Olá Bacantes! Mais um capítulo sendo respostado.

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Beijo das bacantes ;*

*********************** Cap 7 Convocação de prata **********************

Após a reunião dourada todos regressaram a seus Templos. Alguns ansiosos com a novidade, outros receosos ou curiosos, mas um cavaleiro em especial estava indignado!

Shaka de Virgem não conseguia se conformar com a novidade.

Gêmeos estava transformando o Santuário em um antro de decadência e aos cavaleiros em libertinos. Ainda teve o desplante de obrigar Mu a trabalhar na tal casa de tolerância.

Shaka sentia ganas em matar o geminiano e livrar o Santuário de sua má influência, mas se fizesse isso, além de começar uma guerra estaria apenas repetindo a história e sendo como Gêmeos.

Não havia o que fazer, a não ser treinar, meditar e elevar seu Cosmo para salvar pelo menos sua alma e a de Atena, quando esta regressasse e certamente morresse logo em seguida de desgosto ao ver no que seus guerreiros se tornaram.

— Shaka... — a voz de Mu, que descia as escadarias a seu lado, tirou o virginiano de seus pensamentos. Já estavam em frente ao Templo de Virgem quando Áries parou para se despedir — Preciso organizar minha mudança de Jamiel para a Casa de Áries. Você poderia me auxiliar? Amanhã bem cedo trago minhas coisas para cá. — perguntou Mu, que ainda estava meio desconcertado depois da reunião.

— Claro, Mu. — respondeu Virgem retirando o elmo da cabeça — Ter você por perto novamente será muito bom! Você é o único de nós, além de mim, que parece ter ainda algum juízo e respeito pelo nome de Atena.

Mu sorriu e de forma singela se despediu do amigo com um aperto de mãos, para logo em seguida se teleportar para Jamiel.

Shaka então entrou em seu Templo, e enquanto resmungava toda sorte de impropérios contra Saga de Gêmeos, retirou a armadura sagrada, fez uma sopa de ervilhas e correu para seu quarto para fazer a única coisa que distraía sua mente dos desgostos de se viver num antro de pecados e vícios: foi ver novela.

Era completamente alucinado pelas novelas indianas que, por sorte, sua pequena e já bem surrada antena parabólica conseguia captar.

A televisão e toda a gama de pessoas com histórias repletas de dramas e romances que cabiam dentro dela, fora a única companhia do virginiano ao longo dos anos, já que se mantinha recluso em seu Templo sempre resignado a não se envolver com a máfia e nem acatar as ordens que Gêmeos impunha aos demais cavaleiros.

Sendo assim, ligou a TV, mas o capítulo da novela estava no final.

Os contratempos da reunião lhe fizeram perder justamente a cerimônia de casamento de Ralej e Síbila, a qual aguardava há meses. Jogou a colher dentro do prato de sopa enquanto olhava revoltado para os créditos que subiam na tela.

— Maldito Gêmeos e sua casa de tolerância! Bom... Terei que levantar mais cedo para ver a reprise! — ralhou.

Sim. Por causa do fuso horário a novela tão amada de Shaka era captada em dois horários na Grécia, de manhã e de noite. E ele assistia nos dois.

Como perdera o capítulo, engoliu a sopa sem vontade alguma e foi para sua lótus meditar, onde não ficou por muito tempo. Logo voltou ao quarto para se deitar, pois de manhã ajudaria Mu com a mudança.

Pegou no sono com um leve sorriso no rosto.

Em Jamiel, Mu também se preparava para dormir.

Já tinha organizado praticamente todos os seus pertences e agora olhava para as caixas empilhadas na sala da torre onde morava pensando no quanto adorava aquele lugar. Sentiria falta!

Distraído, sua mente divagava nas lembranças do que vivera ali, muitas das quais sempre envolviam seu Mestre. Juntou as ferramentas celestes com nostalgia e selou a caixa com fita, recordando com carinho de quando Shion lhe ensinara a usar cada uma delas.

Contudo, Mu não levava consigo apenas pertences, mas também muitas dúvidas.

Seu contato com o Santuário e com Saga depois de tantos anos, por fim não fora tão ruim quanto Shion o alertara. Gêmeos não parecia ter a intenção de matá-lo. Muito pelo contrário, tinha até lhe oferecido um cargo de importância na tal casa de tolerância.

Falando dela, Áries ainda estava bem confuso.

Afinal, por que pessoas iam querer pagar para se deitarem com outras?

Shion lhe ensinara qual a função do sexo na vida do homem e da mulher, a qual era promover sua descendência. Dessa forma, o casal se apaixonava, casava, faziam sexo e tinham filhos. Tudo com muito amor e respeito acima de tudo. Não compreendia, portanto, por que alguém pagaria a outro para fazer sexo, tampouco como podiam se deitar com qualquer um sem amor.

"E por que Peixes e Lagarto também vão trabalhar lá? Mulheres também pagam pra se deitar com homens?" — pensava confuso.

Foi com todas essas dúvidas que Mu foi para a cama naquela noite.

Na Grécia o dia tinha começado bem cedo para Shaka, que pulou da cama com os primeiros raios de sol, meditou entre suas Salas Gêmeas, tomou café e eufórico, tanto pelo fato de que logo iria rever o amigo ariano, quanto pelo capítulo da novela que começava, se jogou na cama para enfim testemunhar o casamento de Ralej e Síbila.

Minutos depois, com o capítulo já na metade, mas com os noivos enfim casados e abençoados, como em toda boa novela indiana agora iniciava-se uma longa tomada de danças, onde os noivos executavam coreografias bem ensaiadas ao som de uma música alegre.

— Ah, eles se casaram mesmo a família não aprovando! Buda, que amor poderoso o deles! — dizia Virgem alegre.

Então Shaka aumentou o som da TV e como se fosse um dos convidados da festa começou a dançar em frente ao aparelho, celebrando o enlace dos noivos.

