Os últimos três dias haviam sido os piores da vida de Camus de Aquário.

Da escrivaninha de sua biblioteca, na décima primeira casa zodiacal, ele contemplava a lua, a qual o saudava reluzente através de uma modesta abertura na cortina de tecido translucido que encobria a grande janela. O olhar era perdido, opaco, distante.

Agora sim se dera conta do por que escolhera viver afastado de todos, isolado, ora na fria Moscou, ora nas distantes e gélidas terras siberianas.

Sentir doía. Doía muito!

Deveria matar o maldito que inventara a paixão!

Após o ocorrido com Afrodite, havia se isolado em Moscou e nem mesmo ele, que era um perito na arte de mentir e ludibriar, acreditava no tanto de histórias que tivera que inventar para justificar a morte dos irmãos Ivanovenkos no bordel grego. Passara horas e mais horas entre ligações intermináveis, reuniões extraordinárias e convocações de última hora para dar conta de reorganizar seus homens e jogar a culpa de tudo em Ivan, no relatório que teria que entregar a Dimitri, o "pai" da Vory v Zakone.

Não foi nem um pouco difícil convencer Dimitri de que Ivan, além de ser homossexual ainda tentara matá-lo, numa tentativa audaz de golpe arquitetado com a ajuda dos irmãos, e escolhera a Grécia para a execução do plano, considerando que poderiam colocar a culpa nos cavaleiros e um possível levante contra a Vory, matando dois coelhos com uma cajadada apenas.

Dimitri não tinha por que não acreditar em seu braço direito, e Camus fora condecorado como herói também entre os russos.

Tudo resolvido no âmbito "profissional". Nada no pessoal.

Aquário era um homem prático, o que o ajudou a engendrar todos os trâmites necessários para que nenhuma suspeita caísse sobre si. Também não queira queimar o negócio de Saga, visto que o Santuário estava lucrando muito com ele e, consequentemente a Vory v Zakone também.

Foi pensando nisso que lá estava ele de volta ao Santuário após três dias. Três dias em que sofrera de uma das piores dores a qual um ser humano possa ser submetido: a dor de ter seu coração esmagado em vida, a dor da perda, da mágoa e da traição.

A dor de ter de se acostumar a viver sem os beijos, o perfume, os toques e o riso de Afrodite de Peixes.

Não desejava olhar para o rosto do pisciano nunca mais, mas seu cargo não lhe concedia tal privilégio. Era aniversário de Saga de Gêmeos e como representante da aliança que unia Grécia e Rússia, ele teria que marcar presença, afinal, o que diria a Saga que justificasse sua ausência? Que não iria porque estava com o coração partido?

Caminhou até a janela e abriu as cortinas, vislumbrando a lua que, graciosa, sorria para a noite enfeitada em um halo dourado. Sentiu sua garganta apertar quando a brisa notívaga trouxe até suas narinas o perfume delicioso das rosas que enfeitavam o jardim do Templo vizinho.

Num gesto desesperado, fechou a cortina com as mãos trêmulas e, agarrado ao tecido fino, cerrou os olhos interrompeu a respiração por alguns minutos.

Minutos esses em que sua mente mergulhava num mar de ódio, condenando-o por ter se apaixonado por aquela criatura miserável que era Afrodite de Peixes.

— Pédé con! — (Bicha cretina!) — resmungou, permitindo o ar entrar em seus pulmões.

Seu mestre já lhe ensinara desde pequeno que os homossexuais eram anomalias da Natureza, guiados por prazer, sem honra ou caráter, e que era extrema burrice confiar neles. Afrodite não seria diferente. Pior! Ele era ainda pior, porque era um garoto de programa, promíscuo e que gostava do que fazia. Como pôde ser tão ingênuo ao ponto de achar que um homem baixo como Afrodite pudesse amá-lo?

Amor.

Esse sentimento sublime não era para si. Pisou com sola suja nas palavras de seu Mestre, em seus ensinamentos, e agora padecia por sua fraqueza.

Sem o mínimo de vontade de interagir com ninguém foi que Camus se arrumou para descer para o Templo das Bacantes.

Se tivesse sorte, apenas cumprimentaria Saga, marcaria presença e voltaria à Moscou o quanto antes.

Se tivesse muita sorte não veria Afrodite.

Na casa de Virgem, Mu andava a passos largos atrás de Shaka que, extremamente irritado, descontava seu mau humor com a única coisa que lhe acalmava. Faxina.

— Não faz assim, Sha... Sabe que tenho que ir a essa festa. — deu um passo para o lado quando o virginiano cutucou seus pés com a vassoura frenética — É o aniversário dele, amor. Todos os funcionários devem ir. Inclusive ele convidou você que eu sei. Eu quem mandei imprimir os convites na gráfica.

— E não tenho motivo nenhum para comemorar o nascimento daquele crápula do Saga. — respondeu Shaka, finalmente parando diante de Mu com a vassoura na mão. A túnica estava levantada e amarrada um pouco acima dos joelhos e os cabelos presos num coque alto — E depois, não há a mínima possibilidade de eu colocar os meus pés naquele antro de fornicação! Não. Definitivamente não. E você, Mu de Áries, como meu namorado, não deveria ir também. Lembra o que aconteceu da última vez em que você se juntou a esses mundanos nessas festas heréticas? Acabou sendo assediado por aquele Baiacu beijoqueiro.

— De novo isso, Shaka? Já disse que ele não fez por mal. É o jeito espevitado dele.

De súbito, Shaka soltou a vassoura a deixando cair no chão, produzindo um estalido e em seguida buscou as mãos de Mu as apanhando nas suas e as trazendo para junto de seu peito.

— Não vá, Mu. — pediu em tom de súplica — Vamos ficar aqui, na paz de Buda, vendo televisão, comendo pipoca... namorando. — soltou as mãos do ariano e o abraçou com ternura, colando seu corpo ao dele e então lhe deu um beijo no pescoço, pois sabia que Mu ficava todinho arrepiado quando o tacava ali com os lábios.

— Ah, Sha... Não joga sujo comigo. — sussurrou Áries cerrando os olhos — Eu adoraria ficar aqui com você... humm... namorando...

Shaka tomou os lábios de Mu que logo aprofundou o beijo, sentindo reações imediatas de seu corpo.

Era sempre assim. Toda vez que Virgem lhe tocava, parecia acender uma fogueira dentro de si que em poucos segundos estava ardendo em chamas febris de desejo. Por isso mesmo foi que, em meio aos beijos lânguidos e carícias ousadas, tomou o loiro nos braços e gentilmente o deitou no sofá, deitando-se sobre ele em seguida sem interromperem o beijo lascivo que trocavam. Até que Mu escorregou uma das mãos por debaixo da túnica de Shaka a levantando até quase o quadril do virginiano, onde abandonou o tecido rústico para agarrar outro mais delicado, o da cueca que Virgem usava, apalpando a nádega macia do namorado por cima dela.

Mas, como em todas as outras vezes em que ousou executar essa manobra, fora impedido de imediato.

— Espera, Mu. — disse Shaka com a voz firme e ofegante, enquanto agarrava no punho de Mu — Não foi isso que eu quis dizer quando falei para ficarmos namorando.

— Hum... Imaginei. — respondeu desanimado, saindo de cima do indiano e se sentando no sofá — Tudo bem, Shaka. Me desculpe, eu é que perdi a cabeça. Aliás... Você tem o dom de me fazer perder a cabeça!... Está tudo bem. Mas, eu realmente preciso ir à festa. Faz parte da minha função lá e foi um pedido direto do Grande Mestre, amor. Não posso negar.

— Está bem. — Shaka se levantou ajeitando a túnica no lugar. Pensando bem, seria melhor mesmo que o namorado fosse a tal festa, pois, depois de um mês de namoro, estava cada vez mais difícil resistir à tentação de se entregar aos prazeres da carne — Você tem razão. Mas, por favor, Mu, mantenha-se alerta! Eu confio em você, mas não confio neles! Me dá uma angústia pensar em você, tão puro, naquele antro sodômico, no meio daqueles pederastas devassos. — acariciou o rosto do amado.

Áries sorriu puxando Virgem para um abraço.

— Não se preocupe. Ninguém vai tirar minha pureza, Sha. É só uma festa, e em poucas horas eu estarei aqui de volta para você. — deu um selinho nos lábios do loiro e se levantou.

— E você vai assim? — perguntou Virgem, já que Mu estava com uma roupa simples, porém elegante, composta de calça e camisa em tons claros.

