Um mês se passou desde a festa de aniversário de Aldebaran e, dentre as tantas visitas de Camus de Aquário feitas à Grécia, mais precisamente ao bordel de Saga de Gêmeos, essa era apenas mais uma.

Trazia consigo, como de costume, alguns irmãos da máfia e presentes valiosíssimos para Afrodite.

Excepcionalmente naquela noite quem o acompanhava de perto era seu braço direito e melhor amigo, Ivan Ivanovenko, junto a seus dois irmãos gêmeos, Ivanov e Ivanovish.

Não era muito corriqueiro que viessem os dois, uma vez que, quando Camus deixava Moscou, colocava Ivan para manter todos na linha durante sua ausência, porém, naquela noite, um dos membros sênior da Vory v Zakone comemorava seu aniversário e fizera questão de celebrar a data no bordel grego, já que ele era famoso por servir as mais belas ninfetas de todo o continente.

O expediente já havia começado há tempos e a casa estava praticamente lotada quando a comitiva russa chegou.

Tudo corria exatamente como sempre, nada saindo do trivial.

Máscara da Morte fumava um cigarro sentado ao balcão do bar em seus dez minutos de folga, enquanto Shura na porta de entrada flertava com Shina que fazia um número de pole dance.

Aiolia desabafava com Aldebaran, lamentando a vida e o infortúnio que lhe rondava toda vez que via Marin conversando com algum homem no salão. No sofá de veludo, Misty se pegava com um jovem boa pinta, enquanto em uma mesa mais afastada Geisty, sentada ao lado de Saga, tinha um semblante sério e carrancudo.

Afrodite de Peixes por sua vez, não tinha dado as caras ainda naquela noite!

Na mesa em que Gêmeos estava com a amazona de Serpente, o garçom acabava deixar uma garrafa de Absinto e uma dose de Martini.

Saga tinha um conflito, e teria que resolvê-lo naquela noite.

Enquanto colocava a bebida no copo, o geminiano se recordava da reunião que tivera no começo da tarde no gabinete do Prefeito de Atenas. Ruminava cada palavra da figura bonachona que lhe fizera uma ameaça direta, sem reservas.

O Templo de Baco era um patrimônio mundial da humanidade, e mesmo pouco conhecido era valiosíssimo no âmbito histórico, além de estar sob a responsabilidade direta do governo de Atenas e, portanto, sob a tutela de Praxédes, o Prefeito da cidade, que o chamou naquela tarde para lhe cobrar uma propina muito maior do que a proposta inicialmente. Exigia ser cliente fixo das joias do bordel de Saga.

E como é de um conhecimento geral que no meio político o preço do silêncio está sempre em inflação, Saga tentava de todas as formas sair pela tangente e convencer o Prefeito a não retirar a concessão pela utilização do Templo de Baco. Não era apenas o alvará de funcionamento que estava em jogo, mas o salário de vários funcionários, parte da verba direcionada à máfia grega para seu grito de liberdade frente aos desmandos da Vory v Zakone e do pagamento da dívida astronômica de Kanon... Não podia, em hipótese alguma, perder um negócio tão lucrativo.

Mas como já imaginava, ao comunicar primeiro a Afrodite acerca da exigência do Prefeito, este logo descartou qualquer possibilidade de acordo.

Peixes fora curto e grosso: Não atenderia jamais ao suinão barrigudo da peruquinha.

Com a negativa de Afrodite só restava agora a Gêmeos comunicar ao furacão italiano que seria ela a atender o Prefeito Praxédes.

Sendo assim, como se buscasse coragem no fundo de seu copo de absinto, Saga deu um longo gole na bebida, que desceu raspando-lhe a garganta, e com o coração pequeno olhou para a amazona e disse:

— Geisty, precisamos conversar... — observou o par de olhos violetas curiosos sobre si.

— Hum... Lá vem merda! — sussurrou — Já estamos conversando. — concluiu de forma óbvia.

— Estamos passando por um problema grave. Está havendo uma desavença junto à prefeitura da cidade quanto ao nosso alvará de funcionamento...

—- Oh! Não me diga! — disse irônica a amazona.

— Estamos sendo pressionados a fechar...

— Jura? Oh, que pena. Gosto tanto desse emprego! — falou Geisty dando um risinho de deboche.

— Continue debochando e voltará ao Cabo Sunion.

— Está certo, patrão. Prossiga. — falou a amazona dando um gole em seu Martini.

— Bom, agora mais do que nunca preciso dos favores do Prefeito de Atenas. — falava calmo e ponderado, até ser interrompido pela morena.

— Certo. O gordão careca que usa aquela peruquinha escrota e acha que ninguém percebe?

— O próprio. — fez uma pausa e respirou fundo, porque agora vinha a pior parte — Como forma de um acordo vitalício... Entenda mais como um agrado... Ofereci quantas noites ele desejar com uma de nossas joias da casa.

— Certo! Já imaginava... Mande o Afrodite atendê-lo. — falou a amazona simplesmente, levando a taça de Martini aos lábios carmins, enquanto fitava o geminiano.

— Não posso! Tenho um acordo com Afrodite. Ele só atende aos clientes que ele escolhe. — não podia falar para ela que Afrodite tinha verdadeiro asco do Prefeito Praxédes.

— Ah, esqueci que a bicha dourada tem regalias aqui, não é mesmo, Saga? Como sou ingênua! Vocês dois se merecem! Cretinos! — disse batendo com a taça de Martini na mesa tão forte que voaram algumas gotas e uma delas respingou nos olhos de Saga, que rapidamente grunhiu e o limpou com a barra da gravata.

— Mas que caralho, mulher, olha como fala! — disse consternado o cavaleiro — Não estou pedindo por mim, há muito em jogo, Geisty. A vida dos nossos funcionários, o pagamento do soldo de nossos irmãos de armas... Não posso negar ao capricho do Prefeito. Por mais que eu o deteste, tenho que acatar aos pedidos dele, sem contar que você tem uma dívida a pagar.

— Ah, claro! A minha dívida! — falou a morena já arrastando a cadeira para trás usando o quadril e se levantando. Pegou a taça e com uma última golada generosa, matou a bebida e a devolveu à mesa. Procurou com os olhos o Prefeito Praxédes, o encontrando sentado próximo ao palco, salivando nos seios dançarinos de Shina, que rodopiava no pole dance.

Com extremo desgosto, Geisty olhava para a figura que tinha um charuto entre os lábios pequeninos e vestia um terno apertado marfim com um suspensório vermelho ridículo, no qual ele deslizava os dedos gordos para cima e para baixo. De todos os assessores parlamentares, secretários e cafetões que estavam com ele, era o mais baixo e asqueroso. A amazona de Serpente respirou fundo e lançou um olhar frio a Saga, que a observava calado.

— Por um breve momento eu acreditei que talvez... Só talvez... Você e eu... Nós... — sentiu seu peito apertar e seus olhos marejarem e então suspirou —... Esquece. Você me trouxe aqui para ser puta, não é? Então às suas ordens, Grande Mestre.

Dito isso, Geisty deu as costas ao geminiano e caminhou decidida até o Prefeito, que assim que a viu a seu lado já tratou de lhe dar uma bela apalpada nas nádegas fartas e uma olhada de cima a baixo, analisando a mercadoria.

