Cinco dias se passaram desde a inauguração do Templo das Bacantes e do fatídico café da manhã que deixara Saga parcialmente inválido. O segundo dia de funcionamento da casa fora tranquilo, porém nem Geisty, nem Afrodite trabalharam, já que ambos estavam afastados para se recuperarem do que Peixes classificara como acidentes de trabalho, e sem previsão de retorno!
Gêmeos foi outro que se deu férias forçadas após o incidente com o cavaleiro de Peixes. Apenas ia ao bordel pelas manhãs para tratar de assuntos financeiros com Mu e dava uma passada à noite, para verificar se tudo corria bem. Era nessa hora que ele aproveitava para dar uma espiada na amazona de Serpente, que a cada dia parecia mais furiosa consigo.
Após constatar o obvio, que Geisty ainda estava muito perturbada, Gêmeos voltava para seu templo no alto da montanha e lá permanecia entre chás anti-inflamatórios, infusões com ervas curativas e muita pomada de frieira, pano branco e luxações feita por Afrodite, para se recuperar o quanto antes da lesão em seu pênis, pois não era nada fácil conter sua libido por tantos dias.
Nesse meio tempo, Mu, aproveitou as noites livres para consertar a televisão de Shaka. Como havia dito, não entendia nada de eletrônica, então a levou a um técnico no centro de Rodório e assim que ela ficou pronta Áries se muniu de coragem para entrega-la ao amigo.
Durante o percurso escadaria acima, a aflição crescia no coração do lemuriano, pois não via Shaka desde a fatídica noite no bordel, e logo agora que regressara de Jamiel e finalmente o reencontrara. Imaginou que retomariam a amizade antiga, mas parecia que Shaka simplesmente passara a ignorar sua presença ali no Santuário.
A esse fato, Mu associava os boatos que certamente já teriam chegado aos ouvidos de Virgem, acerca de sua noite na casa de tolerância. Fora apenas para cumprimentar Saga e ficar poucos minutos e acabou passando a noite lá, no quarto da amazona de Águia!
Shaka deveria estar muito decepcionado e isso apertava ainda mais o peito de Mu a cada passo que se aproximava da sexta casa zodiacal.
Áries só não imaginava que Virgem estava sim, muito decepcionado, porém consigo mesmo!
Desde o ocorrido no telhado de Touro, o cavaleiro de Virgem andara muito deprimido. Tudo porque não conseguia se livrar da culpa de ter se intrometido na vida privada de Mu e tê-lo espionado em um momento intimo. E piorando a situação, tinha ficado excitado ao ver o amigo de infância nu, se masturbado. E ainda pior! Fez o mesmo, e teve um orgasmo incrível numa bizarra sessão de sexo telepático com ele.
Nem que meditasse pelo resto de sua vida poderia limpar seu espírito desse tormento mundano.
Mas mesmo assim ele tentou, e meditou, meditou, meditou...
Aliás, foi só o que Shaka de Virgem fez desde o ocorrido.
Assim que conseguira se levantar do chão de seu quarto, onde passara boa parte das horas que se seguiram ao evento no telhado de Aldebaran, Shaka tomou um banho, vestiu uma túnica limpa, apanhou seu rosário e, decido que era um homem e não um gafanhoto, para ficar se escondendo de suas responsabilidades, caminhou resignado até o salão principal de seu Templo onde havia um grande altar com uma flor de lótus esculpida em ouro e mármore, que era onde o cavaleiro costumava meditar para aumentar seu poder.
Posicionou-se como de costume, com as pernas cruzadas, coluna ereta, mãos ao centro do colo e olhos fechados e se entregou totalmente ao transe oriundo da prática milenar. Por dias, nada o fez sair dali. Jejuou. Silenciou-se. Como se, privando-se dos prazeres cotidianos, como comer, dormir e cantarolar suas canções indianas, lhe servisse de punição para o que havia feito.
Alheio a isso tudo, e achando que a culpa do silencio do virginiano era sua, Mu de Áries subia o ultimo degrau do sexto templo.
A mente do lemuriano tentava trabalhar rápido, procurando uma forma de se justificar ao amigo. Certamente que não iria lhe dizer que ganhou uma noite de sexo dos colegas para perder a virgindade e, ao em vez de fazer o trabalho como deveria ser feito, bebeu, ficou com seu organismo extremamente alterado, subiu com a amazona de Águia para o quarto dela, tirou a roupa e dormiu. E o que era pior! Teve um sonho molhado com Shaka, seu melhor amigo!
Sua situação era vexatória demais e mesmo querendo contar a verdade a Shaka, Mu não via como narrar tal episódio sem morrer de vergonha. Bom, não precisava dizer que sonhara com ele naquela situação erótica. Com certeza o delírio que tivera fora fruto de seu estado alcoolizado.
