No quarto de Afrodite de Peixes, transtornado Camus segurava nos punhos do pisciano o pressionando contra o colchão da cama na tentativa de fazê-lo parar de se debater e gritar, para que ouvisse o que ainda tinha a lhe dizer. Mas Afrodite não parecia nem um pouco a fim de ouvir as palavras do francês.

Imerso em dor e agonia, sentia a lâmina lemuriana se enterrando ainda mais em suas costas e experimentava uma aflição sem precedentes.

— Aaaaaaaaaaaahhhh... Atenaaa!... — berrava em meio a um pranto de desespero e raiva — Maldito seja você, Camus... E maldita seja a máfia que você comanda... Argh... Aqueles... Aaaaahh... Aqueles suínos encubados*! Todos... eles são como você.

— Oui, são! São sim! Mas non fui eu quem tornou a Vory homofóbica, nem influenciei um país tão grande quanto a Rússia... Afinal, eu sou uma maldita bicha também, non é verdade?

— Por favooor! Está doendo, me solta!

— Sabe o que ia acontecer se eu tivesse aceitado essa sua proposta infeliz? Ivan iria matar os próprios irmãos para manter seu segredo, depois eu iria ter que matá-lo, e tudo por quê? Porque você os seduziu e os convenceu a vir aqui só porque queria fazer um de seus joguinhos estúpidos!

— Mentiraaaa!

— Você destruiu três vidas por um capricho... Non! Quatro vidas! A minha você destruiu também, Peixes... Tudo porque queria trepar.

— Mentira! — Afrodite gritou esperneando — Eu não seduzi ninguém. Só fiz o convite e eles aceitaram na hora, seu idiota! Você que não assume o que é e nem eles o que são!

Non! Non assumo! Non posso e nem vou assumir. Minha vida é uma merde e já me conformei com isso desde minha infância. Mas você conseguiu desgraça-la ainda mais, Peixes. Foi você quem começou com tudo isso. Me provocou, me seduziu... Você me vestiu de mulher aquela noite e me exigiu participar das suas fantasias, cada uma mais baixa do que a outra, para suprir seu ego.

— E você adorou, Camus! VOCÊ ADOROU!... Porque você é sujo, cavaleiro de Aquário... Quis tanto quanto eu. — grunhia entre dentes, encarando os olhos de Camus em desafio — Só que você é covarde! Eu não... AAARGH... Tira essa merda das minhas costaaaas, por Atena! — gritou novamente, cerrando os olhos e voltando a chorar devido a dor.

Non sou covarde. Non tanto quanto você, que me atraiu pra cá essa noite em uma armadilha baixa e vil.

— Armadilha? Desde quando um convite para uma suruba é armadilha? Alôca!

— É inútil... Você nunca vai entender.

Camus fechou os olhos e imerso num mar de tristeza e revolta, soltou os punhos de Afrodite e lentamente desceu da cama.

Assim que se viu livre, o pisciano imediatamente virou-se de bruços sobre o colchão, procurando um alívio ínfimo para a dor que o assolava devido às feridas horrendas nas costas.

Chorando muito, Peixes afundou o rosto nos lençóis agarrando os mesmos com ambas as mãos, enquanto ouvia Camus, que lentamente se afastava da cama, evitando olhar para ele.

— Você me humilhou o quanto quis, e de todas as formas possíveis. — enxugou rapidamente uma lágrima salgada que escapou de um de seus olhos, o pegando de surpresa — Eu... Eu fiz tudo para te agradar... Fiz tudo para te ver feliz... Por que te ver feliz fazia meu dia valer a pena.

Ao ouvir o tom de voz sorumbático de Aquário, Afrodite ergueu a cabeça e olhou para ele. Podia sentir todo o pesar do aquariano, tanto na voz, quando na expressão taciturna.

— Eu non exigi nada de você além do seu sigilo... Sem mim essa espelunca aqui cai por terra, sabia? — uma nova lágrima nem chegou a nascer e já fora contida pelos dedos ágeis do ruivo — Minha única razão de vir aqui, de manter isso de pé, era você, Afrodite. Sei que está com raiva e que quer me entregar aos russos, ao Saga... Pois bem, faça isso! Faça isso e em menos de um dia toda a Rússia estará aqui em Atenas para acabar non só com meu rabo, mas com o seu e daquele Santuário decadente inteiro!... Você non tem ideia de quem eu sou e do que posso fazer contra Saga e essa merde de bordel.

— Dramática!... — disse Peixes num gemido — Se não queria brincar era só dizer que não! O que te custava participar?

