Continuando a saga do guerreiro sedutor Sasuke da Macedônia:
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Capítulo 10
Sakura sentia que havia algo errado enquanto dirigia até o bairro francês.
Sasuke estava sentando ao seu lado, olhando para fora. Tentara várias vezes fazê-lo falar, mas ele permanecia mudo. Tudo o que podia imaginar era que ele estava deprimido por causa do que acontecera no banheiro. Devia ser difícil para um homem acostumado a estar no controle perdê-lo daquela forma. Ela estacionou o carro.
– Nossa, que calor! – exclamou ao sair, sendo imediatamente atingida pelo ar quente e pesado. Olhou para Sasuke, que estava deslumbrante com os óculos de sol que lhe comprara. Ele já começara a suar.
– Está muito calor aqui fora para você? – indagou, pensando em como devia estar sendo horrível para ele, que estava vestido com jeans e uma camisa de malha. – Não vou morrer disso, se é o que quer dizer – ele respondeu sardonicamente. – Um pouquinho irritado, não é? – Desculpe. – Uniu-se a ela.
– Estou descontando em você coisas que não são culpa sua.
– Tudo bem. Estou acostumada a servir de bode expiatório. Na verdade, fiz disso uma profissão.
Como não podia ver seus olhos, não soube dizer se ele se divertiu ou não com seu comentário.
– É isso o que seus pacientes fazem?
Ela assentiu. – Alguns dias, a coisa fica realmente ruim. Eu não me importo com as mulheres gritando comigo, como me importo com os homens
. – Eles já a machucaram?
O tom protetor na voz dele surpreendeu-a. E a sensação era maravilhosa. Sentia falta de ter alguém que a protegesse.
– Não – ela respondeu, tentando ignorar a tensão no corpo de Sasuke. Esperava que as coisas permanecessem daquele jeito. Porém, após o telefonema de Rodney, não tinha certeza de que o homem não pudesse ser a exceção que a acabasse ferindo. Você está sendo ridícula. Só porque ele é assustador não significa que seja perigoso. O rosto de Sasuke estava duro e severo.
– Acho que você deveria encontrar uma nova ocupação.
– Talvez – respondeu, embora sem admitir a ideia. Não tinha intenção de desistir de seu trabalho.
– Então, aonde você gostaria de ir primeiro?
Ele deu de ombros com indiferença.
– Tanto faz.
– Vamos ao aquário. Pelo menos lá dentro tem ar-condicionado.
Pegando o braço dele, conduziu-o pelo estacionamento e pelo calçadão até o aquário. Sasuke permaneceu em silêncio enquanto ela pagava os ingressos e o levava até o interior do edifício. Ele não falou mais nada até eles chegarem ao túnel de água que permitia que observassem as diferentes espécies de criaturas marinhas em seu hábitat natural.
– Incrível! – Sasuke sussurrou, encantado, observando a enorme arraia que nadava sobre a sua cabeça. O olhar dele lembrou-a o de uma criança. A luz que brilhava aqueceu o coração de Sakura. De repente, seu pager começou a tocar. Ela praguejou, até ver o número. Alguém estava ligando de seu consultório em um sábado? Estranho. Tirando o celular da bolsa, ela telefonou para lá.
– Oi, Sakura – Beth cumprimentou-a ao atender o telefone. – Escute, estou aqui no consultório. Alguém invadiu o lugar ontem à noite.
– Não! Quem faria uma coisa dessas?
Sakura viu o olhar curioso que Sasuke dirigiu-lhe. Sorriu de leve para ele enquanto ouvia a resposta de Beth Livingston, a psiquiatra que compartilhava o consultório com ela e com Luanne.
– Não tenho ideia. Mandaram uma equipe de peritos e eles estão aqui recolhendo impressões digitais. Pelo que vi, nada importante foi levado. Você tem algo de valor na sua sala?
– Só o meu computador.
– Ainda está aqui. Algo mais? Dinheiro ou outra coisa?
– Não. Nunca deixo nada de valor aí.
– Espere um pouco. O policial quer falar com você.
Sakura esperou até ouvir a voz de um homem. – Dra. Haruno?
– Sim.
– Sou o policial Allred. Parece que alguém levou o seu arquivo de contatos e algumas pastas. Tem ideia de quem poderia querer isso?
– Não. Precisa que eu vá até aí?
