Uma troca de olhares.

Apenas mais uma dentre as tantas que se deram desde que o intrépido cavaleiro de Gêmeos decidira guardar toda sua mágoa e rancor dentro de uma caixa de veludo azul, sem trancas ou cadeados, e trazer a esquentada amazona de Serpente para viver consigo, ainda que sob um disfarce desonroso de prostituta.

Sim, um disfarce, o qual Saga não encontrava mais forças dentro de si para manter incólume.

Aquela era uma data especial e de uma maneira ainda que torpe, era a primeira vez que tinha sua amazona somente para si, sem a arbitrária presença de Kanon.

Era a chance que aguardara há anos, desde sua tenra infância.

Depois daquela troca de olhares, sentiu que não poderia mais viver sem dizer a Geisty o que realmente sentia, além do real motivo de ela estar ali, encabeçando o ranking das prostitutas mais desejadas de toda a Europa.

Dessa vez não iria vacilar. Kanon já não existia mais, e a voz em sua mente, ainda que clamando por ser ouvida, dessa vez não seria mais forte que sua convicção.

Nada mais o impediria de seguir sua própria vontade, ao contrário do que fizera a vida inteira.

Por isso, abandonou qualquer decoro que ainda pudesse ter naquela noite e sem pensar duas vezes deixou falando sozinhos os políticos que o abordaram logo que a apresentação de dança findou, e seguiu a passos largos e decididos cruzando o salão rumo aos camarins.

Tinha que falar com ela.

Ao mesmo tempo, no camarim atrás do palco, Geisty era acometida pelo mesmo sentimento avassalador que varrera toda a insegurança e temores de Saga de Gêmeos.

Os olhos de ambos, naquele momento arrebatador durante a dança, dialogaram palavras mudas que as bocas em meses de um convívio atribulado não conseguiram verbalizar.

Tudo que Geisty conseguia pensar ali, enquanto ouvia seu coração bater acelerado e sentia o ar lhe faltar, era no beijo que trocara com o geminiano.

Assim como Saga se negava a ouvir a voz dentro de sua mente e também as vozes dos convidados que clamavam por sua atenção enquanto ele cruzava o salão às pressas, Geisty também calou a voz de seu raciocínio. Tinha plena consciência de que estava saltando de cabeça do cume de uma montanha desconhecida para dentro de um abismo escuro e sem volta — e sem para quedas — mas, caso permanecesse na borda desse abismo, caso não ousasse desvendá-lo e olhar para o que havia dentro dele, sua ruína apenas seria mais lenta, já que a sabia ser inevitável!

E foi assim que Geisty, ao mesmo tempo em que Saga cruzava o salão ligeiro, deixou o camarim em polvorosa atravessando o corredor que levava ao palco como um rastilho de pólvora, até que subiu as escadas, galgou pelo assoalho de madeira, produzindo um som estridente ao chocar os saltos dos sapatos com o solo, tateou a cortina vermelha de veludo em euforia até encontrar a abertura entre ambas as partes e brotou para o lado de fora, de frente para o grande salão.

Seu intuito era justamente usar o tablado, já que era mais elevado e lhe permitia uma visão ampla de todo o ambiente, para encontrar Saga no meio de toda aquela gente.

Qual não foi a surpresa da bela amazona, no entendo, ao ver Gêmeos ali, diante do palco, de frente para si!

Os olhos violetas logo encontraram os olhos jades que os encaravam sem piscar.

Gêmeos interrompeu o passo logo que a viu surgir no palco e desde então não conseguiu fazer outra coisa que não fosse olhar para ela e... sorrir. Sorrir como nunca havia sorrido para a amazona antes. Sorrir ao em vez de ter de dizer qualquer outra coisa, pois tudo que intencionava seu espírito estava contido no sorriso largo e sincero do geminiano.

E como se não fosse preciso mesmo palavras, Geisty, ofegante e ansiosa, lhe sorriu de volta, numa resposta afirmativa ao que nem precisava mais ser dito.

Finalmente Serpente e Gêmeos haviam se encontrado, depois de muito se procurarem.

Mas, como todo encontro está fadado a uma despedida, ainda que breve e temporária, aquele do cavaleiro com a amazona fora interrompido por um grito enérgico que surpreendeu a todos, tanto pela potência vocal de quem o proferiu, já que ele pode ser ouvido ecoar pelo salão se sobressaindo até mesmo à música que tocava, quanto pelo teor chulo do brado.

— DESGRAÇADO! EU MATO VOCÊ SEU ARROMBADO DE MERDA!

O olho esquerdo de Saga tremelicou, num claro rompante de nervosismo.

De imediato Gêmeos reconheceu a voz de Afrodite de Peixes, mas sua mente não queria conceber que novamente aquele cavaleiro destrambelhado estivesse metido em alguma encrenca dentro de seu bordel.

De cima do palco, Geisty, que ouvira o grito de Afrodite assim como todos ali, não desviou os olhos do rosto de Saga nem por um segundo sequer. Angustiada, agora a amazona via nas orbes cor de jade do geminiano um lampejo de dúvida que momentos atrás não existia neles e de pronto já sentia seu coração comprimir o peito, levando embora o sorriso genuíno que há pouco tinha no belo rosto.

Sorriso que também se despedia da face de Gêmeos na medida em que ele ouvia o som de vidro se quebrando, da madeira sendo partida, das mulheres assustadas correndo aos berros e dos homens maldizendo a segurança da casa.

Ali, cavaleiro e amazona enfrentavam um novo dilema.

Ele deveria escolher entre voltar para trás e impedir que Afrodite arruinasse seu negócio, ou seguir em frente e abrir seu coração à menina dos seus olhos, sua amazona, a quem tanto esperara.

