********************Cap 21 O Monge, o Bêbado e a Freira ***********************
*Este acontecimento se dá simultaneamente aos descritos nos dois capítulos anteriores.*.
Casa de Virgem.
Poucos minutos após Mu de Áries ter deixado a sexta casa zodiacal para ir à festa de aniversário de Saga no Templo de Baco, Shaka de Virgem desistiu da faxina, pois não haveria alvejantes, água sanitária e nem lustra móveis suficientes que aplacassem sua frustração.
Desde que Mu começara a trabalhar na maldita casa de tolerância, eram tantos compromissos, reuniões de última hora e eventos, sem falar das detestáveis festas, que praticamente todo o tempo de Áries era ocupado, sobrando para Shaka apenas o período da noite.
Isso quando Mu não ficava preso nos compromissos da forja depois de sair do "emprego" no prostíbulo. Áries então conseguia subir à Virgem quando já era quase madrugada, muitas das vezes encontrando o namorado já dormindo. Davam-se uns beijinhos, despediam-se e logo Mu voltava para a primeira casa zodiacal.
Como não aceitara fazer parte do esquema corrupto imposto pela Vory v Zakone, Virgem era o único cavaleiro que não se envolvera com os negócios escusos da máfia e que, portanto, vivia apenas do soldo pago pelo Santuário, o qual era pouco, mas tendo abdicado de uma vida de luxo e procurando viver apenas com o necessário, o que Saga conseguia lhe pagar era mais que o suficiente.
E como o artigo indispensável da vida de Shaka, e que lhe era de fato extremamente necessário, já estava garantido, sua assinatura mensal da TV à cabo e os filmes que encomendava na locadora de Rodório, o loiro guardou a vassoura na área de serviço, tomou um banho longo e relaxante, estourou uma panela funda de pipocas e decidiu que assistira a um filme enquanto esperava Mu retornar da infortunada festa.
A sétima arte surtia-lhe um efeito relaxante melhor que as faxinas e as meditações!
O título escolhido da vez fora: "A casa das sete viúvas.".
Um filme triste, que contava a história de uma menina indiana que com apenas nove anos de idade fora obrigada a se casar com um homem quarenta anos mais velho. No entanto, logo na noite de núpcias o marido morreu, para sua sorte ou azar, a deixando viúva.
Shaka já havia assistido a esse filme, porém, diferente dos outros, os quais assistia repetidas vezes, esse ele só havia visto duas, uma vez que julgava ser a coisa mais triste da vida uma pessoa ficar viúva. Especialmente quando essa pessoa era uma mulher indiana.
— Buda, como deve ser triste ser viúva! — resmungava, deliberando consigo mesmo enquanto enchia a boca de pipocas e assistia ao começo do filme — A Índia é um país cruel com as mulheres... As viúvas não podem usar sáris, nem se enfeitarem com hena e joias. São obrigadas a raspar a cabeça, andar com os pés descalços, pedir esmola, ficar sozinhas pelo resto da vida...
Tinha os olhos arregalados presos à tela da televisão, onde a pequena protagonista, toda vestida de branco, cuidava de uma idosa que já morava na casa das viúvas há quarenta anos.
De súbito, Virgem saltou da cama e um tanto quanto perturbado retirou o filme.
Estava nervoso, pensando em Mu no meio daqueles libertinos e assistir àquela história triste e pesada não o estava ajudando a relaxar.
Puxando debaixo da cama uma grande caixa, guardou o filme das viúvas dentro dela e puxou outra fita.
— Ah, esse sim, é um filme alegre! Tem muitos casamentos e danças. — sua voz saiu bem mais branda.
O título da vez era curioso: "O casamento do meu marido."
Na história, a ex-mulher do protagonista, um empresário indiano de sucesso, mas que tinha problemas em se relacionar com mulheres, devido sua timidez arrumava várias pretendentes a se casarem com ele.
O filme cumpria seu papel de forma exemplar. Era divertido, alegre e musical. Por várias vezes Shaka se pegou balançando os ombros acompanhando os movimentos dos dançarinos, cantarolando junto com as músicas, rindo e deixando a mente viajar livremente.
Apanhou um kajal negro que Mu havia deixado sobre o criado mudo e distraído, enquanto assistia ao filme, foi desenhando arabescos em suas próprias mãos, como os desenhos de hena que as noivas indianas fazem no dia do casamento.
Tanto cantou, sacolejou o corpo, comeu pipoca e riu, que acabou adormecendo enquanto os créditos do filme subiam na tela do aparelho.
Enquanto isso, no Templo das Bacantes a festa de aniversário de Saga de Gêmeos rolava solta no grande salão decorado.
De dentro do toilet, o cavaleiro de Áries cantarolava junto com a canção, a qual ouvia em tom meio abafado, que vinha do lado de fora. Fazia uma vozinha fininha, tinha os olhos fechados, um sorriso largo no rosto corado, tanto pelo excesso de bebida, quanto devido a uns pensamentos atrevidos que lhe passavam pela mente, e apoiava uma das mãos na parede de azulejos negros à frente do mictório enquanto se aliviava.
A conversa com Afrodite, somada às várias doses de coquetel de frutas e Martinis que havia tomado, pareciam ter acendido em Áries uma fogueira que há muito era alimentada apenas por brasas, mas que agora, porém, estava ardendo em chamas!
Sentia um calor o queimando por dentro, apurado por um furor que o agitava ao pensar em colocar em prática as dicas que o amigo pisciano lhe dera.
Terminado de ser aliviar, fechou a calça, caminhou trôpego até a pia, lavou as mãos e jogou um pouco de água em seu rosto. Sentia-se quente!
Olhando para sua imagem refletida no espelho, tentou ajustar sua mente, colocar suas ideias no lugar, mas tudo que conseguia pensar era em Shaka e no quanto estava sendo cada dia mais difícil conter o desejo que sentia por tomá-lo, amá-lo e junto a ele tornarem-se um só.
Trocando em miúdos, fazer sexo com o Santo de Virgem.
As palavras de Afrodite ecoavam na mente embriagada do ariano, que não estando totalmente sã as tomou como certas. Se ele e Shaka ainda não tinham dado o segundo passo no relacionamento, certamente era porque ele, Mu, não havia dado "a pegada"!
— Sim! É isso que falta, Mu, atitude! — balbuciou para si mesmo, apontando o dedo para sua imagem no espelho. A voz saindo pastosa devido à embriaguez — Dido está coberto de razão! Se ainda não rolou é porque não te peguei de jeito, Sha!... Será? Ou será que... É por causa dos encaixes?
Coçou o queixo franzindo a testa.
Mais uma vez se pegava pensando no que Peixes lhe perguntara — "Para tudo. Antes de tudo me diga: Você quer dar para ele ou quer comer ele?" — a voz do sueco em sua mente o chamou para a reflexão, mas estava esgotado de tanto pensar. Agora iria agir!
Enxugou rapidamente o rosto com uma toalha de papel e sem mais pensar em nada, apenas em Shaka e no desejo que lhe queimava por dentro, Mu se teleportou para a frente do Templo de Virgem. Não esperaria nem mais um minuto para resolver aquele impasse.
Adentrou a casa do namorado a passos cambaleantes e espírito decidido. Cruzou os longuíssimos corredores de rocha e mármore, e sentindo o Cosmo de Shaka no quarto rumou para lá, parando em frente à porta e a abrindo lentamente.
Encontrou o cômodo na penumbra, iluminado apenas pela fraca luz que vinha da tela da televisão, a qual exibia um chuvisco constante. Viu Shaka deitado no meio da cama, estava de lado, abraçado a uma vasilha com alguns grãos de pipoca dentro.
Lentamente, sem fazer nenhum ruído, Mu retirou os sapatos os deixando pelo caminho mesmo, depois livrou-se da camisa, a jogando em cima de uma poltrona. Em seguida, sentou-se na cama e devagar se acercou de Shaka, encaixando seu corpo ao dele com um abraço delicado pelas costas do virginiano, o qual reagiu de imediato se remexendo sobre os lençóis e deixando escapar um leve sorriso preguiçoso.
