Continuando a saga do guerreiro sedutor Sasuke da Macedônia:

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Capítulo 12

Sakura chegou em casa ao mesmo tempo que a polícia. O jovem e corpulento policial lançou um olhar suspeito para Sasuke.

– Quem é ele?

– Um amigo – ela respondeu.

O oficial estendeu a mão.

– Certo, me dê as chaves e espere que eu faça uma busca no local. O policial Reynolds vai ficar aqui fora com você até que eu termine.

Sakura obedientemente entregou-lhe as chaves da casa e mordeu a unha do polegar ao vê-lo entrar. Por favor, permita que Rodney esteja lá.

Ele não estava.

O policial saiu pouco depois, balançando a cabeça.

– Droga! – ela sussurrou.

Reynolds acompanhou-a até a casa, com Sasuke logo atrás.

– Precisamos que você entre e olhe a casa, para verificar se algo está faltando.

– Ele fez uma bagunça? – Sakura perguntou.

– Apenas nos quartos.

Triste, ela entrou e subiu as escadas até seu quarto. Sasuke seguiu-a, observando a forma como ela se mantinha rígida. A palidez da face era tamanha que as sardas se destacavam. Ele mataria o homem responsável por aquilo. Nenhuma mulher deveria sentir medo daquele jeito, principalmente em sua própria casa. Quando chegaram ao topo das escadas, ele viu a porta no final do corredor entreaberta. Sakura correu até lá.

– Não! – ela ofegou.

Sasuke seguiu-a e enfureceu-se com o pesar no rosto delicado. Sentia a dor de Sakura em seu coração. Lágrimas corriam pelo rosto dela, enquanto olhava para o lugar destruído. A cama fora quebrada e as gavetas reviradas, como se Zéfiro 9 tivesse passado por ali.

– Como ele pôde fazer isso com o quarto deles? – ela murmurou.

– Quarto de quem? – indagou o policial Reynolds. – Achei que morasse sozinha.

– Eu moro. Este era o quarto dos meus pais antes da morte deles.

Olhou ao redor com descrença. Uma coisa era ir atrás dela, mas por que ele teria feito aquilo? Viu as roupas espalhadas, roupas que a faziam lembrar momentos maravilhosos. As camisas do pai, que ele usara todos os dias para trabalhar. O suéter favorito da mãe, que ela costumava pedir emprestado. Os brincos que o pai dera à mãe no último aniversário de casamento. Tudo jogado, como se não valesse nada. Mas para ela tudo ali era valioso. Era tudo o que lhe restara deles. Sentia-se apunhalada no coração.

– Como ele pôde fazer isso? – ela perguntou, enraivecida. S

asuke abraçou-a com força. – Está tudo bem, Sakura – ele sussurrou perto de seus cabelos.

Mas não estava tudo bem. Sakura duvidava que tudo ficasse bem de novo. Não suportava a ideia de que aquele animal tivesse passado as mãos pelas roupas da sua mãe. De que tivesse tirado os lençóis da cama deles. Como ousara! Sasuke olhou para o policial.

– Não se preocupe – disse o homem –, nós vamos achar o sujeito.

– E depois? – Sasuke perguntou.

– Depois, a decisão é do tribunal.

Sasuke o fitou com desprezo. Tribunal. Os tribunais modernos seriam inúteis se deixassem solto um animal como aquele.

– Sei que isso é difícil – o policial prosseguiu –, mas nós realmente precisamos que olhe ao redor, Dra. Haruno, para ver se ele levou alguma coisa.

Ela anuiu. Sasuke surpreendeu-se com a coragem de Sakura, quando ela se afastou de seus braços e enxugou o rosto antes de começar a olhar aqueles escombros.

Sasuke ajoelhou-se ao seu lado, desejando estar perto se ela precisasse dele de novo. Após uma busca completa, ela cruzou os braços e olhou para o policial.

– Não está faltando nada – disse e se dirigiu ao seu quarto.

Sakura entrou no aposento de forma hesitante. Uma rápida avaliação revelou o mesmo tipo de dano ali. Tanto as roupas dela quanto as de Sasuke haviam sido reviradas. Roupas íntimas estavam jogadas por todo o lugar, os lençóis tinham sido retirados de sua cama e o colchão estava torto.

