Mais uma manhã quente se iniciava em Atenas, a seguinte à noite de estreia do Templo das Bacantes que, por sinal, ainda exibia os vestígios da boemia. No salão, onde há poucas horas ainda era possível se ouvir sons de risadas, música alta e muitos buchichos, agora o silêncio só era quebrado pelo ruído das vassouras e escovões dos servos que limpavam o local.
No quarto de Geisty, ainda tomado por uma gostosa penumbra, Saga despertava aos poucos, se espreguiçando na enorme cama de lençóis roxos, enquanto esticava um dos braços para o lado à procura da amazona. Não a encontrando ali, Gêmeos se sentou à beira da cama, coçou de leve a cabeça, esfregou o rosto para despertar e se levantou. Recolheu a camisa e o paletó que jaziam nas costas de uma cadeira e os vestiu, mantendo os abertos mesmo e saiu à procura da moça.
Depois de vasculhar o cômodo inteiro, desceu ao salão pensativo, onde viu apenas os servos fazendo a limpeza em meio a uma bagunça de dar inveja ao purgatório!
Saga então se concentrou e sentiu o cosmo da amazona vindo dos fundos do Templo. Caminhou até lá e desceu as escadarias que davam ao jardim, onde havia um enorme chafariz, e ao lado algumas barras de ferro para prática de exercícios. Era justamente onde a amazona estava, vestida em trajes de treino, usando sua máscara, enquanto fazia abdominais pendurada em uma das barras.
Gêmeos encostou-se a uma das barras, cruzou os braços e ficou a observando se exercitar. Pensou que ele mesmo estava muito relapso ultimamente em seus treinamentos, porém os negócios do Santuário e da máfia lhe tomavam todo seu tempo. E negócios eram negócios! Não podiam ser deixados para depois.
Geisty por sua vez, o viu se aproximar, mas não interrompeu os exercícios, até que o geminiano tirou sua concentração.
— Vejo que acordou bem disposta hoje, ou está apenas descontando a raiva? — sorriu de canto. Mesmo de máscara aquela amazona exercia nele uma atração impressionante.
— Bom dia, Saga. — respondeu Geisty em voz baixa e pausada — Acordei cedo… E preciso voltar a treinar. Ando parada há muito tempo… O corpo dói… sem o treinamento… Faço isso desde que me lembro… E você? Perdeu o sono?
Saga não respondeu de pronto. Pensativo, achou um tanto quanto estranho o comportamento dela. A fera não tinha lhe respondido com uma patada, nem o mandado à merda como de costume. Alguma coisa errada estava acontecendo ali.
Desencostou da barra e devagar se aproximou mais dela, então segurou em seu ombro a fazendo parar os abdominais e com delicadeza retirou sua máscara.
Passou a ponta dos dedos pelas marcas em seu rosto e sentiu vontade de matar Camus. Porém não era idiota e tinha consciência, mesmo que sua mente fosse seu maior inimigo e lhe mantivesse cativo em uma confusão constante, a qual lhe impelia a tomar decisões que nem ele mesmo sabia explicar o motivo, de que tinha parcela de culpa no ocorrido.
Suspirou cansado e confuso, mas enquanto refletia no porque a tinha obrigado a subir com o aquariano, em certo momento havia se perdido ali, nos traços delicados do rosto dela, no perfume delicioso da pele morena, até que, recobrando os sentidos e a postura, piscou algumas vezes e disse em tom cordial.
— Bom dia para você também. Vim lhe dizer que você está de folga essa semana, ou até que essa marca desapareça. E… se Camus de Aquário a quiser de novo, irá voltar em uma caixa de fósforos para a Rússia. — deslizou os dedos pelo rosto dela e a olhando no fundo dos olhos lhe entregou a máscara, só então baixou a cabeça e virou de costas para seguir de volta ao Templo.
Porém Geisty o chamou, antes de ele se afastar de fato.
— Saga! Espere! — disse ela descendo da barra — Obrigada. — falou de forma tímida, recebendo um sorriso singelo do geminiano — E então? Pago quantas? — perguntou por fim, sorrindo para descontrair.
Gêmeos então se aproximou lentamente e quase encostando seu rosto ao ouvido dela lhe disse num sussurro:
— Hum… um boquete matinal não cairia mal! — riu, logo em seguida.
— Engraçadinho. Eu falava de flexões! — disse a moça cruzando os braços, não resistindo à piada e rindo junto a ele.
Foi quando o som dos risos foi perdendo intensidade à medida que os olhares foram se encontrando, e como se fossem cativos de uma força invisível permaneceram assim, fixos um ao outro, até os lábios tornarem-se sérios novamente e as respirações ficarem ofegantes.
Saga sentia aquelas íris violetas hipnotiza-lo e ao mesmo tempo um misto de ansiedade e melancolia comprimia seu peito.
— Geisty... — sussurrou, imerso nos exóticos olhos da amazona — Eu... não fazia ideia de que justamente Camus pudesse... — se calou, levando uma mão à cabeça apertando uma das têmporas, já que aquela insistente cefaleia começava novamente a perturbar seu juízo, o impedindo de dizer a ela que queria ter evitado o que aconteceu, mas não pode.
Geisty baixou os olhos, mas Gêmeos segurou em seu queixo a fazendo olhar para si novamente, como se precisasse daquelas íris violetas para mantê-lo ali, como um farol que guia os navegantes à segurança da praia, sem deixa-los se perder na escuridão do mar revolto. Então quando seus olhos novamente encontraram os dela, a dor de cabeça foi embora e finalmente ele pode buscar conforto onde mais queria, nos lábios quentes e doces da amazona.
Surpresa, Geisty permaneceu estática, enquanto Gêmeos tocava suas lábios com delicadeza. Ainda estava assustada, magoada, ferida, mas aquele beijo tinha algo que lhe era vital naquele momento: conforto, ternura.
Fechou os olhos lentamente e quando se deu por si, já estava totalmente entregue ao cavaleiro e lhe beijava em retorno com a mesma intensidade. As línguas exploravam a boca um do outro com uma calma sutil, e ambos degustassem os lábios sem nenhuma pressa.
Naquele momento o tempo parou e os problemas e dilemas de suas vidas foram reduzidos a cinzas. As mãos acariciavam os corpos colados e os rostos corados, e depois de longos minutos se separaram em silêncio. Gêmeos encostou sua testa na de Geisty e os olhos jade encontraram os violetas mais uma vez, então sorriram-se um para o outro, cumplices.
— Vamos para o quarto. Chega de exercícios por hoje. Eu quero que você descanse. — disse o geminiano.
Geisty apenas sorriu de volta. Nem ela mesma era capaz de explicar o que havia acontecido ali, o que aquele beijo repentino e inesperado significava para si. Estava confusa e foi justamente por esse motivo que pegou na mão do grego e retornou ao Templo com ele, indo para seu quarto, onde se sentou na cama e ficou a observa-lo falando consigo.
— Não quer me contar o que aconteceu ontem?
— Não posso… — respondeu a garota, ficando séria novamente.
— Pode confiar em mim, Geisty, ninguém vai te machucar mais. — falou o geminiano, segurando no queixo na amazona a fazendo olhá-lo enquanto falava.
— Eu… eu não podia olhar para ele… nem tocá-lo… — começou a falar a garota entre soluços. Porém seu relato era desconexo, como se sua mente tentasse apagar o que acontecera —… eu tinha que ser uma estátua… e não podia emitir nenhum som… Nenhum gemido, ruído ou súplica. Ele… ele quase congelou o quarto… A pele dele era tão fria! Disse que se eu não o obedecesse ele me colocaria em um esquife de gelo eterno… porque… porque eu sou uma puta e ele me comprou e… pagou caro… Nunca me senti tão fraca… Tão impotente! Ele só me comprou para me humilhar. — buscou conforto nos braços de Gêmeos o abraçando forte.
Saga se enfureceu ao ouvir o relato da amazona. Sentiu ganas em ir atrás de Camus e dar cabo da vida dele, mas sabia que não podia fazer isso, ou começaria uma guerra entre máfias e contra o Santuário, cujas consequências poderiam ser terríveis. Em sua cabeça, Saga se perguntava o que Aquário queria mostrar com aquela atitude. Queria afrontá-lo? Não. Camus não estava certo em agredir a amazona, porém pagou uma fortuna por ela e tinha o direito de fazer sexo. Afinal, Geisty era uma prostituta e ele próprio, Gêmeos, fora quem lhe rogara essa nova função.
— Inferno! Caralho do Hades! — praguejou contra si mesmo num resmungo cheio de raiva e rancor — Geisty, ninguém vai machucar você de novo, entendeu? Nenhuma de vocês. Camus ainda vai pagar pelo que fez. Pode acreditar em mim. Eu não vou deixar ninguém lhe fazer mal. — concluiu, sentindo uma pontada de dor na cabeça que o fez piscar franzir o cenho.