— Humm... Mu? — sussurrou num gemido.
— Sim, sou eu, amor. — respondeu com fala arrastada, enfiando o rosto entre os cabelos dourados do indiano para lhe dar um beijo na nuca — Cheguei. Ficou me esperando?
— Sim... — sentiu seu corpo todo arrepiar diante daquela carícia —... Você demorou.
— Me desculpe... A festa estava um saco sem você... Senti sua falta, sabia? — apertou a cintura do loiro ao mesmo tempo em que projetava seu quadril mais para frente.
— Sentiu? Eu também senti. — respondeu, mas ao virar o rosto para o lado e encontrar o rosto de Mu que já vinha de encontro ao seu para lhe dar um beijo, Shaka abriu os olhos, encarando o ariano com uma expressão repreendedora — Mu! Que cheiro é esse?
— Cheiro de amor! E de sândalo. Hum Sha, adoro seu cheirinho de sândalo! — Áries respondeu molenga.
— É CHEIRO DE ÁLCOOL! — Shaka gritou — MU VOCÊ BEBEU DE NOVO? E por que está sem camisa? — fez menção em se sentar sobre o colchão, mas Áries o segurou pela cintura, atacando seus ombros com beijos molhadinhos e cheios de ternura.
— Sha, bebi só um pouquinho... — dizia nos intervalos dos beijinhos —... Um coquetel de frutas... Um Martini... Com o Dido... Coisa pouca... Hum... E tirei a camisa porque tô pegando fogo!... Sha, vem cá, quero você.
Áries tinha pressa. Falar de suas intimidades com Afrodite e escutar os conselhos acalorados que ele lhe dera o havia deixado muito instigado. Depois, precisava descobrir se ele e Shaka eram compatíveis e aquele era o momento decisivo.
Alheio à decisão do namorado, porém, Virgem experimentava os beijos distribuídos por seus ombros já sentindo-se muito excitado, mas tudo que conseguia pensar era no que Áries acabara de dizer — "Como assim, bebeu junto com o mundano do Afrodite? E ainda tem a pachorra de falar isso na minha cara? Pelos seis infernos de Samsara!" — resmungava em pensamento, mas antes mesmo que pudesse iniciar uma discussão, foi puxado pela cintura e deitado de costas.
Ainda que estivesse irritado, Shaka não conseguiu resistir ao beijo que se seguiu quando Mu tomou-lhe os lábios de forma apaixonada e lasciva, ao mesmo tempo em que se colocava sobre si soltando todo o peso do corpo.
O beijo era tão intenso e envolvia a ambos de tal maneira que Shaka preferiu deixar os protestos para mais tarde para aproveitar tudo que podia daquele momento.
Mesmo um pouco incomodado com o cheiro de álcool que impregnava o hálito do namorado, o indiano não conseguia deixar de corresponder ao beijo da maneira mais apaixonada e urgente que lhe cabia. Havia passado a noite esperando Mu, desejando aqueles lábios, e não eram alguns drinks a mais que ele tomara que iria impedi-lo de matar sua saudade. Depois o repreenderia quanto a esse hábito mundano da bebida.
Sendo assim, enquanto desfrutava da boca quente e hábil do lemuriano, Shaka o abraçava com força, afundando os dedos longos nos cabelos lavanda perfumados, arranhando levemente sua nuca.
— Hum... Sha... Você gosta assim? — Áries perguntou entre beijos e carícias, enquanto esfregava seu corpo ao do namorado o provocando. Precisava sanar as dúvidas que o atormentavam.
— Hu-hum... gosto. — Shaka respondeu num sussurro arfante, sentindo o contato entre os corpos o instigar cada vez mais.
— E assim? — continuou Mu, agora descendo as mãos para os quadris do virginiano dando um apertão forte, depois voltando a beijá-lo com uma ansiedade desmedida — Você gosta quando eu te seguro assim?
— Hum... S-sim... Eu gosto... — respondeu o loiro meio gaguejando, pois já sentia uma das mãos de Mu escorregar para debaixo de sua túnica, o pondo nervoso.
— Sha... Hmmm... Você me deixa louco, sabia?
Dito isso, Mu atacou o pescoço do virginiano com beijos afoitos e mordidinhas delicadas, porém aflitas. Sem nenhum aviso agarrou com ambas as mãos a cintura delgada do amado e num só movimento forte e extremamente ágil virou Shaka de bruços na cama, se colocando sobre ele de imediato e já pressionando seu membro muito rijo contra as nádegas do namorado.
Estava muito excitado e tudo que pensava era em mostrar a Virgem o quanto o desejava, e o quanto lutava para reprimir seus ímpetos.
Apesar de surpreso com o gesto ousado do ariano, Shaka não o deteve, até porque de uns dias para cá Mu estava bem mais saidinho e mesmo que usasse de todo o autocontrole que lhe cabia para frear seus desejos, no fundo ele gostava do atrevimento daquele ariano. Depois, havia visto tantas noivas em suas noites de núpcias no filme que assistira horas antes que sua libido parecia mais alta que nunca!
— Humm... Mu... O que deu em você hoje? — perguntou Virgem entre gemidos.
Estava um tanto quanto nervoso em sentir o membro de Mu lhe roçar a intimidade, mas os beijos que o ariano lhe distribuía pelos ombros e costas possuíam tanta ternura que tudo que queria era continuar os sentindo, infinitamente se possível fosse.
— Hoje? — sussurrou Mu, enquanto mordia o lóbulo da orelha do loiro ao mesmo tempo em que puxava para cima a barra da túnica que Shaka usava, o despindo do tecido alaranjado até a cintura. Com a outra mão Mu corria os dedos para dentro do cós da cueca branca do virginiano — Hoje eu quero saber do que você gosta, Sha... Quero saber se somos compatíveis.
A voz pastosa pela embriaguez tinha um apelo sensual que era novidade para o Santo de Virgem.
Mu nunca lhe pareceu tão "atrevido" e sedutor até então. Porém, Shaka, que antes estava muito excitado, agora parecia tomado por uma tensão ímpar, a qual lhe fez franzir a testa e erguer a cabeça que antes estava repousada confortavelmente no travesseiro.
— Como é que é? — tentou virar-se de frente para ele, mas Mu novamente o deteve, o mantendo na posição em que estava usando o peso do corpo — Você quer saber o que?
— Se a gente se encaixa, Sha... Humm... Se é assim que você gosta. — sussurrou novamente, agora beijando a lateral do rosto de Virgem — Preciso saber, amor... Diz... Me diz... Está gostoso?
Sem mais esperar e tomado por um furor sem precedentes, Mu esgueirou-se para baixo vagarosamente, traçando um caminho de beijos pelas costas do namorado até chegar em suas nádegas e baixar a cueca branca até a metade, tendo acesso a toda aquela carne macia e gostosa que tanto aguçava suas fantasias mais íntimas.
No mesmo instante, Shaka apoiou ambos os cotovelos no colchão e ergueu o tronco para olhar para trás, deparando-se com Mu beijando e mordendo suas nádegas, chocado! — "Buda! Ele está fazendo!... O que eu faço?" — pensou, tomado numa angústia conflituosa, já que seu corpo reagia positivamente, mas sua mente o condenava.
— M-Mu... O que... — balbuciou. A respiração ofegante entregando seu estado atarantado.
— Sha... é assim? — insistia Áries, agora abandonando os beijos nas nádegas fofinhas de Virgem para novamente galgar o corpo esguio do amado, deitando-se mais uma vez sobre ele — Me diz, amor... Os outros encaixes... Os que você me falou... Preciso saber... Hum... É desse jeito que você gosta?
— S-sim... N-não... Não sei... — deitou a cabeça no travesseiro fechando os olhos e tentando relaxar.
Muito nervoso, o virginiano não conseguia conciliar razão com emoção, o tesão que sentia com o compromisso do voto que fizera.
