Continuando a saga do guerreiro sedutor Sasuke da Macedônia:
OOO
Capítulo 15
Sasuke manteve certa distância dela pelo restante do fim de semana. Não importava o que Sakura tentasse fazer para romper a parede invisível ao redor de Sasuke, ele a afastava. Nem mesmo permitia que lesse para ele.
Desalentada, foi trabalhar na segunda-feira de manhã, mas não deveria ter ido, pois não conseguia concentrar-se em nada além dos celestiais olhos azuis repletos de aflições não compartilhadas.
– Sakura Haruno?
Ao erguer o olhar de sua mesa, viu uma loira de 20 e poucos anos incrivelmente bonita parada à porta. Parecendo ter acabado de sair de um desfile de moda na Europa, a majestosa beldade estava vestida com um terninho Armani de seda vermelha, meias-calças e sapatos combinando.
– Sinto muito – Sakura disse –, já encerrei o expediente. Se quiser ligar amanhã...
– Eu pareço precisar de uma terapeuta sexual?
De imediato, não. Porém, Sakura aprendera havia muito tempo a não fazer julgamentos rápidos a respeito dos problemas das pessoas. Sem ser convidada, a mulher saracoteou para dentro do consultório, com passos graciosos e arrogantes que eram estranhamente familiares para Sakura. Ela foi até a parede na qual estavam pendurados os diplomas de Sakura.
– Impressionante – ela comentou, mas o tom estava em desacordo com as palavras. Virando-se, ela a examinou rapidamente de cima a baixo e, pela expressão de desprezo no rosto adorável, Sakura notou que a mulher a considerava desprovida de atrativos.
– Você não é bonita o bastante para ele. Baixa demais, cheia demais. E onde você achou esse vestido?
Ofendida, Sakura enrijeceu-se.
– Como?
A mulher ignorou-a.
– Diga-me uma coisa... Não se sente aflita de estar perto de um homem com a aparência de Sasuke sabendo que, se ele tivesse escolha, nunca desejaria estar com você? Ele é tão delgado e gracioso. Forte e impetuoso. Sei que nunca foi desejada por um homem como ele, e sei também que isso nunca mais vai acontecer.
Atordoada, Sakura ficou muda, mas não era necessário que falasse, uma vez que a mulher prosseguiu. Sem parar: – O pai dele também era assim. Imagine Sasuke com cabelos negros e longos. Um pouco mais baixo e sólido, e nem um pouco refinado. Ainda assim, o homem tinha uma forma de usar as mãos que era... hum... – Afrodite sorriu, pensativa e com o olhar distante. – Claro, Diocles tinha muitas cicatrizes de batalha. Tinha uma marca horrível que atravessava a face esquerda. – O olhar dela se estreitou de raiva. – Nunca vou me esquecer do dia em que ele cortou o rosto de Sasuke com uma adaga, tentando deixá-lo marcado como ele. Eu diria que Diocles viveu para arrepender-se dessa transgressão, mas eu me assegurei para que isso não acontecesse. Sasuke é a perfeição física, e eu nunca permitirei que desfigurem a beleza que eu lhe dei.
O olhar frio e calculista de Afrodite fez com que calafrios percorressem todo o corpo de Sakura.
– Eu não vou dividir o meu filho com você.
A possessividade das palavras de Afrodite inflamou a raiva de Sakura. Como ela ousava aparecer agora e dizer algo assim?
– Se Sasuke significa tanto para você, por que o abandonou?
Afrodite encarou-a. – Você acha que eu tive escolha? Zeus recusou-se a dar-lhe ambrosia, e nenhum mortal pode viver no Olimpo. Antes que eu pudesse protestar, Hermes tomou-o dos meus braços e o levou até o pai.
Sakura viu a expressão horrorizada de Afrodite, ao recordar aquele momento.
– Minha tristeza pela perda dele ultrapassou qualquer medida humana. Inconsolável, eu me isolei de tudo e, quando finalmente fiquei pronta para ressurgir, quatorze anos haviam se passado na Terra. Mal reconheci o bebê que eu amamentara. E ele me odiava. – Os olhos dela brilharam, como se ela estivesse contendo as lágrimas. – Você não tem ideia de como é, para uma mãe, ser amaldiçoada pela criança que carregou no ventre.
Sakura compreendia o pesar de Afrodite, mas era Sasuke que ela amava, e era a dor dele que a preocupava.
– Você pelo menos tentou dizer-lhe como se sentia?