Camus estreitou os olhos para o sueco.

— O que me custava participar? Minha dignidade, Peixes, meu amor próprio, ou o que sobrou dele... Ah, mas você non deve saber o que é isso, já que se comporta como um depósito de esperma apenas... Você nunca amou ninguém... Nunca irá amar ninguém... Por isso non deve estar entendendo nada do que estou dizendo... É inútil falar de sentimentos com alguém tão vazio e fútil quanto você.

Camus apanhou o cinto no chão e mesmo machado de sangue o vestiu, fazendo o mesmo com a camisa e o casaco que rapidamente fora buscar dentro do closet – o casaco era seu cumplice e esconderia as manchas do cinto – e enquanto apanhava a arma, a qual havia jogado sobre a poltrona, olhava para Afrodite na cama, que agora tentava se virar de lado.

As palavras de Camus tocaram o pisciano mais uma vez. Sentiu uma angustia lhe apertar o peito, mas não sabia definir bem o que ela significava. Não sabia amar? De uma forma torta gostava de Camus, mas não sabia lidar com isso.

— Vá embora, Camus... Antes que...

Iria dizer antes que Saga aparecesse ali, mas o próprio nessa hora chegava ao quarto, dando um solavanco na porta.

Misty de Lagarto vinha logo atrás.

— Mas que... Que porra dos poços profundos do Cocito você está fazendo aqui, Camus de Aquário? — perguntou o geminiano ao ver o ruivo de pé no meio do aposento.

Em seguida, Gêmeos olhou para os três corpos estirados no chão e depois para um pisciano se contorcendo sobre a cama, banhado em sangue, em meio a correntes.

A cena era tão surreal que Saga entrou em um lapso perturbador, o qual culminou em uma pontada aguda de dor em sua cabeça, o forçando a fechar os olhos e apertar as pálpebras. Quando os abriu novamente, sua respiração estava arfante, o peito agitado e algumas mechas de seus cabelos haviam ganhado tons negros.

— Salvei a vida do seu puto de luxo. Por isso estou aqui. Estava com a Mônica no quarto ao lado. — disse Camus, travando a arma e puxando o cós de sua calça para guardá-la na cintura — Peixes descumpriu as regras e se engraçou com meus homens.

— Como é que é? Eu ouvi direito? — disse Saga, indo até a cama para ver o pisciano de perto, pois não acreditava no que seus olhos viam — Esse... Esse não é Ivan Ivanovenko?

— Oui. Ele e os irmãos subiram após um convite desse inconsequente, para lhe recordar como a Vory v Zakone funciona. — dizia, numa atuação digna de Oscar, já que era tão habilidoso na arte de mentir quanto era no manejo com armas de fogo.

— Por todas as almas condenadas do Submundo! — rosnou Saga, com seu rosto contorcido em espanto e inconformismo.

— Esse viado burro acreditou que um russo fosse de fato trepar com ele... Eles subiram porque iam surrá-lo, estuprá-lo e depois matá-lo. Bem... cheguei a tempo de impedir o pior. — lançou um olhar frio e ameaçador a Afrodite, que estava perplexo com o cinismo do aquariano, porém, mesmo estando num estado lamentável, conseguia ainda ter raciocínio suficiente para entender que não deveria mais confrontar Camus.

— Isso é verdade, Peixes? — bufou Saga, encarado o pisciano nos olhos, que não respondeu de imediato, tamanho seu estado de choque. Agora começava a entender que mexera num vespeiro!

— Eu o avisei, Saga. — continuou Camus, sem quebrar o contato visual com o sueco — Proíba os garotos de se aproximarem dos clientes russos que trago ao seu bordel.

— Mas eu proibi. — disse Gêmeos tentando controlar a gana que sentia em surrar mais um pouquinho aquele pisciano leviano.

Não era a primeira vez que um ato estabanado de Afrodite lhe causava consequência severas. Dessa vez não permitiria. Iria coloca-lo na linha, mas não sem antes ouvir uma confissão do próprio pisciano, já que não confiava em Camus, principalmente depois do que ocorreu entre ele e Geisty, quando a agrediu no dia na inauguração do Templo.

— Mas non deve ter sido claro o suficiente. — prosseguiu Camus — Deveria ter mantido a cadela no cio de vocês na coleira. Vou dar um jeito de encobrir o verdadeiro motivo pelo qual matei esses três infelizes, mas Ivan ocupava um cargo de importância, como você bem sabe. A Vory v Zakone vai boicotar o seu bordel se non o considerar um lugar adequado para nossos clientes. Creio que o seu movimento vá cair bastante.