A amazona sorriu para ele. Era difícil confiar no mesmo homem que lhe deixou à mingua trancafiada no Cabo Sunion, mas seu coração ansiava por lhe dar uma chance. Ao menos não estava morta, como Camus e a máfia russa queriam, e tinha que admitir para si mesma que ter contado o ocorrido a ele fora difícil, porém libertador. Sentia-se mais protegida agora e de uma forma ainda que meio torpe, confiava naquele homem.
— Obrigada, Saga. — respondeu apenas com um sorriso singelo.
Gêmeos então lhe deu um selinho e ficou um tempo deitado na cama ao lado dela, aproveitando aquele calor gostoso do corpo delicado. Contudo, além de cavaleiro era um homem de negócios e o seu dia estava apenas começando.
— Eu preciso descer, porque tenho que fazer um breve levantamento da noite passada com Afrodite e as amazonas. Se quiser pode ficar aqui. Não precisa descer, mas eu tenho que ir. — deu um ultimo selinho em Geisty e se levantou da cama, saindo silenciosamente do quarto da amazona se dirigindo direto para o seu. No closet, apanhou uma túnica grega simples, vestiu e calçou sandálias confortáveis.
Enquanto cruzava o corredor esfregava o rosto irritado. Imaginava que a noite das outras bacantes também havia sido turbulenta, porém desejava que não chegasse nem perto da noite que Geisty tivera, do contrário teria que mandar Máscara da Morte cortar algumas cabeças!
Quando se viu sozinha em seu quarto, Geisty ficou pensativa. Por que raios escolhera se confortar justamente com Saga? Não conseguia encontrar uma resposta plausível, porém, mais calma, e porque não dizer, curiosa, a morena resolveu descer e compartilhar do dejejum com os colegas de trabalho e com o patrão. Não ficaria sozinha remoendo mágoa. Até porque ficar trancada no quarto no escuro igual a um morcego não iria resolver seus problemas. Tomou uma ducha rápida e vestiu um vestido de tecido leve, de saia rodada até o meio das coxas. Suspirou ao abrir a porta e ouvir o barulho que vinha do salão. Mais um dia começava naquele antro que agora tinha que chamar de lar e, pelo jeito, aquele dia prometia!
Saga havia mandado preparar um farto café da manhã para suas bacantes, afinal estavam juntos nesse negócio e queria se manter próximo a eles, mesmo que sendo odiado por quase todos ali. Na mesa farta havia toda sorte de comes e bebes, café, leite, bolos, frutas, frios, sucos e geleias diversas.
Sentindo ainda sua cabeça doer, Gêmeos passou no bar do salão, foi para trás do balcão e se serviu de uma dose generosa de whisky com gelo. Caminhou até à mesa, puxou uma cadeira e se sentou à ponta, esperando suas bacantes começarem a aparecer para o café.
Momentos antes, no quarto de Shina, a amazona acordava relaxada. Espreguiçou sobre os lençóis e quando sentiu o cheiro do espanhol ainda impregnado neles, sorriu fechando os olhos. — "Duvido que toda a puta do mundo tenha a mesma sorte que eu!" — pensou, e logo em seguida se levantou. Tomou uma ducha rápida, vestiu sua roupa de treino e deixou o quarto sorridente.
Descendo as escadas para o salão, Shina já avistou Saga sentado à mesa. Caminhou até ele e puxou uma cadeira na outra extremidade, cumprimentando o geminiano, enquanto apanhava uma maçã.
— Bom dia, chefinho! Está com uma cara ótima, heim! — disse a amazona.
— Bom dia, Shina. — respondeu Saga tão somente, dando um gole no whisky.
Logo em seguida, Marin descia as escadas lentamente. Vestia também seu uniforme de treinamento e usava máscara. Mu havia deixado seu quarto quando todos ainda dormiam, e ela só pensava que se tivesse sorte ninguém o havia visto, e nem perguntado nada.
Ao se aproximar da mesa, puxou uma cadeira ao lado de Shina e cumprimentou os dois em voz baixa.
— Bom dia.
— Bom dia, Marin. — respondeu Gêmeos, arqueando uma sobrancelha — Por que continua usando essa máscara? Eu disse que elas não serão permitidas dentro deste Templo. Pode retirar, por favor?
— C-Claro. — respondeu a ruiva retirando a máscara e revelando estar corada. Toda aquela situação era muito constrangedora para a meiga japonesa.
— Hum… melhor assim. — falou Gêmeos dando outro gole no whisky.
Enquanto Saga implicava com a máscara de Marin e Shina devorava uma maçã, no quarto de Afrodite de Peixes, o sueco terminava de se vestir para descer. Havia tomado um banho demorado e caprichado, se lembrando de cada detalhe da noite anterior, do sexo sensacional com Saga sobre a mesa de mármore e depois da loucura com Camus que, apesar de excêntrica e um tanto quanto lúdica, tinha sido ainda melhor! E o beijo no final? Ah, esse então fora espetacular! Não esperava por ele e ter sido pego de surpresa com aquele beijo intenso, profundo e delicioso foi realmente incrível.
Não conseguia parar de pensar um só minuto nele, e ria sozinho, enquanto enxaguava os cabelos e terminava o banho. Vestiu uma camiseta rosa com estampa da Madonna e gola cortada deixando um dos ombros à mostra, um short preto curtinho e coturnos. Como estava atrasado, desceu para o salão de cara lavada mesmo, cabelos molhados e alma cintilante, cantarolando Like a Virgem.
Viu Saga e as amazonas na mesa e percebeu que o geminiano já tomava whisky logo pela manhã, então se aproximou dele e tomou o copo de sua mão fazendo uma careta.
— Bom dia, chefinho, como passou a noite? — disse o pisciano, colocando o copo longe do grego e em seguida pegando uma xícara vazia, onde colocou café e leite, a deixando na frente de Saga. Depois pegou um pratinho, botou brioches, queijos, uma fatia de melão e o colocou ao lado da xícara — Toma, coloque alguma coisa que preste para dentro.
Saga riu de canto e colocou os cotovelos sobre a mesa, observando tudo que sueco havia lhe servido.
— Está de muito bom humor hoje, heim, Afrodite! Eu passei a noite muito bem, mas tive uma manhã melhor ainda! — disse o geminiano com um sorriso no rosto.
— Hum... Que bom! — sorriu de volta Peixes, enquanto chupava um dos dedos sujos de geleia, depois puxou a cadeira ao lado, sentou-se e se serviu de tudo um pouco que havia sobre a mesa, enchendo um prato de guloseimas diversas.
— Não dá bom dia não, Afrodite? Dormiu comigo, ser indefinido? — disse Shina, enquanto colocava uma cereja na boca.
— Cruzes, graças à Atena que não, colega! Dormi muito bem acompanhado, mas isso não te interessa! — respondeu o pisciano, ficando sério logo que viu, pela visão periférica, Misty de Lagarto descendo as escadas.
O francês de cabelos loiros e andar lânguido, cruzou o salão até a mesa e ao passar por trás de Afrodite, jogou, propositalmente, as madeixas longas e úmidas, sobre a cabeça do sueco, lhe lançando algumas gotas de água.
— Bom dia, gente! — falou com um grande sorriso no rosto e em seguida se sentou à mesa, puxando uma cadeira do outro lado, ao lado de Marin.
Afrodite sentiu os respingos de água e revirou os olhos dando uma bufada. Deixou passar dessa vez, pois estava com tanta fome que só via os inúmeros pães, bolos, frutas, frios e queijos ali à sua frente. Continuou devorando os petiscos, enquanto encarava o cavaleiro de prata com raiva e desprezo.
Nesse momento, Geisty se juntava a eles na mesa. A amazona puxou uma cadeira ao lado de Misty e se sentou, mantendo a cabeça abaixada, sem encarar ninguém nos olhos, assim seu cabelo caia sobre a lateral de seu rosto e escondia as marcas que Camus lhe deixara.
— Bom dia a todos. — disse em tom quase inaudível, já apanhando uma xícara e se servindo de café.
Saga esticou o braço e tocou no ombro da amazona, dando um leve apertão — Que bom que desceu. — concluiu sorrindo, depois voltou à sua xícara de café e deu um gole generoso antes de descansá-la novamente no pires.
Shina notou a amiga de cabeça baixa e achou um tanto quanto estranho. Geisty costumava ser espalhafatosa por natureza e aquele comportamento era um tanto quanto suspeito. Porém ficou calada, perguntaria depois o que havia de errado.
Enquanto alguns comiam e outros apenas observavam calados, Saga enfim deu início ao balanço que desejava fazer com seus mais íntimos funcionários.