Nada fora do comum, não fosse por ter pintado a pontinha do nariz de preto e riscado três traços em suas bochechas que representavam o focinho de um coelho.

— Vou. A festa é temática. Inspirada em uma revista americana onde as mulheres tiram fotos nuas e vestem fantasias de coelho.

Mu referia-se ao tema da festa escolhido por Saga: "Coelhas da Playboy".

— Buda! Que mundano! O que aquele ébrio tem na cabeça além de cabelo? Ridículo exigir esse traje de vocês. É um pervertido!

— É só fantasia, Sha. Nada de mais. — disse rindo, então apanhou uma das cenourinhas que tinha colocado no bolso da camisa para incrementar a fantasia e a ofereceu ao namorado fazendo graça — Quer dar uma mordida na minha cenoura?

— Acho bom não fazer essa pergunta para mais ninguém, Mu de Áries. Ou terei que prender esse coelhão em uma gaiola.

— Você já prendeu esse coelhão há tempos, Shaka de Virgem. — guardou a cenoura no bolso rindo divertido, deu outro selinho e se afastou, deixando a sala — Tchau, amor. Nos vemos mais tarde.

Shaka ficou olhando para ele até desaparecer de suas vistas, então soltou um suspiro cansado e se jogou no sofá com uma tromba maior que a de Lord Ganesha. — "Pervertidos!" — pensou, e na mesma hora se lembrou de um filme indiano que havia assistido há alguns anos, onde uns homens de muitas posses frequentavam um casino em que as mulheres usavam roupas sensuais que imitavam coelhos e, apesar de achar estranho, gostou muito do filme, pois no final o herói acabava se casando com a coelha que era a prisioneira do vilão, dono do cassino, e no sari que ela usara no casamento haviam estampas de cenouras e coelhos. Achou um charme! Assim como Mu estava, um charme.

Balançou a cabeça e deu um leve sorriso.

No Templo das Bacantes a festa já corria solta.

O salão fora todo decorado por Afrodite com rosas vermelhas, brancas e negras, dando um clima de cassino ao ambiente. Peixes não economizara esforços para agradar ao aniversariante, na tentativa de recuperar a confiança perdida após o "incidente" com Camus e os homens da Vory.

No entanto Gêmeos estava resoluto.

Não apenas não falava com Afrodite desde o ocorrido, como o obrigara a usar a infame fantasia de coelhinha da Playboy, assim como todas as outras bacantes usariam naquela noite, reforçando a ideia de que agora o Santo de Peixes seria tratado como qualquer outro "funcionário" de seu bordel.

Na verdade, Afrodite não era o único incomodado com aquela indumentária ridícula de coelha, apenas era o mais incomodado.

Marin e Geisty também estavam bem descontentes. Ao contrário das bacantes, Karina, Mônica, Rebeca e todas as outras, as quais circulavam pelo salão lindíssimas, ostentando enormes orelhas nas cabeças e rebolado seus pompons extravagantes quando passavam pelas mesas dos presentes.

Saga não fizera questão de ser modesto no número de convidados.

Gêmeos praticamente convocou a nata masculina da alta sociedade grega, a qual englobava os ricos tradicionais, grandes empresários emergentes, políticos influentes, e desonestos, mafiosos, contraventores, estrangeiros ricos que passavam férias em balneários gregos e alguns artistas. Convidados que somados tinham uma fortuna acumulada bem maior que o PIB declarado de toda a Grécia. Uma mão na roda para os negócios de Saga.

No entanto, o aniversariante da noite não parecia nem um pouco animado ou apressado para se juntar a seus convidados no salão.

Imerso em sua banheira há longos minutos, Saga tinha um copo de whisky em uma das mãos e o olhar fixo ao teto do banheiro. Perdido em seus pensamentos questionava-se o motivo que o levara a orquestrar aquela maldita comemoração. Não tinha nada para comemorar.

Era nessas horas que se dava conta do que se tornara sua nova realidade. Era um homem de negócios e, como tal, o dinheiro prevalecia frente à suas vontades.

Promover uma festa, regada à bebida liberada em um bordel de luxo era ótimo para massagear seu ego e aumentar o caixa de seu empreendimento. Com todos aqueles milionários sob efeito do álcool, cobraria o dobro pelo preço dos programas e, ávidos em satisfazerem suas libidos, mal se dariam conta disso.

Sem contar que era a desculpa perfeita para atrair clientes dos quais queria alcançar e que ainda não conseguira contato, afinal, a propaganda boca a boca é a mais eficaz que há!

No entanto, aquele era também o primeiro aniversário que comemoraria sozinho, sem a presença do irmão gêmeo.

— "Será que juntos derrubaríamos a Vory... Kanon?" — pensou cerrando os olhos e dando um longo suspiro.

Era tão estranho não ter o irmão por perto...

No entanto, pensava que sentiria algo quando Kanon deixasse esse mundo, afinal eram gêmeos idênticos e dividiram quase toda uma vida juntos. Porém, não. Estava completamente desguarnecido de sentimentos quando se tratava do irmão e esse fato o preocupava minimamente. Seria tão vazio ao ponto de não sofrer pela perda daquele com quem dividira até o ventre?

Outro suspiro longo, agora ao se recordar de Shion lhe dizendo que Kanon era o mal encarnado, enquanto ele, Saga, tinha um coração bondoso, era só saber conter o mal que dormia dentro de si. Talvez o velho Patriarca estive enganado, ou não.

Vagando nessas lembranças a imagem do irmão tomou forma em sua mente, o atirando ao passado, na mesma fatídica data.

*Início do Flashback*

Passara a tarde treinando contra as colunas de pedra que ficavam em uma área pouco frequentada da arena, dentro do Santuário. Trocava as bandagens em suas mãos feridas após tantos socos nas rochas quando ouviu ao longe uma voz feminina, suave como uma brisa matutina. Caminhou a passos curtos e silenciosos em direção ao buchicho, que agora era acompanhado de risos e alguns sussurros inaudíveis.

— Não, Kanon... Assim não. Já mandei parar. — o riso se fez presente novamente após uma curta pausa — Você nunca está satisfeito?

— Não! — a voz era grave e proferida num tom voluptuoso.

— Preciso ir... — um som de lábios se beijando entre gemidos fez o coração de Saga bater mais forte dentro do peito, ao ponto de sentir o ar lhe faltar —... Não faz assim, por favor, ou não consigo voltar à minha arena. Sabe que só vim para acompanha-lo na caminhada, não para...

— Me beijar? Eu sei que veio para me beijar! E eu adorei! — um riso ligeiro logo fora abafado por mais sons de beijos — Fica mais um pouco. Não se faça de durona. Sei que está louca para ficar aqui comigo.

— Querer não é poder, cavaleiro! E eu realmente não posso ficar.

— Certo então... Te vejo mais tarde, amorzinho!

— Hum... Até mais tarde, meu lindo!

Saga se agachou atrás de uma das colunas ao ouvir o som dos passos. Praticamente prendia a respiração para não ser percebido ali, o que não lhe era um processo muito fácil.

Sempre que a via com ele seu corpo todo se alterava. Tremia, de raiva, de mágoa, de rancor. As mãos suavam, a garganta lhe apertava, a boca secava e ele fazia uma força sobre humana para não matar o próprio irmão.

Esse por sua vez, gabava-se diante de si por tê-la conquistado em seu lugar. Logo ele, o gêmeo fadado a ser sua sombra, lhe tirara o que mais desejou na vida.

Deixou a arena sem ser visto, como queria, e a duras penas.

Com o espírito em frangalhos, voltou à casa de Gêmeos, trazendo consigo uma garrafa de cachaça brasileira, presente, muito bem vindo por sinal, do vizinho sempre sorridente Aldebaran e um maço de erva que conseguira com Máscara da Morte. Teve certo trabalho para convencer ao canceriano de que não estava pedindo para delatá-lo a Shion, e sim para consumo próprio.

Iria comemorar seus vinte e três anos sozinho, entorpecendo o corpo numa tentativa aflita de libertar o espírito de toda aquela mágoa.

E assim ele o fez. Ao som de Led Zeppelin, tentando acompanhar os versos românticos de All of my love, Saga, já bêbado e entorpecido, dançava agarrado a duas servas seminuas, as quais convidou para sua festa particular.

Porém, nem a bebida, nem a droga, nem o sexo lhe foram suficientes para apagar da memória ela. A menina de seus olhos desde a tenra infância, a dona absoluta de seus pensamentos.