De costas para Camus, Saga ouvia a tudo sem tirar os olhos de Afrodite, até que, num rompante de raiva o agarrou pelo braço e o levantou da cama, o forçando a se manter de pé, ainda que cambaleante.

— Você confirma as palavras de Camus, Afrodite? — perguntou com firmeza, mas não obteve resposta, então ergueu o tom de voz num brado feroz — RESPONDA! — deu um chacoalhão em Peixes que o fez soltar um grito de terror apenas — Eu te fiz uma pergunta! O que aconteceu aqui, Afrodite? Aquário havia avisado sobre os russos. Você cometeu mesmo essa burrice de tentar algo com eles? E como ficou nesse estado? Você é um Cavaleiro de Ouro poderoso.

Afrodite estava em choque. Contudo, não podia dizer a verdade em hipótese alguma, e só lhe restava confirmar a versão do aquariano e tornar Camus um herói.

Não queria de forma alguma manchar sua imagem perante Saga, a quem tinha verdadeira adoração, mas evitar uma carnificina só dependia de si. Suas pernas fraquejaram quando o geminiano finalmente parou de chacoalhá-lo e o soltou, e Peixes novamente caiu de joelhos ao chão, de cabeça baixa e derrotado.

Camus involuntariamente deu um passo à frente assim que viu a cena. Por mais raiva que sentisse do sueco, ver Saga o tratando com tanta rudeza mexeu consigo. Sentiu uma vontade enorme de ampará-lo, mas a mágoa, o rancor e principalmente a presença de Saga o impediram.

— Aquário já disse o que aconteceu, Saga. — disse o pisciano num fio de voz — Ele... Digo, eles... Os Ivans... Tinham um pedaço de aço lemuriano... Me atacaram com ele... Sem meu Cosmo não pude me defender dos três e... Eles estavam armados...

— Aço lemuriano? — disse Saga exaltado — Mas isso é um material extremamente raro e... E de difícil acesso!

— Sim... — disse Afrodite voltando a chorar — Por tudo que é mais sagrado, Saga, tira isso de mim! Não suporto mais a dor de ter meu Cosmo esmagado. — levou um dos braços às costas novamente, para indicar a Gêmeos onde a lâmina estava.

Saga verificou a ferida, vendo o artefato cravado fundo na carne do pisciano. Ficou possesso, pois somente Mu poderia ter acesso aquele material, e se a Vory v Zakone o possuía isso era um grave sinal de que tinham uma arma poderosa contra os cavaleiros.

— Eu não estou acreditando nisso! — disse Gêmeos e em outro rompante de raiva ergueu o braço e deu um tapa fortíssimo no rosto de Afrodite, o fazendo tombar para o lado e espalmar as mãos no chão — IMBECIL! — gritou a plenos pulmões, assustando Camus e Misty, que assistiam a tudo — Quantas vezes eu te falei para ficar longe dos russos, Afrodite? Por que você sempre só faz o que quer? Por que nunca pensa antes de agir?

Gêmeos agarrou na corrente que estava presa à coleira do sueco e com um puxão forte para cima o obrigou a se levantar.

— Nãooooooo... Argh!... Não me bate mais, por favor... — pediu chorando, com o corpo encurvado — Tira isso de mim, Saga! Tiraaaaaa!

— Cala a boca! — Gêmeos o fez erguer a cabeça e olhar para si, pois o que diria teria que ficar bem claro dentro da mente o pisciano.

— Escuta o que vou te dizer, Peixes. Seus privilégios terminam aqui. Você está entendendo?

— Não! — Afrodite arregalou os olhos em espanto — Nããoooooooo! Você não pode fazer isso.

— Posso sim.

— Temos um acordo!

— Não temos mais.

— Eu só aceitei para ajudar você a levantar o Santuário. Eu não sou um...

— Já te mandei calar a boca! — gritou Gêmeos, novamente chacoalhando o outro enquanto falava — Eu mando nessa merda e não quero mais ouvir sua voz, idiota. A partir de hoje, Peixes, não vai mais escolher os seus clientes.

— Nãooooooooooo!

— A partir de hoje você não é mais meu sócio, e você não tem mais regalia nenhuma.

— Nãooooo, Saga! Não faz isso eu te imploro! — chorava copiosamente.

