Casa de Virgem. Algumas semanas após o aniversário de Saga.

— *Ommm... Muni Maha Muni Shakyamunie Soha... Ommm... Muni Maha Muni Shakyamunie Soha...

De olhos fechados, sobre sua majestosa lótus dourada, pernas cruzadas e mãos alinhadas em paralelo, palma com palma à frente do peito, enroladas em seu inseparável rosário de contas, o cavaleiro de Virgem meditava entoando o poderosíssimo mantra do "Grande Vencedor", ao qual recorria sempre que se encontrava em momentos de extrema insegurança e indecisão, visto que sua vibração visava trazer à tona a sabedoria necessária para se tomar decisões importantes.

Já estava ali há algumas horas, porém sua dúvida perdurava por já quase dois meses, desde que decidira confessar seu amor a Mu de Áries e assumir um relacionamento nada convencional, já que ainda não haviam feito sexo.

— Ommm... Muni Maha Muni Shakyamunie Soha... Ommm... Muni Maha Muni Shakyamunie Soha...

A voz grave do cavaleiro ressoava pelo grande salão de mármore e pedra, tocando os objetos de metal que havia ao entorno de um altar budista e os fazendo tilintar numa sincronia perfeita consigo.

Como em uma súplica, Shaka rogava a Buda que lhe mostrasse o sentido de todo seu sofrimento e onde reinava sua ignorância, a qual lhe causava tantos conflitos emocionais e frustração, e quando imaginou não haver resposta, eis que ela surgiu como uma revoada de pássaros, vinda repentinamente e proferida pelo som de sua própria voz.

— Ommmm... Atinja o estado total de aceitação e realização plena da natureza de seu ser... Faça de ti mesmo uma luz. Confia em ti mesmo e não dependa de mais ninguém... Faça dos ensinamentos a ti doutrinados o seu próprio karma, confie neles e não dependa de nenhum outro julgamento... Ame... E se teu amor for pleno e verdadeiro, terás a maior dádiva conferida ao homem, e não abandonará quem és... Ommm...

Dito isso, e como se tivesse saído de uma espécie de transe, Shaka abriu os olhos, então toda a sala tremeu. Permaneceu alguns minutos em silêncio absoluto na mesma posição, olhando absorto para o nada à sua frente, sem piscar, até que de repente abriu um largo e espontâneo sorriso.

— Buda! Então é isso! — disse, ainda sustentando o sorriso no rosto plácido — Como não havia pensado nisso antes...?

Eufórico, Shaka desfez a posição em que estava há horas e levitou para fora da grande lótus dourada, então correu até o pé do altar, ajoelhou-se, guardou seu rosário de oração em uma caixa de madeira simples e juntando as mãos uma à outra fez uma reverência, levantando-se apressado em seguida.

Antes de deixar o grande salão, colocou-se frente a enorme estátua de Buda, a qual tinha lugar cativo ali, e olhando em seus olhos semicerrados lhe sorriu com gratidão ímpar.

— Obrigado. — disse, e com um sutil baixar de cabeça em respeito a seu significado, deu-lhe as costas e deixou a sala, caminhando apressado até seu quarto.

Sentia pela primeira vez, desde que mergulhara nesse conflito entre corpo e alma, entre a vontade da carne e o desejo do espírito, que um não precisava anular o outro, ao contrário, edificavam-se quando unidos, e por isso sentia-se leve, pronto para seguir em frente sem mais sofrimentos.

Aliás, teria que enfrentar agora sua inexperiência, mas sem a culpa de estar abrindo mão de sua missão na Terra para viver uma história de amor, isso seria fácil... Ou não.

Sabia que ainda tinha muitas questões a resolver, como o problema dos tais "encaixes". Há pouco era um monge, devoto e com um voto de castidade a cumprir, e de repente percebeu-se decidido a quebrar esse voto justamente com outro homem!

— Buda, como vai ser? — disse para si mesmo, um tanto quanto nervoso, enquanto se dirigia ao banheiro para tomar um banho e ficar no aguardo de Mu que logo chegaria — Nunca nem assisti a nenhum filme de temática homossexual!... Sim, eu sei que o amor conduz... Mas, só isso não basta!... Que difícil!... A gente acaba de resolver um problema e já cai em outro!