E como uma piada ácida do destino, foi a voz dela que ouvira e a silhueta dela que vira, parada na porta da sala de seu templo. Linda, de máscara, iluminada apenas por um tênue rútilo da luz que vinha das velas que espalhara no ambiente.

— Kanon?

Porém, o nome que saiu abafado pela máscara não era o seu, e junto com ele a realidade crua sobrepujou o sonho, de que ela talvez estivesse ali para finalmente acabarem com toda a farsa, e Saga se viu mais uma vez aterrado no mesmo mar de mágoas.

— Não. Não sou seu Kanon... — cuspiu as palavras com a voz tortuosa devido o álcool, o peito arfante chiava, enquanto os braços afastavam de si as servas. Olhou para ela com ódio, o rosto contorcido numa carranca feroz — E você não pode entrar na porra da minha casa sem se anunciar. SAIA! VÁ EMBORA!

Assustada, a amazona na mesma hora lhe deu as costas e deixou o terceiro Templo. O som de seus passos se distanciando escada a baixo, enquanto a música diminuía gradativamente.

Enquanto outra música se iniciava, Saga caminhou cambaleante até o sofá, onde se jogou esfregando o rosto num gesto nervoso.

Tantas pessoas poderiam aparecer ali naquele momento, até a própria Atena encarnada, mas havia sido justo ela.

As servas o vieram lhe agradar de pronto, pois perceberam o baque que levara com a visita inesperada. Serviram-lhe um baseado, uma garrafa de whisky pela metade, lábios afoitos e cheios de luxúria... Mas nada parecia lhe avivar o ânimo.

Até que um som de palmas fora ouvido quebrando a melodia que inundava o local.

— Bravo! Bravíssimo, Saga! — Kanon adentrava a sala com um sorriso nefasto no rosto perverso — Olha, você me saiu melhor que a encomenda!

Saga olhou para ele sem entusiasmo algum. Seu corpo naquela hora parecia-lhe um fardo tão pesado quando seu espírito melancólico.

— Não se sintam incomodados por mim, por favor. Hoje é nosso aniversário. Eu tenho um encontro e vou comemorar em grande estilo! Hum... vou ganhar um presente daqueles! — disse Kanon, deixando escapar uma risada irônica, para logo em seguida dar uma piscadinha para uma das servas e caminhar em direção à porta de saída — Cuidem bem dele, meninas.

Mas se a noite apenas começava para Kanon, para Saga ela acabara ali. Num rompante de raiva o Santo de Gêmeos enxotou as servas de seu templo e comemorou o resto daquela data especial na companhia da garrafa de whisky.

*Fim do Flashback*

Afundou o corpo todo na banheira e prendeu a respiração por alguns segundos. Não queria estar ali, não naquele dia, talvez nem levando aquela vida.

Contudo, como não podia fugir dela, da vida, saiu da banheira apressado — a pressa o ajudava a manter a mente ocupada e afastar as lembranças que tanto o atormentavam — e vestindo um roupão foi para o quarto arrumar-se. Usaria o manto de Grande Mestre naquela noite. Era sua homenagem velada ao irmão, afinal, a vontade de Kanon em vê-lo vestido com as suntuosas vestes do Patriarca era muito maior que sua própria vontade.

Ao descer para o salão, caminhou entre as mesas recebendo os cumprimentos de seus convidados, apesar de o tempo todo manter os olhos fixos ao balcão do bar, onde as amazonas estavam. Não pode deixar de reparar que a fantasia de coelha caiu muito bem em Geisty, que virada de costas para o salão lhe proporcionava uma visão deliciosamente instigante de suas nádegas com aquele pompom fofinho em cima.

Sorriu baixinho, mas de súbito fora puxado pelo Prefeito Praxedes que lhe presenteava com uma caixa de charutos cubanos.

Enquanto isso, no bar sorridente como de costume Aldebaran servia uma dose de Martini a uma Geisty com cara de poucos amigos.

— Toma coelhinha, desfaz esse bico de quem chupou limão.

— Hum... Queria ver se você se sentiria bem em trocar sua sagrada armadura por uma fantasia ridícula de coelha. — resmungou a italiana — Pela castidade de Atena, amazonas honradas e poderosas como nós, fadadas à vulgaridade de um bordel.

— Ah, eu adorei a roupa! Poderia ser até mais cavada.

Quem disse foi Shina, que rebolava na intenção de chacoalhar o pompom sobre as ancas largas, arrancando um olhar indignado da amiga e chamando a atenção de Máscara da Morte que chegava ali para pegar uma bebida.

— Ma io também adorei! — disse com uma risada de canto de boca — Madonna Mia que rabão tem esse coelho!

— Gostou, Máscara? — disse Shina dando uma piscadinha para o canceriano — Sei que caranguejo e coelho são muito bons na culinária. Quer descobrir se combinam bem na cama também?

— Ma che, bela? Io posso te garantir que sim! Se entendem muito bem! — ficou absurdamente atiçado pela provocação da amazona de Ofiúco, mas na mesma hora em que iria firmar o programa com ela, viu Afrodite descer as escadas cabisbaixo.

Peixes usava o cabelo para esconder o rosto ainda muito marcado por arranhões e hematomas, e estava visivelmente descontente em estar usando aquela fantasia, pois conforme andava tinha que ajeitar as orelhonas que cismavam em tombar para frente tampando sua visão.

Diferente das meninas que tinham as costas nuas, Peixes usava uma malha de segunda pele por debaixo do body preto de lycra, a fim de esconder as marcas das cintadas nas costas, que ainda eram bem aparentes.

Câncer o viu se dirigir a uma mesa isolada no fundo do salão, onde a luz era mais sutil, então pediu licença à Shina e as outras amazonas e seguiu até lá para falar com ele.

Desde o ocorrido na fatídica noite em que levara uma surra de Camus, Afrodite havia se isolado no décimo segundo Templo. Saga lhe dera três dias de folga, para que pudesse se recuperar e curar suas feridas.

Findada sua licença trabalhista, não apenas o geminiano exigira sua presença na festa daquela noite, e vestido a caráter, como, curado ou não, lhe agendara dois programas com políticos influentes que estavam loucos para ter o prazer de foder um Cavaleiro de Ouro. Um deles era o bonachão Prefeito Praxédes.

Como cobrava mais caro por Afrodite, obviamente que aliciá-lo lhe era muito lucrativo, mas Gêmeos estava bem mais interessado nos negócios que fecharia com os políticos sob a condição de lhes ceder sua joia masculina e, sendo assim, não lhes podia negar o pedido. E ai de Peixes se negasse!

Afrodite estava arrasado como nunca.

Bem na hora que soltava um suspiro alto e longo, Máscara da Morte puxava uma cadeira para sentar-se a seu lado. O canceriano havia lhe feito companhia durante seu isolamento em Peixes. Eram muito amigos e Afrodite achou melhor aceitar a ajuda do italiano a despeito da de Mu, já que sabia que Shaka não gostaria nada de saber que o namorado estava frequentando sua casa.

— E aí, stronzo? Come stai? Até que não ficou mal na fantasia. Apesar de que esse coelho tá meio surrado, vá benne! — disse abafando uma risada, pois mesmo muito bonito, aquela roupa deixou o pisciano esquisito, além de ele estar visivelmente emburrado por está-la usando.

— Me poupe, carcamano. Já me basta a vida rindo da minha cara. Ah, tá boa? Se foi pra isso que veio aqui pode dar linha que tô inhaz* de te mandar pro inferno... Só não faço isso porque você vai para lá quando quiser.

— Quem manda você ser um pazzo? Pelo menos tomou a sopa que te levei hoje à tarde?

— Que ajeum* matim*, heim Mask. Nem para colocar uma carne de primeira no caldo... Chuchu? Quem gosta de chuchu?

— É a crise! Non reclama.

Enquanto conversavam, Mu acabava de chegar acompanhado de Camus e Milo, que novamente se encontraram por acaso na porta do Templo de Baco.

Aquário usava óculos escuro e, mesmo ali, num ambiente fechado e escuro, ninguém achou o fato estranho, já que o adereço, somado ao Armani de corte impecável em tom azul marinho que usava, apenas reforçava sua imagem de playboy milionário.

Porém, os óculos de longe foram uma estratégia fashionista adotada por Camus e sim um recurso para ocultar os olhos inchados, fruto de algumas noites mal dormidas e do pranto que não conseguiu conter ao sentir o delicioso aroma das rosas de Afrodite no Templo vizinho. O perfume do pisciano logo despertara um gatilho sofrido em sua mente, o arremessando de volta à noite em que perdera não apenas a razão, mas talvez sua única chance de ser feliz.