– Claro que sim – ela respondeu com rispidez. – Eu enviei Eros até ele, oferecendo-lhe meus presentes. Ele o enviou de volta, com palavras que nenhum filho deveria proferir a respeito de sua mãe.
– Ele estava magoado.
– Eu também – Afrodite gritou, com o corpo inteiro tremendo de raiva.
Apreensiva e assustada com o que uma deusa zangada poderia fazer com ela, Sakura observou-a fechar os olhos, respirar fundo e acalmar-se.
Quando ela falou de novo, seu tom e seu corpo estavam rígidos e frios. – Ainda assim, eu mandei Eros de novo, com mais oferendas para Sasuke. Ele rejeitou cada uma. E eu fui forçada a vê-lo prometer, de forma vingativa, sua lealdade e seu serviço a Atena. – Ela cuspiu o nome, como se o desprezasse. – Foi em nome dela que ele conquistou cidades com as dádivas que eu lhe concedi no nascimento: o poder de Ares, a temperança de Apolo, as bênçãos das Musas e das Graças. Eu até mesmo o banhei no rio Estige, para garantir que nenhuma arma mortal pudesse matá-lo ou marcá-lo. E, ao contrário do que Tétis fez com Aquiles, eu cobri seus calcanhares para que ele não tivesse nenhum ponto vulnerável. – Ela meneou a cabeça, como se ainda não conseguisse crer na atitude do filho. – Eu fiz tudo ao meu alcance por aquele garoto, e ele não demonstrou gratidão a mim. Nem respeito. Por fim, desisti de tentar. Já que ele recusou meu amor, eu me assegurei de que ninguém nunca o amasse.
O coração de Sakura falhou ao ouvir palavras tão egoístas. – O que você fez? Afrodite ergueu o queixo com altivez, como uma rainha orgulhosa de sua guerra a sangue-frio.
– Eu o amaldiçoei, do mesmo jeito que ele me amaldiçoou. Eu me assegurei de que nenhuma mulher mortal pudesse olhar para ele sem desejar apenas o seu corpo, e de que nenhum homem mortal pudesse estar perto dele sem sentir o coração inchar de inveja.
Sakura não acreditava em seus ouvidos. Como uma mãe podia ser tão cruel? Assim que esse pensamento passou por sua cabeça, outro, ainda mais horrível, ocorreu-lhe.
– Você é a razão de Penélope ter morrido, não é?
– Não. Sasuke fez isso sozinho. Certo, eu fiquei furiosa quando Eros me contou o que tinha feito pelo irmão, com o fato de Sasuke ter procurado ele, e não eu. Como não podia desfazer o efeito da flecha de amor de Eros, decidi mitigar seus efeitos. O que Sasuke tinha com Penélope era vazio, e ele sabia disso. – Ela foi até a janela para olhar a cidade. – Se Sasuke tivesse me procurado, eu teria revertido a situação. Mas ele não foi. Eu o observei ir até ela noite após noite, possuindo-a repetidas vezes, e senti sua inquietação e sua angústia com o fato de ela não amá-lo realmente. Ainda assim, ele me negou e me amaldiçoou. Foram as minhas lágrimas por essa traição que, a princípio, colocaram Príapo contra ele. Príapo sempre foi o mais leal dos meus filhos. Assim que percebi que ele queria vingar-se de Sasuke, eu deveria tê-lo impedido. Mas não fiz isso. Tinha esperança de que a raiva de Príapo levasse Sasuke a me procurar. A pedir minha ajuda. – Ela cerrou os dentes e disse: – Mas ele não fez isso.
Sakura compadeceu-se de Afrodite, o que não mudava o que ela fizera com o próprio filho.
– Como Sasuke foi amaldiçoado?
Afrodite engoliu em seco. – Começou na noite em que Atena disse a Príapo que não contava com nenhum homem tão corajoso e forte como Sasuke. Ela o desafiou a opor seu melhor general contra o dela. Dois dias depois, eu vi Sasuke cavalgar para a batalha e soube que ele não perderia. Quando ele rechaçou os romanos, Príapo enfureceu-se. Assim que Eros deixou escapar o que fizera por Sasuke, Príapo imediatamente foi atrás de Jasão e Penélope. Eu não tinha ideia de quais seriam as consequências disso. – Ela cruzou os braços trêmulos. – Eu nunca quis que as crianças morressem. Você não pode imaginar quantas vezes por dia eu sofro por causa do que permiti que acontecesse.
