Prostrada, inerte sobre o palco e completamente indiferente ao tumulto que crescia à sua frente, Geisty observava Saga ser engolido pela turba, enquanto ela mesma era tragada por um oceano profundo de águas negras e gélidas, que nada mais eram que uma projeção de toda a tristeza e decepção que, repentinamente, voltara a assolar sua alma.

Sem mais ter forças para dobrar aquela maré de melancolia e tentar nadar para longe das profundezas amargas, a amazona de Serpente baixou o rosto no mesmo instante em que a música cessara no salão, dando destaque às vozes dos Santos de Gêmeos e de Peixes, que gritavam em meio a buchichos e murmúrios dos presentes que assistiam a aquele espetáculo lamentável.

Derrotada, Geisty fechou os olhos na tentativa inútil de conter mais uma lágrima, mas essa possuía todo o peso de sua mágoa e como as águas que não podem ser contidas por comportas frágeis, descera quente cortando a maçã do rosto maquiado.

Condescendente, a morena decidiu encarar os fatos por mais dolorosos que fossem e dando dois passos para trás se deixou ser tragada pela cortina vermelha do palco, encerrando ali o papel que sonhara para o enredo de sua vida desde que assumiu a si mesma que estava apaixonada por Saga de Gêmeos.

Tentando se recompor minimamente enxugou as lágrimas que banhavam seu rosto com as costas das mãos, desceu as escadas da lateral do palco e com um longo suspiro de resignação adentrou o salão, completamente absorta a tudo ao seu redor, desde os gritos que vinham do meio da multidão aglomerada, até as cantadas sujas que ouvia ao passar pelos clientes, enquanto sentia algumas mãos mais atrevidas alcançando seu corpo na tentativa de experimentar de suas curvas.

No entanto, nada que viesse de fora seria para a amazona mais incômodo do que o turbilhão de sentimentos que a alvoroçavam por dentro.

Sendo assim, alheia a todo aquele universo a moça subiu as escadas que davam acesso ao segundo andar lentamente e tomou o rumo de seu quarto, porém nem bem adentrou o cômodo ouviu a porta se abrir num tranco.

Virou-se de frente a ela e maior ainda foi seu susto ao ver ali Saga.

Gêmeos a olhava não menos apreensivo. Não bastasse aquela festa estúpida, que não por acaso fora um fiasco, já que toda a sorte de desgraças poderia ser esperada tendo Afrodite e Misty dividindo o mesmo teto, perdera o momento propício em que decidira contar a verdade à amazona.

No entanto, Saga sabia que não poderia mais viver ao lado dela sem lhe dizer o real motivo de ela estar ali, sob o disfarce de uma prostituta.

— Geisty... — sussurrou, encarando o olhar confuso e rancoroso da morena, sentia o peito ser comprimido por uma ansiedade colossal, e por que não dizer por um medo aterrador de ter perdido a oportunidade que tanto esperara — ... Eu...

— O que você quer, Saga? — respondeu a moça no mesmo tom de voz — Depois da baixaria que o seu predileto armou, acho que o expediente já se encerrou por hoje. Ou... Veio aqui me dizer que tenho algum cliente à minha espera?

— Não... Não tem nenhum cliente à sua espera. — fechou a porta com uma delicadeza que poucas vezes se observara — O único que ainda espera por você, amazona, sou eu... — de frente para ela agora, Saga caminhava a passos lentos, sem perder os olhos violetas de vista nem por um segundo — Aliás... Estou cansado de esperar... Cansado de convencer a mim mesmo de que tenho você só porque a trouxe para cá, para perto de mim... Quando a verdade é que nunca a tive, Geisty.

— Saga... — balbuciou com os lábios trêmulos, tanto de apreensão quanto de ansiedade, pois não podia negar a realidade dos fatos e sempre que se deixava levar por esse mar revolto das emoções que sentia por Gêmeos o fim era sempre o mesmo, se afogava —... Por favor... Não...

— Tudo e todos entraram no meu caminho até você, mas... Mas eu não vou mais permitir que ninguém me impeça de dizer o que tenho para lhe dizer hoje... Nem mesmo você vai me impedir.

De súbito, as palavras do geminiano pareciam bloquear toda espécie de reação que Geisty pudesse ter naquele momento. Confusa e alarmada com o que acabara de ouvir, a morena procurava dentro de si um fundamento para aquela confissão, até que uma lembrança se fez presente em um lampejo de memória: Sempre fora avisada por Kanon a manter relativa distância de seu irmão, pelo fato de o namorado lhe alertar que Saga não era dono de suas plenas vontades, muitas vezes, inclusive, seu juízo vacilava e ele perdia o tino. Mesmo que Saga jamais lhe tivesse feito nada de ruim, que comprovasse o alerta de Kanon, manteve-se afastada na época, por pura precaução talvez, visto que era muito jovem e não havia por que contestar a veracidade das palavras do então namorado.

Piscou algumas vezes abandonando seus pensamentos e voltando à realidade, deixando escapar o ar que mantinha cativo nos pulmões desde que Saga soltara aquelas palavras.

— O que é isso, Saga? Está tentando me enlouquecer? — vociferou o encarando com certa gastura.

— Geisty... por favor... — dizia sentindo-se sufocar.

— Saia do meu quarto, por favor. — disse aflita, com a respiração um pouco acelerada e nervosa, então avançou alguns passos ligeiros em direção à porta, passando por Gêmeos sem olhar em seu rosto — Não quero saber o que esperou, nem por que, nem o tipo de relação doentia que nutre ai dentro da sua cabeça. Eu só sei que não quero isso para mim. Você me trouxe aqui para ser puta e eu que deveria entender isso de uma vez por todas.

— Não! — o geminiano aumentou o tom de voz e num gesto brusco esticou o braço e impediu a amazona de abrir a porta, a segurando pelos ombros e a puxando para junto de si, onde agora podiam ficar cara a cara, olhos nos olhos — Não foi para isso que a trouxe aqui, Geisty, e jamais designaria essa função a você caso não conhecesse os dons de seu Cosmo...

Geisty arregalou os olhos numa expressão assoberbada, de espanto.

— O que?... Como...

— Eu sei que usa ilusões com os clientes... Eu sempre soube que usaria.

— Você... sabe? Você... — em reflexo se desvencilhou das mãos que a continham presa pelos ombros dando um passo para trás, e puxando o ar pela boca tomou coragem para perguntar o que tinha medo de ouvir — Não brinque comigo... O que você quer de mim, Saga? — olhava apreensiva com todos os músculos do corpo tensionados e a adrenalina correndo em suas veias fazendo seu coração se acelerar.

— Por agora, Geisty... Apenas quero que me ouça... Não posso mais guardar isso dentro de mim... Não quero passar outro aniversário sozinho... Sem você ao meu lado... Chega...

Mais uma vez os olhos se encontraram, reconhecendo um no outro o que buscavam.

À volta deles o silêncio testemunhava a apreensão de um e a angústia do outro.

Saga percebeu que aquele era o momento certo, não podia titubear, e antes mesmo que Geisty tivesse uma reação contrária, suspirou resignado.

— Geisty, você não está aqui para ser prostituta. Eu sei das suas habilidades de ilusão e... a trouxe aqui na tentativa de resgatar algo que meu irmão tomou de mim e que me é essencial para me manter vivo... Mas, não é tão simples como parece, portanto, quero que sente-se e me ouça com atenção.