Empolgado, pegou um véu dourado que estava sobre o biombo de madeira que tinha no quarto e tal qual um dos dançarinos da telinha, balançava o tecido fino por cima da cabeça, girando ele no ar, jogando para cima e apanhando, sempre espiando a festa que rolava solta na TV.

Tinha esquecido por uns momentos as monstruosidades que Saga dissera na noite passada.

Enquanto isso, na casa de Áries Mu acabava de se teleportar de Jamiel com todos os seus pertences.

Deixou as caixas espalhadas pelo Templo e, como já havia tomado café, subiu para Virgem para avisar Shaka de que chegara.

Quando entrou na Sexta Casa, porém, escutou ao longe a música que tocava.

Distraído foi caminhando em direção ao som, adentrando o Templo de Virgem ao passo que o volume aumentava sem nem se lembrar de se anunciar, afinal há anos não executava os protocolos do Santuário, e era normal se esquecer de que todos deveriam se anunciar ao passar pelas Casas.

Franziu a testa quando pensou entender o que a música dizia, apesar de parecer estar em hindi, o idioma materno de Shaka.

— Vai lá, Rivaldo... sai desse... lago? — balbuciou baixinho repetindo o que ouvia no refrão.

Só quando estava de frente para a porta do quarto de Virgem é que se deu conta de que praticamente invadira a casa do amigo, e do quão rude estava sendo. Por isso, elevou seu Cosmo gentilmente avisando ao virginiano de sua presença.

Dentro do quarto, quando sentiu o chamado pelo Cosmo de Mu, Shaka, que dançava com o véu todo enrolado em sua cabeça, parou de súbito olhando para a porta fechada em estado catatônico.

"Mu!... Mu! Por Buda, ele já chegou! Ele está aqui!" — a mente do virginiano gritava para si mesmo, lhe dando um tranco que o fez correr de um lado para outro do quarto, abestalhado e sem rumo.

Parou, olhou para a TV e pensou em desligá-la, mas como explicaria a música alta?

E como explicaria que havia um aparelho de televisão ali? No Templo de Virgem! Um lugar de meditação e reclusão dos vícios do mundo externo?

"Buda, me ajude!" — pensava desesperado.

Até que teve uma ideia e então pegou o controle remoto da TV e o esmagou com a mão, o colocando precisamente no chão no meio do quarto de frente para a televisão.

Ascendeu seu Cosmo minimamente e encostando o dedo no botão de ligar lhe deu uma pequena descarga de energia, o danificando e desligando o aparelho.

Mu percebeu o Cosmo do amigo ser ativado e a música parar de repente. Achou estranho.

— Shaka? Está tudo bem? — perguntou por trás da porta.

— Ah... sim, Mu!... Já estou indo! — respondeu Virgem correndo até a porta, mas no percurso se lembrou do véu dourado enrolado na cabeça, parou e o retirou com desespero, ficando todo descabelado, então respirou fundo, uma, duas, três vezes, fechou os olhos e abriu a porta.

— Mu! Que bom que chegou, amigo! — disse sério, muito concentrado, mas com o rosto alvo pegando fogo — Será que você pode me ajudar? Estou tendo um pequeno problema aqui.

Mu olhou para o indiano e estranhou ele estar todo descabelado. Os olhos também estavam fechados de novo, aliás, teria que perguntar a ele sobre isso alguma hora.

— Um problema? Claro, mas o que seria? Quando cheguei o Templo de Virgem parecia tão animado! — sorriu para ele e fez uma careta tentando entender a mudança brusca na aura do local.

— Ah, sim, bem... Venha comigo, por favor, Mu. — Shaka pegou na mão do ariano e o conduziu pelo quarto — Está vendo esse aparelho nefasto? Pois bem, eu ganhei do... do Aldebaran!

Mu franziu a testa.

— Do Aldebaran? — perguntou o lemuriano, confuso.

— Sim... ele... ele o trouxe do Brasil. Bem, não sei por quê ele quis me dar uma televisão, mas... Enfim, vim colocar essa túnica mais leve para ir te ajudar na mudança, quando sem querer pisei no controle remoto do aparelho mundano e... Ele ligou!... Só que, como eu pisei no controle... ele quebrou, está vendo? — apontou para o controle esmagado no chão — Aí, não conseguia desligar esse troço barulhento dos seis infernos, fiquei nervoso, e acho que acabei quebrando quando apertei o botão manual. Veja! — aproximou-se indicando o botão que havia danificado de propósito.

Mu se inclinou para olhar o botão, que parecia derretido, enquanto Shaka continuava o falso relato.

— Agora não sei o que fazer, pois... Não queria que o Touro ficasse chateado por eu ter quebrado o presente que ele me deu. Mesmo que eu não assista televisão, pois é contra meus princípios religiosos, foi um presente e não se renega presentes. Então pensei se você... Saberia consertar.

— Nossa, Shaka! Devia estar mesmo incomodado com o som alto! Olha, só! Derreteu o botão! — disse o lemuriano espantado — Bem, eu não entendo muito desses aparelhos, pois não os tínhamos lá na torre onde eu morava, só no vilarejo. Mas posso levar para o meu Templo, pesquiso como funciona e vejo se consigo consertar. Já que você não usa mesmo, não se importa se demorar um pouco, né?

— N-Não. — respondeu o loiro engolindo seco — "Logo agora que Ralej e Síbila se casaram! Vou perder as núpcias!" — pensava, soltando um suspiro.

Mu então se abaixou, puxou os fios da tomada, apanhou o controle remoto quebrado do chão e fez ambos flutuarem por instantes para logo em seguida teleportá-los para a Casa de Áries, mais precisamente para sua forja.

Áries não entendia nada de eletrônica, mas não contaria isso a Virgem, e sim daria um jeito de mandar arrumar fora. Ele nem desconfiaria!