Já com as palmas das mãos suadas, o coração batendo em ritmo frenético e a boca seca de nervoso, Mu acendeu seu cosmo e se fez anunciar ao morador do Templo de Virgem. Suspirou e continuou caminhando pelo corredor escuro que levava ao fundo, onde sentia o cosmo de Shaka emanando meio fraco e até um pouco hostil, lhe causando uma apreensão impar.
— Shaka? Estou entrando... Eu... eu trouxe a sua TV. — disse, estreitando os olhos já percebendo o altar da lótus no final do corredor.
Assim que sentiu a presença de Mu ali, o coração de Virgem falhou uma batida. Não esperava vê-lo, não depois do ocorrido. Não queria vê-lo... Ou queria? O que diria a ele? Ou... O que Mu lhe diria? Pela primeira vez em sua vida, Shaka sentiu medo!
Ao notar Mu parar diante de si, o loiro respondeu com voz calma, baixa e em tom austero, sem sair da posição em que estava.
— Olá, Mu! Muito obrigado! Pode deixar ai mesmo.
A maneira fria e imparcial com que Shaka lhe tratava só fez aumentar o desconforto de Mu, que sentia como se as palavras e o tom da voz do virginiano lhe açoitassem o rosto. Usando telesinese, Áries transportou a TV para o quarto de Virgem, junto com um pequeno embrulho que havia trazido com ela, mas não foi embora.
Era tímido e sentia que estava errado em não dar nenhuma satisfação ao amigo, porém não era um covarde, e se foram encher os ouvidos de Virgem com impropérios contra sua pessoa, o mínimo que tinha a fazer era desmanchar os possíveis mal entendidos e acabar com aquele clima que parecia ter surgido entre eles e o qual fizera Shaka se afastar de súbito.
— Shaka, eu... — disse Áries, dando dois passos à frente, ficando bem de frente para a flor de lótus onde o outro permanecia na mesma posição sem mover um só fio de cabelo —... Eu deixei sua TV no seu quarto junto com um... é... bem, isso não importa. Olha... eu sei que algumas pessoas devem ter vindo aqui... Quer dizer, não vindo aqui só para te falar sobre mim, mas, eu sei que você deve ter ouvido de alguém que... que passei a noite na casa de tolerância e que... — Mu suava frio e sua voz saia meio tremula —... mas, Sha, o que elas disseram não é verdade. Bem, até é, em partes... mas... Olha, eu sei que estou errado. Você me alertou, Shion me ensinou, mas eu juro que fui lá apenas para cumprimentar Saga, mas... achei que um ou dois drinks não iam me afetar e quando percebi já tinha extrapolado. Dai o Máscara da Morte e o Shura me... me compraram uma noite com a Marin... — nessa hora Mu encarou os próprios pés, para evitar olhar para o rosto do amigo, mesmo ele estando de olhos fechados —... sabe para... para eu perder a virgindade. Entenda, Shaka, não fui eu quem pediu. Mas... Marin me disse que subimos ao quarto e que depois de nos despirmos eu, bem... eu dormi!... Por favor, não acredite no que os outros estão falando, acredite em mim. Eu também não concordo com os propósitos das casas de tolerância... No entanto... Marin me pediu para confirmar que fizemos sexo, porque... porque se não Saga iria puni-la. Sha, eu não podia deixar a moça ser prejudicada por minha causa.
Nesse ponto de sua narrativa, a voz de Mu começava a ficar embargada. Sua garganta apertava devido à falta de reação de Virgem, que não demonstrava nenhum traço emotivo sequer, apenas permanecia na mesma posição de antes. Sem conseguir se conter, os belos olhos verdes do lemurianos ficaram levemente marejados e ele novamente baixou a cabeça e continuou em tom mais melancólico.
— Eu sei que é errado pagar por sexo, ou até mesmo fazer assim, com qualquer pessoa... Por isso sempre me guardei para alguém que eu amasse, Shaka. Foi o que eu te disse no dia que me mudei para cá e, diante do que aconteceu, você tem toda razão de estar decepcionado comigo. Eu não deveria ter ido lá, não deveria ter exagerado na bebida... Enfim... Espero que me perdoe, pois não quero perder sua amizade. Não quero. Isso não vai mais acontecer, porque... eu quero guardar minha virgindade para a pessoa com quem dividirei minha vida, e não perde-la de forma leviana... Eu não amo a Marin... eu amo... — Áries se calou de súbito, pois em seu estado emocionado já tinha desandado a falar tudo que lhe vinha à mente, sem nem passar pelo filtro do raciocínio.
De sua imponente lótus, Shaka ouvia a tudo calado, porém agora sentia-se ainda mais culpado.
As palavras carregadas em emoção e ditas em tom aflito, fizeram Virgem sentir-se mesquinho. Deveria ter deixado o amigo se divertir com a moça, afinal a escolha de uma vida casta e de clausura fora sua e não de Mu. Agira por impulso, sim, mas lhe corroia a alma a ideia de ver Mu tocando outra pessoa que não a si. — "Por que, Buda?" — se perguntava em aflição, já que até menos de uma semana atrás só pensava no amigo como uma boa lembrança de infância e agora não o queria enfiado naquele antro de pecado, por que?