Geisty notava que as palavras de Saga tinham um toque melancólico, quase desesperado, e diante daquele olhar no qual se perdera momentos antes vacilou, se deixando amansar pela sinceridade que transmitiam.

— Eu... Prefiro ficar de pé, se não se importa. — a voz em tom mais baixo saía receosa dentre os lábios que tremelicavam.

— Está bem... Só me ouça, por favor, e acredite em mim.

— E por que eu deveria? — questionou a amazona com ar decepcionado em um tom um tanto quanto rancoroso.

— Por que você me deve isso.

— Ah! Eu lhe devo? — arqueou as sobrancelhas negras assumindo um semblante irônico — Você me trás para essa merda de zona, me vende numa droga de leilão para o porco do Camus, me faz atender os seus clientes de merda, e saiba que mesmo usando ilusões sou obrigada a ouvi-los, sentir o cheiro asqueroso deles... E... E quando eu penso talvez, só talvez, tudo isso seja uma farsa, porque você me olha de um jeito que... Que ninguém nunca olhou para mim... E... quando me beijou senti que não era um beijo apenas... Logo depois fui presenteada com uma sinfonia nojenta sua e de Afrodite bem debaixo da minha janela!... E eu ainda lhe devo, Saga?

Saga estava em um beco sem saída, mas longe de desistir de seu intento.

— Eu lamento muito por aquilo, Geisty... Acredite.

— Ah, mas é claro que acredito! Quase quebrou o pau... Deveria ter quebrado! — murmurou ao fim.

— Mas que caralho, mulher! Por Hades! Não... Não desvie o foco. E você me deve... Me deve sim, pelos anos em que me traiu com meu irmão!... Pelos anos em que preferiu aquele bastardo do Submundo... Nunca foi o Kanon, Geisty, nunca foi ele, sempre fui eu! Eu!... Eu, que por meses a fio, sob sol ou sob chuva, ia até a Arena de treinamento apenas para poder vê-la de longe enquanto treinava... Era eu, Geisty... E foi para mim que você deu aquele único "Bom Dia"... Era eu... Sempre fui eu! — falava exasperado.

Um silêncio denso se vez no quarto.

Aquelas palavras feriram a ambos de diferentes maneiras. Saga encarava a amazona apreensivo, ao passo que Geisty, extremamente confusa, corria os olhos pelo rosto grave do geminiano em aflição, até que de seus lábios entreabertos uma pergunta mecânica saltou para fora.

— O... que? – sussurrou em assombro, quase petrificada pela declaração que fora cuspida em sua cara.

— Kanon enganou você e a mim também.

— Mentira! É... mentira sua! Não... Por que está fazendo isso? — vociferava a amazona, enquanto apontava o dedo indicador de encontro ao rosto de Saga — O que você quer de mim fazendo isso, Saga, por Atena? Já não me tirou tudo?

— Eu não estou mentindo Geisty, jamais mentiria sobre isso. Jamais mentiria para você. Kanon é quem era o mentiroso, enganava, trapaceava... Eu... Eu sempre fui o tolo apaixonado, eu conquistei você... Foi por mim que você se apaixonou, não por ele.

— Não... — com os belos olhos violetas vidrados no rosto de Gêmeos, a voz de Geisty saia num sussurro fraco, quase inaudível, enquanto ela abaixava o braço –—O que... Não estou... entendo... — havia sido tomada de assalto por aquela revelação insólita — Não, eu perceberia...

— Somos gêmeos idênticos... Ninguém era capaz de perceber quando nos passávamos um pelo outro... Desde crianças... Até mesmo Shion se enganava por vezes...

— Não... Eu... Eu não sou burra... Eu perceberia...

— Kanon sempre teve o que quis.

— Não... Por Atena, eu perceberia! — a amazona, com a voz embargada pelo nervosismo, balançava a cabeça em angustia e negação — Não... Eu não acredito... Não é possível. É mentira... — lançou um olhar sôfrego a Saga.

— Éramos jovens... — armado de coragem o geminiano tentava desarmar a amazona enquanto se revelava a ela olhado em seus olhos bravios — Todo aquele tempo… Dia após dia passando por você na Arena e a cumprimentando... Aquela amazona durona que não olhava para nenhum dos cavaleiros... Até que, finalmente, tive meu "bom dia" respondido, depois de meses, dias e horas a fio perdidas em olhar para você, fingindo supervisionar um treinamento que de nada exigia a presença de um cavaleiro de ouro…

No peito do geminiano, o coração batia dolorosamente lhe causando um aperto a cada palavra nostálgica que proferia e que o devastava por dentro. Estava cansado de todo aquele jogo imprevisível que tomara conta de suas vidas, e sem mais suportar revelava o segredo que prometera a si mesmo levar para o túmulo.

Já na mente de Geisty, a imagem do cavaleiro de Gêmeos encostado em uma das colunas, todos os dias, emergia de suas lembranças vívida como nunca.

Lá estava ele, lindo, imponente, e mesmo por trás da máscara podia ver os olhos jades a observá-la, seguindo cada movimento. Julgava estar fazendo uma análise, avaliando o treinamento, mas uma mulher sabe quando está sendo observada com desejo por um homem.

— Não pode ser... — um balbucio escapuliu por entre os lábios carmins.

— Era eu ali, Geisty... Era para mim que você olhava por apenas alguns segundos, para logo voltar sua atenção a seu treinamento... Era eu encostado na coluna em ruínas... Era eu... o tempo todo... Não Kanon...

— Não! O Kanon... Ele... Ele não... Eu não acredito que... — Geisty apenas balbuciou novamente, ao mesmo tempo em que agarrava os próprios cabelos entregando-se ao desespero.

— Kanon era um homem que não se contentava em ter a posse de seus próprios sonhos... Ele queria tudo, e esse tudo incluía meus desejos, minhas metas, meus sonhos... Eu fui um idiota quando achei que pudesse dividir meus desejos mais íntimos com meu irmão... — soltou uma lufada de ar em deboche —... Eu estava radiante... Um "bom dia" respondido surtira um efeito em mim que jamais esperava... Tal qual uma droga potente me fez o coração disparar e eu não conseguia conter o sorriso que tinha no rosto quando cheguei em casa transbordando de felicidade e encontrei Kanon na cozinha... Ele me sondou... Lógico que queria saber o motivo da minha alegria... Então eu contei a ele que finalmente, depois de meses observando minha amazona, consegui enfim marcar um encontro!

Geisty, que de tão assoberbada tinha a face pálida e os lábios trêmulos, ao ouvir aquilo arregalou os olhos e encarou o cavaleiro sem nem piscar. Diante das orbes violetas inertes uma cena conhecida era projetada; o dia em que marcara um encontro com o Santo de Gêmeos.

Engoliu seco, sentindo a garganta raspar.

— N-Não... — balbuciou desordenada, sentindo seu estômago revirar de repente quando um enjoo inesperado a acometeu por completo — Ka... Kanon marcou...

— Não, Geisty, eu marquei! EU. — Saga elevou o tom de voz, quase num grito aflito — Era eu lá, Geisty... Eu fui até você... Eu a chamei para um passeio... — crispou as mãos, sentindo sua garganta lhe sufocar —... E quando disse ao desgraçado do Kanon que finalmente sairia com a minha amazona... Por quem... Por quem sempre fui apaixonado... Ele arquitetou um plano para me impedir de encontrar você e no dia do nosso encontro Shion me ordenou uma missão... Tendo a certeza de que eu estaria longe, Kanon foi no meu lugar. — cerrou os dentes contento um rosnado de ódio.

