O grito de Shina havia feito muito mais que apenas assustar Saga e Afrodite naquele momento tão íntimo.

Com o susto, Peixes se desequilibrou no colo de Gêmeos, enquanto o cavalgava, e seu último movimento foi tão desastroso que quando soltou o peso do corpo para cair sobre o colo do geminiano, provocou uma lesão grave no pênis do cavaleiro, que imediatamente soltou um urro de dor, mais parecendo um rosnado de uma fera enlouquecida.

— Aaaaaaaaaarrrrrrrrhhhhhhgggg...

O rosnado de Saga foi acompanhado de um tranco para frente, pois ele instintivamente tentou levar as mãos ao membro machucado e no processo empurrou Afrodite para trás, que por estar sobre degraus em declive, não encontrou aonde se apoiar e rolou escada a baixo, até bater com a testa no paredão de pedra.

Quando enfim conseguiu se equilibrar de joelhos na escada, Afrodite resmungou algumas palavras antes de levantar a cabeça e olhar degraus à cima. Foi quando viu Shina às gargalhadas e Geisty ao lado dela que olhava para um Saga todo encolhido e se contorcendo de dor no mesmo lugar.

— Saga... Você não tem critérios. — disse Geisty, com um semblante de nojo no rosto, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça negativamente.

A amazona estava indignada e muito decepcionada. Depois do que ocorrera antes do café da manhã, do beijo que trocaram e da maneira terna e carinhosa com que o geminiano a tratara, Geisty imaginou que tudo pudesse ser diferente dali para frente, mas diante da cena que acabara de presenciar sentiu-se usada e enganada mais uma vez.

Saga por sua vez, sentia tanta dor que nem conseguia raciocinar. Não percebia quase nada à sua volta. Tudo que sentia era seu membro latejando dolorosamente, ao passo que seu rosto se contorcia em agonia. Alguns fios de seu cabelo azul começavam a escurecer gradativamente e assumir um tom negro vivo e ameaçador.

Em seu raciocínio torpe e confuso, só tinha certeza de uma coisa: aquelas malditas iam pagar muito caro pela dor que provocaram em si.

Logo ali, ao pé da escadaria, um sueco furioso se levantava passando a mão pela testa ferida. Ao verificar que estava sangrando, Afrodite se enfureceu e subiu aqueles degraus na velocidade da luz, correndo em direção à Shina e Geisty.

— Eu mato vocês duas, suas desgraçadas! — gritou, avançando contra elas.

Porém, não contava que Mu de Áries impediria uma desgraça ainda maior.

— Muralha de cristal! — o ariano usou sua técnica para conter o pisciano que parecia possuído por um encosto do mau.

— MU! Tira essa porra de parede daqui, seu traíra! — gritava o pisciano.

Não podia acreditar que Mu estivesse compactuando com aquelas duas malditas e, tomado em fúria, dava murros na Muralha de Cristal, soltando fogo pelas ventas, enquanto o sangue escorria por sua testa e tingia de vermelho a lateral de seu rosto.

— Mu! Desaquenda essa parede daqui! Eu vou matar essas duas moscas varejeiras! Tira logo, Mu! — espalmou as mãos na Muralha, mas quando percebeu que tinha um tufo enorme dos cabelos de Saga entre seus dedos, os quais havia arrancado quando tentou segurar nele para não cair da escada, olhou imediatamente para baixo, para o geminiano, que permanecia ali encolhido se contorcendo.

O que viu não foi nada agradável.

O corpo todo do geminiano tremia, seus cabelos pareciam ter vida própria e dançavam em torno de si, adquirindo um tom mesclado de azul e preto. Peixes imediatamente deixou a Muralha e se ajoelhou a seu lado, tentando olhar em seu rosto e acalmá-lo.

— S-Saga... chefe... segura ele! Olha para mim... Machucou muito sua piroquinha? Levanta daí, Saga, eu te ajudo! — dizia em voz baixa e trêmula.

Saga por sua vez, abriu os olhos e viu o mundo tingido em vermelho. Virou o rosto para trás e mirou as duas amazonas o encarando ainda. Shina ria e Geisty o olhava com desprezo. Sentiu raiva, porém era uma raiva motivada pela dor que sentia em seu membro. Mais alguns fios de seu cabelo azul se tornaram negros como por mágica e Gêmeos não teve dúvidas.

— OUTRA DIMENSÃO! — bradou, mas sua voz saiu fina e espremida e estava tão abalado que o único efeito do golpe que desferira foi assustar as mulheres e fazê-las correr para bem longe dali.

A seu lado, Afrodite estava pálido e ofegante. Espalmava as duas mãos no peito, como que para se certificar de que ainda estava ali mesmo, e não pairando sobre uma dimensão aleatória qualquer.

O pisciano soltou um suspiro de alívio e retomou à tentativa em ajuda-lo.

— Saga... venha... deixa eu te ajudar.

— Me deixa aqui, Afrodite. Apenas me traga gelo... E uma garrafa de Absinto. Rápido. — pediu num fio de voz apenas, ainda curvado e com ambas as mãos sobre seu membro lesionado.

Assim que as amazonas correram de volta para dentro, Mu desfez a Muralha de Cristal e correu para ajudar os colegas.

— Me desculpa, Dido, mas não podia deixar você matar ninguém aqui. Vamos ajudar o Saga. — disse o lemuriano.

— Humm... Seu traíra! Mas eu não esperava mesmo outra atitude de você. Fica aqui com ele que vou buscar gelo. — disse o pisciano, vestindo rapidamente suas roupas, depois correu para dentro do Templo.

Parou na porta assim que viu Misty de Lagarto ali, de pé e de braços cruzados.

De longe o francês havia visto toda a cena e agora encarava o pisciano com seu habitual sorrisinho debochado no rosto. Diante do olhar enraivecido de Afrodite, Misty engoliu seco e acompanhou de soslaio os movimentos do dourado ao passar por si, pois com Afrodite todo cuidado era pouco. Nada impedia aquela escamosa de um ataque covarde pelas costas, tanto quanto o que lhe acontecera há pouco no café da manhã.

Tentava a todo custo prender o riso escrachado, quase que com competência, mas ao ouvir um gemido baixo do sueco depois de ter passado por si, deixou escapar uma bufada de ar e mordeu os lábios num esforço monumental para não explodir em risada. Conteve o mais que pôde.

— Nossa você está horrível, escamosa. Sujo, sangrando, mas pelo menos está vivo. E olha só! Está andando até que normalmente! — disse Lagarto aos risos — Quando ouvi os gritos ainda há pouco, achei que Saga estivesse te mantando! Senti até uma pontinha de alegria. Hihihihihihi.

Por milagre, Afrodite não revidou. Até correria atrás daquela Lagartixa cascuda e arrancaria todo seu sangue sem precisar de rosa branca nenhuma, mas preferiu não causar mais um barraco e se deu por satisfeito em apenas se imaginar bebendo o sangue daquela subalterna com um canudinho dos que estavam sobre o balcão do bar, quando caminhou para trás dele para abrir o freezer e pegar gelo.