Reencontrar Mu definitivamente causou transtornos ao cavaleiro de Virgem, que finalmente resolveu romper o silencio.
— Mu, por favor, você não me deve nenhuma explicação, meu amigo. — disse Shaka, descruzando as pernas e levitando para fora da lótus. — Por que está me dizendo essas coisas? É fato que as notícias correm rápido nesse Santuário pecaminoso, e eu fiquei sabendo do seu... da sua... bem... — fez uma pausa, tomou coragem e aproximou-se mais do lemuriano. Evitava olhar nos olhos dele, pois era como se em seu rosto estivesse colada uma etiqueta o tachando de imoral e depravado, já que fora espiar Áries em um momento tão intimo, então apenas baixou a cabeça e assim se manteve — Mas, que bom que não se aproveitou da inocência da moça. Isso mostra que mesmo estando no meio desses mundanos, você continua sendo um homem honrado e justo!
Shaka então ergueu a cabeça e sorriu para Mu num claro gesto amizade, mas seu sorriso se desfez logo em seguida, pois sentiu uma tontura tão forte que achou que fosse ser lançado de cara ao chão. Suas pernas bambas só tiveram forças para dar alguns passos até uma das colunas do Templo, onde apoiou as costas e tentou se equilibrar.
Mu, que enxugava as lágrimas com as pontas dos dedos, já sentindo um alivio tremendo por ter desfeito o mal entendido e por constatar que Shaka não estava zangado consigo, assustou-se ao ver o amigo procurar apoio e imediatamente deu dois passos largos em sua direção e o amparou em seus braços.
— Sha, o que foi? O que aconteceu? — disse Mu aflito, notando que o virginiano estava muito pálido e sua pele, ao contado com a sua, parecia muito quente, muito além do normal. Colocou a mão na testa do outro, puxando a franja densa e comprida para cima, e constatou que Shaka estava ardendo em febre — Por Atena! Você está com febre! Não é nada comum Cavaleiros de Ouro adoecerem. O que está sentindo?
— N-nada. Estou bem, Mu... não se preocupe. — disse Shaka, apertando as pálpebras numa tentativa de se livrar da tontura, porém sentia seus braços e pernas cada vez mais débeis, não entendendo o que acontecia consigo.
— Não. Você não está nada bem, Shaka de Virgem. Não seja teimoso.
— Estou sim, Mu... é só uma tontura, logo passa.
A verdade era que Shaka sentia-se tão culpado pelo que fizera que ao voltar do Templo de Touro, decidiu meditar e jejuar para se punir. Passara cinco dias apenas meditando, sem dormir, sem comer e sem beber uma gota de água que fosse. Sua alma podia ser elevada, mas seu corpo era mortal e já sofria com a privação que o virginiano lhe impunha.
Somado a tudo isso, ver Mu ali, tentando se explicar, quando o culpado foi ele mesmo de ter arruinado a noite do amigo, além de ter colocado os dois naquela situação constrangedora, o fez sentir muita pena de Áries, e isso mexia consigo de uma forma avassaladora.
Porém, jamais iria contar a verdade. Jamais!
Mesmo sentindo-se a irmã invejosa de Síbila, a malvada Kalii, que de tudo fazia para atrapalhar a vida amorosa da moça com Ralej, na novela, Shaka jamais contaria a verdade a Mu.
Quando sentiu a mão de Áries em sua testa e todo o cuidado com que o outro lidava consigo quis morrer. Não merecia! Era um ser hediondo, mentiroso, torpe, depravado e prevaricador. Aflito, tentou se afastar do lemuriano, apoiando ambas as mãos em seu peito e o afastando minimamente.
— É normal sentir isso quando se atinge um estado de meditação transcendental. Logo passa e já voltarei para minha lótus. Não se preocupe. — disse Virgem, mas ao tocar o peito do ariano e se surpreender no quanto ele era viril e forte, talvez devido os muitos anos de treinamento e trabalho duro na forja, novamente Shaka fora arrebato pelo sentimento que tentava reprimir a todo custo, e um choque elétrico percorreu toda sua coluna, fazendo suas mãos tremerem, por fim, ao contato. Mu deixara de ser o garoto franzino e magricela que conhecera para se tornar um homem forte, um ferreiro de músculos muito bem torneados e Shaka não podia crer que esse detalhe mexia tanto consigo.
— Não adianta tentar me enrolar, Shaka, eu conheço meditação e o que vejo aqui não tem nada de transcendental não. Vem... Eu vou cuidar de você. — retrucou o lemuriano, que sem nem esperar o consentimento do loiro, o pegou no colo e se teleportou para o banheiro do sexto templo.
— Por Buda! O que está fazendo? — disse Shaka surpreso, já se vendo em seu próprio banheiro, ainda no colo de Mu, porém sua mente estava tão delirante devido à febre que ficção e realidade se confundiam.