— Bem… meus caros, eu disse que queria um apanhado geral de como fora a noite de estreia do nosso negócio. Que fique bem claro que quero ser poupado dos detalhes, mas como lidamos com mafiosos, espiões infiltrados e gente desconhecida, quero que sempre me relatem e me avisem acerca de quaisquer atitudes suspeitas. Logicamente que a noite passada não conta, já que foi um leilão fechado para clientes convidados apenas, mas daqui para frente espero ter sempre o retorno de vocês. — apanhou uma uva da cesta de frutas e antes de coloca-la na boca, estreitou os olhos para cada um ali diante de si e concluiu — E é claro… Eu preciso saber se não estão me enrolando e se estão fazendo o serviço como se deve! Afinal… — colocou a uva na boca e apontou para eles —… caso não forem eficientes, creio que terei que sumir com vocês do meu negócio e trazer novas putas e garotos de programa. Devo me certificar de que minhas mercadorias estão sabendo agradar aos clientes! Sabem que nossa clientela é muito exigente. — deu um sorrisinho de canto de boca e apoiando os cotovelos na mesa olhou para a amazona de cabelos verdes — Shina, minha cara, quer começar?
— Eu? O que você quer saber? — disse a amazona em tom de deboche — Sobre minha noite? Foi ótima! Teria sido melhor ainda se tivesse um repetéco agora pela manhã! Sexo de manhã é uma delícia!
Ali do lado, Afrodite olhou para ela com os olhos arregalados e a boca cheia de bolo.
— Que piranha! — disse o pisciano, esparramando farelos sobre a mesa.
— Piranha é você, para começo de conversa. — respondeu a amazona sem pestanejar e continuou seu relato — Bem… houve apenas um pequeno acidente. Shura cortou aquela roupinha maravilhosa todinha. Já era! A Excallibur resolveu funcionar antes da hora! — disse caindo na risada.
— Não sei se ponho esse prejuízo na sua conta ou na dele, Shina. — disse Saga encarando a moça — Essas merdas de roupas são caras! E você, Misty? Algo sobre o empresário grego que eu deva saber?
Misty estava tão radiante que se perdera em algum momento e só notara Saga falando consigo quando Marin lhe deu um cutucão nas costelas.
— Aii… Ah, sim! Bem… a minha noite? — disse o loirinho, com um sorrisinho bobo no rosto — Minha noite foi duplamente deliciosa! Basta olhar na minha pele, olha que perfeita! — dizia entre suspiros e gestos, se recordando da transa deliciosa com o grego e também da sessão voyeurística que teve logo em seguida, enquanto espiava Afrodite e Camus no quarto do sueco.
E por falar em Peixes, ele praticamente fuzilava Lagarto com o olhar. Mastigava um pedaço de queijo com tanta raiva que parecia triturar o alimento macio como se estivesse comendo pedras. Seus olhos azuis faiscavam de raiva, até que não se segurou e alfinetou o outro, sem saber, logicamente, que Lagarto vira tudo o que ocorrera em seu quarto com Camus de Aquário.
— Alôca! Desaquenda, Lagartixa cascuda. Por que duplamente deliciosa se você só pegou UM bófe? Acorda, Alice!
— Sossega, Afrodite. — disse Saga sem paciência — Misty… apenas detalhes técnicos, por favor. Poupe-me dos sórdidos. — falou esfregando a testa.
— Ah, sim! — respondeu Lagarto com um ar esnobe, enquanto ignorava Afrodite — Bem… ele disse que vai voltar outras vezes, que tem muita grana e vai fazer propaganda do Templo para os políticos amigos dele e… disse que vai passar uma noite inteira comigo da próxima vez! Hihihihihihihihi.
— Ah… ok, obrigado, Misty… Marin? Tem algo a dizer? — o geminiano deu outro gole no café, enquanto olhava para a amazona de Águia.
— F-Foi… normal, Saga-sama. — respondeu a ruiva em tom baixo encarando a cesta de frutas, depois pegou uma torrada tentando disfarçar o nervosismo e passou geleia — O Mu foi muito… gentil. Dormiu logo após. Não tenho nada a dizer sobre ele além de que é um homem muito doce e... fogoso. — ficou corada ao dizer aquilo e quase riu ao se lembrar da noite bizarra com o lemuriano, mas se aguentou firme. Teria que ser convincente ou Saga poderia perceber que estava mentindo.
— O Mu? Mu de Áries! Não creio! — disse Misty em alto e bom tom — Menina, o Mu fogoso? Que babado! Conta ai como foi!
— Psii… ei! Quer fazer o favor de deixar o Mu e a amapôa em paz, subalterna! — quem falou foi Afrodite, que não perdia uma só oportunidade de espezinhar o cavaleiro de prata — Não é da sua conta, exú! Cuida da sua vida feia e sem graça!
— Afrodite, quando eu quiser pescar peixe piranha eu jogo uma minhoca para você morder, querido. Não estou falando com você, escamosa. — disse Lagarto e em seguida se virou para Marin pegando em sua mão — Me desculpe, Marin, é claro que não precisa dizer nada se não quiser. Perguntei apenas por força do hábito. Não me leve a mal, meu bem. Hoje estou meio eufórico!
Marin colocou sua mão sobre a dele e sorriu educadamente — Não se preocupe, Misty. Tudo bem.
Se Marin havia relevado, Afrodite não havia.
Peixes olhou para Lagarto e seus olhos faiscaram um brilho azul intenso e incandesceste. Estava com ódio. Muito ódio!
Anos e anos aguentando os desaforos, intrigas e ofensas daquela bicha invejosa e dissimulada. Sem falar da presepada que lhe aprontara no passado, quando ainda eram amigos e que lhe custou bem caro. Anos também tendo sua patente superior desrespeitada. Era um cavaleiro de ouro e ele um mero cavaleiro de prata. Furioso, afinal agora o desgraçado passara a desrespeita-lo na frente de todos ali, Afrodite se levantou da cadeira a chutando para longe e em segundos, num movimento tão rápido que fora quase imperceptível, debruçou sobre a mesa e agarrou nos cabelos do cavaleiro de prata, sem dó nem piedade, trazendo Misty para o centro, espalhando toda sorte de comida para tudo que é lado.
— Me chama de piranha de novo que eu te arranco esse teu picumã oxigenado, subalterna! Lagartixa baixa patente! — esbravejava, chacoalhando a cabeça de Lagarto.
— Eeeiii! Me larga, escamosa. Tira a mão do meu cabelo! — gritou Misty, segurando com força nos punhos de Afrodite tentando fazê-lo soltar seus cabelos, mas tudo que conseguia era fazer com que Peixes se debatesse ainda mais debruçado sobre a mesa.
Uma xícara de café foi atirada contra o peito de Saga e se não fosse o tecido da túnica, o grego teria ganhado uma bela de uma queimadura.
Geisty tomava um gole de seu café quando Afrodite agarrou nos cabelos do cavaleiro prateado e se engasgou com o susto, começando a tossir desesperadamente.
Shina foi empurrada da cadeira e tentava se levantar quando um prato de torradas lhe caiu sobre a cabeça.
Marin, que já havia se afastado um pouco, agarrou nos braços de Misty e tentava separá-los, porém somente Saga conseguiu de fato acabar com aquela quizomba. Ali estava o maior problema do cavaleiro de Gêmeos. Prata, Ouro e uma rixa que já levava anos!
A questão era: Como conviver sob o mesmo teto com duas pessoas que mal podiam se ver? Quiçá respirar o mesmo ar?
Gêmeos também se debruçou sobre a mesa e segurou com força nos dois punhos de Afrodite, chacoalhando e o obrigando a soltar os cabelos de Misty. Quando conseguiu fazer o pisciano enlouquecido abrir as mãos, o puxou para perto de si, arrastou uma cadeira a seu lado e o jogou sobre ela com toda a força.
— Chega dessa merda! Você fica ai e me deixa tomar meu café da manhã em paz! — disse o geminiano em tom severo, enquanto encarava Peixes nos olhos — Mas que inferno que não se tem paz aqui nem para comer... Por isso que eu bebo! — essa ultima frase Saga disse em tom baixo, talvez porque fosse uma constatação que fizera a si mesmo, porém, logo em seguida, se virou para o cavaleiro de Lagarto e apontou o dedo para ele em tom de ameaça — Misty, sabe que Peixes é seu superior, tanto no Santuário quanto aqui dentro dessa merda de zona, então guarde esses comentários somente para você e o respeite!
Misty revirou os olhos, enquanto ajeitava sua roupa e voltava a se sentar — "Superior, essa piranha peixosa? Pfff! Faça-me o favor, Saga!" — pensou o loiro, fuzilando Afrodite com o olhar e em seguida lhe mandava um risinho debochado para provoca-lo.
Gêmeos então se sentou novamente ajeitando os cabelos para trás dos ombros e passando um guardanapo na mancha de café em sua túnica ao menos para secá-la um pouco.
— E você, Afrodite de Peixes, não me faça ter dores de cabeça logo pela manhã. Não se rebaixe assim, se atracando com um mero cavaleiro de prata! — disse Saga.
Afrodite respirou fundo e então fechou os olhos tentando se acalmar — Dessa vez passa! Só porque é você quem está pedindo, chefinho! — disse o pisciano meio a contragosto.