Shaka sentiu um aperto no coração quando sua amada TV sumiu bem diante de seus olhos fechados.

Quantos dias será que teria que sacrificar sua novela e suas fitas de Bollywood?

Será que Ralej e Síbila se uniriam na noite de núpcias? Ou será que a irmã invejosa, a maldita Kalii, armaria um plano para atrapalhar novamente a vida do casal?

"Oh, Buda! Os sacrifícios que nos são exigidos nessa vida!" — pensava.

— Bom, agora que resolvemos isso, podemos ir para Áries? — perguntou o lemuriano, despertando Shaka de seu transe melancólico — Chamei alguns servos para limpar o Templo e podemos conversar enquanto desencaixotamos tudo. — dizia Mu sorridente, pois aproveitaria a arrumação para passar um tempo com o amigo de infância.

— Sim, claro, vamos lá! — disse o loiro com um sorriso no rosto — Vou levar um chai para bebermos mais tarde!... Obrigado por consertar a televisão... E, Mu, é melhor que não diga nada ao Aldebaran! Ele pode ficar chateado, porque... a TV era da avó dele e tem valor sentimental! — desejou ser açoitado por cem chibatadas em praça pública por mais aquela mentira.

Contudo respirou fundo e partiram para a Casa de Áries finalmente.

Já na Primeira Casa, conforme Mu instruía Shaka ia tirando o pó dos objetos e livros desencaixotados para coloca-los nos lugares devidos.

Lá pelas tantas, Mu resolveu então começar a tirar algumas das dúvidas que ainda pairavam por sua mente.

— Sha... Você parece entender de muitas coisas. — começou enfim — Fiquei muito admirado com sua atitude na reunião! Sabe, eu ainda tenho dúvidas... — enquanto falava guardava alguns livros distraidamente —... Mas, fiquei intimidado em perguntar e passar mais vergonha ainda.

— Não precisa ter vergonha de mim, Mu. — disse o virginiano com voz serena.

— Sha, eu achei que só casais dormiam juntos, sabe? Casais que se amam... Ah, eu sabia também que têm pessoas que fazem... Digo, que dormem juntas sem se amarem, sem serem de fato um casal. Mas, não entendo o propósito de alguém pagar dinheiro para isso.

— Simples, Mu. Eles pagam porque são uns imorais!... Uns pervertidos que quando morrerem seus espíritos irão vagar por ai atazanando a vida de pessoas de bem como você e eu. Ou então vão demorar umas duas mil encarnações para evoluírem e expiarem seus pecados! — disse o virginiano, mas logo percebeu que não estava esclarecendo nada agindo daquela maneira.

Por mais reclusa que tivesse sido sua vida no Santuário, Shaka ainda havia tido contato com mais coisas e pessoas que Mu em Jamiel, e também aprendera muito com a televisão! Por isso, procurou se acalmar e recomeçar de forma mais ponderada.

— Mu, não é certo vender o seu corpo. Ele é seu templo. Você está certo quando diz que apenas os casais que se amam deveriam dormir juntos. Eu digo mais: Apenas os casais que se amam e que têm a permissão de Buda! O ser humano tem desejos... carnais, é natural de sua essência, mas deve escolher apenas uma pessoa para saciá-los. — percebendo que seu rosto esquentava e que provavelmente estava corado de vergonha, Shaka baixou a cabeça desconcertado — Enfim, eles pagam dinheiro porque é o vil metal que movimenta o mundo, e se tudo hoje em dia tem um preço, até o prazer e o amor devem ter. Lamentável. Ainda bem que essa é minha última passagem por esse mundo perdido.

Mu refletia acerca do que Virgem dissera. Ele mesmo já havia sentido esses tais desejos carnais, mas jamais imaginou pagar para alguém saciá-los. Na inocente concepção do lemuriano, homens e mulheres foram feitos para ficarem juntos, mas ele mesmo nunca se sentira atraído por ninguém.

— Eu concordo com você. — disse Mu — Eu acho até que entendi a função das amazonas. Mas, não entendo o que Misty e Afrodite vão fazer lá. Pelo jeito a casa será apenas frequentada por homens. Então, por que será que Saga os quer lá?

— Porque Gêmeos é um pederasta! — disse o cavaleiro de Virgem com entonação. Tocar nesse assunto o deixava envergonhado, e estava surpreso com o fato de Mu não conhecer a má fama do cavaleiro de Peixes. Sentiu-se na obrigação de alertá-lo, pelo seu próprio bem — Não me diga que não sabe o que o Peixes faz? O Shion nunca teve esse tipo de conversa com você, Mu?

Mu ficou meio sem graça com a pergunta.

— Bem, ele me explicou algumas coisas sobre... anatomia. — Áries começou a se enrolar e não saber o que dizer. Depois, Shaka estava tão próximo a si que começou a se sentir estranho. Suas mãos suavam, mas julgava ser a tensão do assunto cabeludo de que tratavam — Shion me mostrou que mulher é de um jeito, homem é de outro e ai... encaixa, né. — se pudesse, cavaria um buraco e mergulharia dentro. Era extremamente embaraçoso para o ariano admitir sua total inexperiência no assunto — Enfim... Eu acho que você entendeu o que quero dizer. E quanto a Peixes, bem, convivi com ele apenas quando criança. Depois que me mudei de vez para Jamiel não o vi mais, então não sei o que Afrodite faz hoje. E não vejo associação disso que estamos conversando com o emprego dele lá na tal casa de tolerância.

Shaka ouvia incrédulo. Quanta Inocência! Quanta ingenuidade! Quanta doçura!

Mu realmente era digno de ser seu amigo. Não era de se estranhar que tivesse sentido tanto sua falta durante todos esses anos.

— Bom... Não existe só um tipo de encaixe entre dois corpos. Há outros também que podem ser tão prazerosos quanto. Era inclusive um costume tradicional na cultura grega dois homens se...

