens enquanto abaixava um pouco os óculos escuros e encarava Sasuke.

Sakura encolheu-se por dentro. Oh, bom Deus, aquilo poderia ficar feio! Nenhum dos motociclistas surrados e durões parecia ser do tipo que toleraria que a namorada olhasse para outro sujeito. E a última coisa que Sakura queria era uma briga ali.

Ela agarrou a mão de Sasuke, tentando puxá-lo para o outro lado. Ele se recusou a mexer-se.

– Vamos, Sasuke – ela o apressou. – Precisamos voltar para dentro.

Ainda assim, ele não saiu do lugar.

Em vez disso, encarou os motociclistas como se quisesse matá-los. Então, antes que ela pudesse piscar, ele se soltou de sua mão e adiantou-se, agarrando um dos homens pela camisa.

Aturdida, Sakura observou Sasuke socá-lo no rosto.

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agapeemenee quer dizer querida ou amada.

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