Tudo que conseguia sentir era que estava naufragando num oceano de sensações até então desconhecidas na prática, e estava adorando!
Mas, a verdade era que dentro do Santo de Virgem um conflito árduo se dava, uma vez que sentia um desejo absurdo por Mu, mas sua educação religiosa e sua disciplina para com sua missão na Terra lhe impediam de prosseguir de bom grado.
— Quero você Shaka... Eu preciso... Não aguento mais me revirar noite após noite pensando que tenho você, mas não posso tocá-lo como desejo... — beijou a nuca do indiano com carinho e paciência, esfregando seu nariz na região, então lentamente desceu uma das mãos à própria calça a desabotoando e depois baixando o zíper devagar — Agora eu sei o que falta, amor... Eu estava fazendo errado... Por isso você estava inseguro... Vou te mostrar, Sha... Só me diz se é assim que você gosta... Aaahh
Ao sentir o que Mu estava prestes a fazer Shaka abriu novamente os olhos de supetão.
Segurava o lençol com tanta força que seus braços chegavam a tremer, e quando olhou para suas próprias mãos trêmulas viu os desenhos que ele mesmo havia riscado com kajal sobre a pele, os quais imitavam os desenhos feitos pelas noivas indianas que via nos filmes e novelas.
Seu semblante mudara repentinamente e após perder-se por alguns segundos naqueles rabiscos, sentiu Mu lhe descer um pouco mais a cueca.
— Não... — sussurrou cerrando os olhos novamente, imprimindo força às pálpebras.
— Hum? — Mu respondeu com um gemido apenas.
— Não quero, Mu... Pare.
No entanto, o ariano parecia tomado por uma entidade faminta por luxúria e não apenas não cedeu ao apelo do namorado como não deteve as carícias que lhe fazia, nem os beijos nos ombros, tampouco as investidas que dava forçando o quadril contra as nádegas de Virgem, que vendo que Mu não lhe ouvia tomou uma atitude radical.
— KAHN!
Juntamente com o grito que irrompeu no quarto, estrondoso como o som de trombetas celestiais a cortar o firmamento, um campo de força esférico criado pela cosmo-energia de Shaka envolveu seu corpo em todos os pontos, protegendo-o por inteiro e repelindo de forma brusca quem o atacava, dada a técnica ser puramente defensiva.
O inimigo no caso era Mu, que com a explosão do Cosmo do virginiano e completamente desprevenido fora arremessado metros à frente, chocando-se com a parede do fundo do aposento e caindo em seguida por cima do biombo de madeira, o partindo em três partes.
Ainda sem ter noção do por que e pelo quê fora atingido, Mu apoiou ambas as mãos no chão e ergueu o tronco, olhando para frente logo em seguida. O choque fora tão forte que Áries cortou os lábios com os próprios dentes e sentia muita dificuldade para respirar, puxando o ar para dentro dos pulmões com dificuldade, fazendo caretas contorcidas de dor.
Sentindo o gosto ferroso do sangue em sua boca, levou uma das mãos ao local e verificou, tocando a ferida e olhando para seus dedos tintos de vermelho vivo, só então se deu conta do que acontecera, pois na mesma hora levantou a cabeça e olhou para Shaka, o vendo envolto pela esfera de cosmo-energia sentado sobre a cama, arfante, suado e com uma cara nada amigável.
— Por Atena!... Você... — balbuciou Mu.
Ali estava sua tão ansiada resposta. O namorado não apenas havia dito não, como teve coragem de usar seu Cosmo contra si, mesmo que apenas num golpe defensivo. Só então percebeu o quão leviano fora, uma vez que quando deixara o Templo das Bacantes não era exatamente assim que queria que sua noite acabasse. Pensara em demonstrar todo seu amor ao loiro e ser correspondido da mesma forma, mas fora repelido da maneira mais violenta e rude possível
—... Shaka... — sussurrou o lemuriano.
— Não diga nada, Mu. Você está bêbado e o gênio ruim que mora no álcool é que falará por você. — respondeu o indiano em tom repreendedor — Eu avisei que não quero desse jeito... Bom... Na verdade eu não sei como eu quero, nem se eu quero.
—... Então é isso. — disse o lemuriano após uma pausa, apoiando-se em uma poltrona para se levantar do chão — Essa é a sua resposta, e é aí que mora nosso problema.
— Que problema? — questionou Virgem curioso, erguendo uma das sobrancelhas enquanto o encarava com semblante sério.
— Não somos compatíveis... Só demorei a entender. Agora eu já sei. — rebateu entristecido e até um pouco magoado.
Já de pé, Mu caminhou até onde havia jogado sua camisa, enxugou o sangue da boca apertando os lábios com a barra do tecido e depois a vestiu.
Sobre a cama, Shaka desfazia seu golpe, e assim que o escudo que o circundava desapareceu o loiro desceu do leito apressado, caminhando até Mu enquanto arrumava as roupas e falava.
— De novo essa história? O que quer dizer com não somos compatíveis? Você quer ser mais claro, Mu de Áries? Porque assim só está tornando as coisas mais difíceis do que já são!
— Você quer saber mesmo, Shaka? Quer a verdade? — colocou-se à frente dele encarando os olhos azuis e tomando coragem. Tinha que aproveitar o momento e a ousadia que o álcool lhe conferia ao espírito, ou talvez não encontrasse outra oportunidade, por isso puxou o ar e prendeu a respiração — A verdade é que eu queria entender por que não conseguimos transar! Por que não consigo fazer amor com você, Shaka de Virgem? — soltou o ar numa baforada aflita.
Como Mu previa, Shaka havia se calado. Porém, nem era preciso que Virgem verbalizasse seu espanto, uma vez que ele estava estampado em seu rosto, o qual ficou corado de imediato.
— É isso mesmo Shaka... — continuou o ariano diante do silêncio do namorado —... Passei a festa inteira pensando no por que nós não conseguimos transar ainda, sendo que sinto que fomos feitos um para o outro, que nos amamos desde a infância, e que sei que me deseja tanto quanto eu o desejo, Shaka. O Dido me perguntou se eu queria dar ou comer, porque é disso que depende o maldito encaixe, droga... Eu sei o que eu quero, mas não sei o que você quer... Ah, eu nem ia falar disso com ele, nem com ninguém, mas depois que ele dormiu lá em casa nós ficamos amigos, sabe? Eu precisava me abrir com alguém, sei lá. E o Dido sabe dessas coisas de sexo, e ai eu fiquei pensando: Será que é isso, o encaixe? Tipo tomada? Mas, é preciso saber quem encaixa em quem... Porque se formos tomadas iguais ai não tem encaixe. Mas, o Dido disse que era fácil descobrir, basta ter atitude! Atitude, Shaka! — apontava o dedo para Virgem com propriedade. Nessa hora deu uma cambaleada para o lado, mas logo recuperou a postura — Ele disse que era só eu te pegar de jeito para descobrir e era isso que eu estava fazendo, mas você sabe que eu te respeito, não ia fazer nada que você não quisesse, mas ai... Não consegui me controlar!... Não precisava usar seu Cosmo e me machucar... Eu entendi que não somos compatíveis. Seu golpe me mostrou claramente a sua resposta! Mas... Eu amo você, e agora? — seus olhos começavam a marejar diante da própria constatação — O Dido me disse que...
— CHEGA!
O grito de Virgem fez Mu se calar de imediato, assustado.
De todas as palavras que Mu dissera, Shaka somente havia ouvido: — "Por que não conseguimos transar?... O Dido me disse... Você quer dar ou comer?... Ele dormiu na minha casa... Ficamos amigos... Ele entende dessas coisas de sexo... Ele falou que era só te pegar de jeito... Não somos compatíveis." — fora tomado de súbito por um ciúme que lhe corroeu a alma com a força e a velocidade de um tornado.
— Mu de Áries, você está me dizendo que foi pedir conselhos para... para resolver esse problema, justamente para o desajustado do Afrodite?