Abriu a ducha, pleno em ansiedade, e enquanto se despia ria de sua própria confusão, porém já muito mais aliviado, visto que agora tinha a total certeza do caminho que queria seguir.

Ao final do expediente no Templo de Baco, Mu de Áries subia as escadarias da primeira casa zodiacal trazendo consigo uma pilha de papeis debaixo do braço.

Eram algumas das planilhas que continham a contabilidade do negócio de Saga, as quais ainda não havia conseguido conferir, e estando firme em seu intento de evitar desvios de verba por parte da máfia russa, teria que refazer alguns cálculos.

Estava exausto. Havia passado metade do dia no centro de Atenas fazendo compras para as bacantes e a outra metade conferindo notas. Vez ou outra se distraía numa conversa com Afrodite, que sempre aparecia de dia por lá, fosse para organizar as agendas dos programas com prévia reserva, ou para resolver algum problema, desde claro, que não envolvesse Geisty ou Misty.

Desses Afrodite queria distância!

Já havia notado uma mudança de comportamento na amazona de Serpente, a qual deixara de andar pelos cantos emburrada e arredia e agora parecia bem mais confortável. Sem contar nos olhares e risinhos que trocava com Saga de Gêmeos, além do insuportável cheiro dela que praticamente estava encalacrado em todo o geminiano, bastava chegar perto dele para sentir. O que, aliás, passara a ser bem complicado, já que amazona de tudo fazia para afastá-los.

Nas semanas que se seguiram após ter se rendido à atração arrebatadora que sentia pelo cavaleiro de Gêmeos, Geisty passou a se irritar ainda mais com a presença de Peixes no bordel, e sobretudo às suas abordagens ao geminiano, mesmo que Afrodite não tivesse mais a mínima intenção em seduzir Saga, já que fazia isso apenas por diversão, sem tanto pensar nas consequências.

Os pensamentos de Peixes agora pertenciam a uma só pessoa, Camus de Aquário, mas a italiana ignorava totalmente esse fato, e somado ao histórico de sexo que unia Gêmeos a Peixes, mais à reputação nada virtuosa do pisciano, o convívio entre os dois era um pé de guerra, uma vez que a bela morena, ciumenta como era, sentia-se ter de viver em constante estado de alerta, algumas vezes beirando o agressivo.

O que nem Peixes nem Saga sabiam, mesmo o grego tendo se tornado tão próximo à amazona, era que Geisty era uma garrafa de coquetel molotov abastecida pelas provocações e insinuações de Afrodite, no início de sua convivência, o qual abalou a confiança que ela depositara em Gêmeos e que agora esforçava-se tanto para reconstruir.

Com isso, na intenção de evitar um conflito maior entre Peixes e Serpente, Saga procurava, pelo menos enquanto Geisty ainda se sentisse insegura, evitar tanto contato com o pisciano, tratando com ele apenas dos negócios que envolviam o bordel.

Mas, da mesma forma que o destino afastou Saga de si, ele lhe trouxe um novo amigo.

Nas semanas que se passaram, a amizade entre Áries e Peixes ganhara ainda mais força. A rotina no bordel passou unir ainda mais os dois cavaleiros, que não escondiam de ninguém sua amizade, inclusive de Shaka!

Virgem havia conseguido enxergar que errara com Peixes quando quase lhe quebrou o nariz numa crise de ciúmes, mas apenas isso. Sua implicância com a proximidade de Afrodite com Mu ainda lhe incomodava e o deixava extremamente inseguro. Contudo, não mais se opunha.

Mu por sua vez, respeitava a opinião do namorado, mas em nenhum momento abriu mão de sua amizade com o pisciano para agradá-lo. Pelo contrário, se mantinha próximo sempre que podia, tão próximo a ponto de perceber que Afrodite não estava nada bem. Seu amigo estava definhando.

No entanto, Áries mesmo angustiado nada podia fazer para ajudar Peixes, uma vez que só poderia agir se Afrodite lhe contasse o motivo de seu sofrimento, ou correria o risco de complicar ainda mais a situação. Sendo assim, mantinha-se perto, atento e disponível. Era só o que podia fazer.