– Acho que não. Basicamente, estamos recolhendo digitais, mas se pensar em algo, por favor, telefone para a gente. – Ele devolveu o telefone para Beth. – Você precisa de mim? – Sakura perguntou.
– Não. Não há nada que você possa fazer. Na verdade, é bastante chato.
– Certo. Não deixe de me ligar se precisar de alguma coisa.
– Farei isso. Sakura desligou o telefone e colocou-o na bolsa.
– Há algo errado? – Sasuke perguntou.
– Alguém invadiu meu consultório ontem à noite.
Ele franziu o cenho. – Por quê?
– Não tenho ideia – Sakura também franziu a testa ao pensar no assunto. – Não sei por que alguém iria querer meu arquivo de contatos. Desde que comprei o palm top na última primavera, nem o uso mais. É esquisito.
– Precisamos ir embora?
– Não.
Sasuke deixou que ela o conduzisse pelos vários tanques, lendo a escrita estranha para ele, e explicando as diferentes espécies e hábitats. Deus, como adorava o som da voz de Sakura quando lia para ele! Havia algo reconfortante nela. Envolveu-a pelos ombros enquanto caminhavam. Ela passou um braço ao redor de sua cintura, enganchando um dedo no passante de sua calça. O gesto agradou-o. Foi então que percebeu como era fundamental para ele a sensação do corpo macio junto ao seu. O que, é claro, apreciaria muito mais se ambos estivessem nus.
Quando Sakura sorriu, sentiu o coração acelerar. O que havia a respeito daquela mulher que o tocava de uma forma que ninguém jamais fizera? Ele sabia. Era a primeira mulher a enxergá-lo. Não sua aparência, ou sua bravura de guerreiro. Ela enxergava sua alma. Nunca imaginara que existisse uma pessoa assim. Sakura o tratava como um amigo. E estava genuinamente interessada em ajudá-lo. Ou ao menos parecia estar. Faz parte do trabalho dela. Fazia mesmo? Poderia uma mulher maravilhosa e gentil como ela realmente importar-se com um homem como ele? Sakura parou diante de outra placa. Sasuke posicionou-se atrás dela e abraçou-a.
Conforme lia, ela acariciava distraidamente seus antebraços. Com o corpo em chamas, ele apoiou o queixo no topo da cabeça de Sakura enquanto escutava a voz suave e observava os peixes nadando. O aroma da pele macia dominou seus sentidos, fazendo-o desejar voltar para casa, onde poderia despi-la. Não se lembrava da última vez em que desejara tanto uma mulher quanto desejava Sakura. Na verdade, achava que nunca quisera alguém com tamanha intensidade. Queria perder-se no interior daquele corpo feminino. Sentir as unhas marcando suas costas enquanto lhe arrancava gritos de prazer.
Que as Parcas tivessem piedade dele, mas estava louco por Sakura! Era isso o que o assustava. Com o lugar que ela ocupava em seu íntimo, poderia magoá-lo como nunca fora magoado antes. Ela, sozinha, poderia finalmente destruí-lo.
Era quase uma hora quando saíram do aquário. Sakura encolheu-se ao ser atingida pelo calor. Em dias como aquele, perguntava-se como antes tinham sobrevivido sem ar-condicionado. Olhou para Sasuke e sorriu. Ele podia responder-lhe essa pergunta.
– Como vocês faziam para sobreviver a dias tão quentes?
Ele arqueou a sobrancelha de forma arrogante. – Isto não é quente. Se quer algo quente, tente marchar com um exército por um deserto, usando uma armadura e com apenas um pouco de água para supri-la.
Sakura encolheu-se. – Isso parece mesmo quente.
Sasuke não respondeu. Ela olhou para a praça, que estava repleta de gente.
– Quer ir ver Ino enquanto estamos passeando? Ela deve estar na banca. Sábado é normalmente um dia agitado.
– Estou seguindo você.
Pegando-lhe a mão, Sakura desceu a rua e dirigiu-se à Jackson Square. Ino estava mesmo em seu estande, atendendo um cliente. Sakura ia continuar caminhando, sem interrompê-los, quando a amiga acenou-lhe.
– Ei, Testuda, você se lembra do Ben? Ou melhor, do Dr. Lewis, da escola?