— N-Não! Eu não pedi nada, ele deu porque quis!
— E você achou por bem seguir o conselho torto dele e ir contra tudo que eu te disse quando começamos a namorar? Por Buda! Você passou dos limites! E que história é essa de que aquele baiacu beijoqueiro DORMIU na sua casa? Isso é verdade? — tamanha era a raiva do virginiano que suas veias saltavam-lhe no pescoço ao questionar o namorado.
—... É, mas ele estava muito machucado e...
— E você fala isso assim para mim? Aquele mundano prevaricador dormiu na... Na sua casa e... Buda! Não posso acreditar que estava me escondendo essa traição e só confessou porque o gênio ruim que mora no álcool falou em seu lugar!
— Traição? Não! Eu nunca te traí amor, pelos deuses, Shaka eu só... — Mu tentava falar com o amado, extremamente aflito, mas Shaka havia se afastado alguns passos lhe dando as costas, enquanto levava ambas as mãos à cabeça num gesto claro de descontrole, mas antes mesmo de Áries conseguir prosseguir com o que diria Shaka novamente o interrompeu.
— E quem te falou sobre essa tolice de ser compatível ou não? Também foi o Afrodite? — perguntou encarando o lemuriano com olhar incrédulo.
Mu baixou a cabeça.
Sentia vontade de chorar, pois reconhecia que havia sido leviano e imprudente justamente com a pessoa que mais amava, mas devido seu estado de embriaguez não conseguia ponderar nada mais além do fato de que tinha agido errado.
— Foi, mas ele só queria me ajudar... Nos ajudar. — respondeu quase num murmúrio.
— Ah, claro! Outro dia ele estava te beijando no meio de todo mundo, depois dormiu na sua casa... Agora ele quer nos ajudar.
— Shaka, eu já disse que ele estava machucado. — Mu ergueu o tom de voz voltando a olhar para o rosto do loiro, um tanto irado. Não estava gostando nada das acusações veladas de que, de alguma forma, fora infiel — Por que você só escuta o que quer? Não é o que você está pensando, ele dormiu lá porque sofreu um ataque covarde. Eu não sei detalhes porque Saga me pediu para cuidar dele e me proibiu de perguntar, e o Dido também não quis falar, mas Shaka, ele ficou tão ferido que mal conseguia se mexer. O atacaram com aço lemuriano, Sha, e bateram muito nele... O coitado não pode se defender sem seu Cosmo... Ele chorou e estava com medo de ficar sozinho, ai o deixei dormir em Áries.
— E só me contou isso agora por que, Mu?
— Porque tive pena dele. Ele está tão envergonhado de não ter conseguido se defender...
— Pudera! Mas você não é enfermeiro de garoto de programa, ou isso faz parte das funções a que o inescrupuloso do Saga te submete? De ferreiro das nobres armaduras do exército de Atena, você passou a tesoureiro de zona e enfermeiro de michê?
Shaka não tinha consciência de que suas palavras possuíam um julgamento pesado, muito além do que Afrodite e Mu mereciam, porém estava tomado por um ciúme insano, tanto pelo fato de saber que o namorado conversava sobre sexo com o cavaleiro de Peixes, quanto por descobrir que Afrodite dormira na casa de Áries.
O cavaleiro de Virgem estava começando a perceber que manter um relacionamento amoroso com outra pessoa não era tarefa fácil, mesmo para ele, que parecia possuir tanto entendimento acerca das paixões que movem a humanidade.
Contudo, se Shaka conhecia profundamente os sentimentos dos homens, seus anseios, temores e emoções, ele parecia nada conhecer de seus próprios.
Mergulhado em sessões sacrificantes de meditação, completamente sozinho e tendo a televisão como o único veículo de contato com o mundo externo, era justamente nela, seu oráculo no mundo moderno, a quem ele recorria nas horas em que se via perdido, como nesta hora, em que tinha sua primeira discussão de relacionamento.
Foi assim que lembrou-se de um capítulo da novela que seguia disciplinadamente, Paar Niyati, Destinos Cruzados em uma tradução literal do hindi, onde Ralej havia também avançado o sinal com Síbila antes mesmo de o noivado se tornar oficial. A moça lhe deu um safanão, eles discutiram, mas logo em seguida ela o perdoou e se entenderam, pois Síbila amava Ralej, assim como ele amava Mu.
A diferença era que Síbila não tinha que engolir a ideia de que Ralej levara um garoto de programa para dormir em sua casa estando comprometido, mesmo que não oficialmente, com ela.
Não! Ralej parecia ser bem mais ponderado que Mu de Áries num relacionamento.
O Santo de Virgem estava imerso nos capítulos da novela gravados em sua memória, e aos quais recorria na busca por uma resposta acerca da atitude do namorado, quando o próprio lhe deu o retorno que procurava.
— Se é isso que você pensa de mim, Shaka, sim! — Mu disse franzindo o cenho extremamente ofendido e magoado — Foi isso que me tornei, e continuarei a ajudar quem precisar de minha ajuda, sabe por quê? Porque é isso que significa humanidade. Não importa se sou muviano ou não, humanos ajudam uns aos outros.
Porém, Shaka de Virgem não pensava assim, simplesmente porque não sentia-se humano, nem divino, mas apenas como alguém que ainda não encontrou seu propósito entre os homens.
Tal qual um navegante sem bússola, ele vivia à deriva, entre o mundano e o divino, perdido dentro de si numa busca constante por uma definição que nunca vinha, mas que com a volta de Mu, e não podendo mais esconder seus sentimentos por ele, começava a lhe perturbar de maneira ainda mais incômoda.
— Sim, Mu, os humanos ajudam uns aos outros. — respondeu em baixo tom, porém o encarando nos olhos com profundidade — Mas, no Universo impera a lei de que toda ação gera uma reação. Execute boas ações e terá sempre a melhor resposta. Seja leviano e mal intencionado e o retorno não lhe será muito agradável, mesmo que o julgamento tarde. Se Afrodite sofreu esse ataque covarde, pode ter certeza que alguma coisa errada ele fez por merecer.
— Como pode dizer isso, Shaka? Ninguém merece o que fizeram a ele. Foi um ataque covarde de pessoas ruins... — disse Mu, alheio a toda verdade — Parece que não se lembra de quando éramos crianças. O Dido nunca foi capaz de fazer mal a ninguém.
— Você ficou muito tempo fora do Santuário, Mu. — Shaka suspirou — Para ver como o Mundo é uma fábrica de inconstâncias, os cavaleiros que viveram neste, que deveria ser um solo sagrado livre de qualquer corrupção, corromperam-se e você que abraçou o mundo continua puro... Nada mais é como antes. Você não é mais como era quando saiu daqui e foi para essa maldita festa. Eu gosto de você, Mu, muito! Mas, me decepcionou. Eu o avisei quais eram os meus limites. Eu fiz um voto... — aproximou-se de Áries e lhe pegou uma das mãos entre as suas — Você ia me forçar a fazer algo contra minha vontade, por quê? Porque está bêbado e dominado pelo gênio ruim que mora no álcool. Tem que parar de beber, Mu! Está se entregando à boemia e virando um alcoólatra.
— Não. — puxou a mão que Shaka segurava, irritado — Eu sei que errei. Não deveria tê-lo agarrado daquele jeito. Mas, não tente distorcer as coisas. Eu não sou nenhum alcoólatra e também não fiz nada contra sua vontade, Shaka de Virgem. Eu perguntei se estava gostando e você respondeu que sim. Estava adorando meus toques e estava excitado, e muito! Eu passei do ponto sim, mas não te obriguei a nada.
— Eu não vou conversar com você agora, porque você não está são. Você acabou de me dizer que o Afrodite dormiu na sua casa e que devo achar isso normal. Afrodite já beijou você, o que quer que eu pense? Antes me disse que não somos compatíveis... Tem noção de tudo isso que me disse?