Como ela desejava que o sujeito tivesse encontrado a espada de Sasuke embaixo da cama e tivesse cometido o erro de tocá-la. Aquilo teria sido bastante justo. Mas Rodney não a encontrara. Na verdade, o escudo de Sasuke estava onde ele o deixara, apoiado na parede ao lado da cama.

Olhando ao redor, para as roupas espalhadas, Sakura sentiu-se violada. Como se as mãos nojentas de Rodney tivessem tocado seu corpo. Então, ela viu a porta do closet entreaberta. Seu coração pareceu parar enquanto ela caminhava até lá e abria a porta. Naquele instante, ela sentiu como se Rodney realmente tivesse arrancado seu coração e o pisoteado.

– Meus livros – ela sussurrou.

Sasuke atravessou o quarto para ver o que ela fitava. Perdeu o fôlego ao parar atrás de Sakura. Cada livro que ela tinha fora despedaçado.

– Não os meus livros – ela murmurou, ajoelhando-se.

A mão de Sakura tremia enquanto ela tocava as páginas dos livros que seu pai escrevera. Eram insubstituíveis. Nunca mais ela poderia abri-los e ouvir a voz dele falando com ela sobre o passado. Nem poderia abrir Beleza Negra e escutar a débil lembrança de sua mãe lendo-o para ela.

Tudo se fora. Em um único ato, Rodney Carmichael matara seus pais de novo. Seu olhar recaiu sobre os pedaços retalhados da Ilíada. Lágrimas assomaram aos seus olhos ao recordar a expressão de Sasuke quando vira o livro.

Das horas que haviam passado juntos enquanto liam. Aquelas horas haviam sido especiais. Mágicas. Deitados diante do sofá, perdiam-se nas palavras da história. Era o reino particular deles. O próprio céu.

– Ele dizimou todos eles – Sakura sussurrou. – Oh, Deus, ele deve ter ficado horas aqui.

– Senhorita, são apenas...

Sasuke agarrou o policial Reynolds pelo braço e puxou-o de volta para o quarto.

– Não são apenas livros para ela – disse por entre os dentes. – Não zombe da dor que está sentindo.

– Oh – ele falou, embaraçado –, desculpe.

Sasuke retornou até Sakura no closet. Ela soluçava incontrolavelmente, passando a mão pelas páginas rasgadas.

– Por que ele faria isso?

Ele a ergueu e a carregou para fora do closet, deitando-a na cama. Sakura abraçou-o com tanta força que ele mal conseguia respirar, soluçando como se o coração estivesse partindo-se. Naquele momento, Sasuke desejou matar o homem que lhe fizera aquilo.

O telefone tocou. Sakura gritou e esforçou-se para ficar em pé.

– Calma – Sasuke falou, enxugando-lhe as lágrimas enquanto a segurava. – Está tudo bem. Estou aqui com você.

O policial entregou-lhe o aparelho. – Atenda, caso seja ele.

Sasuke encarou o homem. Como ele podia ser insensível a ponto de pedir a ela que falasse com o cão raivoso?

– Oi, Ino – Sakura falou, irrompendo de novo em lágrimas ao contar à amiga o que acontecera.

Os pensamentos de Sasuke estavam em um turbilhão, enquanto ele ponderava sobre o homem que invadira a casa de Sakura, magoando-a tão profundamente. O que mais o preocupava era o fato de o sujeito saber do que ir atrás. Ele conhecia Sakura e tinha consciência do que era importante para ela. Aquilo o tornava ainda mais perigoso do que a polícia imaginava. Sakura desligou.

– Sinto muito pela explosão. – Ela enxugou as lágrimas. – Foi um dia longo.

– Sim, senhorita, nós entendemos.

Sasuke observou-a recompor-se com uma força de vontade que poucos homens possuíam. Ela conduziu os policiais pelo restante da casa.

– Ele não deve ter visto este livro – disse um dos homens ao entregar-lhe o livro de Sasuke.

Ele o pegou das mãos de Sakura. Ao contrário do policial, ele não tinha tanta certeza. Se o bastardo tentara rasgá-lo, tivera uma surpresa desagradável. O livro não podia ser destruído. Ao longo dos séculos, Sasuke tentara fazer isso incontáveis vezes. Nem mesmo o fogo podia arruiná-lo. Mas o livro servia para lembrá-lo de como as palavras que Sakura lhe dissera mais cedo eram verdadeiras. Dentro de alguns dias, ele partiria e ela não teria quem a protegesse. Aquele pensamento lhe fazia mal.