O virginiano então percebeu que dissera algo estranho, e num rompante de espanto, embaraço, susto e desespero, abriu os olhos encarando Mu.

No mesmo instante toda a estrutura do Templo de Áries sofreu um leve tremor.

Alguns objetos que estavam no entorno deles, assim como móveis e caixas, foram lançados pelos ares e uma pequena explosão de ar e cosmo energia quase lançaram Mu contra a parede, não fosse Shaka o segurar com força pelos ombros.

— Mu! Me desculpe eu... — não terminou a frase, pois agora olhava para Mu com seus olhos azuis celeste arregalados, enquanto o lemuriano lhe devolvia o mesmo olhar de espanto.

— Sha? Abriu os olhos! — disse Mu olhando para aquelas íris tão azuis que o encaravam.

Estava assustado com aquele poder repentino, mas tudo que conseguia pensar era no que Shaka havia acabado de dizer, sobre os outros encaixes entre dois corpos.

Além disso, Mu sentia que as mãos de Shaka lhe segurando os ombros lhe causavam um calor fora do comum. A pele do indiano era quente. Seus cabelos exalavam um perfume delicioso de sândalo, e os olhos... Tão azuis que chegavam a hipnotizar.

Como seria tocar nos cabelos dele? Como seria encostar seu corpo ao de Shaka e sentir o calor daquela pele? Será que poderia haver um encaixe entre eles?

"POR ATENA!" — pensou o lemuriano piscando algumas vezes, tentando mandar para longe aqueles pensamentos que de súbito lhe brotavam na cabeça.

Shaka, que estava tão assustado quanto Áries, soltou os ombros do amigo num gesto abrupto, e então olhou para a aquela bagunça toda lamentando não ter o poder de virar um canário da terra e sair voando dali.

— Mu... eu... lamento por isso. Que irresponsável! — disse apanhando os objetos do chão e levantando os móveis caídos, mas apenas para poder se afastar de Mu, pois aquela proximidade toda estava lhe deixando nervoso por demais — Eu estava com muito Cosmo acumulado!

— Ah. Então é por isso que fica de olhos fechados? — disse Mu meio sem jeito, mais para mudar de assunto, porém agora sabia porque o amigo tinha aquele hábito peculiar.

E sabia mais! Foi justamente pelo rumo que a conversa tomara que agora entendia o que o cavaleiro de Peixes fazia.

Áries agora teria que lidar com o modo como aquela descoberta iria interferir em sua vida.

— Sim. Faz parte do meu... treinamento. Foi negligência da minha parte. — respondeu Virgem em tom baixo, rogando a Buda que Mu se esquecesse do que dissera.

— Tudo bem, Sha, acontece né? — disse Mu sorrindo, tentando descontrair aquele clima estranho que pairava no ar — Vem, vamos aproveitar essa pequena bagunça para mudar os móveis de lugar?

A manhã se seguiu normalmente na casa de Áries, no entanto, enquanto ajeitavam os pertences do mais recente morador do Santuário, somente uma coisa se passava pela cabeça do lemuriano: Como nunca havia pensado na possibilidade de dois homens se apaixonarem, se casarem e se unirem?

Em sua concepção nada impedia uma pessoa de se apaixonar por outra do mesmo sexo. Agora então se perguntava por que Shion nunca lhe falara sobre isso. Talvez não tivesse tido tempo, já que morreu tão cedo e sem lhe ensinar tudo o que sabia. Pobre mestre!

De qualquer forma, algo acontecia dentro do cavaleiro de Áries, que durante toda a manhã se surpreendeu desviando os olhos timidamente para o loiro a seu lado.

Shaka havia se tornado um rapaz lindo, e Mu se surpreendia agora tomado por pensamentos confusos.

Nunca tinha se apaixonado por ninguém, nem sequer se sentido atraído, mas ali, olhando disfarçadamente para o indiano, e diante das novas descobertas, pensava que não se importaria em se apaixonar e se unir a alguém como Shaka.

Eram melhores amigos na infância e agora, com seu retorno, parecia que nada havia mudado.

Melhor dizendo, tudo havia mudado, pois Shaka agora era um homem!

Um homem lindo, de rosto delicado, mas também com traços masculinos bem marcantes e um olhar que lhe fazia o coração bater mais forte.

Porém, o ariano achou melhor abstrair e não tirar conclusões precipitadas, pois era muita informação para um dia apenas. Sua volta ao Santuário, seu novo emprego, os tais encaixes...

Sim, deveria estar misturando as coisas. Tinha calafrios só de pensar o que Shaka, tão sério e religioso como era, pensaria dele se soubesse que imaginou tamanhos absurdos. Que bobagem.

Já Shaka procurava ocupar sua mente com mantras para esquecer o impropério que dissera a Mu.

Estava muito envergonhado. Logo ele, um monge, abrindo esses horizontes de possibilidades a um inocente lemuriano. Estava tudo errado!

Aproveitou que já estava próximo à hora do almoço e convidou Mu para almoçar em sua casa, pois já tinha preparado algumas coisas no dia anterior.

Assim, seguiram para Virgem calados, apenas trocando uma palavra ou outra e discutindo amenidades.

Horas antes, quando Mu e Shaka desciam para Áries para começar a arrumação toda da mudança do lemuriano para o Santuário, outro encontro entre amigos que não se viam há muito acontecia.

Melhor dizendo, amigas!

Nos fundos do Templo de Baco, Geisty fazia seus exaustivos exercícios matinais. O treinamento lhe ajudava a manter a forma física e a sanidade mental, por isso não os abandonaria nem por decreto!

Treinar na arena do Santuário seria de fato bem mais proveitoso e eficiente, na opinião da amazona, porém como não podia deixar o Templo, sob ameaça de ser punida, vestiu sua malha e improvisou algo por ali mesmo. Estava próximo dos quinhentos abdominais quando viu Shina passar pelas ruínas. Interrompeu os exercícios imediatamente e correu para o pequeno muro que cercava os fundos.