Como fazia todos os dias, passou em Áries e tomou um longo e caprichado banho antes de subir para Virgem, onde Shaka sempre o esperava para jantarem juntos. Podia estar exausto pelo trabalho, mas era recompensado todo fim de tarde quando chegava à sexta casa e sentia o aroma delicioso do jantar que Shaka preparava, além de ser recebido com muitos beijos, carinhos e mimos.

Não havia como Mu estar mais apaixonado, e sentia que seu sentimento era recíproco, uma vez que Virgem fazia de tudo para agradá-lo. Só não faziam sexo.

Mas, Mu já havia se acostumado com a ideia. Não que não sentisse vontade de transar com Shaka, porém ele mesmo, muitas das vezes que tentaram, após o episódio da forja onde o virginiano praticamente o havia agarrado, não se sentia confortável para prosseguir e parava quando as carícias se intensificavam.

Não sabia o que lhe bloqueava, mas não iria conduzir sua relação com Shaka preso a esse detalhe — "Uma hora vai!" — era o que costumava dizer a si mesmo.

E era pensando assim, tranquilo e feliz, que Mu subia até à casa de Virgem todo início de noite para ver Shaka e fazer as mesmas coisas que sempre faziam.

Entretanto, naquela noite algo lhe parecia bem diferente, e não se tratava da variedade de Pani Puris, um bolinho típico indiano recheado com chutney e vegetais que Virgem havia preparado, tampouco o Naan ou o Thali, uma espécie de pão servido com vários acompanhamentos.

— Humm... Hum... Onde você aprendeu a cozinhar tão bem, Shaka? Isso está muito bom! — perguntou o ariano com a boca cheia, enquanto olhava para os olhos de Shaka que pareciam cintilar um brilho especial naquela noite. A aura do namorado estava mais suave e alegre.

— Nos programas de culinária do canal a cabo. — respondeu Virgem com um sorriso.

— Ah!... Mas é obvio! Como me esqueci da televisão? Mas, desde pequeno você sempre me surpreendeu com seus dotes culinários. — Mu riu de volta, então percebendo o semblante calmo e jubiloso do namorado, levou outro bolinho à boca e curioso perguntou — Você está diferente amor. Aconteceu alguma coisa hoje?... Sua aura está... Não sei...

— Sim. — Shaka pousou os talheres no prato — Eu meditei muito essa tarde. Pedi a Buda que espantasse toda sombra de dúvida, insegurança ou medo que ainda pairava sobre mim e agora estou em paz. — olhou para o ariano exprimindo toda sua alegria através de seus olhos, agora serenos.

Mu surpreendera-se com o que acabara de ouvir e parou de comer, sentindo um frio na barriga.

— Plenamente? — questionou, num misto de surpresa, curiosidade e alegria, já sentindo seu coração acelerar dentro do peito, pois aguardava há muito por esse dia.

— Plenamente! — o loiro respondeu deixando escapar um suspiro, então se levantou, pegou seu prato, o levou até a pia e ao voltar colocou-se atrás da cadeira onde Mu estava sentado, o abraçando pelas costas e depositando um beijo em seu pescoço — Não há nada mais que me impeça de seguir em frente, Mu. Eu amo você, e esse amor é tão forte e certo quanto minha fé e minha missão. Um não anula o outro. Agora eu entendi e estou pronto para viver ao seu lado plenamente, até que meu ciclo terreno se encerre e o Samsara se cumpra.

Ainda surpreso e emocionado, pois sabia o quanto Virgem havia buscado aquela resposta e ansiado por ela, Mu virou o rosto para ele e sorriu, até que em um rompante de alegria, levantou-se apressado da cadeira e agarrou o namorado pela cintura, o levantando do chão.

— Ah Shaka, não faz ideia do quanto eu amo você!

Aos risos, Áries colocou o virginiano no chão e o abraçou com força, sendo retribuído da mesma maneira, e envolvidos por aquele clima alegre e bonançoso, entregaram-se a um beijo apaixonado que logo os conduzia à carícias mútuas.

Mu havia esperado por esse dia de tal maneira que não foi capaz de se conter e quando deu por si, já estava debruçado sobre o namorado, encostados na mesa de jantar.