Misty vinha logo atrás e então se debruçou na peça observando o outro pegar um saco plástico e colocar o gelo dentro.

— Não é que para trepar com o Afrobicha é preciso ter um pau de aço! — provocou o francesinho, dando outro risinho irritante.

Afrodite ignorou mais aquela provocação e então passou a mão no saco com gelo, deu um nó, apanhou uma garrafa de absinto da estante de bebidas e, sempre encarando o Lagarto nos olhos, rapidamente deixou o bar, voltando à escada onde Mu agora estava agachado ao lado de Saga, cobrindo suas costas com a túnica suja que ele usava.

— Aqui, Mu! — disse, mostrando o gelo para o lemuriano, que achou melhor teleportar aos três para o quarto de Gêmeos no bordel, onde ele pudesse se deitar.

Sendo assim, sem nem se darem conta, Saga e Afrodite já se viram no quarto do geminiano.

— Uau! Tinha esquecido que você tem esse dom, Mu! — disse Peixes, que olhava para Áries surpreso e então colocou a garrafa sobre o colchão e foi até ele ajuda-lo a deitar Saga na cama.

— Coloca alguns travesseiros nas costas dele, Dido. — disse Mu, que ouvia o geminiano gemer de dor e resmungar, quando pegou seus pés para erguê-los e ajuda-lo a se deitar.

Afrodite já arrumava os travesseiros e logo Gêmeos estava perfeitamente acomodado, não fosse pelo incômodo terrível da luxação em seu pênis.

— Onde... está a merda da bebida que pedi? — rosnava entredentes o grego.

— Aqui, chefinho. O gelo e a bebida. — respondeu de pronto Peixes, lhe entregando a garrafa de absinto — Agora, tem que tirar a mão daí... — apontou para o meio das pernas de Gêmeos, que segurava a garrafa com uma mão e cobria o membro machucado com a outra —... para eu poder colocar o gelo.

— Fica longe do meu pau, Afrodite! Aaaargh! — resmungou, abrindo a tampa da garrafa com os dentes mesmo e dando um gole generoso na bebida.

— Eu heim! Até parece que a culpa foi minha. Ah, tá boa? Para o seu governo, eu também fui... lesionado, se quer saber. Agora, anda, facilita as coisas, miolo mole. — disse Peixes de modo firme e decidido e então segurou no punho da mão que Saga cobria o membro e a puxou para cima e num gesto rápido, meteu o saco de gelo sobre o pênis do geminiano sem muita delicadeza.

— AAARGHK! SEU... — berrou o grego.

— Desculpa! — respondeu o sueco — Mas se quer culpar alguém, culpe aqueles dois despachos de encruzilhada! A gente está tentando te ajudar, não é Mu? — olhou para Mu, que observava a tudo em agonia.

— Ah... sim. Claro que sim. — respondeu o lemuriano — Não sou médico, Saga, mas creio que tenha sido apenas uma... torção. Mas seria bom ver se não quebrou.

— O QUE? — de súbito Gêmeos arregalou os olhos e imediatamente agarrou o saco de gelo e descobriu seu pênis.

Como quem abre as cortinas para um espetáculo, os três pares de olhos arregalados, angustiados e curiosos, no mesmo instante se direcionaram ao membro avariado e depois de se certificarem, cada um a seu modo, de que não havia ocorrido nenhuma fratura, até porque pênis não possui ossos, os olhares se ergueram, desviando-se do foco do problema, e os três cavaleiros se entreolharam calados, na esperança de que um deles quebrasse o silêncio dando um prognóstico positivo da situação.

E como era de se esperar, a notícia veio de Mu, justamente o menos experiente dali, porém o mais sensato.

— Foi só uma torção.

— Como você sabe? — perguntou Afrodite aflito.

— Porque não está nem roxo, nem dobrado, só está muito inchado.

— Ufa! Santa Atena do pau torto! Essa foi por pouco! — suspirou o pisciano aliviado, e finalmente se deixou relaxar e sentou na beirada da cama, ao lado de Saga. Porém se levantou na mesma hora quando sentiu uma pontada de dor em seu traseiro. Não tinha se machucado tanto quanto o grego, mas estava bem dolorido também e tudo por causa daquelas duas estúpidas invejosas.

Gêmeos e Áries perceberam o incômodo de Peixes, porém Saga estava nervoso demais para se importar com outra coisa que não fosse com sua dor. Precisava controlar sua raiva, ou uma desgraça aconteceria ali, então achou melhor fechar os olhos, segurar o gelo sobre o membro, beber seu absinto e tentar se acalmar.

Mu por sua vez, se aproximou do pisciano, retirou um lenço de seu bolso e segurou no queixo dele com delicadeza.

— Dido, vem cá. Deixa ver sua testa. Está sangrando. — disse, enxugando o sangue que escorria com o lenço — Nossa, fez um galo enorme!

— Não é nada, Mu. Estou bem. Tenho uma pomada ótima para inchaços, torções, pano branco, fraturas, calvície, frieira... Vou inclusive trazê-la aqui para passar um pouco na piroca do Saga.

— Não vai passar nada em mim, Afrodite. Me deixem sozinho, por favor. — resmungou Gêmeos da cama.

Mu e Afrodite olharam para ele e logo voltaram a conversar.

— Fiquei preocupado com você, Dido. — disse Mu, voltando a limpar o sangue que escorreu pela lateral do rosto do sueco — Escutei seus gritos e por Atena, achei que Saga estava te batendo, te machucando, sei lá.

Afrodite olhou para Mu envergonhado. Estava tão enciumado por ter sentido o cheiro de Geisty em Saga que não pensou em nada, apenas em mostrar para ela que ele tinha o geminiano na mão, ou melhor, na cama, quando quisesse e que nem adiantava ela querer o tomar de si. Por isso, gritou para que ela o ouvisse, mas não pensou que Mu e todos os outros também ouviriam e agora sentia muita vergonha.

— Não, Mu, ele não estava me machucando. A gente só estava... é... Melhor deixar para lá. Você é muito legal, carneirinho. — disse com um sorriso, e então curvou o tronco para frente e encostou a cabeça no ombro do lemuriano — Me desculpe se te deixei preocupado e por ter te chamado de traíra. Obrigado, Mu.

— Não precisa me agradecer, Dido. — disse o ariano alisando os cabelos azuis piscinas do sueco num gesto amigável — Vá para sua casa, tome um banho e cuide desse machucado aí. — disse Áries, e então se segurou para não rir, pois mesmo tendo demorado um bocado para entender porque Afrodite gritava tanto, quando entendeu finalmente não pode deixar de achar a situação cômica.

Isso que dava ficar fazendo estripulias por ai. Não à toa Shion lhe recomendara tanto que fosse discreto e pudico, e que Shaka torcia o nariz para Afrodite por acha-lo devasso. Sem dizer Saga! Esse não tinha nem palavras para descrever tamanha indiscrição.

— Dido, pensa. Você ainda está inteiro. Poderia ser bem pior! — disse em voz bem baixa, próximo a orelha de Afrodite e então indicou Saga na cama apenas com os olhos.