— Não... — a amazona levou as duas mãos à boca tentando conter um soluço fraco que viera acompanhado de lágrimas que saltavam de seus olhos aflitos.

— Ele se fez passar por mim... Disse que era o cavaleiro de Gêmeos, não disse?

—... — respondeu mentalmente que sim, e diante de seu silêncio, o geminiano continuou.

— Kanon fez uso do truque que mais gostava: ser meu clone! Idêntico em tudo, na voz, no andar, nas palavras... E eu, sem saber de nada, fiz tudo que pude para chegar a tempo para nosso encontro. E assim que o sol se pôs, quando cheguei à Grécia corri para onde tínhamos marcado... Na sombra da primeira oliveira!

Ainda sem piscar, dado seu espírito agastado e emoções quebradas, Geisty se lembrava do dia em que fora ao ponto de encontro, sendo lançada ao passado em segundos, onde via a si mesma vestida em seu uniforme de treinamento, com o rosto oculto pela máscara, mas com a alma exposta, em exalar euforia!

— Mas, eu havia chegado tarde... — Saga baixou a cabeça olhando para as próprias mãos que se torciam uma contra a outra — De longe vi você e ele... Estavam sentados ao pé da oliveira...

Uma lágrima correu pelo rosto maquiado da amazona e contornando seus lábios a fez provar o gosto salgado e amargo.

Havia sido um encontro perfeito! A sombra da oliveira e a brisa agradável do Mediterrâneo os embalara durante horas ali. Estava feliz, esperançosa, e sentia o mesmo vindo do cavaleiro de Gêmeos, que na época lhe confessara que era seu primeiro encontro e que estava apaixonado por ela. Nunca sentira seu coração bater tão forte!

— Ali, eu tomei o pior golpe que a vida podia ter me dado. Vi a garota que amava, nos braços do meu irmão gêmeo... Podia ter sido qualquer pessoa, qualquer uma, mas não ele... Eu via como poderia ser o meu futuro, como seria te abraçar... mas não era eu ali, era o calhorda do Kanon. — fechando os olhos com força para conter as lágrimas insistentes concluiu — Então, eu virei às costas e fui embora, antes de vê-lo tirar a sua máscara... Antes de vê-lo fazer o que eu já havia fantasiado mais de mil vezes em meus pensamentos. Se ficasse mais um segundo ali eu o mataria num acesso de raiva... Então fui para minha casa, tentar juntar os pedaços que sobraram de mim...

Com o final do relato, Saga sentia a garganta se espremer com o pranto que lhe brotava já aquecendo os olhos. Olhava perdido para o nada. Havia se despido de todo o seu orgulho de homem e cavaleiro e abrira seu coração, contando seu doloroso fardo à mulher que tanto amava.

Não se atrevia a se aproximar da amazona, pois sentia medo de ser rechaçado. Acabara de lhe tirar o passado.

Por isso mesmo é que talvez Saga não se atreveu a ampará-la quando esta caiu de joelhos ao chão, apoiando uma das mãos no tapete, enquanto com a outra tapava a boca na tentativa de conter a ânsia de vômito que a tomava. Talvez fosse seu corpo querendo por para fora toda aquela mentira, toda aquela crueldade.

— Geisty... — sussurrou Gêmeos, dando dois passos e se agachando à frente dela, mas quando esticou o braço e a tocou nos ombros imediatamente a garota se retraiu.

— Por que... — murmurou entre um choro convulso, erguendo o rosto e encarando os olhos do geminiano — ... Por que só agora está me contando isso... Por que? Não... Não posso acreditar isso é... É sujo é... É repugnante... Kanon... Ele... Não...

— Eu não suporto mais, será que não vê? Precisava acabar com toda essa farsa! Chega, Geisty. Chega!... Há anos que vivo guardando dentro de mim esse ressentimento, essa... Mágoa... Há anos que revivo o mesmo pesadelo... Em todo aniversário era com ele que você passava a noite... Mas agora não mais... Nós não merecemos isso.

— Vá embora, Saga...

— Geisty! — implorou, deixando uma lágrima solitária fugir de um de seus olhos.

— Por favor, por Atena, me deixe sozinha...

— Não faz isso, ainda tenho que lhe dizer por que a trouxe aqui. Você não vai me impedir.

— Me trouxe aqui para ser puta.

— NÃO! NÃO! — Saga enxugou os olhos com a palma da mão e num rompante levantou-se, puxando a amazona consigo. Via que ela estava perturbada, e não era para menos, portanto tinha que lhe revelar a verdade — Eu preciso te dizer o real motivo de trazê-la para cá e colocá-la dentro dessa maldita zona e você vai me ouvir.

— Não! Me solta Saga, não quero ouvir mais nada. — esbravejou a garota entre prantos. Talvez por medo de ouvir outra revelação que lhe quebrasse ao meio, mas quando se deu por si, já havia sido carregada no colo até a cama e sentada sobre o colchão com extrema delicadeza.

— Mas você vai ouvir. E mesmo que não entenda agora, que me julgue, me ache um monstro, um explorador, sei que no futuro você vai entender. Afinal, eu me violentei também de inúmeras maneiras para chegar até aqui, Geisty. Eu e todos que estão aqui, todos que entregaram suas vidas à causa absurda de salvar o mundo, quando o mundo está pouco se lixando em ser salvo!

Gêmeos se afastou apenas o suficiente para ficar de pé, ao lado da cama e enquanto olhava firme para o rosto atordoado da amazona, tentou conter a própria euforia, passando as mãos entre os cabelos ao mesmo tempo em que dava voltas em torno de si mesmo. Até por que, como explicar à mulher que ama que obrigá-la a se deitar com Camus de Aquário e passar por uma experiência horrível fora apenas para salvar sua vida?

Contudo, não tinha jeito, certo ou errado, os fins justificam os meios, e foi pensando nisso e na esperança de a amazona perdoá-lo, que Saga olhou para ela e sem mais vacilar lhe revelou toda a verdade.

— Eu a trouxe para cá, porque fiz um acordo com Dimitri Yurievich Volkov. Na noite em que você e Kanon foram capturados, no Cassino, a Vory v Zakone me permitiu salvar a um apenas, e este deveria restituir à máfia o dinheiro roubado pelo meu irmão... Um benefício que só me foi estendido porque Camus de Aquário, que estava lá naquela noite, achou que sendo Kanon meu irmão eu pudesse querer poupá-lo da morte, mas não de um castigo do Santuário, visto que ele era um cavaleiro e deveria ser julgado pelas nossas leis e não as da máfia... Mas...

— Mas você salvou a mim! Você... — Geisty sussurrou quase engasgando-se com a própria constatação.

— Sim... Eu salvei você... Kanon pagou com a vida e eu... — engoliu seco, sentindo sua garganta lhe apertar — Sob mim caiu a pena de fazê-la pagar a dívida que o miserável contraiu em seu nome ou... Ou então deveria entregar sua cabeça a eles.

— Deveria ter me deixado morrer... — sussurrou a amazona, sem olhar para Gêmeos, ainda mal digerira a informação anterior e essa nova agora lhe açoitava novamente o coração — Se sabia que eu jamais teria como pagar a fortuna que Kanon desviou da maldita Vory... deveria ter me deixado morrer no lugar dele.