A amazona de cabelos verdes caminhava firme em direção à construção, enquanto pensava qual seria o motivo da convocação de Saga no antigo Templo de Baco, quando de repente foi tirada de seus pensamentos ao escutar uma voz familiar a chamando.

— Shina, Shinaaa, aqui! — dizia a plenos pulmões a amazona, parando agarrada ao muro.

Shina observava a outra curiosa.

"Geisty? O que ela faz aqui? E... sem máscara?" — pensou Ofiúco, e foi ao encontro da morena pulando o muro para saudá-la.

— Geisty, o que você faz aqui? — disse Shina abraçando a amiga que não via há anos, porém sentiu que naquele abraço a outra lhe apertava com tanta força que parecia mais um pedido de socorro que uma saudação — E por que está sem máscara? O que está acontecendo? — disse Shina curiosa enquanto tentava olhar para dentro do Templo.

— Shina... — disse Geisty com uma voz meio angustiada — Que bom ver você! Não faz ideia do alívio que é encontrar um rosto amigo nesse inferno no qual eu cai! — respirou fundo, porém não pode esclarecer nada, já que ao longe notara Saga se aproximando da entrada principal do Templo.

Acompanhou por alguns segundos a figura do Grande Mestre com um olhar de puro desprezo e então puxou a amiga para que seguissem para o salão.

— Venha, Shina! Temos que entrar. Já vi alguns cavaleiros chegando. Vamos evitar mais problemas.

Sem compreender, porém não tendo tempo para questionamentos, a amazona seguiu a amiga até o salão principal, onde Misty e Marin já esperavam em posição de descanso.

Lagarto, por sinal, fora o primeiro a chegar, pontualmente no horário que fora indicado. Gostava de atrair os olhares para si, porém desta vez abdicou do exagero e optou por ser mais discreto. Trajava apenas sua armadura e estava muito perfumado. Aguardava a chegada do Grande Mestre ao lado de Marin enquanto corria todo o recinto com olhos curiosos.

Já a amazona de Águia estava bem desconfortável. Vestida com sua roupa de treino e máscara, procurava não olhar muito para nada, mantendo a postura firme e ereta. Só mesmo a própria Marin sabia o que sentia, e o que ela sentia não era nada bom.

Imaginava que não estariam ali para receber uma missão fora do Santuário ou coisa parecida. Seu coração angustiado acelerou e bateu ainda mais forte quando o Grande Mestre finalmente entrou no salão.

Saga apertava as têmporas as massageando. Uma tentativa vã, por sinal, de amenizar a constante dor de cabeça que parecia se tornar crônica conforme os dias passavam. Buscava ânimo para enfrentar mais uma gama de cavaleiros, mas julgava que não dariam tanto trabalho quanto alguns dourados! Seguiu até eles os cumprimentando de bom grado.

— Bom dia cavaleiro e amazonas. Sejam bem vindos ao Templo de Baco. — disse formalmente.

Todos ali fizeram uma reverência baixando as cabeças em respeito ao Grande Mestre. Menos Geisty, que permaneceu em pé encarando o geminiano com seus olhos violetas faiscantes.

— Olá, Grande Mestre. — disse Misty de Lagarto sem muita vontade, com seu costumeiro ar esnobe — Pelo que me lembro, a decoração desse Templo costumava ser bem mais... clássica.

— Olá, Misty! Sim, eu mandei reformar. A decoração era careta demais para uma zona! — disse lançando um sorriso cínico para o cavaleiro de Prata, que assim como Marin e Shina arregalou os olhos em surpresa ao ouvir o que o Grande Mestre dissera, mas não tiveram tempo de questionar, pois Saga já lhes dava as costas os chamando para se sentarem em um dos sofás de veludo vermelho em forma circular no fundo do salão — Queiram me acompanhar. O que tenho para tratar com vocês é rápido, mas não precisamos ficar de pé. Relaxem, sintam-se... em casa! — virou as costas, sorriu e ao chegar ao local sentou-se no meio, esperando os outros tomarem seus lugares enquanto os observava.

Fechou os olhos por curtos segundos, buscando paciência para lidar com os possíveis surtos que pudessem acontecer.

Se bem que tinha quase certeza de que com Misty não haveria problemas. Na certa ele iria aceitar de bom grado quando soubesse que Afrodite também seria um dos bacantes. Aquele lá tinha prazer em competir com o pisciano. Shina, se ainda mantivesse a antiga reputação, também não seria um problema. Teria que achar um jeito de convencer Marin, pois a amazona sempre fora adepta de uma conduta irredutível e moralista. No entanto, como todo bom chantagista profissional, Saga tinha uma ótima carta na manga.

Notou que Geisty era a única ali presente a não lhe dirigir o olhar, podendo ouvir uma risada fraca que vinha do fundo de sua mente. Deu por falta de um dos convocados.

— Onde está Afrodite? Atrasado, para variar? — resmungou, mandando um chamado através do Cosmo para o cavaleiro de Peixes, que estava bem ali, no Templo de Baco, porém no andar de cima em sua suíte.

Peixes acabava de dar os últimos retoques no quarto que ocuparia ali e que, não à toa, era a maior do local.

O sueco espalhava várias tralhas sobre a cama redonda quando sentiu o chamado de Saga. Imediatamente juntou tudo aquilo e jogou dentro de uma caixa vermelha em formato de coração. Enfiou uma camiseta comprida que escondia o short curtinho que usava, prendeu o cabelo, apanhou a caixa e desceu descalço mesmo, feito um bólido, parando em meio ao semicírculo que estava formado ali ao redor de Saga.

— Cheguei. Me desculpe pelo... — parou ao cruzar os olhos com Misty de Lagarto, então deu uma bufada de ar — Atraso.

