"O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança."

Ele leu essa frase em um livro quando tinha apenas quinze anos.

Na época, ainda imaturo e inconsequente, não que não o fosse mais hoje, achou graça e riu, pois ela lhe soou um tanto quanto absurda. — "Esse tal de Garcia Márquez é um velho bobo. Desde quando se precisa amar para trepar? Alôca!" — bronqueou, levemente irritado, pois raramente encontrava um livro de tema divertido na biblioteca do Santuário, e a leitura de obras traduzidas para o grego fazia parte das aulas para o aprendizado do idioma.

Na época ele jogou o livro, com certo desprezo, sobre a prateleira e deu as costas ao significado daquela frase, uma vez que fora ensinado pela única pessoa que amara na vida que o amor era uma maldição e que o sexo era o único conforto do homem.

Hoje, porém, aquela mesma frase do renomado autor colombiano que julgou descabida anos atrás, agora, quatro anos depois, lhe parecia fazer todo sentido.

O quarto estava à meia luz. A cama ainda arrumada e os copos com as doses de whisky ainda intocadas sobre o criado mudo era sinal de que estavam ali há bem pouco tempo.

No toca discos uma canção de ritmo moderado e em volume baixo conferia um tom sensual ao ambiente. Não que fosse sua intenção, apenas fazia parte do protocolo, além de deixar o cliente mais à vontade.

No entendo, ele mesmo não parecia nada à vontade.

— Humm... Será que podemos... Humm... Parar um pouco... Hum... — tentou falar entre murmúrios, sem disfarçar seu desagrado através da careta que fazia ao olhar para os olhos amendoados do homem corpulento, o qual olhava para seu rosto com as íris faiscantes de excitação.

— Shii... Calado. Continue. Não mandei você parar de chupar. — reclamou com a voz pigarrenta pelos tantos anos de uso de nicotina e álcool — Vai... Abre mais a boca... Humm... Isso mesmo, assim... Lá no fundo da garganta... Isso, me deixa ver? — estreitou os olhos luxuriosos, enquanto com os dedos gorduchos dos pés nus apertava os pelos do tapete felpudo, fremindo de tesão — Aahh... Suga mais forte... Passa a língua em volta... Isso... Que delícia de boca você tem...

Enquanto o olhava com olhos vidrados, o prefeito Praxédes deslizava a mão que tinha livre pela nuca e costas do pisciano, vez ou outra a descendo até as nádegas macias onde dava um apertão forte.

Nessas horas Afrodite dava um pulinho em seu colo e arregalava os olhões azuis encarando o homem com certo espanto.

— Você chupa tão gostoso... Humm... Isso... Isso teteia, lambe ele todo... Aahh... Agora engole... Opa! Não engasga não!... É muito para você? Hummm... Nossa, que tesão!... Está gostoso?

A resposta, porém, surpreendeu o prefeito, mas não como ele esperava.

— NÃO! TÁ HORRÍVEL... HORRÍVEL! ISSO É NOJENTO! — o grito veio acompanhado de uma cusparada no chão que quase atingiu os pés inchados do prefeito. Na mesma hora, Afrodite, o qual estava completamente nu, desceu do colo do homem que o encarava incrédulo e limpou os cantos da boca com as pontas dos dedos, fazendo uma expressão de nojo — EU ODEIO PÊSSEGO! ODEIO! ODEIO!

— E quem disse que você tem que gostar de algo ou não? Quem tem que gostar sou eu, seu puto. Eu estou pagando! E no contrato da venda do programa está acordado que você faz tudo.

— Esse tudo não inclui chupar pirulito de pêssego!... Ah, tá boa! O senhor é doente por acaso? Faz meia hora que tá me fazendo chupar essa bosta. Urgh! — apontou com tanta raiva para o pirulito na mão de Praxédes que suas mãos tremiam.

No auge de toda sua altivez, o prefeito levantou-se da poltrona na qual estava sentado e cheio de propriedade encarou os olhos de Afrodite de forma severa.

— Olha aqui, seu puto de merda. Eu acho que deixei bem claro que não queria frescura ou barraco quando fechei o contrato com o seu cafetão, aquele bosta do Saga. Eu posso fechar essa espelunca hoje mesmo se eu quiser. Posso, inclusive, denunciar todos vocês para a Federal... Seu amigo traficante que fica no bar, seu colega atravessador e as putas todas que ele trouxe para cá com documentos falsos... E aquele seu amigo italiano com cara de diabo?

— Epaaa! Pode desaquendar* por ai, ô mondrongo*. — encarou de volta o prefeito, encostando o dedo indicador no peito largo dele — E eu posso fazer você dormir, agora inclusive, o sono eterno dos mondrongos*, antes mesmo de você conseguir levantar essa tua neca* murcha ai, meu bem. Quanto muito fazer tudo isso. Você não tem amor à vida não, Alice? Tá pensando o quê? Que prostituta é bagunça? Não estou me recusando a fazer o programa com você, apenas... Apenas não dá para ser um pouco mais normal, não? Troca o pêssego por morango, ou limão! Eu sei que aqui todo mundo tem o edi* preso com a justiça, inclusive você, né colega? Então vamos facilitar para os dois lados, o que acha?

— Eu acho bom você se colocar no seu lugar e ficar pianinho, cavaleiro. Você pode ser poderoso, mas o verdadeiro poder está em minhas mãos. — segurou no queixo de Afrodite dando um chacoalhão — Eu tenho influência e dinheiro! Muito dinheiro! É isso que move esse mundo, meu rapaz. Ainda é. — soltou o rosto do sueco dando uma risada sarcástica — Então, acho melhor você usar essa sua boca para me dar prazer em vez de perder tempo falando merda. E antes que eu me arrependa e faça outra reclamação para o Saga contra sua pessoa, faça seu trabalho, e faça bem feito.

Praxédes deu as costas a Afrodite e caminhou decidido até a cama, onde se sentou na borda, desceu os suspensórios que usava, retirou a camisa, deixando a barriga peluda cair sobre o cós da calça, abriu a braguilha e pondo o falo murcho para fora olhou para o pisciano e apontou o chão, indicando que ele deveria ajoelhar-se entre suas pernas.

Afrodite olhava para ele ofegante, de raiva, revolta, nojo.

O que ele sentiu naquela hora lhe foi totalmente novo. Humilhação, asco, revolta.

Nunca desejou tanto estar em outro lugar como naquela hora. Melhor ainda se nesse lugar tivesse a companhia de um certo francês de cabelos ruivos.

Intimamente perguntava-se como se permitiu chegar ali, naquela situação. Tivera tudo em suas mãos, a amizade e confiança de Saga, os carinhos e o amor de Camus, e jogara tudo ao vento. Agora teria de aceitar aquela humilhação como punição.

Camus...

Foi de olhos fechados e pensando em Aquário que ele se ajoelhou no lugar que lhe fora ordenado e tentou, com todo o esforço que lhe cabia, mandar sua mente e seu espírito para bem longe daquele quarto, onde ele pudesse se encontrar com a única pessoa que fazia seu coração bater mais forte.