Ela estava novamente disputando com o cavaleiro de Peixes a atenção e prioridades de Saga... Esperando ser a escolhida da vez, pois não podia crer que estava tão apaixonada ao ponto de acreditar que a troca de olhares com Gêmeos fora fruto de sua imaginação sonhadora e que na verdade ele sempre preferiu Afrodite.

Não.

Não podia ter sido sua imaginação. Saga estava ali, diante do palco, olhando para si.

Foi quando Gêmeos deu um passo para trás, depois outro, afastando-se aos poucos, enquanto ainda olhava nos olhos violetas de Geisty, sentindo seu coração apertado ao ver uma lágrima solitária saltar de um deles e deslizar pelas maçãs do rosto belo e atormentado da amazona.

— Me perdoe... — os lábios apenas se mexerem, sem deixar sair a voz, somente para que Geisty os pudesse ler — Me perdoe... — novamente um pedido mudo, antes de o geminiano finalmente quebrar o contato visual com a amazona, para lhe dar as costas e mergulhar na turba frenética que se formava no fundo do salão.

Enquanto Gêmeos tentava transpassar o mar de gente alvoroçada que assistia à briga, no ringue improvisado no meio do salão Afrodite, possuído por uma ira insana, arrastava Misty por entre as mesas o puxando pelos cabelos longos enquanto o chacoalhava com movimentos frenéticos, fazendo-o perder o equilíbrio e patinar sobre o piso encerado, por várias vezes se chocando contra cadeiras, garrafas e tudo que houvesse pela frente.

Lagarto em contrapartida agarrava-se aos pulsos do sueco na tentativa de fazê-lo lhe soltar as madeixas louras, ao mesmo tempo em que punha a cabeça para funcionar rapidamente, já que era ciente de que em combate físico não tinha a menor chance contra Afrodite, mesmo que Peixes parecesse ter se esquecido completamente dos tantos anos de treinamentos árduos em artes marciais na Arena do Santuário, uma vez que tudo que fazia era tentar descolar seu coro cabeludo do crânio!

— AAAAHHHHHH ME LARGA, PIRANHA ESCAMOSA! — gritava o loiro, fincando as unhas nos pulsos do pisciano — ELE NÃO TE QUER MAIS, ACEITE! VOCÊ NÃO MERECE UM HOMEM COMO O... — deteve-se, já que era parte de sua estratégia aquele blefe, o qual, por sinal, fora uma jogada de mestre, visto que, temendo que Misty falasse o nome de Camus e expusesse o francês ali na frente de todos, Afrodite soltou uma das mãos dos cabelos de Lagarto e lhe desferiu um tapa forte sobre seus lábios.

— CALA A BOCA, DESGRAÇADO! Eu te faço engolir essa língua, bicha subalterna!

Era justamente a oportunidade que Misty esperava. O peixe havia mordido a isca!

Lagarto conhecia Afrodite como ninguém, logo, sabia que ele se desestabilizaria frente à iminência de ter o segredo de Camus, confiado a si, revelado.

Sendo assim, Misty agiu rápido e quando Peixes lhe bateu no rosto imediatamente agarrou sua mão e torceu o braço do Santo protetor da última casa zodiacal para trás das próprias costas. Quase no mesmo instante que executava o golpe, o francesinho usou o peso do próprio corpo para empurrar o pisciano contra uma das mesas que ainda restavam de pé ao redor deles, o fazendo bater com as costas, ainda muito machucadas, na madeira.

— AARGH!... MALDITO... EU... EU TE MATO! — gritou o sueco cerrando as pálpebras, em seguida deixando escapar um gemido tépido dos lábios manchados de sangue, mas, num gesto ainda mais ligeiro que o golpe de Lagarto, Peixes projetou a cabeça para frente e acertou o nariz de Misty com a própria testa.

O golpe não fora muito inteligente, visto que Afrodite ainda tinha o supercílio suturado. Com o impacto, alguns pontos se abriram na mesma hora e o sangue logo escorreu para fora da ferida, mas, cego de ódio como estava, o pisciano nem se deu conta, partindo para cima de Lagarto com fúria redobrada, estapeando, arranhando seu rosto e novamente lhe puxando os cabelos, arrancando tufos loiros que voavam pelo salão.

— AAAAAHHHHH... SUA LOCAAAAA!

Entre gritos, tapas, arranhões, puxões de cabelos e muitas ofensas de baixo calão, os dois cavaleiros, prata e ouro, rolavam pelo chão e proporcionavam um show de baixarias à parte.

Olhando a cena deplorável junto a todos os outros convidados estava o Prefeito de Atenas, Praxédes, que naquela noite havia comprado um programa justamente com Afrodite e não estava nada feliz com o que via ali.

— Que absurdo, Malfoy! — disse num quase cochicho a seu secretário particular, o qual o acompanhava todas as vezes que ia ao bordel — Eu paguei 20.000 Dracmas para foder o rabo desse Cavaleiro de Ouro hoje e olha a que papel ele está se prestando!... Cancela o pagamento, Malfoy. Agende para outro dia e abra uma ficha de reclamação ao dono desse estabelecimento... Saga ainda não entendeu como a banda toca!

Deu uma última bebericada no whisky em seu copo e com um sinal ao secretário deixou o local extremamente irritado, esbarrando em Camus de Aquário no caminho, que assistia àquela cena deplorável completamente atônito.

Quando a briga começou e as pessoas principiaram a correr desorientadas pelo salão, Camus se levantou como todo mundo para verificar o motivo daquela dispersão repentina, assim como dos gritos e quebra-quebra. Ao ver Afrodite atracado a Misty entre chutes, tapas e arranhões, o aquariano empalideceu. Era como se todo o sangue de seu corpo houvesse escorrido para fora e o deixado em um estado inanimado. Parecia um fantasma!