Misty por sua vez, lançou um sorrisinho cínico para o pisciano, erguendo a mão e balançando os dedinhos como num cumprimento desaforado.

Saga, que observava tudo, achou melhor dizer logo ao que vieram para evitar que aqueles dois começassem a trocar farpas.

— Tudo bem, Afrodite, que seja a última vez. Agora sente-se. — disse Gêmeos — Bom, agora que finalmente estamos todos reunidos tenho um comunicado a vocês, meus caros. Creio que todos já estejam a par da situação financeira do Santuário, presumo. Estamos passando por tempos bem difíceis e, como sabem, nossa despesa é muito superior a nossa receita, por isso não estamos conseguindo cobrir o pagamento devido dos soldos, e isso cabe a todas as patentes! Já devem ter percebido, obviamente! — falou, cruzando as mãos com os dedos — Então é bem simples o que tenho a propor a vocês. Vamos reerguer o Santuário! Mas, para tal, preciso da colaboração de todos. Como já devem ter notado, esse Templo foi todo reestruturado para comportar um empreendimento grandioso que será nossa carta de alforria das mãos da Vory v Zakone. Futuramente, óbvio, assim como nossa ascensão à crise. Aqui, meus caros, será erguido o Templo das Bacantes, uma casa de shows, entretenimento e onde venderemos prazer aos membros mais influentes e ricos desse país e, por que não, do mundo! Vocês sabem que sempre penso grande! Então, como conto com a contribuição do meu exército de elite, que irá exercer funções aqui, conto também com a de vocês. Milo já está providenciando as mais belas mulheres para nosso negócio, mas, nosso diferencial será vocês, minhas melhores amazonas e meu mais poderoso cavaleiro de prata! Obviamente podem declinar do meu pedido, afinal não sou um tirano que vai obrigar vocês a se prostituírem, mas... Receio que aquele que não aceitar não terei como lhe pagar o soldo devido. Sendo assim, será convidado a se retirar do Santuário, deixando sua armadura para um próximo escolhido e procurar se sustentar por si próprio. No entanto... Acho que não preciso lembrá-los de que firmaram um compromisso de honra e vida com Atena. — astuto, disse com extrema calma, porém sem deixar muitas brechas para manifestações contrárias, mas mesmo assim era óbvio que elas viriam e justamente de quem Saga mais esperava.

— Co-como é? Quer que sejamos... Concubinas? — disse Marin indignada — Me recuso! Sonho em ver esse Santuário em seus dias de glória, mas... Não através disso! Isso é... é... Um absurdo! Mesmo sendo o Grande Mestre, Saga, não posso difamar o nome sagrado de Athena, trabalhando como uma... uma… — Marin estava vermelha, de raiva e de vergonha. Levantou-se e se virou de costas para Gêmeos, pois não suportava nem sequer olhar em seu rosto depois daquilo, fazendo menção em deixar o local.

— Uma prostituta? — disse Saga em voz alta — Todo trabalho é digno, amazona de Águia. Não seja ingrata! Eu sustentei você durante anos! Se sonha em ver a ascensão do Santuário, esse é o meio. A menos que você, sozinha, consiga fazer o meu trabalho!

Geisty, que estava ao lado da Águia, segurou em seu braço a fazendo ficar ali, pois temia a reação de Saga. Sentia os ânimos bem tensos.

O tempo todo a morena tentou não se manifestar. Sabia que contra as decisões da máfia ela não tinha o menor poder, até porque ela sim, tinha o rabo preso com os malditos russos, mas Marin não, nem Shina e nem Misty!

— Saga, eu não acredito que você vai fazer isso com elas! — disse Geisty olhando para Gêmeos com indignação. Seu coração aos pulos dentro do peito. Mesmo receosa precisava intermediar por suas amigas e companheiras de armas.

— Minha cara amazona. Eu já disse. Se vocês tiverem uma ideia melhor para tirar o Santuário da miséria e da degradação, e também para livrar o nosso rabo da influência desmedida dos russos, eu sou todo ouvidos! As migalhas que recebo deles prestam apenas para garantir que vocês não morram de fome. Migalhas, essas, aliás, que me deixam a cada dia com uma dívida maior que a ira de Hades! Então, minhas caras, se souberem como se livrar dos russos e pagar o soldo de mais de 80 cavaleiros, sem contar os soldados, servos e terceiros, eu passo meu cargo de Grande Mestre a vocês duas! — disse lançando um olhar maligno somado a um sorriso sádico para a moça, o que a fez se calar imediatamente.

Aliás, todos ali evitavam olhar para o geminiano.

De um modo torto Saga estava certo. Para desespero de uns e conformismo de outros.

— Bem, e eu vou ganhar quanto nesse negócio? — disse Misty em tom arrogante, quebrando o silêncio que se fizera entre todos ali por alguns minutos — Porque, não me importo em dar... a minha contribuição, mas, Mestre, essa beleza natural que possuo precisa de manutenção para continuar radiante. Assim como as rosas… — olhou para Afrodite com um sorrisinho sarcástico, lhe dando uma piscadinha pra provocá-lo.

Peixes sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha, de puro ódio.

Que audácia daquela Lagartixa insinuar que ele, o cavaleiro mais belo do Santuário, precisava de manutenção. Olhou para o Lagarto e não se conteve mais.

— Então você me acha radiante, Lagartixa cascuda? — disse o sueco — Pois eu sou mesmo. E quem precisa de manutenção são esses três dedos de raiz escura do teu picumã*! E o quanto você vai ganhar não te interessa, porque você não vai ficar com o acué*, tá boa? Todo o lucro da casa no início do empreendimento será para tirar a gente da lama, mas como essa vai ser uma zona de luxo, logo estarão tirando um bom acué* para vocês. E não me provoque que eu vou ser o seu supervisor e o de todas vocês também! Não me custa nada botar todo mundo pra dormir... Para sempre. — disse lançando um olhar ameaçador para todos ali.