Peixes olhou para trás e viu Gêmeos se contorcendo entre os lençóis. O grego via tudo em vermelho. Tinha ganas em matar alguém com requintes de crueldade, mas tentava aplacar esse desejo com goles generosos de absinto. Percebeu quando o pisciano se aproximara de si e se agachara ao lado da cama, debruçando sobre os lençóis, enquanto direcionava aqueles olhões azuis para a parte lesionada de seu corpo.

— Afrodite... eu disse que quero ficar sozinho. — disse Saga ao virar o rosto para o lado dele — Vá para sua casa e cuide desse esfolado na testa. Não gosto de ver seu rosto ferido.

Peixes olhou para o geminiano com um semblante tristonho, quase chorando.

— Não devia ter gritado daquele jeito! Deveria saber que aquelas pombas giras ficariam com inveja e se roeriam todas em amargura.

— Humm... — resmungou o geminiano ao se remexer na cama e então puxou um pedaço do lençol, ergueu o saco com gelo, cobriu seu quadril e colocou o gelo de volta onde deveria, sobre seu membro. Tudo sobre o olhar atento do sueco.

— Puxa vida, um pau tão bonito, todo torto e inchado, que triste! Atena, cuida da piroquinha do Saga, minha deusa! — rogou em voz alta, fazendo Saga erguer uma sobrancelha — Não seria melhor fazer um curativo? Colocar uma tala...

— Quer engessar meu pau, Afrodite? Vou mijar por onde, porra? — disse já muito nervoso, buscando a garrafa para dar outro gole.

— Ah, não, não é preciso engessar, chefinho, um mastro dessa grossura não quebra fácil não! Pode envergar, mas não quebra! — falou Peixes na maior descontração, ouvindo os resmungos do grego — Está doendo muito ainda? — perguntou por fim com voz manhosa.

— Sim, está. — Saga respondeu sem muita paciência.

— Quer que eu dê um beijinho para sarar mais rápido? — disse o pisciano colocando a mão sobre as mãos de Saga delicadamente, que ao ouvir aquilo, sentiu uma resposta involuntária de seu pênis que deu uma pulsada em excitação, mas tudo que Saga sentiu foi uma pontada lancinante de dor.

— AARGH! AFRODITE! Saia daqui, por Atena! — rosnou entredentes, fazendo o sueco se assustar e arregalar os olhos para ele.

Do fundo do quarto, Mu suspirou alto.

— Dido, assim você não ajuda em nada! Vamos deixar ele sozinho. — o lemuriano se aproximava para puxar o sueco do chão, mas quando ia tocá-lo, Afrodite se levantou de súbito e aproximou seu rosto ao de Saga, falando em voz mais baixa.

— Saga, eu vou, mas não posso deixar você aqui simplesmente sofrendo de dores horríveis... Se quiser ficar entorpecido e se esquecer da dor, eu posso te ajudar.

— Faça. Mas faça logo e me deixe sozinho, Afrodite. — ralhou o grego esfregando a testa com a mão que estava livre, pois a outra ainda segurava a garrafa já quase pela metade.

Peixes então elevou seu cosmo e na palma de sua mão uma pétala de rosa em tom azul bem escuro e muito vivo surgiu. A segurou entre os dedos e com delicadeza passou a pétala nos próprios lábios, que se tingiram da mesma cor. Aproximou o rosto de Saga, que o observava com curiosidade, e encostou seus lábios aos dele, com bastante gentileza, dando um beijo delicado.

Gêmeos sentiu sua boca formigar no mesmo instante e passando a língua entre os lábios, um gosto doce tomou seu paladar ao mesmo tempo em que já sentia seus sentidos se entorpecerem e a dor diminuir aos poucos.

Afrodite sorriu para ele. Não poderia sair e deixar Gêmeos sofrendo daquele jeito. Sentia-se culpado de certa forma, e faria de tudo para tornar seu problema o menos pior possível.

— Vamos, Dido. Vamos deixar ele descansar. Você vai tomar um banho e cuidar desse machucado na testa e eu vou ao centro de Atenas comprar os itens da lista das meninas e os seus. Já deveria ter ido, inclusive. — disse Mu, agora sim pegando no braço do pisciano e teleportando os dois para a casa de Peixes.

Momentos antes, no corredor que dava acesso aos quartos das bacantes, Misty de Lagarto, ao passar pela porta do quarto de Geisty ouviu cochichos e risadas que brotavam de lá de dentro. Curioso como era, e com seu peculiar dom para investigação, o loirinho se aproximou devagar da porta, quase encostando o ouvido, mas levou um susto quando esta se abriu de repente e uma mão ligeira com garras afiadas o agarrou pela gola de sua camisa o puxando para dentro.

Cambaleante e assustado, Misty deu de cara com as três amazonas confabuladoras o encarando ao mesmo tempo.

Geisty, que fora quem o puxara para dentro, logo soltou sua camisa para pousar ambas as mãos na própria cintura delgada, num gesto bem intimidador.

— Achou mesmo que nós não perceberíamos seus passinhos de gazela pelo corredor? O que quer saber ouvindo atrás da porta, Lagarto? — questionou, franzindo as sobrancelhas em uma expressão ameaçadora — Anda, fala logo!

Assustado e em clara desvantagem, Lagarto tentava calmamente se explicar, com um leve sorriso falso e sem graça no rosto.

— Ei, calma, eu estou do lado de vocês. Aqui é time prata, Lembra? — ao notar que a amazona e suas amigas desfaziam as carrancas que dirigiam a si, Misty continuou, agora mais aliviado — Eu ouvi vocês rindo e imaginei que era da desgraça alheia. Então apenas quis me solidarizar com a causa. Afinal, rir de Afrodite é sempre bom, faz bem para a cútis! Hihihihi.

O risinho de deboche de Misty logo fora acompanhado por uma risada quase histérica das duas italianas, que só se contiveram pelo aviso resignado de Marin.

— Meninas, por favor, se nos ouvirem...

— Desculpa, ô mosquitinha, mas eu não me aguento! — disse Shina — Não tive mesmo a intenção de machuca-los. Pensei apenas em dar um susto. Mas... foi muito engraçado! Vocês viram a cara deles? — se jogava sentada na cama, segurando a barriga na tentativa inútil de prender o riso.

— Vi, e quero mais que se fodam os dois! — falou Geisty — Quero que aquele babaca daquele cafetão ordinário nunca mais transe na vida... Filho da puta!

O ressentimento e a raiva eram claros na voz da amazona, que baixando o olhar cruzou os braços, enquanto a última ofensa saíra quase que como um sussurro, o que pode ser percebido por todos que notaram que algo a mais, além do ocorrido ali, a afligia.

No mesmo instante, as risadas de Shina cessaram. Discretamente, Ofiúco fez um sinal para os outros dois bacantes saírem do quarto e as deixarem a sós.

De pronto Misty saiu, à francesa, se desculpando pela tentativa frustrada de espionagem, enquanto Marin deu a desculpa de que tentaria descobrir como estavam os acidentados.