De repente ele via Áries o carregando como Ralej carregou Síbila em sua noite de núpcias! — "Foi tão lindo aquele capítulo!" — pensava Shaka. — "Ah! A noiva! A noiva estava tão linda! Com aquele sári vermelho e todas aquelas joias. E as tatuagens? Nossa, a hena era cor de café e tinha um destaque incrível com a pele cor de canela dela... As unhas tão perfeitamente pintadas. E os olhos? Por Buda! Os olhos! Síbila tem os olhos mais lindos que Shaka já viu... Iguais aos do Mu... Ainda mais com aquela maquiagem os destacando! O cheiro dela é igual ao cheiro do Mu. Tão bom! Adocicado... E os cabelos da Síbila também têm mesma cor dos cabelos do Mu, e puxa!... Tem a mesma textura! Macios, sedosos... Não é a toa que Ralej a escolhera dentre tantas, mesmo com toda a desaprovação da família por causa de sua casta inferior. Maldita luta entre castas que amaldiçoa o amor puro e verdadeiro daqueles..." — PUFF — Shaka acordou de seus devaneios quando a voz de Mu o chamou para a realidade.
— Sha... Ei... Shaka... solta meu cabelo para eu te sentar aqui e encher a banheira. — pediu Áries gentilmente, já que Shaka tinha passado os braços em torno de seu pescoço e segurava em seu cabelo com força, tal qual um macaquinho grudado ao pelo da mãe.
Aquilo para Mu também estava sendo uma provação, pois Áries tentava a todo custo ignorar os sinais que seu corpo lhe dava ao ter o loiro tão próximo daquela maneira, já que o cheiro dele, a respiração e o calor da sua pele febril o estava deixando com o coração acelerado e a respiração ofegante.
Lembrou-se imediatamente do sonho molhado que tivera com ele, que não fora sonho, e isso só fazia seu rosto se ruborizar cada vez mais — "Mu, seu pervertido! Ele esta doente e você ai se lembrando do maldito sonho!" — Áries se corrigia mentalmente, quando percebeu Virgem soltar seus cabelos e também com o rosto corado se inclinar para descer de seu colo.
Mu o ajudou, o colocando sentado em um banco marfim que ficava ao lado da banheira. Em seguida, caminhou até ela e abriu a torneira, deixando a água morna mais para fria e se voltou ao amigo novamente, e ainda mais corado de vergonha.
— Sha... bem... você não me disse o que aconteceu, e também se não quiser dizer não tem problema... mas, por agora eu... preciso baixar sua temperatura com urgência. Você está com uma febre muito alta. Depois cuidamos do resto, tudo bem? Se bem me lembro, você não deve ter se alimentado direito, já que desde criança você tem essa mania de fazer jejum, além de ser todo enjoado com comida. — disse Mu, dando um leve sorriso ao se lembrar da infância ao lado do virginiano — Está bem mais magro desde o dia que cheguei aqui. — experimentou a água colocando a mão dentro da banheira — Bom... depois posso fazer algo pra você comer, mas agora temos que baixar sua temperatura e...
Mu se interrompeu quando sentiu a mão de Shaka segurar firme em seu braço, chamando sua atenção.
— Não, Mu... — disse Shaka, mantendo os olhos fechados, mas com o rosto contorcido, talvez por estar sentindo alguma dor, ou por estar simplesmente lutando contra um sentimento maior — Eu tenho que sofrer! Preciso sentir tudo isso, para... para conseguir expulsar do meu corpo esse desejo por...
Não conseguiu concluir.
A proximidade com o ariano era perturbadora demais, e sua presença, que na infância era suave como uma brisa, de repente se tornara um tufão que levava para os ares toda a sua razão e controle.
Esticou o outro braço e puxou Mu para mais perto de si, então ergueu o tronco e de súbito o abraçou, pegando o lemuriano de surpresa.
— Me promete que nunca vai deixar de ser meu amigo, Mu? Mesmo que eu seja uma pessoa ruim e que todos digam que sou ruim e que... — passou a mão no cabelo do lemuriano e a desceu pelas costas, afundando o rosto na curva do pescoço dele e encostando a boca na pele alva.
— Shii... c-calma, Shaka... Por que está dizendo isso? Você não é uma pessoa ruim. — dizia Mu, que tentava entender onde Virgem queria chegar com tudo aquilo. Achou estranha a visão que ele tinha sobre si mesmo e não compreendia os motivos tão distorcidos que o levavam a crer que precisava sofrer. Porém Áries deixou de tentar compreender algo quando sentiu os lábios quentes de Shaka lhe tocarem o pescoço e tudo que conseguiu fazer foi ofegar e o abraçar com mais força — S-Sha... o que está fazendo? — perguntou e sentiu quando Shaka ergueu a cabeça e tentara dizer algo, mas sua voz saiu muda e logo em seguida o cavaleiro caiu inerte em seus braços novamente.