Bem diferente de Aquário, Escorpião era todo entusiasmo e euforia.

— Olha só para isso! Estou nos Elísios? — disse o escorpiano ao olhar para o salão e ver todas as garotas vestidas de coelhinhas da Playboy.

Camus sempre ficava impressionado com disposição do amigo grego, e até esboçou um sorriso, divertindo-se com a empolgação de Milo que parecia estar diante de um harém de coelhas, sedento por todas, mas assim que bateu os olhos na mesa em que estavam Afrodite e Máscara da Morte, o sorriso imediatamente se desfez da face, pois constatou o que mais temia. Não estava preparado para vê-lo novamente.

Ver Afrodite fora como acionar um botão de autodestruição dentro de si. Seu corpo todo estremeceu, quase perdera a força nas pernas e um aperto no peito o fez puxar o ar imediatamente pela boca, para dentro dos pulmões, pois seu coração estava tão ferido que lhe chegava a doer de verdade. Mesmo no escuro, com os óculos e de longe, pode ver o rosto do pisciano ainda muito marcado, mas pior que os hematomas era sua expressão. Afrodite sempre fora como uma rosa que acabara de desabrochar, viva, exuberante e altiva, mas agora estava murcha, sem brilho e fora ele quem lhe tirara toda a exuberância.

Sentiu pena dele. Não deveria. E antes que tivesse um colapso nervoso ali, tentando reorganizar os sentimentos que se digladiavam dentro de si sem o seu comando, Camus pediu licença a Milo e foi cumprimentar Saga, para em seguida procurar um lugar para se sentar, de preferência bem longe de Peixes, e fazer uma hora ali apenas para marcar presença. Não via a hora de sair dali e poder respirar normalmente.

Já Afrodite não tinha apenas visto quando Camus chegara como o acompanhara com os olhos o tempo todo, o vendo ir se sentar do outro lado do salão. Não escutava mais o que Máscara da Morte falava, nem via mais ninguém no salão além de Camus.

Em que vórtice temporal estivera vagando sem juízo para ter formulado em sua mente aquela ideia estúpida de propor uma sessão de sexo grupal entre ele, Camus e seus homens de confiança?

— Só pode ter sido ele... O coágulo! — balbuciou o pisciano de repente, vendo ao longe o aquariano pedir uma bebida ao garçom. Não podia acreditar que nunca mais sentiria o calor daquele corpo, o perfume dos cabelos ruivos, o doce sabor dos lábios...

— Cosa? Scusi? (O que disse?) — perguntou Máscara da Morte erguendo uma sobrancelha.

— Ah... Nada não... Estou falando do coágulo que devo ter no cérebro... Sim, porque só uma anomalia dentro de mim me justificaria fazer tanta coisa errada na minha vida.

Máscara da Morte ia perguntar a que ele se referia, mas na mesma hora Mu chegava à mesa trazendo consigo dois coquetéis de frutas.

Áries já havia cumprimentado Saga, Geisty, as meninas e em seguida passou no bar para pegar os drinks. Sabia que Afrodite estava envergonhado e não ficaria desfilando pelo salão como sempre fazia, então gentilmente quis alegrar o pisciano lhe levando os drinks.

— Boa noite, senhor caranguejo e senhor peixe. O carneiro pode se juntar a vocês? — perguntou sorridente, colocando os copos sobre a mesa — Trouxe para você, Dido. Não sei o que você bebe, Máscara, mas não tem cara de quem curte drinks coloridos.

— Oi, Mu, claro querido, sente-se ai. Obrigado pelo baygon.*

— Ma io no gosto mesmo. Isso non é bebida de uomo! — disse Máscara da Morte se levantando — Vou aproveitar que chegou, Mu, e vou lá para fora dar um tapa nas ideia.** — deu uma risadinha de canto de boca — Vai querer, stronzo? (Imbecil) — perguntou, olhando para Afrodite.

— Não. Não posso ficar colocada* hoje... Tenho que... trabalhar. — respondeu baixando a cabeça, visivelmente envergonhado em dizer que naquela noite começaria de verdade sua vida como garoto de programas.

— Va bene. Arrivederci.

Máscara da Morte se despediu deles com certo pesar na alma. Não gostava de saber que o amigo pisciano teria que de fato se prostituir sob ameaça de ser morto ou exonerado, mas nada poderia fazer. Todos ali estavam à mercê das escolhas do Grande Mestre.

De volta à mesa, Mu, na tentativa de levantar o astral do amigo macambuzio, retirou uma cenourinha do bolso da camisa e ofereceu para ele todo sorridente.

— Quer uma cenoura?

Afrodite olhou para Mu, olhou para a cenoura, e voltou a olhar Mu novamente.

— Adoraria pegar na sua cenoura, carneirinho. — disse sorrindo sem muita vontade.

Mu ficou corado, mas depois de tanto conviver diariamente com o sueco já estava se acostumando com seu jeito espevitado e sem travas na língua.

— Pois então pegue, estou te dando. — respondeu colocando a cenoura na mão dele — Como você está? Está passando o emplastro que eu lhe dei?

— Sim, estou. Pelo menos já não dói tanto. Já consigo até tomar um tcheco* sozinho.

— Que bom, Dido.

— E o loirudo? Não conseguiu tirar ele da toca?

— Não. Shaka nunca vai pisar nesse Templo. Não adianta teimar. Prometi que vinha só cumprimentar o Saga e logo voltaria para dormir com ele... É tão bom dormir com ele, Dido. O cheiro da pele dele é tão gostoso, de sândalo! — suspirou, dando um gole no coquetel de frutas.

Afrodite olhava para ele sorrindo. Era bom ver a felicidade de Áries estampada em seu rosto, no brilho vistoso de seus olhos verdes, no sorriso singelo e sincero. Quando Mu falava de Shaka, era como se uma luz acendesse dentro de si.

Pela primeira vez em sua vida Afrodite sentiu-se tocado por aquilo. Queria saber como era ter aquela luz dentro de si também, desejava experimentar aquele sentimento que tão bem fazia para Mu que o permitia ter luz própria. Ser preenchido e deixar de ser vazio por dentro.

Enquanto levava o drink à boca, um pensamento involuntário lhe veio à mente, rápido e preciso. Imaginou que ter um namorado, alguém para amar, dormir abraçadinho, esquentar seus pés numa noite fria, não deveria ser tão ruim quanto pensava. Possivelmente deveria ser um tédio fazer sexo sempre com a mesma pessoa, mas talvez se essa pessoa fosse Camus de Aquário...

— O QUE? — cuspiu a bebida num gesto exacerbado, surpreso consigo mesmo em pensar tamanho absurdo.

— O que, Dido? Engasgou? — perguntou Mu de pronto, lhe oferecendo um guardanapo.

— S-Sim, mas... Não foi com a bebida, foi com as ideias!

— Ideia? Que ideia?

— Nada, Mu... — precisava disfarçar, mudar o foco do assunto, pois conhecendo-se bem acabaria falando o que não deveria — Me fale do seu namoro com o Buda... Já atingiram o Nirvana juntos? O sexo é bom? Sabe que Shaka é tão chato que não imagino ele gostando de sexo?

— Não fale assim dele... O Shaka não é chato... Fazemos muitas coisas juntos... — agora Áries era quem tentava mudar o foco da pergunta, pois não queria dizer que ainda não tinha transado e que nem havia uma previsão para isso acontecer — Cozinhamos juntos, dançamos, meditamos no jardim, assistimos televisão agarradinhos... E a pele dele é tão quente!... Aquele cabelão loiro perfumado é tão macio, tão bom de acariciar... Tenho vontade de... Nem sei te dizer de que.

— De trepar, oras! — Peixes falou tranquilamente, vendo Mu arregalar os olhos para si — Vai, Mu, fala ai, como é Shaka de Virgem na cama? Achei que ele fosse um monge!... Como a gente se engana nessa vida!

Mu não conseguia responder. Não entendia como a conversa tinha pegado aquele rumo. Tentou desconversar.

— Ele é um monge!... Que calor que está aqui né?

— O que?... Vai me dizer que não apagam a vela* e que só meditam, cozinham e pegam na mão um do outro?

— N-Não... Nós... Nós nos beijamos, muito... Nos abraçamos... — quando viu que não tinha como esconder a verdade, até porque Afrodite era perito no assunto, e naquele momento já deveria ter matado a charada, Mu soltou um suspiro resignado junto com a verdade — Sim, Dido. Fazemos tudo isso e nada mais. Quero dizer, nada de sexo.