Assim que a porta se fechou e Geisty se viu a sós com Shina, a morena suspirou. Estava arrependida. Shina então levantou da cama e se aproximou da amiga.

— Anda, vai, começa a falar. O que aconteceu? Por que alguma coisa aconteceu. Era pra você estar jogada no chão se engasgando de tanto rir do "infortúnio" daqueles dois lá. E, no entanto está aí assim, chateada. — falou a amazona de cabelos verdes.

— Eu não vou comentar nada. Até porque não adianta. Não vou contar o que aconteceu para você, nem para ninguém. — disse enfática.

— É mesmo? Mas você nem precisa contar Geisty. Eu te conheço há uma década e sei muito bem quando você está triste e arrependida. Sei também, e principalmente, quando está magoada e decepcionada, e já até imagino por que. Ou acha que não sei que Saga subiu com você ontem à noite?

Na mesma hora, a amazona direcionou seus olhos violetas em espanto para a amiga, que nem a deixou dizer alguma palavra e já seguiu com o que dizia.

— E eu sei também que rolou algo entre vocês dois. Ou pensa que não notei o olhar dele para você no café da manhã? E, Ah! Notei também o sorrisinho que a senhorita devolveu a ele. — falava próximo ao rosto da amiga, com ar zombeteiro e as mãos na cintura, balançando a cabeça — E sei que você está triste e decepcionada porque, depois de tudo, Saga foi se engalfinhar na escada com Afrodite. — falou desfazendo o sorriso.

Sem nada falar de imediato, Geisty fechou os olhos envergonhada e balançou a cabeça em afirmação. Não queria chorar, mas já sentia seus olhos aquecendo e marejando.

Percebendo a aflição da amiga, Shina a amparou com um abraço.

— Homem é tudo igual mesmo. Ainda mais um que é cafetão. Não fica triste, Saga foi um otário. E Afrodite é uma flor peçonhenta que não se cheira. — falava, acariciando os cabelos negros da italiana, que retribuía o abraço se permitindo chorar no ombro da amiga.

— Eu sou uma idiota! Sempre fui. E vou morrer assim. Shion bem que me avisou... Eu não tenho que me envolver com nenhum deles! — a voz de Geisty saía baixa e ressentida, denotando toda a sua frustração quanto ao fato.

— Ah, com isso eu concordo! Não deve se envolver, porém... deve aproveitar! — disse Shina de forma divertida, tentando amenizar a situação e ouvindo uma risada baixa da amiga, e então a afastou para perguntar algo que a consumia em curiosidade — E ai, foi bom?

— Shina! Puta que pariu, mas você é indiscreta heim! — falou Geisty indignada, se afastando do abraço com um leve empurrão, já enxugando os olhos com as costas das mãos — Foi... só um beijo.

— Hum... Sei, só um beijo. Só um beijo porque você é otária! — disse Shina, dando uma risada escandalosa — Se fosse eu, tinha era aproveitado tudo, apalpado... — continuou com gestos obscenos enquanto ria, sendo observado por Geisty, que já estava envergonhada com a situação, até que disparou:

— Para com isso, sua indecente. — deu um cutucão no braço da amiga e riu.

— Tá bom, tá bom! Sua sem graça. Não sabe nem se divertir!... Bem, já arranquei a informação que queria. — falou a amazona de cabelos verdes dando outra risada — Agora vou para o meu quarto, porque toda essa agitação matutina me deixou cansada. Quero descansar enquanto espero o Mu voltar com os belos itens da minha lista! Isso se ele voltar hoje, né! Porque tem tanta tralha naquelas listas que o pobre carneirinho, vai passar o dia na rua. Tchau!

— Tchau, Shina! — respondeu Geisty aérea, ouvindo aporta bater, enquanto se mantinha perdida em seus pensamentos.

Enquanto isso, no centro de Atenas, Mu tinha a sensação de estar vivenciando um verdadeiro pesadelo.

Já havia perdido a conta da quantidade de lojas que havia entrado à procura dos itens contidos nas listas das amazonas. Não queria nem pensar quando chegassem todas as meninas que Milo traria de diversas partes do mundo. Seu trabalho dobraria e também sua confusão!

Só no hipermercado havia gasto mais de meia hora apenas na prateleira de absorventes e enquanto olhava toda aquela diversidade de produtos se perguntava qual a diferença entre os com abas e sem abas, com gel, sem gel, suave, noturno, flex... Flex?

Num rompante bem ariano de nervosismo, amassou o papel que tinha entre os dedos, onde estava anotado os tipos que deveria comprar e encheu logo o carrinho com meia dúzia de cada um, saindo dali soltando fogo pelas ventas.

Na loja de cosméticos o drama não fora muito diferente, até porque Geisty e Shina fizeram questão de fazer uma lista com minúcias tão absurdas quanto desnecessárias.

— Amolecedor de cutículas enriquecido com algas, Aloe Vera e tutano? — disse a vendedora que atendia o lemuriano, enquanto lhe fazia uma careta nada amistosa — Para que o senhor vai querer nutrir e enriquecer um troço que vai cortar fora? Isso não existe não!

— Pois é, eu devia imaginar! — suspirou Mu em tom de cansaço — Olha, moça, eu não entendo nada disso aí, então me dê apenas o que for necessário para pintar cara de mulher, limpar os cabelos e fazer as unhas, tudo bem?

Áries percebeu que estava sendo sacaneado e não ia deixar barato. Comprou cada item da lista e substituiu aqueles que não existiam por um similar.

Com quase tudo em mãos, ou melhor, já devidamente teleportado para seu escritório no Templo de Baco, chegou a hora de ir atrás dos itens da lista de Afrodite. Como não fazia a menor ideia do que eram, perguntou à vendedora da loja de cosméticos onde os acharia e ficou confuso quando a mulher olhou para si e deu uma risadinha maliciosa.

— Bem se vê que de inocente tu só tem essa carinha ai, heim, moço! — disse a vendedora lhe dando um cutucão no braço, usando o cotovelo — Isso não tem aqui não. Você encontra só em lojas para adultos.

— Mas essa aqui não é uma loja para adultos? — perguntou Mu inocentemente — Achei que fosse, pois as lojas para crianças geralmente vendem brinquedos e...

— Nossa, de que fim de mundo você veio? — a mulher perguntou franzindo a testa – Sexy Shop, querido. Nunca foi em uma?

—... Não.

— Que lástima! Bem, tem uma na esquina, na galeria, escondidinha no fundo. Vá lá que você acha, mas... pelo que está aqui, não sei não. Tem coisa pesada aqui nessa tua lista.

— Pesada? Como assim?

— Querido, tem coisas aqui que nem eu ouvi falar. E me dá licença que tenho que voltar ao trabalho. — disse ela entregando a lista para Mu. Ele era estranho demais e melhor mesmo não tomar partido das estranhezas alheias.

