A noite era de lua cheia. O majestoso satélite da Terra, em sua fase mais sublime, nem havia atingido ainda o meio do céu quando no Templo das Bacantes o agito já tinha começado há tempos.
O salão fervilhava feito um grande caldeirão escaldante cujos temperos principais eram luxúria, cobiça, vaidade e dinheiro. Muito dinheiro!
E era pelo vil metal que Camus de Aquário estava ali, em mais uma fatídica noite naquele bordel a fim de fiscalizar o andamento da casa, a qual era praticamente patrocinada pela Vory v Zakone, uma vez que os clientes que o aquariano levava periodicamente ao estabelecimento eram justamente os que mais enriqueciam os bolsos de Saga de Gêmeos.
Esse por sua vez não poderia estar vivendo melhor fase.
Mesmo que sua relação com Geisty de Serpente ainda estivesse longe de ser um mar de rosas, após dois meses em que se encontravam às escondidas depois do expediente e amavam-se incógnitos, mesmo sob o risco de serem descobertos por quem não deveria, Gêmeos finalmente podia viver sem o peso que carregava na consciência de estar mentindo para sua amada.
Não. Agora Saga já nadava em águas tranquilas, certo de que os sentimentos da amazona eram recíprocos aos seus, e tomava forma o romance que já havia sido rascunhado anos antes.
Tudo ia bem, era só continuarem mantendo sigilo e serem cautelosos, além de pacientes, uma vez que ambos nutriam em suas mentes e corações uma esperança veemente de que logo poderiam viver seu amor sem mais se esconderem.
Esperança essa que definitivamente não habitava mais o coração de Camus de Aquário, ainda mais depois que acordara nu em seu Templo amargurando uma das piores ressacas de sua vida, assombrado por fortes indícios de que havia feito sexo com Misty de Lagarto.
O choque que acometera o cavaleiro de Aquário naquele dia fora tão marcante que ele ficara boas semanas sem colocar os pés na Grécia, refugiando-se na Rússia temendo novamente ser chantageado, agora pelo cavaleiro de Prata.
No entanto, quando não pode mais adiar sua ida ao bordel, já que era ele o responsável por levar os figurões da alta sociedade russa para desfrutarem das belas mulheres que o Templo das Bacantes tinha a oferecer, surpreendeu-se ao notar que Misty continuara a tratá-lo da mesma forma de sempre, com muito respeito, sigilo, poucas palavras e principalmente sem nunca ter tocado no assunto acerca do que ocorrera no dia de sua bebedeira.
Camus, desse dia em diante, tinha decidido esquecer esse episódio esdrúxulo com Lagarto e tocar a vida da forma mais suportável possível, mas fazendo uma nota mental de que deveria evitar o uso abusivo do álcool!
Mas, se Misty não lhe era mais problema, Afrodite ainda era sua ferida incurável. Uma ferida em carne viva que com a ajuda da vodca conseguia sentir menos dolorida, mas que sóbrio se tornava cada dia mais insuportável.
Aqueles quase dois meses que se passaram haviam levado embora suas lágrimas, mas o amor por Afrodite e a saudade que sentia, esses ainda lhe eram os mesmos!
E foi pensando em sua triste condição que Camus entrou naquela noite no bordel acompanhado de Andreas, seu braço direito, e uma gama de empresários, políticos e socialites russos que trazia consigo, dirigindo-se à mesa que sempre ocupava na casa e que já lhe era vitalícia.
Todos ajeitados, bebidas a esbanjar, belas mulheres os rodeando, Aquário só conseguia prestar atenção na conversa que Andreas tinha ao celular com uma garota com a qual acabara de engatar um namoro. O francês ria da situação do russo, que aos palavrões tentava explicar para a amada o que estava fazendo em um bordel na Grécia.
Não pode deixar de sentir inveja dele, porque dada sua atual situação acreditava jamais poder ter um relacionamento sério.
O ruivo divagava acerca de sua má sorte no amor quando seu celular tocou, o trazendo de volta à realidade. Ao apanhar o aparelho no bolso do casaco surpreendeu-se ao ver o número da chamada em seu visor.
Imediatamente pediu licença a todos na mesa e levantou-se às pressas, caminhando a passos largos até a saída da frente do Templo onde Máscara da Morte e Shura conversavam enquanto fumavam um cigarro.