— Shaka? Sha? — chamou, mas sem obter resposta e assustado, Mu o pegou novamente no colo e o levou até a banheira — Pobrezinho, então era isso. Estava delirando! Vai ficar tudo bem Sha, eu estou aqui com você.
Áries então se sentou na borda de mármore da banheira e apoiando as costas de Shaka em seu peito, retirou a túnica que ele usava com muito cuidado, como se manuseasse uma boneca de porcelana rara e muito frágil. Jogou a peça sobre o banco marfim e com cuidado segurou o virginiano no colo, o deitando dentro da banheira.
Não teve coragem de lhe retirar a cueca, o que lhe soou estranho, já que eram homens e quando crianças tomaram muitos banhos juntos, mas o sonho erótico que achava que tivera com o amigo de repente o colocou numa posição desconfortável, e ao vê-lo só de cuecas as imagens do mesmo ressurgiam borradas em sua mente, açoitando sua razão.
Assim que colocou Shaka completamente na banheira, deixando apenas a cabeça de fora, Mu esfregou os olhos como que para mandar aquelas lembranças para longe e se concentrar no que fazia, mas era praticamente impossível.
Com a ponta dos dedos, o ariano tocava o rosto do amigo suavemente, sentindo o calor, além do normal, da pele dele. Estava, de certa forma, hipnotizado com a brancura, a textura, e também com os traços delicados que compunham a face de Shaka de Virgem e que o tornavam extremamente atraente. De vagar, e sem perceber, foi descendo os mesmos dedos para o pescoço, os passando pelo peito magro e descendo até o umbigo, circulando o mesmo com o olhar perdido, quando ouviu um suspiro mais forte vindo do adoentado, o que o fez retrair a mão rapidamente e despertar do devaneio em que se enfiara.
Piscou algumas vezes e voltando a seu intento, juntou as duas mãos e apanhou um pouco de água, com a qual molhou a cabeça do acavaleiro, puxando os fios da franja para trás e desnudando sua testa, onde depositou um beijo terno.
— Eu nunca seria capaz de deixar de ser seu amigo, Shaka... Nem de te deixar... novamente... Estarei sempre aqui. — confessou em tom baixo para si mesmo, enquanto apanhava uma esponja macia e a molhava para passar no rosto de Virgem, limpando o suor.
Aos poucos Shaka ia recobrando a consciência. A sensação da água fria em seu corpo era revigorante, e logo sua respiração passou a ser mais cadenciada. Lentamente ele mexeu os dedos das mãos, depois balançou as pernas dentro da água, sentindo o líquido refrescante entre elas. Percebeu a água escorrer por seu rosto e então mexeu a cabeça, tombando-a para o lado na direção de Áries.
— Mu... — disse baixinho, cruzando os braços frente ao peito. Estava envergonhado de estar naquela situação, seminu, sendo cuidado pelo amigo e frágil como uma donzela. Ainda sentia sua cabeça girar, e seu estômago embrulhar, mas já não com tanta intensidade — Me desculpe, Mu... Eu não estou honrando meu posto de defensor desse Templo de Virgem, não é?
— Ei, não diga uma besteira dessa. — disse o ariano sorrindo — Você só está doente. Apesar de ser o cavaleiro mais próximo de deus, Shaka, você ainda é humano, lembra? Ou se esqueceu disso? — encheu a esponja com mais um pouco de água e a espremeu sobre a cabeça de Shaka — Todos nós estamos sujeitos a adoecer um dia. Não se culpe. Apesar de que tenho certeza que foi você mesmo quem procurou por isso fazendo aqueles jejuns malucos que você fazia quando criança, pensa que esqueci, Shaka de Virgem? — e mais uma porção de água morna caíra na cabeça do loiro, fazendo sua franja longa escorrer pela testa e lhe cobrir os olhos.
— Eu... estou acostumado ao jejum... faz parte da minha religião. — disse Shaka em voz baixa. Tanto sabia que tinha exagerado que nem tentou se explicar muito.
— Sei... pois então trate de se desacostumar. — disse Mu rindo, colocando a mão sobre a testa do outro e novamente puxando os cabelos para trás, agora para medir a temperatura. Constatou que já não estava tão quente e deu um sorriso ameno — Alias você já está bem grandinho para continuar brigando com a comida como quando éramos crianças. Lembra, Sha? — dizia descontraído, agora passando a esponja nas costas do indiano, afastando os cabelos para o lado e espalhando a água por toda sua pele alva — Você odiava carne...
— Ainda odeio... — resmungou Virgem se abraçando aos joelhos.
— Eu imaginei... Mas você se lembra que Saga te obrigava a comer bife de fígado e você chorava, fazia um escândalo, e ai nós demos um jeito de tirar o fígado da sua dieta? — Mu falou, dando uma piscadinha cumplice ao amigo.