Confuso, Mu foi até a loja que a vendedora lhe indicou, mas chegando lá, pouco havia da lista, apenas mesmo alguns itens que Shina e Geisty colocaram, como gel aromático, calcinhas comestíveis e vibradores. Não vendo alternativa, Áries procurou um telefone público e ligou para o Templo de Baco, e agradeceu à Atena por ser Afrodite a lhe atender.

— Alô, é da zona, Afrodite falando, em que posso lhe ajudar?

Peixes havia feito o que combinara com Áries. Após ser deixado em seu templo, tomou um banho, fez um curativo na testa, com bastante pomada para frieira, pano branco, luxações, torções, conjuntivite e toda a sorte de males, a qual ele mesmo fazia à base das plantas que cultivava em casa, e voltou ao Templo de Baco, já que Saga passaria o dia dormindo após tomar seu remedinho especial e altamente entorpecente.

Não poderia deixar aquela zona sozinha, então se armou de uma almofadinha com um buraco no meio, já que estava bem dolorido nas partes baixas, vestiu uma bermuda e uma camiseta levinha e foi terminar de desenhar os croquis que estava fazendo com os figurinos para as bacantes usarem. Propositalmente desenhava modelos horrendos para Geisty e Misty, que certamente seriam vetados por Saga, porém, mesmo assim daria um jeito para que fossem feitos, e mesmo que não fossem, se divertia apenas imaginando aqueles dois encostos vestidos com aquilo e caía na risada.

— Ah, oi Mu!... Tá de truque que elas fizeram isso?... Lambisgoias do Aqueronte!... E você achou tudo?... Bem feito para elas!... Hum... Não, é um vibrador modelo africano. EXL é o tamanho... Sim é grande... O plug tem que ser com rabinho de pônei, Mu... Ué, porque sem o rabinho eu já tenho um monte, querido... Não é estranho, são só brinquedos para apimentar a transa... Nunca viu? O Shion com certeza já viu!... Mu?... Mu?... Ah, pensei que tivesse caído a ligação... Você está bem? Por que está tossindo tanto?... Sim, em uma loja para adultos, mas não em qualquer uma. Olha, vou te dizer onde tem que ir. No centro de Atenas, há uma Sexy Shop num inferninho que fica bem escondido em uma viela. Você vai ver uma porta azul, com uma pequena luz negra e uma plaquinha em cima. É O Olho do Oráculo. Vá até lá e procure pelo Polifemo. É um cara marombado de um olho só... Ninguém sabe, querido... Está anotando, Mu?... Ok! Então, bata na porta e um homem chamado Diógenes vai te atender. Diga que foi Afrodite quem o mandou que ele te deixa entrar. Entregue a lista ao Polifemo, inclusive a das amapôas de prata e não se preocupe, carneirinho, ele entende tudo dessas coisas. O cara é um mestre em dominaç... Hã, bem... É só isso que precisa saber. Agora, não olhe para o olho ruim dele, que ele fica muito nervoso, e em hipótese alguma diga a frase "homem ao mar"... Entendeu tudo, Mu?... De nada, lindinho. Tchau, boas compras!

Peixes voltou a seus desenhos e Mu partiu para o tal inferninho de Polifemo.

Chegando à tal porta azul, Áries parou por alguns minutos observando o local. Era de fato em uma viela escura e úmida, que era formada por duas construções antigas que se afunilavam em um beco sem saída ao fundo. Das paredes de pedra com a tinta carcomida pelos muitos anos já, um bolor escuro vertia gotículas de água. Ao olhar para cima, Mu percebeu que havia moradores ali, pois em quatro das cinco varandas que compunham a construção, havia roupas presas em varais e alguns vasos com plantas. Ao fundo sacos de lixo e garrafas vazias emporcalhavam o local, que destoava totalmente da porta de madeira muito bem pintada em azul vivo, iluminada por uma pequena luz negra.

Deu dois toques na porta e antes que pudesse dar o terceiro, o visor que ficava na parte mais alta foi aberto e um par de olhos azuis escuros, escoltados por sobrancelhas negras e severas encararam Mu.

— O que quer do Oráculo? — disse uma voz grave e rouca.

Mu fez como o pisciano lhe instruiu. Disse que estava ali para ver Polifemo e que Afrodite de Peixes o mandara. Sem nem questionar, Diógenes, o guardião do Olho do Oráculo, abriu a porta para Mu e o acompanhou até o dono do estabelecimento.

Assustado, Mu caminhava a passos lentos logo atrás do homem, que seguia na frente com um andar duro e imponente. Quanto mais adentrava aquele corredor, mais seu coração batia acelerado. Era tudo muito escuro, até que chegaram a uma escada que ficava numa passagem bem estreita e desceram alguns lances para mergulhar em um "inferno" literalmente.

O mormaço provocado por velas, dispostas em castiçais negros sobre mesas de ferro com correntes penduradas como se fossem toalhas, e as inúmeras pessoas que circulavam por um salão amplo, atingiu Mu em cheio, o fazendo levar a mão à testa e puxar a franja para cima, ao mesmo tempo em que soltou uma lufada de ar pela boca e arregalou os olhos ao olhar para dentro do salão, parando ao pé da escada para conseguir assimilar o que via.

Mulheres e homens andavam nus, ou seminus, vestidos apenas por tiras de couro que mal lhes cobriam as intimidades. Havia gaiolas penduradas no teto, de onde garotas jovens e rapazes dançavam ou se contorciam apenas, como animais em exposição. Havia até uma mulher alimentando um homem que estava em uma das gaiolas!

— Minha nossa! Pelos deuses! Onde o Dido... — nem terminou a frase de tão espantado que estava, tanto com o lugar e com o que via, que aliás, era algo que sua mente nem concebia, quanto menos em imaginar como era que Afrodite sabia da existência daquele local. E pior, pelo jeito era muito conhecido lá.

Foi quando uma mão forte, usando uma luva de couro negra lhe pousou no ombro dando um apertão. Mu se assustou dando um pulinho e quando olhou para o lado um homem muito grande, quase do tamanho de Aldebaran, pele morena, barba por fazer, cabeça raspada e usando um tapa-olho negro e um sobretudo de couro na mesma cor, lhe sorriu com os dentes mais brancos que já havia visto na vida.

— O que uma coisinha tão linda como você faz perdido por aqui, em meus domínios? Diógenes me disse que veio a mando do Afrodite. Se aquele maluco me mandou um presente... Olha... Devo dizer que dessa vez ele acertou em cheio! — disse Polifemo, olhando Mu dos pés à cabeça. Logo ao lado dele estava Diógenes, que acompanhava a tudo com seu olhar duro e cobiçoso.

Mu engoliu seco. O tal Polifemo tinha uma presença muito forte e somado a isso, tudo ali era tão estranho que tudo que conseguiu fazer foi meter a mão no bolso da calça e retirar a lista de compras.

— Não sou presente nenhum! Meu nome é Mu, sou um cavaleiro de Atena, defensor da casa zodiacal de Áries! Venho a trabalho. Afrodite me informou que aqui eu encontraria esses itens. — entregou a lista nas mãos do grandalhão — Não tenho muito tempo, portanto... Se puder me providenciar tudo o mais rápido que puder, ficarei muito grato, senhor.