Afastou-se um pouco deles para ter privacidade e então atendeu à chamada.
— *Oi chefe! Aconteceu alguma coisa?
Camus já esperava ouvir a voz pigarrosa e envelhecida de Dimitri, o "pai" da Vory v Zakone, do outro lado da linha, mas no lugar dela o que ele ouvia era apenas o som, de acústica um tanto quanto abafada, da bela sinfonia do compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovsky, O lago dos Cisnes.
A princípio não entendeu, no entanto sentiu uma angústia repentina lhe comprimir o peito.
— *Dimitri? — perguntou em voz baixa, franzindo o cenho.
Em um silêncio apreensivo, aguardava a resposta que tanto demorou a vir, aumentando ainda mais sua inquietude, até que finalmente ouviu a voz conhecida de Dimitri Yurievich Volkov em meio à música.
— *Ah, olá, Camus!... Deveria ver como o Mayakovsky está especialmente iluminado hoje. Esse balé sempre atrai muito público, não é mesmo?
Do outro lado da linha apenas silêncio.
Camus sentia suas mãos tremerem. Mal piscava os olhos injetados num ponto qualquer na grande parede de rocha à sua frente.
— *Sabe, Camus, eu acho que você tem andando muito ocupado ultimamente com esse bordel grego. Eu realmente imaginei que estaria aqui para vê-la... Ela está incrivelmente bela hoje.
Nem que tentasse dizer algo não seria capaz, visto que toda a saliva que tinha na boca secara e subitamente o raciocino lhe abandonara, dando apenas espaço para um sentimento de aflição e completo terror.
— *Eu não o culpo se, de repente, a Grécia lhe pareça mais interessante do que antes lhe fora... Até entendo que esteja empenhado em cuidar pessoalmente da parte que nos cabe nesse negócio, ou... Ou até se, por ventura, conheceu alguma vadia grega que o tenha cativado mais do que deveria... Mulheres, né meu caro! Você é jovem, praticamente um garoto, e um bordel na sua idade é tal qual um playground para crianças, mas... Camus, meu caro Camus... Não está esquecendo-se de algo não?... Quando lhe dei sua segunda Rosa dos Ventos, o que eu lhe disse, Camus?... Vamos, o que eu lhe disse?
— *A... A família vem primeiro. — Aquário respondeu num fiapo de voz, tomando consciência da ambiguidade que Dimitri propusera com aquela pergunta.
— *Isso mesmo, meu rapaz!... A família vem primeiro! Mas, você tem negligenciado justamente o que tem de mais importante em sua vida. Sua família, Camus. Veja só... Natássia está se apresentando hoje, aqui no Mayakovsky, pela primeira vez depois de sua cirurgia no tornozelo, e onde você está? No bordel grego!... Ah, será que essa puta que está sugando seu pau e seu dinheiro tão bem merece mesmo mais atenção que sua família, Camus?... Você sempre foi um braço direito impecável. Não tinha a mínima queixa de você até meses atrás, quando esse bordel foi aberto. Sabia que o carregamento de pó que recebemos semana passada da Colômbia estava adulterado?... Mandei Chesla em seu lugar para testar a mercadoria, mas ele não foi capaz de perceber que a quantidade de levamisol e ácido clorídrico estavam exorbitantes, muito além do nosso tolerável... Levei um prejuízo enorme com esse negócio, Camus... Claro que não vou vender uma farinha que vai matar meus clientes, preciso deles. E isso por quê?... Porque meu braço direito estava na Grécia, no bordel grego, entre as pernas de uma vadia que ele colocou no lugar da família...
Camus comprimia os lábios com força num gesto visível de nervosismo. Em silêncio absoluto, sentia um misto de terror, revolta e também de culpa.
As acusações que Dimitri lhe atribuía não eram nem uma gota de água perto do oceano de lama em que mergulhara desde que se envolvera com Afrodite de Peixes.
Perturbado por saber que seu Vor* estava no teatro com Natássia, engolia seco enquanto fechava os olhos e apertava as pálpebras com as pontas dos dedos trêmulos, ouvindo a voz de Dimitri do outro lado da linha sem contestá-lo em nenhum momento, tal qual um filho que escuta a repreensão do pai temeroso de que ele descubra sua malcriação e o puna justamente onde mais lhe doeria... Natássia.