Enquanto Geisty subia com Praxédes para o andar de cima do Templo, no salão Saga a acompanhava com os olhos jades faiscantes — "Se eu não soubesse que você pegou o espírito da coisa, amazona, jamais lhe pediria isso!... Geisty... Eu não a trouxe aqui para ser puta." — pensava Gêmeos, quando de súbito uma pontada forte na cabeça o fez fechar os olhos, apertando as pálpebras com força e chacoalhando de leve a cabeça. Rapidamente passou a mão na garrafa de absinto e tomou um gole no gargalo mesmo. A bebida o ajudava nessas horas.

Pouco depois de Geisty entrar em seu quarto, acompanhada pelo ilustríssimo Prefeito de Atenas, no corredor dos fundos, três portas à frente e do lado oposto, Camus de Aquário dava três toques à porta do quarto de Afrodite de Peixes.

O francês havia subido com uma das bacantes, bem aos olhos da comitiva russa que com ele estava, e não tinha nem bem vinte minutos já estava ele lá, em frente à porta do pisciano, trajando um sobretudo negro, cachecol e luvas. Acessórios indispensáveis para poder vestir em si as joias caríssimas que sempre trazia ao sueco.

Dessa vez Camus fora ousado, não só pela joia rara que trouxera, uma gargantilha enorme e suntuosa de rubis indianos, com um anel de ouro da mesma gema, mas também por ter se arriscado a encontrar o pisciano numa noite em que o Templo das Bacantes estava lotado com os homens da Vory.

Há tempos que a razão de Camus deixou de ser sua bússola, sucumbindo miseravelmente ao sentimento avassalador que preenchia todo seu ser quando o assunto era Afrodite de Peixes!

Sem se dar conta de quando foi que se percebera completamente apaixonado pelo guardião da décima segunda casa zodiacal, sua vida agora se resumia a buscar maneiras de conseguir se encontrar com Afrodite, pelo menos uma vez por semana.

Como sempre fazia, depois dos três toques na madeira girou a maçaneta e entrou, fechando a porta logo em seguida e se assegurando de passar a chave no trinco. Nem bem se virou de frente novamente para o cômodo fora atacado por um sueco eufórico, que pulara em seu colo entrelaçando as pernas em sua cintura e lhe tomando a boca num beijo urgente e luxurioso.

— Humm... Você... Demorou... — dizia Afrodite entre selinhos e afagos, ao mesmo tempo em que afundava os dedos nos cabelos ruivos do francês.

— E tudo isso é... Saudades de mim, Peixinho? Hum? — gemeu, delirante com a recepção calorosa do outro.

Segurava o pisciano em seu colo, lhe apertando com força as nádegas definidas, matando ele próprio a saudade avassaladora que sentia, enquanto andava pelo quarto o carregando entre beijos apaixonados.

Quando já estavam quase sem fôlego, Aquário colocou Peixes no chão e deu dois passos para trás, o admirando por inteiro.

— E que diabo de roupa doida é essa? — perguntou o ruivo com um sorriso, afinal, por mais estranhas que fossem as roupas que o outro lhe obrigava a usar, desta vez era Afrodite quem o surpreendia com aquele traje no mínimo esquisito.

— Gostou? — respondeu o pisciano, dando uma volta em torno de si mesmo.

Peixes usava uma estranha vestimenta de couro negro, que consistia em apenas umas tiras entrelaçadas pelo corpo, formando um X à frente do peito, alças nas costas e uma minúscula sunga que cobria apenas seu sexo. No pescoço tinha uma coleira grossa do mesmo material e cor, onde havia presa uma corrente comprida que arrastava pelo chão. Nos pulsos, dois braceletes de metal, que mais pareciam grilhões, sustentavam grandes argolas por onde também desciam grossas correntes, as quais Afrodite usava para fazer barulho ao chacoalhar os pulsos diante dos olhos curiosos de Camus. Nas orelhas, Peixes ostentava o par de brincos de Aquamarine que ganhara do francês, os quais não passaram despercebidos pelo ruivo.

Oui... Diferente, mas lindo como sempre, Peixinho. — Camus o puxou pela cintura para colar seu corpo ao dele. Após tantos encontros, não se espantava mais com as fantasias malucas que o outro lhe propunha — Vejo que tem alguma brincadeira preparada para nós hoje.

— Oh, sim! Tenho sim, ma petite princesse! – falou o pisciano, depositando um beijo molhado no pescoço do aquariano que fez todos os pelos de seu corpo se eriçarem — Venha!

Afrodite então pegou na mão de Camus e o puxou para dentro de seu grande closet. Caminhou até um pequeno balcão que ficava no centro e com um pulinho sentou-se sobre ele, esticou as penas e enlaçou a cintura de Aquário com elas, o puxando para perto si e o abraçando com força em seguida.

— Camus... Como adoro seu cheiro... — sussurrou, esfregando seu rosto ao dele, enquanto aspirava o perfume aprazível do francês — Estava sim, morrendo de saudades de você. — confessou, descendo as mãos às nádegas do cavaleiro e dando um apertão forte.

Estava mesmo com saudades daquele ruivo. O fato era que nem ele mesmo sabia bem por quê! Poderia atribuir a saudade ao fato de sempre ganhar presentes lindos e caros a cada visita do aquariano. Ou porque o sexo era maravilhoso entre eles e tinha Camus em uma posição de submissão sempre. A verdade era que a sensação de ter alguém tão poderoso como Camus de Aquário em suas mãos, fazendo suas vontades, realmente lhe alimentava o ego.

— E não trouxe nada para mim? Como quer que eu o agrade e te foda gostoso se não me agrada também? — disse, apontando o dedo para o ruivo.

Camus abriu a boca e num bote certeiro abocanhou o dedo de Afrodite, para depois suga-lo despudoradamente, ao mesmo tempo em que encarava os olhos azuis do sueco e pressionava sua ereção contra a dele o provocando. Era lógico que havia trazido algo, passava boas horas de seu dia escolhendo os mimos que levaria ao pisciano, mas queria brincar com ele um pouco antes de lhe entregar.

— E se eu non tiver trazido nada para você hoje? – disse, abandonando o dedo do outro por um instante para depois voltar a sugá-lo travesso.

Peixes puxou o braço para trás num gesto brusco, encarando Camus com uma expressão séria e nem um pouco amistosa, arrancando um riso alto e satisfatório do francês ao ver a carinha emburrada do seu amante. Ainda olhando o pisciano nos olhos deu dois passos para trás e abriu a camisa lentamente, revelando a magnifica joia em seu pescoço.

— Gostou, papa? — perguntou, enquanto terminava de tirar a camisa — Só existem nove rubis como esses no mundo e seis deles estão nesse colar!

— Oh, mon dieu! Camy, que colar Odara*! Hoje você se superou! — disse o sueco, que arregalava os olhos e tocava no colar com os dedos, completamente hipnotizado por sua beleza. Puxou a cabeça de Camus para perto e lhe deu um beijo ardente — Eu adorei, mon chèr! É digno da surpresa que preparei para você! — piscou um olho para ele e pulou do balcão — Quero que o use hoje. — disse a última frase em um tom firme e autoritário — Quero olhar para ele, já que imagino que não verei seu rosto!

Quando ouviu aquilo Camus ficou intrigado. Arqueou uma sobrancelha no momento em que seu cérebro procurava um sentido no que Peixes acabara de dizer e, logicamente não encontrando nenhum, Aquário encarou o sueco pronto para lhe perguntar o motivo pelo qual não veria seu rosto enquanto transavam, mas o som de três batidas na porta da frente do quarto de Afrodite fizeram o francês engolir a pergunta no mesmo instante, mantendo a boca aberta e a dúvida no ar.