A polícia estava, por fim, indo embora quando Ino parou o carro diante da casa. Saiu do jipe com um homem alto, de cabelos escuros e com o braço engessado, e foi correndo até a porta.

– Você está bem? – ela perguntou a Sakura, abraçando-a.

– Sim. – Sakura olhou por sobre o ombro de Ino. – Oi, Shikamaru.

– Oi, Sakura. Viemos ajudar.

Sakura apresentou-o a Sasuke e os quatro entraram na casa.

Assim que entraram, Sasuke puxou Ino de lado.

– Você pode mantê-la aqui embaixo por algum tempo?

– Por quê?

– Preciso resolver uma coisa.

Ino franziu o cenho. – Está bem.

Sasuke esperou que Ino e Shikamaru acompanhassem Sakura ao sofá. Então, foi até a cozinha, pegou alguns sacos de lixo e dirigiu-se ao closet. O mais rapidamente possível, passou a arrumar a bagunça para que Sakura não fosse obrigada a rever aquilo.

A cada pedaço de papel que tocava, sua raiva aumentava. Repetidas vezes, visualizava o olhar carinhoso enquanto ela fitava a coleção, procurando um livro para ler. Fechando os olhos, ele podia ver os cabelos sedosos caindo sobre seu peito enquanto lia para ele. E, naquele instante, ele quis sangue.

– Nossa! – exclamou Shikamaru da porta. – Ele fez tudo isso?

– Sim.

– Que maluco!

Sem dizer nada, Sasuke continuou enfiando os papéis no saco. Conseguia concentrar-se apenas no grito em sua alma que exigia vingança, com tanta intensidade que chegava a ridicularizar aquele que desafiava Príapo. Uma coisa era feri-lo. Mas magoar Sakura... Era melhor que as Parcas tivessem piedade do homem, porque ele não teria.

– Então, está saindo com Sakura faz muito tempo?

– Não.

– Eu achei que não fazia muito tempo mesmo. Ino não me falou de você, mas ela não tem se mostrado tão preocupada com o fato de Sakura estar sozinha desde o aniversário dela. Você deve ter conhecido Sakura naquela ocasião.

– Sim.

– Sim, não, sim. Você não é de falar muito, é?

– Não.

– Bem, eu entendo uma indireta. Até mais tarde.

Sasuke deteve-se quando sua mão roçou a capa de Peter Pan. Pegando-a, cerrou os dentes, sentindo-se assaltado pela dor. Ela amara este livro acima de todos. Apertou o livro com força antes de lançá-lo no saco.

Sakura não sabia quanto tempo ficara imóvel no sofá. Tudo o que sabia era o quanto estava ferida. Rodney desferira um golpe profundo, ao violá-la daquela maneira. Ino entregou-lhe uma xícara de chocolate quente. Ela tentou beber, mas suas mãos ainda tremiam tanto que, com medo de derrubar o líquido, colocou-o de lado.

– Acho que eu preciso ir arrumar a bagunça.

– Sasuke já fez isso – disse Shikamaru da poltrona, enquanto mudava os canais da TV.

Ela franziu o cenho. – O quê? Quando?

– Ele estava lá em cima limpando o closet.

Surpresa, Sakura foi encontrá-lo.

Sasuke estava no quarto de seus pais. Da porta, ela o observou arrumar o resto da bagunça. Ele dobrou as calças de seu pai de uma forma desajeitada, colocou-as na gaveta e a fechou. Sakura foi dominada pela ternura daquela visão de um legendário general pondo em ordem sua casa, para evitar que ela tivesse de enfrentar aquilo.

A bondade de Sasuke tocou seu coração. Ao olhar para cima, ele encontrou o olhar dela. A afetuosa preocupação nos profundos olhos ónix enterneceu-a. – Obrigada – disse.

Ele deu de ombros. – Eu não tinha nada mais para fazer.

Apesar de ele dizer aquilo casualmente, havia um tom em sua voz que contradizia a indiferença.

– Ainda assim, sou grata.