— Por Dadá! — exclamou levando uma das mãos à boca e ajeitando as orelhas de coelho em sua cabeça, que teimavam em cair.

— Eu quero muito, e acho que ele também, mas... Há alguma coisa que o impede. Sempre que avanço um pouco o sinal ele para... Acho que também não sei como abordá-lo direito, talvez seja isso... Ou não... Quem sabe?... — fez um sinal para o garçom e pediu outra dose de coquetel de frutas, estava nervoso, era difícil falar sobre sua intimidade e a bebida o ajudava a relaxar —... Enfim, a gente até tenta, Dido, mas não conseguimos ir em frente.

— Ah, mas isso é totalmente compreensível, Mu. É porque Shaka é cabaço e você só transou com a songa monga da Marin.

Áries ficou sério, teria que revelar a verdade a ele, pois olhava para Afrodite como quem procura uma resposta precisa em uma enciclopédia.

— Então... Não transei com a Marin. Eu apenas dormi.

— Tô Kátia*! — arregalou os olhos e deu uma risada — Mas eu já imaginava!

— É?

— Sim. Você continua com cara de cabacinho.

— Bom, então, Dido, se não rola porque somos inexperientes, como ser experiente sem rolar?

— Não precisa. Vocês vão descobrir juntos. A única coisa que precisam para fazer a magia acontecer é tesão.

— Acredite, Dido, isso não falta entre nós... Temos tesão até demais. Pelos deuses, tem dia que mal podemos nos aproximar. É que devo fazer uma confissão. Depois do seu acidente com Saga na escada, eu bem... Fiquei com medo de machucar o Shaka. Ele nunca mais olharia na minha cara.

— Ah, Mu, mas você não deve se basear pelo meu acidente com o Saga. Aquilo foi... Bem, aquilo foi pura mágoa de cafuçu* daquelas duas moscas varejeiras de despacho de encruzilhada! — disse quase num rosnado — Aquilo não acontece, Mu. As pessoas não se machucam quando fazem sexo... Apenas quando propõem suruba com russos. — já estava se dispersando novamente e quando percebeu chacoalhou a cabeça e continuou —... Não! Escuta... Ainda mais com o mala do Shaka, a possibilidade de alguém quebrar o pinto numa foda deve ser nula. Então, Mu, não precisa ter medo. O que precisa ter é atitude!

— Atitude? — perguntou meio confuso, até porque acreditava que o amigo não havia entendido sua preocupação.

Não temia por seu pênis, mas lembrava-se muito bem de como Afrodite passara dias sentando-se sobre uma almofadinha redonda com um buraco no meio após o ocorrido. Então, se duas pessoas tão experientes como Peixes e Gêmeos se machucaram daquela forma, o que ele faria a Shaka se dessem o segundo passo, ele não possuindo experiência nenhuma?

Shion não lhe ensinara absolutamente nada sobre esse tipo de sexo, por isso sentia-se inseguro e temeroso com sua ignorância.

Para piorar, acompanhar o raciocino de Peixes nunca era tarefa fácil para ninguém, ainda mais quando o assunto era sexo e o interlocutor Mu de Áries!

Mesmo assim o ariano tentava.

— Sim, atitude. Pega ele de jeito!... Não. Se ele é virgem também, você precisa preparar o terreno antes.

— Preparar o terreno?

— Isso. Acariciar, caprichar no cunete*... Não! Para tudo. Antes de tudo me diga: Você quer dar para ele ou quer comer ele?

Mesmo completamente constrangido com a conversa, Mu viu nela sua única oportunidade de entender um pouco mais do assunto. Pediu outro drink para o garçom, matou o anterior com uma golada apenas e respondeu.

— Bom... Eu... Eu acho que ainda não parei para pensar nisso... E acho que nem ele... E... — estava tão vermelho e quente, tanto pela vergonha, quanto pela bebida, que não conseguia olhar para o rosto de Afrodite, temendo que de alguma forma o sueco pudesse ler seus pensamentos e descobrir que tudo que mais desejava na vida era agarrar Shaka em seus braços, beijá-lo, tomá-lo de forma voraz, entrar dentro dele o máximo que conseguisse e clamá-lo seu para toda a vida.

Ali Mu de Áries ganhara um novo conflito. E se sua vontade fosse a mesma de Shaka? Nunca se imaginou sendo passivo, nem sabia que tal possibilidade existia antes do seu retorno ao Santuário e Shaka lhe falar dos outros encaixes — "Por Atena, será que somos compatíveis?" — pensou chegando a suar frio.

— Olha, Mu, eu sei que minha fama não é das melhores, mas eu gosto muito de você, como amigo, de verdade. Você é um cara legal e... Eu não entendo muito de namoro, de amor... Eu entendo bem de sexo. — disse, e ele mesmo constatou essa afirmação um tanto quanto triste — Enfim, mesmo não entendendo de amor, eu acho que a posição na cama não importa para quem ama.

— Sério?

— Sim. Com o tempo e a convivência vocês se acertam. E depois, se o ativo não quiser dar de vez em quando, para isso existe o álcool e a chantagem... Ok... Esquece o que eu disse. Melhor a gente mudar de assunto. — deu um gole nervoso na bebida. Não podia crer que estava ensinando Mu a embebedar Shaka para abusar dele — Mas, quando quiser, podemos conversar. Talvez, tudo que esteja faltando seja iniciativa. Chega nele, Mu. Mostre que está interessado. Instigue o desejo dele. Agarra esse homem de uma vez, põe fogo que tenho certeza que ele não vai te negar.

Já meio entorpecido pelo álcool, o Santo de Áries riu, em seguida pegou na mão de Afrodite e o puxou para um abraço terno, com muito cuidado para não machucá-lo.

— Dido, você é uma figura. Olha as coisas que você fala! — se afastou olhando nos olhos dele — Mas, você pode ter razão. Minha insegurança me atrapalha na hora e eu acabo recuando por não saber como fazer. Acho que se eu chegar dando um amasso nele e mostrar que estou decidido e seguro ele não vai me negar. Agora ânimo! Estamos em uma festa, e você é um coelho bem mais bonito que eu. Vem, vamos dar uma volta.

Mu arrastou o pisciano pelo salão mesmo que a contragosto.

De longe, Camus os via de mãos dadas entre os presentes, sorridentes enquanto iam em direção ao bar. Seu coração magoado parecia não querer lhe dar paz nem depois da terceira dose de vodca e ainda batia tão forte que podia senti-lo esmagar sua garganta. — "Non perde tempo, mesmo, non é, Afrodite?... Pobre Áries. Mal sabe o buraco que está se enfiando." — pensou, sorvendo o último gole de bebida em seu copo.

Foi quando viu passar diante da mesa em que estava sentado, Misty de Lagarto, que todo serelepe corria para o palco para preparar o número de dança no qual participaria com as amazonas em homenagem ao aniversariante. Mais que depressa, Camus o chamou discretamente, a meio tom de voz apenas.

— Psii... Ei, você. Cavaleiro de Lagarto.

Na mesma hora Misty interrompeu seus saltinhos e olhou para ele. Já havia manjado o aquariano ali há tempos, mas sabia que não poderia aproximar-se dele, por isso mesmo era que não estava passando justamente ali, em frente à mesa de Camus, por acaso.

Fizera tudo para ser visto, e conseguira!

— Ah, olá, Camus de Aquário! Não tinha visto você ai. — mentiu descaradamente, com um belo sorriso no rosto radiante.

— Quero falar com você. — disse num sussurro, quase um cochicho — Mas non aqui, obviamente. Vou sair para fumar lá fora e quero que esteja lá.

— Como quiser. Logo após a apresentação de dança. O chefe exige minha participação, ou essas biscates não fazem nada direito!

— Que seja. Assim que acabar essa merde espero você lá fora.

— Estarei lá, ruivo.

Com uma piscadinha, que não foi nem um pouco bem vista pelo aquariano, Misty seguiu seu rumo indo em direção ao palco, enquanto Camus tentava manter-se calmo. Era muito difícil dividir o mesmo ambiente com Afrodite.

Por baixo das lentes escuras, seus olhos o traiam reparando em cada gesto do sueco. Vê-lo sorrir ao lado de Áries lhe incomodava, por isso permaneceria ali apenas mais um pouco e quando todos estivessem distraídos com a apresentação, sairia.

Enquanto isso, no bar Geisty era mais uma vez flertada por Milo, que parecia ter encontrado o grande desafio de sua vida: Uma mulher que não se empolgava tanto com seus encantos.