— Ótimo. — disse Saga — Eu agradeço. Então vamos terminar logo com isso. Me dê o seu relatório, Peixes.
Gêmeos sabia muito bem como tinha sido a noite do pisciano, já que a passara com ele na sala particular onde leiloaram Lagarto. Contudo, ainda assim queria ouvir o que o outro tinha a dizer.
Afrodite por sua vez, abriu os olhos em espanto e alarme. Como dizer ali, diante de todos que passou a noite com Camus de Aquário? Como dizer que vestiu o ruivo carrancudo e homofóbico com roupas de mulher, o maquiou, o amordaçou, estapeou sua bunda, lhe deu chicotadas, o chamou de princesa, transou com ele de todas as formas possíveis e que ainda o fez dormir com um consolo enfiado na bunda?
Somado ao fato de que, pela manhã, ainda acordaram abraçadinhos e Camus lhe dera um beijo delicioso antes de partir. Além de um cheque em branco!
De repente, Afrodite sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. Era coisa suficiente para que toda a máfia russa viesse em peso atrás de si e decidida a explodir o Santuário. A ruína de todos cairia sobre suas costas!
Enquanto o sueco divagava, Saga o olhava impaciente. O geminiano então pigarreou, limpando a garganta e chamando sua atenção.
Peixes então pegou um pedaço de queijo, o atirou na boca e dando de ombros, como se não tivesse mesmo nada demais a dizer, fechou os olhos e disse em tom de desdém:
— Eu dormi.
Todos ali o olharam confusos, menos Misty, que acabara de cuspir na mesa o suco de laranja que sorvia do copo.
Lagarto tinha visto tudo que acontecera com Afrodite e Camus no quarto de Peixes. Visto somente não! Tinha visto e se divertido muito a seu modo. Por isso não resistiu quando ouviu o pisciano dizer que dormiu e quase se engasgou severamente com o líquido.
Afrodite olhou mais uma vez para Lagarto com um olhar fuzilante, mas se conteve e continuou seu relato mentiroso. Não podia correr o risco de alguém descobrir, ou sequer desconfiar, que passara a noite com Camus de Aquário, pois tinha prometido sigilo absoluto e se mantivesse a promessa ao aquariano poderia ser recompensado muito generosamente.
— Eu... bebi muito, fumei um baseado com o Máscara, fiquei muito louco e dormi. E foi só isso. — olhou para Saga e por debaixo da mesa passou o pé no meio das coxas dele, fazendo o geminiano fechar as pernas às pressas ou ficaria em uma situação constrangedora ali, pois vestia apenas uma túnica de tecido levinho — Chefinho, eu sei que errei e que devo dar o exemplo, mas eu estava tão alegrinho que exagerei na bebida. — falou meio manhoso, dando um sorrisinho safado para convencer Saga. Depois fechou o cenho e com voz firme e forte disse olhando para os colegas na mesa — E que fique bem claro que não é para vocês fazerem isso! Porque se eu vir alguma de vocês, meninas e Lagartixa cascuda, dormindo em serviço serão punidas!
Misty estava prestes a explodir de tanto tentar conter o riso. Queria gritar e gargalhar da cara de Afrodite contando aquela mentira descarada.
Enquanto isso, Gêmeos que não tinha nem o que contestar, já que passara uma boa parte da noite sobre uma mesa de mármore com um pisciano fogoso o cavalgando, respirou fundo, esfregou o rosto e então olhou para Geisty, que se mantinha calada o tempo todo. Ia dizer a ela que não precisava contar nada para ninguém, já que ele já sabia muito bem o que tinha acontecido, porém a língua ferina e o descaramento de um certo sueco foram mais ágeis nesse momento.
— E você, Geissssty? — perguntou Afrodite, arrancando uma uva do cacho a sua frente e a jogando no decote do vestido da amazona — Como foi sua noite com o francês cheio do acué? — na verdade Peixes estava curioso em saber como Camus fora parar por engano em seu quarto, já que era para ter passado a noite no quarto de Geisty.
A amazona levantou o olhar, deixando as mechas de cabelo ainda cobrirem parte de seu rosto e olhou para o pisciano com a cabeça baixa. Então deu um gole no café em sua xícara e respondeu sem nenhum entusiasmo:
— Foi fria. Assim como meu cliente.
Afrodite arregalou os olhos e arqueou uma sobrancelha. — "Frio? Camus de Aquário? Jamais!" — pensou consigo mesmo, pois não fora frieza que Camus demonstrara em sua cama. Em absoluto! Muito pelo contrário. O ruivo era fogo puro!
— Nossa! Que merda, heim colega! — falou debochando e rindo, dissimulando seus próprios pensamentos — E posso saber por que você está escondendo a cara, quenga?
— Deixa ela, Peixes. — disse Saga, tentando apaziguar e evitar um novo conflito, porém já era tarde!
Geisty ao ouvir aquilo sentiu seu sangue ferver e então ergueu o rosto, deixando à mostra as marcas dos dedos de Camus em torno de sua boca e disse em tom áspero e elevado, encarando Afrodite nos olhos:
— Você é inconveniente, sabia? Cuida da merda da tua vida!
O pisciano, assim como todos ali, se assustou com a atitude intempestiva da amazona, mas não ia questionar. Quando de repente ouviu Misty soltar uma gargalhada sonora.
— Hahahahahaha, ai que fora! Depois dessa eu voltava para o lago, peixe piranha!
Ao ouvir sair da boca do cavaleiro de prata a palavra "piranha" mais uma vez, Peixes sentiu todo seu corpo arrepiar, e como uma fera que ataca a presa, pulou sobre a mesa, agarrou a jarra de suco de laranja e sem pestanejar jogou todo o líquido em cima daquele francesinho esnobe, para logo em seguia agarra-lo novamente, só que dessa vez pelo pescoço!
— Eu falei para não me chamar de piranha!
— Me larga sua piranha locaaa! — gritava Lagarto, novamente se engalfinhando com Peixes sobre a mesa.
No mesmo instante, Geisty, que via a tudo tomada em fúria, não conteve mais sua vontade reprimida de dar uns bons tapas na cara bonita daquela sueco irritante e inconveniente e sem pensar duas vezes, se atirou sobre a mesa, no meio dos dois brigões, agarrou Afrodite pelos cabelos e com uma força surpreendente o puxou para trás, girando o corpo e metendo a cabeça de Peixes num lindo e suculento bolo de chantilly com morangos que estava ali para ser degustado no café.
— Viado maldito, eu odeio você! — gritava ela, forçando a cabeça do pisciano para baixo, dentro do bolo, até Shina aparecer ali na velocidade do som e puxar a amiga para fora da mesa.
Quando se viu livre da pressão, Afrodite ergueu o corpo, tirando o rosto daquela massa açucarada, então levou ambas as mãos aos olhos e retirou o excesso de chantilly. Viu Geisty e Shina logo à sua frente e agora as encarava em fúria, elevando seu cosmo numa velocidade assustadora, o que era bem preocupante, já que ao fazer isso também liberava suas toxinas venenosas — Sua... vaca desgraçada! — gritou o pisciano, passando as mãos nos olhos novamente para tirar mais uma camada de doce e poder enxergar melhor. Chacoalhou as mãos em seguida jogando meleca em todos que estavam ali, os quais já tossiam e percebiam seus sentidos se entorpecerem lentamente e os corpos débeis devido o cosmo venenoso do pisciano — Então agora você tem uma aliada? Ótimo! Mato as duas de uma vez!
— Caralho! Vamos todos morrer hoje! — gritou Shina de repente, tentando conter uma Geisty enfurecida que se debatia em seus braços para se soltar.
— Desgraçado! Covarde! — berrava a amazona, que nem se importava se Peixes era um cavaleiro de Ouro, só pensava em rasgar aquele rosto de falso anjo com suas garras — Vem, me mata que eu te levo junto para o inferno, viado filho da puta!
— Morra, vadia franjuda, Rosas Diabólmghthm...
Por sorte, Afrodite não chegou a desferir seu golpe contra as amazonas, pois Saga agira muito rápido, se jogando por cima do cavaleiro de Peixes, tapando sua boca e o prendendo contra o chão usando o tamanho e o peso de seu corpo. Sentia o cosmo de Afrodite lhe afetar os sentidos gradativamente, mas era maior e mais forte fisicamente e usou essa vantagem para ganhar tempo.
— Pare com isso, Peixes! Agora! É uma ordem! — ordenava Gêmeos, tentando fazê-lo voltar à razão, enquanto Geisty usava seu cosmo para criar uma ilusão de distorção de tempo e espaço para esquivar de algumas rosas que Afrodite ainda conseguiu lançar contra ela e Shina, antes de Saga intervir.
No chão, tentando conter um sueco enlouquecido de raiva, Gêmeos só tentava entender como, momento antes tinha descido apenas para tomar um café da manhã em paz com seus funcionários, e de repente se via imerso em um pandemônio de gritos, xingamentos, tapas e comida voando. Sua túnica limpinha quando descera, agora estava toda respingada de chantilly, café, suco de laranja, morangos, geleia, entre outras coisas mais. Sua cabeça começou a doer novamente quando deu um grito que fez tremer o salão.