Sakura hesitou quando reconheceu o corpulento homem de 40 e poucos anos. Lembrar-se dele? Ele lhe dera uma nota baixa e prejudicara toda a sua média. Sem mencionar que ele tinha um ego do tamanho do Alasca e adorava embaraçar os alunos na sala de aula. Na verdade, ela se recordava de uma pobre garota chorando quando ele entregara aos estudantes o sádico exame final. Ele rira da reação da menina.
– Olá – Sakura cumprimentou-o, tentando não demonstrar seu desagrado. Presumia que o homem não conseguia evitar o fato de ser detestável. Doutor por Harvard, ele achava que o mundo girava ao redor dele.
– Srta. Haruno – falou o homem no mesmo tom malicioso do qual ela se recordava e que tanto odiava.
– Na verdade, é Dra. Haruno – ela o corrigiu, deliciando-se com a forma como ele arregalou os olhos, surpreso.
– Perdoe-me – disse ele em uma voz que sequer exprimia um distante tom de desculpa.
– Ben e eu estávamos falando sobre a Grécia Antiga.
– Ino lançou um olhar malicioso para Sasuke. – Eu sou da opinião de que Afrodite era a filha de Urano.
Ben revirou os olhos. – E eu continuo lhe dizendo que a opinião aceita é que ela nasceu de Zeus e Dione. Quando vai ceder e se unir ao restante de nós?
Ino ignorou-o. – Então, me diga, Sasuke, quem está certo?
– Você – ele respondeu para Ino. Ben fitou-o com altivez. Sakura sabia que ele não via nada em Sasuke, além de um homem muito bonito que, provavelmente, conhecia apenas comerciais de cerveja e carros.
– Meu jovem, você alguma vez leu Homero? Você pelo menos sabe quem ele é?
Sakura suprimiu uma risada. Mal podia esperar pela resposta de Sasuke.
Ele riu alto. – Eu li muito Homero. As histórias atribuídas a ele são um amálgama de lendas contadas e recontadas, até que os fatos verdadeiros se perdessem na Antiguidade, enquanto Hesíodo escreveu a Teogonia com o auxílio direto de Clio 4 . Dr. Lewis disse algo em grego antigo.
– É mais do que apenas uma opinião, doutor – Sasuke respondeu. – É fato.
Ben fitou-o de novo, mas Sakura podia dizer que ele ainda não acreditava que alguém com a aparência de Sasuke pudesse entender algo a respeito de seu campo de atuação.
– E como você saberia disso? Sasuke respondeu em grego. Pela primeira vez desde que conhecera o homem, uma década atrás, Sakura o viu parecer assombrado.
– Meu Deus – ele murmurou –, você fala como se tivesse nascido para isso.
Sasuke deu um sorriso divertido para Sakura. – Eu lhe disse – Ino falou. – Ele conhece os deuses e deusas gregos melhor do que qualquer um na face da Terra. Dr. Lewis reparou no anel na mão de Sasuke.
– Isso é o que eu penso que é? – ele perguntou. – É um anel de general?
Sasuke assentiu. – É, sim.
– Você se importaria se eu o olhasse?
Sasuke tirou-o do dedo e entregou-o ao Dr. Lewis, que inspirou profundamente. – Macedônio? Segundo século antes de Cristo, eu presumo.
– Muito bom.
– É uma reprodução impressionante. – Ben devolveu o anel.
Sasuke colocou-o de volta no dedo. – Não é uma reprodução.
– Não! – Ben ofegou, descrente. – Não pode ser um original. Está em excelente estado.
– Fazia parte de uma coleção particular – Ino interferiu.
Ben olhou de um para o outro. – Como você o conseguiu? – perguntou a Sasuke.
Sasuke ficou em silêncio por instantes, lembrando-se do dia em que fora recompensado com o objeto. Ele e Ky rian da Trácia tinham sido promovidos juntos, após terem salvado sozinhos Temópolis dos romanos. Fora uma luta longa, brutal e sangrenta. O exército fugira, deixando-os para defender a cidade. Sasuke tinha esperado que Kyrian também o abandonasse, mas o jovem tolo apenas sorrira para ele, agarrara uma espada em cada mão e dissera: "É um lindo dia para morrer. O que me diz de matar o máximo desses bastardos que conseguirmos, antes de pagarmos o Caronte 5?". Um completo lunático, Kyrian sempre tivera mais coragem do que cérebro. Mais tarde, eles tinham se embriagado em celebração. E, de manhã, ao despertarem, haviam sido promovidos. Pelos deuses! De todas as pessoas que conhecera na Macedônia, de quem mais sentia falta era de Kyrian. Ele fora o único homem que, em batalha, se preocupara em protegê-lo.