Ela entrou no quarto, olhando todo o trabalho duro que ele fizera. Com a garganta apertada, apoiou a mão na cama de mogno. – Esta era a cama da minha avó. Ainda posso ouvir minha mãe me contando como meu avô a fez para ela. Ele era marceneiro.

Com a mandíbula rígida, ele fitou a mão dela. – É duro, não é?

– O quê?

– Deixar aqueles que amamos ir.

Ela sabia que Sasuke falava do coração. Do coração de um pai que tinha saudades dos filhos. Embora ele não se agitasse mais violentamente à noite, ela ainda o ouvia sussurrar os nomes de ambos e se perguntava se ele sabia com que frequência sonhava com eles. Também imaginava quantas vezes por dia ele devia pensar neles e sofrer com a perda.

– Sim – disse baixinho. – E você sabe disso melhor do que eu, não?

Ele não respondeu. Sakura deixou o olhar vagar pelo quarto. – Acho que está na hora de eu seguir em frente, mas juro que ainda posso escutá-los, senti-los.

– É o amor deles que você sente e que ainda a aquece.

– Acho que tem razão.

– Ei – disse Ino da porta, interrompendo-os –, Shikamaru quer pedir pizza. Vocês querem comer?

– Acho que sim – disse Sakura.

– E você? – Ino indagou a Sasuke.

Sasuke lançou um olhar malicioso para Sakura. – Eu adoraria comer pizza.

Sakura riu ao lembrar-se de Sasuke pedindo pizza a ela na noite em que o evocara.

– Certo – Ino falou. – Então, comeremos pizza.

Sasuke entregou a Sakura as alianças de casamento dos pais dela. – Encontrei-as no chão.

Sakura ia colocá-las de volta na penteadeira, mas não conseguiu. Em vez disso, colocou-as na mão direita e, pela primeira vez em anos, sentiu-se confortada por elas.

Ao deixarem o quarto, Sasuke começou a fechar a porta. – Não – Sakura disse suavemente. – Deixe aberta.

– Tem certeza?

Ela assentiu. Ao entrar em seu quarto, notou que ele também o arrumara. Porém, ao ver as prateleiras onde seus livros tinham estado vazias, seu coração partiu-se de novo. Desta vez, quando Sasuke fechou a porta, ela não discutiu.

Horas mais tarde, após terminarem de comer, Sakura finalmente convenceu Shikamaru e Ino a partirem.

– Estou bem, de verdade – ela assegurou aos dois pela milionésima vez à porta.

Pôs a mão no braço de Sasuke, grata pela força da presença dele. – Além disso, eu tenho Sasuke.

Ino lançou-lhe um olhar severo. – Ligue para mim se precisar de alguma coisa.

– Está bem.

Ainda incapaz de sentir-se completamente tranquila, ela trancou a porta e levou Sasuke para o seu quarto. Deitou-se na cama com ele ao seu lado.

– Eu me sinto tão vulnerável – ela sussurrou.

Sasuke acariciou-lhe os cabelos. – Eu sei. Feche os olhos e saiba que estou aqui. Vou manter você segura.

Ele a abraçou e Sakura suspirou com o conforto que ele lhe dava. Nunca ninguém a acalmara daquela forma.

Ficaram deitados durante horas, antes que ela finalmente caísse em um sono exausto.

Sakura acordou com um grito preso na garganta.

– Estou aqui, Sakura.

Ao ouvir a voz de Sasuke, ela se acalmou de imediato.

– Graças a Deus é você – ela sussurrou. – Eu tive um pesadelo.

Ele a beijou de leve no ombro. – Eu entendo.

Sakura apertou-lhe a mão antes de sair da cama para aprontar-se para o trabalho. Enquanto tentava se vestir, suas mãos tremiam tanto que ela não conseguia abotoar a camisa.

– Espere. – Sasuke afastou suas mãos e abotoou a camisa para ela. – Você não precisa ter medo, Sakura. Não vou permitir que ele a machuque.

– Eu sei. Sei que a polícia vai prendê-lo e que tudo vai acabar.

Ele não disse nada enquanto terminava de ajudá-la a se vestir.