— De hoje em diante você é um puto como qualquer outro bacante aqui dentro. Vai se deitar com quem eu mandar, e também com todo homem que quiser você. E isso é uma ordem do Grande Mestre, cavaleiro de Peixes. Sabe muito bem que não acatá-la é exoneração e morte.

— Não Saga, por favor! — suplicava o pisciano, agarrando na gola do blazer de Gêmeos — Não pode fazer isso comigo. Não pode me obrigar a... Eu sou um cavaleiro de ouro!

— Agisse como um. — rosnou o geminiano e então agarrou nos punhos do sueco e o afastou de si, para empurra-lo contra a cama, o fazendo cair de bruços sobre o colchão.

Afrodite nem se moveu. Do jeito que caiu ficou, inerte. Estava tão chocado com o que acabara de ouvir que ficou ali mesmo, com a cara enfiada nos lençóis.

— Só o Mu pode remover o aço das suas costas. Eu vou chamá-lo e lhe pedir para que cuide de você, seu inconsequente. E todo o prejuízo que você vai me dar com esse episódio, além do problema que arrumou ao Camus, vai ser descontado do seu soldo, e você vai ter que trepar muito, mas muito, se quiser ter dinheiro para comer até quitar sua dívida comigo, Afrodite. — disse Gêmeos, voltando-se para Camus e o encarando com a face contraída — E você, Aquário. Posso saber como veio parar aqui? Como soube que seus homens estavam nesse quarto e como chegou aqui tão depressa?

Camus estava devastado.

Em estado de catatonia, olhava para Afrodite sobre a cama num pranto convulso e em completa agonia, suplicando baixinho a Saga para que removesse o artefato em suas costas. Artefato esse que ele mesmo cravara em suas costas.

Além de testemunhar o sofrimento do sueco, ver o geminiano batendo em seu rosto já tão machucado e lhe tirar os privilégios, fez Aquário sentir seu peito ainda mais apertado.

Quase entrou em pânico ao ouvir Saga dizer que obrigaria Afrodite a se deitar com todos os clientes que o desejassem, além dos que o geminiano escolhesse, e em se tratando de Afrodite era praticamente impossível alguém não desejá-lo. Sentiu uma apunhalada no peito que o fez ficar sem ar ao constatar esse fato.

Até mesmo ele sucumbiu a seus encantos!

Sentiu um nó na garganta, mas manteve-se firme, porém não encontrou uma resposta para dar a Gêmeos.

Quando por uma fração de segundos o francês fraquejou e pensou em revelar toda a verdade, entregando sua sexualidade e livrando Afrodite da prostituição de fato, Misty de Lagarto selou o destino de ambos.

— Eu o chamei. — disse o francesinho de longos cabelos loiros, chamando a atenção de Camus que só agora percebia sua presença ali — Eu chamei o Aquário, porque eu estava passando aqui em frente do quarto da escamosa e a escutei estrebuchando quinem uma porca no cio. Daí eu abri uma frestinha e espiei. Reconheci os três russos que chegaram com o Aquário hoje. Eles estavam batendo na bicha peixosa e como a mona não reagia eu achei estranho e chamei o Camus, porque sabia que ele estava no quarto da Mônica. Sempre o vejo subir com ela.

— E por que não me chamou? — perguntou Saga desconfiado.

— Porque os russos são dele, oras. — disse Misty — Depois que o Camus correu para cá eu desci e chamei o senhor.

Camus olhou para Misty surpreso.

Não tinha a mínima ideia do por que o Lagarto o estava acobertando, mas sentiu-se aliviado. Não precisava de cúmplices, porém sua mentira fora tão boa que admitiu que nem ele mesmo pensaria em algo tão elaborado e convincente.

Olhou para Misty e trocaram olhares por poucos segundos. Segundos esses que serviram para selar seu pacto de silêncio. Seria melhor mesmo não destruir sua vida por causa do inconsequente do Peixes, não se abalaria mais por ele, mesmo que lhe custasse caro.

— Lagarto está certo, Saga. — disse Camus, tentando não embargar a voz enquanto falava — Na Vory non há lugar para bichas e traidores. Isso servirá de exemplo para os outros que pensarem em fazer o mesmo. Lá é assim que resolvemos nossos problemas. Eu vou ligar para o Açougueiro e ele vai se livrar dos corpos.

— Faça isso Aquário. — disse o geminiano soltando um suspiro cansado — Não quero ter que limpar o seu lixo. E... De certa forma, obrigado por ter vindo salvar o rabo desse meu funcionário, porque ele vai ter que usa-lo muito daqui para frente.