– Não havia como você ter impedido esse desfecho?
Ela meneou a cabeça com tristeza. – Até mesmo os meus poderes são limitados pelas Parcas. Quando Sasuke foi ao meu templo após a morte das crianças, eu fiquei na expectativa achando que ele finalmente se voltaria para mim. Então, ele viu aquela vagabunda usando o manto de Príapo. Ela se atirou em cima dele, implorando que ele a desvirginasse antes da cerimônia em que Príapo a reivindicaria. Sasuke tentou passar por ela, mas a mulher não o largou. Se ele estivesse pensando com clareza, sei que a teria rejeitado. – A face de Afrodite revelou a raiva que sentia. – Se não fosse por Alexandria, meu filho teria voltado para mim aquele dia. Sei que ele teria recorrido a mim. Mas era tarde demais. Assim que eles terminaram, era tarde demais.
– E, ainda assim, você se recusou a ajudar Sasuke?
– Como eu poderia escolher um filho em detrimento do outro?
Sakura chocou-se com a pergunta. – Não foi o que você fez quando permitiu que Sasuke fosse preso em um pergaminho?
Os olhos de Afrodite brilharam com tanta maldade que Sakura recuou um passo.
– Foi Sasuke quem me rejeitou. Tudo o que ele precisava fazer era pedir minha ajuda, e eu a teria dado.
Inacreditável! Para uma deusa, Afrodite era incrivelmente egoísta e limitada.
– Toda essa tragédia aconteceu porque vocês dois se recusam a reconhecer um ao outro. Não consigo acreditar que você tornou Sasuke forte e, então, o amaldiçoou pela força que lhe deu. Em vez de esperá-lo ou de enviar representantes, alguma vez lhe ocorreu ir até ele pessoalmente?
O olhar de Afrodite revelou indignação. – Eu sou a deusa do amor! Você queria que eu rastejasse? Você tem alguma ideia de como é embaraçoso para mim que meu próprio filho me odeie?
– Embaraçoso para você? Você tinha o mundo inteiro para amá-la. Sasuke não tinha ninguém.
Afrodite avançou um passo, com raiva. – Fique longe dele. Estou avisando.
– Por quê? Por que você me avisaria, se não avisou Penélope?
– Porque ele não a amava.
Sakura ficou paralisada. – Você está dizendo...
Afrodite sumiu. – Oh, vamos lá! – Sakura gritou para o teto. – Você não pode desaparecer no meio de uma conversa!
– Sakura?
Ela se sobressaltou ao ouvir a voz de Beth. Virando-se, viu-a espiando pela porta.
– Com quem você está falando?
Sakura fez um gesto indicando o aposento, mas, pensando melhor, decidiu não contar a verdade.
– Comigo mesma.
Beth fitou-a com ceticismo. – Você sempre grita consigo mesma?
– Às vezes.
A colega arqueou a sobrancelha. – Parece que precisamos marcar uma sessão – disse, retirando-se da sala.
Não a levando em consideração, Sakura não perdeu tempo reunindo seus pertences. Queria voltar logo para Sasuke. Assim que abriu a porta, ela soube que havia algo errado. Sasuke não estava lá para cumprimentá-la.
– Sasuke? – ela chamou.
– Aqui em cima.
Sakura deixou as chaves e a correspondência na mesa e subiu a escada de dois em dois degraus.
– Você não vai acreditar quando souber quem foi até o meu...
Ela parou de falar ao chegar à porta do quarto e avistar Sasuke com uma das mãos algemadas à cama. Ele estava deitado no meio do colchão, sem camisa, com a testa úmida de suor.
– O que você está fazendo? – ela indagou, consumida pelo medo.
– Não consigo mais lutar contra isso, Sakura – ele respondeu, ofegante.
– Você precisa. Ele meneou a cabeça.
– Preciso que você algeme minha outra mão. Não consigo alcançar.
– Sasuke...
Ele a interrompeu com uma risada áspera e amarga.
– Não é irônico? Eu preciso implorar para que você me acorrente, enquanto as outras faziam isso logo depois que eu encarnava. – O olhar de Sasuke fixou-se no seu. – Faça isso, Sakura. Eu não me perdoaria se a machucasse.
Com a garganta apertada, ela atravessou o quarto.