— Mesmo assim eu comi quinze bifes de fígado na minha vida... Eu contei e me lembro de todos! E Gêmeos vai me pagar por isso. — falou fazendo uma careta de nojo.
— Sim, mas se lembra como retiramos os bifes da sua dieta? Eu teleportava a carne da sua boca para a minha assim que você colocava o pedaço na boca? Humm bife extra pra mim!
— Como vou me esquecer disso, Mu? — falou Shaka, dando um sorriso pela primeira vez, desde que vira Mu entrar em seu templo naquele dia — Era um habito nada... higiênico!
— E dai? Quem ligava? Você não queria comer, e eu queria. Era uma troca mútua! — Áries deu uma risada sonora, passando a esponja pelos ombros do amigo e espremendo para a água escorrer por sua pele — Eu em retribuição colocava o brócolis na minha boca, e você o fígado na sua. Então era só fazer a mágica!
— Até o dia em que você teleportou o meu pedaço de carne para a boca do Gêmeos. Que quase morreu engasgado... pena não ter morrido. — Shaka voltou a ficar sério.
— Não fala assim, Sha. Anda... já está ficando igual a uma uva passa ai dentro. Posso pegar aquele roupão para você? — perguntou o ariano se levantando e apontado para um roupão laranja felpudo que estava alinhadamente pendurado em um cabideiro ao lado da pia de mármore.
— Pode. — respondeu Virgem sem muito entusiasmo.
Quando voltou com o roupão, Mu ajudou o indiano a sair da banheira e o vestiu com a peça. Perguntou a Shaka onde havia uma toalha e quando este lhe indicou, apanhou uma no armário branco e assim que a desdobrou a jogou sobre a cabeça do loiro e como se brincasse com ele, começou a enxugar seus cabelos aos risos.
O riso de Mu era algo que beirava ao etéreo, ao mágico, e entrava pelos ouvidos de Shaka tocando seu coração, lhe garantindo que estava tudo bem, que aquele incidente bizarro do telhado não afetara a amizade que havia entre eles.
Por isso, Virgem deveria estar se sentindo bem melhor, até porque o mal-estar, a tontura e a febre também haviam se amenizado com os cuidados do ariano.
Contudo Shaka não se sentia melhor. Não em seu espírito. Pelo contrário. Sentia-se cada vez pior.
Mu estava sendo tão gentil, tão carinhoso! Sua preocupação e zelo eram muito diferentes do egoísta que impelira Virgem a atrapalhar a noite de prazeres com a amazona de Águia. No entanto, o que poderia fazer para se sentir menos culpado? Jamais contaria a verdade, mesmo que tivesse que morrer negando, ou Mu poderia pensar que ele era um devasso como todos os outros. Suspirou profundamente quando Áries retirou a toalha de sua cabeça, lhe deixando com os cabelos úmidos todo embaraçados.
— Está ótimo assim! Com esse penteado tipo arte moderna abstrata. — disse Mu rindo, brincando com ele — Vou preparar algo para você comer e depois quero te entregar uma coisa que trouxe. Mas, até lá, não quer me contar como ficou assim? — pegou no ombro de Shaka e o acompanhava até o quarto.
— Na verdade, eu não sei, Mu. Já fiz períodos de jejum muito mais longos que esse. Devo ter pegado alguma gripe, ou... virose... — disse, se sentando na cama, em frente sua amada televisão, que finalmente jazia majestosa em seu altar e em todo seu esplendor! Olhou para ela e só não sorriu de alegria porque sua culpa era maior naquele momento.
— Bom... Se for gripe, tenho uma receita infalível de sopa para mandar ela embora, não sou um chef, mas prometo que ela é engolível. Vou preparar. É rapidinho. Enquanto isso, melhor você tirar essa cueca molhada. Além de molhar a cama, pode pegar uma gripe também no... é... bem... Eu já volto. — Áries sentia o olhar sério e irresoluto do outro sobre si e percebera que sua piada não fora recebida com tanto entusiasmo e, meio sem graça, caminhou até a porta deixando o quarto.
Shaka esperou ele sair e então baixou a cabeça e deixou escapar um sorriso tímido. Mu realmente tinha o dom de fazê-lo sorrir desde quando eram crianças, e ninguém mais conseguia. Porém, a bondade e leveza de Mu também eram o que mais lhe angustiava.
— Oh, Buda! É como estar no filme a Dama e o Vagabundo! Mu é tão perfeito, tão... correto e nobre! Ele nunca faria aquela indecência no telhado da casa do Aldebaran! — jogou-se de costas na cama, olhando para o teto do quarto com seus olhos fechados. — O que Síbila faria em meu lugar? Como uma Brahmin, ela também foi criada para ser uma sacerdotisa, mas... se apaixonou por Ralej... um homem gentil e bondoso...
Ficou ali divagando por bem uns trinta minutos e então se levantou e esfregou o rosto com as mãos. Foi até seu closet, tirou as peças molhadas e se vestiu com uma kurta branca, uma camisa típica da indumentária indiana, e uma calça de algodão de tecido levinho.