Camus engoliu seco e apenas com um aceno de cabeça, deu as costas a Saga e deixou o quarto, lançando um olhar firme a Misty ao passar pela porta. Ficou curioso em saber por que o Lagarto livrara sua barra, o que afinal ele sabia sobre si e Afrodite. Será que sabia de seu segredo?

Teria que interrogá-lo o mais rápido possível, mas não agora. Tudo que Camus queria fazer naquele momento era sair dali, pois sua garganta o estava sufocando. Queria chorar, gritar, maldizer o mundo e sua infeliz sorte, mas tinha seu dever a cumprir. Por sorte, a maioria dos russos que vieram consigo já estavam caindo de bêbados e enfiados em quartos com as bacantes e assim que encerrou a ligação com o Açougueiro da Vory, lhe encarregando de dar cabo aos corpos dos irmãos Ivanovenkos na Grécia, Camus usou a velocidade da luz e retornou à Rússia, à sua mansão em Moscou. Estava destruído, mas ainda teria que consertar o teto de vidro dos Ivanovenkos junto à máfia antes de recolher seus próprios cacos.

No quarto de Afrodite, Mu acabava de chegar todo preocupado. Saga o havia chamado pelo cosmo e ele viera como estava, de calça de pijamas e camiseta, mas quando entrou e viu Peixes sobre a cama de bruços, chorando e gemendo de dor, seu coração falhou uma batida. Nunca imaginara ver tal cena em sua vida.

— Pela deusa! — disse passeando os olhões verdes entre Saga, e sua cara nada amistosa, e Afrodite na cama — O que... O que aconteceu com o Dido?

— Sem perguntas, cavaleiro de Áries. — disse Saga se aproximando dele — Afrodite foi atacado por homens da Vory v Zakone, que inclusive têm acesso ao aço lemuriano. Tem algo a me dizer sobre isso, Áries?

Mu olhou para Saga um tanto quanto incomodado. Entendeu o teor da pergunta, mas sabia que Gêmeos no fundo não tinha motivo algum para desconfiar de si e simplesmente respondeu em tom firme o encarando nos olhos.

— Sabe que não. Assim como sabe que não sou o único lemuriano desse planeta. Shion e eu coletamos e destruímos toda amostra que encontramos mundo a fora, justamente por ele ser uma arma poderosa contra nós, cavaleiros. Mesmo assim, creio que ainda possam existir muitas amostras por ai. Até mesmo escondidas aqui no Santuário. Acho que é hora de começar a prestar mais atenção em quem anda tendo acesso às Doze Casas além de nós.

Saga ficou alguns segundos o encarando com olhos firmes. Sabia que Áries era um cavaleiro invejado por sua honra e honestidade e não tinha porque estar mentindo. Acreditou em suas palavras.

— Afrodite precisa de sua ajuda. Cuide dele e não lhe faça perguntas. — disse o geminiano, em seguida deu as costas a Mu, deixou o quarto e fechou a porta.

Ao ver Misty ali no corredor o mandou se retirar e guardar sigilo absoluto sobre o que havia acontecido, e quando o Lagarto seguiu para seu quarto o acompanhou com os olhos por um dado momento, até ver a porta do quarto de Geisty se abrir e a figura bonachona do Prefeito Praxédes adentrar o corredor.

Saga sentiu uma leve vertigem quando o político gorducho passou por si, lhe lançando um olhar patife e um sorrisinho indecoroso.

— Que potranca fogosa! Adorei ela! — murmurou em baixo tom e com uma casquinada sonora seguiu seu caminho até a escadaria que levava ao salão.

Gêmeos puxou o ar com força para dentro dos pulmões ao mesmo tempo em que apertava as mãos, então decidiu ir até o quarto de Geisty. Estava monitorando o Cosmo da amazona desde que subira com Praxédes. Como esperava, Serpente havia usado suas ilusões para engambelar o Prefeito, mas estranhamente seu Cosmo permanecia agitado e confuso, mesmo depois de findado o programa.

Ao chegar lá, deu dois toques à porta e a chamou. Aguardou um tempo e vendo que ela não respondia resolveu entrar. Encontrou a amazona sentada em uma das poltronas de veludo carmim. Tinha o belo rosto congelado em uma expressão de assombro. Uma das mãos estava pousada sobre a boca, enquanto a outro segurava pelo gargalo uma garrafa aberta de vinho tinto italiano.

— Geisty? — Saga chamou diligente, aproximando-se dela lentamente — Está tudo bem?