Enquanto isso, no salão do Templo das Bacantes, em uma mesa afastada como era sempre de sua preferência, Camus de Aquário bebia vodca na companhia de um russo alto, de rosto obtuso e muito bem vestido em um terno negro com gravata vermelha. Chamava-se Andreas e fora o eleito de Camus após dias de investigações minuciosas e interrogatórios intensos, ao cargo de seu novo braço direito, posto que antes era ocupado pelo falecido Ivan Ivanovenko.

Junto a eles estava também uma das prostitutas da casa, Mônica, uma bela jovem sérvia de olhos azuis e cabelos tingidos de um rosa bem claro. Foram tantas as vezes que Aquário se deitara com Mônica para ter um álibi que acobertasse seu caso com Peixes, que agora ele mantinha essa predileção pela moça, e também porque ela já havia pegado o jeito em atendê-lo. Como agora, quando via seu copo vazio e rapidamente passava a mão na garrafa de vodca o enchendo.

Mônica sabia que o ruivo não apreciava muito o contato físico, por isso permanecia ali apenas fazendo companhia e lhe mantendo o copo cheio.

Completamente alheio à moça ao seu lado, Camus corria os olhos pelo salão cumprindo a função que lhe cabia ali, a qual era de conferir o andamento do empreendimento de Saga pessoalmente.

Ao voltar à Moscou, deveria relatar a Dimitri, o "pai" dentro da Vory, se tanto o bordel quanto Geisty de Serpente estavam cumprindo com seu propósito de levantar a grana que deveria cobrir o rombo nos cofres russos, feito por Kanon.

Ao ver a amazona de Serpente, por sinal mais sorridente que o normal, sentada a uma mesa, acompanhada de dois homens muito bem vestidos, e mais adiante os clientes russos que trouxera para usufruir do bordel se esbaldando com as prostitutas no meio do salão, Camus deu sua missão naquela noite como cumprida. Agora, só terminaria sua garrafa de vodca e subiria para seu Templo, pois desejava estar em qualquer lugar do mundo, menos ali.

Lá pelas tantas, Karina, uma lindíssima loira de cabelos ondulados vinda do interior da Turquia, juntara-se a eles sentando-se no colo de Andreas, o qual já muito bêbado perdia-se nos fartos seios seminus que a garota lhe ofertava.

Mônica, bem menos ousada, apenas encostava a cabeça nos ombros de Camus e lhe fazia uma carícia na nuca, remexendo com os dedos os fios ruivos em total silêncio.

O que nem Mônica, nem Karina, tampouco Andreas ou qualquer um dos presentes ali desconfiava era que Camus, desde que chegara ali e vira Afrodite subindo para o quarto acompanhado do execrável Praxédes, monitorava as sutis oscilações do Cosmo do pisciano, o qual ora mostrava-se agressivo, ora profundamente melancólico.

Era notório para Camus que Peixes não estava nada à vontade, tampouco divertia-se, mas ciente de que nada poderia fazer e ainda muito ferido por tudo que acontecera, Aquário só podia deixar-se engolir por uma tristeza desmedida que crescia a cada minuto que passava ali. De certa forma, sentia uma inveja torpe do prefeito, além de ódio por ser ele a estar no andar de cima com seu sueco.

Seu.

Sim, ainda via Afrodite como seu, uma vez que nem todas aquelas doses de vodca, tampouco as carícias sensuais de Mônica e a semana que passara sozinho em Moscou foram capazes de fazer seu amor por Peixes diminuir.

Ao contrário, a cada dia que passava distante do pisciano, tinha ainda mais certeza de que estava de fato perdidamente apaixonado, e ter a consciência de que Peixes agora estava em um quarto fazendo sexo com aquele homem asqueroso só contribuía para sentir sua alma ainda mais corroída pelo ciúme e pela culpa. Afinal, fora ele mesmo quem condenara Afrodite de fato à prostituição.

Por isso Camus bebia. Dose após dose, calado, sério.

Mônica lhe enxia o copo e ele logo o virava na esperança de o álcool lhe trazer algum refrigério.

— Não vai querer seu licor de anis hoje, senhor Camus? — perguntou a bacante de modo gentil.

Aquário demorou a responder, estava circunspecto, afogado em seus próprios pensamentos, quando de repente ergueu a cabeça para olhar para a moça e eis que seus olhos viram justamente o que mais temia ver naquela noite.

Descendo as escadarias para o salão vinham, lado a lado, o prefeito Praxédes e Afrodite de Peixes.

O bonachão conduzia o pisciano pela cintura, o qual excepcionalmente usava um traje simples, composto por calça jeans justa, camiseta branca, botas e cabelos presos num rabo de cavalo, bem diferente do modo exuberante como costumava vestir-se. Conforme caminhavam, Praxédes deslizava a mão gorducha pela lateral do quadril esguio do sueco de forma obscena e até meio abusada.

Desde o aniversário de Saga havia se passado uma semana, e ao olhar para o rosto de Peixes Camus percebeu que as marcas dos ferimentos que maculavam sua beleza única já eram bem mais amenas, quase não se notava. Porém, se o rosto de Afrodite recuperara toda a beleza que lhe fazia jus ao nome, sua expressão partiu o coração do francês, que sem conseguir desviar o olhar notou o semblante triste e seriamente incomodado do pisciano.

Viu quando chegaram ao salão e Praxédes tentou dar um beijo nos lábios do sueco, mas este virou o rosto, espalmou uma das mãos no peito volumoso do homem e dando uns passos para trás se afastou. Quando Afrodite lhe deu as costas, o homem riu alto, disse algo inteligível àquela distância em que estava e deu uma bela apalpada nas nádegas do pisciano, antes de sentar-se à mesa onde estavam seu e secretário particular com uma das bacantes no colo.

Ao se deparar com aquela cena, Camus assumiu um semblante ainda mais severo e introspectivo.

Enquanto via Afrodite caminhar até o bar, de cabeça baixa e sem olhar para ninguém naquele salão, sentiu-se tão miserável que a dor de sua tristeza parecia deixar o campo emocional e passar a se tornar física, já que sentia fisgadas agudas no peito, as quais faziam seu rosto se contorcer.

No bar, Peixes trocou uma meia dúzia de palavras com Aldebaran, tomou um gole de alguma bebida qualquer e da mesma maneira que viera, cabeça baixa e olhar pregado no chão, cruzou o salão indo em direção a uma mesa perto do palco, onde Shina e Marin faziam uma apresentação de pole dance. Sabia que Camus estava no salão, mas não tinha coragem de encará-lo.

Sem rodeios, Afrodite aproximou-se do homem sentado à mesa, que vestido numa indumentária até que muito distinta para o lugar assistia as amazonas dançarem.

Sem nem trocarem uma palavra sequer, até porque tudo que precisasse ser conversado já havia sido acertado por Saga, ele se levantou e seguiu o pisciano até a escadaria que levava aos quartos.

Enquanto subiam, Camus os observava, vendo novamente mãos que não eram as suas deslizarem de forma pervertida pelo corpo que tanto desejava em segredo.

Imediatamente levou a mão ao bolso interno do blazer e de lá tirou a cigarreira que agora fazia parte intrínseca de seu vestuário, apressando-se em acender um cigarro.

— Non... — respondeu finalmente à pergunta de Mônica em voz baixa, enquanto tragava o cigarro vendo o sueco desaparecer de sua vista quando adentrou o corredor —... Non quero licor. Vodca! Peça mais uma garrafa, da mais pura e forte vodca que tiverem. E que seja russa!