Assim que se aprontaram, dirigiram-se ao consultório, na área central da cidade. Sakura sentia o estômago tão apertado que mal conseguia respirar. Porém, ela precisava fazer aquilo. Não permitiria que Rodney controlasse sua vida. Estava no comando e ninguém lhe tiraria isso. Não sem uma briga. Ainda assim, estava feliz com a presença de Sasuke. Sentia-se confortada de uma forma na qual não queria nem pensar.

– Como se chama isto? – Sasuke indagou quando ela o conduziu ao enorme e antigo elevador do prédio, que era do final do século XIX.

Sakura mostrou-lhe como fechar a porta e notou seu desconforto imediato ao ficarem fechados ali.

– É um elevador – ela explicou. – Você aperta esses botões para ir ao andar que quiser. Fico no último, que é o oitavo.

Ela pressionou o botão antigo. Sasuke ficou ainda mais tenso quando o elevador se moveu.

– É seguro?

Ela arqueou a sobrancelha com curiosidade. – Com certeza o homem que derrotou exércitos romanos não está assustado com um elevador, não é?

Ele a fitou com irritação. – Os romanos, eu compreendo; essas coisas, não.

Ela passou seu braço pelo dele. – É simples. – Apontou para o alçapão acima. – Do lado de fora daquela portinha existem cabos que o conduzem para cima e para baixo, e ali há um telefone. – Indicou o aparelho sob os botões. – Se você ficar preso em um elevador, só precisa pegar o fone que será diretamente conectado a uma equipe de emergência.

Os olhos de Sasuke escureceram. – E é comum ficar preso no elevador?

– Na verdade, não. Meu consultório é aqui há quatro anos e até hoje isso nunca aconteceu

. – Se você não estava nele, como sabe se alguém ficou preso ou não?

– Elevadores emitem um alarme quando param. Confie em mim, se alguém ficasse preso, saberia.

Ele olhou para o amplo espaço do elevador e, pela luz nos belos olhos, ela soube que ideias impróprias estavam passando pela cabeça de Sasuke.

– Você poderia fazê-lo parar de propósito?

Ela riu. – Sim, mas eu realmente não quero ser pega em flagrante no trabalho.

Ele a beijou de leve no rosto. – Mas isso poderia ser bem divertido.

Sakura abraçou-o. O que havia a naquele homem que a fazia sentir-se melhor? Ele sempre tornava as coisas mais divertidas. Mais luminosas.

– Você é mau – disse, relutante em soltá-lo.

– É verdade, mas você adora isso em mim.

Ela riu de novo. – Tem razão. Eu adoro.

As portas se abriram e Sakura conduziu-o até seu consultório. Ao entrarem, Lisa fitou-os e arregalou os olhos. Um sorriso se abriu em seu rosto ao examinar Sasuke rapidamente.

– Dra. Sakura – ela provocou, enrolando no dedo uma mecha de cabelo loiro –, seu namorado é lindo!

Meneando a cabeça, Sakura apresentou-os e depois levou Sasuke até sua sala. Ele ficou na janela enquanto ela ligava o computador e guardava a bolsa. Deteve-se ao notar que ele a encarava.

– Você vai mesmo passar o dia todo no meu consultório?

Ele deu de ombros. – Não tenho nada melhor para fazer.

– Vai ficar entediado.

E Sakura sabia quanta experiência ele tinha no assunto. Colocou a mão na face de Sasuke ao pensar nele dentro do livro, sozinho, envolvido pela escuridão. Ficando nas pontas dos pés, beijouo com carinho.

– Obrigada por vir comigo hoje. Acho que não conseguiria estar aqui sem você.

Ele mordiscou seu lábio. – O prazer é meu.

Lisa interfonou para ela. – Dra. Sakura, seu paciente das oito horas chegou.

Sakura apertou a mão de Sasuke antes de deixá-lo sair. Durante a hora seguinte, ela mal prestou atenção ao que era dito. Seus pensamentos estavam concentrados no homem que aguardava do lado de fora, e no quanto Sasuke significava para ela. Pensava em como odiava a ideia de vê-lo partir.

Assim que terminou a sessão, acompanhou o paciente até a saída. Lisa estava mostrando a Sasuke como jogar paciência no computador. – Ei, Dra. Sakura, sabia que Sasuke nunca jogou paciência? – ela indagou ao vê-la.

Sakura trocou um sorriso divertido com Sasuke. – É mesmo?