Shaka por sua vez, já esperava por aquela reação, afinal o fizera esperar meses e agora nada mais os atrapalharia.

— Hum... Sha... — Áries sussurrou ao escorregar as mãos para debaixo da túnica laranja do indiano e provar a maciez da pele perfumada, enquanto voltava a devorar os lábios rosados naquele beijo tão intenso — Vamos sair daqui? Ou vou causar outro acidente culinário!

— Sim, vamos! — Shaka respondeu arfante, rindo da euforia do namorado, quando se surpreendeu sendo pego no colo e colocado no chão.

Caminharam juntos, a passos lentos e trôpegos, visto que não desgrudavam as bocas ofegantes e sedentas de desejo em nenhum momento, até chegarem à sala onde Mu, assim que avistou o sofá, conduziu Shaka para deitá-lo gentilmente sobre as almofadas.

Enquanto o virginiano se ajeitava, o ariano já retirava a camiseta com certa ansiedade, e nem bem havia se livrado da peça já fora puxado pelos braços urgentes do namorado, que o trouxe para junto de si o fazendo deitar-se sobre seu corpo, enquanto tomava-lhe novamente os lábios com luxúria desmedida.

Mu sentia seu corpo queimar por dentro, de desejo, excitação, mas também de nervosismo e apreensão. Ter Virgem em seus braços, agora sabendo que ele decidira entregar-se a si de fato, lhe causava certo furor. Shaka agora seria seu plenamente e finalmente poderia tomá-lo, amá-lo, como tantas vezes tinha sonhado.

Em meio a beijos cada vez mais calorosos e carícias ainda mais ousadas, um pedido de Shaka despertou a atenção de Mu, que antes era toda direcionada a seus sentidos, seu corpo e seu desejo.

— Dorme aqui hoje, Mu? — sussurrou o virginiano.

Ao ouvir suas palavras, Mu ergueu minimamente o tronco, apenas para poder olhar nos olhos de Shaka, e foi nessa hora que fora arrebatado.

Virgem estava lindo.

Sorria com os lábios inchados pelos beijos vigorosos. Sorria com os olhos, que o acariciavam Mu com um toque sedutor. Sorria com a alma, que o abraçava em exalo.

A aura de Shaka também lhe sorria, vibrante, quente, lhe fazendo sentir o ar faltar tamanha era entrega do outro a si.

— Dorme aqui... — repetiu, insistindo no pedido já que percebia Mu meio azoado. Teria sido o seu convite precoce? Não. Já esperaram muito por aquele momento — Fica essa noite comigo, Mu. — sussurrou, afagando a orelha do lemuriano com o toque quente de seu hálito doce, para em seguida entrelaçar os dedos nas madeixas lavanda e puxá-lo para um beijo rápido, enquanto enlaçava a cintura delgada com as pernas.

—... Durmo. — Áries respondeu num chiado, a voz saindo trêmula entre os lábios de Virgem — Sha... Hum... Eu durmo!

A confirmação só serviu de combustível para alimentar ainda mais a libido de ambos, que agora se tocavam sem mais reservas, explorando o corpo um do outro numa euforia afã.

Os peitos nus palpitavam, as peles eriçadas pareciam receber pequenas descargas elétricas e arrepiavam-se a cada novo toque, os cabelos bagunçados se misturavam e caiam sobre eles como cascatas, delineando as formas másculas de ambos os corpos, e enquanto Mu levantava a túnica de Shaka acima de sua cintura, Virgem corria as suas até a calça que o ariano usava, abrindo o botão do cós com urgência e já descendo o zíper em seguida.

Ao sentir os dedos quentes do amado deslizarem para dentro de sua cueca, Mu ofegou em ansiedade, no entanto um incomodo anormal e repentino o tomou por completo mais uma vez.

Viera tão forte como das outras vezes, comprimindo seu peito, lhe trazendo angústia e o acusando de estar fazendo algo leviano. Julgou que deveria ser o medo de sua inexperiência, visto que agora não havia mais o risco de estar forçando o namorado àquela situação. Shaka queria, e muito! Via em sua aura, sentia em seus toques, em seu corpo, e agora que o amado se libertara, ele quem iria sofrer um conflito?

Não. Não iria.