— Mas, você sabe que Dimitri Yurievich Volkov nunca fica no prejuízo, não é mesmo? Você vai arcar com isso, Camus. A Vory cobra suas dívidas com dinheiro, ou com sangue. Sabe bem disso. E não é porque é meu braço direito que não cobrarei essa dívida. Era sua função testar aquela droga, assim como era sua função estar vendo Natássia no balé hoje... Eu quero deixar uma coisa bem clara, Camus... Sua família é a Vory v Zakone, foi ela quem te deu tudo que tem hoje, ela quem fez de você um homem forte e influente, ela quem te ensinou tudo que sabe, é ela quem sustenta seu luxo... E é a ela a quem você deve lealdade!... Não seja um ingrato, Camus... Sabe como tratamos aqueles que não dão o devido valor à família... Ou que deixam a desejar... Você é como um filho para mim, não me decepcione, meu filho.
A chamada encerrou abruptamente.
Do lado de dentro do bordel, no quarto de Afrodite de Peixes o pisciano segurava uma rosa vermelha entre os dedos, enquanto aspirava seu delicioso perfume.
Estava deitado na enorme cama de lençóis carmins já pronto para descer a algumas horas, mas sem nenhum ânimo para tal.
— Você está igualzinha a mim... — disse olhando para a rosa em sua mão —... Linda, cheirosa e murcha.
Jogou a flor para cima e como num truque de mágica ela se desfez no ar, perfumando o ambiente com uma fragrância doce.
Soltando um suspiro de resignação, Peixes levantou-se da cama, calçou os scarpins de saltos altíssimos que já esperavam na beirada do leito e caminhou até a penteadeira, onde olhou-se no espelho para ajeitar o vestido preto de couro, de saia curtíssima, mangas longas e um enorme decote nas costas, o qual fora enviado a pedido do cliente que atenderia naquela noite e que sempre exigia que se vestisse com roupas femininas, sobretudo a peça íntima!
— Merda de suíno cafona. — praguejou ao puxar a saia do vestido para baixo — Como se não me bastasse ter que aturar o alofi* de dragão do encosto, ainda tenho que usar essa bosta desse pano de chão de banheiron* de rodoviária... Merda de vida. — agastado, puxou todo o cabelo para cima e prendeu num rabo de cavalo alto.
Bufou de raiva, e na mesma hora bateu os olhos na escultura de gelo que Camus lhe dera de presente meses atrás, tendo seu semblante mudado na mesma hora de uma expressão colérica pra uma de extrema melancolia.
Acocorou-se frente à penteadeira e ficou longos minutos a olhar para a escultura, a rosa de gelo eterno, que agora não passava de um galhinho retorcido, tão fino quanto um gravetinho dos mais frágeis, o qual sustentava bravamente as únicas três pétalas que lhe restava.
— Não queria que você morresse... Não morra... Não me deixe sozinho você também...
Sussurrou como em uma prece, mas assim que a primeira lágrima lhe escorreu quente de um dos olhos, Afrodite se levantou ligeiro, limpou o rosto lindíssimo com as palmas das mãos, fungou algumas vezes e correu para fora do quarto.
Fugia do que não podia impedir. A morte do amor de Camus por si.
Do lado de fora, Aquário ainda tentava se refazer daquela ligação aterradora que acabara de receber Dimitri.
Ofegante e trêmulo, guardou o celular no bolso do casaco e sentindo um suor gelado lhe escorrer pelas têmporas pensou que talvez Dimitri tivesse descoberto seu caso com o cavaleiro de Peixes, porém logo descartou a ideia, uma vez que sabia que havendo a menor sombra de dúvida acerca de sua sexualidade, o Vor já o teria afastado do cargo de seu braço direito, assim como também da família e do planeta!
Perguntava-se, então, de onde Dimitri tirara a ideia de que estaria possivelmente envolvido com alguma prostituta do bordel de Saga. A menos que alguém tivesse batido para o Vor que costumava fazer programas sempre com a mesma prostituta, com Mônica no caso, não via por que Dimitri concluíra que estava apaixonado.
Todavia, um de seus homens o havia "queimado", e agora teria que pagar do próprio bolso um carregamento inteiro de cocaína.
Teria que dar um jeito de descobrir quem o estava delatando e sabia que não se tratava de Andreas, visto que o russo lhe era extremamente confiável.