Lentamente a amazona virou a cabeça na direção dele, e com um olhar perdido no vazio balbuciou:

— Era eu ali... Oh, poderosa Atena, era eu ali! — parecia divagar por dimensões alternativas.

— Geisty, o que aconteceu? Você está bem? — questionou assustado o geminiano.

Geisty encarou Saga, saindo de seu transe, e de súbito seu semblante mudou para uma expressão plena de fúria.

— Ouça bem, Saga. Da próxima vez que esse porco gordo de peruca vier aqui, eu não vou atendê-lo. Se quiser, atenda você!... Foda-se a merda do alvará... e foda-se esse bordel... Aiii! — se interrompeu abraçando a si mesma, em arrepios, então passou a mão na garrafa de vinho e deu um gole ansioso, no gargalo mesmo, chacoalhando a cabeça em seguida, como se quisesse afastar de seus pensamentos algo que lhe incomodava — Dionísio todo poderoso, era eu ali!... Abençoe-me com a dádiva da amnésia alcoólica, porque mereço esquecer o que eu vi! — sussurrou por fim, beijando novamente o gargalo da garrafa, só o largando quando um filete fino de vinho lhe escorreu pela lateral da boca — Sai do meu quarto, Saga. Quero ficar sozinha! Eu preciso ficar sozinha.

Sem saber o que dizer ou mesmo fazer, Saga apenas olhava perplexo para quarto e também para ela. Então lhe deu as costas e deixou o cômodo, como ela lhe pedira.

Gêmeos seguiu para seu quarto mergulhado em uma curiosidade que o consumia. Tentava imaginar o que deveria ter ocorrido no quarto da amazona que a deixou em tal estado perturbado.

A estranheza de Geisty, somada à inconsequência de Afrodite, a qual resultara em três mortes em seu bordel, deixara o ânimo de Saga em frangalhos.

Adentrou o quarto que ocupava ali, batendo a porta atrás de si com violência. Desatou a gravata de seda que parecia o sufocar, enquanto se dirigia ao pequeno bar para se servir de uma dose de Absinto. A bebida lhe descia quente pela garganta, ao mesmo tempo em que sua mente trabalhava com ligeireza na ânsia de costurar aquela colcha de retalhos que compunham o cenário daquela noite que queria esquecer.

De súbito fora acometido por uma pontada forte na cabeça. Irritou-se. Elas estavam ficando cada vez mais frequentes.

Massageou a têmpora, enquanto olhava-se em um espelho que ficava preso à parede ao fundo do quarto, e num impulso súbito de ira arremessou o copo contra ele, espatifando a ambos.

— CARALHO DE VIDA!

Sentou-se à borda da cama, amparando a cabeça com ambas as mãos. Os dedos se entrelaçavam entre as madeixas azuis mescladas com fios negros.

Uma voz caliginosa fomentava palavras desconexas diretamente em sua mente. Palavras das quais Saga não queria ouvir.

Tentou calar a voz se levantando e indo apanhar a garrafa da poderosa bebida verde. Desejava que somente ela fosse sua companhia naquela famigerada noite.

No quarto de Afrodite, com muito cuidado Mu sentou-se ao lado do Santo de Peixes na cama, lhe tocando os cabelos gentilmente, mas completamente estarrecido ao olhar para as feridas em suas costas.

Em meio ao sangue e marcas das cintadas, encontrou a lâmina lemuriana alojada próximo à coluna do pisciano, onde a pele já adquiria um tom arroxeado.

— Dido, vou retirar a lâmina, vai doer um pouco. — disse em um tom de voz calmo, então usando sua telecinese retirou o aço lentamente, já o teleportando para a Forja de Áries no mesmo instante em que estancava o sangramento da ferida usando o lençol da cama de Afrodite.

— Aaaaaaaaaaaahhhh... Minha... deusaaaa... — gritou, afundando o rosto no colchão. Agarrou os lençóis com ambas as mãos, empregando tanta força que seus braços sacudiam, porém o alívio de sentir seu Cosmo novamente vivo logo viera e Peixes aos poucos foi se acalmando.

— Vai passar. — disse Mu — Vou te levar para minha casa, lá posso cuidar melhor de você.

Assim fez o cavaleiro de Áries.

Pegando Afrodite no colo com o maior cuidado que lhe cabia, teleportou a ambos para a primeira casa zodiacal, mais precisamente para o banheiro, onde ajudou o pisciano a retirar aquelas tiras de couro envoltas em seu corpo, algemas e coleira, enquanto a banheira enxia de água.