Misty nada disse. Preferiu evitar problemas por hora. Apenas continuou com o sorrisinho debochado no rosto observando o pisciano. Conseguiu irritá-lo de verdade e aquele descontrole repentino era seu troféu.

Enquanto Misty e Afrodite trocavam farpas, Shina se levantou, deu um passo à frente, olhou para Saga e, resignada, retirou a máscara do rosto.

— Se não tenho escolha, antes ser uma puta de classe do que amargar a miséria. Ainda mais depois de tudo que passei aqui, nesse Santuário, para me sagrar uma amazona. Sem contar que... Agora só vou receber pelo que já fazia de graça. — falou balançando os ombros — Só uma dúvida. Ao menos nossos clientes não serão qualquer um, certamente?

Saga sorriu para ela. Shina realmente não o havia surpreendido com aquela atitude, tanto que nem precisaria chantagear aquela amazona.

— Não, minha cara. Como Peixes disse, nossa casa seguirá um alto padrão. Apenas pessoas autorizadas por mim, convidados e contatos importantes para meus negócios. Camus também trará alguns figurões, já que a Vory logicamente vai querer ficar de olho em tudo que se passa aqui. Os cavaleiros, os soldados, talvez... mas duvido que tenham como pagar. Será mesmo um estabelecimento restrito à elite. Fico feliz que entenda tão bem de negócios, Shina! Vejo que é uma bela mulher e fará muito sucesso por aqui! — afirmou sorrindo satisfeito — E lembrem-se de não irritar o Afrodite, pois ele será o responsável por vocês!

— Menos mal! — disse Shina, dando de ombros.

— Um absurdo do mesmo jeito! — falou finalmente Marin, que até respirava acelerado.

— Bom, creio que já fui bem claro e que sanei à todas as dúvidas que possam ter. Tudo que precisarem de agora em diante, devem tratar com Afrodite e Mu, que será nosso tesoureiro. — disse Saga se levantando — Marin, me acompanhe até meu escritório. Quero ter uma conversa em particular com você. O resto está dispensado.

Marin tremeu levemente e não vendo outra alternativa, ainda que vacilante e receosa, seguiu Gêmeos apreensiva, sendo acompanhada pelos olhos indignados de Geisty, que só desviou o olhar quando Afrodite colocou sobre seu colo a caixa em forma de coração que tinha trazido consigo.

— Que porra é essa agora? — disse a morena irritada.

— São umas coisas que separei para você deixar no seu quarto. Pode dividir algumas com a cobra. — olhou para Shina, que permanecia de pé ao lado da amiga e de Misty de Lagarto.

— Cobra não. Ofiúco! — disse a garota de cabelos verdes o corrigindo.

— Eu falava da sua pessoa, não da sua constelação! — disse o pisciano abrindo a caixa, que agora estava nas mãos de Geisty.

Dentro havia desde brinquedos eróticos, como vibradores, massageadores, bolinhas de pompoar, até algemas, calcinhas comestíveis, chicotes, óleos aromáticos, géis, perfumes, preservativos de diversos sabores, alguns potinhos de creme, dentre muitos outros itens dos quais, muitos deles, as meninas nem sequer sabiam para que raios serviam. Tudo devidamente lacrado.

Shina esticou os olhos para toda aquela parafernália e deixou escapar um risinho debochado, ao passo que Geisty ficara corada na hora, soltando uma leve bufada de ar.

— Quero que dividam entre vocês duas por enquanto, até terem seus próprios artigos. — dizia o sueco — E vejam se depois de usarem os vibra... AI QUE HORROR, SHINA! — deu um grito repentino, esticando o braço em direção à amazona e agarrando uma mecha de seu cabelo — Que merda de cabelo quebrado, mulher! Olha o estado desse picu!

— Solta meu cabelo! — disse Shina fazendo uma careta, e então agarrou o próprio cabelo que estava nas mãos de Afrodite e puxou de volta — Quebrado está o seu rabo!

— Grossa! — respondeu Peixes fazendo um bico para ela — É minha obrigação manter vocês na linha e deixá-las com cara de puta de luxo. Então trate de aquendar* um corte nesse ouriço ai e fazer uma hidratação! Você... — olhou para Geisty que lia o rótulo de uma camisinha comestível fazendo uma careta de nojo — Endireita a postura e fecha as pernas quando andar. Seja elegante, não uma lenhadora... E você... — olhou para Misty erguendo uma sobrancelha — Vá para o Hades que te carregue, antes que me esqueça. E se quiserem trazer seus pertences do Alojamento Prata para cá fiquem à vontade. O quarto que ocuparão aqui é de vocês e não será compartilhado. Até amanhã. Vou embora antes que pegue sapinho de Ofiúca e mau olhado de Lagartixa.

Deu as costas a todos ali e cruzou o salão voltando para as Doze Casas. Tinha muitas coisas a ajeitar ainda e instruções a passar para os outros cavaleiros, como Aldebaran, Máscara da Morte e Shura, antes da estreia no dia seguinte.

Misty se levantou quando Afrodite deixou o salão, com um sorrisinho cínico e vitorioso no rosto. O que mais gostava de fazer na vida era irritar e provocar o pisciano e parece que só sua presença era o suficiente. Despediu-se rapidamente de Geisty e Shina e seguiu para o Alojamento dos cavaleiros de Prata para juntar seus pertences e transferi-los para o Templo de Baco. Não via problema nenhum em trabalhar como garoto de programa. Era até excitante pensar na possibilidade!

Quando se viram sozinhas ali, as duas amazonas se entreolharam. Shina então se sentou ao lado de Geisty e segurou na mão da amiga.

— Geisty, agora me diz, que merda você faz aqui? — disse em tom baixo, quase sussurrado — Não era para estar na Ilha Fantasma?