Sem força alguma para reagir, teve a sorte de estar ainda com seus óculos escuros, pois nem bem piscava, o que certamente chamaria a atenção de quem nele reparasse.

Camus estava absorto, tanto com o que via, quanto com o que lhe passava pela cabeça.

Era de um conhecimento geral que Peixes e Lagarto se estranhavam sempre que estavam juntos, inclusive que já haviam brigado na frente de todos em muitas outras ocasiões, porém agora Camus era ciente de que ambos, Afrodite e Misty, conheciam seu segredo.

Aquela não era uma ocasião qualquer, portanto.

Assim como temia que aquela briga não fosse por um motivo fútil como todos os outros.

Camus temeu ser ele o motivo, afinal era coincidência demais ter tido uma conversa com Lagarto instantes antes de Afrodite passar como um trator sobre ele.

Por isso, quando viu os dois cavaleiros caindo sobre as mesas e rolando pelo chão aos gritos, Aquário congelou, e sem fazer uso de seu cosmo.

Fora tomado por uma paralisia repentina, fruto do medo que sentia em ter sua intimidade revelada.

Com o esbarrão de Praxédes, Camus conseguiu reorganizar minimamente as ideias, mas ainda não sabia como proceder diante daquela situação, até que, como uma resposta divina e providencial, sentiu seu braço ser agarrado com força e logo ser puxado para o olho do furacão.

— Anda, Camus, venha. Mexa-se!

Quem o puxava era Saga, que furioso empurrava quem estivesse à sua frente para chegar até os dois brigões no meio do salão.

Gêmeos poderia ter feito um sinal para Aldebaran, ou Aiolia, mas na confusão só pode ver Leão correndo até Marin para puxar a ruiva para longe dos copos e garrafas voadoras, enquanto Touro usava seu tamanho avantajado para proteger as bacantes que assustadas procuravam abrigo atrás do balcão do bar.

Milo àquela altura já deveria estar enfiado no quarto de uma bacante, e quem mais deveria estar ali, Máscara da Morte e Shura, mal havia dado sinal de vida.

Provavelmente não estava em seu juízo normal quando nomeou Câncer e Capricórnio para seguranças de seu bordel, tampouco quando, ingenuamente, acreditou que envolver Afrodite no seu negócio daria certo. Logo ele, um cavaleiro que possuía um temperamento explosivo e indomável.

Contudo, não era hora de pensar nas escolhas erradas que fizera. Peixes estava mais uma vez na iminência de destruir seu tão suado empreendimento e seu disfarce para com a Vory v Zakone, e isso Saga não iria permitir.

— Aquário, eu vou segurar Afrodite e você arraste o Lagarto para longe daqui. Agora! Vá!

Mal terminou de proferir a ordem, largou do braço de Camus e saltou sobre os brigões, agarrando Peixes pela cintura e logo com um tranco o levantando do chão.

Ao sentir-se ser agarrado e puxado para cima, Afrodite apertou com ainda mais força ambas as mãos que agarravam os cabelos de Misty, o trazendo junto consigo, ao mesmo tempo em que chacoalhava a cabeça do francesinho e rosnava feito um bicho raivoso.

— GRRRRR... SUA... EQUEZEIRA* DO SUBMUNDO!

— Larga ele, Afrodite de Peixes! Isso é uma ordem! — berrou Saga, enquanto Camus aparecia por trás de Misty e o agarrava pelos ombros.

Mas foi só Peixes ver Aquário ali, atracado a Lagarto, ainda que para apartar a briga, que sua fúria se intensificou.

— NÃOOOO, LARGA ELE. LARGAAA! NÃO TOQUE NESSA CRIA DO AQUERONTE! EU MATO VOCÊ, CASCUDA DESGRAÇADA! EU MATO OS DOIS! — ralhava Afrodite.

— Largue ele você, cavaleiro de Peixes! Eu não vou repetir a ordem! — Saga gritava com ainda mais propriedade, cedendo ao próprio descontrole.

— EU QUE VOU ACABAR COM A TUA VIDA, BICHA PEIXOSA! ESPERA SÓ PRA VER! — berrava Misty em contrapartida.

Camus por sua vez, permanecia quieto, concentrado e assustadíssimo.

Em tantos anos de Vory v Zakone, brigas, operações perigosíssimas, torturas escabrosas, jamais tinha sentido tamanha apreensão na vida como diante daquele arranca rabo entre os dois cavaleiros, até que uma ação inesperada de Misty acabou com todo o impasse.

Lagarto, no desespero em salvar o pouco que sobrara de seu precioso cabelo após tufos e mais tufos arrancados, esticou um dos braços e puxou uma cadeira próxima a eles, imediatamente a acertando em cheio no rosto de Afrodite, o fazendo, enfim, largar suas madeixas.

Com o golpe, Gêmeos e Peixes foram ao chão, com o pisciano caindo sentado em cima do geminiano.

Camus aproveitou a oportunidade para puxar Lagarto dali e rapidamente o entregar à Shina, que já vinha correndo a seu encalço. Não que a amazona de Ofiúco nutrisse alguma amizade ou ao menos se preocupasse com Lagarto, mas porque tanto ela, quanto todas as outras bacantes estavam assustadíssimas com a reação do patrão, e o fato de ele em pessoa ir acabar com aquele perrengue.

Só quem não estava assustado com a reação de Saga diante daquela baderna em sua festa de aniversário, e justamente quem mais o deveria estar, era Afrodite, que ainda no chão esperneava e se contorcia todo para tentar se livrar dos braços de Gêmeos para poder correr atrás de Misty.

— ME SOLTA SAGAAA! EU VOU ACABAR COM ESSA CASCUDA DESGRAÇADA! DE HOJE ELA NÃO ME ESCAPA!