Quando se aproximou, Sasuke estendeu a mão livre e tocou-a no rosto. Puxando-a, deu-lhe um beijo tão intenso que ela achou que fosse desmaiar. Era um beijo ardente, exigente, desejoso. Um beijo que continha uma promessa. Ele mordiscou seu lábio antes de afastar-se.
– Faça isso.
Sakura obedeceu, e só então Sasuke relaxou.
Até aquele instante, não percebera o quanto ele estivera tenso na última semana. Ele deitou a cabeça nos travesseiros e inspirou fundo. Ela pôs a mão na testa úmida de Sasuke.
– Meu Deus! – A temperatura era tão alta que ela praticamente sentiu sua pele queimar. – Eu posso fazer alguma coisa?
– Não, mas obrigado por perguntar.
Sakura foi até a cômoda pegar suas roupas. Começou a desabotoar a blusa, mas Sasuke a impediu de prosseguir.
– Por favor, não faça isso na minha frente. Se eu vir o seu corpo...
Ele lançou a cabeça para trás, como se alguém o tivesse queimado com um ferro quente. Naquele instante, ela se deu conta do quanto se sentia confortável com ele.
– Desculpe – ela disse.
Foi ao banheiro trocar de roupa e preparou uma compressa fria. Voltando ao quarto, ela passou a mão pelos cabelos suados de Sasuke.
– Você está pegando fogo.
– Eu sei. Parece que estou deitado em uma cama com carvões acesos.
Ele sibilou ao sentir o tecido frio em contato com a pele.
– Você não me contou como foi o seu dia – ele falou, ofegante.
Sakura sentiu-se sufocar com a felicidade e o amor que a preencheram. Todos os dias, ele lhe perguntava aquilo. Todos os dias, ela esperava ansiosamente o momento de voltar para casa e encontrá-lo. Não tinha ideia do que faria quando Sasuke fosse embora. Forçando-se a não pensar nisso, concentrou-se em cuidar dele.
– Não há muito para contar – ela sussurrou. Sakura não queria sobrecarregá-lo com o que a mãe dele dissera. Não enquanto ele estivesse daquele jeito. Fora ferido o suficiente na vida, e ela não queria piorar a situação.
– Você está com fome? – Sakura perguntou.
– Não.
Ela se acomodou ao lado dele. Passou a noite lendo para ele e banhando a pele febril.
Sasuke não dormiu aquela noite. Não conseguiu. Tudo o que conseguia era sentir a pele de Sakura na sua, aspirar o doce aroma floral que invadia sua mente e perturbava seus sentidos.
Todos os nervos de seu corpo clamavam por ela. Rangendo os dentes, agarrou as algemas prateadas e lutou contra o turbilhão que ameaçava engolfá-lo na escuridão. Não queria se render. Não queria fechar os olhos e perder um único minuto da companhia de Sakura, enquanto ainda estava são. Se permitisse que a escuridão o dominasse, talvez não despertasse até estar no livro de novo. Sozinho.
– Não posso perdê-la – ele sussurrou.
O simples pensamento despedaçava o pouco que restara de seu coração.
O relógio do corredor marcou três horas. Sakura adormecera havia pouco tempo. Estava deitada com a cabeça e a mão em seu abdômen, e ele sentia a respiração suave em seu estômago. Os cabelos macios faziam cócegas em sua pele e o calor do corpo feminino penetrava sua alma. Daria tudo para poder tocá-la.
Fechando os olhos, descansou a cabeça no travesseiro e permitiu-se sonhar pela primeira vez em séculos. Sonhou com noites passadas ao lado de Sakura; com dias rindo ao lado dela. Sonhou com um dia em que pudesse amá-la como ela merecia ser amada.
Um dia em que seria livre para entregar-se a ela.
Sonhou com um lar ao seu lado. E, especialmente, sonhou com crianças de felizes olhos verdes e sorrisos meigos e travessos.
Ainda estava sonhando com essas coisas, quando a luz da manhã irrompeu no quarto.
O relógio marcou seis horas e Sakura despertou. Ela esfregou o rosto em seu peito, afagando-o de um jeito que era pura tortura.
– Bom-dia – ela falou, sorrindo.
– Bom-dia.
Ela mordeu o lábio ao percorrê-lo com o olhar, a testa enrugada de preocupação.
– Tem certeza de que precisa fazer isso? Eu não posso soltá-lo um pouquinho?
– Não! – ele recusou com veemência.
Ela pegou o telefone e ligou para Beth.
– Não vou poder trabalhar por alguns dias. Você pode assumir alguns dos meus pacientes?