Mu o tempo todo se perguntava o que havia acontecido, mas em nenhum momento questionou o pisciano. O ajudou a entrar na banheira e, enquanto ele chorava e gemia, com extremo cuidado limpava suas feridas.

Peixes sentia muita vergonha, mas a voz mansa e o jeito brando e delicado do outro lhe transmitiam paz e confiança. Uma paz momentânea, no entanto, uma vez que seu coração estava em frangalhos.

Omitir seu caso com Camus era necessário para o bem de ambos, mas mentir para Saga era diferente.

Não queria que nada viesse a atrapalhar a boa convivência que tinha com o geminiano, e agora não podia contar mais com a proteção dele.

Camus o lançara num poço sem fundo, mas nem assim conseguia ter raiva do aquariano, ao contrário, sentia-se miserável por tê-lo magoado. Nunca imaginou ver o frio cavaleiro de gelo sucumbir às lágrimas, e essa imagem não saia de sua mente.

Despertou de seu devaneio quando sentiu Mu puxar seu cabelo para trás, o prendendo todo para cima com uma presilha grande.

— Me deixa ver seu rosto. — disse Áries.

Afrodite nunca pensou que esse pedido um dia lhe traria tanta vergonha e insegurança. Devagar, ergueu a cabeça e deixou que Mu tocasse em seu queixo, analisando os ferimentos e os limpando com extrema delicadeza.

— Acho que vou ter que dar uns dois pontos aqui. — disse quando limpou o corte no supercilio do pisciano — Mesmo com ajuda do seu cosmo, se não fecharmos esse corte não vai parar de sangrar.

— P-ponto? — disse Afrodite assustado – E desde quando você é enfermeiro para sair costurando a cara das pessoas?

— Não sou enfermeiro, mas sou ferreiro. Esqueceu qual é o material principal usado no conserto das armaduras celestiais? — disse Áries erguendo os braços e mostrando os pulsos enfaixados para o sueco, dando um risinho descontraído — Acha que tiro sangue para as armaduras de onde? Às vezes o corte fica mais profundo do que eu imaginava e tenho que suturar. Foi uma das primeiras lições que tive como aprendiz de Shion, ainda era criança. Não se preocupe, sou bom nisso. Prometo que não vou marcar seu rosto com uma cicatriz. Ainda vai continuar bonito como sempre foi. Depois o seu Cosmo se encarrega do resto.

— Hum... Eu não acho que sou tão bonito assim. — Peixes fechou os olhos e se encolheu.

As palavras duras de Camus ecoavam em sua mente. Feio, vazio, podre por dentro.

Com muito cuidado, Mu o ajudou a sair da banheira e a se enxugar delicadamente, então suturou não só o corte do rosto, mas também os de suas costas. Depois de tudo pronto e dos curativos feitos, Áries pegou na mão de Afrodite e o conduziu até seu quarto.

— Vai dormir aqui hoje. — disse o lemuriano decidido — Não vou te dar nada para vestir para não te machucar mais. — retirou a colcha da cama e esticou os lençóis — Vem, deite de bruços que vou te passar um emplasto que o Shaka fez para eu passar nas feridas feitas na Forja, e que é ótimo para cicatrização e para aliviar a dor. É de dolomita com camomila.

Afrodite deitou-se como Mu lhe pedira, ergueu os dois braços para cima, colocando as mãos embaixo do travesseiro e ficou com o rosto virado para o lado. Com muito cuidado, Áries passava o tal emplasto ao redor dos curativos, enquanto Peixes gemia e chorava baixinho.

— Não é mesmo que isso tira a dor! O Buda deveria ter passado esse negócio no bilau do Saga. Acho que seria melhor que a minha pomada para pano branco. —então fez uma pausa longa e uma pergunta nada fácil de ser respondia — Mu... Você acha que eu sou vazio? Tipo... Podre e feio por dentro?

Mu parou a massagem. Guardou o emplasto no pote, o colocou ao lado da cama, limpou a mão em uma toalha e se deitou ao lado de Afrodite, olhando em seus olhos.

— Dido, não posso responder essa pergunta. Para mim, você ainda é o menino doce e peralta com quem vivi boa parte da minha infância. Depois fui exilado em Jamiel e não sei que rumo sua vida tomou. Porém, quando voltei e olhei para você, vi o mesmo olhar do menino doce que cresceu comigo. Ele está ai, dentro de você, mesmo que em algum momento a vaidade o tenha sufocado.

As palavras de Mu foram suaves e duras ao mesmo tempo. Era ruim ser vaidoso? Era errado querer se divertir, sentir prazer e dar prazer?