Lisa olhou a agenda. – A propósito, seu paciente das três horas cancelou. E a das nove telefonou dizendo que vai se atrasar um pouco. – Certo. – Sakura apontou para a porta com o polegar. – Enquanto vocês dois jogam, eu vou dar uma corridinha até o carro e pegar meu palm top.

Sasuke fitou-a. – Eu vou.

Sakura meneou a cabeça. – Posso fazer isso.

Ele deu a volta na mesa de Lisa e estendeu a mão, querendo as chaves.

– Eu vou – disse, e seu tom de voz indicava que ele não cederia.

Sem querer discutir, ela lhe entregou as chaves. – Está embaixo do banco do motorista.

– Certo. Volto logo.

Sakura fez uma continência para ele. Sem achar graça, Sasuke saiu do consultório e dirigiu-se ao elevador no final do corredor. Apertou o botão, mas se deteve. Deus, como odiava aquela coisa apertada! E pensar em entrar ali sozinho... Olhando ao redor, ele viu um lance de escadas. Decidido, foi até lá.

Sakura estava tentando encontrar o arquivo de Rachel em sua pasta, quando se lembrou de ter deixado alguns papéis no banco traseiro do carro.

– Onde estou com a cabeça? – indagou a si mesma.

Porém, ela sabia onde. Seus pensamentos estavam divididos entre os dois homens que haviam alterado completamente sua vida. Irritada consigo mesma por não conseguir se concentrar, pegou a pasta e foi atrás de Sasuke.

– Aonde está indo, Dra. Sakura? – Lisa perguntou.

– Deixei alguns arquivos no carro. Volto já.

Lisa anuiu. Sakura foi até o elevador. Ainda estava buscando os arquivos faltantes na pasta quando as portas se abriram. Sem desviar o olhar, ela entrou e automaticamente apertou o botão do térreo. Apenas quando as portas se fecharam, percebeu que não estava sozinha. Rodney Carmichael estava do outro lado, encarando-a.

– Então, quem é ele?

Sakura ficou paralisada, dominada por ondas de medo e raiva. Queria acabar com ele! Mas, mesmo sendo pequeno para um homem, ainda era mais alto do que ela. E muito inconstante.

Ocultando seu pânico crescente, ela indagou com calma: – O que está fazendo aqui?

Os lábios dele se curvaram. – Você não respondeu à minha pergunta. Eu quero saber de quem são aquelas roupas na sua casa.

– Não é da sua conta.

– Bobagem! – ele gritou.

O homem estava no limite da insanidade, e a última coisa de que ela precisava era que ele enlouquecesse de vez enquanto estivessem presos no elevador.

– Tudo o que diz respeito a você é da minha conta – ele prosseguiu.

Sakura tentou controlar a situação. – Agora, me escute, Sr. Carmichael. Eu não o conheço e o senhor não me conhece. Não consigo imaginar por que está fixado em mim, mas quero que pare com isso.

Ele apertou o botão para deter o elevador. – Agora você vai me escutar, Sakura. Somos perfeitos um para o outro. Sabe disso tão bem quanto eu. Estamos destinados a ficar juntos.

– Certo – disse ela, tentando acalmá-lo. – Vamos discutir esse assunto no meu consultório. – E pressionou o botão para liberar o elevador. Ele o deteve outra vez.

– Vamos conversar aqui mesmo.

Sakura respirou fundo quando suas mãos começaram a tremer. Precisava sair dali sem deixá- lo ainda mais zangado.

– Ficaríamos mais à vontade no meu consultório.

Quando ela tentou novamente apertar o botão, ele agarrou sua mão.

– Por que você não fala comigo? – ele indagou.

– Estamos conversando. – Sakura aproximou-se um pouco do interfone.

– Aposto que você fala com ele, não? Aposto que passa horas rindo e fazendo só Deus sabe o que com ele. Agora, me diga quem ele é.

– Sr. Carmichael...

– Rodney ! – ele gritou. – Maldição, meu nome é Rodney !

– Certo, Rodney. Vamos...

– Aposto que ele colocou as mãos imundas em todo o seu corpo, não é? – Ele a encurralou perto do painel. – Quantas vezes dormiu com ele desde que me conheceu?