— Shina... — respirou fundo e continuou de cabeça baixa — Depois que o Shion descobriu o meu caso com o Kanon e me enviou para a Ilha Fantasma para não causar maiores escândalos no Santuário, como o velho mesmo dizia, ele continuou a me visitar e nossa relação ficou mais séria. Eu fui uma tola... Não percebi que ele estava tentando dar um golpe no próprio irmão e quando menos esperava me vi em um cassino aqui na Grécia, comemorando com ele uma promessa que o safado fizera a mim, dizendo que nossa vida ia mudar, mas... Kanon tinha se envolvido com a máfia russa, pior, tinha traído eles. De repente o lugar foi todo cercado, Camus apareceu lá e junto com Saga nos capturaram... Não sei o que aconteceu com Kanon, mas... o que aconteceu comigo é isso que está vendo aqui. Tenho uma dívida bilionária em meu nome a sanar com os russos, sem nem ter visto a cor do dinheiro deles. Saga me trancafiou no Cabo Sunion por cinco dias e me deu a chance de escolher entre a morte à mingua... — sorriu irônica enquanto fechava a caixa que Afrodite lhe dera — Ou virar puta para pagar a dívida do irmão dele, que é minha, no caso.

— Que dedo podre, esse seu pra escolher homem, heim! E esses russos... Tenho ódio deles! — disse Shina.

A amazona de cabelos verdes até que tentou consolar a amiga a puxando para um abraço fraterno, mas logo foram interrompidas por um dos soldados que faziam a escolta de Geisty no Templo de Baco e o qual viera para acompanhar a amazona de volta para seu quarto.

Shina achou coerente não interferir nas ordens do Grande Mestre, até para poupar a amiga, mas ficaria de olho no tipo de tratamento que Saga daria à Geisty. Não conviviam por alguns anos, mas tinha muito carinho pela amazona. Sendo assim, se levantou, lançou um olhar cúmplice para Geisty e disse em tom baixo, olhando nos olhos violetas dela:

— Conte comigo. Não está sozinha. Depois conversamos. — deixou o salão a seguir.

Geisty então suspirou fundo e seguiu para as escadas que levavam ao andar superior, mas não antes de lançar um olhar em direção ao escritório de Saga, onde ele havia seguido com Marin. Pensativa, rogava à Atena que ele não fizesse nada de mal à amazona de Águia.

Dentro do escritório do geminiano, Saga se ajeitava na grande poltrona de couro negro que ficava no centro do recinto. Apontou para um sofá na mesma cor à frente e disse em tom ameno:

— Sente-se, Marin. Fique à vontade. — cruzou as pernas enquanto via a amazona se dirigir para o local. Quando ela se sentou, o grego sorriu de forma gentil, porém seu semblante era firme — Eu sei que deve estar me achando o pior dos homens, mas acredite, eu não sou. Há muitos piores por ai. Inclusive... Aqueles que estão com seu irmão!

A amazona de Águia subitamente gelou!

Esse era seu ponto fraco. Há anos, quando seu irmão desapareceu e ela nunca nem sequer descobrira uma ínfima pista sobre o que acontecera a ele, a garota se culpava e vivia um inferno. Agora Saga mexia numa ferida dolorida para ela. Ou será que ele tinha alguma pista e nunca lhe comunicou?

— Não... Não se atreva a falar disso! — disse Marin com a voz trêmula — Você deve estar blefando quanto a ele! Aposto que não sabe nem quem ele é!

Saga mais uma vez ouvia no fundo de sua mente uma risada sádica, adotando uma feição soturna em sua face que transfigurava seu rosto em algo assustador.

— Posso estar blefando, ou não... A verdade é que eu tenho muitos contatos, posso descobrir onde ele está e com quem está, e lógico, se estiver vivo e eu acaso descubra, sua postura é que determinará se vou te passar essa informação ou não. Mas uma coisa eu já lhe aviso, não seja burra. Esse negócio irá atrair toda a sorte de gente ligada à máfias, crime organizado, políticos corruptos e toda a escória que sempre rondou esse Santuário. Você não acha que assim ficará muito mais fácil de encontrar seu irmão? Marin, eu pretendo fazer essa casa crescer e pretendo fortalecer minha influência. Eu tenho certeza que ninguém me negaria uma informação tão simples quanto um pedido de ajuda para encontrar uma criança desaparecida.

Marin olhava para ele estática. Em seu âmago não queria admitir, mas reconhecia verdade nas palavras do geminiano. O submundo iria frequentar aquele lugar detestável e de fato, talvez, seria a melhor oportunidade que teria para conseguir uma pista do paradeiro de seu irmão... Mas a que preço!

Ficou alguns segundos observando a face soturna de Saga, que a observava em expectativa, então, se dando por derrotada baixou a cabeça e disse em tom resoluto e baixo:

— O que eu devo fazer, Grande Mestre?

O geminiano se deu por vitorioso e com um pequeno sorriso cínico no rosto disse calmamente:

— Para começar, minha nobre amazona, deve tirar sua máscara. Preciso saber como é a mulher por trás da armadura de Águia.

A ruiva então levou a mão à máscara e a retirou devagar, sendo observada pelo cavaleiro que a fitava com um brilho sinistro no olhar. Sorriu para ela assim que os olhos amendoados da moça cruzaram com os seus.

— Muito bonita! De uma beleza exótica, como eu já previa! — elogiou a moça — Muito bem, minha cara, porém apenas beleza não é um atributo suficiente para justificar o preço que será cobrado aos clientes... — com um olhar devasso e ao mesmo tempo cruel, se levantou da poltrona e andou até Marin. Segurou no queixo da amazona e a fez levantar o olhar para si, dando um sorriso enquanto lhe acariciava as madeixas ruivas — Competência também se faz necessário para o atendimento e preciso saber se você tem esse atributo...