A bela garota de cabelos rosados então se virou para o lado oposto a Camus erguendo o braço e fazendo um sinal para o garçom, o qual se mantinha a postos no bar com sua atenção voltada àquela mesa, já que Aquário e seus convidados recebiam sempre tratamento diferenciado.

Todavia, não eram apenas os olhos daquele garçom que se mantinham em alerta na mesa do ruivo, mas outro par de olhos, tão atentos quanto, também observava toda a movimentação da mesa já há algum tempo.

Misty de Lagarto atendera a apenas um cliente naquela noite. Sabia que Camus viria, pois seus ouvidos ferinos capturaram um telefonema de Saga com o francês quando passava pelo correr e estacionou atrás da porta ouvindo a conversa. Por isso, limitou-se a apenas um programa logo no começo da noite e dedicou o resto do expediente a espiar o aquariano de longe, estudando seu próximo passo. Queria conquistar sua confiança, pois tinha em mente um plano mirabolante que nem ele mesmo havia definido o propósito ainda, mas que consistia em fazer Afrodite sofrer, e Camus era o caminho mais rápido e curto para atingir seu objetivo.

Como era de se esperar, Misty percebeu os olhares que o francês direcionava para Peixes quando este desceu ao salão após ter atendido ao prefeito. Camus esforçava-se para ser discreto, mas seu estado de embriaguez o entregava, tendo a sorte de todos ali estarem tão bêbados quanto ele, a despeito de Misty.

Quando o garçom trouxe a terceira garrafa de vodca à mesa de Aquário, e Mônica de pronto lhe serviu outra dose, a qual fora degustada com a mesma ligeireza e sem nenhuma parcimônia pelo ruivo, Lagarto deixou escapar um sorriso nos lábios tingidos de cereja. Se o Mago do Gelo continuasse bebendo daquele jeito, até o fim da noite conseguiria a tão almejada chance que esperava. Era só ter paciência.

Sendo assim, Misty permaneceu sentado no sofá vermelho, tomando um coquetel de frutas e aguardando sua deixa, a qual não demorou muito a vir.

Na mesa ao fundo, Camus assumia um semblante cada vez mais soturno. O álcool, ao em vez de fazê-lo esquecer parecia apenas agravar sua angústia.

Nunca em sua vida imaginou que pudesse sofrer tanto por um sentimento que havia decidido congelar em seu coração.

Durante aquela semana, buscou forças em seu treinamento pesado. Não encontrando apelou para sua capacidade mental, isolando-se por horas em sua biblioteca, soterrado por livros, ou voltado para o trabalho exaustivo imposto por seu alto cargo dentro da Vory v Zakone.

Não encontrando alívio em nada, tentou um último recurso afundando-se na bebida.

Porém, a cada novo gole, e em cada nova dose, a única certeza que o álcool lhe ofertava era de que não passava de um jovem homem de vinte anos que amargurava um sofrimento miserável por conta de sua primeira paixão avassaladora.

Camus sentia-se pequeno, frágil como um cristal de gelo, e de certo modo estúpido.

Era extremamente irritado que chegava a essa conclusão. Era um estúpido por sofrer de amores por Afrodite de Peixes.

— O senhor não quer subir hoje, senhor Camus? — a voz doce de Mônica tirou o ruivo de seus devaneios, o qual buscou a mão da moça com os olhos enquanto ela lhe acariciava o peito por cima da camisa.

— Non... — respondeu com voz pastosa, olhando em seguida para Andreas que já estava todo descomposto, cheio de marcas de batom aos beijos com Karina — Mas, non se preocupe, non perderá sua noite... — enfiando uma das mãos por dentro do paletó com certa descoordenação, retirou dois maços de notas altas de dinheiro, as colocando em cima da mesa — Sabe que recompenso bem aqueles que fazem seu trabalho com eficiência... Como sempre seu atendimento foi excepcional. Pode subir e encerrar minha conta, s'il vous plaît. Seu pagamento já foi feito quando abri a mesa. Essa é uma gorjeta por sua discrição.

— Muito obrigada, senhor Camus. — a moça agradeceu sorridente, depois se levantou, apanhou as notas, as colocou dentro do topo que vestia e se inclinando deu um beijo no rosto do aquariano, acompanhado de um afago singelo em sua franja — É sempre um prazer atender ao meu cliente favorito. — disse antes de sair, dando uma piscadinha para ele.

Camus arqueou uma das sobrancelhas diante da ousadia da moça, mas como a julgava muito esperta devolveu o gesto lhe piscando de volta. Sabia que Mônica logo percebera que ele era um cliente diferenciado, mas como ela queria dinheiro e ele sossego, a parceria dos dois tinha tudo para dar certo.

Antes de levantar-se da mesa, ainda matou o último gole de vodca que havia em seu copo, pousando o mesmo de forma ruidosa sobre a madeira, o que chamou a atenção de Andreas, que descolou sua boca da de Karina na mesma hora para olhar para o ruivo.

— *Algum problema, chefe? Não vai subir com a vadia?

— *Não. Vou subir para minha casa, mas você pode aproveitar o fim de noite com a garota... Os... Boyarskys já estão instalados em hotéis próximos daqui e o nosso motorista os levará... Em segurança. Amanhã... Temos aquele carregamento vindo... Do... Oriente Médio para receber no porto de Pireus, portanto... Durma com a moça, descanse, mas esteja no local marcado às 09:00 horas em ponto... Depois leve os Boyarskys ao hangar que te passei o endereço às 18:00 horas e embarque com eles para Moscou. — disse, procurando concentrar-se ao máximo.

— *Certo chefe. Pode deixar comigo. — dizia orgulhoso o russo em saber que Camus confiava em si, já que dentro da Vory a confiança era a única garantia de sobrevivência.

Aquário acenou afirmativamente com a cabeça e abotoando o paletó se levantou. Somente então se dera conta do quão bêbado estava.

Não fosse por seus reflexos sempre muito ágeis teria caído por cima da mesa, uma vez que o salão havia se transformado repentinamente em uma gigantesca centrifuga, a qual girava numa velocidade exorbitante, produzindo um show de luzes psicodélicas que faiscavam diante de seus olhos.

Apoiou-se em uma das cadeiras com os olhos estalados e fixos ao nada. Esperava sua mente encontrar um eixo de equilíbrio, e só após senti-lo minimamente é que se atreveu a dar um primeiro passo.

Diante da dificuldade que encontrara, chegou a pensar em voltar para a mesa, mas felizmente ainda havia um fiapo de razão em sua mente torpe que o fez seguir em frente.

Definitivamente não, não poderia se arriscar ficando ali. Tinha uma imagem a zelar, e foi pensando nela que fechou os olhos e inspirou o ar profundamente, uma, duas, três vezes, procurando abrandar os ânimos e resgatar o pouco de lucidez que ainda lhe restava. Tirou a mão da mesa onde buscava apoio e agradecendo aos deuses pelo salão estar lotado, assim poderia escorar vez ou outra em algum civil que cruzasse pelo caminho, não em estado melhor que o seu, caminhou trôpego, a passos lentos e ensaiados, até a primeira saída que conseguiu enxergar com a visão turva.