— Afrodite é meio destrambelhado sim, é garoto de programa sim, mas é meu amigo. Saga me pediu para cuidar dos ferimentos dele, porque como disse ele foi atacado com aço lemuriano e cavaleiros não podem tocar nesse material, apenas nós. — falou referindo-se à sua raça — Mas, mesmo que Saga não me pedisse, eu cuidaria dele do mesmo jeito. Sabe por que, Shaka? Porque tenho compaixão. Compaixão é uma virtude humana, sabia? Jamais ficarei indiferente diante do sofrimento de alguém. Eu tenho coração!... Como cuidei de você, quando estava se matando por causa daquele jejum idiota a que você se obrigava. E o fato de eu trabalhar numa casa de tolerância e cuidar de um prostituto que sofreu uma agressão covarde não diminui meu mérito como cavaleiro e nem como ferreiro... Pelo menos eu tenho dois empregos e não fico inútil o dia inteiro vendo novela.
A última frase foi dita sem nenhuma convicção e em tom quase inaudível, mas alto o suficiente para os ouvidos de Virgem.
— O que... O que foi que você disse? — a voz saiu tremida. Na verdade seu corpo todo tremia, e tomado por uma aflição desmedida esticou o braço e agarrou a gola da camisa de Mu, dando um puxão forte que o trouxe para perto de si em um só tranco — Então eu te conto um segredo, íntimo, e do qual nunca sonhei em partilhar com alguém que não fosse você, a única pessoa nesse mundo que confio de olhos fechados e você usa isso para... Para me insultar? Para jogar na minha cara que sou um inútil? Apenas porque não aceitei e jamais aceitarei compactuar com a sujeira que assola esse Santuário?
— Primeiro, larga minha camisa, Shaka. — disse encarando os olhos azuis furiosos com propriedade — Segundo, se confiasse mesmo em mim não estávamos tendo essa discussão. E terceiro e mais importante, você me ofendeu primeiro me chamando de traidor, bêbado, zelador de casa de tolerância... E... E eu não queria ter dito isso. Me desculpe.
Shaka soltou a camisa do namorado bem lentamente, passando ambas as mãos por cima de onde havia agarrado o tecido para desamarrotá-lo.
— Vai ser esse inútil aqui que irá se sacrificar na Guerra Santa, quando ela acontecer um dia, e ai não adianta você chorar. Posso ser um inútil que só assiste novela, mas sou o único aqui que ainda se preocupa em treinar e elevar meu Cosmo além do Sétimo Sentido, enquanto todos os outros Santos estão enfiados naquele antro de sodomia, se entregando ao álcool, fornicando e esquecendo-se de suas verdadeiras missões. — finalmente deixou de alisar o tecido da camisa de Mu e se afastou alguns passos de cabeça baixa.
Mu olhava para o virginiano sentindo um misto de emoções. Estava zangado com as palavras ferinas do namorado, mas também sentia-se triplamente culpado, primeiro por tê-lo agarrado e forçado uma situação de sexo, depois por não ter falado antes sobre o ocorrido com Afrodite e do por que Peixes havia dormido em sua casa, e por fim por ter lhe dado aquele golpe de misericórdia falando das novelas que ele tanto amava, já que sabia que era ai que residia a fraqueza de Shaka de Virgem.
— Sha... — procurou aproximar-se, estava triste e não sabia como consertar aquela noite catastrófica —... Eu não queria ter dito isso. Não é isso que penso de você, eu só... Poxa, você me ofendeu também e eu não tenho sangue de barata, Sha. Você também me magoou.
— Não queria dizer, mas disse. É isso que você pensa de mim, que sou um noveleiro inútil.
— NÃO! NÃO É! — gritou aflito o lemuriano — Apenas falei na hora da raiva... Droga, Shaka, quase ninguém nessa vida consegue me fazer perder a cabeça, e você conseguiu! Eu não queria ter dito isso, eu amo você.
— Eu também amo você, Mu, tanto que isso me assusta muito. — finalmente olhou para o rosto ansioso do namorado à sua frente — Talvez, eu seja o único aqui que reconhece de fato suas habilidades únicas de cavaleiro, e também o seu incrível poder... Jamais o rebaixaria o obrigando a cumprir aquele cargo medíocre. O que Saga está fazendo com todos vocês é uma violência sem precedentes. Mas, não quero conversar sobre isso com você agora, Mu. — disse decidido, voz baixa e rosto entristecido — Não é auspicioso conversar tomado pela ira, pois ela envenena nossa língua e nos faz dizer coisas que não são a vontade verdadeira do espírito. Amanhã conversamos cavaleiro de Áries.
— Não faz isso, Sha...
— Por favor, vá para sua casa.
Shaka disse aquelas palavras com uma vontade imensa de gritar, chorar, estourar os miolos de Saga e Afrodite e mandá-los para um dos seis mundos do Samsara, mas não fez nada disso.
De forma carinhosa e contida, aproximou o rosto de Mu e lhe deu um selinho nos lábios machucados, para em seguida virar-se de costas e caminhar até à cama.
Enquanto sentava-se no leito sentiu o Cosmo do lemuriano se ativar e ao virar o rosto para trás não o viu mais ali, soltando um longo e pesaroso suspiro.
Mu havia se teleportado para a primeira casa zodiacal. Estava abespinhado, magoado e muito triste. Nem sabia mais se seu pesar era maior devido à atitude radical de Shaka ou sua própria leviandade em tentar forçar uma situação com ele.
Num ímpeto súbito de cólera socou uma das paredes de pedra abrindo um buraco. Ficou longos minutos olhando para as fissuras na rocha e quando sentiu seus olhos arderem e seu ânimo fraquejar retirou a camisa suja de sangue, a jogou no cesto de roupas sujas no banheiro e se dirigiu à Forja, onde passaria a noite amargurando uma tristeza descabida em companhia das armaduras e ferramentas celestiais.
Dormiria ali mesmo, no velho e surrado sofá que desde a tenra infância fora seu ombro amigo nas horas mais solitárias e difíceis, quando curava-se das broncas de Shion chorando abraçado ao estofado, que na época já era todo carcomido.
Foi uma noite longa e insone para ambos.
Templo de Baco, 08:03 AM
No quarto de Afrodite de Peixes, o som da ducha ligada irrompia por todo o ambiente já há longos minutos.
O guardião do décimo segundo Templo mal havia conseguido pregar os olhos.
Se dormiu por meia hora era de se espantar, visto que ao mínimo movimento que fazia na cama todo seu corpo doía absurdamente.
Tentou fazer uso de algumas de suas toxinas para aliviar a dor e o desconforto, mas pouco adiantou, uma vez que sentia-se tão deprimido que nem suas poderosas substâncias pareciam fazer efeito.
Chegou a desejar que alguém lhe desse uma martelada na cabeça para ver se assim conseguiria apagar aquela catastrófica noite da memória e pelo menos dormir em paz, sem que seus pensamentos lhe condenassem mais que todos ali naquela noite.
Não foi preciso a martelada.
Conseguiu juntar os olhos por alguns minutos e cochilar, mas antes não tivesse conseguido, pois teve um pesadelo angustiante no qual Camus de Aquário surgia à sua frente usando uma calcinha de rendas fio dental da cor de seus cabelos ruivos, numa composição cromática perfeita.
Estava lindo e trazia consigo um buquê majestoso de rosas colombianas vermelhas, mas quando aproximou-se dele para tomar as flores que lhe eram oferecidas, do meio delas Camus puxava uma cinta de couro, a mesma que usava no dia em que lhe açoitara, e justamente quando ele erguia a cinta no ar a fazendo dançar no vazio para em seguida lhe desferir uma cintada ele acordou, suado, assustado e pálido como uma estátua de cera.
Passou a mão na rosa de gelo que o francês lhe dera de presente, triste em constatar que o travesseiro no qual a havia colocado sobre estava todo molhado, e foi para o banheiro.