O que viera a seguir fora algo tão surreal que nem em seus devaneios mais absurdos Camus jamais imaginara.

— *Afrodite?

A voz que vinha por detrás da porta era grave, profunda e falava em russo.

— Meus convidados chegaram! — disse Peixes abrindo um sorriso faceiro.

Camus não podia acreditar no que estava ouvindo. Podia reconhecer aquela voz mesmo em meio a uma multidão de vozes, ruídos e sons. Passara quase a vida toda ao lado do dono dela, o conhecia como a palma da sua mão e lhe depositava uma confiança inabalável. Por isso mesmo que achava estar sendo vítima de uma peça que seus ouvidos lhe pregavam, afinal não era para ele estar ali. Mas segundos depois veio a fatídica confirmação.

— *Está aí, Afrodite?

Na mesma hora, Aquário sentiu sua saliva desaparecer da boca, seus músculos se tencionarem e todo seu corpo tremer de surpresa, espanto e indignação, pois a voz que vinha do lado de fora do quarto era de Ivan Ivanovenko, seu braço direito na Vory e melhor amigo.

Sem reação viu Afrodite dizer em voz alta e de forma extremamente tranquila:

— **Já vou, queridos. Um minuto, sim? — tapou a boca com uma das mãos dando um risinho travesso — Eu não entendi patavina do que ele disse. — sussurrou para Camus, que sem pensar em mais nada fechou o rosto numa expressão colérica e agarrou com força o braço do sueco, lhe dando um chacoalhão.

— O que o Ivan faz aqui, Afrodite? – rosnou praticamente, em voz baixa, enquanto encarava os olhos azuis do pisciano em busca de respostas.

— Como assim o que o Ivan faz aqui? Ora, que tipo de pergunta é essa, Camy? Ele veio fazer o mesmo que você. — disse simplesmente, enquanto do lado de fora mais batidas na porta eram ouvidas.

Camus estava em choque! Pior do que ouvir Ivan à porta do seu amado Peixinho, era ouvir que ele estava ali para fazer o mesmo que si. O fato lhe causou um estranho aperto no peito e uma sensação de desolamento tão grande que lhe emudeceu.

Para seu completo desespero, Afrodite virou o rosto para a direção da porta do closet, que estava aberta, e gritou:

— *ENTREM SENHORES. — voltou seus olhos para Camus, o encarando como quem propõe um desafio — Gostou do meu sotaque russo? Treinei essa frase o dia todo.

Com um solavanco, Peixes livrou-se do agarrão de Aquário e correu até a porta do closet a fechando. Na mesma hora, ouviu-se a porta da frente se abrindo e passos adentrando o quarto. Afrodite colou as costas na madeira, virando-se de frente para Aquário e enquanto olhava para ele, disse em voz alta:

— **Ivan, querido, tem vodca russa no bar! Sirva-se, e a seus irmãos. Eu já estou indo. Aguarde um minuto e não vai se arrepender! — tapou a boca para abafar uma risada.

— Está bom. Não demorar. — respondeu Ivan num grego falho, porém inteligível, e carregado num sotaque russo inconfundível.

Ao ouvir aquilo, Camus sentiu como se punhais lhe fossem cravados no peito repetidas vezes. Sua cabeça latejava, seu coração batia num ritmo acelerado e descompassado, lhe causando dor e falta de ar. Suas mãos tremiam e seus olhos estavam fixos no sueco, exibindo toda sua incredulidade.

Sabia muito bem que sendo um garoto de programas Afrodite se encontrava com outros homens. Não era isso que mexia consigo e lhe causava todas aquelas reações passionais, porém o fato de ser especificamente Ivan ali, acompanhado dos dois irmãos, deixou Camus num estado perturbador.

Era óbvio que não era uma coincidência. Ele os trouxera ali de propósito. Além do mais, as palavras de Peixes o atingiram com mais força do que imaginava. Aquário sentiu-se comparado a eles, assim como a qualquer cliente que o sueco atendia. Era apenas mais um.

Sentiu-se traído, pois de um modo estranho Camus achava que ele e Afrodite tinham uma ligação única e especial. Porém, além de coloca-lo no mesmo patamar de um cliente qualquer, Peixes ainda tivera a pachorra de convidar justamente seus homens de maior confiança para uma orgia, quando tudo que lhe pedira era sigilo absoluto e cumplicidade.

Camus estava muito magoado.

Algo muito grande e intenso se quebrara dentro do ruivo. Naquele exato momento havia percebido, e finalmente admitido a si mesmo, que estava apaixonado por Afrodite.

Mas que bela hora para se constatar um amor não correspondido!

Diante daquele contexto nefasto, a paixão de Camus pelo sueco de olhos aquamarines tornara-se decepção, mágoa e ira! Aquário fora do céu ao inferno em míseros segundos, onde seu coração, até então em festa, agora era inundado por uma tristeza tão profunda que tudo que sentia era vontade de morrer.

Respirou fundo, uma, duas, três vezes... Enquanto acompanhava o sueco com os olhos, o vendo ir até uma das prateleiras, abrir uma porta de correr e de dentro tirar um traje de látex de corpo inteiro e mangas longas, com zíperes em pontos estratégicos. Vinha acompanhado de uma máscara, a qual deixava apenas os olhos de fora.

— Vamos fazer um jogo mais quente hoje, Camy? — sussurrou Peixes se voltando ao ruivo e lhe estendendo a peça que apanhara — Você tem duas opções: Se usar esse traje, além de me dar muito tesão, vai manter sua identidade em sigilo. Pode colocar esse seu cabelão lindo por dentro e aproveitar uma experiência super excitante! Aposto que vai gostar, além de me deixar muito satisfeito. — piscou para ele — Agora, se não quiser participar, vai ter que ficar aqui e ouvir tudo caladinho. O que não deixa de ser muito excitante também. Voyerismo é uma delícia! Boa escolha!

Peixes deixou a peça nas mãos trêmulas de um aquariano completamente em choque, lhe deu um selinho nos lábios e caminhou até a porta do closet, abrindo apenas uma pequena passagem por onde saiu a fechando em seguida.

Enquanto isso, do lado de fora do quarto do cavaleiro de Peixes, no corredor uma figura se esgueirava nas sombras.

Pé ante pé, Misty de Lagarto, muito observador e xereta que era, já havia sacado a rotina de Camus e Afrodite e sabia que estavam tendo um caso, o que o deixava espumando de inveja.

Desde a noite de estreia, quando espiou os dois fazendo sexo daquela forma nada convencional, Misty dedicara seus dias a observar o comportamento de ambos, e não fora nada difícil descobrir que continuaram se encontrando escondidos.

Decidido a tomar Camus do sueco, Lagarto só esperava o melhor momento para agir, a oportunidade perfeita para mostrar ao francês que ele estava brincando com fogo e logo se queimaria!

Quando viu Camus subindo com uma das bacantes, Misty calculara o tempo que levaria para que o aquariano transasse com a prostituta e seguisse para o quarto de Peixes, o que em média acontecia entre trinta minutos, mais ou menos. Assim, quarenta minutos após Camus subir, Lagarto seguia para o andar de cima para ficar de butuca na porta do quarto de Afrodite.