Polifemo sorriu, passando o olho bom pelas palavras rapidamente.

— Hum... que pena. Venha comigo. A loja fica no fim do outro corredor.

Andaram por um corredor vermelho de onde vinham sussurros estranhos, gritos e sons de estalidos acompanhados de mais gritos. Mu ouvia a tudo com os olhos arregalados, se perguntando se haveria alguém ali sendo espancado. Mas achou melhor não se meter. Tudo ali era estranho demais, a começar pelo proprietário.

E as gaiolas então? — "Atena! Que tipo de pessoa aceita ficar presa em uma gaiola? E pelos deuses, a aura deles brilha em prazer! Eles... eles estão gostando? Que tipo de gente sente prazer em apanhar ou em bater?" — pensava espantado pelo que seus dons lemurianos lhe mostravam, até que foi interrompido em sua divagação pela voz de Polifemo.

— Chegamos! — disse ele, indo atrás de um balcão onde ficavam os "produtos". Então pegou uma caixa e começou a coletar os itens da lista. A cada um que pegava, olhava para Mu e lhe dava um sorrisinho maroto.

Da porta, Diógenes montava guarda, vigiando o lemuriano com atenção.

Mu então se afastou um pouco de Polifemo com a desculpa de explorar a tal loja, assim poderia desviar daqueles sorrisos desconfortáveis.

Porém, olhar para toda aquela parafernália estranha também lhe causava certo desconforto. Alguns ali reconhecia como sendo réplicas de órgãos genitais, outros nem sequer imaginava o que eram ou para que fim se destinavam. Foi quando viu um vibrador azul, fluorescente, texturizado, em formato cilíndrico e enorme. Ficou curioso e se aproximou para analisar melhor, mas quando tocou no objeto ele começou a vibrar, já que era acionado pelo toque, e produzia um ruído absurdo. Assustou-se e o deixou cair no chão e quando se abaixou para pegar, sentiu Polifemo se colar às suas costas, quase o tocando.

— Está tudo aqui, Mu da casa zodiacal de Áries! — disse o grandalhão com a caixa na mão e um sorriso no rosto — Gostou desse ai? Gosta dos modelos grandes? Eu tenho um muito melhor que esse de borracha. Se quiser posso...

— Ah, não! Obrigado, está tudo ai né muito bem pode mandar a conta para o Santuário senhor Polifemo que eu mesmo providencio seu pagamento e passar bem tenho que ir. — disse sem pausa, tomando a caixa das mãos do grandão caolho e nem se dando ao trabalho de sair da loja, já se teleportando para o Templo de Baco com caixa e tudo, deixando Polifemo e Diógenes espantados, porém os dois já estavam bem acostumados a receber cavaleiros naquele inferninho sadomasoquista.

Já em seu escritório, Mu achou melhor se acalmar primeiro antes de ir entregar os itens para os bacantes. Tomou um gole de água e sentando em uma das poltronas que havia lá, revia todo aquele cenário dantesco em sua mente, sempre se perguntando como Afrodite podia frequentar um lugar daquele, e que tipo de relação Peixes teria com o tal Polifemo.

Por instantes pensou achar esse nome familiar, como se ouvisse a voz de Shion em sua mente lhe dizendo algo, mas deveria ser apenas delírio. Estava impressionado, cansado e confuso. Tinha sido um dia deveras difícil. Por isso mesmo, e também porque já estava quase anoitecendo, Mu decidiu voltar para casa. Com uma leitura cósmica breve, viu que Saga e Afrodite já haviam regressado ao Santuário e ele faria o mesmo.

No dia seguinte, logo pela manhã, o cavaleiro de Áries levantou bem cedo e foi ao Templo de Baco entregar as encomendas. Ao entrar no salão encontrou Saga pegando uma bebida no bar.

Gêmeos havia dormido a noite toda, graças ao "remedinho" que Afrodite lhe dera, mas assim que acordou a dor em seu membro lesionado voltara com tudo, lhe golpeando, além de tudo, com a triste realidade de que teria que passar sabe-se lá quanto tempo em jejum sexual. Por isso, assim que saiu da cama, trôpego e cambaleante, tomou uma ducha rápida, vestiu uma túnica grega bem levinha e se absteve de usar cueca. Besuntou no pênis um tanto da tal pomada milagrosa que Afrodite lhe dera para luxações, pano branco, frieira e pau torto, e desceu para o bar. Uma dose dupla de whisky talvez lhe ajudaria a suportar a dor.

Mu se aproximou dele e sentiu sua aura meio conturbada, mas ele tinha todos os motivos para estar daquela maneira.

— Bom dia, Saga. Está melhor o... você? — disse meio atrapalhado.

Gêmeos olhou para ele torcendo o nariz e dando um gole no whisky.

— Bom dia, Áries... — disse em tom baixo, caminhando com as pernas abertas até um dos sofás, onde se sentou soltando um suspiro — Estou ótimo, não está vendo? — disse com ironia.

— Que bom! Melhor assim! — respondeu Mu usando do mesmo artifício e achou melhor deixa-lo sozinho, pois seu semblante não era de fato nada amistoso.

Sendo assim, Áries foi para seu escritório para separar as encomendas do dia anterior.

Ao cruzar o salão deu de cara com Geisty, que descia as escadas trajando apenas um minúsculo biquíni amarelo, modelo brasileiro, que de tão pequeno e ousado mais parecia ser dois números a menos do que ela usava. Trazia na mão uma canga transparente em tons quentes também e tinha o cabelo preso em um rabo de cavalo alto, deixando sua nuca nua e as belas costas torneadas à mostra. Aliás, tudo nela estava à mostra!

— Bom dia, Mu! — disse a amazona com um sorriso, porém com um olhar sério, concentrado. Nem bem olhou para o ariano, seu foco era outro e estava sentado no sofá vermelho de veludo.

— Bom dia... Geisty. — respondeu Mu, completamente corado, pois a amazona estava praticamente nua e por mais respeitoso que fosse, não estava acostumado a tanto despudor, mesmo ali sendo um bordel. Além do mais, ainda lhe era confuso e estranho vê la ali, sua colega de infância, treinada junto com ele por Shion, como uma das garotas de programa da casa. E quando foi que ela se tornara aquele mulherão? Seus olhos lhe traiam e sem se dar conta, tinha dado bom dia para o par de seios fartos e maravilhosos de Geisty, pois não conseguira despregar os olhos deles quando a moça passou por si. Piscou algumas vezes e soltou uma lufada de ar — "Deuses! Preciso me acostumar com isso! Isso é uma casa de tolerância, então deve ser normal... mulheres nuas andarem... nuas... Mu, controle-se!" — pensava, pegando o rumo do escritório e forçando-se a não olhar para trás.

Geisty por sua vez, continuou a caminhar de forma languida e sensual, olhando para o geminiano que parecia distraído, enquanto olhava para o fundo do copo que tinha nas mãos. Parou ao lado dele sem ser notada e então disse com voz firme:

— Bom dia, Saga. — lhe lançou um olhar analítico e desdenhoso.