Estava sujo, de sangue, poeira e toda sorte de imundices que adquirira ao rolar pelo chão do salão de festas na briga com Misty de Lagarto. Não tivera ânimo nem ao menos de se limpar quando Camus deixou seu quarto, mas agora tudo que queria era deixar que a água levasse embora aquela xila, e com ela a lembrança daquela noite.
Tirou a fantasia de coelho bem devagar, fazendo caretas ao sentir o atrito do tecido contra seus ferimentos antigos e novos. Ligou a ducha e com a rosa na mão acocorou-se debaixo do jato d´água.
Abraçado aos joelhos, apoiou o rosto no vão que se formava entre eles e com os olhos fixos na rosa, a qual tinha nas mãos unidas, deixava a água lhe cair pela cabeça e escorrer pelos ombros e costas. Estava morninha e lhe causava certo alívio.
Girando a escultura entre as mãos, desejou que Camus estivesse ali consigo, mas logo recordou-se que o havia expulsado de sua vida da maneira mais vil que conseguira e não pode evitar que uma lágrima escorresse de um de seus olhos.
Tentou contê-la fungando, mas não era bom em esconder dos outros o que seu coração sentia, quanto muito esconder de si mesmo.
Chorou em silêncio.
— Eu devo estar doente. — resmungou em meio ao choro, iniciando um monólogo em baixo tom — É isso. Todas essas pancadas na cabeça... Devo estar com um coágulo no cérebro... E você?
Referia-se à rosa de gelo em suas mãos, a qual olhava com melancolia.
— Parece tão menorzinha... Será que está murchando?... Heim, rosinha? Você também vai me abandonar?
Suspirou, engolindo um pouco de água pelo nariz e tendo uma crise de tosse em seguida, mas assim que se recompôs voltou a encarar a rosa em suas mãos.
— Por que não consigo parar de pensar no homem que fez você para mim? Por que não consigo parar de pensar no desgraçado do Camus?... O que disse?... Alôca!...
Deixou escapar uma gargalhada de tom um tanto quanto aflito, respondendo à flor de gelo como se ela estivesse falando consigo, depois voltou a ficar sério a encarando de forma circunspecta.
— Apaixonado? Eu?... Não sou disso não, tá meu bem?... Ou sou?... — desviou os olhos da escultura os fixando na parede de azulejos rosa quartzo à frente, procurando entre um rejunte e outro talvez a salvação para sua angústia recém-descoberta — Não!... Não!... Isso não pode estar acontecendo comigo. Isso não está acontecendo comigo. Não comigo... Eu... Será?... Não. Que merda, Camus, sai da minha cabeça. Xô, xô, xô!
Fechou os olhos apertando as pálpebras com força, enquanto chacoalhava a cabeça negativamente.
Como quem tenta espantar um enxame de abelhas, Afrodite chacoalhava as mãos sobre à cabeça, quase hiperventilando de tão aflito que estava, até que abriu os olhos e voltou a encarar a rosa em uma de suas mãos.
— Ok, Afrodite, acalme-se bicha histérica!... — procurou controlar a respiração puxando o ar pelo nariz e soltando pela boca — É um coágulo. É isso. Você está com um coágulo no cérebro, e assim que o bajé* desmanchar e o coágulo sumir o Camus some junto com ele. VRAA! Sumiu mafioso malvado, gostoso, chicoteador de peixinhos. É só esperar.
Ficou alguns minutos em silêncio após aquele mini surto, deixando a água cair sobre a cabeça para desmanchar o suposto coágulo.
— Droga, Camus, o que você fez comigo? Não posso estar a... apa... apaaaixonado por você seu... Seu picolé azedo de calcinha enfiada no rabo! MALDITO!
Jogou a rosa de gelo longe, voltando a chorar abraçado aos joelhos e desejando que a água pudesse lavar tudo que sentia por Camus de Aquário.
No mesmo momento em que Afrodite de Peixes procurava lavar seus sentimentos, do lado de fora do Templo de Baco, aos pés da grande escadaria de rochas, Shaka de Virgem procurava lavar sua honra.
O Santo protetor da sexta casa zodiacal, havia passado a noite sem conseguir pregar os olhos.
Não conseguira parar um só segundo de pensar nas coisas que Mu lhe dissera, e por que lhe dissera. Sentia-se frustrado e furioso consigo mesmo, porque afinal não conseguia dar o segundo passo no relacionamento e não esperava que Mu lhe fosse cobrar tão cedo.
Não entendia por que afinal tinha que dar esse passo. Para ele estava tudo muito bom como estava, já que conseguia conter com facilidade seus desejos humanos, e imaginava que Mu também, uma vez que aceitara sua condição.
No entanto, Afrodite surgira para plantar a semente da discórdia em seu namorado e perturbar a paz entre eles. Shaka estava possesso de raiva e decidido a colocar aquele peixe devasso em seu devido lugar, de preferência bem longe de Mu!
E lá estava ele. Vestido com sua típica túnica budista, rosário de contas em mãos, e toda sua altivez prepotente lhe estampando o rosto de traços delicados.
Passando os olhos, bem abertos por sinal, pela fachada do antigo Templo construído em louvor ao deus do vinho e dos excessos, sentiu seu sangue ferver e seu espírito chorar de desgosto ao ver no que ele havia se transformado.
Silhuetas de mulheres nuas compunham a pintura tipicamente grega que fora empregada à fachada. Uma enorme estátua de Baco na entrada tinha o falo avantajado aos olhos de quem quisesse ver. Vermelho e dourado tomaram lugar do que antes eram colunas em tons naturalmente discretos.
De onde estava podia ver parte do salão, uma vez que as portas principais estavam abertas para que os servos pudessem retirar todos os destroços que sobraram da noite anterior após a briga de Afrodite com Misty.
Shaka olhava absorto para a quantia de sujeira que se amontoava do lado de fora. Copos, garrafas, mesas e cadeiras quebradas, muitos cacos de vidro e estilhaços, bitucas de cigarro, orelhas de coelho...
— É pior do que eu imaginava! É o próprio Pandemônio! — balbuciou, chocando-se ainda mais ao constatar que aquele era o ambiente de trabalho de seu namorado.
Foi quando viu Aldebaran de Touro sair de lá de dentro com uma caixa grande nas mãos. Eram as poucas garrafas de Absinto que havia conseguido salvar na noite anterior e as quais iria guardar na adega que ficava no porão do Templo.
— Ei! Aldebaran! — chamou discretamente, mas o brasileiro parecia não tê-lo ouvido, pois seguia para uma escada lateral concentrado. Foi então que gritou – EI! ALDEBARAAAN!
Agora Touro não apenas o ouviu como também o viu quando olhou na direção de onde viera o grito.
— Shaka? — arqueou as sobrancelhas volumosas, surpreso em ver o cavaleiro da sexta casa ali, e tão cedo — O que faz aqui? Se veio pregar a palavra de Buda já te digo que não tenho interesse. Tô muito bem com os meus Orixás. Também não quero comprar Yakult.
Shaka entendeu aquilo como um insulto.
— BÊBADO! — gritou para Touro, visivelmente perturbado.
Virgem então desistiu de procurar por um intermediário. Já havia percebido, pelo modo como o brasileiro lhe recebera, que ninguém ali iria chamar Afrodite de bom grado, então decidiu chamá-lo ele mesmo, dali de onde estava, já que cumpriria sua promessa de jamais pisar naquele solo mundano.
— CAVALEIRO DE PEIXES! AFRODITE! — gritou a plenos pulmões, quase fazendo Aldebaran derrubar a caixa que levava ao porão tamanho o susto que levara.
— Por todas as aparições Marianas, Shaka, tu tá maluco? Tá todo mundo dormindo. Cala essa boca. — disse Aldebaran ainda assustado e quase sussurrando a última frase.
— Não se meta, Touro, ou vai sobrar para você também. — avisou o virginiano, que novamente chamou pelo sueco — AFRODITE DE PEIXES! DESÇA AGORA! — andava de um lado para o outro com os olhos fixos na porta de entrada, enquanto bufava feito um touro raivoso.