– Foi um presente – Sasuke respondeu, por fim. Ben olhou para a mão de Sasuke, com os olhos repletos de uma reverência ávida.
– Você consideraria vendê-lo? Estou disposto a pagar bastante por ele.
– Nunca – Sasuke pensou nas feridas que lhe tinham sido infligidas durante aquela batalha. – Você não tem ideia do que eu enfrentei para consegui-lo.
Ben meneou a cabeça. – Gostaria que alguém me desse um presente desses. Você sabe quanto isso vale?
– O meu peso em ouro, da última vez que chequei.
Ben riu alto, batendo a mão na mesa de tarô de Ino. – Essa é boa! Esse era o resgate para reaver os generais capturados, certo?
– Apenas para aqueles covardes demais para morrer lutando.
Um novo respeito brilhou nos olhos de Ben, enquanto ele observava Sasuke. – Tem alguma ideia de quem possuía esse anel?
– Sasuke da Macedônia – Ino respondeu. – Já ouviu falar dele, Ben?
O queixo do homem caiu, e os olhos se arregalaram. – Está falando sério? Você sabe quem ele era? Ino fez uma expressão estranha. Presumindo que ela não sabia, Ben continuou falando: – Tesius escreveu que Sasuke seria o próximo Alexandre, o Grande. Sasuke era filho de Diocles de Esparta, também conhecido como Diocles, o Açougueiro. Aquele homem fazia o Marquês de Sade parecer o Ronald McDonald. Dizem os boatos que Sasuke nasceu de uma união entre Afrodite e o general, depois de Diocles ter salvado um de seus templos da profanação. A opinião aceita atualmente, claro, é a de que a mãe dele era, na verdade, uma das sacerdotisas de Afrodite.
– É mesmo? – Sakura perguntou. Sasuke revirou os olhos, dizendo: – Ninguém se importa com quem Sasuke foi. O homem morreu há muito tempo.
Ben ignorou-o ao continuar ostentando seu conhecimento. – Conhecido entre os romanos como Augustus Julius Punitor... – Olhou para Sakura e acrescentou, à guisa de explicação: – Sasuke, o Grande Punidor. Ele e Kyrian da Trácia abriram um caminho de matança pelo Mediterrâneo, durante a Quarta Guerra Macedônia contra Roma. Sasuke desprezava Roma e jurou que veria a cidade cair sob seu exército. Ele e Ky rian quase obtiveram êxito ao invadir Roma. A mandíbula de Sasuke se contraiu.
– Você sabe o que aconteceu com Kyrian da Trácia? Ben assobiou baixinho. – Ele não teve um final bonito. Foi capturado e crucificado pelos romanos em 147 antes de Cristo.
Sasuke encolheu-se ao ouvir aquilo. Com os olhos perturbados, mexeu em seu anel. – Aquele homem provavelmente foi um dos melhores guerreiros que já viveu. Ele amava a batalha como ninguém que eu tenha conhecido. – Meneou a cabeça. – Eu me lembro de uma vez em que Kyrian investiu seu coche de guerra contra os soldados inimigos, que estavam alinhados ombro a ombro, com os escudos à frente, desestruturando a formação romana. Isso permitiu que seus soldados os derrotassem, sofrendo poucas baixas. – Franziu o cenho. – Não acredito que tenham conseguido capturá-lo.
Ben deu de ombros com indiferença. – Uma vez que Sasuke desapareceu, Kyrian era o único general macedônio capaz de liderar um exército. Portanto, os romanos se dedicaram a persegui-lo.
– O que aconteceu com Sasuke? – Sakura indagou, imaginando o que os historiadores tinham a dizer sobre o assunto. Sasuke encarou-a.
– Ninguém sabe – respondeu Ben. – É um dos grandes mistérios do mundo antigo. Você tem esse general que não pode ser derrotado nas armas por ninguém, e então, de repente, aos 32 anos, ele some sem deixar vestígios. – Ele bateu de novo a mão sobre a mesa de Ino. – Sasuke foi visto pela última vez na batalha de Conjara. Em um movimento brilhante, ele fez Lívio ceder sua posição invencível. Foi uma das piores derrotas da história de Roma.