Ao voltar, sentou-se novamente em frente à televisão. Sentiu-se feliz pela primeira vez desde o dia fatídico. — "Ah, que bom ter você aqui de volta, minha amiga!" — pensou dando um sorriso, mas imediatamente o mesmo se desfez dando lugar a uma expressão severa e até meio rude — "É tudo culpa sua! Sua máquina agourenta dos seis infernos!" — pensou rangendo os dentes, e então percebeu um pacote sobre o aparelho, embrulhado em papel vermelho, mas quando fez menção em se levantar para apanhar, ouviu Mu abrir a porta do quarto e permaneceu sentado na cama.
— Fui rápido, não? — disse Áries, que trazia consigo uma bandeja com uma cuia de louça cheia de sopa — Eu já tinha preparado os legumes hoje de manhã lá em casa. Espero que goste! Está bem reforçada.
— Não precisava se preocupar, Mu. Tenho tanta comida em casa! Foi pegar a sua? — disse Virgem, pegando a bandeja das mãos do ariano.
— De que adianta ter tanta comida se você não come, Shaka de Virgem? Anda. Coma tudo. E nada de meditação por hoje. Vou ficar aqui até que melhore.
— Já estou bem melhor, Mu... Obrigado. — disse Shaka, pegando a colher e provando a sopa, que só de sentir o cheiro já fazia seu estomago debilitado roncar — Hummm... está deliciosa! Você cozinha bem.
— Nada! Eu me viro. Tive que aprender em Jamiel, ou morreria de fome, você não acreditaria nas gororobas que eu fazia lá. — disse Mu aos risos, se sentando ao lado dele na cama — Lá eu me virava com o que tinha e nem sempre eram coisas boas como temos aqui na Grécia. Mas nem vou citar as iguarias tibetanas para não atrapalhar seu apetite. Você precisa comer. Assim que acabar, quero te mostrar uma coisa que trouxe para você.
Shaka mal ouvia o que Mu dizia. A sopa lhe tomava completamente a atenção naquele momento. Era quente, saborosa e lhe revigorava o físico e o espirito a cada colherada. Sabia que Mu não era bom cozinheiro, mas talvez fosse a fome, ou o carinho do tibetano que faziam aquela sopa tão deliciosa. Quando Mu falou a ultima frase, sem perceber Virgem já havia tomado mais da metade de cuia.
— Para mim? — disse Shaka surpreso. Nunca ganhava presentes.
— Sim, para você. Tem mais alguém aqui... além de Buda e a gente? — falou o ariano se levantando e indo pegar o pacote vermelho em cima da televisão.
Ansioso, Shaka enfiou mais algumas colheres de sopa na boca acompanhando os movimentos do amigo com atenção. O que afinal havia naquele pacote?
— Bem. Eu passei por um antiquário, aqui mesmo em Rodório e vi essa fita na vitrine. — dizia, enquanto desembrulhava o objeto — Eu achei que pudesse gostar, pois é um filme indiano e achei que pudesse matar a saudades da cultura do seu país através do cinema... mas... bem, eu espero que goste, mas se não gostar eu vou entender. Se não quiser assistir também...
De repente, enquanto colocava mais uma colherada de sopa na boca, viu enfim o que Mu lhe trouxera, e quase se engasgou tamanha sua emoção.
O ariano falava e falava, justificando a escolha do presente e Shaka não ouvia quase nada, somente seus olhos, agora milagrosamente abertos, olhavam sem piscar para a capa da fita nas mãos de Mu.
Nela, um caminhão pulando de um penhasco, com dois tigres de bengala na carroceria, e com meia dúzia de capangas armados os perseguindo em um helicóptero, Ralej e Síbila, não o casal da novela, mas seus intérpretes, os atores, partiam em fuga em meio a explosões. Samsara! O único filme que ele não tinha em seu acervo doméstico e que sonhava em ver.
Imediatamente, Shaka colocou a bandeja com a cuia a seu lado na cama, estendeu a mão e pegou aquela fita com tanta excitação que até se esqueceu de disfarçar e manter a pose.
Seus olhos brilhavam em emoção! Mal podia esperar para assistir àquela maravilha da sétima arte!
Espantado, olhou para Mu com os olhões azuis arregalados e a boca entreaberta, se perguntando como ele poderia saber que era louco por cinema, e pelos atores da novela. Ninguém sabia! Ninguém o conhecia tanto assim.
Naquele momento Shaka teve certeza de que amava o lemuriano.