Sasuke franziu o cenho. – Você não vai trabalhar? – ele perguntou assim que ela encerrou a ligação.
Sakura não acreditava que ele lhe perguntara aquilo. – E deixá-lo aqui desse jeito?
– Eu ficarei bem.
Ela o fitou como se ele tivesse perdido o juízo.
– E se algo acontecer?
– O que, por exemplo?
– A casa pegar fogo, ou alguém entrar e fazer sabe-se lá o que com você enquanto está impotente para defender-se.
Sasuke não discutiu. Apenas apreciou o fato de ela estar disposta a permanecer ao seu lado.
No meio da tarde, Sakura notou como a maldição havia piorado. Cada centímetro do corpo de Sasuke estava coberto de suor. Os músculos dos braços estavam tensos, e ele mal falava. Quando o fazia, era por entre os dentes cerrados. Ainda assim, ele sorria para ela com os olhos calorosos e encorajadores, enquanto ela observava seus músculos se contraírem ao enfrentar o que parecia estar corroendo-o.
Continuou banhando-o. Porém, assim que o tecido entrava em contato com a pele dele, ficava tão quente que ela mal conseguia tocá-lo.
Ao anoitecer, Sasuke estava delirante.
Impotente, viu-o contorcer-se e praguejar, como se uma pessoa invisível estivesse esfolando cada centímetro de seu corpo. Nunca testemunhara algo semelhante. Ele lutava com tamanha intensidade que ela temeu que a cama se quebrasse.
– Não posso suportar isso – ela sussurrou.
Correndo para baixo, ligou para Ino. Uma hora depois, Sakura deixou Ino e a irmã, Tiyana, entrarem em sua casa. Com cabelos castanhos e olhos cinza, Tiyana se parecia muito pouco com Ino. Uma das poucas grandes sacerdotisas vodu brancas, ela era dona de uma loja dedicada ao vodu e conduzia passeios noturnos pelos cemitérios às sextas-feiras à noite.
– Não consigo agradecê-las o bastante por terem vindo – disse Sakura, fechando a porta.
– Sem problemas – falou Ino.
Tiyana segurava um tambor sob o braço e usava um vestido marrom simples.
– Onde ele está?
Sakura as levou para cima. Tiyana deu um passo para dentro do quarto e imobilizou-se ao ver Sasuke contorcendo-se na cama, enquanto praguejava contra todo o panteão grego.
Ela empalideceu. – Não posso fazer nada por ele.
– Tiy ana
– Ino a repreendeu –, você precisa tentar.
Com os olhos arregalados de medo, ela meneou a cabeça. – Quer um conselho? Tranque este quarto e deixe-o aí até que volte para onde veio. Há um mal tão forte ao redor dele que eu não ouso mexer com isso. – Olhou para Ino. – Você não consegue sentir a maldade?
Sakura tremia, com o coração acelerado.
– Ino? – ela chamou, precisando desesperadamente encontrar uma forma de acalmá-lo. Tinha de haver algo que pudessem fazer.
– Você sabe que eu não posso ajudar – Ino falou. – Meus feitiços nunca funcionam.
Não!, a mente de Sakura gritou. Elas não podiam deixá-lo daquele jeito. Olhou para Sasuke, que lutava contra as algemas.
– Existe mais alguém que podemos chamar?
– Não – Tiy ana respondeu. – Na verdade, eu não posso ficar aqui. Sem ofensa, mas isso me provoca calafrios. – Olhou para Ino, dizendo: – E você sabe o tipo de coisas esquisitas com as quais eu lido diariamente.
– Sinto muito, Sakura. – Ino passou a mão no braço da amiga. – Vou pesquisar e ver o que descubro, certo?
Com a garganta apertada, Sakura não teve escolha a não ser acompanhá-las até a saída.
Fechando a porta, apoiou-se nela, cansada. O que iria fazer? Não podia aceitar que não houvesse nada a ser feito por Sasuke. Devia haver algo que aliviasse a dor que ele estava sentindo. Algo no que não tinha pensado. Subindo de novo, aproximou-se dele.
– Sakura?
O grito de agonia comprimiu seu coração.
– Estou bem aqui, querido. – Ela o tocou na testa. Sasuke emitiu um rosnado selvagem, como o de um animal preso em uma armadilha, ao investir o corpo na direção dela.