Porém, enquanto subia as escadas e acessava o corredor, percebeu estar sendo seguido por três homens enormes, vestidos em ternos escuros e muito mal encarados. Eram exatamente iguais e os reconheceu como integrantes da comitiva russa que viera naquela noite com Camus de Aquário.

Mais que depressa, Lagarto apertou o passo e entrou em seu próprio quarto, no final do corredor. Sabia que os russos detestavam a ele e a Afrodite e, curioso que era, abriu uma frestinha da porta e espiou o corredor para ver em que quarto os três homenzarrões iriam entrar. Qual não fora sua surpresa ao ver que pararam e bateram justamente na porta do quarto de Afrodite!

— Poderosa Ártemis, me cegue com a flecha de seu arco! Eu não posso acreditar no que estou vendo! — sussurrou para si mesmo — O que a escamosa está aprontando? Ou será que os russos vieram atrás... do Camus? Não, ninguém sabe!

Ouviu então quando a porta se abriu e espiando viu os três homens entrarem. Roendo as unhas se esgueirou novamente pelo corredor até parar em frente à porta do quarto de Peixes e colar seu ouvido na madeira, tinha que saber o que acontecia ali, pois coisa boa não era!

Dentro do closet do quarto de Afrodite, Camus de Aquário estava de pé em frente à porta.

A cabeça baixa parecia suportar um peso três vezes além do seu. Os olhos abertos e imóveis eram fixos aos próprios pés. Por fora nenhuma reação, apenas a respiração ruidosa e difícil denunciava seu estado, mas por dentro um verdadeiro furação de emoções conflitantes o fazia entrar em negação.

Camus represara tanto seus sentimentos que agora eles se rompiam todos de uma vez, o fazendo sufocar.

— Isso non é real... — sussurrou apenas entreabrindo os lábios trêmulos.

Quem sabe quando saísse daquele closet, seu amado Peixinho estaria ali como sempre, lindo e sorridente, o esperando cheio de saudades para mais uma noite juntos.

Mas, por mais que tentasse negar, não podia evitar ouvir as vozes de Ivan, de Ivanovish e também de Ivanov. Eles riam, exaltavam a beleza de Afrodite e pareciam estar muito satisfeitos de estarem ali.

Non é real...

Escutou também o som das correntes que o sueco usava no corpo, seguido de um gemido alto dele e um riso descontraído.

Afrodite estava gostando!

Non... é... real...

Camus ouviu tudo que precisava ouvir para aceitar que realmente aquele episódio absurdo estava acontecendo em sua vida. Ignorando suas emoções e voltando a pensar friamente como sempre fizera, tentou avaliar a situação.

Até poderia entrar no jogo do sueco, caso quem estivesse ali fossem completos desconhecidos e não seus irmãos russos, e principalmente se Afrodite não tivesse deixado claro para si, quando propôs o jogo, que ele era apenas mais um cliente.

Um cliente!

Apenas alguém que vinha atrás de sexo, como os Ivanovenkos, mas que o pagava com joias de valor inestimável e muito carinho.

Fechou os olhos apertando as pálpebras com força quando se deu conta do quão ingênuo fora. Apaixonara-se por Afrodite deixando-se levar, sem se dar conta de que nunca significara nada para ele.

Sentia-se destruído, quebrado e morto por dentro, mas agora precisava ser racional e tomar uma atitude.

Jamais suportaria ficar ali trancado e ouvir o homem que se descobriu amando, transar com seu melhor amigo junto dos irmãos. Por isso, respirou fundo, ergueu a cabeça, jogou no chão o traje que Peixes lhe entregara e abriu a porta do closet lentamente.

Em seu interior um caldeirão de sentimentos ruins borbulhava.

O amor que sentia pelo pisciano, Camus envolveu em densas e múltiplas camadas de gelo dentro de seu coração, o enterrando bem fundo em sua alma.

Afrodite tinha ultrapassado todos os limites aceitáveis das tantas humilhações a que lhe submetia, e das quais Camus aceitava apenas por se descobrir amando pela primeira vez na vida.

Mas, ali acabaria aquele absurdo que vivera ao lado do cavaleiro de Peixes.

Naquela noite, Afrodite saberia quem de fato era Camus de Aquário, e que jamais deveria ter brincado com seus sentimentos!

Deu um passo à frente e como um predador que observa a caça, se agachou, sem tirar os olhos da cama onde os três companheiros russos se aboletavam e se revezavam para tomar a boca do sueco em beijos ardentes, enquanto se despiam ansiosos e tocavam em seu corpo febril sem nenhum pudor.

Mesmo tentando se conter, a cena causava a Camus um mal estar terrível, mexia diretamente com seus brios, o levando a um estado de fúria insana.

Aquário então ergueu lentamente a barra da perna esquerda da calça, revelando uma Makarov 9mm presa a um coldre em sua canela. Desprendeu a arma, apanhou um pequeno silenciador de um dos outros compartimentos do coldre e o encaixou no cano, em seguida destravou o pente e se levantou novamente, apontando a pistola para a cama ao mesmo tempo em que se levantava, e com o rosto transtornado se aproximava dos quatro.

Ivanov fora quem o vira primeiro. Estava de joelhos sobre a cama beijando um dos tornozelos de Afrodite quando percebeu pela visão periférica a figura que se aproximava deles.

— *Pela mãe Rússia! Não pode ser! Mas que merda é essa? — disse o russo, instantaneamente chamando a atenção dos outros três.

Ivan era o mais aturdido. Assim que ouviu o irmão dizer aquilo, rapidamente se virou para a direção em que ele olhava com os olhos esbugalhados e viu Camus lhes apontando uma arma. Porém, esse não era o fato mais surpreendente para Ivan, que conhecia Camus há anos, mas o fato de o ruivo estar sem camisa, visivelmente perturbado, usando um enorme e luxuoso colar de rubis no pescoço e dentro do quarto de uma bicha.

— *Chefe! Calma. —exclamou Ivan, descendo da cama lentamente.

Os irmãos faziam o mesmo, confusos e assustados.

Porém, Ivanovish, que era o mais explosivo deles, agarrou na corrente que Afrodite tinha presa à coleira e lhe deu um puxão forte, o fazendo se levantar da cama.

— *Seu viado de merda, desgraçado! Eu disse que era uma armadilha dessa bicha de...

Ivanovish não terminou a frase, pois tomado por uma fúria quase irracional, Camus disparou, atingindo o companheiro com um tiro certeiro no meio de seus olhos, que o lançou imediatamente ao chão.

Afrodite olhou surpreso para Aquário, e Ivan sentiu seu coração disparar, pois nunca vira tamanha fúria e ódio nos olhos do ruivo antes.

Ivanov, em completo desespero levou as mãos às costas para apanhar a arma que trazia presa ao cinto, mas não teve tempo nem de segura-la entre os dedos, pois um tiro no meio da testa o jogou centímetros para trás. Caiu agonizando com a arma na mão.

— *Devia saber que ninguém aponta uma arma para mim e sai vivo, Ivanov. — disse Camus em tom baixo e grave, e na mesma hora voltou seus olhos ao braço direito, Ivan, que permanecia imparcial, já sabendo o que aconteceria a si naquele quarto — Parece que Afrodite non é a única bicha aqui, non é mesmo, Ivan? Non queria fazer isso, non com você... Mas, sabe que non tenho escolha.

*Chefe... Eu...

Um tiro entre os olhos silenciou para sempre o braço direito e único amigo de Camus de Aquário.