Ao chegar do lado de fora, fez o mesmo exercício de respiração, mas dessa vez levou as mãos ao rosto apertando os olhos com força e esfregando as pálpebras, enquanto tentava manter o equilíbrio minimamente.

Quando os abriu de volta, conseguiu fixar o olhar na escadaria lateral. Pelo menos ela agora estava um pouco mais reta e não em espiral giratória como há momentos antes.

Arriscou-se então a descer lentamente, degrau por degrau, procurando equilíbrio ao escorar as mãos no muro de pedra.

— Merde... — resmungou ao dar um passo em falso num degrau que lhe parecia feito de gelatina quando o pisou, quase indo de cara ao chão. Felizmente seus reflexos ainda lhe eram minimamente úteis.

Enquanto Aquário tentava concluir a árdua tarefa de descer uma meia dúzia de degraus, do alto da mesma escadaria Misty de Lagarto o observava.

Esperto como era se assegurou de que ninguém os via ali, visto que aquela não era a saída principal, e desceu apressado a escada, a tempo de amparar Camus que novamente havia pisado em outro degrau de gelatina e já caía para trás.

— Eiii... Vamos com calma. — disse em voz baixa, passando os braços por debaixo das axilas do francês e sustentando seu peso para lhe dar apoio às pernas, o levantando devagar — Onde pensa que vai conseguir chegar nesse estado, cavaleiro de Aquário?

— Ora onde... Ao meu templo, pédé connard... (Viado estúpido) — resmungou, tentando afastar o cavaleiro de Lagarto de si — Non encosta em mim, sua bicha. Sou um cavaleiro de ouro, non preciso de sua ajuda... Laisse-moi. (Me solta)

— Deixa de ser orgulhoso, Camus. Eu só quero te ajudar, homem. — sussurrou, não queria chamar a atenção de ninguém ali.

— Non... Você é outra maldita bicha. Sai daqui... Sai... Laisse-moi.

— Tudo bem, se prefere assim, não vou insistir.

Lagarto então o soltou e na mesma hora Camus tentou descer o degrau tomando um tombo vergonhoso, indo parar ao pé da escada de cara com o chão.

— Eu avisei, né. — dizia Misty enquanto descia os degraus lentamente, observando o aquariano que se contorcia com as palmas das mãos apoiadas ao solo, assolado por uma sensação miserável de derrota.

Lagarto acercou-se dele e sem tocá-lo agachou a seu lado, cruzando os braços sobre os joelhos dobrados.

— Eu sei por que está assim. — disse com voz tranquila — Está sofrendo por amor...

— Ta gueule... (Cala a boca) — resmungou tentando se pôr sentado.

— Eu já sofri por um amor não correspondido. Eu sei que dói. Dói muito!... Mas passa. — continuou Lagarto — Não dê a ele o gostinho de te ver assim, Camus, nesse estado lamentável. Ele está pouco se lixando para você, mas vê-lo sofrendo por ele vai alimentar sua vaidade. Agora ele está lá dentro se divertindo com vários homens, enquanto você está aqui.

— Non sei do que está falando, Lagarto... Nem por que está aqui. — enfim conseguiu sentar-se e agora batia a poeira de terra do paletó.

— Ah, sabe sim... E estou aqui porque, como disse, quero te ajudar. Ou acha que vai conseguir subir até a décima primeira casa, por aquelas escadarias imensas, sozinho? Sendo que nem conseguiu descer meia dúzia de degraus.

Camus olhou para ele e percebeu sua face plácida, além de um sorriso gentil, apesar de ver três figuras idênticas diante de seus olhos turvos. Sentia-se humilhado, fragilizado e principalmente incapaz de dar um passo sem levar outro tombo. Também não queria que os outros cavaleiros o vissem em semelhante estado, mas algo naquele Santo de prata o intrigava.

— Por quê? Por que quer tanto me ajudar?

— Porque eu sei o quanto Afrodite de Peixes é nocivo para corações amadores, despreparados como o seu... Camus, eu não quero nada em troca, juro. Sei que o Santuário está nas mãos da Vory e como cavaleiro de Atena, você é o único dentro dessa máfia que pode livrar nossos traseiros de uma possível retaliação, se ela acontecer. Mas, para isso, você tem que voltar a ser o que era antes de Afrodite ter te transformado nesse farrapo humano... É isso que ele faz. — destilava seu veneno de forma convincente.

— Aquele... Putain de merde non significa mais nada para moi... — rosnou com irritação na voz pastosa — Bougre... Sale pédé... Fumier... Fils de chienne... (Miserável, viado de merda, mau caráter, filho da puta)

Cuspindo as ofensas a Afrodite, Camus tentava enganar a si mesmo, visto que a Misty ele não enganava nem sobre um esforço hercúleo.

— Oui, oui, mon chér, você não o ama mais, já entendi. — disse o loirinho levantando-se e oferecendo a mão a Aquário — Agora, não acha melhor xingar a Escamosa lá do alto da sua casa, antes que alguém o veja aqui, bêbado como um gambá, se prestando a esse papel ridículo. Hum? Venha, eu ajudo você a subir. — deu dois tapinhas no ombro do ruivo — Anda, cavaleiro, deixa de ser turrão.

Camus deu uma bufada, irritado, mas bem nas profundezas de sua consciência tomada pela embriaguez, conseguiu encontrar certo discernimento e admitir que Lagarto estava certo. Não seria nada bom alguém vê-lo ali, naquele estado, e na companhia de um garoto de programa.

Resignado, ergueu a mão e segurou na de Misty, que logo o puxou do chão o ajudando a se levantar.

Enquanto Aquário firmava os pés no chão, Lagarto retirava os saltos que calçava para seguir a caminhada. Segurando os sapatos pela fivela com uma das mãos, passou o outro braço pela cintura do francês, lhe dando apoio para caminhar, mas de imediato foi repreendido.

— Non... Non vai me abraçar... O que pensa que está fazendo, seu atrevido? — ralhou, dando um passo trôpego pra o lado.

— Pela saia plissada de Atena, Camus, são onze casas até Aquário e centenas de degraus montanha acima... — o repreendeu o francesinho — Você é grande e pesado, se não quer dormir aqui mesmo, pare de frescura e vamos logo. Não abuse da minha boa vontade.

— Você que não abuse do meu estado... Pédé con (Viado cretino)... Non vou te abraçar. — disse categórico.

Misty então o soltou, e dando pequenos passos tomou a frente.

— Está bem, então vamos. — disse rindo divertido, pois sabia que Camus não conseguiria dar um passo sem seu auxílio.

Dito e feito. O aquariano bem que tentou, ajeitou a postura, respirou fundo, abotoou novamente o casaco, demorando a conseguir enfiar o botão dentro da casa, e ao mudar o passo foi jogado para o lado como se um golpe de vento o tivesse arremessado sem dó nem piedade.

Misty riu e novamente se aproximou o ajudando a se levantar, e dessa vez Camus não fez nenhuma objeção, permitindo que Lagarto o abraçasse pela cintura mesmo a contragosto.

Demoraram bons minutos até chegarem às escadarias que dava acesso às Doze Casas, mas ao menos o caminho, mesmo que aos trancos e barrancos, ajudou o francês relaxar um pouco e desmanchar a cara de marra que trazia desde que saíram do Templo de Baco.

Misty por sua vez, agradecia aos céus os anos de treinamentos árduos, os quais lhe conferiram força para conseguir carregar aquele homem pesado no braço.