— AFRODITE DE PEIXES! — berrou, dando um chacoalhão no pisciano, sentindo sua mente confusa e um tanto quanto letárgica, mas mesmo assim se forçava a controlar a situação — Se controle, porra! Ou você sublime seu cosmo agora, ou te mando imediatamente para outra dimensão, com chantilly, morango, geleia e tudo! Inferno de vida! Caralho do Hades!
Na mesma hora, Peixes sublimou seu cosmo e foi levantado do chão pelo geminiano, que o puxava pelo braço ainda lhe chacoalhando.
— Está querendo me enlouquecer? Está quase conseguindo, Peixes, quase conseguindo! — ralhou, enfim soltando Afrodite com um empurrão.
— Chefinho, mas foi ela que...
— Cala a boca! Cala... a sua boca, Peixes! — outro grito, e na mesa todos congelaram de medo, pois Saga quando ficava de fato bravo não era uma visão nada agradável de se ver. Seus cabelos ganharam algumas mechas negras repentinamente e ele agora encarava a todos com a mesma fúria que a pouco era dirigida somente a Afrodite — Geisty!... Vou acrescentar essa merda de destruição toda na sua conta! Eu estava de olho nesse bolo de morango desde que me sentei nessa porra de mesa para tomar o caralho do meu café da manhã!... E Misty, eu vou repetir só mais uma merda de vez: Não quero você dirigindo a palavra a Afrodite! Ao menos que ele fale com você! Da próxima vez eu mato os dois.
— Alôca! E eu lá quero falar com essa Lagartixa desclassificada? — disse Afrodite e na mesma hora levou outro chacoalhão mais forte ainda.
— E você, Afrodite de Peixes, eu quero que seja o exemplo de educação aqui dentro! Era isso que eu esperava de você quando o nomeei para ser meu sócio nessa merda! Era para dar o exemplo a eles e não ficar arrumando briga sem sentido! — apanhou um guardanapo da mesa e com certa rudeza e grosseria começou a limpar o rosto do pisciano — Estou começando a me arrepender de ter colocado você nesse negócio e estou pensando também em acabar com suas regalias! Se continuar me dando trabalho eu é que vou escolher os seus clientes!
— O QUE? — gritou o pisciano em assombro — Não senhor. Temos um trato! Eu disse que só aceitava participar desse circo se eu escolhesse com quem fosse trepar!
— Pois é! Então faça por merecer esse privilégio! — jogou o guardanapo com raiva sobre a mesa e deu mais uma olhada para todos ali. Shina e Geisty ainda estavam no chão. A amazona de cabelos verdes tentando conter a amiga, que ainda respirava arfante e tinha ódio no olhar — E vocês duas... Quero ver toda essa sujeira limpa! Não quero nem uma uva nessa porra de chão!
Saga então caminhou para a grande porta de saída que ficava na frente do Templo de Baco, arrastando Afrodite consigo pelo braço. Não achava prudente deixar o salão e largar os briguentos sozinhos, pois poderiam mesmo se matar e arruinar seus negócios e sabia que Afrodite e Geisty lhe dariam muito dinheiro!
Quando Gêmeos se aproximava da saída, já do lado de fora, viu Mu de Áries subindo as escadarias.
O lemuriano havia deixado o quarto de Marin muito antes de todos levantarem e foi para o Templo de Áries apenas para tomar um banho e trocar de roupa. Tinha dito a Saga que se apresentaria para o trabalho logo depois da noite de estreia e lá estava ele, com sua roupa típica e um bloco de notas nas mãos.
— Nossa! O que aconteceu aqui? — disse o ariano, rindo quando viu Afrodite todo sujo de chantilly e a túnica de Saga parecendo um avental de pintor. Depois esticou o olhar para dentro do salão e viu que, tirando Marin, todos estavam sujos de comida e com caras de enterro.
Estreitou os olhos quando olhou para Geisty. Então não tinha mesmo se enganado quando ouviu Saga dizer o nome da amazona de Serpente na reunião dias antes da estreia do Templo das Bacantes. Era mesmo ela. Não pode conter a surpresa e espanto, mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa ou mesmo ir falar com a morena, Saga chamou sua atenção dispersando seus pensamentos.
— Ainda bem que chegou, Mu de Áries. Pontual como sempre. Bem... Tivemos alguns contratempos no café da manhã, mas creio que já pode tomar nota dos produtos que as bacantes irão precisar. Foi para isso que veio, não? — disse Saga com seriedade.
— Ah... Sim! Foi sim. — respondeu o ariano de pronto, contendo o riso quando olhava para a cara lambuzada e emburrada de Afrodite — É bem... Saga, como me pediu, já contabilizei o dinheiro necessário para as despesas dessa semana. Mais tarde irei fazer também os cálculos da noite de estreia, mas, por hora gostaria de avisar para as meninas e também aos rapazes, que serei eu quem irá fazer as compras do Templo. — enquanto falava se dirigia até a mesa em frangalhos no meio do salão. Deu um sorriso para Marin assim que seu olhar cruzou com o dela, deixando a ruiva corada de vergonha — Então, galera, irei manter vocês abastecidos com tudo que precisarem e também irei controlar suas despesas pessoais. Sendo assim, queria pedir para que façam uma lista, e desde que os pedidos estejam dentro do limite de gastos de cada um, providenciarei tudo que for possível. Mas, por agora, se tiverem algum pedido mais emergencial, irei durante a tarde ao centro de Atenas e farei algumas compras. — encerrou o comunicado de forma gentil e com um sorriso singelo, enquanto ficou no aguardo da resposta de cada um.
— Bom, fiquem à vontade. — disse Saga, voltando a puxar Afrodite pelo braço para deixarem Mu a sós com as bacantes, porém Peixes o impediu.
— Não! Espera, Saguinha! Eu tenho uma listinha para o Mu também! Pode me soltar. Eu não vou matar ninguém. Pelo menos não agora.
Saga soltou o pisciano que ficou a seu lado esperando as moças passarem suas listas para Mu. Queria ser o último, pois sua listinha era um pouco mais apimentada e teria que ditar os itens ao amigo, pois tinha certeza de que ele não iria ter conhecimento de nem de metade deles.
Shina se aproximou deles esperando o lemuriano pegar uma caneta de um bolso para começar a tomar nota. A amazona ainda tinha alguns respingos de chantilly pelo corpo e passava os dedos por eles os levando à boca. Encostou-se a uma cadeira, ao lado do lemuriano e perguntou dando uma risadinha.
— Você quem vai comprar também camisinhas, absorventes, lubrificantes e vibradores para todas nós? Eu pagava pra ver você fazendo essas compras, Mu! — deu uma gargalhada tombando a cabeça para trás.
— Sim, Shina, eu que vou comprar tudo isso para vocês! — respondeu Mu com as bochechas coradas — "Mas... o que será que é um vibrador? Onde será que encontro isso? Acho que vou precisar de ajuda!" — pensou o ariano.
— Tudo bem então! Por enquanto só preciso de absorventes e camisinhas. Muitas! — disse a amazona de cabelos verdes — Ah, Saga... Queria dar uma ideia a você. O que acha de fazermos umas festas temáticas, por aqui?
Saga olhou para ela pensativo.
— Olha, Shina, eu acho uma boa ideia. Pode ficar responsável por isso por enquanto e peça ajuda à Geisty. Ela está de folga até segunda ordem. — afirmou Gêmeos e então se voltou para Mu novamente — Áries, quero que compre camisinhas para mim também. Extragrandes, por favor. — disse com um sorrisinho torto de canto de boca e nessa hora Afrodite virou o rosto para ele lhe lançando um olhar com as sobrancelhas arqueadas em sinal de que se interessou pelo assunto.
Mu tomou nota, ainda que meio constrangido — "Camisinhas extragrandes. Mas... e tem tamanhos diferentes? Ah, senhor, acho que vou ter um longo dia!" — Ah... Mais alguém? — perguntou o lemuriano, olhando para uma Marin envergonhada e um Misty de semblante esnobe e sisudo, que olhava para todos ali de nariz empinado. Nenhum dos dois se pronunciou.
— Eu! — respondeu então Afrodite, desviando os olhos de Saga e olhando para o ariano — Anota ai minha listinha, Mu. Preciso apenas de algumas coisas básicas, como cosméticos, hidratantes, shampoo, mas isso eu mesmo compro, porque você não vai conhecer as marcas que uso. Por enquanto, pode me trazer umas bolinhas de pompoarismo, vibradores, óleos bifásicos... Ah, quero vibradores camuflados em pincel de maquiagem e frascos de perfume. É sempre bom quebrar expectativas! — disse, colocando a ponta da unha do dedo mindinho entre os dentes, enquanto levantava o olhar para cima, gesto típico de quem estava puxando pela memória algo que precisasse se lembrar —... Ah... Sim... Anéis penianos, plugs... Traga uns com rabinho de pelúcia também!... Hummm... Três pares de algemas, essas sim, sem pelúcia, um chicote grande, um médio e um pequeno. Cordas! Bastante cordas! Traga também umas mordaças com fórceps bucal, coleiras, correntes e velas.