— Nunca!... Será que não entendeu ainda que fiz isso porque... Geisty... Eu não podia entregá-la a eles... Imagina o que fariam com você? Eu nem sequer pensei... Quando Camus me disse que me deixaria salvar um dos dois, eu imediatamente mandei que levasse você ao Cabo Sunion, pois tinha que convencer o cavaleiro de Aquário de que era minha prisioneira e que, portanto, eu a obrigaria a pagar a dívida do meu irmão... Durante os cinco dias que você ficou lá, fiquei sem dormir, sem comer, apenas pensando numa forma de arquitetar um plano para convencer a Camus e Dimitri de que estava do lado deles, que iria garantir que você cobrisse o rombo financeiro deixado por Kanon, e para não perder a ajuda que a Vory v Zakone dá ao Santuário há anos... Foi então que... Tive a ideia de criar o Templo das Bacantes.

Saga sentou-se na beirada da cama e atreveu-se a tocar na mão da amazona, que estava estendida sobre o lençol, mas novamente Geisty se retraiu, encolhendo as pernas e abraçando os joelhos para afundar o rosto e chorar calada, enquanto assimilava cada palavra, enxergando verdadeiro sentido nelas, porém ainda encontrando muita dificuldade em aceitar tudo aquilo.

— Eu não podia desafiar a Vory. Todos sabem que, apesar de serem apenas civis, são eles quem mantêm esse Santuário... Uma vez que, de nada vale ter um poder de rasgar os céus se isso não põe comida nas nossas mesas... Depois, a vida de todos estaria ameaçada, já que um desequilíbrio nas relações de poder entre Rússia e Grécia poderia afetar outras máfias e apenas estaria transferindo o problema, não o solucionando... — baixou os olhos mais uma vez, apertando as próprias mãos contra o manto que usava — Então, a solução mais prática seria enganá-los, mas de uma maneira convincente. É claro que eles aprovariam sua humilhação, por isso não fizeram objeção alguma quando eu os comuniquei que abriria um bordel e que você seria o destaque da casa... Geisty...

A amazona ergueu a cabeça e ainda em prantos olhou para Saga, que lhe devolveu o um olhar ansioso.

— Geisty, eu conheço cada um que anda sobre esse solo Sagrado... Com muito custo consegui fazer com que não mexessem com Shaka de Virgem, já que ele jamais aceitou se submeter à Vory, e também com muito custo livrei Afrodite de ser exonerado apenas por ser gay, ou seja... A confiança deles em mim se tornou um fio tênue, prestes a ser rompido. Se não fosse convincente, se não os fizesse acreditarem que realmente estou do lado deles, você seria morta em um piscar de olhos... E, é justamente por conhecer cada cavaleiro, cada Cosmo e cada dom, é que eu sempre soube que você daria o seu jeito. Meu disfarce contou muito com sua essência, que é nobre, digna, e irrefutável.

Geisty arqueou uma das sobrancelhas, deixando escapar um suspiro soluçante.

— Então você... Sabia que...

— Sim... Achou mesmo que eu a colocaria em algo tão sujo se não soubesse dos dons do seu Cosmo? Sabendo que com simples ilusões você enganaria qualquer porco imundo que a quisesse tocar? Por isso eu a coloquei como a joia da casa, como a prostituta mais cara, e cobrei fortunas desses idiotas, sabia que não deixaria ninguém tocar em você, mas...

— Mas algo deu errado, né Saga? — Geisty enxugou os olhos com os punhos brancos da fantasia de coelho que usava — Milo deu errado... Camus deu errado... Afrodite também deu errado?

Saga levantou-se da cama e com um suspiro longo se pôs a caminhar pelo quarto. Ao chegar aos fundos do aposento, onde havia um grande espelho adornado por uma moldura de madeira, Gêmeos ergueu a cabeça e olhou para seu reflexo, porém o que viu refletido no vidro em nada figurava o estado aflito de sua alma.

Seu reflexo sorria! Um sorriso de escárnio, deboche e tripúdio.

— Eu disse que ela não ia entender, seu idiota. Ela é burra! Nem ligou para seus sentimentos... Ela preferia ele!

Da cama, Geisty viu quando o geminiano, de costas para si, balbuciou algumas palavras, mas não as entendeu devido o sussurro ser quase inaudível. Sentiu o cosmo do cavaleiro oscilar de leve e o vendo baixar a cabeça e esfregar o rosto com certo nervosismo.

— CALE-SE!... Agora não! — o grito veio de repente e na mesma hora Gêmeos se virou de frente novamente para a amazona na cama e a encarou. Sua testa suava, seu rosto estava corado e era como se ele fizesse força para conter algo dentro de si.

Sem esperar mais, Saga se ajoelhou à beirada do leito, tomando a mão da amazona entre as suas num gesto aflito e intempestivo.

— Geisty eu... Eu faço coisas que não posso explicar, que você não entenderia, pois nem eu mesmo entendo... Mas... Acredite em mim, eu ofereci você ao cretino do Milo num desses momentos de hiato da minha consciência... E também... Achando que você se negaria a se deitar com ele...

— O que? Você me obrigou! — retrucou a amazona — Achou o que? Que eu fosse desafiá-lo ou que... que... que usaria minhas ilusões contra ele? Um cavaleiro de Ouro?... Por Atena, Saga! — puxou a mão nervosa, se livrando das mãos dele —Pior... Você me obrigou a fazer sexo com o Camus! — franziu a testa, numa expressão de repulsa.

— Eu sei... Mas... Eu me culpo por isso cada dia e cada noite, mas... Geisty, por todos os deuses do Olimpo, como eu iria imaginar que justamente o desgraçado do Camus fosse comprá-la naquela merda de leilão? Eu... Eu coloquei um valor exorbitante no seu lance inicial. Um valor que eu sabia que ninguém ali teria, pois eu... Eu queria passar aquela noite com você, mesmo que apenas para observá-la dormindo... Mas... O maldito do Aquário deu aquele lance absurdo. Justo ele, justo o braço direito do Dimitri! Se eu negasse você a ele, o meu plano, o seu disfarce, tudo iria por água a baixo!... Por favor...

— Camus me violentou, Saga... Você... Deixou aquele porco russo me violentar para manter seu disfarce...

— Para manter o seu disfarce, Geisty, o seu... Eu jamais imaginei que Camus, que sempre fora um garoto quieto, educado e recluso... Tivesse se tornado esse homem violento que é hoje... Eu ajudei a criá-lo desde a infância. Nunca imaginei que ele... — baixou a cabeça desviando dos olhos dela, pois diante dos fatos nada que pudesse dizer amenizaria ou mesmo justificaria seu erro — Enfim... Camus a mataria se eu não permitisse que subisse com você... Acredite... Ainda tenho contas a acertar com o Aquário por isso... mas...

— Você também me violentou. E o teste? Você me obrigou a fazer sexo com você...

— Não! Não, Geisty... Não... — afundou seu rosto no lençol e finalmente se rendeu.

O pranto convulso e sofrido era de remorso, de dor, arrependimento. Tinha sim, violentado a mulher que amava, mas apenas porque não havia conseguido conter a emoção de, após anos, vê-la ali, diante de si, sozinha, sem Kanon, sem Shion, sem ninguém em seu caminho. Então, fragilizado e extremamente nervoso, cedeu a seu lado obscuro uma vez mais, não conseguindo conter o mal que habitava dentro de si e que urrava a cada segundo para sair.

— Me perdoa... Não era eu... Não sou eu... — gritava em meio a soluços, sem poder encarar o rosto da amazona, enquanto apertava os lençóis com as mãos — Eu não queria, eu não consegui segurá-lo...