Subiam as escadas de Virgem quando Camus, visivelmente atormentado e ainda no estágio da bebedeira que lhe conferia certa euforia, começou a cantarolar uma canção que a si trazia um significado íntimo.

Era a canção que Afrodite cantava quando ele entrou em seu quarto por engano no dia da estreia do bordel.

— Quand il me prend dans ses bras... Il me parle tout bas... Je vois la vie en roooose… Ma rose… Ma belle rose... Aphrodite…

— Shiii… Fale baixo, Camus… — Misty o repreendia.

— Por quê? Por que non posso dizer a todos que amo o Aphrodite? Pourquoi? Dit moi, Lézad! Dit moi! (Por quê? Me diz, Lagarto! Por quê?)

— Por que você é um homem honrado, e ele é uma bicha mau caráter. Agora faça silêncio que estamos passando por Virgem e não vai querer acordar o monge maluco.

Foi uma longa e árdua subida, também deveras triste para Camus, que a cada casa que atravessava sentia a bebedeira lhe deprimir cada vez mais.

Quando finalmente chegaram a Aquário, Misty respirou aliviado, pois já pensava não ser mais capaz de dar um passo sequer, já que praticamente carregara Camus o caminho todo.

— Pela deusa, finalmente chegamos! — disse ao adentrar o pátio do décimo primeiro Templo trazendo o ruivo consigo.

— Oui... Bem-vindo ao meu Templo de gelo! — Camus disse em voz baixa e de olhos fechados, ainda apoiando-se em Lagarto — Tão frio e solitário quanto eu.

Caminharam por alguns metros ainda seguindo um corredor estreito de mármore. A temperatura era extremamente baixa e Misty sentia seu corpo todo tremer conforme se aproximavam do centro do Templo, onde depois de cruzarem uma espessa porta de madeira branca chegaram à sala da residência de Camus.

Assim que se viu ali, o aquariano afastou-se alguns passos do cavaleiro de prata e com certa dificuldade em manter seu eixo de equilíbrio meteu a mão no bolso do casaco e de lá tirou outro maço de altas notas de dinheiro.

— Tome. Pegue. — disse com voz pastosa, esticando o braço para o cavaleiro a sua frente.

— O que pensa que esta fazendo? — Misty indagou, simulando um semblante que era um misto de espanto e irritação.

— Por seu trabalho... Em ter me ajudado a chegar aqui. E também por sua discrição.

Lagarto então soltou uma lufada de ar e irritadiço revirou os olhos encarando o aquariano com um semblante severo.

— Nem tudo na vida se compra, Camus de Aquário. Muito menos amizade!... E nem todos estão à venda. Não o trouxe até aqui por dinheiro. Já disse que só quero te ajudar.

Camus não prestava muita atenção ao que ele dizia, uma vez que tudo que queria era se ver livre daquela companhia o mais depressa possível para correr ao banheiro. Sentia um forte enjoo desde que chegaram a Aquário, mas tentava se conter ao máximo. Porém, mal teve tempo de guardar o dinheiro novamente no bolso do casaco que sentiu uma forte ânsia, e curvando o tronco para baixo, vomitou no tapete, quase sobre os pés de Misty, que se não tivesse dado um pulinho para trás teria sido atingido.

— Ai, que droga Camus! Quase vomitou em mim! — chiou, mas logo em seguida colocou as sandálias de salto sobre uma poltrona e foi ajudar o ruivo, lhe segurando pelas costas para impedi-lo de cair novamente — Deusa, me acuda! — dizia passando os braços pela cintura dele — Você precisa se deitar. Me mostre onde fica o seu quarto.

Enjoado, Camus limpou os lábios usando a manga do paletó e com um gesto encabulado indicou a direção apontando a mão para um corredor lateral.

Misty então o conduziu por onde lhe fora indicado. Não que não soubesse onde era o quarto de Camus, uma vez que já estivera ali antes sem que ninguém soubesse, mas não apostaria no álcool como seu álibi. Era melhor se precaver e fingir que não conhecia aquele Templo gelado, mesmo sabendo que Camus não prestava atenção em nada do que fazia dado seu estado deplorável.

Quando empurrou a porta e adentrou o cômodo, teve a sensação de estar entrando em uma câmara frigorífica. Sentia seus joelhos tremerem e o ar que saia de sua boca e narinas rapidamente se condensava em contato com a atmosfera gélida, a qual era puro reflexo do Cosmo entristecido do guardião daquela casa.

Arrastou Camus pelo carpete branco até coloca-lo sentado na beirada da cama, com todo o cuidado.

— Eu vou tirar seus sapatos, tudo bem? — disse ao se ajoelhar na frente dele e tomar um de seus pés — Depois, tente dormir. Você precisa descansar... Nossa, amanhã vai ter uma ressaca infernal!

—... Eu... Eu sinto falta dele, Misty... Sinto tanta falta dele. — a voz taciturna do aquariano chamou a atenção do cavaleiro de prata que ao retirar os dois sapatos que ele usava olhou para cima, se deparando com os olhos avelãs marejados a fitarem o nada —... Todos os dias... Em todos os momentos... Eu sinto falta de Afrodite.

— Camus... Não faz isso... — Lagarto pediu, inutilmente.

— Mesmo quando non estava com ele, eu ocupava as minhas horas pensando em que presente eu lhe traria... Em como seria nosso encontro... Se ele estaria com saudades de mim como eu estava dele... Eu... Eu fiz tudo por ele, para estar com ele... Por que ele fez aquilo comigo, Lagarto? Pourquoi?

Misty então se levantou para ajudá-lo a retirar o paletó.

— Você sabe o porquê, Camus. — respondeu olhando nos olhos marejados do francês com certa rispidez.

— Non... Eu non sei. — encarava Misty como se ele lhe pudesse dar a resposta tão almejada.

Ao terminar de lhe retirar o paletó, Lagarto o olhou com atenção por alguns segundos em silêncio. Sentiu um pouco de pena do aquariano naquele momento, pois sua figura frágil e sofrida em nada fazia jus à sua reputação de Mago do Gelo, vice-líder da mais perigosa máfia em exercício no mundo, cavaleiro de ouro e assassino frio e cruel, mas apenas um menino bobo apaixonado.

Deixou escapar um suspiro resignado de impaciência e focado escolheu bem as palavras que iria dizer.

— Camus, Afrodite de Peixes não é capaz de amar ninguém além de si mesmo. Sua vaidade o torna egoísta, cruel e dissimulado. Você não é a primeira e nem será a última vítima dele. Se tiver ainda um pingo de amor próprio, esqueça Afrodite de Peixes, porque você não é nada para ele. Agora, tente dormir, porque amanhã será um logo dia e terá uma das piores ressacas da sua vida, cavaleiro.

Camus baixou a cabeça ficando em silêncio por alguns minutos. Refletia sobre as palavras ditas por Lagarto e em estado de negação procurava em seu acervo mental um contra argumento que as rebatessem, provando que seu Afrodite não era aquele monstro sem coração o qual o outro retratava.

Porém, como era de se esperar, apenas um grande vazio habitava sua mente naquela hora. Não havia nada que contradissesse as palavras de Misty e tomado por uma angústia desmedida causada por aquela constatação funesta, Camus se deixou cair de costas sobre o colchão, encarando o teto azul gelo de seu quarto com olhos imersos em melancolia.