Gêmeos se assustou ao ouvir a voz dela e imediatamente olhou para o lado num gesto afoito, sendo tirado de sua divagação, já se perguntando como não havia notado a aproximação de alguém. Porém, quando correu os olhos pelo corpo bronzeado, muito bem torneado e praticamente nu da garota, sentiu um arrepio súbito lhe percorrer a coluna e eriçar todos os fios de cabelo de sua nuca.

— Mas que... — disse meio gaguejando, e imediatamente aquela visão tentadora lhe fez sentir uma fisgada no baixo ventre, que culminou com uma contração involuntária em seu membro judiado e convalescente, o fazendo soltar um gemido de dor —... Argh! Mas que merda você está fazendo de biquíni dentro do Templo, Geisty? — perguntou indignado, levando a mão ao meio das pernas num gesto puramente instintivo.

Geisty se controlou para não exteriorizar sua amargura, ignorando o tom da pergunta.

— Estou indo tomar sol nos fundos do Templo. — manteve o tom seco na voz, e não pode deixar de notar que o geminiano desviava o olhar nervosamente de seu corpo ao mesmo tempo em que se remexia angustiado, provavelmente sentido dores.

Nesse momento, um sentimento maldoso de vingança lhe passou pela cabeça e culminou num leve sorriso no rosto austero da amazona.

A passos insinuantes e vagarosos, Geisty seguiu para o bar, deu a volta no balcão, colocou a canga sobre o mesmo e se serviu de uma dose de Malibu, tendo todo o capricho de enfeitar a taça com um canudinho colorido, sem pressa alguma, enquanto executava tudo com os olhos violetas fixos ao rosto de Saga, o qual tentava a todo custo não se abalar com a presença da morena ali. Em vão...

Ao sair de trás do balcão, Geisty apanhou a canga e caminhou da mesma forma despreocupada e sensual até o sofá que ficava na frente de onde Saga estava sentado. Jogou o tecido fino e luxuoso sobre o acento e se sentou, cruzando despretensiosamente as pernas enquanto olhava para o cavaleiro.

Gêmeos por sinal, a olhava quase em desespero. Hipnotizado, não conseguia desgrudar os olhos daquela amazona que tanto mexia consigo — "Por Hades... Por quê? Por que essa desgraçada está fazendo isso? É proposital. Mas se pensa que vou fraquejar está enganada amazona. Está muito engana... Argh! Ai que dor! Maldita!" — pensava suando frio, ao vê-la descruzar as pernas e seus olhos logo se direcionarem ao centro delas involuntariamente, apenas para fazê-lo sofrer outra contração no baixo ventre que lhe causava até vertigens de tanta dor.

— E então? Está se sentindo melhor? Ainda dói muito? — disse Geisty de modo a não demonstrar nenhuma emoção, pelo menos era o que achava enquanto reparava nos olhos do cavaleiro, os quais estavam perdidos entre suas pernas.

Quando Saga ergueu o olhar para o rosto dela, pronto para lhe dar uma resposta no mínimo grosseira e estúpida, foi novamente surpreendido por outro gesto que lhe arrebatou de maneira surpreendente. Geisty colocava a língua para fora e calmamente capturava o canudo colorido com a mesma, o levando até os lábios carnudos levemente brilhantes devido ao hidratante labial que usava, sugando a bebida sem tirar os olhos do geminiano, que mais uma vez sentia uma pontada em seu membro lesionado que o fez abafar um gemido. A dor irradiava pela virilha, barriga e costas e gotículas de suor brotavam na testa pálida, mas nada de Saga desviar o olhar daqueles lábios que sugavam o canudo com tanto erotismo. Nunca um gesto tão trivial lhe pareceu tão excitante.

— Humm... até que não é nada mal esse hábito seu de tomar uma dose antes do café da manhã! – disse Geisty, por fim liberando o canudo — Só que nem de longe Malibu pode se comparar a whisky. E então? Não vai me responder, Saga? Está melhor? Ou piorou de vez? — a moça percebia os efeitos que causava no geminiano e se vangloriava disso por dentro, como uma vingança leve, porém covarde.

— Estou ótimo, amazona! — respondeu finalmente o geminiano, agora encarando os olhos violetas dela com uma expressão de raiva e revolta — Porém não graças a vocês duas. — deu um gole na bebida para tentar esquecer a tentação que pairava à sua frente — E por que esse interesse súbito em meu bem estar? Quer me enganar que está preocupada comigo? — tentou cruzar as pernas, mas foi pior, então voltou à posição em que estava, com as pernas abertas e os pés em paralelo — E você não tem mais o que fazer não? O que é esse raio de biquíni? Por que está usando isso? Não pode ir à praia. Não tem permissão! — falava incomodado, tentando desviar o olhar, mas sendo traído pelos olhos que sempre paravam em alguma parte ou movimento insinuante do belo corpo da morena.

— Francamente? Nenhum. Perguntei só por educação. E te vi aqui bebendo sozinho, logo pela manhã e achei de bom tom lhe fazer companhia. Você, Saga, com pau ou sem ele para mim é indiferente. — destilou venenosa, se levantando de pronto, mas se mantendo no mesmo lugar — E estou de biquíni porque preciso aproveitar o sol para fazer a manutenção das minhas marquinhas. Olha só... Já estão desbotando, e aposto que os clientes adoram marquinhas de biquíni! — disse, virando-se de costas, afastando displicentemente a lateral de trás da calcinha e empinando a bunda para ele pudesse ver melhor, fazendo com que Saga soltasse o ar pela boca em um ruído discreto, mas perceptível — Milo gostou e Kanon também adorava! Logo, acho que todos gostam! — Sem falar que é extremamente sensual, né, e dá um ar de saúde, não acha? — agora ela puxava a lateral do sutiã quase revelando o mamilo, o que fez com que o grego, num gesto protetivo e de desespero, pousasse o copo com gelo e whisky sobre seu membro dolorido na procura de acalmar sua excitação e aliviar a dor.

— Dá logo o fora daqui, Geisty. Vá tomar seu sol e me deixe em paz de uma vez, caralho do Hades! — rosnou Gêmeos, encarando ela agora nos olhos. Não podia desviar deles, pois parecia que até a unha do pé daquela mulher lhe deixava excitado.

Geisty percebia o drama que Gêmeos vivia e usava de todo seu autocontrole para não cair na gargalhada ali mesmo, na frente dele.

— Nossa, mas quanta gentileza! E logo pela manhã! Já estou indo. — disse ela e propositalmente virou-se novamente de costas para o geminiano, curvou o tronco para frente, colocou a taça vazia sobre a mesa ao lado e empinando o traseiro o mais que podia apanhou a canga de cima do acento do sofá e lentamente a amarrou na cintura. Sabia que ficar excitado causava muita dor em Saga, por isso colocava o máximo de erotismo em todos os seus movimentos — Ah! — disse ela se virando — Me parece que Mu trouxe todas as encomendas! Depois do almoço eu te mostro a fantasia sem vergonha de empregada que pedi para ele comprar. Eu sei que os figurinos devem passar pela sua aprovação. — deu um sorriso irônico, quase caindo na risada ao vê-lo enxugar o suor da testa com a barra da túnica.