Ivancaiu inerte ao lado da cama, enquanto Camus observava seus espasmos involuntários sem mover um único músculo da face fria e inabalável. Em seus olhos uma faísca azulada rutilava, então olhou para o lado e jogou a arma sobre uma poltrona, ainda não acreditando no que havia acabado de fazer.

— V-você ficou maluco? — gritou Afrodite dando a volta na cama e olhando incrédulo para os corpos no entorno, enquanto caminhava lentamente até Aquário. Ria copiosamente, sem se dar conta da gravidade do que acontecia ali — Seu equêzeiro*! Se me queria só para você era só ter dito. Não precisava vuduzar* a brincadeira... Poxa, Camus... Eu ia te comer tão gostoso... Agora, olha só o que você fez. O que vamos dizer ao Saga? — perguntou sorridente, erguendo o braço e fazendo uma carícia no queixo do francês.

— O que vamos dizer non, o que você vai dizer ao Saga... — afirmou, o rancor na voz era um eco de seu coração.

Na mesma hora o rosto do francês se contorceu violentamente em fúria, e num gesto muito rápido ergueu a mão direita e desferiu um tapa contra o rosto de Afrodite, usando toda sua força, que naquele momento era ainda mais intensa, pois a raiva a alimentava.

— BOUGRE! (miserável!) — gritou.

Camus só não quebrou o pescoço do pisciano com seu golpe, porque Peixes também era um Santo de Ouro, mas a força do tapa não só cortou os lábios do sueco como o jogou contra a penteadeira, o fazendo se desequilibrar e cair no chão de joelhos, sem ainda se dar conta do que acabara de acontecer, especialmente porque jamais esperava uma reação daquela por parte de Aquário, não depois de toda a intimidade de que eram cumplices, onde o humilhava de inúmeras formas e Camus gostava.

Afrodite nem tivera tempo de se levantar, pois no instante seguinte um Camus transfigurado correu até ele e lhe chutou o rosto, o fazendo se desequilibrar novamente e cair de bruços sobre o tapete, então num golpe rápido e preciso Aquário cravou uma pequena lâmina nas costas do pisciano, exatamente no ponto da estrela Alrescha, a qual representa o nó que une os dois peixes da constelação zodiacal.

— Aaaaaaaaaahhhhhrg — o grito do pisciano era de dor, mas também de desespero, pois assim que sentiu a lâmina rasgar sua carne também sentiu seu Cosmo ser bloqueado instantaneamente, e isso lhe causava um sofrimento intenso — O que você fez, Camus? Aaaargh!

De pé, o cavaleiro de Aquário olhava pra o Santo de Peixes que se contorcia no chão entre grunhidos e tentativas frustradas de se livrar do artefato cravado em suas costas, que se tratava de um fragmento de aço lemuriano pitônico, o qual Camus trazia sempre consigo, recôndito estrategicamente em um compartimento secreto em seu relógio de pulso, e cuja propriedade consistia em bloquear o fluxo do Cosmo dos cavaleiros.

Raríssimo e de dificílimo acesso, o fragmento chegara às mãos do aquariano como herança de seu Mestre e, desde então, o mantinha junto a si para o caso de uma necessidade extrema.

Camus era um homem inteligentíssimo e não chegara à vice-liderança da Vory v Zakone à toa. Sabia que tanto civis quanto cavaleiros compunham sua lista de inimigos e por isso andava sempre prevenido. Apesar de considerar usar aço lemuriano contra seus irmãos de armas uma atitude covarde e baixa, não viu outra alternativa naquelas circunstâncias, já que não poderia arriscar deixar Peixes usar seu cosmo, pois além de entregar aos demais cavaleiros que estavam ali, Afrodite era um guerreiro muito poderoso para ser enfrentado sozinho.

— Você me fez descer tão baixo, Afrodite de Peixes... — balbuciou Camus, mais como um lamento.

— Ficou louco de vez? Aaaaaaahhh... Você... Meu Cosmo! — o sueco questionou aturdido, e na mesma hora teve os cabelos agarrados pelo aquariano, que o levantou do chão na marra com um tranco forte.

— Oui, sale connard! (Sim, seu cretino!) Fiquei. — rosnou Camus trincando os dentes, antes de arremessar o cavaleiro de Peixes contra uma das paredes.

Afrodite bateu com as costas e caiu de joelhos ao chão, deixando escapar um urro abafado de dor. De suas narinas escorria um sangue espesso que escorria para dentro da boca já machucada, o fazendo sentir enjoo devido o gosto ferroso.

Ou seria o medo que revirava seu estômago?

Teria ido longe demais?

Porém, não teve tempo para reflexões, pois logo foi agarrado novamente pelos cabelos com tanta força que só conseguia imaginar que estava vivendo seus últimos minutos na Terra.

— Não Camus! PARAAA! Me soltaaaa! Você entendeu tudo errado! — gritava arfante, tentando ativar seu Cosmo a todo custo, mas sem nenhum sucesso, o que o deixava desesperado, pois no braço sabia que não era páreo para o francês, que era bem mais forte que si — Me solta, Aquário! O que você fez comigo? — perguntava se debatendo e tentando alcançar a lâmina cravada em suas costas levando os braços para trás.

— O que fiz? A pergunta correta é: O que eu vou fazer!... Até que ponto eu me rebaixei por sua causa. Você me transformou nisso, Afrodite. — Camus anunciou com a voz embargada pelo peso da mágoa que sentia, enquanto arrastava Afrodite para o meio do quarto — Tudo o que eu fizer com você, nem de longe será tão cruel e baixo perto do que você fez comigo.

— LOUCO! O que fiz com você? Comi seu rabo bem gostoso, te dei prazer e você adorou, Camus. Você adorou! Todas às vezes! Aaaaaaahhh... deusa! Isso é... Isso é aço lemuriano? Covarde! — se debatia, dando trabalho ao aquariano em arrastá-lo para onde o queria — Me soltaaa! Eu vou gritar e acabar com a sua farsa!

Tentou agarrar o pescoço do francês, mas quando pensou que conseguiria apenas arrancou alguns fios de seus cabelos, pois Camus girou o corpo do pisciano para frente lhe dando um mata leão, então, com a mão que ficou livre, tapou a boca de Afrodite, fazendo surgir por debaixo de sua palma uma fina camada de gelo que lhe serviu de mordaça.

— Vamos, grite! — as íris avelãs faiscavam de raiva, então retirou a mão do rosto do sueco e novamente puxou seus cabelos, chacoalhando sua cabeça — Grite Peixes! GRITE PARA MIM!... Sa putain de bordel de merde! (Seu puto de bordel de merda!).

Camus gritava visivelmente atormentado, depois soltou o ex-amante, deu dois passos para trás e agarrou as correntes que ele tinha presas aos grilhões em seus punhos.

Uma fina camada de gelo começou a se formar entre os elos, enquanto Aquário erguia um dos braços e fazia surgir do teto uma estalactite de gelo, sem ativar seu Cosmo em modo de batalha, para não chamar atenção dos demais cavaleiros ali no Templo de Baco.

Com muito labor, uma vez que Afrodite lutava com afinco para se libertar, Camus conseguiu puxar os braços do sueco para cima e fundir as correntes com o gelo que descia do teto, prendendo Peixes pelos braços, que não podia crer que estava passando por aquilo.