— Que pomponzão, heim coelhinha! — dizia o Escorpião ao mesmo tempo em que, com um sorriso sacana no rosto, a despia em sua imaginação — Você está linda, Geisty.

— Se consegue ver beleza nessa fantasia ridícula é porque já deve estar bêbado, né Milo? Só pode. — disse afiada como sempre.

— Não. Estou bem sóbrio, Geistynha. Está mesmo linda. — riu da cara que ela fez para si — Vem cá... Será que hoje rola do gatão aqui miar no seu telhado, gatinha?

— Hã? Hoje? Sabe que o nosso patrão está cobrando dobrado, não é mesmo?

— Sim, tô sabendo. — disse confiante sem se abalar.

— Olha, só!... Não me diga que foi promovido dentro da máfia! Ou você assaltou um banco, Milo? — falou com ar de surpresa e ironia.

— Ainda não, mas se for preciso... — aproximou-se dela puxando pela cintura para colar seu corpo ao corpo esguio e poder sussurrar em seu ouvindo — Eu estou morrendo de saudades de você, gata. Desse seu cheiro... Seu corpo... Hum... Quando vamos miar juntos de novo?

A amazona corou na mesma hora e sentiu seu corpo todo se arrepiar. Milo era lindo e extremamente sedutor, era para sentir-se atraída por ele, e apesar de seu corpo responder aos estímulos, sua mente e seu coração a sabotavam. Tentava encontrar uma saída para aquele embaraço, disse meio vacilante:

— Não sei Milo. Sabe muito bem que não sou eu quem decide isso.

Nessa hora uma voz potente, tanto no timbre quanto no tom os fez se separarem de imediato daquele agarro.

— Exatamente, amazona. Não é você quem decide. Sou eu. — Saga fez um sinal para Aldebaran no bar e esse de pronto lhe entregou uma dose de Absinto — A agenda dela está completa hoje, Escorpião.

— Como assim? Primeiro era o preço. Agora é lugar na fila? Nunca disse que tinha esse troço de agenda!

— Meu prostíbulo, minhas regras. As faço quando e como eu bem entender. — tomou um gole da fortíssima bebida.

Estava aliviado por ter chegado a tempo de afastar aquele inseto peçonhento mais uma vez de Geisty, porém, em seu intimo se perguntava até quando conseguiria manter Milo longe dela sem levantar suspeitas. Maldizia o escorpiano em pensamento, amaldiçoado o malfadado dia quem tivera a infeliz ideia de oferecê-la como pagamento por seus serviços.

Esfregou os olhos irritadiço, sentindo leves pontadas de dor na cabeça. Respirou fundo e deu as costas ao grego, que o encarava com olhos desafiadores, então pediu outra dose a Aldebaran, que o atendeu de pronto.

Com sua visão periférica, Saga podia notar a insatisfação da amazona, que se mantinha calada, mas visivelmente remoendo a raiva de ser tradada como uma mercadoria.

A mágoa de Geisty atingia fundo o coração de Saga. Conhecia bem o que era sofrer aquele sentimento e não desejava isso à ela. Ou desejava?

Era tudo tão confuso em sua mente... A cada passo que parecia dar à frente, algo, ou alguém, o puxava novamente para trás, o impedindo de encontrar uma saída para ambos.

Alheia ao conflito que Gêmeos vivia ali, Geisty apenas o encarava com indignação e raiva. Raiva por ter seu corpo e sua vontade negociados e disputados por dois Santos de Ouro. Indignação por ter seu título nobre de amazona reduzido ao posto de prostituta, mesmo que ainda estivesse enganando a todos, mas, caso Saga resolvesse a verde para Milo, suas ilusões seriam inúteis e ela teria se entregar novamente ao Escorpião.

O que não era necessariamente um sacrifício, visto que Milo era um homem lindo e carismático, mas não era o homem que tinha posse de seus sonhos mais íntimos, de seus desejos mais secretos. Desejos esses que ela escondia até de si mesma, que fazia seu coração acelerar, sua boca secar e o corpo todo estremecer.

O que afinal sentia por Saga?

Percebendo que o clima ia ficar pesado ali entre os três, Shina mais que depressa pegou na mão de Geisty e a puxou dali.

— Venha! A apresentação vai começar. — disse em voz alta — Marin e Misty já foram para o palco, só falta a gente. Vamos! Venha assistir, patrão. O show de hoje é só para você.

Saga ouvia a voz de Shina, mas sem tirar os olhos de Milo, que fazia o mesmo, encarando o geminiano com certa zanga.

Fora Gêmeos quem dera por encerrado aquele embate visório, dando as costas a Milo e seguindo em silêncio para frente do palco, onde uma mesa estrategicamente disposta já o aguardava para que assistisse ao show de camarote.

Estava irritado, era bem verdade, e um tanto quanto melancólico, porém quando as luzes se apagaram e as cortinas lentamente se abriram, acompanhando o tom da melodia sensual que agora tomava o salão, Saga se permitiu relaxar, buscando com olhos aflitos a amazona de Serpente, que era grande estrela de sua noite.

A coreografia era carregada de erotismo, e entre rebolados, gingados e passos ensaiados, cada um ali tentava seduzir o chefe, dando o melhor de si, porém Saga só tinha olhos para uma certa Serpente em pele de coelha!

Os olhos famintos de Gêmeos naquela hora era nada além de escravos aguilhoados nas curvas do corpo moreno e sedutor de Geisty. A cada movimento eles passeavam enfeitiçados por ela, a despindo de mil maneiras, a provando no segredo de sua intimidade.

Não havia ninguém mais ali, sobre aquele palco. Apenas ela. Linda, sexy, única!

Saga mal respirava. Com os lábios entreabertos, as pálpebras emperradas e o coração inquieto, ele acompanhava cada gesto lento e sinuoso, até que seus olhos se cruzaram com os dela.

Por longos segundos tornaram-se cativos um do outro, e foi, para ambos, como experimentar um último sopro de existência, assustador, intenso, inevitável!

Naquele momento Saga entendeu que não adiantaria mais lutar contra seus sentimentos, mesmo que assumi-los significasse sua ruína, talvez a dela e de quem mais estivesse envolvido.

Geisty por sua vez, até abandonara em parte a coreografia, arrebatada por aquele olhar e pelas reações que ele lhe causava, surpresa, ao mesmo tempo, temerosa. Executava os movimentos totalmente alheia às colegas, perguntando-se quando fora que se deixara ser capturada pela mesma armadilha de anos atrás. Kanon já havia destruído sua vida, e bem provavelmente Saga faria o mesmo, mas simplesmente não tinha forças para lutar contra aquele magnetismo que a atraía àquela arapuca de um metro e noventa e olhos cor de jade!

Foi somente quando as luzes se apagaram que ambos se deram conta do que acabara de acontecer.

— Ei, o que deu em você, mulher? — a voz de Shina trouxe Geisty de volta à Terra, após aquela experiência surreal – Errou toda a coreografia.

— Eu... — seu coração batia frenético. Não podia estar apaixonada por Saga. Não por ele. Não pelo homem que a trouxera à Grécia para ser prostituta e que depois de beijá-la com tanta entrega foi se engalfinhar com o cavaleiro de Peixes na escada debaixo de sua janela —... Eu não sei... Eu... Preciso de uma bebida. — dizia em um raro momento de confusão mental, olhando ao seu redor todas as outras bacantes ainda no palco tentando se situar, mas só conseguindo ficar mais desnorteada.

Geisty correu pra fora do palco descendo as escadas que levavam ao camarim. Pensou em voltar logo ao bar, mas estava assustada. Não sabia como olharia para Saga depois daquela declaração silenciosa através da troca de olhares mais intensa que experimentara na vida, então resolveu tentar se acalmar antes de voltar ao salão, assim colocaria suas ideias em ordem, pois bem provavelmente Saga estava apenas jogando com ela, tentando seduzi-la, como fez Kanon.

Não. Definitivamente não cometeria o mesmo erro duas vezes.

Enquanto Geisty tentava reorganizar apressadamente as ideias no camarim, outro bacante também tinha pressa.

Misty de Lagarto desceu pela lateral do palco mesmo, cruzando o salão a passos afoitos em direção a uma das saídas laterais, que ficava ao lado do bar, que foi para onde vira Camus se dirigir pouco antes de a apresentação terminar.

Tomou cuidado para saber se não estava sendo notado, e então cruzou a passagem, ligeiro e sorrateiro como um réptil.

Do lado de fora, viu finalmente Camus, que encostado em um pequeno muro de pedras, fumava um cigarro.