Geisty não pode deixar de se surpreender ao ver o sempre tão centrado e imponente cavaleiro de Gêmeos ali, de joelhos ao pé da cama, entregue a um choro agonizante, tomado em desespero. Porém, o rancor da amazona era tão intenso quanto o remorso e a culpa que assolavam a alma do cavaleiro. Por isso, sem entender ainda o conflito hediondo que habitada a mente sombria do geminiano, tudo em que Geisty conseguia pensar era apenas que Kanon a enganou durante anos, Milo a tomou por oportunismo, Camus violentou seu corpo e Saga fora quem permitira que tudo isso acontecesse.

Confusa e emocionalmente exausta, a amazona levantou-se lentamente da cama e em silêncio caminhou até a porta a abrindo, enquanto segurava a maçaneta.

— Saia, Saga. Me deixe sozinha, por favor.

Ao ouvir o pedido, Gêmeos ergueu a cabeça e enxugou o rosto com a manga do manto, levantando-se em seguida e caminhando em direção à porta, mas parou antes de cruzá-la.

— Você tem todo motivo do mundo para me odiar, eu sei... — disse cabisbaixo.

— Saga... Você poderia ter evitado tudo isso. Tudo! — vociferou a morena, contorcendo o rosto febril em uma expressão de fúria — Você permitiu que Kanon... Que Kanon se passasse por você! Poderia tê-lo desmascarado, poderia ter dito a verdade, você poderia... Atena! — esfregou o rosto em desespero — Poderíamos ter vivido nossa história...

— Não... Não poderíamos. Você estava feliz e eu, quando tomei coragem para te contar a verdade e desmascarar o pulha do meu irmão... Fui trancado no Cabo Sunion junto a Aiolos e Afrodite por semanas sem fim, como bem sabe, e lá... — baixou a cabeça num gesto esgotado — Lá Ele apareceu... Não podia, jamais... Permitir que Ele tocasse em você...

— Ele? Ele quem? E depois? Você permitiu que Kanon me enganasse por anos!... Saga, saia. Me deixe sozinha, pelo amor que tem à Atena, me deixe sozinha!

Gêmeos não via mais saídas.

Não havia revelado a verdadeira identidade de Kanon para a amazona porque havia perdido a sua própria nos dias em que ficara enclausurado no Cabo Sunion. Perturbado, exausto e lutando para manter o que restara de sua identidade, ele apenas aceitou a derrota.

Assim como agora. Já havia dito tudo, aberto seu coração e se despido de todo orgulho. Não restava mais nada a ser feito.

Resignado, Saga deixou o quarto de Geisty e seguiu para o seu.

Extenuado com tudo o que acabara de viver, atravessou o corredor em silêncio, cabeça baixa e ânimo vencido, deixando para trás uma amazona totalmente transtornada, que batera a porta atrás de si assim que ele cruzou o batente.

Após ficar alguns segundos escorada na madeira, trêmula e gelada a morena galgou passos trôpegos até a cama, numa caminhada desalinhada, pois não sentia-se dona dos próprios movimentos tamanho fora o rombo feito em seu emocional.

Por mais incrédula, assustada, magoada e aflita que estivesse, Geisty nem mais conseguia chorar, visto que seu espanto era maior que sua tristeza naquele momento.

Sentou-se lentamente na beirada da cama. Os olhos injetados, catatônicos, fitavam um ponto qualquer do cômodo à meia luz, enquanto ela se arrastava para o meio do leito agarrando um dos travesseiros que havia ali.

Sem piscar, como se visse vultos da juventude jornadeando frente a seus olhos alarmados, sua mente montava o quebra cabeças de seu passado.

Agora tinha as peças que lhe faltavam. Saga as cedera em momento oportuno!

Revivia o dia em que chegara ao Santuário. Contava com seis anos de idade e Shion a trouxera para iniciá-la como amazona. O Patriarca era o mais próximo que ela podia chamar de pai, apesar sempre muito rígido.

Logo que chegou à Grécia, sua primeira lição fora uma ordem direta de Shion: Não deveria jamais se aproximar de nenhum dos cavaleiros. Seu compromisso ali era exclusivamente com o Santuário e sua devoção dedicada somente à Atena.

Shion lhe dizia que amazonas não foram feitas para o amor. Eram mulheres bélicas, moldadas por anos de lutas e provações, e a quem era designada a função de proteção da deusa e da humanidade.

O amor era um luxo somente concedido às mulheres que pudessem procriar e cuidar de suas proles.

Mesmo sem entender o que aquelas palavras significavam, já que era muito jovem, ela seguiu à risca as ordens do Patriarca, evitando contado com os cavaleiros e dedicando-se exclusivamente à sua missão.

Durante anos sua disciplina fora irresoluta, até o dia em que o rapaz de longos cabelos azuis apareceu na Arena para observar o treinamento de longe.

Já o havia visto algumas vezes pelos arredores e sabia se tratar de um dos cavaleiros de patente superior e, apesar de mexida por sua beleza única e presença imponente, logo recordava-se das palavras de Shion e o ignorava.

No entanto os dias se passavam e a presença dele se fazia constante, de modo que ela pôde perceber, sem muito tardar, que ele não ia supervisionar os treinos apenas com fins analíticos. Ele olhava diretamente para si!

— Por... Atena... era ele... era... ele...

O sussurro fraco veio acompanhado de um soluço rouco. A constatação da veracidade das palavras de Saga se fazia cada vez mais forte em sua mente.

Reconhecera os olhos que a desejaram com a alma enquanto balançava seu corpo esguio no palco do Templo das Bacantes, ao som de uma música sensual... Eram os mesmos olhos que a desejavam na Arena anos atrás.

Os olhos do rapaz que se tornou um homem. Os mesmo olhos, o mesmo desejo!

Finalmente conseguiu chorar. Entregando-se a um pranto convulso e sonoro, o qual tentava abafar colocando o travesseiro na frente do rosto.

Porém, ela mesma não ouvia seu choro. Ao em vez disso, a voz ainda pueril do jovem cavaleiro ecoava em sua mente perturbada — "Bom dia, amazona de Serpente!" — ela se repetia, até se fazer muda, dando lugar a sua própria voz, juvenil e plena de ansiedade — "Bom dia, cavaleiro de Gêmeos!"

— Saga! Saga!... Era você... era... você... Saga!... Por que, Atena? Por que não perguntei seu nome naquele dia? Por que Saga? Por que?

De bruços na cama, Geisty apertava os lençóis com as mãos, tentando reter o corpo que sacudia com o choro frenético.

Dentro de si um turbilhão de lembranças a arrebatava. Via-se marcando o encontro com o cavaleiro de Gêmeos no alto da colina Sul, aos pés da primeira oliveira, presente de Atena aos mortais.

Havia desobedecido as ordens de Shion, talvez por isso toda essa desgraça caíra sobre si.

Contorcia-se na cama, agora não mais apenas de tristeza, mas de ódio, ira, rancor, ao lembrar-se do momento em que chegara ao ponto de encontro e avistara ao longe a figura altiva do cavaleiro de Gêmeos já a aguardando.

Ao aproximar-se ele lhe sorriu, porém no presente a lembrança daquele sorriso agora lhe era nefasta, a ponto de embrulhar seu estômago e lhe causar ânsias.

— Não era ele... era... Kanon... — rosnou tomada em ira, lembrando-se do momento em que ele correra todo seu corpo com olhos famintos — Não era... ele... Como pude não notar?