— Com.. e sem pelúcia... Fo-fórceps... bucal...? — Mu já tinha se perdido entre os plugs de rabinho de pelúcia e pompoarismo, quando tentava ainda tomar nota dos outros itens fazendo uma cara de confusão — Ah... anel o que? — perguntou todo vermelho enquanto escrevia, até que confessou, olhando para Afrodite e erguendo os ombros em sinal de desistência — Dido, não entendi metade do que disse, sinto muito! Há algo mais simples nessa lista?
— Sim. — respondeu o cavaleiro de Peixes rindo baixinho — Me traga também um repelente para biscate, para ver se afasta esses ebós de encruzilhada de perto de mim. — disse, olhando para Geisty com cara feia.
Geisty retribuiu o olhar, encarando o pisciano com ódio nos olhos violetas faiscantes e em tom ríspido se virou para Mu, a quem se lembrava com certa ternura, mas que no estado de raiva em que se encontrava, jamais conseguiria trocar uma palavra de bem que fosse com o ariano, então disse apenas o necessário, sem muita emoção:
— Eu preciso de tudo! Fui trazida para essa pocilga sem nada! — olhou para Saga nessa hora estreitando os olhos — A começar, pílulas e muitas camisinhas, porque não quero trazer mais um filho da puta para esse mundo! — encarou novamente Afrodite dos pés à cabeça com desdém — Por enquanto é só.
— Ah, sim... Geisty, trarei o que pediu. — disse Mu, anotando o ultimo item e olhando em seguida para a amazona — Puxa, Geisty... quantos anos não nos vemos, não é mesmo? Estou surpreso de vê-la... aqui.
— E eu surpresa de estar aqui, Mu. — respondeu a amazona em ironia, encarando o rosto de Saga, quando de repente Shina pegou em seu braço a puxando para tirá-la dali, antes que um novo bate boca desse inicio.
— Vamos fazer uma lista mais completa lá em cima, Mu, e depois eu te entrego, pode ser? Anda, Geisty, venha comigo. Tem que trocar essa roupa melecada.
Mu assentiu com a cabeça as observando deixar o salão para retornar aos quartos. Em sua mente, se perguntava que trama funesta havia sido tramada para selar o destino de Geisty àquele lugar, já que agora sabia bem o que ela e as outras amazonas fariam ali. Se lembrava dela dos tempos de infância, quando Shion a tinha trazido para o santuário e treinavam e brincavam juntos, e jamais a imaginava ver ali. Mas tudo naquele negócio de Saga era muito estranho, achou melhor não contestar nada, pelo menos não por agora, antes de se estabelecer melhor no Santuário.
Educadamente, Áries se despediu de todos e rumou para a sala onde fora montado seu escritório. Durante o percurso pensava em que tipo de lojas teria que ir para atender aqueles pedidos estranhos, principalmente os de Afrodite. — "Por que diabos ele pediu objetos de tortura? O Dido parece ser uma boa pessoa. Será que ele vai sair em alguma missão para o Santuário e vai fazer prisioneiros? E as coleiras? Será que o Dido tem cachorro? Ué, nunca vi. Será que tem a ver com os tais "hábitos de Peixes" que o Shaka mencionou?" — pensava o lemuriano, com a cabecinha inocente a mil! Os anos de isolamento estavam cobrando seu preço.
Quando todos se dispersaram e as servas já começavam a arrumar a bagunça toda, Saga aproveitou para segurar novamente no braço de Afrodite e agora tentar conversar com ele mais calmamente, vendo se conseguia colocar algum juízo naquela cabecinha que às vezes parecia servir só para produzir cabelo.
— Está mais calmo? Não pode se descontrolar desse jeito, Afrodite. Tem que dar o exemplo. Vou começar a colocar os estragos que fizer aqui na sua conta também! — disse o geminiano.
— Eu me descontrolar? Descontrolada é aquele exú de franja! Olha só meu cabelo! — dizia o pisciano, pegando umas mechas grudadas pela meleca do açúcar e mostrando a Saga com indignação — E por que você está defendendo aquela biscate? Eu fiquei ao seu lado o tempo todo, durante todos esses anos e você defende ela? — questionou, levantando a voz para Gêmeos, enquanto desgrudava um morango de sua franja.
Saga então deu uma bufada e soltou o braço de Peixes.
— Não estou defendendo ninguém. Apenas não vou permitir que façam um inferno da minha vida. Ora, faça-me o favor! — retrucou e então segurou na cabeça do pisciano e fez ele se curvar um pouco para baixo, para retirar uns pedaços de morango que ainda estavam embrenhados no meio de seu cabelo — E vai tomar um banho.
Quando Saga fez esse movimento, Afrodite encostou o rosto propositalmente na curva do pescoço do geminiano e lhe deu uma mordidinha leve, seguida de alguns beijos mais molhados. Queria provoca-lo, no entanto se surpreendeu ao sentir o cheiro de Geisty impregnado na pele do grego, forte e marcante como ela!
Como por impulso, Peixes franziu a testa e olhou para cima em espanto, para o rosto de Gêmeos, que agora o olhava confuso, devido aquela provocação.
Desde que Geisty chegara ao Templo, Afrodite já havia notado os olhares que ela dava ao geminiano, e ele a ela! Achava que era tão somente atração sexual, afinal ela era uma mulher bonita e ele um homem cheio de disposição.
Devido a seu cosmo e seu treinamento, Afrodite possuía uma percepção sensorial diferenciada. Seus sentidos eram muito aguçados e por isso podia sentir como os feromônios de ambos se alteravam quando estavam próximos um do outro. Então, já que Saga estava fedendo à Geisty, era obvio que passaram a noite juntos ou estiveram juntos antes do café. Assim como era óbvio que ela estava fazendo a cabeça do grego contra si. — "Vaca!" — pensou irritado — "Então você gosta dele, né vadia?" — concluiu consigo e começou a rir sozinho, enquanto Saga limpava as mãos melada de chantilly na barra da túnica que já estava toda suja.
Peixes então colou seu corpo ao de Gêmeos e levando ambas as mãos ao rosto dele o segurou e lhe deu um selinho atrevido, encarando as íris jades de Saga com seus olhos aquamarines que irradiavam luxuria.
— Que está fazendo, Peixes? Vê se sossega e vá se limpar! — perguntou o grego encarando o sueco nos olhos, tentando entender o que aquele maluco queria com aquele gesto.
— O que estou fazendo? Ora, não é obvio? — respondeu Afrodite com a voz carregada de sensualidade. Deixou de inibir as toxinas tão naturais de seu ser, que serviam como afrodisíacos potentes, as liberando de uma vez e passou os braços pelo pescoço forte do Grande Mestre, tomando sua boca agora num beijo profundo, carregado de desejo.
Gêmeos se entregara aquele beijo sem pestanejar, explorando a boca do pisciano num misto de confusão e excitação e sem perceber já prensava o outro contra o balcão do bar intensificando ainda mais o contato entre os corpos.
— Você não vale nada, seu sueco maluco. — sussurrou o grego, dando uma mordida no queixo do cavaleiro.
— Você também não, chefinho... Por isso a gente dá certo! — disse Afrodite dando um sorriso safado, ao mesmo tempo em que enfiava as mãos por debaixo da túnica do grego — Eu não preciso que me defenda, eu sei muito bem me defender, mas... Confesso que adoro quando você cuida de mim... Quando fica do meu lado. — sussurrou no ouvido de Saga, enquanto lhe mordia o lóbulo da orelha e dançava com suas mãos pelo corpo forte do outro.
— Hum... Sei muito bem que você sabe se defender, Afrodite, mas prefiro não ter que lidar com corpos nesse templo. — respondeu Saga, sentindo seu corpo meio pesado e sua mente entorpecida. Tudo que queria naquele momento era subir para seu quarto e tomar um banho, porém simplesmente não conseguia desgrudar do corpo e da boca daquele pisciano fogoso. Queria ainda mais seus beijos, seus toques, lambidas e mordidas. Não conseguia formar um pensamento coerente ou racional, quando tudo que sentia era aquele perfume de rosas cada vez mais proeminente e marcante entrando em suas narinas e tomando seus sentidos por completo — Afrodite... Não faz isso... — sussurrou, descendo as mãos pelas nádegas do pisciano as apertando com força, enquanto embrenhava seu rosto nos cabelos azul piscina, fechando os olhos e puxando o ar com uma necessidade vital daquele perfume que era pura luxuria.
— Não fazer o que? Isso? — disse Peixes sorrindo quando percorreu o tórax do geminiano com a mão, depois a descendo até o membro rijo e lhe dando uma bela apalpada — Mas você adora isso, Saga! Eu sei que adora! Não está bom?