Aquário não fumava. Tornara-se fumante recentemente. Para ser mais exato, desde a fatídica noite em que dera uma surra em Afrodite, sempre trazia consigo um maço de cigarros, pois encontrara na nicotina um alívio paliativo para seu espírito perturbado.

— Não sabia que fumava. — Misty se aproximava ardiloso e com um sorriso todo oferecido — Faz mal à saúde, sabia?

— Por que você mentiu para o Grande Mestre, Lagarto? — Camus fora direto. Não havia chamado Misty ali para conversar, mas sim para interrogá-lo — Quero uma resposta breve. Sem rodeios, s'il vous plait. — falou com a voz grave e rosto firme, enquanto tragava a fumaça.

— Simples. Eu sei do seu caso com a Peixosa.

— Pardon? — arregalou os olhos em espanto, desencostando do muro e se aproximando de Misty rapidamente — Disse que... Que sabe?

— Oui. Eu sei, mas não precisa ficar nervoso, bobinho.

— Sale putain de merde! Pédé con! (Aquele puto de merda! Viado cretino!) — rosnou Camus jogando a bituca de cigarro no chão, e num gesto muito rápido, surpreendeu Misty o empurrando contra o muro com toda a força, espalmando sua mão no peito dele e o encarando ameaçadoramente, com as palmas das mãos já começavam a ficar extremamente geladas — Eu sabia que ele não ia guardar segredo! Para quem mais a cadela do Afrodite contou, além de você?

— Aiii... Calma, ruivo. Ele não me contou. Eu vi! Vocês... Não... Não são tão discretos quanto imaginam, e eu sou uma pessoa muito observadora. — disse com voz esganiçada. Camus era muito forte e sua presença era sufocante, mas ao mesmo tempo imponente e extremamente sedutora — Tira a mãozinha, querido. Estou do seu lado. Acho que já provei isso quando livrei tua barra com o Grande Mestre, não acha?

Camus se afastou desconfiado.

— O que você quer? Ou quanto você quer?

— Eiiii... Assim você me ofende! Não fiz isso por dinheiro não, Camus. Não sou como Afrodite que só viu em você a vantagem que podia levar te tirando tudo que conseguisse... Eu... Eu fiz isso por você... Quando vi que estava se envolvendo com a Escamosa, fiquei aflito!... Você é um cavaleiro muito justo, exemplar e um homem muito influente, além de... bonito.

Misty jogava com as palavras, dizendo exatamente o que o coração ferido do aquariano desejava ouvir. O ruivo não era qualquer um, normalmente seria muito difícil, pra não dizer impossível, aproximar-se dele e envolvê-lo com sua lábia. Mas, Aquário estava sofrendo por amor, estava frágil. Misty sabia disso e usaria a fraqueza de Camus a seu favor.

Aquela era a brecha que tanto procurara, sua única chance de se aproximar do ruivo, e não a desperdiçaria.

— Lagarto, non. — Camus disse com um suspiro cansado, não estava gostando dos elogios, nem da insinuação por traz deles.

— A verdade é que quando vi que estava se envolvendo mais do que deveria com aquela rosa venenosa, apenas contei o tempo para ele fazer alguma merda e machucar você... Afrodite é perigoso, Camus. Ele já fez isso antes. Eu não podia deixa-lo acabar com sua vida, com a minha e com a de todos que dependem da Vory e desse negócio. Não gosto de ser puto, mas faço isso por necessidade, é meu sustento. O Templo das Bacantes é a única saída para o Santuário. Você e Saga apostaram todas as suas fichas nele. Eu não podia permitir que aquela bicha peixosa levasse tudo por água a baixo.

Aquilo era um duelo de gigantes.

Se Camus aprendeu a arte de dissimular, dissuadir e mentir ao longo de sua vida como mafioso, em Misty ela era congênita!

O cavaleiro de prata era um réptil que já nascera escorregadio, traiçoeiro, e que mentia com tanta naturalidade que, até mesmo para si suas mentiras eram verdadeiras. Ele as vivia!

O fato era que tudo que Misty dizia tinha fundamento na mente de Aquário. Mesmo achando estranho, sua racionalidade o fazia concordar, pois Afrodite era mesmo um louco inconsequente, estava consigo apenas por interesse, pelas joias, ou não teria feito àquela proposta infeliz. Mas, ainda assim, Aquário suspeitava que o motivo que levara Misty a escolher tornar-se seu cúmplice não era apenas de cunho altruísta, mas bem mais pessoal. Tudo o que não queria era se envolver com outro viado, ainda mais com Misty de Lagarto. Rogava à Atena que ele não estive o paquerando!

— Está bem, Lagarto... Tudo que diz faz sentido, por enquanto basta. Maldito seja o dia em que entrei no quarto daquele puto por engano e maldita seja a hora em que... — sua voz se calou, mas o pensamento não — "Maldita seja a hora em que me apaixonei por ele." — suspirou, e então deu um passo para traz, afastando-se de Misty e tirando outro cigarro do maço que apanhara do bolso do blazer.

— Pode contar comigo, Camus. Sei que para você pode parecer estranho, já que nunca tivemos nenhum contato, mas... saiba que sempre o admirei, como homem e como cavaleiro. Seu segredo está seguro comigo. Eu quero tanto quanto você, Saga e todos os que estão envolvidos nesse negócio, que o Santuário recupere seus dias de glória. Sei que minha contribuição é ínfima, mas... Minha vida pertence à Atena e ao que ela designar para mim. — falava bonito, seu discurso era impecável, porém por dentro comemorava a pequena vitória que havia tido, pois já arquitetava um plano para conquistar o aquariano e fazer Afrodite sofrer a dor da perda e da rejeição. Queria mais era que o Santuário, Atena e o Templo das Bacantes explodissem! Seu único objetivo agora era roubar Camus de Afrodite.

— Oui... Eu preciso pensar... Deixe-me sozinho, s'il vous plait. — ajeitou os óculos no rosto e acendeu o cigarro — Se sabe tanto, Lagarto, acho que non preciso lembrar-lhe então que non devemos ser vistos juntos.

— Sim. Não precisa me lembrar... Amigos então?

Aquário olhou para ele o analisando. Seu sorriso lhe parecia sincero. O rosto era plácido e a respiração tão calma quanto uma manhã de domingo. Misty aparentemente não possuía motivos para estar mentindo.

— Oui... amigos, como quiser, apenas me deixe sozinho. Vá. Entre. Esperarei alguns minutos e entrarei em seguida.

Com um gesto de cabeça e um sorriso afetado, Lagarto se despediu, voltando ao salão.

Ao entrar, fez um apanhado geral do cenário. Viu algumas bacantes circulando entre as mesas, Marin, que com um semblante estranho conversava com Shina e Aiolia, Saga, que parecia perturbado e inquieto, caminhava às pressas para o corredor que levava aos camarins, quando fora abordado por um grupo de políticos que interromperam seu curso e, por fim, encontrou quem procurava. Afrodite, que encostado no balcão do bar conversava com um Mu mais sorridente e eufórico que o de costume.

Jogou os cabelos para trás, firmou as orelhas de coelho na cabeça e com um andar languido e seu âmago repleto de más intenções, caminhou até o cavaleiro de Peixes, parando a seu lado e debruçando-se no balcão do bar.

— Aldebaran, me sirva um Sex on the Beach por favor, querido... Ah, e um licor de anis! – falou em voz alta, na intenção de chamar atenção do pisciano, então quando Afrodite olhou para o lado, Misty buscou os olhos dele e o cumprimentou com seu melhor sorriso — Boa noite, Afrobicha. Ainda não tinha te visto no salão. Ou será que é porque você está tão no chão que nem o notei até agora?

Afrodite agarrou o copo com água que tomava e praticamente despejou o líquido garganta à baixo, sem tirar os olhos de Misty.

— Desde quando você bebe licor de anis, Lagartixa cascuda? — perguntou Peixes entredentes, exatamente porque sabia que aquela bebida tão peculiar, que agradava somente a paladares mais refinados, era a favorita de Camus, e que raramente era servida a outros clientes. Praticamente era o francês que a pedia quando ia ao bordel.

— Eu não bebo. É para o meu amigo. — provocou o francesinho.

Conversavam em tom bem baixo, quase como confidentes, os olhos apenas desviando o foco um do outro para executar uma breve leitura de lábios quando apenas a voz não era suficiente para se fazer entender.

— E puto tem amigo, exú oxigenado?