Terrificada, Sakura afastou-se da cama. Com as pernas trêmulas, foi até o closet e encontrou uma cópia da Odisseia. Pôs a cadeira de balanço perto da cama e começou a ler. Isso pareceu acalmá-lo, pois ele deixou de se contorcer com tanta violência.
Conforme os dias passavam, a esperança de Sakura fenecia. Sasuke estivera certo. Não havia como romperem a maldição, se ele não emergisse daquela loucura. Além disso, ela não suportava vê-lo sofrer, hora após hora, sem alívio algum. Não a surpreendia que ele odiasse a mãe. Como Afrodite podia permitir que ele enfrentasse aquilo sem ajudá-lo? E ele sofrera daquela forma por séculos.
Sakura não sabia mais o que fazer.
– Como vocês conseguem? – ela gritou, irada, olhando para o teto. – Eros! – ela chamou. – Você pode me ouvir? Atena? Alguém? Como vocês podem deixá-lo passar por isso sem fazer nada? Se vocês têm algum amor por ele, por favor, me ajudem a ajudá-lo.
Como esperava, ninguém respondeu.
Apoiando a cabeça na mão, tentou pensar em algo mais que pudesse tentar. Com certeza, havia... De repente, uma luz brilhou no quarto.
Assustada, ela ergueu o rosto e viu Afrodite materializar-se perto da cama.
Não poderia ter ficado mais atordoada se tivesse encontrado um jumento em sua casa.
Com o rosto pálido e contraído, Afrodite via seu filho convulsionando-se em absoluto sofrimento. Estendeu a mão até ele, mas a puxou de volta bruscamente e, cerrando o punho, baixou-a ao lado do corpo.
Foi então que olhou para Sakura e disse: – Eu o amo.
– Eu também.
Afrodite olhou para o chão, mas ainda assim Sakura notou seu tumulto interior.
– Se eu o libertar, você vai tomá-lo de mim para sempre. Se eu não o libertar, nós duas o perderemos. – Afrodite encarou Sakura e continuou: – Pensei no que me disse, e você tinha razão. Eu o tornei forte e nunca deveria tê-lo punido por isso. Tudo o que eu sempre quis foi que ele me chamasse de mãe. – Olhou para o filho. – Eu apenas queria que você me amasse, Sasuke. Só um pouco.
Sakura engoliu em seco ao avistar a dor no rosto de Afrodite, quando ela tocou a mão de Sasuke.
Ele sibilou, como se o toque queimasse sua pele.
Afrodite afastou-se.
– Sakura, prometa que você vai cuidar bem dele.
– Pelo tempo que ele permitir, eu vou. Prometo.
Anuindo, Afrodite colocou a mão na testa do filho.
Sasuke lançou a cabeça para trás, como se tivesse sido atingido por um raio. Ela se inclinou sobre ele e deu-lhe um beijo leve nos lábios.
Instantaneamente, o corpo de Sasuke ficou flácido. As algemas se abriram, mas ele não se moveu. O coração de Sakura pareceu parar quando ela percebeu que ele não estava respirando. Aterrorizada, estendeu a mão trêmula até ele. Nesse instante, Sasuke inspirou profundamente.
Os olhos de Afrodite refletiam um anseio familiar, conforme ela esticava a mão para um filho que sequer tinha consciência de sua presença. Era o mesmo olhar que Sakura identificava com tanta frequência em Sasuke, quando ele não sabia que estava sendo observado. Como duas pessoas podiam necessitar uma da outra tão desesperadamente e, ainda assim, não serem capazes de se entender?
No momento em que Sasuke abriu os olhos, Afrodite sumiu. Sakura aproximou-se dele. Sasuke tremia tanto que seus dentes batiam. Sem febre, a pele estava fria como o gelo. Ela pegou os cobertores no chão e ajeitou-os sobre ele.
– O que aconteceu? – ele perguntou, com a voz trêmula.
– Sua mãe o libertou.
Sasuke encarou-a, estupefato. – Minha mãe? Ela esteve aqui?
Sakura anuiu. – Ela estava preocupada com você.
Sasuke não acreditava no que estava ouvindo. Aquilo seria possível? Mas por que sua mãe o ajudaria agora, após todas as vezes em que virara as costas ao seu sofrimento e o abandonara? Não fazia sentido.
Franzindo o cenho, ele começou a sair da cama.
– Não faça isso – ela disse bruscamente. – Eu acabei de tê-lo de volta, e eu...
– Eu realmente preciso ir ao banheiro – ele a interrompeu.
– Oh... – Sakura ajudou-o a se levantar.