Kanon se apresentou com o próprio nome, porém disse a ela que ele era o cavaleiro de Gêmeos, que ele a ia contemplar na Arena. Ela não tinha por que duvidar.

Poucos dias depois estava sendo levada por ele até o templo de Gêmeos para conhecer o cunhado... Outro golpe covarde do maldito geminiano que enganara a ambos, por vaidade e interesse, uma vez que Kanon precisava provar a si mesmo que podia ser melhor que o irmão.

— Maledetto, figlio di una cagna, bastardo... disgustoso... Perché si fa a transformare questo a me?

Num ataque de fúria, Geisty levantou-se da cama e atirou o travesseiro contra a penteadeira, derrubando tudo que havia ali em cima. Aos gritos, correu até o móvel, e o que havia sobrado de pé sobre ele ela acabou por lançar contra as paredes do quarto, enquanto gritava e chorava inconsolável.

Sentia-se miserável, burra, mas ciente de que havia sido uma vítima de Kanon tanto quanto Saga, que não apenas perdera a mulher que tanto admirava, como fora obrigado a sofrer calado e sozinho.

— Saga...

Mas, será que todo o sofrimento de Gêmeos justificava os meios que ele usara para atingir o fim desejado?

Deixá-la à mingua durante cinco dias no Cabo Sunion, uma prisão terrível até para os semideuses suportarem, depois lhe oferecer para Escorpião, Aquário...

E ainda tinha que engolir a presença indigesta de Peixes...

Saga a estaria punindo por algo que não tivera culpa?

Deixou-se cair de joelhos no chão esfregando o rosto e procurando uma resposta em meio a todo aquele tsunami de dúvidas, inseguranças, tristezas, dor, mágoas e... esperança!

Enquanto isso, do outro lado do corredor, Gêmeos também remoía tudo que acabara de acontecer.

Ao entrar no quarto que ocupava ali no Templo, o geminiano fechou a porta lentamente, encostando a testa na madeira fria e soltando um suspiro longo que denotava toda sua frustração e derrota.

Mesmo que já esperasse pela retaliação de Geisty, sofrê-la na pele foi triste demais até para alguém como ele, acostumado aos golpes duros que o destino como cavaleiro lhe impunham.

De olhos fechados, Saga relembrava cada palavra dita, cada olhar assustado e incrédulo da amazona sobre si e seu coração batia forte e angustiado. Teria se precipitado?

Não.

Kanon mentiu para amazona a vida inteira e ele não cometeria a mesma violência do irmão. Caso Geisty nunca mais o quisesse teria que aceitar e encontrar uma forma de libertá-la da máfia, de Camus e Dimitri e até de si mesmo, de seu lado obscuro.

E, por falar nele, ele estava lá, em todos os momentos. Uma voz medonha e muda ao mundo, mas clamorosa dentro de si.

E foi ouvindo essa voz hedionda lhe repreender por sua fraqueza que o cavaleiro de Gêmeos abriu os olhos num rompante, ergueu a cabeça e esfregando as têmporas, na tentativa vã de aliviar a dor e calar a voz, caminhou apressado até o bar, onde apanhou uma garrafa de absinto pela metade e despejando uma dose generosa num copo robusto de cristal, sorveu a forte bebida num só gole, já servindo-se de uma segunda.

— Ela não é para você... É uma vadia...

A voz era dele, mas a entonação era de um demônio antigo.

Cerrou as pálpebras com força, mas isso apenas o aproximava mais Dele. Tornava sua imagem mais nítida, ainda que envolta num véu soturno de ódio e violência.

— Ela... não é... uma vadia... Ela é...

A voz agora era branda, banhada em sentimentos confusos. Saga abriu os olhos encarando o espelho do bar, onde via seu reflexo em meio a penumbra do quarto. Atrás de si, refletido no espelho, como numa projeção fantasmagórica, vivências do passado vinham à tona.

Era ainda pré-adolescente.

No salão do décimo terceiro templo, uma menina corria entre as colunas de pedra e mármore ignorando as reprimendas de Shion. O espírito livre, vontade temerária e o rosto expressivo cativaram o pequeno cavaleiro de imediato.

Foi esse mesmo espírito que clamava por liberdade que fizeram, o já então nomeado Santo de Gêmeos, lamentar quando a viu novamente, anos mais tarde, com o rosto encoberto por uma máscara cuja pintura assustadora em nada lembrava as feições ternas da figura que trazia em sua memória.

Desde então passou a observá-la de uma maneira diferente, pois cada vez que a via sentia seu coração perder o ritmo, uma vez que unido à sua admiração havia um desejo íntimo de ser reconhecido por ela.

Em vão. A amazona de Serpente nunca lhe direcionara um olhar sequer.

Mesmo assim ele não desistiu, porque nenhuma jovem possuía o charme e o mistério de sua amazona. Jamais conseguira envolver-se com alguém, visto que era ela a dona de seus pensamentos e desejos mais íntimos.

A ansiedade que sentia na noite anterior aos treinos das amazonas na grande Arena, os quais eram supervisionados propositalmente por ele, nunca fora igual à ansiedade que sentia quando marcava algum encontro com outra garota.

A ânsia em apenas vê-la era sempre muito maior!

Tanto desassossego apenas para observá-la de longe, com os olhos cativos em cada movimento, analisando cada golpe, mas com o intuito verdadeiro de somente tê-la perto de si nem que por algumas horas e à distância.

Ali ela era sua! Sua amazona!

Seu coração e ânimo foram praticamente dilacerados quando, por um motivo desconhecido, ela se ausentara por três sessões seguidas de treinamento. Aqueles foram os dias mais angustiantes de sua vida e após o fato ele percebeu que não poderia mais viver sem ela.

Estava apaixonado!

Após dias sem vê-la, foi com o peito apertado e o coração aflito que rumou para a Arena na esperança de que ela aparecesse por lá e, caso não a visse, estava decidido a procurá-la no alojamento Prata e até mesmo questionar Shion sobre seu paradeiro.

Assim sendo, adentrou as imediações do estádio e arfante em ansiedade correu os olhos pelo perímetro, temeroso.

Ela não estava lá.

Engoliu seco, sentindo sua garganta lhe apertar, e quando deu um passo à frente, resignado a ir interrogar às amazonas que ali estavam reunidas no centro do campo, às cumprimentou, como fazia todos os dias. — "Bom dia, amazonas..." — mas foi interrompido por uma voz suave e melodiosa vinda atrás de si.

— "Bom dia, cavaleiro de Gêmeos!"

Na mente do geminiano a voz doce da amazona se repetia em eco.

À frente de si, o espelho do bar refletia sua face nostálgica, mas não era seu rosto que ele via, era o do irmão gêmeo, com o habitual sorriso sarcástico nos lábios que entreabertos diziam: "Você perdeu para mim!"

O ódio que sentira no dia em que de fato ouvira Kanon lhe dar aquela sentença traiçoeira se repetiu com igual intensidade no presente, e foi movido a ele que atirou o copo que tinha ainda na mão contra o espelho do bar, estilhaçando o vidro em centenas de pedaços.

Ofegante e visivelmente perturbado, levou ambas as mãos à cabeça agarrando os próprios cabelos, enquanto urrava baixinho.

Em suas lembranças vivenciava a noite em que ele e o irmão se digladiaram, após Kanon lhe tripudiar, se vangloriando de ter roubado sua amazona.