— Oui... Tem razão... — balbuciou taciturno — Merci, Lagarto.

Com certa dificuldade, Camus arrastou-se para o centro da cama, onde se deitou, puxando um dos travesseiros para colocar sob a cabeça.

— Tudo bem, não precisa me agradecer. — disse Misty, esperando ele se ajeitar para depois jogar o lençol de seda azul marinho sobre seu corpo — Durma bem, ruivo.

Misty ainda ficou alguns minutos ali, olhando para Aquário sobre a cama enquanto ele ressonava baixinho, totalmente apagado.

Observava a silhueta robusta por debaixo dos lençóis, os longos cabelos cor de cobre espalhados pelo colchão e travesseiro, e nessa hora sentiu ainda mais raiva de Afrodite.

— Uma coisa tenho que admitir, Escamosa, você sempre teve bom gosto para escolher macho... Cretina! — resmungou, proferindo a última palavra num ranger de dentes, em seguida desceu a alça da regata vermelha de paetês que usava e coçou freneticamente um dos ombros.

Irritado, deu as costas ao leito em que Camus dormia e finalmente decidiu deixar o Templo, antes que alguém, ou pior, que Afrodite pudesse querer atravessar Aquário e descobri-lo ali. Mas, quando ia atravessar o batente da porta uma ideia audaciosa desenhou-se em sua mente.

Na mesma hora, Lagarto virou o rosto para trás e novamente olhou para Camus que dormia pesado. A passos lentos, e com um sorrisinho petulante no rosto maquiado, aproximou-se da cama, segurou os lençóis com cautela e lentamente descobriu o corpo do francês.

Tomando todo cuidado para não acordar o ruivo, Misty retirou-lhe as meias e o virou de costas para o colchão, então desabotoou a camisa alinhada devagar, desafivelou o cinto e abriu de uma só vez botão e zíper, puxando as calças de Camus para baixo com cuidado, sempre atento ao rosto do francês, monitorando seu sono.

— Está desmaiada, né princesa do papa? Hihihihihi... Agradeça à Atena que não sou um canalha como o Afrodite. — sussurrava para o ruivo desacordado, enquanto terminava de retirar sua calça e em seguida a camisa, manipulando o corpo do aquariano com zelo e atenção — Nossa, que saúde, heim, senhor Mago do Gelo! — murmurou ao puxar a cueca para baixo e passar os olhos pela intimidade do aquariano.

Ao fim, após deixar Camus completamente nu, Lagarto o colocou deitado de lado, numa posição bem confortável, colocando um travesseiro entre seus braços e em seguida retirou do próprio punho uma bela pulseira de ouro com diamantes falsos, a transferindo para o punho do aquariano, sorrindo sorrateiramente enquanto o fazia.

Sem tirar os olhos do rosto inerte do ruivo, Misty se pôs de pé ao lado da cama e retirou a própria calça. Em seguia foi a vez da cueca que usava, a qual, estrategicamente, ele deixou pendurada na borda da cama, ao lado do travesseiro de Camus.

Vestiu novamente as calças e deu o toque final à sua travessura ousada imprimindo no rosto de Aquário uma marca de batom ao lhe dar um beijo no queixo, próximo aos lábios.

Deixou outras marcas no colarinho da camisa de Camus, a qual apanhou do chão para jogar em seguida sobre uma poltrona ao lado da janela.

Para dar um toque mais verídico à sua diabrura, apanhou uma camisinha que trazia no bolso traseiro da calça, a abriu e jogou a embalagem sobre a cama. Cuspiu dentro do preservativo, deu um nó bem forte e o jogou no cesto de lixo do banheiro, visto que imaginava que Camus jamais se daria o trabalho de investigar seu conteúdo.

Tendo terminado tudo, Misty ainda aventurou-se a entrar no closet de Aquário e lhe roubar outras duas cuecas das várias que havia ali. Ria muito, abafando a própria euforia tapando a boca com as mãos.

Antes de sair, admirou o corpo nu e másculo sobre o leito, correndo os olhos cobiçosos por toda sua extensão, então deu um tapinha nas nádegas robustas do cavaleiro e enfim o cobriu novamente com o lençol.

— Au revoir, monsieur Mage de Glace! Tenha bons sonhos! Hihihihihi.

Naquela noite, Misty de Lagarto julgou melhor ir dormir no alojamento Prata, já que não queria arriscar-se a encontrar Afrodite de Peixes no bordel, uma vez que sua euforia lhe faria dar com a língua nos dentes e estragaria seus planos.

Dormiu vestido com uma das cuecas afanadas. Estava feliz naquela noite.

"Um homem só é nobre quando consegue sentir piedade por todas as criaturas."

Era pensando nessa frase de Sidarta Gautama, o último Buda a andar sobre a Terra, que Shaka olhava para Mu, o qual estava de pé bem à sua frente lhe presenteando com seu sorriso mais cálido e o olhar mais cândido que já vislumbrara em toda sua vida.

Retribuía a ambos, o olhar e o sorriso, inevitavelmente pensando em como se desviara de seu caminho, tão precisamente traçado desde o nascimento, e arriscara galgar pela mesma estrada que o ariano, independente de onde ela o levaria, pois a única coisa que importava era estar junto a ele, ao seu lado, enquanto na Terra estivesse.

Aquela constatação, ao mesmo tempo assustava e felicitava o virginiano, o qual tivera sempre sob controle todos os seus sentimentos e anseios, assim como cada passo que daria em vida, desde que seguisse para o caminho a ele traçado pelos deuses e não por si próprio.

Pensava nisso quando retirou do forno a quarta assadeira de biscoitos de polvilho, e se recordou de um texto que lera durante as aulas de astrologia quando ainda era criança.

Nele, um estudioso dos astros dizia que as energias de Áries "escravizavam" Virgem, e na época, ainda imaturo para entender tais metáforas, Shaka apenas ria de tamanho absurdo.

Agora, no entanto, aquele texto lhe fazia todo sentido.

Segundo os astros, Áries tem o poder de colocar em prática, quase que imediata, tudo aquilo que Virgem se alongou planejando em busca da perfeição. É essa energia ariana que "escraviza" Virgem, pois o acolhe em um campo seguro onde ele sabe que as ações que ele planejou serão executadas por Áries.

E era assim, com Mu ajudando Shaka a expulsar suas teorias para transformá-las em prática que, lado a lado, enchiam um grande vasilhame com os biscoitos, os quais já tinham destino traçado.

— Hum, estão deliciosos Shaka! — o ariano dizia com a boca cheia, já que havia roubado um par de biscoitos do vasilhame — As crianças lá do orfanato vão se deliciar.

— Espero que sim, Mu. — respondeu o loiro animado.

Áries estava feliz. A convivência com Virgem tornava seus dias plenos e animosos. Foi sorrindo que pegou a próxima bandeja com biscoitos e a levou ao forno, enquanto Shaka terminava de encher o pote.

— Sabe, parece algo bobo, levar biscoitos caseiros para um bando de crianças, mas não é... — o sorriso murchou um pouco quando o ariano fechava a tampa do forno e voltava para perto do amado, então encostou-se ao balcão e cruzou os braços — Eu estive lá mais cedo parar avisar a diretora que iríamos hoje. Conversei um pouco com ela e o que descobri foi horrível.