Gêmeos, num impulso de fúria, levantou-se do chão com um salto trazendo o pisciano consigo.

O agarrando com força pelos ombros, virou seu corpo de frente para si, dando um chacoalhão violento no sueco e o fazendo olhar para seu rosto contorcido em cólera.

— AFRODITE DE PEIXES! QUER ME DEIXAR LOUCO, INFELIZ? CONTROLE-SE! — a voz grave e imponente de Saga só precisou ser ouvida pelo pisciano uma única vez, que de imediato parou de se remexer, arregalando os olhos azuis e encarando o geminiano — Será possível que você está tentando afundar o meu negócio, arruinar o Santuário e acabar com minha sanidade, cavaleiro de Peixes? — bradou, os olhos cintilando um brilho avermelhado.

— Não fui eu quem começou, Saga, foi aquela maldita cascu...

— CALA A BOCA! Eu estou com ganas de MATAR você, Afrodite. MATAR!... Seu irresponsável! E pensar que um dia achei que poderia contar com sua ajuda... Deveria te tirar a armadura e trancafiá-lo no Cabo Sunion!

Arrastando o pisciano pelo braço, Saga o conduziu até o bar, onde Camus ajudava Aldebaran a recolher algumas garrafas do chão que não haviam sido quebradas.

Na mesma hora, Máscara da Morte e Shura, que estavam chegando dos fundos do Templo, pararam na porta olhando para todo aquele pandemônio que havia se tornado o salão.

— Porca Madonna!... Ma io fui dar um tapa nas ideia e me deram um tapa na festa do patrão, cazzo! — Máscara da Morte não conseguiu conter o riso, mas Shura, que tinha um pouco mais de juízo, logo lhe deu um cutucão, o fazendo olhar para Saga que apontava o dedo indicador na direção dos dois.

— Vocês dois... — Gêmeos bufava de ódio — Vocês têm meia hora para conduzir todos os meus convidados a seus carros em segurança, lhes pedir desculpas pelo barraco que esse aqui... — agora dava um novo chacoalhão em Peixes —... Esse irresponsável arrumou... Depois não quero ver um só caco de vidro na porra do chão dessa merda de salão... Trinta minutos!... Vou mandar o Áries calcular o prejuízo que esse infeliz me deu e que vocês não evitaram, e ele será coberto pelo soldo de vocês três. E você, Peixes... Acho bom estar apresentável amanhã, porque dessa vez não terá licença trabalhista nenhuma. Amanhã você vai trepar até levantar a grana que me fez perder com os programas que agendei para você hoje... E... E antes que eu mate os três...

Não terminou a frase, pois já estava elevando seu Cosmo sem nem se dar conta, à beira de um ataque de nervos. Fechou os olhos e tudo que conseguiu ver foi o rosto melancólico de Geisty, e a lágrima que escorria de um dos olhos violetas dela quando a deixou no palco para ir atrás de Afrodite.

Respirou fundo, uma, duas vezes, e então empurrou o pisciano para cima de Camus, surpreendendo a ambos.

— Camus de Aquário. Suma daqui com esse puto maldito... Você já salvou o rabo dele antes, pois então salve de novo, que estou prestes a MATAR esse... esse... É uma ordem!

Deu as costas a eles e praticamente correu até à escadaria que levava ao segundo andar do Templo de Baco, onde ficavam os quartos. Tinha que falar com Geisty, tinha que lhe dizer tudo, jurou a si mesmo que diria antes de Afrodite arruinar seus planos.

Só não perderia a sanidade naquela noite se a amazona de Serpente não lhe repudiasse, caso contrário teria que cavar três covas para aplacar sua fúria. Uma para seu prostituto mais problemático e outras duas para seus seguranças imprestáveis.

Afrodite era conduzido pelo braço por Camus de Aquário até o lado de fora do Templo.

Não olhava para frente enquanto andava. Olhava para o rosto de Camus.

Não via seus olhos, já que o ruivo ainda não tirara os óculos escuros desde que chegara à festa, mas o conhecendo como ninguém, sabia que tinha a fisionomia centrada e sisuda de sempre.

Apesar de ter rolado no chão com Lagarto, voado em cima de uma mesa, levado uma cadeirada na cara, fora os chutes, arranhões e tapas a perder a conta, as malditas orelhas de coelho ainda permaneciam na cabeça de Peixes que, guiado pelos passos do aquariano, desceu a escadaria lateral como se pisasse em nuvens, uma vez que tudo que havia agora em seu pensamento peculiar, eram apenas ele, Camus e uma trilha etérea que o levaria a um mundo fantástico de sonhos.

Ao final da trilha, porém, aquele caminho encantado se desfez como bolhas de sabão em contato com o vento, mais precisamente no momento em que Camus soltou seu braço e afastou-se de si alguns passos.

Em silêncio, Aquário olhava para Peixes sem saber ao certo por que estava ali com ele, o olhando. Afrodite já o tinha magoado de todas as formas e tudo que não queria naquela noite fatídica era estar ali, cara a cara com o pisciano. Porém, não iria contra uma ordem do Grande Mestre, já que além de afrontá-lo ainda poderia levantar suspeitas.

Só não imaginava que sua noite terminaria daquela forma. Maldizia-se em pensamento pelo que pensava em fazer, mas antes mesmo de tentar conter seu ímpeto, aproximou-se novamente do pisciano e ergueu os braços, fazendo menção em tocar em seu rosto.

Afrodite recuou assustado, talvez por puro reflexo de seu instinto de sobrevivência, e nessa hora Camus se interrompeu parando com o braço no ar, mas sem desistir de seu intento.

— Non se preocupe. Non vou te machucar. — assegurou em um tom de voz baixo e brando, e então, olhando nos olhos do sueco por detrás das lentes dos óculos escuros, levou a mão até a tiara com as orelhas de coelho que ele usava, a retirando de sua cabeça.