Os dias seguintes foram um tormento para ele. Magoado, traído, rejeitado, mesmo que indiretamente, uma vez que Geisty não era ciente do plano sujo de Kanon, se isolou dentro de si mesmo, até que Shion, percebendo a rixa entre os irmãos, não demorou muito para descobrir que a fonte de todo o desentendimento era a amazona de Serpente, a qual, mediante um julgamento profético havia proibido de amar.

Shion de início não entendera porque as estrelas que habitavam o manto celeste de Star Hill haviam condenado a amazona a uma vida solitária, a privando do amor, porém quando presenciara uma briga ferrenha entre os irmãos, muitas de suas dúvidas haviam caído por terra.

Geisty desobedecera a profecia do Patriarca e sua ousadia em amar um cavaleiro estava ameaçando a paz do Santuário!

Tomado em uma fúria insana, Shion partira para erradicar o mal pela raiz, mataria a amazona e restituiria a paz sob aquele solo sagrada. Mas seu plano fora descoberto a tempo, e guiado pelo coração ele impediu o Patriarca de tirar do mundo a única coisa que o tornava belo.

Sua amazona.

Prostrado aos pés de Shion, soluçante e tomado pelo desespero, ele conseguiu barganhar a morte de Serpente, acusada pelo crime de amar seu irmão, por um exílio na Ilha Fantasma, onde deveria viver sozinha e cumprir o destino que as estrelas lhe incumbiram.

Foi num misto de alívio e dor que no dia seguinte ele acompanhou pelo ponto mais alto das colinas milenares do Santuário grego, o navio que se afastava do litoral, deslizando pelas aguas verdes do Mediterrâneo até sumir no horizonte, levando consigo sua amazona e deixando seu coração partido.

Estava certo de que nunca mais a veria. Nunca mais haveria de ter a chance de reconhecer o sorriso da menina no rosto transformado da mulher!

Os anos se passaram e sua queda apenas ficava cada vez mais vertiginosa. Enquanto perambulava pelo quarto escuro, em sua mente via as feições impassíveis de Camus de Aquário, lhe delatando o rombo de milhões de dólares aos cofres do Cassino ministrado pela temida Vory v Zakone na cidade de Atenas, cujo administrador era seu irmão, Kanon.

Camus lhe jogava sobre a mesa de seu escritório, antes ocupado por Shion, papéis e mais papéis, relatórios contábeis, extratos de saques bancários, depósitos em contas abertas em bancos suíços e canadenses e toda a sorte de provas que precisava contra Kanon e sua traição, mas Saga não enxergava nada daquilo, pois no meio daquele calhamaço todo uma foto solitária e despretensiosa lhe capturara toda a atenção.

Nela, Kanon estava abraçado a uma jovem de cabelos negros como a noite, feições delicadas, porém semblante firme, altivo, e dona do par de olhos violetas que um dia aprisionaram sua alma. Apesar de lindíssimos eram também extremamente tristes. Uma beleza cativa, acuada por um destino cruel.

Era ela, não tinha dúvidas! Reconheceu de imediato o rosto juvenil amadurecido pelo tempo. Era Geisty!

Tomado pelo desespero, visto que sabia que o líder da Vory v Zakone puniria a traição de seu irmão com a morte e também de sua cúmplice, ele fez uma aliança com Aquário e enganando a todos, inclusive ao colega francês, salvou Geisty da morte pela segunda vez.

Camus lhe concedera o direito de dar cabo da vida de Kanon, visto que eram irmãos e o geminiano reivindicara esse privilégio funesto, mas quando se viu sozinho com o gêmeo traidor, ele vacilou.

Não fora capaz de matar o próprio irmão, mas o queria morto.

Sendo assim, tomara uma decisão sábia, com a qual mataria dois coelhos com uma única cajadada.

Saga conhecia muito bem seu irmão, cuja índole e mau caráter eram seus próprios algozes. Tinha conhecimento de que Kanon era procurado por diversas organizações criminosas, uma delas a poderosa Yakuza, que colocara sua cabeça a premio depois de o geminiano roubar um de seus cassinos.

Gêmeos nunca imaginou que o irmão tivesse a mesma ousadia contra a Vory v Zakone. Kanon era um caso perdido e deveria ser eliminado. Portanto, munido de uma força e decisão que cavara do fundo de seu âmago, o recém-nomeado Grande Mestre do Santuário, entregou o irmão gêmeo ao Oyabum da Yakuza, Mitsumasa Kido.

Condenara Kanon à morte e livrara a máfia grega de uma futura retaliação por parte da Yakuza.

Logicamente precaveu-se antes e no lugar de um aceno de adeus, Saga golpeou o gêmeo com o Satã Imperial, pois assim Kanon não entregaria os segredos do Santuário, nem da própria máfia russa aos japoneses.

Foi a última vez que viu o rosto do irmão.

No entanto, queria ter podido enterrar o passado juntamente com a sentença de morte que dera a Kanon, mas não fora capaz. Geisty era parte de seu passado e tudo que fizera fora para tirá-la dele e a colocar em seu presente, sonhando em construir um futuro ao lado de sua amazona.

Mas, seus planos deram errado em algum momento e ele tinha que encarar a realidade, tinha que aceitar que falhou. Geisty nunca seria sua.

Derrotado e carregando um peso enorme de culpa em seus ombros já tão cansados, Saga caminhou até a cama onde se deixou cair de costas, com os braços abertos e o espírito em frangalhos.

Os minutos e as horas correram. Do lado de fora, a noite estava perto de se despedir para deixar reinar no céu o astro majestoso que dava vida ao planeta.

Saga não saíra da posição em que se colocara em todo esse tempo, até que dois toques sutis na porta o tiraram de seu transe cataléptico.

Erguendo a cabeça olhou para a madeira escura em aflição, até que sentindo o Cosmo por detrás da porta levantou-se da cama e caminhou às pressas para abri-la.

O coração tão castigado do cavaleiro deu pulos ansiosos quando ele agarrou a maçaneta e com um puxão brusco revelou a figura da amazona de Serpente parada ali. Seus olhos se aqueceram pela emoção de encontrar do outro lado da madeira aqueles olhos violetas tristonhos que o fitavam tímidos.

— Geisty! — sussurrou.

— Será que eu poderia entrar?

— Não esperava que você... — calou-se, não iria contestá-la, nem a esperava ver tão cedo depois de tudo que havia dito, então se afastou poucos passos lhe dando passagem —... É claro que pode entrar.

Enquanto ela passava por si, caminhando lentamente para dentro do quarto, Gêmeos a acompanhava com o olhar, fechando a porta atrás de si para segui-la.

Em seu íntimo culpava-se pelo estado em que ela se encontrava, frágil como um passarinho jovem que acabara de cair do ninho.

Calado, parou diante dela aguardando o que ela tinha a lhe dizer. Sentia medo. Medo de ser rejeitado novamente.

— Saga, eu... — de início olhava nos olhos jades do cavaleiro, mas vacilou quando percebeu sua aflição. Indiretamente fora a causadora de toda a dor que aquele homem trazia no peito há anos — Eu pensei muito e... Eu também errei.

— Não Geisty, você não teve culpa de nada.

— Posso não ter tido, mas... fui ingênua e... Como uma amazona, deveria ter me precavido, mas... Me deixei levar pelo... Pelo sentimento que já brotava em meu coração naquela época... — tentou controlar o choro, puxando o ar pela boca e tentando acalmar os ânimos — Saga, eu deveria ter perguntado ao Grande Mestre, ou a quem quer que fosse, qual era o verdadeiro nome do cavaleiro de Gêmeos. Eu fui tão...