— Horrível? O que quer dizer com horrível? — Virgem perguntou curioso, enquanto separava algumas frutas, legumes e também produtos que trouxera de sua própria dispensa para encaixotar e levar ao orfanato juntamente com os biscoitos.

Com um semblante sério, Mu puxou um banco de madeira para se sentar, depois apoiou os antebraços enfaixados sobre a mesa, visivelmente aborrecido.

— Ela me disse que muitas das crianças que moram lá foram deixadas pelas próprias mães, simplesmente porque elas não as quiseram.

— Que coisa triste. O mundo é pleno de sofrimento. — disse Shaka voltando-se para o ariano.

— Sim... Geralmente essas mães são moças muito jovens que ao engravidarem dos namorados foram abandonadas. A diretora disse que muitas tentam abortar, mas que a maioria não tem coragem e acaba tendo a criança, só que a abandona assim que nasce, pois jovens e sozinhas não podem cuidar dos filhos. — falava pausadamente, entristecido e até meio irritado com o que contava — Eu não consigo entender uma coisa dessas, Shaka. Como um homem pode abandonar sua esposa, sua escolhida, quando ela lhe da à benção de um filho? Eu acho isso hediondo!... Talvez seja por causa da minha criação rígida, não sei, ou pelo triste legado da minha raça já quase extinta... Mas, eu não consigo entender como um pai renega a um filho.

— Por medo, talvez. — disse Shaka voltando a encaixotar os mantimentos — O mesmo medo que faz essas jovens mulheres abandonarem o que lhes deveria ser o mais sagrado em suas vidas. O ser humano é fraco diante do medo, Mu. Shion deve ter lhe ensinado isso, que não devemos temer para sermos fortes. Talvez o que tenha faltado para esses homens e mulheres que são capazes de uma atrocidade como essa, foi justamente alguém que, como Shion, nos ensinou a não temer a nada. Nem todo mundo possui uma base sólida, Mu.

Áries olhou para o namorado em silêncio por um tempo, refletindo.

Ali no Santuário muitos eram órfãos também, ele mesmo não sabia nada sobre seus pais, mas havia Shion!

O Patriarca podia até ter sido odiado por alguns, mas fora muito amado por Mu, que muitas vezes, inclusive, se pegou questionando-se acerca desse ódio que os outros nutriam por seu nobre Mestre.

Talvez fosse por sua postura excessivamente rígida, mas o que aos olhos de outrem pudesse ser interpretado como tirania, aos olhos de Mu era apenas zelo, e amor, muito amor.

— Sim, Shion fez toda a diferença na minha vida. — o ariano dizia orgulhoso — Devo tudo que sou a ele, você sabe, você conviveu muito conosco.

— Sim. Shion foi um nobre Mestre. — Shaka respondeu baixando o olhar.

— E ele foi um pai para mim, além de meu Mestre. Não reclamo da forma severa com a qual ele me educou, pois devo meu caráter e senso de justiça a ele. — Mu falava um tanto saudoso, e notando que se entristecia com aquelas lembranças estendeu a mão para puxar o namorado para junto de si, pousando a cabeça em seu peito enquanto procurava umas mechas do cabelo loiro para enrolar nos dedos — Shion sempre me disse que meu futuro já estava escrito. As estrelas disseram a ele que algo grandioso me esperava, e que por isso me instruiu na arte de liderar, administrar e governar. Acho que ele queria que eu o sucedesse como Grande Mestre... Nunca imaginei que ele se fosse tão cedo, que me deixaria só...

— Ei... — percebendo a melancolia que crescia no coração do ariano, Shaka segurou em seu queixo e o fez olhar para si, lhe presenteando com um sorriso e um beijo terno na face — Quem disse que está só? E Shion estava certo. Você deveria ser o Patriarca. Gêmeos é um usurpador.

— Sha, usurpador ou não, Saga é o Grande Mestre. Você tem que aceitar isso.

— Você sabe que não aceito. Não me peça isso. Depois, é um absurdo que além do golpe aquele ébrio tenha submetido os cavaleiros à máfia e você a um cargo ridículo de tesoureiro de zona.

— Aaah, ai que tá, meu caro amor da minha vida! — disse o ariano novamente com um sorriso no rosto, porém agora mais sapeca que feliz — Vou te contar um segredo, que não ia te contar para não te deixar preocupado. Sha, ninguém faz ideia, nem dentro da Vory v Zakone, nem entre os cavaleiros, do meu conhecimento administrativo. Nem mesmo Saga sabe. No entanto, não é preciso ser um grande expert no ramo para saber que o Santuário está muito mal das pernas devido à má gestão e corrupção, mas eu jamais conseguiria ter acesso às contas, documentos e toda a papelada administrativa que comprove isso. Mas, com esse "emprego" que Saga me deu, agora a coisa muda!

— Por Buda!... — Shaka arregalou os olhos azuis em espanto — Você é um velhaco, Mu de Áries!

— E você é um tesão, Shaka de Virgem! — riu da cara que o loiro fez, mas logo voltou a ficar sério — Esse "cargo" de tesoureiro é que vai me abrir as portas, ou melhor, as gavetas dos arquivos de toda a parte burocrática do Santuário e ai eu poderei me inteirar do que está acontecendo de fato nos nossos cofres, porque terei acesso ao giro financeiro. É obvio que a Vory v Zakone pretende desviar verba do bordel para seus cofres particulares, mantendo assim nossa dependência, e Camus, pelo visto, os está acobertando.

— Ele é outro traidor indigno de vestir a sagrada armadura de Aquário. — Shaka bufou.

— Hum... Talvez. Quando o revi na reunião de meses atrás, senti sua aura confusa, carregada em ódio, rancor e revolta. Camus não era assim. Alguma coisa o deixou assim... Mas, Shaka, o que pretendo fazer leva tempo. Primeiro tenho que me inteirar das contas, conquistar a confiança de Saga. É muito dinheiro que circula naquele bordel, mas desde já te garanto que no que depender de mim nem um centavo será desviado mais.

— Isso pode ser perigoso, podem ameaçar você. — disse Shaka preocupado.

— Podem e vão. — Mu riu despreocupado.

— Não me faça matar todo mundo. Tenha cuidado.

— Eu terei.

— E Shion estava certo quando lhe disse que algo grande o espera. Atena se perdeu, Mu, mas ela irá voltar e precisará de nós. — apontou para a mesa e o tanto de mantimentos que havia separado para levar ao orfanato — Graças a Shion lhe ter educado com tanta sabedoria e amor, você me vez enxergar que eu estava me perdendo na minha busca pela verdade absoluta. Na ânsia de atingir a iluminação, abandonei muitas das minhas paixões humanas, e você me trouxe de volta à realidade. Graças ao que Shion lhe ensinou, você me fez reaprender a ter piedade e compaixão pelo próximo. Agora podemos dar a essas crianças que foram abandonadas um pouco do que é nosso e torná-las um pouco mais felizes. Não se entristeça, vamos fazer algo bom! Lembra que me dizia isso quando eu brigava com o Milo porque ele não queria dividir as frutas que ele roubava da feira? Ai subíamos na macieira e pegávamos maçãs para todo mundo.