Sakura tremia ante o olhar selvagem nos olhos arregalados.

O homem estava perdendo a razão. Ela estendeu a mão para trás, a fim de pegar o fone, mas antes que pudesse levá-lo ao ouvido ele o agarrou.

– O que diabos você está fazendo? – ele indagou.

– Você precisa de ajuda.

Ele bateu o fone no painel. – Eu não preciso de ajuda. Preciso apenas que você fale comigo. Está me escutando? Eu só preciso que você fale comigo!

Ele pontuou cada palavra golpeando o fone no painel de controle.

Aterrorizada, Sakura viu o aparelho se estilhaçar. Então, ele começou a puxar os próprios cabelos.

– Ele beijou você. Eu sei disso.

Ele repetia as palavras, arrancando tufos de cabelos.

Oh, Deus! Ela estava presa com um lunático. E não havia saída.

Sasuke voltou ao consultório com o palm top.

– Onde está Sakura? – perguntou para Lisa quando não a encontrou à mesa.

– Você não a viu? Ela desceu até o carro alguns minutos depois que você saiu.

Ele franziu o cenho. – Tem certeza?

– Sim. Ela disse que esqueceu lá alguns arquivos.

Antes que ele pudesse perguntar mais alguma coisa, uma atraente mulher afro-americana entrou no consultório. Ela vestia um terninho preto conservador e segurava uma pasta. Parou para tirar um sapato e esfregar o calcanhar.

– É mesmo segunda-feira! – disse para Lisa. – Eu acabei de subir os oito andares pela escada porque o elevador está preso entre dois andares. Agora, que notícias maravilhosas você tem para mim?

– Olá, Dra. Beth – Lisa cumprimentou-a animadamente, consultando a agenda. – Seu paciente das nove horas é Rodney Carmichael. Sasuke gelou.

– Oh, não, espere – Lisa corrigiu-se. – Esse é paciente da Dra. Sakura. O seu...

– Você disse Rodney Carmichael? – Sasuke perguntou.

– Sim. Ele ligou para remarcar...

Ele não a esperou terminar. Largando o palm top na mesa de Lisa, correu até o elevador. Com o coração martelando, pensava apenas em alcançar Sakura o mais rápido possível. Foi então que percebeu que o zunido que estivera escutando era o soar de um alarme. Um calafrio percorreu sua espinha, quando seus instintos lhe disseram o que acontecera. Rodney parara o elevador com Sakura dentro. Tinha certeza disso. De repente, escutou um grito abafado atrás das portas fechadas do elevador. Com a visão nublando-se de raiva e medo, Sasuke abriu a porta. E ficou paralisado. Não conseguia enxergar a cabine. Tudo o que via era uma caverna negra. E era igual à do livro.

Descer ali seria como ser sugado para o seu inferno. De escuridão. Fechado. Apertado. Esforçou-se para respirar, lutando contra a onda de terror. Em seu coração, sabia que Sakura estava lá embaixo. Sozinha com um homem louco, sem ninguém para ajudá-la.

Rangendo os dentes, ele deu um passo para trás e pulou para os cabos.

Sakura empurrou Rodney com força, afastando-o.

– Não vou dividir você! – ele rosnou, agarrando seus braços de novo. – Você é minha!

– Eu não sou de ninguém.

Ela lhe deu uma joelhada na virilha, derrubando-o.

Desesperada, Sakura tentou subir na barra lateral para alcançar o alçapão. Se conseguisse chegar lá... Porém, Rodney agarrou-a pela cintura, empurrando-a para o canto. Com o rosto retorcido de raiva, ele a prendeu, pondo os braços de ambos os lados de seu corpo.

–Diga-me o nome do homem que esteve dentro de você, Sakura! Diga-me para que eu saiba quem eu terei de matar.

Com os olhos vazios e apavorantes, ele começou a arranhar o próprio rosto e o pescoço com tanta violência que arrancou sangue dos vergões.

– Você não sabe que é minha mulher? Nós ficaremos juntos. Eu sei tomar conta de você. Sei do que precisa. Sou muito melhor do que ele!

Sakura esquivou-se dele e conseguiu tirar os sapatos de salto alto, segurando-os nas mãos. Não eram armas tão boas, mas eram melhores do que nada.

– Quero saber com quem você esteve! – ele exigiu em voz alta.