— Humana, Geisty... — respondeu o geminiano em baixo tom — Kanon e eu somos idênticos... Não tinha como você saber.

— Tinha, era só eu ter perguntado o nome! Mas, agora não adianta mais... Saga, se eu soubesse eu nunca teria...

— Eu sei. — esticou o braço e tocou no queixo dela, a fazendo erguer o rosto e olhar em seus olhos — Você foi apenas uma vítima dele, como tanta gente... Como eu fui. Nunca a culpei, nunca! Muito pelo contrário, eu sempre a quis ao meu lado.

— Saga... Eu queria tanto ter vivido a felicidade que sempre sonhei ao seu lado... Aquela felicidade que idealizei com o cavaleiro de Gêmeos, mesmo que Shion tenha me dito que amazonas não são feitas para o amor... Mas...

O coração do geminiano acelerou com aquela confissão, podendo ser sentido até mesmo pela amazona, que continuou a pontuar sua triste constatação.

— Mas nosso tempo se foi, Saga... A chance passou... Só nos restam as cicatrizes dessa história fracassada.

— Não! — sentiu uma vertigem ao ouvir aquilo, deixando escapar as lágrimas temerosas que sentia brotar em seus olhos — Não! Não faça isso conosco, Geisty, por favor... Sempre há um meio, sempre há. Nós vamos conseguir, vamos achar o nosso meio.

— Não, é impossível! Não desta vez... Reconheço o problema que arrumou para si mesmo salvando minha vida. Se os russos desconfiarem que tudo isso aqui é um disfarce conveniente eles... eles me matariam na primeira oportunidade. Não podemos ser vistos juntos, não podemos viver nossa história, não mais! — afastou-se alguns passos aturdida — Camus e a Vory me matariam se soubessem que temos um caso e acabariam com a aliança com o Santuário, sob a alegação de você ser cúmplice no desvio da verba deles... E não adianta matá-los, nem a Camus, nem a Dimitri, pois são como erva daninha que você erradica uma e nascem outras mais em seu lugar... Há muito em jogo, Saga e... por tão pouco.

— O meu amor por você não é pouco, Geisty... — avançou em direção a ela, sem desviar o olhar dos olhos assustados e tristes da amazona.

— Saga... — entre lágrimas de angustia e temor ela o encarava — Não valho tudo isso... Há muitas vidas em jogo... Não pode acreditar que a Vory irá revogar minha sentença de morte quando eu quitar a dívida do Kanon. Irão me matar da mesma forma...

— Não vou permitir. — esticou a mão e tomou a da amazona nas suas, a puxando para perto de si — Geisty, assim que conseguir fazer com que o Santuário caminhe com as próprias pernas, nada nesse mundo vai me impedir de romper com a Vory e sair das sombras deles se assim for preciso.

— Mas, Saga, encare os fatos, não há saída.

— Sei que é arriscado, mas não vou permitir que nada nem ninguém me tire você novamente, Geisty... A menos que...

— A menos que? — enxugou uma lágrima esperando a resposta curiosa.

— A menos que você não me queira... A menos que... Não tenha me perdoado por não ter desmascarado Kanon a tempo... Por tê-la trazido para cá... Por... fazê-la passar por tudo que passou... A menos que não acredite em mim, Geisty... Ai sim, encararei os fatos e aceitarei que não há saída.

A quem ela queria enganar? Mesmo que ainda estivesse acuada, insegura e julgando-se completamente sem juízo, uma vez que se via prestes a cometer o mesmo erro do passado, Geisty agora era quem tomava o cavaleiro pelas mãos e o trazia para junto de si, acariciando seu belo rosto aflito. Não conseguiria mais viver enganando-se. Amava aquele homem, desde há muito tempo, apenas fora um joguete do destino assim como ele.

Olhava para o geminiano buscando esperança para viver aquela utopia, mas uma última corrente ainda a segurava antes de permitir-se mergulhar de cabeça naquele sonho.

— Eu... Eu quero, Saga, mas... Acha que você vai conseguir? — deslizou os delicados dedos entre os lábios entreabertos do cavaleiro, admirando os traços graves e belos de seu rosto, agora despida de todo rancor, mágoa e raiva que horas antes a cobria —... Disse que há algo dentro de você que o faz perder o juízo e fazer coisas das quais não quer... Como vai controlar isso? Não quero me ferir ainda, mais... Não quero...

O dedo indicador de Gêmeos pousou sobre os lábios carmins calando a voz angustiada da amazona.

— Vou controlar com a única coisa que me dá forças para lutar contra Ele, Geisty... Você... Preciso de você para me manter aqui, para me manter são!

Um sorriso sutil, ainda envolto em dúvida e temor, se desenhou no rosto da amazona. Então Gêmeos lhe devolveu o mesmo sorriso. Ambos sabiam que não tinham para onde fugir de si mesmos, e foi nessa hora que selaram seus destinos entregando-se finalmente a um beijo há muito esperado.

Saga apertou delicadamente o corpo esguio da amazona contra o seu e, com os lábios já sedentos de ansiedade provara mais uma vez do tão desejado sabor dos lábios da mulher que sempre amou em segredo. Um beijo calmo, com sabor de esperança e alívio, ainda que momentâneo, já que ambos tinham consciência dos tempos difíceis que enfrentariam daquela noite em diante.

Depois de longos minutos provando o sabor único da paixão impresso nos lábios dos amantes, Saga surpreendeu a amazona a tomando no colo e a levando até a cama, onde a sentou delicadamente entre os travesseiros de seda azul marinho.

— Saga, acho melhor voltar ao meu quarto... — disse Geisty receosa.

— Por favor... Fique. — pediu o cavaleiro com voz branda, enquanto delicadamente corria as mãos pelos calcanhares da garota retirando seu sapatos com suavidade, para colocá-los ao lado da cama — Geisty, depois de anos, é meu primeiro aniversário ao seu lado... Tantos outros eu desejei exatamente esse momento... — retirou os próprios sapatos e sem nem mesmo se desfazer do manto que vestia deitou-se ao lado dela, enlaçando os ombros esguios e a trazendo para um abraço terno e protetor — Sei que ainda temos muito a caminhar e não sei exatamente para onde esse caminho irá nos levar mas... Com você ao meu lado, saberei ao menos para onde quero ir. Quero ficar com você, Geisty, construir uma vida com você, envelhecer ao seu lado... Lutar ao seu lado se for preciso...

Gêmeos a apertava em um abraço possessivo, jurando protegê-la de tudo e de todos, enquanto depositava beijos em seus cabelos perfumados.

— Eu também quero, Saga... Mesmo que esteja me tremendo toda por dentro de medo do que possa acontecer... — ergueu os olhos e encarou as orbes jades uma vez mais — Por Atena! É o que eu mais quero! — esticou o rosto beijou a boca do geminiano deixando escapar um sorriso, agora bem mais seguro, depois deitou sua cabeça no peito forte e fechou os olhos — Também não sei para onde esse caminho torto que estamos pegando irá nos levar, mas sei que quero segui-lo com você... Boa noite. Feliz aniversário... meu cavaleiro.

Soltou um suspiro de alívio antes de se render ao sono.

Extava exausta.

— Boa noite, minha amazona!

Respondeu Gêmeos fechando os olhos, sentindo uma lágrima solitária de alegria lhe deslizar pelo rosto.