Mas, uma coisa não podia negar, o "pai" estava coberto de razão em atribuir seu relapso a uma possível paixão, só que não era por uma mulher, como ele imaginava, e sim por um homem.
Tentando organizar minimamente os pensamentos e acalmar os nervos, já que agora sabia que Natássia era o elo fraco que Dimitri usaria para conseguir o que quisesse de si, Camus retornou ao salão decidido a encerrar os programas que fazia com Mônica e a ter uma conversa definitiva com Misty, já que pairava sobre si a incerteza se tinha mesmo, ou não, transado com ele naquela noite, e não poderia mais viver com essa dúvida, uma vez que precisava recobrar todo o foco de seu pensamento nos negócios da máfia.
Subiria com Mônica uma última vez, lhe daria uma boa quantia em dinheiro e encerraria a "parceria".
Depois de resolvido tudo isso, então descobriria quem o estava vigiando e daria um jeito de fazer o espião desaparecer acidentalmente.
Sim, estava decidido a recobrar o foco, recuperar seu racional, voltar a ser o homem que sempre fora, mas quando adentrou o salão todos os planos que já arquitetava em sua mente desabaram por completo, como uma grande pilha de tijolos que vai ao chão em segundos ao levar uma marretada, ao dar de cara com Afrodite de Peixes bem à sua frente.
O coração do aquariano disparou dentro do peito.
No mesmo instante em que seus olhos avelãs cravaram nos olhos aquamarines que tanto havia venerado outrora, sentiu suas pernas fraquejarem e os joelhos tremerem, ao mesmo tempo em que era tomado por uma angústia desmedida.
Camus estava diante do homem que o levara do céu ao inferno em poucos dias.
Era por culpa de Afrodite que tinha perdido o tino, a bússola de seus sentimentos sempre tão norteados por uma razão incontestável. Era também por culpa dele que havia perdido sua identidade, a ponto de envolver-se com um cavaleiro de Prata com quem trocara míseras palavras durante toda sua vida e a quem, em circunstâncias normais, nem se daria conta da existência. E era por culpa dele que havia recebido aquela ligação que o deixou sem chão, sem guia e sem paz.
Apesar disso, não conseguia deixar de desejá-lo, com todo seu coração e alma, o que lhe causava uma aflição colossal, além de um sentimento de culpa opressor.
Correu os olhos rapidamente pela figura belíssima à sua frente, estranhando Peixes estar vestindo roupas femininas, no caso um vestido justíssimo para lá de obsceno, mas que inesperadamente o deixou absurdamente sexy a seus olhos.
Não ouvia nem via nada, nem música, nem vozes dos presentes, nem silhuetas entre luzes, nada. Ali existia somente Afrodite de Peixes, sua salvação e sua maior desgraça!
O tempo tinha parado também para o pisciano, que nem imaginava que ao se dirigir para a saída do salão para dar um olá a Máscara da Morte, como sempre fazia antes de seus clientes chegarem para os programas, daria de cara com Camus.
Assim como Aquário, Peixes sentia o baque daquele encontro casual em cada átomo que compunha seu corpo. Tremia, os olhos esgazeados mergulhavam nas orbes avelãs do aquariano percebendo nelas também a mesma aflição que lhe tomava por inteiro. O coração batia tão forte que sufocava sua garganta e secava a boca, a qual, agoniada pelo anseio irracional de tocar a do outro se entreabriu sum suspiro sôfrego.
Mas, quando se aprumava para dizer algo que guardava em segredo até de si mesmo, alguém lhe tomou a frente o fazendo engolir as palavras e lhe deixando com um gosto amargo na boca.
— Boa noite, senhor Camus. Está especialmente elegante hoje!
Mônica, a bacante vitalícia eleita por Aquário, na verdade seu atestado de macho e heterossexual, se colocara entre os dois cavaleiros dando as costas a Afrodite enquanto enlaçava o francês pelo pescoço com seus braços longos e delicados. Sorridente e solícita, ela beijou o rosto do ruivo e lhe afagou a nuca, mergulhando os dedos naquele oceano cobre que eram seus cabelos.
Pego de surpresa, Camus não reagiu de pronto, mas a abordagem de Mônica pelo menos serviu para tirá-lo do transe em que estava. Não gostou nada daquele contato tão íntimo, porém ela era seu álibi e não poderia ter aparecido em hora mais oportuna.