O gelo de Camus não chegava a queimar sua pele, mas era extremamente incômodo, frio e angustiante. Tremendo da cabeça aos pés, o pisciano ainda tinha esperanças em se libertar quando desferiu um chute potente contra o peito do francês, que apesar de forte não serviu para feri-lo gravemente, mas inflamou ainda mais sua ira e, assim como fez com os braços do sueco, Camus prendeu também seus pés, criando uma camada fina de gelo no chão que subia por suas pernas, o imobilizando agora por inteiro.

— Mmmmmmmmmmmmm. — grunhiu o Santo de Peixes, então arregalou os olhos incrédulos e olhou para Camus em completo terror.

Se pelo menos pudesse usar seu Cosmo, as Rosas Piranhas triturariam o gelo de Aquário. No entanto o fragmento de aço lemuriano cravado em si o impedia até de usar suas toxinas de forma eficiente, quanto muito suas técnicas de luta.

Aquário também não pretendia usar seu Cosmo. Precisava manter as aparências. Ninguém sabia de seu segredo, e ninguém saberia!

Camus estava tão devastado que ali, diante de Afrodite o olhava com lágrimas nos olhos sem saber o que queria fazer com ele ao certo. O puniria, era bem verdade, mas com as próprias mãos.

O faria sentir no corpo, toda a dor que o pisciano lhe infringira no coração e na alma.

— Acha que tenho medo das suas ameaças, Peixes? — começou o ruivo, que logo se calou para desferir outro tapa vigoroso no rosto do sueco.

Suas mãos tremiam de ódio, mas sua vontade não vacilava.

Aquário então se afastou uns poucos passos e se pôs novamente a fitar a figura à sua frente. Comprimiu os lábios engolindo a seco uma vontade avassaladora de gritar, chorar... Seu peito parecia esmagado por toneladas de concreto e queimava como fogo.

Era toda a carga da tristeza que sentia e que o sufocava.

Delineava cada detalhe do rosto e do corpo de Afrodite e sofria, sentindo-se miserável por amar tanto aquele homem. Peixes era o culpado de toda sua desgraça, pois o fizera sentir, e não havia nada no mundo que assustasse mais o cavaleiro de gelo do que sentir!

Era justamente essa negação a que Camus era fiel, como um devoto, que o tornara frio e fechado, pois sabia que no momento em que deixasse seus sentimentos reger suas escolhas, se tornaria vulnerável, à mercê de suas emoções.

Ali estava ele agora. Diante do culpado por lhe preencher o coração de amor e em seguida esmagá-lo sem piedade.

— Sabe qual é o seu problema, Peixes? — finalmente disse algo. O tom era baixo e pesaroso — Você é feio.

Ao ouvir aquilo, a respiração dificultosa do pisciano até lhe dera uma trégua. Não que encontrara certo alívio momentâneo, já que suas vias respiratórias estavam obstruídas pelo sangue que escorria de suas narinas, mas porque o que ouvira o deixou em choque a ponto de prender a respiração inconscientemente, só voltando a puxar o ar para dentro dos pulmões em um ritmo frenético quando Camus se aproximara de si novamente e lhe tocara o rosto, o contornando com os dedos longos, como quem analisa uma obra de arte de valor inestimável.

Aquário correu os olhos avelãs pela pele ferida, mas de textura aveludada como nenhuma outra, até que eles se encontraram com os olhos aquamarines do ex-amante.

— E non falo desse seu rostinho perfeito... Non, Peixes. — a voz era plena de melancolia e veio acompanhada de outro tapa, agora ainda mais forte, e que provocara um corte no supercilio do cavaleiro guardião da última casa zodiacal, banhando seu rosto em sangue — Non! Eu falo do seu interior! Você, Afrodite de Peixes, é uma pessoa feia, podre por dentro!

Ao ver o pisciano gemer em aflição, Camus já não conseguia mais sustentar com tanto afinco sua máscara de frieza e seus sentimentos eram expostos na forma da fala cada vez mais embargada.

De dentro de si emergia, colossal e avassalador, um desejo desenfreado de chorar e sem mais poder lutar contra ele, Camus deixava seus olhos marejarem, porém ainda lutava no gládio silencioso que eram seus olhos, as impedindo de descer pelo rosto contorcido.

— Você teve tudo, Afrodite! Tudo! Eu estava disposto a te dar tudo! Meu dinheiro, meu corpo, minha alma... Mas, non bastava. — bradava renitente, sem desviar os olhos do outro, que ao contrário não conseguia encará-lo e talvez, justamente por isso, Camus lhe dera outro tapa, segurando em seu queixo logo em seguida — Olha pra mim, Roi des cons!(Rei dos idiotas!)... Nada basta para você, e sabe por quê? Porque nem todos os homens do mundo, e nem todas as joias que existem no planeta são capazes de preencher o vazio que você carrega por dentro. Você é fútil, Afrodite, você é oco, é raso como um pires. Você é egoísta... E seus sentimentos são tão vazios quanto seu caráter.

As palavras de Camus continham uma agressividade muito maior que seus golpes, e também feriam mais. Afrodite as ouvia de cabeça baixa, remoendo sua dor e arrependimento. Se o francês intencionava mostrar o quanto o outro o magoara, estava tendo muito sucesso, pois Peixes sentia o peito doer de remorso.

Não contente, Camus agarrou novamente os cabelos do pisciano e o forçou a erguer a cabeça. Queria que ele percebesse o quanto fora desprezível, egoísta e o quanto sua inconsequência lhe custaria caro.

— Olha, maldito, olha! Olha para mim. Olha à sua volta! — gritava entre perdigotos, fazendo Peixes olhar em seus olhos vermelhos e marejados — Está vendo esses três aqui? Bem aqui! — apontou para os cadáveres jazidos no chão — Eram meus amigos... Está vendo aquele ali? — apontou para Ivan, forçando a cabeça de Afrodite na direção em que estava caído — Eu gostava dele. Eu cresci com ele, era meu... Era meu amigo... Meu braço direito, minha família! Achou mesmo que eu me sujeitaria a transar com ele usando uma merda de uma fantasia ridícula, ou... Ou mesmo o assistiria transar com você? O que te levou a pensar que eu sentiria prazer com isso?

Camus falava com a boca trincada de ódio, então soltou os cabelos do pisciano e deu alguns passos para trás, sendo observado pelo Santo da constelação de Peixes, que agora não conseguia mais conter o choro também, sucumbindo a um pranto silencioso e sofrido.

— Você nunca entendeu, non é?...Eu me entreguei a você, me abri, e por isso você se esqueceu quem eu sou... Do que sou capaz. Mas eu vou lembra-lo. — levou as mãos atrás da nuca e retirou o colar de rubis de seu pescoço. Esticou o braço à frente e deixou a joia bem próxima ao rosto de Peixes — Pensou o que, idiota? Pensou que eu era mesmo a sua princesinha? Que eu não passava de um pervertido, um joguete em suas mãos, um escravo de suas vontades?

As gemas do colar lentamente foram perdendo o brilho vermelho intenso para ganharem nuances acinzentadas, até que, bem diante dos olhos incrédulos do pisciano, uma a uma foram se trincando até se esfarelarem tornando-se poeira de gelo.

Afrodite ainda sofria o impacto de ver uma joia tão linda sendo destruída quando submergira de seu transe ao ver Aquário levar as mãos ao cós da calça e retirar o cinto de couro que usava. Nessa hora, o pisciano fora atirado num abismo de pânico e apreensão, dificultando ainda mais sua respiração, que agora era chiada e ruidosa.