— Se você continuar gritando vai sobrar pra mim do mesmo jeito, e pra você também. O que tu quer com o Afrodite? Para de gritar e sobe de uma vez lá pro quarto dele rapaz.
Shaka apontou o dedo indicador para o rosto de Aldebaran, lhe lançando um olhar fulminante.
— Não me faça perder a razão, Touro! — baixou o dedo e tomando folego gritou novamente — AFRODITE DE PEIXES, NÃO VOU ESPERAR MAIS, OU VOCÊ SAI DAI DE DENTRO AGORA, OU EU VOU REDUZIR ESSE ANTRO DE DEGENERADOS À POEIRA!
Shaka então viu uma das janelas frontais se abrir, a qual ficava em uma sacada, mas o dono do quarto abrira apenas a parte de cima da porta de madeira divida em duas partes.
Era Saga de Gêmeos, furioso por ter seu sono interrompido, o qual desfrutava finalmente nos braços de sua amada amazona, depois de anos sonhando com a primeira manhã em que acordaria ao lado dela, como um casal finalmente, após uma longa espera angustiante.
Saga idealizara aquele momento íntimo por anos e Shaka de Virgem precisou de apenas alguns minutos para roubá-lo de si, o que deixou Gêmeos furioso e prestes a dar início a uma guerra de mil dias quando olhou para baixo e seu olhar cruzou com o do Santo de Virgem, mas preferia muito mais passar mil dias amando sua amazona ao em vez de lutando com o defensor da sexta casa.
Sendo assim, respirou fundo tentando manter a calma e tudo que fez foi botar a cara para fora e apenas repreender ao cavaleiro.
— O que está acontecendo nesse pedaço amaldiçoado do Cocito, Shaka de Virgem? O que você quer aqui, seu Buda de galocha?
Lá de baixo, ao pé da escadaria, o loiro o fuzilava com os olhos, chegando a sentir as mãos tremer tamanho seu estado de nervosismo.
— TUDO ISSO É CULPA SUA, GÊMEOS, SEU HERÉTICO DE MERDA!
— Como é que é Virgem? O que é culpa minha? Eu estava dormindo, até você começar a gritar debaixo da minha janela, seu maluco chato.
— Se não quiser que eu acabe com esse seu templo de pederastia e corrupção, é melhor chamar o seu michê particular, seu miserável, USURPADOR! — gritou, agora apontando o dedo para Saga.
— O que o irresponsável do Afrodite fez dessa vez? O que você quer com ele? — perguntou Gêmeos irritado, afinal não iria permitir que dois cavaleiros lutassem, e pela fúria que via nos olhos de Shaka, sabia que ele não estava ali amigavelmente.
— Isso não te interessa. — respondeu em baixo tom, mas logo elevando a voz novamente — SE AFRODITE DE PEIXES NÃO ESTIVER AQUI EM UM MINUTO, EU VOU ARRANCAR, PARA TODO O SEMPRE, O SENTIDO DO TATO DE TODOS VOCÊS, E QUERO VER QUEM É QUE VAI CONSEGUIR FORNICAR DEPOIS QUE SEUS MEMBROS MURCHOS NUNCA MAIS FICAREM ERÉTEIS! SERÃO IMPOTENTES PARA O RESTO DE SUAS VIDAS!
— AFRODITEEE! DESCE LOGO VIADO! — quem gritou dessa vez foi Aldebaran, que ao ouvir aquela ameaça sentiu até uma pontada de dor no baixo ventre, precisando colocar a caixa com as garrafas no chão — Eu ainda tenho muitos carnavais pra viver. — completou em tom mais baixo.
Saga fechou os olhos esfregando o rosto com a mão e quando chegou a pensar em mandar alguém ir chamar o pisciano, eis que ouviu a voz do próprio, vinda lá de baixo.
— AQUENDAAAAAAA... ESTOU CHEGANDO!
Peixes vinha correndo todo esbaforido enquanto terminava de fechar o zíper lateral do hábito de freira com o qual estava vestido.
Sim, Afrodite vestia um hábito religioso, desprovido apenas do limpel, o tecido branco de linho que envolve a cabeça e o pescoço, mas fiel aos originais hábitos usados pelas freiras em todos os demais paramentos, não fosse pelo detalhe de que era feito em látex negro e branco.
Ao cruzar a porta, Peixes parou ao lado de Aldebaran no topo da escadaria, finalmente fechando o zíper da fantasia e jogando os cabelos ainda húmidos do banho para trás das costas. Só então olhou para o rosto de Touro e depois para o de Saga, erguendo a cabeça em direção à sacada.
Ambos o encaravam com os olhos arregalados e lábios entreabertos.
— O que foi, gente? Nunca viram uma noviça saindo da zona?
— Noviça de tromba não. Nunca vi! — falou Touro, não resistindo e caindo na risada.
— Não quero mais baixaria na minha zona, tá ouvindo Peixes? — bradou Saga — E isso serve para você também, Virgem. Já perdi a paciência com vocês dois há tempos!
— Fica tranquilo, chefinho. Somos duas pessoas civilizadas. — respondeu o pisciano fazendo um gesto para Saga, o qual ainda estava extremamente irritado e nem se dignou a responder, fechando logo a janela e decidido a voltar para a cama, para os braços de Geisty. Já havia perdido tempo demais e agora queria passar todo o tempo que podia ao lado dela. Não deixaria que mais ninguém interferisse em sua felicidade. Deitou na cama, aconchegou-se ao corpo moreno que se remexia e fechou os olhos, monitorando os Cosmos dos Santos que conversavam do lado de fora, por precaução.
Afrodite descia os degraus da escadaria em direção a Virgem, que o olhava custando a crer no que seus olhos viam.
— Pronto, gralha loira, estou aqui. Não precisa deixar ninguém broxa, tá boa? O que você quer?
— Por que infernos você está vestido assim? — perguntou o indiano, verificando que o rosto de Peixes estava de fato muito machucado, com muitas escoriações e um ferimento grande no supercílio, comprovando o que Mu havia lhe dito, mas isso em nada mudava o fato de Afrodite ter dando conselhos indiscretos para seu namorado.
— Bom dia para você também. Não gostou? — disse dando uma voltinha em torno de si mesmo enquanto sacolejava a saia do hábito — Quando senti que era você, o tão poderoso e recatado cavaleiro Shaka de Virgem, quem estava solicitando minha presença procurei no meu closet um figurino digno de sua santidade! — deu uma piscadinha com o olho direito, tentando convencê-lo, quando na verdade escolheu aquela maldita fantasia apenas porque queria esconder as marcas da violência que sofrera de Camus, e que o deixava tão envergonhado.
— Deixa de ser ridículo, Peixes. Quer parecer santo justo para mim? Para que eu tenha piedade de você? Pois saiba que não tenho piedade de ninguém.
— Ah, mas disso eu sei, querido. Se nem do homem que você ama você tem piedade, imagine de mim, ou de qualquer outro pobre mortal. — deu um passo a frente até ficar bem próximo do virginiano para que ninguém ouvisse o que iria dizer, já que algumas das garotas, as mais curiosas, já se amontoavam na porta, atraídas pelos gritos e junto a Aldebaran estavam os espiando ao pé da escada — Não vou perguntar se dormiu bem, porque está na cara que não. A noite não foi boa, Shaka? Não me diga que não deixou o coelho, no caso o carneiro, entrar na sua toca? — disse sorrindo com ironia.
Shaka engolia seco, apertando as contas de seu rosário com deliberada força. Não podia crer que Mu havia dito a Afrodite que iria tentar "avançar o sinal" consigo, que havia exposto sua intimidade de maneira tão leviana.
O coração de Virgem batia feroz dentro do peito e rangendo os dentes, tomado por um turbilhão de sentimentos revoltantes, agarrou no braço de Peixes e o puxou para mais longe dali, para que ninguém no Templo pudesse ouvir o que tinha a dizer ao pisciano.