Com extrema delicadeza usou a outra mão para puxar a franja farta de Afrodite para trás, desnudando sua testa ferida, e recolocou a tiara na cabeça do pisciano a utilizando para manter os fios presos para trás. Retirou um lenço do bolso do blazer e criando uma fina camada de gelo sobre o tecido o esfregou entre as mãos para umedecê-lo, em seguida se pôs a limpar o sangue que maculava o rosto do sueco, estancando o sangramento com uma finíssima camada de gelo sobre o supercílio.

Sem esboçar uma mínima reação que fosse, Afrodite deixava Camus limpar seu rosto enquanto olhava para ele como que parecendo estar sob efeito de algum encanto. Aos poucos sua respiração, que antes era acelerada e ofegante, se abrandava, em contrapartida seu coração acelerava a cada toque do lenço gelado contra sua pele.

Num gesto até que mecânico, ergueu um dos braços na intenção de retirar os óculos de Aquário. Sentia desejo em olhar para os olhos avelãs que tanto lhe encantavam, mas deteve-se no meio do percurso baixando o braço, pois temeu uma reação inesperada do outro.

Contentou-se em apenas olhar.

Camus então segurou em seu queixo e delicadamente correu o lenço pelos lábios do pisciano, já que estavam sujos também. Nessa hora, Aquário sentiu seu peito comprimir e a garganta lhe apertar a ponto de lhe faltar o ar. Como desejava tomar aqueles lábios...

Porém, manteve-se firme. Sólido como uma das paredes de gelo eterno siberianas.

Já Afrodite sentia seus joelhos tremerem e o estômago se revirar — "Como alguém com um toque tão delicado pode ao mesmo tempo causar tanta dor?" — pensou, ao mesmo tempo em que entreabria a boca na intenção de dizer algo, mas a lembrança do rosto severo de Camus lhe dizendo que era feio, vazio, uma cadela no cio e podre por dentro, fez o pisciano cerrar novamente os lábios e baixar o olhar.

— Camus... — disse baixinho.

Aquário se afastou na mesma hora. Não sabia como proceder, nem como olhar para Peixes depois do que acontecera entre eles. Queria ir embora, nunca mais voltar ali, nunca mais olhar para ele, já que Afrodite não merecia seus cuidados, na verdade não merecia nada de bom que viesse de si. Era um maldito que o enganou e o usou como bem quis.

Mas, para seu infortúnio, Camus não conseguia se mexer, não conseguia ir embora, e foi com extremo pesar e ódio de si mesmo que respondeu quase num fiapo de voz.

— O quê?

O coração do francês bateu mais forte quando sua vontade íntima e secreta lhe assoprou nos ouvidos que talvez aquele chamado de Afrodite viesse seguido de um pedido de perdão. Não que estivesse preparado para perdoá-lo, talvez nunca de fato estaria, mas saber que Peixes reconheceu seu erro já lhe amenizaria a dor que sentia.

Mas, Camus mais uma vez estava errado.

— Você e a Lagartixa, vocês... Vocês estão juntos agora, você... Você quer aquela truqueira* cria do fosso do Aqueronte?

O balde de água fria acertara Aquário em cheio.

— Branleur! (Mas que estúpido!) — crispou os lábios num ranger de dentes, arregalando os olhos em estupefação — Va te faire foutre, Afrodite! (Vá se foder, Afrodite!)... Como eu sou idiota! Idiota!

Camus deu as costas ao Santo de Peixes, já se distanciando alguns passos.

No entanto, afoito o pisciano logo veio atrás dele, mancando e desgrudando alguns fios de cabelo que estavam colados em seu rosto.

— Eu... eu entendo se o quiser... Camus... Quer dizer, não. Não entendo!... Como você pode ter falado sobre a gente justamente para aquele vuduzeiro* de ventosas?

Camus parou na mesma hora e se virou de frente para Peixes, apontando o dedo em seu rosto.

— Você é idiota ou o que, Peixes? É claro que eu non falei nada para o Lagarto sobre nós, seu cretino. Ele descobriu, porque você deve ter dado com a língua nos dentes e nem percebeu!

— Eeeeu?... Mas eu... — espalmou ambas as mãos no peito, indignado, mas logo se deu conta de que tudo não passava de mais um dos joguinhos sujos do cavaleiro de Lagarto — Aaaaaaah... Mas, é claro! Como eu fui burro! Burro! — deu um tapa na própria testa, novamente abrindo o corte no supercílio o fazendo sangrar — Aiii... É lógico que ele estava blefando... Eu mato aquela cria da fossa do Submundo! Você não percebe o que ele está fazendo, Camus? Ele está tentando me afastar de você!

— Oh, é mesmo? Eu acho que ninguém consegue fazer isso melhor que você mesmo, Afrodite. — disse irônico — Se non percebeu, já non estamos mais juntos. Você mesmo me afastou de si, idiota, da maneira mais baixa e vil que alguém poderia fazer. Non ponha a culpa em ninguém.

Num gesto rápido e ousado, Peixes ergueu novamente o braço e dessa vez arrancou os óculos escuros do rosto do aquariano, revelando suas íris avelãs que tanto gostava de admirar, mas que agora pairavam num mar avermelhado de melancolia, quase ocultas por pórticos semicerrados que lutavam para permanecer abertos.

Irritado, Aquário ainda tentou disfarçar, olhando para os lados e tentado reaver os óculos, mas já era tarde. Sua fraqueza havia sido constatada.

Sem mais lutar, Camus olhou para Afrodite que o encarava em agonia e nessa hora o Santo de Peixes não enxergou os olhos encantadores, dóceis e verdadeiros de Aquário... Ali eles lhe pareciam apagados, tristes, inexpressivos, além de muito inchados.