— Lembro. — o lemuriano disse, voltando a exibir o lindo sorriso de antes — Também me lembro de você tacando uma das maçãs na cabeça dele com tanta força que fez um galo.

— Ele mereceu! Milo era insuportável!

Mu começou a rir, então rapidamente se levantou e encostou Virgem contra o balcão, passando os braços por sua cintura enquanto colava seu corpo ao dele.

— Você era muito brigão, Shaka. Eu tinha que ficar te vigiando o tempo todo... — disse, encostando o rosto na curva do pescoço do indiano, depositando um beijo na pele alva e perfumada — Tinha que ficar sempre perto de você... Assim... Ou logo arranjava encrenca com alguém... Hum, não mudou muito, né? Você ainda é brigão.

— Eu... Não arranjo encrenca... Com ninguém... — dizia Virgem entre pausas, já que aproveitava daquela proximidade toda pra beijar o rosto de Mu.

— Hum... Sei... — Áries riu, e enquanto esperava os biscoitos ficarem prontos dentro do forno, aproveitou para roubar um beijo do amado.

As mãos passeavam por cima e por baixo dos tecidos leves das roupas que usavam, correndo curiosas pelas peles macias e eriçadas dos corpos cujos hormônios estavam em ebulição. Bastava um toque, um beijo, uma carícia para que logo deixassem escapar todo o desejo que sentiam um pelo outro, mas que inconscientemente insistiam em reprimir.

Daquela vez não fora diferente.

Mu beijava Shaka com lascívia desmedida, ao passo que Virgem retribuía com a mesma gana afã, degustando os lábios do lemuriano enquanto esfregava seu corpo esguio contra o dele em busca de mais contato, embora soubesse que ainda não estava pronto para entregar-se a ele.

Contudo, dessa vez não partira de nenhum deles a iniciativa de interromper as carícias mais ousadas, e sim de um agente externo.

— Hum... Mu... — Shaka sussurrou entre gemidos, sentindo a mão do ariano percorrer suas costas por debaixo da túnica —... Mu... Está cheirando a queimado...

— Humm... Sou eu que estou quente!

Mu nem deu chance para que Shaka revidasse. O pressionando com ainda mais força contra aquele balcão, enquanto tomava a boca cálida num beijo apaixonado, projetou seu corpo sobre o de Virgem quase se deitando sobre ele.

— Hum... Mu... É sério... — Virgem tentou em vão argumentar, mas as carícias ousadas do ariano não o deixavam mais raciocinar, afinal era um jovem de dezoito anos no auge de seu vigor — Tem algo...Hum... Queimando, Mu...

— Eu! — Áries respondeu enquanto descia uma das mãos para debaixo da túnica de Shaka, dando um apertão forte em sua coxa — Você me deixa louco, Sha... Só de sentir seu cheiro eu pego fogo!

— Fogo! — Shaka gritou arregalando os olhos. — Mu, está pegando fogo!

— Sim, amor! Eu estou que é fogo puro, Shaka! — o ariano falou enfático, correndo a mão para as nádegas de Virgem, onde deu uma apalpada generosa.

— OS BISCOITOS, MU DE ÁRIES! O FOGÃO TA PEGANDO FOGO!

Espalmando ambas as mãos no peito forte do lemuriano, Shaka lhe deu um empurrão o afastando de si para de imediato correr até o fogão que mais parecia uma fera medieval a soltar fumaça pelas ventas.

Ainda que meio atrapalhado, passou a mão num pano de prato que estava sobre a mesa e todo agitado abriu a tampa do forno tossindo com a fumaça quente que lhe saltou sobre a face.

Num gesto muito rápido, agarrou a assadeira, protegendo as mãos com o pano, e rapidamente a retirou dali, correndo com ela até à pia e a colocando sobre o mármore frio.

— Anda, desligue o gás, Mu! Abra as janelas! Abra a porta! Buda!

Áries, que assistia a tudo meio abobalhado, visto que estava mais preocupado em conter sua libido desperta há pouco, correu até o fogão e acatou ao pedido do namorado.

Após desligar o gás, abriu as janelas e portas usando sua telecinese, e apanhando outro pano de prato começou a abanar o recinto a fim de fazer a fumaça sair mais rapidamente.

Shaka enquanto isso olhava desolado para os biscoitos carbonizados na assadeira, os quais com certeza iriam para o lixo.

Com ambas as mãos, segurava o próprio rosto inconformado, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça negativamente.

— Olha só o que você fez! — falou extremamente desanimado.

— Eu? — Mu resmungou ainda tocando a fumaça com o pano de prato, enquanto caminhava até Virgem — E eu agora me chamo fogão.

— Você sim! Você e esse seu fogo, Mu de Áries! Se não tivesse me agarrado, não teria acontecido esse desastre. — o virginiano o repreendeu.

— Estragou muito? — perguntou o ariano parando do lado do namorado.

A resposta veio em forma de um croque forte, bem no alto da cabeça de Áries, que Virgem lhe deu como castigo.

— Isso é pergunta que se faça?

— Aiii... — reclamou o lemuriano levando a mão à cabeça.

— Não está vendo? Virou carvão! Não é auspicioso queimar a comida, Buda! — disse desolado — Essa era a sua parte. Agora vai ficar sem para aprender a controlar seus instintos.

— Ei! Não seja injusto. — o lemuriano reclamava com a mão no galo recém formado — Você que estava me provocando... Depois, não está tão mau assim. — analisava os pedacinhos de carvão na bandeja.

— Como não? Estão torrados!

— Ótimo! Antes eu tinha biscoitos, agora eu tenho torradas.

Com um sorriso travesso no rosto, o ariano apanhou um dos biscoitos com a ponta dos dedos, soprou algumas vezes e diante do olhar perplexo do namorado, o levou à boca.

— Hummm... Não está tão mau. — dizia com a boca cheia e os dentes pretos — Gostinho de carvão da forja. — piscou para o amado, que não podia crer ser real o que seus olhos viam.

Após uma breve discussão acerca de quem fora a culpa pelo desastre dos biscoitos queimados, os dois cavaleiros terminaram de encher as caixas de mantimentos para a doação que fariam ao orfanato.

Deu o que fazer para que Mu conseguisse convencer Shaka de que não deveria doar todo alimento que possuía, visto que se preocupava com a mania de Virgem em insistir nos rigorosos jejuns como forma de autopunição, mas depois que finalmente conseguiram entrar num acordo, partiram plenos e felizes para o centro de Rodório, onde trinta crianças os aguardavam ansiosas.

Lá passaram a tarde entre brincadeiras, histórias e piqueniques, trocando experiências num aprendizado que enriquecia a ambas as partes.

Shaka enfim reconquistava aos poucos sua humanidade há muito perdida no anseio em tornar-se divino, Mu entendia que não podia carregar o mundo em suas costas, mas podia deixá-lo um pouquinho melhor dando amor, carinho e atenção para quem não os tinha, e as crianças ganhavam dois novos amigos com quem poderiam contar nas horas de maior necessidade.

* Traduzido do russo.

Dicionário Afroditesco:

Desaquendar – palavra multiuso. Aqui significa parar.

Edi – ânus.

Mondrongo - feio, esquisito (nome dado às deformações causadas pelo uso de silicone industrial).

Neca – pênis