– Quem se importa? – Sasuke resmungou.
Ben ignorou a interrupção. – Após a batalha, Sasuke supostamente enviou uma mensagem a Cipião, o Jovem, dizendo que se vingaria pela derrota que ele infligira aos macedônios. Aterrorizado, Cipião desistiu do serviço militar na Macedônia e voluntariou-se para lutar na Espanha. – Ben meneou a cabeça. – Mas antes que Sasuke pudesse cumprir a ameaça, ele desapareceu. Sua família foi encontrada assassinada em casa. E é aí que as coisas ficam interessantes. – Ele olhou para Ino. – Os relatos macedônios dizem que ele foi mortalmente ferido por Lívio durante a batalha e que, sofrendo uma intolerável dor, cavalgou até sua casa para matar a família, impedindo-a de ser escravizada pelos inimigos. Já os relatos romanos dizem que Cipião enviou diversos soldados para atacar Sasuke no meio da noite. Eles o mataram, assim como sua família, e então destroçaram seu corpo e esconderam os pedaços. Sasuke bufou.
– Cipião era um covarde. Ele nunca teria ousado atacar minha...
– Então – Sakura interferiu, interrompendo Sasuke antes que ele se entregasse –, o tempo está agradável, não?
– Cipião não era um covarde – Ben afirmou. – Ninguém pode questionar o êxito dele na Espanha.
Sakura reparou no ódio nos olhos de Sasuke.
Ben pareceu não notar. – Meu jovem, esse seu anel tem um valor inestimável. Eu amaria saber como alguém pode conseguir um desses. Aliás, eu mataria para saber o que aconteceu com o proprietário original.
Sakura trocou um olhar desconfortável com Ino, e Sasuke sorriu com malícia para Ben.
– Sasuke da Macedônia atraiu a fúria dos deuses e foi punido por sua arrogância.
– Essa é outra explicação, eu presumo. – O alarme do relógio de Ben soou. – Droga, preciso buscar minha esposa. – Ele se levantou e estendeu a mão para Sasuke. – Não fomos adequadamente apresentados. Sou Ben Lewis.
– Sasuke – disse, apertando-lhe a mão. Ben riu. Até perceber que Sasuke não estava brincando.
– É mesmo?
– Nomeado por causa de seu general macedônio, pode-se dizer.
– Seu pai deve ter sido como o meu. Apaixonado por todas as coisas gregas.
– A fidelidade dele relacionava-se, na verdade, a Esparta.
Ben riu ainda mais e olhou para Ino. – Por que você não o leva à nossa próxima reunião do Clube Sócrates? Adoraria que nossos colegas o conhecessem. Não encontro com frequência alguém que conheça quase tanta história grega quanto eu. – Voltou-se para Sasuke: – Foi um prazer conhecê-lo. Até mais – disse e acenou para Ino.
– Ora – Ino falou assim que Ben sumiu na multidão –, você, meu amigo, conseguiu o impossível. Acabou de impressionar um dos maiores estudiosos de Grécia Antiga do país. Sasuke não pareceu importar-se, mas Sakura, sim.
– Porca, você acha que é possível que Sasuke seja um professor universitário, assim que ele romper a maldição? Eu estava pensando que ele...
– Não faça isso, Sakura – ele a interrompeu.
– Não faça o quê? Você vai precisar de algo...
– Não vou ficar aqui.
O olhar frio era o mesmo que ele tinha na noite em que o evocara. E a magoava.
– O que você quer dizer? – Sakura perguntou.
Ele evitou seu olhar. – Atena me ofereceu um jeito de voltar para casa. Assim que a maldição for rompida, ela me mandará de volta para a Macedônia. Sakura esforçou-se para respirar.
– Entendo – ela falou, mesmo que por dentro estivesse morrendo. – Você vai apenas usar o meu corpo e então partirá. – Sua garganta se apertou. – Pelo menos eu não vou precisar chamar Ino para me levar para casa depois.
Sasuke encolheu-se, como se ela o tivesse estapeado.
– O que você quer de mim, Sakura? Por que desejaria que eu ficasse aqui?
Ela não sabia como responder. Tudo o que sabia era que não desejava que ele partisse. Queria que ele ficasse. Mas apenas se ele desejasse.