— Eu non sou como você... E vou lhe ensinar uma lição que nunca mais irá se esquecer.

Foi em completo desespero que Afrodite acompanhou Camus com o olhar, o vendo se posicionar atrás de si, e já premeditando o que iria acontecer começou a gritar tresloucadamente, tomado em um terror particular que era revivido por um trauma do passado, e pelo qual jamais imaginara passar novamente. Não podia crer que justamente Camus o faria reviver o episódio mais violento de sua vida, porém a resposta afirmativa viera em forma de uma cintada forte, dura e precisa bem no meio de suas costas.

— Mmmmmmmmmmmmm. — retraiu o corpo para frente ao sentir o impacto, cerrando os olhos com força.

Logo vieram a segunda e a terceira cintada, quase sem intervalo.

Aquário suava, tremia, chorava e tomava cada vez mais impulso para lançar a cinta contra as costas de Afrodite com ainda mais força, pois todo o amor que momentos atrás cultivava por ele, agora se transfigurara em ódio e mágoa.

O couro abria feridas na pele delicada do pisciano que tudo que podia fazer para tentar suportar a dor hedionda era apertar as pálpebras com força e emitir grunhidos sufocados pela mordaça de gelo.

Tremia muito, e chorava copiosamente, implorando à Atena que lhe livra-se logo daquele novo martírio, ou que lhe ajudasse a suportar a dor e o desespero a cada vez que ouvia o som da cinta cortando o ar para se chocar violentamente contra seu corpo... Cinco, dez, vinte... Trinta vezes.

Camus a essa altura também não conseguia mais conter o pranto. Surrar o homem pelo qual estava perdidamente apaixonado, ainda mais pelo motivo que o guiava a tal, era como surrar a si mesmo. A cada novo golpe certeiro sentia-se ainda mais miserável por macular aquela pele que tanto adorava tocar com carinho.

O choro convulsivo de Afrodite foi o que despertou o aquariano e o puxou de volta para a superfície daquele pântano lodoso no qual se afundara, então Camus parou e olhou para as costas ensanguentadas do pisciano, onde profundas feridas vertiam um sangue espesso que escorria por suas pernas. Aquário soltou o cinto, o deixando cair no chão ali mesmo. Seu peito doía, seu rosto estava banhado em lágrimas e ele estava tão cansado que parecia ter enfrentado um exército de espectros.

Destruído por dentro, o ruivo deu a volta em torno do corpo do ex-amante e parou à sua frente, o observando quase inconsciente. Teria se excedido? Talvez. Por isso trancava seus sentimentos no mais profundo de seu âmago. Era um perigo quando colocava suas paixões para fora.

— Me diz quem... Quem você pensa que é, Peixes? Além de um reles prostituto? — tentava denegri-lo, mas o choro copioso o denunciava, e também não passava despercebido por Afrodite, que mesmo em um calvário de dor e pânico ainda encontrou forças para levantar a cabeça e olhar para Camus, surpreendendo-se ao vê-lo chorar daquela maneira.

Ali Afrodite percebera finalmente que talvez a dor que infligira a Camus ao zombar de seus sentimentos, pudesse ter sido muito maior do que a que o próprio aquariano lhe infligia.

— Acha que tudo o que fiz por você e com você foi apenas por medo de ter meu segredo revelado? Pode ter certeza que non foi, cavaleiro de Peixes... Mas, vazio e podre como é por dentro, você jamais entenderia meus motivos. — deu outro tapa no rosto do pisciano e voltou a segura-lo no queixo — Eu vou tirar o gelo da sua boca. Mas, se gritar você morre antes de Saga chegar aqui.

Novamente as palavras de Camus machucavam Afrodite mais que as agressões. Tinha algum sentimento por ele, isso era fato. Não sabia definir qual era, mas gostava de estar com ele, de dominá-lo, de beija-lo... Ficava o dia todo na expectativa de sua vinda. Claro que gostava dos presentes que lhe trazia, mas era agradável estar com Camus também.

Mas agora estava com raiva, e por isso, quando o francês desfez o gelo que lhe servia de mordaça, a primeira coisa que Afrodite fez foi lançar uma cusparada sanguinolenta no rosto do aquariano, que desviou por pouco.

— Foda-se Camus! — a fala era plena de fúria — E foda-se se esse russo aí era seu amigo! Uma bicha encubada* igual você, Aquário! Três a menos no mundo! Vocês vivem de aparência... Fodaaa-seeee! — agora gritava enlouquecido. As íris de seus olhos cintilando em cólera, enquanto o corpo se contraia para buscar forças para ao menos poder gritar.

Camus tapou mais uma vez sua boca com a mão e refez a mordaça de gelo. Em completo silêncio e introspecção, caminhou cabisbaixo até a penteadeira do sueco.

Non tem problema. Se non sabe se manter calado eu faço isso para você, Peixes. — disse, enquanto apanhava o porta joias de Afrodite e devagar retirava de dentro dele todas as joias que lhe dera.

Ao fazer isso um filme passava diante de seus olhos, onde ele se via comprando cada uma daquelas joias com imenso amor e dedicação. Sentimentos dos quais Afrodite não merecia receber de si e, por isso mesmo, foi que se virou de frente para ele novamente lhe mostrando as peças, para em seguida, uma a uma, destruir as reduzindo à poeira de gelo.

Aos olhos de Peixes, aquele gesto tinha um significado muito maior do que apenas uma afronta ou capricho de Aquário. Afrodite via Camus destruir qualquer coisa que o ligasse a ele, impiedosamente e com firmeza invejável. Ao olhar para os cristais de gelo escorrendo por entre os dedos do aquariano, Peixes fora tomado por uma tristeza profunda. Tinha jogado fora talvez o único coração que batera por si com sinceridade. Mas nada justificava tanta violência. Sentia tanta dor que achava que estava à beira da morte.

— Lembra-se, Peixes? Eu acreditava que non chegavam nem perto da sua beleza... Como eu estava enganado.

Quando tudo se resumiu a pó e farelos preciosos, Aquário se aproximou do sueco e num só movimento lhe arrancou os brincos de Aquamarine das orelhas, as rasgando sem pestanejar. Afrodite crispou os olhos e se contorceu, mas logo Camus tornou a lhe agarrar os cabelos o forçando a olhar para si.

— Esses eram os mais especiais... — a tristeza era tão profunda que se refletia em seu olhar, quando ele apertou os brincos em sua mão livre e os destruiu — Eu disse que eram da cor dos seus olhos. Estava enganado. Nada em você é belo, Afrodite.

Camus engasgou-se com o choro que não conseguia mais represar, então baixou a cabeça tentando coibir as lágrimas que agora desciam abundantes pelo rosto quente e sofrido. Não suportava afrontar o olhar de pânico e sofrimento de Afrodite e fraquejou miseravelmente perante ele, entregando-se a um choro copioso onde todo seu corpo balançava.

Estava envergonhado, tanto por sentir-se frágil, quanto por permitir que o sueco o testemunhasse. Deveria tê-lo matado e então seu problema estaria sanado de uma vez por todas, mas fora incapaz.

Essa nefasta constatação fez Camus entrar em desespero e entre soluços e engasgos foi que ele, de uma maneira bruta, agarrou o pescoço de Peixes com ambas as mãos, como se fosse esganá-lo mesmo, e com o rosto quase colado ao dele disse:

— Eu estou com nojo de você... Nojo!