— Você não tem? — precipitou-se mais para perto — Sim, porque agora você é tão puto quanto eu ou qualquer um aqui, né Escamosa? Inclusive, soube que vai atender o Prefeito hoje... Olha, cuidado! A Geisty ficou traumatizada depois do programa com ele hihihihihi. Soube que ele tem um pinto seboso e cheiro de bafo.

— Por que você não vai chupar o cano do chuveiro do Hades? Avoa bicha! Me deixa em paz! — quebrou o contato visual, virando-se novamente de frente para o bar.

Não iria dar atenção para aquele cavaleiro, pois era certo que estava ali somente para provocá-lo, como sempre fazia, e o licor de anis deveria ser mera coincidência. Não havia nada naquele mundo que ligasse Aquário à Lagarto.

A verdade era que Afrodite, na noite em que levara a surra de Camus, estava tão machucado, por dentro e por fora, que nem notara a presença de Misty em seu quarto e, como se isolou em Peixes os três dias que se seguiram, aquela era a primeira vez que conversavam após o ocorrido.

— Eu heim! Anda estressada ultimamente, bicha dourada. Todo esse mau humor é falta do picolé?

Imediatamente Peixes tornou a se virar para ele o encarando, só que agora seu corpo todo tremia, não mais de raiva, mas de espanto, susto, pavor!

— O que foi que você disse? — perguntou ainda que vacilante, já que imagina ser impossível alguém saber de seu caso com Camus.

— Exatamente o que você ouviu. — repetiu Lagarto apanhando o drink que Aldebaran colocara sobre o balcão — Eu sei de tudo, Afrobicha. Ele me contou... Ah! Lá está ele. — indicou Camus com os olhos — Com licença, vou levar o drink para meu amigo que, quem sabe, se torne mais do que isso em breve!... Ele é muito sedutor e estou louco para ouvi-lo gemer em nossa língua mãe.

Diante de um Afrodite completamente perplexo, Misty passou a mão no licor de anis e deixou o bar. Peixes o seguiu com os olhos e para seu total desespero o viu deixar a bebida sobre a mesa onde Camus acabara de se sentar.

Alheio à conversa no bar, Aquário não tinha ficado muito feliz com aquilo, mas entendeu o gesto como uma gentileza que selava o pacto de silêncio entre eles, pois agora eram cúmplices. Logo Lagarto saiu de perto e seguiu para outra mesa, onde havia alguns executivos.

No bar Afrodite estava pálido, trêmulo e gelado. Como era possível que Camus havia contado a Misty sobre eles?

— Por todas as serpentes da cabeça da Medusa! — disse com os olhos esbugalhados cravados em Camus. Uma das orelhas de coelho da fantasia lhe tapava uma visão, pois não parava no lugar e ficava caída em seu rosto.

Lá estava Camus tomando o licor ofertado por Lagarto. Seu estômago se revirou e o coração parecia as zabumbas da bateria de uma escola de samba — "Humpf... Se agora está tendo um caso com a Cascuda, Camus, tomara que morra de sapinho! Vocês dois se merecem!" — pensava enquanto analisava o ruivo ao longe.

Tinha ganas em mandar dali mesmo uma Rosa Sangrenta contra o ruivo.

Com o olhar perdido, imaginava-se preparando o golpe e atingindo o peito do aquariano em cheio com sua rosa branca, depois iria até ele e, enquanto as pétalas se tingiam de vermelho e Camus morria, se ajoelharia a seu lado, o tomaria nos braços e beijaria seus lábios macios com volúpia, acariciando aquelas fios ruivos que tanto idolatrava... — "O QUE? DE ONDE VEIO A IMAGEM DO BEIJO?" — gritou mentalmente, brigando com seu próprio pensamento que o traia covardemente.

Era para ter raiva de Camus, não para querer beijá-lo.

Foi então que Mu, já muito bêbado, pois estava na sexta ou sétima dose de coquetel de frutas, chamou sua atenção.

— Didoooo... Preciso fazer xixi. — disse um ariano extremamente corado e sorridente — Não saia daqui, está bem? Preciso de mais umas dicas, porque vou seguir seu conselho. É hoje que eu pego aquele loirão de jeito!

Afrodite nem ouviu o que Mu dissera. Em sua mente uma teia de tramas se desenvolvia, e seguindo seu raciocínio ilógico, imaginava que havia caído em uma armadilha de Camus que, seduzido por Misty, havia trazido os irmãos Ivanovenkos ao bordel apenas para que ele tivesse aquela ideia da suruba. — "Por isso ele tinha aço lemuriano!" — bingo.

Tudo agora estava claro, e deturpado, na mente tão peculiar e imaginativa do pisciano.

Porém, não era com Aquário que iria tirar satisfações. Se Camus engendrara todo esse plano contra si, só podia ter sido influenciado por uma pessoa: Misty de Lagarto!

Apanhou o copo vazio que trazia consigo momentos antes e o bateu contra o balcão do bar, produzindo um estalido alto e chamando a atenção de Aldebaran, que logo veio para perto de si.

— Bota outra dose ai, Touro chifrudo! — pediu, enquanto acompanhava Lagarto com olhos perscrutadores, tal qual uma fera pronta a dar o bote.

Aldebaran, que só servira água para ele desde que chegara ali no balcão com Mu não teve dúvidas. Passou a mão da garrafa de água e tornou a encher o copo.

Sem tirar os olhos de Misty, Afrodite virou água numa golada só, fazendo uma carranca feia ao final, como se tivesse sorvendo uma bebida alcoólica de teor muito forte, e então repetiu o gesto, batendo com o copo no balcão.

— Argh!... Outra! Bota outra!

Novamente Aldebaran, apertando os lábios para abafar uma risada, lhe serviu outra dose de água mineral pura e fresca, a qual também fora lançada goela abaixo numa só golada.

— Argh! Essa pinga é da boa! Lazarenta, subalterna! Baixa patente! Cria do fosso lamacento do Hades! — bateu o copo contra o balcão e, sacudindo os ombros como um lutador que sobe ao ringue na prenuncia do combate, cruzou o salão em direção a Misty, que agora se aproximava da mesa de som.

Chegou no loirinho colando seu peito ao dele e lhe dando um empurrão usando o peso de seu corpo, tal qual um pombo raivoso.

— O que é isso? Tá doida, bicha? — disse Misty, assustando-se com a abordagem do outro.

— O que pensa que está fazendo dando em cima do bofescândalo de gelo, seu exú de ventosas nos dedos? Ele tem dono! Ele é meu! — cuspiu as palavras, cerrando os dentes e bufando de raiva frente o outro.

— Seu? Você se acha, não é Afrodite? Quem disse que ele vai querer você depois da merda que você fez? Você não passa de um erro do passado, eu sou o futuro. — retrucou Misty, sem se acovardar nem por um minuto — Você viveu até agora sob a proteção do Grande Mestre, se achando intocável, mas eu tenho um recado para você: Saia da minha frente, desencosta essas barbatanas de mim, ou eu vou te quebrar. Agora você não é mais o protegido do Saga e eu não vou pegar leve contigo porque você tá todo arrebentado. Então, tira essa peixosidade da minha frente, assume que você perdeu o bofe para mim, ou vou engrossar com você.

Ao ouvir aquilo o sangue de Afrodite entrou em ebulição dentro de suas veias. Em sua mente se passava um filme onde via Misty dirigindo o Jaguar preto do ruivo, coberto em joias caríssimas que ganhara dele, usando brincos de Aquamarine, e com Camus a seu lado lhe fazendo declarações de amor em francês.

Foi demais pare ele. Não permitiria que Lagarto roubasse seu lugar.

— DESGRAÇADO! — acompanhado do grito veio um soco, ligeiro e potente, que Afrodite desferiu contra o rosto de Misty o fazendo cambalear para o lado e cair por cima de uma das mesas — EU MATO VOCÊ SEU ARROMBADO DE MERDA!

Misty só teve tempo de soltar um gemido antes de sentir as mãos poderosas de Peixes agarrando seus cabelos.

Continua...

*Dicionário Afroditesco

Ajeum – comida.

Apagar a vela – fazer sexo.

Baygon – qualquer bebida alcóolica.

Colocada – drogada.

Cunete – sexo oral no ânus, o famoso beijo grego.

Mágoa de cafuçu – inveja das braba.

Matim – sem graça, pequeno, muxiba, chinfrim.

Tô inhaz – estou quase chegando ás vias de fato.

Tô Kátia – tô Mônica, tô bege, tô loca, tô passada, tô sépian, tô toda cagada. (estou chocada!)

**Dar um tapa nas ideia – usar drogas, no caso de Máscara da Morte, fumar maconha.