– Quer saber? – ela falou, zangada com o pensamento de que ele a abandonaria. – Eu não quero que você fique. Na verdade, por que você não vai para casa com Ino por alguns dias? – Olhou para a amiga e perguntou: – Você se importaria?
A boca de Ino se abriu e se fechou, como a de um peixe tentando respirar. Sasuke estendeu a mão para tocá-la.
– Sakura...
– Não me toque! – Ela afastou o braço. – Você me dá nojo.
– Sakura! – Ino a repreendeu. – Não acredito que você...
– Está tudo bem – disse Sasuke, com a voz vazia e fria. – Pelo menos ela não cuspiu na minha cara em seu último suspiro.
Ela o magoara. Sakura via isso nos olhos dele, mas Sasuke também a magoara. Terrivelmente.
– Vejo você mais tarde – disse para Ino, e deixou Sasuke em pé ali.
Ino soltou um longo suspiro, olhando para Sasuke enquanto ele observava Sakura afastar-se. Ele tinha o corpo inteiro rígido e a mandíbula pulsava violentamente.
– Na mosca! Diretamente no coração e nos nervos. Sasuke fitou-a com um olhar hostil.
– Conte-me, oráculo, o que eu deveria ter dito?
Ino embaralhou as cartas. – Não sei – ela respondeu, pensativa. – Acho que você nunca pode errar sendo honesto.
Sasuke esfregou os olhos ao sentar-se na cadeira diante da mesa de Ino. Não quisera magoar Sakura. E nunca se esqueceria do olhar em seu rosto ao cuspir nele aquelas palavras. Não me toque. Você me dá nojo. Esforçou-se para respirar em meio à agonia que oprimia seu peito. As Parcas ainda zombavam dele. Devia ser um dia entediante no Olimpo.
– Quer que eu leia as cartas para você? – Ino indagou, desviando seus pensamentos do passado.
– Claro. Por que não?
Ela não podia dizer-lhe nada que já não soubesse.
– Qual é a sua pergunta?
– Algum dia eu... – Sasuke interrompeu-se antes de perguntar a mesma coisa que uma vez indagara ao Oráculo de Delfos. – Algum dia eu vou romper a maldição?
Ino embaralhou as cartas e colocou três delas na mesa. Os olhos dela se arregalaram. Ele não precisava que Ino as lesse. Podia ver as cartas por si mesmo: uma torre sendo atingida por um raio; três espadas penetrando um coração; um demônio segurando as correntes de duas pessoas.
– Tudo bem – disse. – Eu nunca acreditei realmente que isso aconteceria.
– Não é isso o que elas dizem – Ino sussurrou. – Mas você tem uma batalha infernal pela frente.
Ele riu com amargura. – Com batalhas, eu posso lidar. Mas era a dor no coração que o mataria.
Sakura enxugou as lágrimas ao estacionar o carro quando chegou em casa. Cerrando os dentes, saiu e bateu a porta. Para o inferno com Sasuke! Ele podia ficar preso naquele livro por toda a eternidade. Ela não era um pedaço de carne para servir às necessidades dele. Como ele poderia... Procurou desajeitadamente a chave.
– Como ele não poderia? – sussurrou, encontrando a chave e abrindo a porta. Sua raiva esgotou-se. Estava sendo irracional e sabia disso. Não era culpa de Sasuke que Sai tivesse sido um porco egoísta, nem que ela tivesse medo de ser usada. Estava culpando-o por algo de que ele não participara, e ainda assim... Queria apenas alguém que a amasse. Alguém que quisesse ficar com ela. Esperava que, ao ajudar Sasuke, ele permanecesse ali e... Fechando a porta, ela balançou a cabeça. Não importava o quanto desejava que fosse diferente, aquilo não estava destinado a acontecer.
Escutara o que Ben tinha dito a respeito da vida de Sasuke. E o que Sasuke mesmo contara às crianças sobre a batalha. Lembrou-se da forma como ele atravessara a rua e salvara a vida daquele menino. Sasuke nascera e fora criado para liderar exércitos. Ele não pertencia ao seu mundo. Ele pertencia ao próprio mundo. Era egoísmo querer mantê-lo ao seu lado, como algum animal de estimação que resgatara. Sakura arrastou-se para cima, com o coração pesado. Precisaria proteger-se dele. Era tudo o que podia fazer, pois, em seu íntimo, sabia que quanto mais o conhecesse mais se importaria com ele. E, se Sasuke não tinha intenção de ficar, ela terminaria magoando-se. Estava a meio caminho na escada, quando alguém bateu na porta da frente.