Amava Shaka e tinha plena certeza de que era amado por ele igualmente. Estavam em paz. Não havia motivo para se culpar de estar fazendo algum mal ao virginiano, mas parecia que a cada avanço que tomava uma voz autoritária lhe repreendia diretamente em sua mente, lhe acusando de leviano, imoral, irresponsável, concupiscente.

Tentou evitar o conflito beijando o namorado com paixão, mas quando sentiu que Shaka pegou em seu membro já muito rijo, Mu segurou em seu punho o impedindo, puxando em seguida a mão do virginiano para fora da peça íntima.

— O que foi? — Virgem questionou, olhando para ele com certo espanto.

— Nada, amor... — tentou disfarçar sua inquietude com um sorriso, mas sabendo que não havia como explicar o que não podia entender, saiu de cima de Shaka e sentou-se no sofá, o puxando pela mão para que se sentasse ao seu lado — Vem aqui.

— Aconteceu alguma coisa? Eu fiz errado? Olha, Mu, nós vamos descobrir juntos... Não fique nervoso.

— Não é isso, é que... Não está na hora da novela? — disse meio sem graça, apelando para a única saída que teve em mente.

— O... O que? — Shaka franziu a testa o encarando — Eu não acredito que...

— É que... Você está falando há tantos dias do capítulo de hoje, que é o casamento da... Da...

— Rhana. É o casamento da Rhana com o Shandar... Mas...

— Isso!... Sha, não quero que perca o capítulo... Eu também estou curioso... Depois... Depois, a gente agora tem todo do tempo do mundo, não é? — puxou o amado para um abraço forte e um beijo, rogando aos deuses que sua desculpa surtisse algum efeito.

—... Bem, eu... Não sei... Eu... Sim, o capítulo vai estar bom, porque o Ralej pretende sabotar o casamento, você sabe né?

— Ô se sei!

— Mas, a Síbila vai impedir, tenho certeza!

— Eu também tenho! Essa mulher é tinhosa, né Sha?

— Muito! — Shaka já se levantava do sofá arrumando a túnica no lugar — Mas, não pense que não vai ter que me explicar esse seu súbito interesse pela "Destinos Cruzados" justo agora, Mu de Áries. Isso me pareceu bem esquisito!

— Amor, não tem nada de esquisito. — Mu levantava apressado do sofá, abotoando a calça e agachando-se para apanhar a camiseta que jogara no chão — Eu só me lembrei que você esperou dias por esse capítulo e eu acabei esperando junto. — vestiu a camiseta sentindo vontade de correr até a primeira coluna grega do lado de fora e bater contra ela com a cabeça, como um carneiro raivoso sem razão, até que ambas se partissem ao meio, a coluna e sua cabeça — Agora estou curioso, né. Depois, sexo a gente faz qualquer hora agora. O casamento da... Da...

— Rhana... — disse Shaka olhando para ele, desconfiado.

— Isso, da Rhana, só tem uma vez. Vamos para o seu quarto? — enlaçou o namorado pelos ombros sorrindo de forma aflita.

A sorte de Mu de Áries era que Shaka de Virgem tinha Ralej e Síbila como seus maiores amores na Terra, logicamente abaixo de Mu e de Buda, no plano espiritual, a quem amava incondicionalmente.

Foi por isso que, assim que entraram no quarto, ao ligar a TV toda a marra que Shaka trazia estampada em seu rosto desaparecera como que por milagre, uma vez que o tema inicial da novela já tocava apresentando a trama em seu dia de capítulo especial.

Mu já se ajeitava sobre a cama fazendo uma pilha de travesseiros. Afofava um por um dando batidas com as palmas das mãos, imprimindo mais força que o necessário ao ato.

Na verdade, Áries descontava toda sua raiva e frustração, por mais uma transa perdida, nos elefantes indianos que estampavam os travesseiros de Shaka.

Quando o capítulo começou, Virgem pulou na cama ao lado dele, cruzando as pernas e permanecendo sentado, enquanto Mu encostava-se à montanha de almofadas surradas.