— Não precisa me mostrar nada, Geisty! Está aprovada! Agora suma daqui! — disse com voz espremida devido à dor que vinha de baixo.

Ainda ergueu os olhos uma vez mais para vê-la deixar o salão com o mesmo andar insinuante até desaparecer pelo corredor lateral que levava aos fundos do Templo e então, trêmulo e arfante, encostou-se ao sofá e fechou os olhos, tentando se acalmar para desfazer aquela dolorosa ereção que teimava em permanecer ali o castigando. Quando achou que estava quase conseguindo, lhe veio à mente a imagem de Geisty vestida em uma roupa de empregada que era composta somente por um avental cheio de rendas e babados.

— Mas que... merda! — rosnou, despejando o resto do whisky em seu copo goela abaixo. Ia precisar de muito mais que álcool e a pomada esquisita de Afrodite naquela semana. Ia precisar ficar longe da amazona de Serpente. Por isso mesmo se levantou dali e foi para seu escritório e só sairia de lá para voltar ao Templo do Grande Mestre. Talvez até evitasse ir para o trabalho naquela semana de abstinência. Vai que Geisty resolvesse usar a tal da fantasia de empregada sem vergonha para mostrar para si. Melhor ficar longe daquele Templo por uns dias.

Já Geisty sentia-se vitoriosa!

Deitada de costas em uma espreguiçadeira estrategicamente armada no melhor ângulo que encontrou para se bronzear, a amazona ria baixinho da aflição de Saga. O rosto corado dele, tanto pela dor quanto pela tentativa frustrada de suprimir a excitação já lhe foi suficiente para se sentir vingada.

Passou longos minutos ali, com sua mente sendo invadida por pensamentos aleatórios, onde passado e presente se misturavam num balé desconexo e melancólico e enquanto olhava fixamente para um ponto qualquer no jardim, deixou sua mente viajar, embalada pelo som da água corrente que vinha do enorme chafariz ao centro, que mais parecia uma piscina — "Que saudades da minha ilha! Da praia... As ondas fracas faziam um barulho tão gostoso. Que delícia era dormir ouvindo o som das ondas... o cheiro do mar..." — divagava em pensamento, mergulhada em uma nostalgia até dolorida do que era sua vida, enquanto seu peito se apertava somente em pensar em como seria seu futuro, agora que estava tão longe de casa e enrolada até o último fio de cabelo naquela teia perigosa em que Kanon a lançara.

Kanon!

A lembrança do geminiano lhe era ao mesmo tempo amarga e saudosa, e quando deu por si já estava de olhos fechados elevando seu cosmo sutilmente. Em sua mente o rosto do irmão gêmeo de Saga agora povoava a maior parte de seus pensamentos e Geisty voltava a vê-lo da maneira que mais lhe fazia feliz, caminhando nas finas areias muito claras da praia paradisíaca da Ilha Fantasma!

Logo o desejo de Geisty se moldou em uma ilusão criada por seu cosmo que tomou todo o ambiente em torno de si. Ela não mais estava nos fundos do Templo de Baco, mas sim na praia onde morava, deitada, vendo as ondas se quebrarem graciosamente na areia formando um véu de espumas que molhavam um par de pés bronzeados que caminhavam em direção a si.

Geisty sorriu ao abrir os olhos e ver a silhueta se aproximando, iluminada pelo sol quente e forte dos trópicos. Suas melhores lembranças estavam nessa imagem. Os cabelos longos do grego se confundiam com o tom azul do mar e mesclavam homem e oceano no horizonte. E foi então que Kanon sorriu! Um sorriso espontâneo e cheio de vida que tantas vezes a conquistou. Ele esticou os braços e se curvou em direção a ela, deixando pequenas gotas de água, que escorriam pelos seus cabelos caírem sobre seus ombros esguios, enquanto dava um apertão de leve na cintura da amazona.

— Vamos minha dorminhoca. O mar está ótimo! Deixa para dormir na cama comigo! — dando lhe um beijo nos lábios.

Porém Geisty não era a única a ver aquela paisagem onírica. Parado à porta dos fundos, Afrodite fora atraído pelo cosmo ativo da amazona e quando se aproximou da porta e espiou para fora se surpreendeu vendo a praia!

Logicamente que sabia que o mar estava a quilômetros de distância do Santuário e que se tratava de uma ilusão da amazona de Serpente, mas de longe fora a figura de Kanon caminhando até ela e a beijando que lhe chamou mesmo a atenção.

Sem fazer barulho, Afrodite se aproximou dela, caminhando lentamente entre as areias brancas da ilusão até se agachar a seu lado e ficar bem próximo do casal aos beijos. Então quase que encostando seu rosto ao dela, disse em tom bem baixo:

— Sabe qual é a melhor parte desse seu sonho caribenho cafona, amazona de Exú? É saber que ele nunca se tornará realidade!

No mesmo instante, a ilusão se desfez como uma chama que se apaga. Geisty assustou-se e virou para trás num gesto brusco, dando de cara com o par de olhos aquamarines que a encaravam em deboche.

— Sonho ou realidade, Afrodite, isso não é da sua conta. Só lamente por você nunca ter sido amado como eu fui e pelo que vejo... — disse baixando o olhar e medindo o pisciano de cima a baixo —... nunca será! Você não passa de um buraco para meter.

— Você? Foi amada? Justo pelo ocó do Kanon? Ah, tá boa, varejeira? Se liga, Alice. Aquele lá não amava ninguém, além do acué alheio e a si mesmo, sua idiota. E para que eu vou querer amar alguém se posso ter quem eu quiser, na hora que eu quiser e do jeito que eu quiser? — disse, numa clara referencia a Saga.

Geisty olhou para Peixes com ódio. Faíscas púrpuras saiam de seus olhos violetas quando o cavaleiro de ouro se levantou lhe dando as costas, mas antes de sair ainda se virou para ela e disse, com um sorriso cínico no rosto:

— Kanon só te usou. Ainda não se deu conta disso? O buraco para meter aqui é você. Um buraco que vem de brinde como laranja da máfia. Então, já que é tão patética, continue sonhando com o homem que te jogou aqui, mas lembre-se que é para pagar as dívidas dele que você vai ter que trabalhar, e muito! — deixou o local sem olhar para trás.

Calada e furiosa, Geisty apenas acompanhou com o olhar o sueco se retirar, mas em seguida o sentimento foi apenas substituído por frustração, porque infelizmente Afrodite estava certo e não tinha nenhum argumento para usar contra ele, para negar aquela infeliz realidade que havia sido atirada.

Sozinha e mergulhada nas próprias dores, uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto, mas foi rapidamente enxugada pelos dedos delicados da amazona em um gesto brusco, como se aquela fraqueza fosse um ato inaceitável vindo dela.

Glossário Afroditesco

Acué – dinheiro.

Ocó – homem heterossexual.