— Sim... Você sabe que sim! Seu safado! — respondeu o grego num sussurro com um sorriso de canto de boca, enquanto o sueco começava a massagear seu pênis por cima da cueca. Gêmeos então lhe puxou os cabelos pela nuca e já totalmente mergulhado naquele universo de cheiros, gostos e texturas, beijou o pescoço do sueco com lascívia. Afrodite conseguira o que queria!
— Hummm... Vamos para um lugar mais reservado, Grande Mestre? Quero você. E quero agora! — sussurrou Afrodite, porém tudo que o sueco não queria eram reservas ou discrição. Muito pelo contrário, queria que Geisty soubesse que estava com Saga, por isso puxou o geminiano pela mão até a parte de fora do Templo de Baco, onde o prensou na parede de rocha maciça, próximo às escadas laterais que levavam ao subsolo daquela construção antiga, onde ficavam os estoques de bebidas, adegas, garagens, porões... E propositalmente bem abaixo da janela onde ficava o quarto de Geisty.
Enquanto isso, no segundo andar do Templo, onde ficavam os quartos das bacantes, Geisty havia retornado a seus aposentos para trocar de roupa e fazer a lista que deveria entregar a Mu até o meio dia. Estava toda respingada de chantilly, então jogou o vestido no cesto de roupas sujas e vestiu um short confortável e uma camiseta branca. Não queria sair daquele quarto tão cedo. Seu dia começara muito bem ao lado de Saga, porém ainda lembrava-se com ódio da noite passada e do desastre que fora o café da manhã!
Com um suspiro de cansaço, pegou um bloco de notas na gaveta do criado mudo, uma caneta e jogou-se na cama soltando todo o peso do corpo de uma só vez, porém quando encostou a cabeça no travesseiro sentiu um incômodo. Ergueu o corpo, se virando meio de lado para ajeitá-lo, percebeu algo embaixo dele. Imediatamente puxou o travesseiro para cima e se surpreendeu ao ver ali um lírio de cristal. Ficou alguns segundos olhando para a peça, sem entender o que aquilo significava.
— Mas como isso veio parar aqui? — interrogou-se em espanto, ficando ainda mais assustada quando levou a mão até à escultura e a tocou, percebendo que era gelada, apesar de não machucar ao toque — Madonna mia! Não é de cristal é de... gelo! Então... só pode ter sido aquele babaca quem colocou essa merda aqui! Ah, está de deboche comigo, só pode ser!
Com as mãos trêmulas de raiva, pois aquela merda de lírio só lhe fazia lembrar-se da experiência traumática que tivera com Camus de Aquário, Geisty se perguntava como o mafioso havia colocado a escultura ali e o por quê de tê-la feito! Seria um pedido de desculpas? Nunca iria perdoá-lo, nunca!
Passou a mão na peça, abriu a ultima gaveta do criado mudo e jogou a flor lá dentro.
— Que morra esse idiota! — resmungou, deitando-se de bruços na cama para começar a fazer sua lista, quando ouviu dois toques na porta e a voz de Shina lhe chamando — Entre!
Shina também havia passado em seu próprio quarto para se limpar do chantilly que respingara em sua roupa e agora encontraria a amiga para fazerem suas listas de itens a serem entregues a Mu.
— E ai? Já fez a sua lista? – perguntou a moça de cabelos verdes.
— Vem cá, Shina. — respondeu Geisty dando uma risada descontraída e sonora — Vou avacalhar o Mu. Coitadinho, sei que ele não merece, e até gosto daquele carneirinho, mas vamos fazer isso para que ele não queira mais ir atrás dos produtos, assim nós mesmas podemos sair pra comprar e ter uma folga desse manicômio! E ai? Tá dentro? — perguntou para a amiga com um sorriso de orelha a orelha.
— Mas é claro! — disse a moça de cabelos verdes.
Shina notou que pelo jeito de Geisty, eufórico e um tanto quanto ansioso, a amiga fazia de tudo para desviar sua atenção das marcas arroxeadas em seu rosto. A briga com Afrodite no café da manhã desviara o foco, mas Shina não deixaria uma coisa grave como aquela passar batido. Sentou-se ao lado da amiga na beirada da cama, cruzou os braços e perguntou com voz firme:
— Antes de tudo, quero saber o que aconteceu com você. Como me esconde uma coisa grave dessa, Geisty? Sou sua amiga ou não, porra? Pode ir desembuchando. Foi o Camus de Aquário que fez isso, não foi?
Geisty bem que tentou, mas Shina era mesmo difícil de ser enrolada, principalmente quando estava curiosa. A amazona de cabelos negros ficou calada. Com seus imensos olhos violetas tentava buscar uma saída para aquela sinuca de bico a qual caíra. Passou a língua entre os lábios em um gesto meio nervoso e abaixou o olhar em derrota. — "Não posso enganar Shina, é a única amiga que tenho aqui nessa merda de lugar! Vou contar o mínimo possível. Não posso coloca-la em perigo." — pensou.
— Foi! Foi o Camus. — respondeu seca, em um misto de raiva e tristeza — Mas, Shina, o quanto menos você souber será melhor. Esse cara é perigoso. Ele é um dos cabeças da máfia russa. E se te alivia saber, eu falei com o Saga hoje pela manhã. Acho que ele vai tomar uma atitude.
Shina ouvia tudo não muito convencida. Queria saber mais. Queria saber tudo! Porém, foi tirada de seus devaneios curiosos como que por uma bofetada, sacudindo a cabeça de leve e olhando para a amiga com um olhar confuso.
— Falou com Saga hoje cedo? Mas ainda é hoje cedo, mulher! — a amazona então deu um sorriso malicioso e um cutucão no braço da amiga — Hummm, falou com o Saga, é? E a conversa foi boa pelo menos? — ria da cara de vergonha de Geisty.
— Ah, cala boca Shina, só falei sim... e depois, isso não te interessa! — sorria a morena envergonhada, enquanto dava uma pancada com o bloquinho de anotações na cabeça da amiga na tentativa de encerrar o assunto, pois era assustador até para si mesma admitir que pudesse estar se interessando por Saga. Era louca, por acaso? Uma espécie de masoquista? Suspirou cansada — Chega de conversa mole. Vamos à lista?
De comum acordo e aos risos, Geisty e Shina começara a famigerada lista. Nela colocaram toda a sorte de itens do universo feminino, desde curvex para cílios, até sabonete íntimo e camisinhas que brilham no escuro.
Enquanto isso, do lado de fora do Templo, na escadaria lateral, Saga invertia as posições e agora era ele quem pressionava Afrodite contra a parede, projetando todo o peso de seu corpo forte sobre o corpo languido e curvilíneo do pisciano, enquanto enrolava seus dedos nos cabelos macios e puxava com força, tomando os lábios quentes e arfantes do sueco com beijos ansiosos.
Afrodite retribuía o beijo com lascívia, já agarrando no tecido da túnica de Gêmeos e a puxando para cima, com pressa em despir aquele homem que ardia em desejo.
— Tira... tira logo... Saga... quero você!
— Ah, você quer, é? — respondia o grego, erguendo os braços e terminando de tirar a túnica para logo em seguida atira-la ao longe sobre os degraus da escada — Pois vou te dar o que você quer, Afrodite! Seu devasso! — murmurou dando uma lambida sem vergonha no pescoço alvo do outro, já puxando a camiseta dele para cima e o despindo também.
Meteu a mão no cós do short de Peixes e num movimento brusco abriu os botões e baixou o zíper de uma vez, puxando a peça de brim para baixo sem muita delicadeza e expondo a pele muito branca do outro cavaleiro a seu bel prazer.
— Aaahhh... Me faça gritar então, Saga. Quero ver se você consegue! — provocou o pisciano com um risinho safado e uma mordia forte no peito másculo do geminiano, depois circulou um dos mamilos dele com a ponta da língua e começou a sugar de leve, ao mesmo tempo em que enfiava os dedos por debaixo do elástico da cueca do grego e puxava o tecido de algodão para baixo, fazendo aquela ereção enorme pular para fora com o movimento.
— Hum... Isso depende de quão alto você pretende gritar! — afirmou o geminiano, mordendo de leve o ombro de Peixes — Se pretende gritar muito alto, creio que seja melhor irmos para alguma sala, para que ninguém nos interrompa. — disse intercalando mordidas e chupadas na pele que ainda tinha alguns respingos de chantilly.
Afrodite riu e enquanto passava uma perna por entre as pernas de Saga, percorreu as costas dele com as unhas e descendo lentamente e contornando os músculos bem definidos, agarrou o membro rijo e molhado do cavaleiro começando a massageá-lo com extrema pericia.
— Ah, não! Quero aqui, Grande Mestre, e a potência dos meus gritos vai depender do quão forte você vai me comer! Se for meter com muita força, aconselho você a tapar a minha boca, porque o Santuário inteiro vai me ouvir gritar o seu nome! Meu deus grego! — sussurrou de maneira extremamente sexy no ouvido do outro e mordeu seu pescoço deixando uma marca. Então, com a mão que estava livre, segurou com força no queixo dele e o beijou novamente.