— Ei! Não terminou a sopa! — disse Mu rindo da reação do amigo e então pegou a bandeja abandonada, a colocou sobre seu colo e levou uma colherada de sopa até a boca de Shaka, que ainda estava aberta, enquanto ele lia a sinopse do filme — Você precisa comer tudo. Sabe, eu pensei que poderíamos ver juntos... — falava, enquanto metia as colheradas de sopa na boca do virginiano, que sem pestanejar engolia —...Se você não se importar, é claro. Não quero, de maneira alguma, te forçar a algo por educação, Sha. Sei que não é ligado em... televisão. — nessa hora Mu sorriu, porque por mais que Shaka tentasse disfarçar, sua aura brilhante e exaltada lhe denunciava.
Ele estava delirante com aquela fica cassete em suas mãos.
Shaka por sua vez, abria a boca, abocanhava a colher, engolia a sopa, fechava a boca. Novamente os mesmos movimentos repetiram-se mais algumas vezes sem ele se mover. Apenas seus olhos se mexiam, pois corriam as letras da sinopse do filme escrita na parte de trás da capa da fita. Pela sinopse, Samsara parecia se tratar de uma superprodução eletrizante e romântica. Iria adorar, com certeza!
A cuia já estava vazia quando ele, enfim, terminou a analise de cada detalhe. Então suspirou e olhou para Áries.
— Mu... apesar de eu não assistir a esses filmes, eu gostei muito do presente! Deve ser bem interessante, como você disse, ver a cultura do meu país, mesmo que através desse aparelho. E claro que podemos ver juntos! Vou adorar ter companhia. — disse com a cara mais lavada da face da Terra.
Mu sorriu. Parecia mesmo que Shaka não estava mesmo bravo ou decepcionado consigo. Já com a cuia de sopa vazia, pegou a bandeja, levantou da cama e a colocou sobre a cômoda ao lado da televisão.
— Que bom, Sha. — disse voltando-se para Shaka, agora o olhando nos olhos — Fico feliz em saber que não está chateado. Por um momento achei que nunca mais fosse querer falar comigo. Fiquei tão preocupado...
Quando se deu por si, Mu já estava abraçando o loiro todo feliz. Shaka se mantinha imóvel, até que, meio sem jeito, dobrou os cotovelos e espalmou ambas as mãos nas costas do lemuriano, sentindo um leve desconforto ao perceber que tocar nos cabelo dele e sentir o calor de seu corpo forte e viril lhe tirava a força dos joelhos e fazia seu coração bater mais rápido.
Shaka se deu conta, mesmo que por instantes, de que nenhuma meditação poderia lhe causar tamanho frenesi como o que sentia naquele momento, naquele abraço. Tinha ali tudo o que mais gostava na vida. Em primeiro lugar Buda, depois sua amada TV, um filme com Ralej e Síbila, que mal podia esperar para poder assistir, e Mu de Áries!
De súbito, Mu deu dois passos para trás, apartando o abraço, pois julgou estar sendo demasiadamente atrevido, já que era de conhecimento geral que Shaka não permitia a ninguém que lhe tocassem, e só naquele dia já tinha o tocado por todos os anos que ficaram longe.
— Ah... bem. Preciso te confessar uma coisa. — disse o lemuriano meio sem jeito — Estou aliviado de não ter, sabe... dormido com a Marin. Ela é uma moça adorável, muito meiga, e sei que ela só estava ali para fazer o trabalho dela. Mas eu nunca me sentiria bem em... você sabe. Eu queria que acontecesse com... alguém, tipo, especial. — disse a ultima palavra em tom baixo, com o rosto levemente corado e olhando para os próprios pés, já que não conseguia encarar aquele par de olhos azuis poderosos sobre si naquele momento. Foi quando ouviu a voz do virginiano quase no mesmo tom.
— Eu também estou aliviado, Mu. — disse Shaka, completamente imerso em seus pensamentos mais íntimos, e totalmente despido do filtro moral que sempre impunha a si mesmo. Quando percebeu o que acabara de dizer, seu rosto ficou quase da mesma cor do pacote que embrulhava a fita que tinha ainda nas mãos — Err... quero dizer... fico aliviado... por você, claro! Por você estar aliviado, certamente. — dizia em total embaraço, ainda mais que agora Mu olhava para si curioso —... Até porque você agiu corretamente e... e... era o certo a fazer... e... Vamos assistir ao filme?
— C-claro! — respondeu Mu de pronto, percebendo que o outro estava todo enrolado. Então sem mais esperar, apanhou a fita das mãos meio tremulas de Shaka e foi ligar o vídeo cassete que já vinha embutido no modelo da televisão — Vou colocar.
— Certo! Vou arrumar as almofadas aqui e depois podemos fazer pipoca! — disse Shaka, respirando aliviado por ter o filme para salva-lo daquela situação estranha.
— Adoro pipoca!
Quando o filme começou, estavam sentados um ao lado do outro sobre a cama, apoiados em um monte de almofadas indianas, com os olhos fixos á tela de 21 polegadas.
Mu tinha o coração aliviado e Shaka vivia o dia mais feliz de sua existência desde que chegara ao Santuário.
Mu, Ralej e Síbila. Todos ali com ele.
Sua vida agora estava completa!