As sentenças de Camus se repetiam em sua mente como um eco infinito. Sentia que nunca as ia deixar de ouvir.

Mais uma lágrima escorreu quente em seu rosto e ele afundou o nariz no travesseiro.

Não entendia porque tanta raiva por parte do aquariano. Deveria saber que Camus de Aquário enterrara todos os sentimentos que possui nas eternas geleiras da Sibéria, tornando-se ele mesmo uma grande pedra de gelo humana.

— Logo você descobre. — disse Mu com um sorriso — Eu vou dormir na sala. Qualquer coisa me chame. — já se preparava para levantar, quando Afrodite segurou com força em sua mão, olhando em seus olhos com certo medo.

— Mu... Fica aqui comigo? — disse já quase dormindo, com os olhos pesados, sendo vencido pelo cansaço.

Áries voltou a se ajeitar na cama, e sentindo a aura inquieta e amedrontada do pisciano percebia que o que o atormentava ia muito além de dor física.

— O que aconteceu com você, Dido. Quem fez isso? — perguntou.

Peixes queria contar, precisava desabafar... Mas não podia. Só iria colocar Mu em risco e até então Áries era neutro naquele mundo sujo da máfia. Tinha que dar uma satisfação para o amigo, pois já o considerava seu amigo. Mas não tinha escolha.

— Mu... É melhor que não saiba detalhes para sua própria segurança. — balbuciou apertando a mão do lemuriano. Era muito difícil ter que mentir para uma alma tão boa — Precisei atender uns clientes russos e... Como todo mundo sabe, eles não gostam de pessoas como eu... Mas... O c-cavaleiro de Aquário me salvou. Camus é um verdadeiro herói! — completou em tom irônico.

Mu ficou em silêncio. A história era toda estranha. Todos sabiam que Camus detestava Afrodite, então porque o salvaria? Além disso, via a aura do outro vacilante, como se ocultasse algo, mas iria respeitar sua decisão.

— Se não quer falar, não precisa. Mas, saiba que pode contar comigo. Não tenho medo dessa máfia. Se mexerem com você, irão mexer comigo. Tenho mais medo do Shaka, que se descobrir que você está na minha cama vai derrubar os nove infernos de Samsara na minha cabeça. — disse dando um sorriso. Afrodite era o único para quem havia contato que estava namorando Shaka.

— Espero não ter interrompido nada... O Buda já não vai com a minha cara. —Peixes se ajeitou na cama fazendo uma careta.

— Interrompeu. — respondeu Mu — O terceiro filme que veríamos antes de dormir, com três almofadas gigantes no meio de nós para evitar que minha mão seja atraída pela bunda dele. Como não quero ficar sem ela, pois preciso muito dos meus dedos, aceito as almofadas.

Afrodite riu baixinho. Só mesmo Mu para conseguir lhe tirar um sorriso naquela noite fatídica que mudaria o curso de sua vida.

Estava com muito sono, exausto, extremamente triste e o pior, apavorado com o que teria que enfrentar dali para frente. Não ter as regalias que Saga lhe dava implicava em fazer o que mais lhe assustava e lhe causava sofrimento, sexo sem vontade, com pessoas que detestava.

Fora que não teria mais os mimos de Camus.

Fechava os olhos e mesmo com as pálpebras pesadas se forçava a abri-los novamente, pois quando tudo ficava escuro o rosto do francês se acendia em suas lembranças e sua expressão de tristeza lhe açoitava o coração. A imagem carregava consigo a voz grave de Camus lhe repudiando, e em estado de semi consciência, Afrodite apertava a mão de Mu sussurrando baixinho.

— Não quero ficar sozinho... Não quero... ser vazio... Podre por dentro... Não saber amar... Não sou só... uma cadela no... cio... — finalmente foi arrebatado pelo sono.

Mu sentiu pena dele.

Teve medo que o namorado o pegasse dormindo com o outro, embora que, se isso ocorresse, seria simples explicar o motivo, dado o estado em que Afrodite se encontrava.

Ajeitou-se melhor sobre os lençóis e emanou seu Cosmo, transmitindo proteção e tranquilidade ao pisciano, pois sabia que seu sono naquela noite não seria nada tranquilo.

Dormiram de mãos dadas até o dia clarear e aquela noite tornar-se parte do passado, porém suas consequências iriam perdurar por muito tempo ainda.

Dicionário Afroditesco

*Encubado – homossexual enrustido, que não se assume.