Na tela da televisão, Ralej armava um plano para impedir o casamento de Rhana com Shandar, mas com a mesma fé que tinha em Buda, Shaka esperava um ato heroico de Síbila, que não demorou a vir. A ardilosa indiana havia descoberto o plano do marido e sabotado seu carro. Assim, enquanto rumava para o Templo onde seria realizada a cerimônia de casamento, o automóvel de Ralej quebrou e ele não conseguiu chegar a tempo de abortar a felicidade da amiga de Síbila, Rhana.

— Eu não te disse! — falou Shaka aos risos, como se houvesse alcançado uma vitória, enquanto cutucava as pernas de Mu — Eu sabia que a Síbila ia impedi-lo!

— Nossa... Que bom né, Sha? — respondeu Mu nem um pouco animado.

— Sim! Rhana merece ser feliz! Ela sofreu muito e Shandar é um homem muito correto e elevado. Mesmo sabendo que ela foi prostituta, ele a respeitou e somente a tomará depois do casamento!

Mu de repente sentiu-se estranho com o que Shaka acabara de dizer.

Na televisão, a cerimônia do casamento corria como o esperado. A noiva estava lindíssima em um sari vermelho todo bordado em dourado, coberta de joias, flores e com as mãos ornadas pelas tradicionais tatuagens de hena, que, aliás, fora o que mais chamou a atenção de Mu, pois já havia visto os mesmos desenhos de arabescos e flores uma vez nas mãos de Shaka, na fatídica noite em que chegara bêbado do Templo das Bacantes e tentou agarrá-lo à força.

O noivo vestia um traje típico e turbante, e após ter os pés lavados pelo pai de Rhana, ambos colocaram colares em torno dos pescoços e agora davam voltas em torno do altar.

— É tão linda essa cerimônia... — Shaka disse enquanto mantinha os olhos vidrados na tela da TV — As roupas dos noivos, as tradições, o ritual todo em si!... É um costume milenar, sabia, Mu?

Mu demorou um pouco a responder, visto que o que via na televisão o tornara reflexivo de uma hora para outra, e também um tanto quanto perturbado.

— É mesmo, Shaka? — respondeu após algum tempo, conseguindo escapar por alguns segundos do turbilhão de sensações e pensamentos a que fora acometido repentinamente — Você preza muito ainda pelos costumes do seu país?

— Sim, claro. — Shaka respondeu simplesmente, sem se dar conta do que acontecia com Mu — Mesmo longe da minha pátria, eu a carrego dentro de mim... Nós, indianos, temos um apego muito forte à nossa cultura, mesmo estando distante dela.

— Eu... Nunca tinha visto um casamento indiano antes... — balbuciou em baixo tom, ora olhando para a televisão, ora para o rosto de Shaka, que parecia hipnotizado por tudo que via, sobretudo quando a noiva era mostrada na tela. Nessas horas seus olhos chegavam a brilhar de alegria e ele sorria.

Foi exatamente na cena em que Shandar tomou a mão tatuada de Rhana nas suas e deu-lhe um beijo nas palmas, para depois marcar sua fronte com o Sindoor, um pó vermelho aplicado na divisão dos cabelos, o qual carregava o mesmo simbolismo das alianças de ouro no ocidente, que Mu teve uma epifania!

Já havia visto Shaka com as mesmas tatuagens, mas não conhecia seu significado. Agora, vendo a cena do casamento na novela, Mu descobriu se tratarem de um ritual feito pelas noivas ao se casarem e constatou que o que faltava para que ele e Virgem conseguissem dar o segundo passo na relação, não era amor, isso tinham de sobra, tampouco experiência, mas sim compromisso!

— "Por Atena e todos os deuses do Olimpo! Pelo meu mestre Shion e tudo que me ensinou na vida, como eu pude cometer tamanha falha?... É isso! Sempre foi!" — pensava, olhando para Shaka que de tão mergulhado no capítulo da novela nem percebia estar sendo observado — "Compromisso! Não são promessas, não são palavras, não é nada disso que falta... Mestre! É compromisso!".

Foi como acender uma lanterna em um corredor tomado pela escuridão.

A voz em sua mente que lhe acusava toda vez que se via envolto a carícias íntimas e quentes com o namorado, era de Shion, seu mestre, o homem que lhe ensinou que jamais deveria tomar a pessoa a quem escolhera para dividir a vida de forma desonrosa, sem firmar um compromisso. Sua consciência agora lhe acusava justamente disso, de que tentava deflorar o amor da sua vida sem arcar com as responsabilidades.