Por um instante, animou-se achando que poderia ser Sasuke... até chegar à porta e ver o vulto de um homem pequeno na varanda. Abriu uma fresta na porta e ficou boquiaberta. Era Rodney Carmichael. Ele usava um terno marrom-escuro com uma camisa amarela e gravata vermelha. Os cabelos negros e curtos estavam penteados com gel para trás, e ele mostrava um sorriso radiante.
– Oi, Sakura!
– Sr. Carmichael – ela falou friamente, embora seu coração batesse com força. Havia algo indefinidamente assustador naquele homem pequeno e magro –, o que está fazendo aqui?
– Eu só queria dizer um "oi". Achei que poderíamos...
– O senhor precisa ir embora.
Ele franziu a testa. – Por quê? Só quero falar com você.
– Porque eu não atendo pacientes em casa.
– Sim, mas eu não sou...
– Sr. Carmichael – disse com firmeza –, eu realmente preciso que vá embora. Se não for, chamarei a polícia.
Impassível ante a raiva em sua voz, ele assentiu pacientemente.
– Ah, você deve estar ocupada. Entendo. Eu também tenho uma porção de coisas para fazer. E se eu vier mais tarde? Podemos jantar.
Atordoada, ela o encarou. – Não.
Ele sorriu. – Vamos lá, Sakura. Não seja assim. Você sabe que estamos destinados um ao outro. Se você apenas me deixasse...
– Vá embora!
– Certo, mas eu voltarei. Temos um monte de coisas para falar.
Ele se virou e atravessou a varanda. Com o coração acelerado, ela trancou a porta.
– Vou matar você, Luanne – ela murmurou, dirigindo-se à cozinha. Ao passar pela sala de estar, uma sombra na janela chamou-lhe a atenção. Era Rodney .
Consternada, Sakura pegou o telefone e chamou a polícia. Eles levaram quase uma hora para chegar. Rodney ficou do lado de fora o tempo todo, movendo-se de janela em janela para observá-la através das fendas das cortinas. Apenas quando viu o carro da polícia parar diante da casa, ele correu pelo quintal dos fundos e sumiu. Sakura inspirou profundamente para acalmar-se e deixou os policiais entrarem. Eles permaneceram ali tempo suficiente para lhe dizer que não havia nada que pudessem fazer para manter o homem permanentemente afastado. O melhor que ela faria seria obter uma ordem de restrição contra ele, mas isso seria inútil, uma vez que fora requisitada para tratá-lo até que Luanne retornasse.
– Sinto muito – um dos policiais disse quando ela os acompanhou até a porta –, mas ele não infringiu nenhuma lei que nos permita afastá-lo de uma vez. Você poderia registrar uma queixa por invasão de propriedade, mas, a menos que ele tenha antecedentes, não há muito que se possa fazer. – O jovem policial lançou-lhe um olhar solidário. – Sei que não é tranquilizador. Podemos tentar patrulhar a área um pouco mais, porém o verão é realmente uma época agitada para nós. Pessoalmente, eu aconselharia que fosse passar algum tempo com uma amiga.
– Certo, obrigada. Assim que eles partiram, Sakura correu pela casa, assegurando-se de que todas as portas e janelas estivessem trancadas. Apreensiva, olhou ao redor, como se esperasse que Rodney fosse entrar por um buraco na parede, como uma barata. Se ao menos soubesse se ele poderia ser perigoso...
O relatório do hospital estadual mencionava seu comportamento fora do padrão por intrometer-se nas vidas das mulheres, mas nunca ferira nenhuma delas fisicamente. Ele apenas amedrontava as vítimas com sua persistência irracional e, por esse motivo, fora encaminhado ao hospital para uma avaliação. A psicóloga dentro de Sakura dizia que não havia nada particularmente perigoso a respeito de Rodney, mas a mulher nela estava assustada, de qualquer forma. A última coisa que desejava era virar estatística. Não, ela não podia ficar ali esperando que ele voltasse e a encontrasse sozinha. Correndo para cima, foi fazer as malas.
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