— Mmmmmmmmmm. — o gemido tencionava ser um grito devido ao susto e medo de mais aquela agressão, mas que não passara de mero grunhido, pois se já estava difícil para Afrodite respirar com o fluxo de sangue que ainda lhe escorria pelo nariz, agora, com a garganta sendo apertada mal podia puxar o ar para dentro dos pulmões.

— Uma cadela vagabunda e sarnenta no cio... É isso que você é. — balbuciou, cego de raiva, com os rostos tão perto um do outro que seus narizes se tocavam e as lágrimas se misturavam — Tudo que você toca fica feio... sujo... Como você... Eu... eu confiei em você... Eu acreditei em você... Eu... Eu me entregue a você, Afrodite de Peixes. Entreguei tudo o que eu possuía de mais puro... e verdadeiro... em uma bandeja de ouro e depositei aos seus pés.

Então Camus o soltou, para alívio de ambos, por que não dizer? Deu dois passos para trás, enxugou o rosto com as palmas das mãos e lentamente desfez o gelo que mantinha o pisciano preso e imobilizado e também a mordaça.

Assim como previa, Afrodite não teve forças para se manter de pé, por isso mesmo que permaneceu ali, e antes que o pisciano caísse a seus pés, Camus o segurou com desolador cuidado e delicadeza ímpar, amparando seu corpo ferido, débil e trêmulo.

Os olhos se cruzaram mais uma vez nessa hora e enquanto Aquário curvava o corpo para pegar Peixes no colo, o sueco sentiu seu coração esmagado pelo peso da tristeza que vira nos olhos de Camus. Fora lançado num oceano profundo de culpa e remorso, porém era difícil admitir isso a si mesmo. Era orgulhoso e egocêntrico e não costumava a se importar com as pessoas.

— Aaaaaaaaaaaaaahhhhhhh... Não! Não! Não toque em mim. Chega, por favor! — soltou um grito alto de dor, finalmente podendo puxar o ar para dentro do peito, quando o francês o ergueu do chão, passando um dos braços por debaixo de suas pernas.

— Shiuu... Ta gueule (Cala a boca)... Vou te colocar na cama. — tentava tocar o menos possível nas costas feridas, pois haviam cortes profundos que se repuxavam ao mínimo manuseio, mas ainda assim Peixes gemia e chorava muito.

O deitou na cama com extremo cuidado, de lado, para que suas costas tivessem o mínimo de contato com os lençóis, então se afastou, limpando o sangue do outro, que manchara seus braços e peito, com a barra da luxuosa colcha que cobria os pés da cama.

— Vá embora... Camus. — sussurrou o sueco num fio de voz —... Por favor. Volte para o seu mundinho plastificado... Finja que é feliz não sendo você mesmo... Finja que é homem... Só me deixe em paz.

— Eu vou, Afrodite. Pode ter certeza que eu vou. — a voz ainda era trêmula e falha — Non voltaremos nunca mais a nos encontrar... A partir de hoje, você está morto pra mim cavaleiro da casa de Peixes.

Aquela frase estranhamente fez com que Afrodite sentisse medo. Uma forte pressão comprimira seu peito e junto com ela um pranto copioso novamente se iniciava.

— Preciso consertar de alguma forma essa merda que você fez. — enxugou o rosto um pedaço limpo de lençol — Esses três ocupavam cargos de extrema confiança dentro da Vory. Terei problemas graves em Moscou pra explicar a morte deles. O Templo das Bacantes será prejudicado, pois vai me dar trabalho conseguir clientes novamente depois desse... Incidente.

— Pelo jeito não eram... tão confiáveis assim... — murmurou Peixes baixinho, mas o suficiente para Aquário ouvir — Tira isso das minhas costas, Camus... Por favor. — suplicou, pois o aço lemuriano provocava uma dor lancinante, beirando ao insuportável.

— Escuta bem o que vou te dizer, Peixes. — sentou-se ao lado dele na cama e afastou umas mechas do cabelo do sueco que estavam grudadas no sangue em seu rosto, queria que ele o olhasse nos olhos — Vou inventar uma desculpa qualquer para Saga e você non se atreva a revelar a verdade, porque nem que Saga me mate eu mato você antes, entendeu? Non seja burro. Você sabe muito bem que você e o Lagarto têm ordens para ficar longe dos russos, então Saga non ficará nada contente em saber dos Ivanovenkos.

— S-seu... Seu cretino truqueiro*! — vociferou Afrodite, então esticou o braço e cego de raiva agarrou os cabelos de Camus — Tá ainda... com essa gaita* de que russo... não gosta de viado? Argh! As provas estão aí, ó, no chão, tá boa? A culpa é minha? Não! A culpa... é sua, Camus de Aquário, o picolé esquentadinho! Precisava quebrartoda essa louça*? O que custava... participar... do bang? Aaaiiii... pela deusa! Tira isso de miiiiim!... Eu acabo com você, covarde! A máfia inteira vai querer comer seu rabo, seu encubado*.

— Lar... Larga meu cabelo... larga! — gritou Camus se livrando facilmente do agarrão, então empurrou Afrodite contra a cama, segurando seus pulsos acima da cabeça, o que o fez soltar um urro de dor por ter as costas machucadas prensadas contra o lençol.

— Aaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhh Nããããoooooooo... Paraaaaa! Me larga! Tá doendo! Por amor de Atena, chegaaaa!

Do lado de fora, Misty, que havia visto tudo pela frestinha mínima da porta que Ivan não havia se lembrado de trancar, ao ver Camus sobre Afrodite na cama e o sueco gritando em completo desespero, imaginou que o francês, perturbado como estava, iria violentar o pisciano.

Pensou algumas vezes que seria bem feito, que Afrodite merecia passar por aquilo e sentiu até uma pontada de satisfação. Contudo, enquanto ouvia seus gritos, que eram facilmente abafados pela música estridente que tocava no salão, algo dentro de Lagarto falara mais alto que sua antipatia e inimizade pelo cavaleiro de Peixes e, resmungando toda a sorte de palavrões contra si mesmo e o que decidira fazer, Misty desceu as escadas correndo e procurou Saga pelo salão, o encontrando em uma mesa próximo ao palco.

Chegou perto de Gêmeos e cochichou algo em seu ouvido, fazendo Saga arregalar os olhos e contorcer o rosto imediatamente.

— O que porra do caralho do Submundo inteiro do corno do Hades está acontecendo nesse pedaço do Cocito? — disse aos berros, agarrando no braço de Misty — Afrodite está com quem?

— Com os russos do Camus, chefe. Escutei os gritos e os tiros e...

— Tiros? Mas que porra... — arrastou a cadeira para trás com tanta força que quase a lançou a metros de distância.

— É melhor o senhor ir logo ao quarto dele.

Continua...

Índice

* Traduzido do russo.

** Traduzido do inglês.

Dicionário Afroditesco

*EQ – engano, problema, bagunça, coisa falsa – Equezeiro – Aquele que comete EQ.

*Odara – lindo, grande, magnifico, fabuloso, elevado.

* Vuduzar - torcer para que algo não dê certo. Atrapalhar planos.

*Truque – enganação, enrolação, coisa falsa – Truqueiro – aquele que dá truque.

*Gaita – conversa fiada.

*Quebrar a louça – fazer um escândalo, uma bagunça.

*Encubado – homossexual enrustido, que não se assume.