Mu havia encontrado a sua resposta!

Tomado por uma euforia sem precedentes, sentou-se ao lado de Shaka, segurou em seus dois braços e o puxou para um forte abraço.

Virgem se surpreendeu com aquele gesto repentino.

— O que é isso? O que foi agora, Mu?

— Você, Shaka de Virgem, é o amor da minha vida! — disse se afastando minimamente para olhar nos olhos azuis surpresos do indiano, arrebatado por uma emoção que fazia seu corpo todo tremer.

— Você está estranho hoje... O que está acontecendo?

— Absolutamente nada! Estou feliz! A Síbila conseguiu salvar o casamento da...

— Rhana... — Virgem resmungou o nome mais uma vez.

— Isso, da Rhana. Foi lindo! Foi fantástico, foi revelador!

— Revelador?

— Sim!... Revelou... Revelou a grande mulher que a Síbila é, né Sha?

— Ah, sim. Mas, ainda não acabou o capítulo.

— Sim, eu sei, mas eu tenho que ir embora.

— Como é que é? Não disse que ia dormir aqui?

— Sim, eu disse, mas... — soltou o virginiano e em seguida deu um salto da cama — Me lembrei que tenho uma pilha de notas para conferir e mais uma pilha de armaduras dos aprendizes para consertar...

— Mas não vai fazer isso de noite, Mu de Áries. — Shaka retrucou desconfiado, já descendo da cama para caminhar até ele — Eu sei que você não trabalha à noite. O que você está me escondendo?

— Imagina! Eu escondendo algo de você, amor? Nunca! É que realmente tenho que começar a trabalhar na forja à noite, porque passo o dia na casa de tolerância, né?... O trabalho da forja está se acumulando.

— Mas, justo hoje?... Que eu te disse que... Eu decidi...

Percebendo que deixara o amado confuso e chateado, Mu aproximou-se dele e lhe fez um carinho no rosto atordoado.

— Shaka... Eu fiquei imensamente feliz por sua escolha. Saber que está em paz consigo mesmo e que decidiu viver nosso amor não poderia ter me dado maior alegria. Temos todo o tempo do mundo. Confie em mim, não precisamos ter pressa... Eu te amo, Shaka de Virgem. Muito mais do que você possa imaginar. Você é como um raio de sol que me ilumina a cada dia. — sorriu, depositando um beijo carinhoso sobre os lábios do loiro que o ouvia com atenção — Me perdoe amor, mas eu realmente me lembrei que preciso adiantar o serviço na forja. Não se preocupe... Vai dar tudo certo!

Áries então se afastou e com certa pressa deixou o quarto e também um virginiano todo encucado para trás.

Assim que saiu do sexto Templo, Mu não mais conteve sua emoção e euforia e aos risos desceu todo serelepe as escadarias de pedra até a primeira casa.

Logo que entrou, rumou a passos largos até o escritório, onde munido de lápis, caneta, papel e muitas ideias na cabeça, passaria boa parte da madrugada minuciando os planos que o uniria definitivamente ao virginiano. Tinha que aproveitar aquela noite, já que o capítulo revelador da novela de Shaka ainda lhe estava fresco na memória, para traçar todos os detalhes de seu plano ousado e destemido.

Eram tantas coisas a se pensar, e depois a executar, que tinha consciência de que não seria capaz de fazer tudo sozinho, mas já sabia exatamente a quem recorrer para pedir auxílio.

Alguém tão maluco e ousado quanto seu plano!

* Mantra do Buda Shakyamuni, também conhecido como Sidarta Gautama, o fundador histórico do Budismo. É entoado por aqueles que buscam todo tipo de cura, física ou espiritual, além de proteção e sabedoria para tomar decisões difíceis. É o mantra do "Grande Vencedor", aquele que transcendeu todos os sofrimentos, venceu a negatividade e driblou as ilusões.

Muni significa a renúncia ao sofrimento.

Maha Muni significa a percepção da natureza e da realidade.

Shakyamuni significa o rápido Caminho para a iluminação.

Soha dedica nossa energia para o benefício de todos os seres.