Com as pernas fracas, ele precisou do apoio dela para andar pelo corredor. Sasuke fechou os olhos ao inalar o doce perfume de Sakura.
Temeroso em machucá-la, tentou não pôr muito de seu peso nos ombros delicados. Seu coração se aqueceu com o modo como Sakura o ajudava, com a sensação de ter os braços dela ao redor de sua cintura enquanto ela o acompanhava pelo corredor. Sua Sakura...
Como poderia algum dia desistir dela?
Depois que ele se aliviou, ela lhe preparou um banho quente e o ajudou a entrar na banheira. Sasuke encarou-a enquanto ela o banhava. Não conseguia acreditar que ela ficara ao seu lado o tempo todo. Não se lembrava muito dos últimos dias, mas recordava o som da voz de Sakura acalmando-o em meio à escuridão. Ele a escutara chamando-o. E tinha certeza de que algumas vezes sentira a mão dela em sua pele, arrancando-o da loucura.
O toque de Sakura fora sua salvação.
Fechando os olhos, desfrutou da sensação das mãos delicadas deslizando por seu corpo. Por seu peito, braços, abdômen. Como a desejava!
– Beije-me – ele sussurrou.
– É seguro?
Ele sorriu.
– Se eu pudesse me mexer, você já estaria nesta banheira comigo. Eu lhe asseguro que, no momento, estou impotente como um bebê.
Ela lambeu os lábios ao roçar a mão direita sobre a dele.
O toque era suave e quente, e ela fitou sua boca como se pudesse devorá-lo. Aquele olhar fez milagres banindo o frio que ele estava sentindo.
Inclinando-se, ela o beijou profundamente. Sasuke gemeu, desejando mais. Precisando de mais. Para seu espanto, ele obteve.
Sakura afastou-se de seus lábios apenas o suficiente para despir-se. Devagar e sedutoramente, ela entrou na banheira, posicionando-se sobre sua cintura. Sasuke emitiu outro gemido ao sentir o corpo feminino junto ao seu. Ela deu-lhe mais um beijo tão ardente que o incendiou. Diabos! Não conseguia nem ao menos abraçá-la! Seus braços não saíam do lugar. E desejava desesperadamente apertá-la com força junto a si. Ela devia ter sentido sua frustração, pois se afastou com um sorriso.
– É a minha vez de cuidar de você – ela sussurrou, antes de beijá-lo no pescoço.
Ele fechou os olhos, sentindo-a baixar a boca até seu peito.
Quando ela chegou ao seu mamilo, Sasuke abandonou-se ao prazer despertado pelas carícias dos lábios de Sakura. Nunca algo o tocara tão profundamente quanto aquilo. Não se lembrava da última vez em que alguém realmente fizera amor com ele.
E nunca com tanta intensidade. Tanta generosidade.
Arfou quando ela passou a acariciá-lo com a mão.
– Gostaria de poder fazer amor com você – ele sussurrou.
Erguendo a cabeça, ela o fitou. – Você faz isso cada vez que me toca.
De alguma forma, ele encontrou forças para passar seus braços trêmulos ao redor dela e puxá-la de encontro ao peito, tomando-lhe os lábios. Escutou-a tirar o tampão da banheira com o pé ao aprofundar o beijo, enquanto as mãos o atormentavam com carinhos por todo o corpo.
Sua cabeça girava com as sensações que ela despertava. O toque de Sakura lhe era fundamental. Almejava-o de uma forma que era incapaz de definir.
Assim que a água escorreu, Sakura abandonou seus lábios e traçou um caminho de fogo por seu corpo. Inclinando a cabeça para trás, ele se apoiou na borda da banheira enquanto ela passava a língua por seu abdômen. Então, para seu choque, ela deslizou mais para baixo, envolvendo seu corpo entre os lábios. Ele emitiu um ruído áspero de prazer e estendeu a mão para tocá-la, desfrutando da maravilhosa sensação.
Nenhuma mulher fizera aquilo antes. Elas tinham apenas tomado tudo dele; nenhuma delas nunca lhe oferecera nada. Não até Sakura.
Aquele toque despedaçava os resquícios de sua vontade, de sua resistência a ela. Seu corpo inteiro tremia com o calor daquela atitude.
– Desculpe – ela disse, recuando. – Você está com frio. Está tremendo de novo.
– Não estou tremendo por sentir frio – ele falou com voz rouca. – Estou tremendo por você.