Era nítido que Camus havia chorado.

Porém, Afrodite agora conseguia entender o que ele sentira, pois sentiu raiva ao vê-lo próximo a Misty. Também não suportou ouvir o miserável lhe dizer que tiraria Camus de si. A ideia de perder o aquariano lhe doeu mais que as trinta cintadas que levara nas costas!

Assim como olhar para os olhos inchados do francês lhe doía na alma.

Sentiu-se um miserável por não ter percebido que era especial para Aquário, assim como via agora que ele também era para si.

Peixes baixou o rosto quando uma lágrima saltou de um de seus olhos, então esticou o braço devolvendo os óculos a Camus. Temia ter transformado o aquariano em um homem ainda mais frio do que imaginara que ele fosse.

— Camus... Adiantaria se eu te dissesse que... Estou arrependido... Pelo que fiz?

O Santo de Aquário apanhou os óculos das mãos do pisciano, mas não os colocou, os guardando no bolso do blazer. Sentiu sua vontade vacilar diante das lágrimas do outro, mas era uma fera ferida e não se deixaria enganar novamente por ele nunca mais. Assim, deu as costas a Afrodite e tateando os bolsos da calça encontrou o maço de cigarros que agora sempre trazia consigo. Por sorte ainda havia um ali. O acendeu devagar, tragou a fumaça profundamente, apreciando o ato como se fosse um tipo de degustador de nicotina, e a soltou para cima, fechando os olhos enquanto refletia sobre o que o outro dissera.

— Non. Non adiantaria. — encarava a escuridão da noite à sua frente, dando outra tragada no cigarro, um dos poucos prazeres que ainda desfrutava na vida — Eu sei que se arrepende, afinal eu machuquei seu rosto, marquei seu corpo, destruí uma pequena fortuna que te dei em joias... É obvio que se arrepende, Afrodite, você é vaidoso... — nem sabia por que ainda estava ali, conversando, mas não conseguia ir embora — Também me arrependo. — conclui em voz baixa, mais para si mesmo que para o outro.

— Não! Não! Você está errado! — Peixes aos tropeços corria até ele, parando em sua frente e o encarando nos olhos novamente, em completo desespero — Não falo das joias, nem do coió* que você me deu, eu falo... Eu me arrependo de ter subestimado os seus sentimentos, Camus... Me arrependo de ter agido feito um... Feito uma cadela no cio. — baixou o olhar, pois não podia encará-lo enquanto dizia aquilo, sentia muita vergonha — Eu me arrependo de não ter sabido dar valor ao presente mais valioso que você me deu, Camus... sua companhia, seu carinho... sua entrega.

A essa altura, Peixes não conseguia mais conter o choro, entregando-se a um pranto convulso que sustentava todo o peso de sua culpa e remorso, e também um pouco de medo em nunca mais conseguir reconquistar a confiança de Camus de Aquário.

— Por que faz isso? — balbuciou o ruivo, não conseguindo conter o próprio pranto, uma vez que ver Afrodite sofrer daquela maneira, apesar de considerar merecido, lhe cortava o coração.

Deu uma última tragada no cigarro, agora com pressa, pois estava nervoso, agitado e nem sabia mais como lidar com aquela situação, e jogou a bituca no chão, a apagando com a sola do sapato.

— Eu... Eu sinto sua falta, Camus.

— O que você quer, Afrodite? Quer me enlouquecer? Non bastam todas as humilhações as quais me submeti por você?... Por acaso essa é sua vingança contra mim e os anos em que te tratei mal, te ofendi, te agredi... É isso? Se queria me ver destruído, derrotado e humilhado, parabéns, você já tem sua vingança. — tentava conter a voz embargada, mas falhava miseravelmente.

— Não, não, não, nãooo... — Afrodite chacoalhava a cabeça de um lado para outro em desespero, negando tudo que o francês dizia, enquanto enxugava as lágrimas com as costas das mãos — Por Dadá! Será que eu tenho a língua presa para você não entender o que estou dizendo, ou então aquela bicha cascuda de despacho furou os meus tímpanos com o alfinete da discórdia e eu não ouço o que estou falando? Camus, estou lhe dizendo que me arrependo de ter armado tudo aquilo. Foi sim, uma ideia estúpida... Eu achei, sinceramente, que você pudesse gostar, porque você é sujo e depravado... É... bem, não importa isso agora, abafa. Eu já entendi que não gosta de suruba e eu me arrependo muito, porque... porque agora eu percebo que é muito melhor o sexo quando se tem sentimento envolvido...

— Ah, é? E por que será, Afrodite? Será que é por que agora você vai ter que trepar com quem você non quer?

— Nãooo! Não é por isso... É que... Eu acho que... Camus, eu não sei te explicar, eu nunca tive uma DR* na vida! Eu só queria te dizer que... que... Camus... não sou bom com as palavras. Elas se enroscam na minha cabeça e saem todas tortas da minha boca, mas... Eu tenho sentimentos por você, Camus.

— Sentimentos? — perguntou Camus, o encarando com os olhos marejados, porém agora não mais melancólicos, mas que expressavam raiva e ressentimento — Como os que você tem por Saga?

— Saga? Não. Não tenho nada com o Saga, Camus.

— Ah, então deve ser com o Mu, ou seria com o Máscara da Morte? Está sempre junto com ele... E o Mu? Vi como ficaram o tempo todo juntos na festa... Áries me parece bem submisso, porém é uma ótima pessoa. Non faça com ele o que fez comigo. — quem falava era o ciúme e não mais Camus. Lembrava-se repetidamente das palavras do pisciano lhe dizendo que era "apenas mais um" como Ivan, e os irmãos Ivanovenkos, que tudo que queria consigo era apenas sexo — Maldita foi a hora em que entrei por engano em seu quarto... — enxugou as lágrimas, esgotado.