Ao mesmo tempo em que Rodney deu um passo adiante, a porta do alçapão se abriu.

Sakura olhou para cima. Sasuke saltou pelo buraco e aterrissou agachado como um predador.

Uma aura de perigosa calma o cercava, mas os olhos eram aterrorizantes. Lançando chamas e fúria do inferno, eles focalizaram Rodney com uma intenção homicida.

Lentamente, Sasuke se levantou. Rodney ficou paralisado ao se dar conta do tamanho dele.

– Quem diabos é você?

– Sou o homem com quem ela está.

Rodney ficou boquiaberto. Sasuke examinou-a rapidamente, a fim de verificar se ela estava bem antes de virar-se para Rodney com um urro.

Ele lançou o sujeito contra a parede com tanta força que Sakura surpreendeu-se que o impacto não tivesse abaulado o painel de madeira. Sasuke agarrou-o pela camisa e segurou-o de encontro à parede. Quando falou, a frieza na voz dele foi arrepiante.

– É uma pena que você não seja grande o suficiente para que eu o mate, porque eu quero você morto. – Apertou-o com mais força. – Mas, pequeno ou não, se eu encontrá-lo perto de Sakura de novo, se você a fizer derramar mais uma lágrima, não haverá força nesta Terra ou no além que evitará que eu o aniquile. Você entendeu?

Rodney lutava inutilmente para livrar-se.

– Ela é minha! Vou matá-lo se ficar no caminho.

Sasuke inclinou a cabeça, como se não conseguisse acreditar no que ouvia.

– Você é louco?

Rodney chutou-o no estômago.

Com os olhos escurecendo, Sasuke desferiu-lhe um soco forte no queixo, derrubando-o.

Enquanto ele se ajoelhava ao lado de Rodney , Sakura tremia, aliviada com o fim daquilo.

– É melhor você ficar inconsciente – disse Sasuke de forma nefasta a Rodney .

Levantando-se, ele abraçou Sakura com força. – Você está bem, Sakura?

Ela não conseguia respirar, mas, naquele momento, não se importava.

– Estou bem. E você?

– Melhor agora que sei que você está bem.

Alguns minutos mais tarde, quando a polícia finalmente abriu a porta do elevador, Sakura notou que eles estavam presos entre dois andares.

Sasuke ergueu-a pela cintura. Ela agarrou a mão estendida do policial, sendo puxada para o andar de cima. Assim que saiu do elevador, franziu a testa para os três policiais que estavam ajudando Sasuke com o corpo inconsciente de Rodney .

– Como vocês vieram parar aqui?

O policial mais velho afastou-se um pouco, enquanto os outros dois retiravam Rodney da cabine.

– A operadora do telefone de emergência nos chamou. Ela disse que parecia haver uma guerra no elevador.

– Havia – ela falou com nervosismo.

– Então, quem nós precisamos algemar?

– O que está inconsciente.

Enquanto esperava que Sasuke se juntasse a ela, Sakura reparou na escuridão do poço do elevador, por onde ele descera pelos cabos para alcançá-la. Notou o espaço apertado. E lembrou-se do olhar de Sasuke na noite em que apagara as luzes. Do olhar nervoso quando eles haviam subido até seu consultório.

Ainda assim, Sasuke fora até ela. Sentiu lágrimas nos olhos. Ele enfrentou isso para me proteger. Assim que ele saiu do elevador, Sakura abraçou-o com força.

Sasuke tremia com a intensidade das emoções. Estava tão grato por Sakura estar viva e ilesa! Abraçando-a, ele a beijou.

– Não!

Sasuke soltou-a no mesmo instante em que Rodney chutou o policial para longe. Tendo as algemas penduradas em um dos pulsos, ele agarrou a arma do policial e mirou.

Com a destreza aprimorada nas batalhas, Sasuke puxou Sakura para o lado esquerdo, quando a arma foi disparada.

O tiro de Rodney não os acertou, e foi seguido por outros dois do policial mais velho que atirou nele.

Sakura tentou se soltar, mas Sasuke recusou-se a largá-la.

Manteve o rosto dela contra seu peito enquanto via Rodney morrer.

– Não olhe, Sakura – ele sussurrou. – Algumas lembranças não são necessárias.

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