Já distantes o suficiente, Shaka soltou o braço do guardião da última casa e agarrou na gola do hábito que ele vestia, o trazendo para perto de si com um puxão.
— Seu despudorado sórdido! — falou em voz baixa, porém quase num rosnado — Eu vim aqui para te por no seu lugar, mas devido ao estado lamentável dessa sua cara de pau, vejo que já fizeram isso, seu orgíaco dos seis infernos! Então, vou direto ao ponto. Não se aproxime do Mu. Não quero você falando, andando, olhando, ou mesmo respirando perto dele, entendeu? Como ele é muito inocente, já deve ter falado para você que estamos juntos e você, como é um sujo imoral, não deve respeitar isso! Além de ficar enfiando coisas impudicas na cabeça dele! Você entendeu?
— Entendi metade. — respondeu o sueco arregalando os olhões azuis — Sim porque o dialeto barroco* não é minha especialidade. — deu um empurrão em Shaka, livrando-se do agarrão e então o encarou com expressão muito séria — Olha aqui, Shaka, desaquenda a bilôca* que de cafuçu* eu já tô por aqui! E fala direito comigo. — ergueu a mão acima da própria cabeça chacoalhando os dedos.
— O que? — perguntou Virgem confuso, enquanto arqueava uma sobrancelha.
— Tá vendo como é grosseiro não se fazer entender? Então, para que isso não aconteça eu vou ser muito claro e direto com você, Buda. — colocou uma das mãos na cintura, apontou o dedo da outra mão para o peito de Virgem — Se tem alguém aqui que está enfiando merda na cabeça do pobre do Mu esse alguém é você, cavaleiro! Você e essa sua babaquice religiosa. O Mu não nasceu para ser casto, muito menos um deus, como você acredita que nasceu para se tornar um. Mu é um homem, um ser humano como qualquer outro, e você está enlouquecendo esse menino com essa sua paranóia religiosa e essa greve de sexo que você impõe a ele. Se não quer trepar, Shaka, se quer viver o resto da sua vida batendo bolo*, então case com Buda e seja feliz no Nirvana, mas não arraste o Mu com você, porque essa não é a escolha dele.
Incrédulo, Shaka percebeu que o caso era pior do que pensava. Afrodite parecia conhecer melhor as vontades e escolhas do namorado do que ele mesmo. Rangendo os dentes de raiva, encarava o outro com veemência.
— E qual é a escolha dele, Afrodite? Heim, como você sabe? O que te faz pensar que conhece o Mu assim tão bem? — era a curiosidade falando no lugar do orgulho — Você não sabe o tipo de relação que temos. Você sim é um intruso, que está envenenando Mu com sua devassidão.
— Ah, pela coroa de Dadá, Shaka, abre o olho, colega! Como eu sei qual é a escolha dele? Simples, porque eu escuto o que ele tem para me dizer. Porque eu empresto meu ouvido quando ele quer desabafar sempre que aparece aqui com aquela carinha amuada de cachorro que caiu da mudança, por sua causa, Shaka. Carinha essa que você, certamente, nunca reparou, porque além de viver com esses olhos fechados, você também vive com a mente trancada... Além da bunda! Você que não abre a mente e a bunda que vai acabar ficando sem namorado.
— O que... O que foi que você disse? Afrodite... Eu vou... — não conseguiu terminar a frase, pois o cavaleiro de Peixes o interrompeu.
— Vai o que? Você não vai nada, Shaka, sabe por que? Você sabe muito, mas lá dentro do seu Templo, aqui fora é vida real, Alice! Você tá dando truque* no Mu e ele, como está apaixonado, faz tudo que você quer. Você é tão egoísta que não consegue perceber que está magoando um homem legal, bonito, e que ama você de verdade, sem esperar nada em troca. O que eu lamento muito, já que acho que o Mu merecia amar e ser amado por alguém normal. — falava nervoso, com voz grave e decidida — Você está enlouquecendo o Mu, será que não vê? Não conversa com ele sobre essa sua resistência em trepar e o menino fica cheio de dúvidas, achando que o problema é com ele, pensando estar fazendo tudo errado e tentando de tudo para te agradar. Só que ele nunca vai conseguir te agradar, Shaka... Desaquenda* do Mu se você não quer trepar com ele. Ouviu?... Mu é fervido*, ele quer ter prazer com você e não é possível que você também não queira!... Pelo báculo poderoso da deusa! Como você consegue segurar o tesão tendo um homem como o Mu em seus braços? Forte, lindo, com aqueles olhos verdes tão doces, aqueles ombros largos...
Prestes a derrubar todas as colunas do Santuário sobre a cabeça de Peixes, Shaka novamente agarrou em sua fantasia e o empurrou contra uma rocha, fazendo Afrodite soltar um gemido rouco.
— Seu imundo desgarrado! Eu mato você Afrodite de Peixes!
— Mata! — enfrentou o loiro com propriedade — Pelo menos eu não vou morrer virgem! E quer saber? O Mu também não quer morrer virgem, Shaka, tá boa? Ele está louco para meter gostoso na sua bunda, seu idiota... Só que você é tão prepotente que não é capaz de admitir que é isso que você também quer, Shaka! Ou então está fazendo a Katya* para segurar o coitado! Ó, vou te dar um conselho, Buda loirudo, Mu é um pedaço de homem, abre teu olho. Eu mesmo já vi aqui várias amazonas, e também cavaleiros, comendo o carneirinho com os olhos. Esse seu namorico de criança com o Mu não vai durar muito não, porque na hora que a necessidade dele falar mais alto e você estiver muito ocupado meditando e adorando o seu Buda, o Mu vai traçar alguém bem debaixo do seu nariz, ou alguém vai traçar ele, porque pode ter certeza, se você não quer dar pra ele, tem quem queira!
Bastou essa última frase para que Shaka perdesse de vez a cabeça.
Mesmo não sendo adepto das lutas corporais, uma vez que sempre preferiu usar seu poder ao em vez de ter que sujar as mãos, a raiva daquele pisciano desbocado lhe dirigindo aquelas palavras chulas era muito maior que seu raciocínio.
Dessa forma, num acesso de ódio, Shaka fechou a mão e meteu um soco na cara de Afrodite, lhe acertando em cheio o nariz.
Na mesma hora, do alto da escada na frente do templo, Karina, Rebeca, Mônica, Natasha e Yumi, as bacantes que haviam saído de seus quartos para espiar o barraco, levaram as mãos à boca assustadas.
Aldebaran já dava um passo à frente para correr até os brigões. Tinha passado o tempo todo apenas os observando ao longe, mas assim que notou que o tempo fechara, e temendo uma nova briga entre cavaleiros, estava decidido a interferir.
Todavia, Touro nem foi capaz de chegar ao pé da escadaria.
Enquanto Afrodite levava ambas as mãos ao rosto, cego e desnorteado devido à pancada naquela região tão sensível, Shaka erguia seu rosário no ar fazendo as contas douradas dançarem e tilintarem como se tivessem vida própria.
Na mesma hora, o cavaleiro de Touro fora paralisado pelo poder do virginiano que sem perder mais tempo olhou para o rosto ensanguentado do cavaleiro de Peixes à sua frente, e quando seus olhos azuis cintilaram um brilho dourado e seu Cosmo se elevara, Shaka gritou em alto e bom tom:
— Eu vou mandá-lo para o inferno, seu prevaricador imundo. Morra Afrodite! RIKUDO RINNE!
Continua...
Dicionário Afroditesco
Bajé – sangue
Barroco – velho
Bater bolo – masturbação entre homens
Cafuçu – indivíduo grosseiro, selvagem
Dar truque – enganar
Desaquenda a bilôca – Para de ser louco.
Desaquendar – desistir; largar mão; desfazer. O contrário de Aquendar.
Fazer a Katya – fingir, dissimular
Fervido – diz-se da pessoa cheia de energia, empolgação.