Ter Afrodite tão perto de si era como ter suas energias sugadas, seus sentidos inebriados. Queria abraçá-lo, tocá-lo, beijá-lo...

Tão perto e ao mesmo tempo tão longe!

— Será que sou tão miserável assim que não mereço ter um amigo? Mu e Mask são meus amigos. — disse Peixes, ajeitando as orelhas de coelho que lhe caiam novamente sobre a testa — Mu catou os caquinhos de mim que você espalhou, Camus de Aquário. Tá boa? Mask me fez companhia me levando ajeum* todo dia, porque a sua mentira foi tão cabeluda e tão forte que todo mundo se voltou contra mim nessa merda de zona. Tô mais sujo que edi* sem chuca*!

Peixes deu uma volta em torno de si mesmo, puxou as orelhas de coelho para trás, soluçou, chorou, gemeu quando bateu com as costas no corrimão da escadaria e não aguentando mais, debruçou-se sobre Camus, prensando o corpo do francês contra a mureta de rocha e agarrando na gola da camisa dele com ambas as mãos, o puxando para mais perto de si.

— Eu tenho sentimentos siiiiim, Camus de Aquário! E as pessoas podem ter por mim também, porque... porque eu não sou vazio e podre por dentro como você disse, Camus... Eu tenho! Eu tenho sentimentos!... E eu tenho sentimentos por você, Camus. Eu gosto de você, seu idiota!

Soltou o aquariano com um safanão e no mesmo instante tencionou correr dali, para o mais longe que pudesse da presença dele, já que jamais havia dito para ninguém o que acabara de dizer a Camus, contrariando tudo que aprendera em sua tenra infância e adolescência. Podia sim amar, mas o tal amor, como o haviam alertado, era o melhor amigo da dor, ambos sempre andavam juntos, por isso deveria evitá-lo.

Na tentativa de subir as escadas às pressas, Afrodite torceu o pé, pois o salto da sandália que usava se quebrou, o fazendo cair de joelhos no chão.

Foi o que bastou para sentir-se tão inútil, visto que nem sair de uma DR* com dignidade e elegância conseguia, que tudo que fez foi se debruçar sobre o degrau da escada e se entregar novamente a um choro copioso.

Camus ainda estava meio atordoado pelo que acabara de ouvir, mas quando viu o pisciano cair de joelhos no chão de pronto foi até ele o socorrer, passando seu braço por debaixo de seus ombros o ajudando a se levantar. Em seguida o apoiou na mureta da escadaria e o encarou nos olhos novamente.

— O que você quer de mim, Peixes? Por que estamos tendo essa conversa? — perguntou o aquariano, sentindo seu corpo todo tremer diante aquele novo contado.

Não era simples perdoar Afrodite.

— Eu... não sei... — respondeu o sueco com uma fungada.

— Você nunca sabe. Nunca! — sussurrou o ruivo balançando a cabeça negativamente.

— Vá, Camus. Fiquei com a Lagartixa. Faça o que você quiser, mas saiba que não sou isso o que você pensa não.

— Mas que merde, Peixes, eu já disse que non quero nada com o Misty. Non sei de onde você tirou esse absurdo!... — baixou a cabeça quebrando o contado visual — Non foi fácil para mim suportar os dias após o que... fiz a você... Non queria ter te machucado daquele jeito. — pegou uma mecha dos cabelos de Peixes e levou ao próprio rosto, sentindo o perfume tão amado que só ele tinha.

— Eu também não queria ter te machucado... daquele jeito, Camus... — murmurou com voz embargada.

— Você fala de sentimentos... Eu amaldiçoo todos eles, Afrodite. Antes non sentir nada, ser completamente vazio, frio, duro como o deserto de gelo siberiano, do que sentir essa dor que você me plantou aqui dentro. — com a mão fechada, deu duas batidas contra o próprio peito, encarando novamente os olhos aquamarines que tanto amava, mas que desejava esquecer que um dia eles foram sua razão de viver.

Assim como Camus, Afrodite pegou uma mecha dos cabelos ruivos do francês entre seus dedos e levou até seu rosto, sentindo a textura macia que tanto lhe agradava.

A travessura a que submetera Camus não tinha volta. Camus não tinha volta! Teria que se conformar.

— Minha deusa! Sou um monstro! O que fiz a você, Camus? — sussurrou, imerso num oceano de melancolia.

— O que fizemos a nós, Afrodite. — a resposta viera em forma de uma pergunta velada, sussurrada e indagada a ambos.

Passados alguns minutos em que ficaram em silêncio absoluto, Camus observou que praticamente todos os convidados já haviam deixado o Templo de Baco, onde agora só restavam a equipe da faxina. Mesmo Máscara da Morte e Shura, que haviam ficado até que todos houvessem saído, já haviam voltado ao Santuário.

As bacantes estavam recolhidas em seus quartos, e foi pensando nisso que Aquário propôs a Afrodite ajudá-lo a subir até o aposento que Peixes ocupava ali mesmo, no bordel, já que não podia arriscar ser visto subindo as doze casas junto a ele.

Peixes tinha os joelhos ralados e o pé dolorido, fora as tantas outras contusões por todo o corpo, muitas delas causadas por sua ira insana, inclusive. Dessa forma, Camus achou de bom tom não abandoná-lo ali, mesmo depois de ouvir aquela confissão um tanto quanto tardia que mais lhe dera raiva do que esperança e que sequer havia servido para abrandar sua mágoa.

Era fácil para o sueco dizer que gostava de si agora, depois de tê-lo perdido.

Sendo assim, sem objeção alguma do pisciano, Aquário passou o braço de Peixes por seus ombros e usando a passagem dos fundos, já tão comum a si, conduziu o guardião da décima segunda casa zodiacal até seu quarto.