— Hum, eu sou um deus é? — sibilou Gêmeos. Afrodite havia conseguido instigar seu ego e agora Saga faria tudo que ele queria — Aaahh... Pois o seu deus grego aqui vai meter forte nessa sua bunda gostosa, safado! E não me importo que você grite meu nome até ficar rouco! — afirmou, passando o dedo entre seus cabelos e dando outro puxão forte. Era incrível como Afrodite o tirava do sério ultimamente.
Aquele perfume de rosas que exalava do corpo dele era algo que beirava ao perturbador. Mexia com seus sentidos e seus instintos e parecia fazer com que se esquecesse de todo o resto. Tudo que queria quando sentia aquele perfume era possuir aquele corpo até ficar exausto!
Afrodite então segurou na cintura de Gêmeos e o conduziu até os últimos degraus da escadaria, e entre beijos e mordidas afoitas, fez com que o geminiano se sentasse entre eles — Saga... Saga... Saga... — gemia manhosamente, num jogo de sedução delicioso e perigoso — Saaaga... — lambeu a curva do pescoço do cavaleiro, depois desceu para um dos mamilos novamente, circulou o umbigo e finalmente, olhando para o geminiano colocou a língua para fora e deu uma lambida safada em toda a extensão do pênis do grego — Fode a minha boca, Sssssagaaa! — sussurrou, sem quebrar o contato visual nem por um minuto e então ficou de joelhos, de frente para ele, apoiando as pernas no degrau debaixo, abriu a boca propositalmente esperando a reação do outro, enquanto lhe dava piscadinhas e balançava o quadril para um lado e para outro, num gingado erótico e provocativo.
Saga sentia seu corpo todo se arrepiar. Estranhamente, ouvir Afrodite dizer seu nome daquele jeito tão sensual o estava levando à loucura. Olhava para aquele rosto tão belo e ao mesmo tempo tão travesso e sentia seu sangue entrar em ebulição. Tinha que prová-lo uma vez mais, pois era humanamente impossível resistir aquele vulcão de libido e luxuria.
Gêmeos passou as mãos pelos cabelos do sueco, apertou os dedos nas mechas azul piscina e forçou a cabeça de Afrodite para baixo, de encontro a seu membro, que fora abocanhado pelo outro na mesma hora, até quase tocar sua garganta.
— Aaaaahh... Isso... Engole tudo, Afrodite... É disso que você gosta, não é? — dizia ofegante e então ditava o ritmo com as mãos atracadas aos cabelos do pisciano, num vai e vem cada vez mais frenético.
— Hummm... hum-hum! — gemia Peixes, enquanto sugava o membro do grego com avidez, circulando a língua pela glande, abocanhando quase por inteiro para depois apenas brincar, provocando o geminiano com aquela tortura aprazível.
Saga soltou uma das mãos dos cabelos dele e levou seus próprios dedos à boca, dando uma boa lambida em dois deles, para em seguida se debruçar sobre o corpo de Afrodite e o penetrar com eles.
— Hummm... — gemia Saga, brincando com aqueles dedos dentro do corpo do sueco, que remexia o quadril para provocá-lo, sentindo os dedos do geminiano forçarem passagem cada vez mais, e só quando seus joelhos começaram a doer muito e lhe incomodar, pois os tinha nus contra o chão de pedra áspera, foi que Afrodite ergueu a cabeça, abandonando o pênis do outro e atacando seu pescoço com chupões e beijos ardentes.
— Aaah... Chefe... Está me torturando assim. — disse num sussurro — Saga... Saaaagaaa... — gemia, esfregando o rosto nos ombros dele enquanto arranhava suas costas com as unhas sempre bem feitas.
Então, sem esperar mais, Saga retirou os dedos de dentro dele e o puxou para um beijo molhado e quente. Quando suas bocas já estavam inchadas e arfantes, Gêmeos se afastou dos lábios de Peixes, molhou alguns dedos novamente com sua saliva e lubrificou o sueco, ao mesmo tempo em que o posicionava em seu colo, de frente para si, com as pernas bem abertas. Sem esperar mais um minuto sequer, segurou na base de seu próprio pênis com uma das mãos, enquanto com a outra forçava o corpo de Afrodite para baixo, começando a penetra-lo devagar, porém sem parar, até que seu membro estivesse completamente dentro do corpo do outro, sendo deliciosamente estrangulado e lhe proporcionando um prazer delirante — Aaaaaaahh... Vai... Grita agora! Pode começar a gritar... — projetou o quadril para frente, dando um tranco brusco no pisciano, que agarrou em seus braços soltando um grito abafado.
— Saaagaaaa... aaaaahhh — segurou nos cabelos azuis de Saga com força e o forçou a olhar para seu rosto, já corado pela excitação, enquanto seu corpo era sacudido, para cima e para baixo, pelas estocadas fortes e vigorosas do geminiano — Aaaahhh... aaahhhh... aaahhhh... Saaaagaa... Saaaaagaa... Saagaaaa...
E Afrodite gritou. Sem nenhum pudor, constrangimento e... propositalmente alto. Calava-se apenas quando Gêmeos procurava seus lábios para mordê-los ou suga-los em beijos selvagens, enquanto metia sem diminuir o ritmo nem por um segundo. Era nessas horas que Peixes aproveitava para provoca-lo ainda mais, sussurrando obscenidades em seu ouvido — Que pau gostoso, Saga... hummmm... mete mais... eu aguento mais... vai... Saaaagaaaaaa!
Os gritos do cavaleiro de Peixes ecoaram através das paredes de rochas milenares do Templo de Baco, indo atingir em cheio aos ouvidos atentos de todos que ali estavam, concentrados ou não, em suas atividades.
No quarto de Geisty, a amazona fazia sua lista de itens junto com Shina aos risos, quando de repente parou, desmanchou o sorriso do rosto e olhou com uma expressão muito séria para o rosto da amiga, que naquele momento tinha parado de rir também e focado o olhar nos olhos da outra.
— Mas que porra é essa? — disse Geisty em espanto, enquanto ouvia gritos e gemidos para lá de escandalosos de alguém berrando o nome de Saga — Saga? Corre, Shina! Está acontecendo alguma coisa! — gritou dando um salto da cama, já puxando a amazona de cabelos verdes pelo braço.
Abriu a porta do quarto num solavanco afobado e atravessou o corredor quase na velocidade do som, descendo as escadas até o salão principal. Porém, quando as duas se aproximavam da grande porta de saída, que estava aberta, foi Shina quem segurou Geisty, a impedindo de cruzá-la. Ambas ficaram paradas ali, ouvindo os gemidos que a essa altura dos fatos já sabiam bem de quem eram e do que se tratavam!
As duas se entreolharam. Shina abafou uma risada, mas Geisty sentia seu sangue entrar em ebulição. O coração batia num ritmo frenético e a amazona sentia um ódio que a muito não sentira, desde que fora jogada no campo de treinamento das amazonas, quando ainda era apenas uma garotinha assustada.
Nesse mesmo instante, Mu de Áries saía de seu escritório às pressas. O lemuriano estava organizando as planilhas com os gastos da noite anterior quando ouviu a voz de Afrodite gritando o nome de Saga quase num tom de desespero.
Temeu que Saga pudesse estar batendo em Afrodite, talvez pelo ocorrido no café da manhã, então largou tudo que fazia e saiu em disparada, seguindo em direção para o lugar de onde os gritos vinham.
Enquanto Mu descia as escadas que davam ao salão, viu quando Shina cochichava algo no ouvido de Geisty. Correu em direção a elas e os três seguiram para o lado de fora do Templo.
Quando cruzaram a grande porta, Mu se espantou com o que vira. Saga e Afrodite estavam transando? Nem teve muito tempo para formar um pensamento coerente em sua mente pudica, pois Shina tomava a frente e batendo palmas soltou um grito a plenos pulmões.
— Aaaaa-háááá! Mas que porra é esta? É uma cigarra no cio?
O que se seguiu aconteceu tão rápido quanto um piscar de olhos.
Saga de Gêmeos estava tão concentrado naquela transa, com todos os seus sentidos imersos no corpo quente do pisciano, que levara o maior susto da sua vida! Ao passo que Afrodite, de olhos fechados, cavalgava delirante o corpo do outro, quando aquele grito de Shina quebrou totalmente a ambos, Peixes e Gêmeos, minando concentração, tesão, coordenação, tudo!
No exato momento em que Shina resolvera surpreende-los daquela maneira intempestiva, Saga dava um tranco em Afrodite o puxando para baixo, segurando firme em sua cintura, e Peixes, com o susto, tentou se levantar por impulso, mas como Gêmeos o puxava ele se desequilibrou e sentou com tudo sobre o membro do outro.
Só que sentou errado. Bem errado!