Com um lindo sorriso que o atingiu no coração, ela retomou a implacável investida.
Quando Sakura terminou, ele não estaria mais satisfeito se tivesse atingido o clímax.
Ela o ajudou a sair da banheira. Seus membros ainda tremiam, e ele precisou de ajuda para chegar ao quarto. Sakura deitou-o com gentileza na cama e cobriu-o. Depositou um beijo terno em sua testa, ajeitando as cobertas ao seu redor.
– Você está com fome?
Sasuke anuiu. Ela foi esquentar um prato de sopa. Porém, ao voltar ao quarto, encontrou-o profundamente adormecido. Deixou o prato no criado-mudo e acomodou-se na cama. Aninhando-se junto a ele, adormeceu também.
Sasuke levou três dias para recuperar-se. E, o tempo todo, Sakura ficou com ele. Ajudando-o. Ele achava difícil compreender tamanha força e devoção. Esperara por ela toda a sua vida. E, conforme os dias passavam, percebia o quanto a amava. O quanto precisava dela.
– Preciso dizer a ela – ele sussurrou, ao enxugar-se após o banho.
Ele não podia permitir que ela ficasse mais um dia sem saber o quanto significava para ele.
Saindo do banheiro, dirigiu-se ao quarto, onde Sakura falava ao telefone com Ino.
– Claro que eu não contei o que a mãe dele disse. Nossa!
Sasuke recuou, apoiando-se na parede enquanto ela prosseguia com a conversa.
– O que você queria que eu dissesse? Oh, Sasuke, a propósito, sua mãe ameaçou minha vida?
Ele se sentiu como se alguém o tivesse golpeado com força no plexo solar. Com a visão escurecendo, entrou no quarto.
– Quando você falou com a minha mãe? – ele exigiu saber.
Sakura fitou-o, chocada.
– Ah, Porca, preciso ir. Tchau.
Ela desligou o telefone.
– Quando você falou com ela? – ele perguntou de novo.
Sakura deu de ombros com indiferença. – No dia em que você ficou maluco.
– O que ela disse?
Ela se encolheu, embaraçada.
– Não foi realmente uma ameaça. Ela apenas disse que não o dividiria comigo.
Sasuke foi tomado pela ira. Como ela ousava! Quem diabos sua mãe pensava que era para exigir algo dele ou de Sakura? Que tolo ele fora por chegar a pensar que o coração de sua mãe havia se abrandado em relação a ele! Quando aprenderia?
– Sasuke... – Sakura levantou-se e foi até ele, diante da cama. – Ela mudou de ideia. Quando ela veio aqui para libertá-lo...
– Pare, Sakura – ele a interrompeu. – Eu a conheço muito melhor do que você.
E ele sabia do que sua mãe era capaz. A crueldade de seu pai parecia de brinquedo em comparação à de Afrodite. Com o coração pesado, ele se deu conta de que nunca poderia revelar a Sakura o que sentia. Sabia também que não poderia ficar com ela. Nunca. Se ele tinha aprendido alguma coisa, era que os deuses nunca permitiriam que vivesse em paz. Quanto tempo até que um deles a ferisse? Quanto tempo até que Príapo a usasse para vingarse dele? Ou que sua mãe descarregasse o ódio em ambos? Mais cedo ou mais tarde, ele pagaria por sua felicidade. Não duvidava disso. E a ideia de Sakura sofrendo... Não. Esse era um risco que não correria.
Os dias voaram, ao passarem juntos o máximo de tempo possível.
Sasuke ensinou a Sakura cultura grega clássica e formas muito interessantes de apreciar chantili e calda de chocolate, e Sakura o ensinou a jogar Banco Imobiliário de um modo criativo e sensual e a ler em seu idioma. E, após diversas aulas ao volante e uma nova embreagem, ela perdeu as esperanças de que Sasuke se tornasse um bom motorista. Ela tinha a impressão de que haviam passado poucos dias. Mesmo assim, o último dia do mês chegou com uma rapidez apavorante. E o pior de tudo era que, na noite anterior, ela fez uma descoberta alarmante.
Sasuke era a única pessoa sem a qual não poderia viver.
Quando pensou em sua vida voltando ao que era antes dele, sentiu uma dor tão profunda em seu coração que teve certeza de que morreria. Mas, no final, sabia que a escolha era unicamente dele.
– Por favor, Sasuke – ela sussurrou enquanto ele dormia ao seu lado. – Não me abandone.
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