Chegando lá, o ajudou a se deitar na cama, notando que Afrodite tinha passado o trajeto todo calado. Nem das dores reclamara, o que não era nada comum para alguém como ele.

Mas Camus não disse nada. Não havia o que ser dito.

Na cama, Peixes pensava o mesmo.

Desde a hora em que, mesmo de um jeito destrambelhado, dissera que tinha sentimentos pelo aquariano, Afrodite ficara esperando uma resposta. Não que Camus já não havia lhe dito que também gostava de si. Ele disse, e da pior forma, com uma cinta na mão, aos prantos e lhe causando dor e desespero.

Contudo, o pisciano tinha um fio de esperança de que aqueles sentimentos que Camus havia lhe confessado na fatídica noite em que lhe dera uma surra não haviam sido trancafiados para sempre dentro de seu coração gelado.

Foi quando Camus se afastou da cama para pegar o caminho da porta que Afrodite, num gesto aflito, sentou-se sobre o colchão e esticando o braço agarrou o pulso do francês.

Camus sentiu seu coração dar um pulo dentro do peito e sua vontade vacilar novamente, mas manteve-se firme, sem virar para trás, sem olhar para ele.

— Non faça isso, Afrodite...

— Por que me ajudou? Por que não... Fica aqui hoje, Camus? Dorme aqui comigo...

Camus continuou parado, sentindo o peito doer e a vontade abalar.

Uma noite.

Era sempre isso que o outro tinha a lhe propor. Uma noite.

Aquário não queria passar uma noite com Afrodite. Desejava muito mais que isso, mas, mesmo diante daquela confissão torta e mal feita, Peixes parecia continuar não entendendo o que ele queria. Ou era Camus quem não compreendia as palavras ditas pelo pisciano?

— Non posso. Non quero... E eu o ajudei porque non havia ninguém que o fizesse... Estão todos em suas casas e é para onde eu vou também. — com um safanão puxou o braço para frente, livrando-se da mão do pisciano — Tome um analgésico que irá sentir-se melhor. — não podia olhar para trás, pois falharia e se entregaria novamente a ele. Não cometeria o mesmo erro duas vezes.

O tempo todo Aquário travava uma batalha consigo mesmo na tentativa de manter-se indiferente à todas as lembranças que aquele quarto traziam a si.

Já Peixes baixou a cabeça e novamente se deitou, apoiando as costas em algumas almofadas enquanto fazia uma careta de dor.

— Eu não preciso de analgésicos, lembra? Remédios convencionais não surtem efeito em mim... Sou venenoso.

— Sim... você é, Afrodite. — deu um suspiro cansado — Quero que entenda, de uma vez por todas, que o que tivemos ficou no passado. Non quero você brigando com quem quer que seja por minha causa. Minha vida e minhas escolhas non são assuntos seus, non te interessam. Se eu pudesse, deixaria de vir a essa merda de zona, mas sabe que non posso, portanto, espero que dessa vez entenda que non quero aproximação alguma com você. Eu cuido da minha vida miserável e você cuide da sua. E se non quiser ter mais problemas do que já tem, seja inteligente e non desafie o Saga.

A passos ligeiros o ruivo caminhou até a porta, mas antes de abri-la seus olhos foram capturados por um brilho sutil em tons azulados que reluzia fraco sobre a penteadeira de Afrodite e ao olhar para ele percebeu que vinha da rosa de gelo eterno que havia feito semanas atrás para presentear o pisciano.

Aquário franziu o cenho ao analisar a escultura, pois estava bem menor do que se lembrava e em sua base havia água. — "Non é possível que esteja derretendo!... Gelo eterno! Non tão eterno assim!... Esse é o resultado de ter colocado todo meu Cosmo pleno de sentimentos e emoções quando a fiz. Está definhando junto com meu amor por..." — não concluiu o pensamento, pois aquela triste realidade o fez sentir-se tão horrível que às pressas agarrou a maçaneta, abriu a porta e deixou o quarto, antes que mais uma vez demonstrasse sua fraqueza chorando na frente de Afrodite.

Peixes, que o acompanhou com os olhos até ele bater a porta após ter saído, ainda ficou longos minutos olhando para a madeira na esperança de, como sempre fazia, Camus voltar para lhe dar um último beijo.

Os minutos foram longos, até que constatando que o francês não voltaria, encolheu-se na cama e chorou baixinho.

A dor de ouvir Camus lhe dizer que tudo havia mesmo acabado entre eles, mesmo após lhe ter aberto seu coração e dito que tinha sentimentos por ele, era tão física quando a dor que resultava da briga de horas antes. Seu peito doía, de aflição, medo, angustia...

Já haviam lhe ensinado que gostar doía, só não imaginava que seria tanto!

Esticando o braço, apanhou a rosa de gelo eterno e como fazia todas as noites a colocou sobre o travesseiro ao lado do seu, mesmo que de manhã tivesse que coloca-lo no sol, já que amanhecia completamente úmido.

Sabia que a rosa estava derretendo, assim como sabia que o sofrimento que causara a Camus não tinha volta, mas, ainda assim, era um pedacinho do ruivo que ainda tinha perto de si e que lhe fazia companhia.

— Boa noite, Camy... — sussurrou, olhando para a rosa até que seus olhos pesaram e ele adormeceu como estava. Exausto.

***

Dicionário Afroditesco

Ajeum – comida.

Chuca – enema.

Coió – surra.

DR – discutir relação.

Edi – ânus

Equezeira – aquele que comete EQ, mentirosa, dissimulada.

Truqueira – aquele que comete truque, mentiroso.

Vuduzeiro – que bota olho gordo nas coisas, que torce pra tudo dar errado e que faz de tudo pra estragar a felicidade alheia.