Desviando os olhos e a atenção que direcionava a Afrodite, encostou seu rosto no da bacante e lhe disse em tom bem baixo, ao pé do ouvido.
— Non faça isso novamente, si´il vous plaîte. Sabe que non lhe dei essa liberdade toda. Non abuse.
— Como quiser, mon cher! — sorrindo a garota olhou para ele e deu um passo para trás, mas em nenhum momento perdeu a descontração, voltando a falar em voz alta, ignorando totalmente a presença do pisciano ali — Já quer subir? Ou o senhor prefere ficar um pouco à mesa. Posso pedir seu licor de anis?
Não era novidade para ninguém ali que Camus sempre fazia programas com Mônica, muito menos para Afrodite, que já inclusive cansara de ouvir a bacante rasgar elogios às gorjetas generosas que o francês lhe dava após o programa. Fora isso, a garota não dizia mais nada a respeito dele, o que atiçava a curiosidade de Peixes e alimentava um ciúme que começava a surgir sem controle.
Foi justamente esse ciúme que fez Afrodite agarrar o braço da prostituta e puxá-la para perto de si, nem dando chance a Camus de responder à pergunta que ela lhe fizera.
— Com sua licença, cavaleiro de Aquário. — disse o pisciano lançando um olhar rude ao francês, antes de sair levando Mônica consigo, a conduzindo pelo braço até o espaço onde ficava a aparelhagem de som.
— Eiii... O que está fazendo? — perguntava ela durante o percurso, mas só obteve resposta quando Afrodite soltou seu braço e virou-se de frente, a encarando de forma severa.
— Você vai atender outro cliente hoje... O da mesa sete. — disse em voz baixa e tom autoritário, indicando o primeiro homem de que se lembrava de não ter feito prévia reserva naquela noite.
— Mas é óbvio que não vou! — contestou a moça, sem entender ao certo aquela ordem — Eu vou atender o cavaleiro de Aquário. Ele é meu cliente cativo, sabe disso. Ele já até pagou o programa! Qual é, cheirou meia suja, Afrodite?
— Não, querida, você não está entendendo. Você vai atender quem eu mandar, e eu estou mandando você atender o cliente da mesa sete hoje, tá meu bem? Entendeu, ou vou ter que desenhar, sua anta?
Mônica deu um passo à frente aproximando-se mais do pisciano, e então o encarou com firmeza.
— Por que isso agora? Sabe muito bem que o Camus nos últimos meses só sobe comigo. E se ele está aqui hoje eu sou dele, meu amor. Exclusivamente dele! Queira você ou não. Goste você ou não. Eu não ligo de atender o cliente da mesa sete também, mas só depois que subir com o ruivo... Sabe bem que ele detesta ser contrariado.
— Alôca! Eu não sei de nada não, exú. — Peixes arregalou os olhos, surpreendendo-se com a audácia da garota, sentindo o sangue ferver dentro das veias de raiva por ela se referir a Camus daquela forma.
— Hum... Será mesmo?... Camus é um cliente especial! Não é? — deu um risinho provocador.
— Desaquenda, ô demônio de teta. Minha função aqui é apenas gerenciar vocês, suas quengas mequetrefes. Quem disse que eu estou preocupado para quem você dá esse seu rabo flácido?
— Ah é? E como você sabe que é isso mesmo que dou a ele? Que é só disso que ele gosta? Por acaso está com ciúme?
— C-Como é... Como é que é?
— A mim você não engana não, Afrodite. Eu sou puta, sou mulher, e dou para o ruivo há meses. E você é viado... Seu gaydar* apita para ele também, não apita?
— Monstra! — disse boquiaberto, apenas mexendo os lábios sem voz alguma sair de sua garganta.
— Eu e você sabemos bem qual a fruta que o ruivo gosta de verdade. — outro riso, ainda mais debochado.
Afrodite levou ambas as mãos à boca impedindo um grito, pois ao ouvir aquilo quase teve um ataque de pânico.
Não podia acreditar no que Mônica lhe acabara de dizer e antes que conseguisse absorver conscientemente tudo aquilo em sua cabeça, a qual já fervilhava naquele momento, a moça se aproximou mais dele e sussurrou, com os lábios próximos ao seu rosto.
— O meu lance com o ruivo é muito simples. Ele quer manter a imagem dele de machão, e ele até que finge bem, e eu quero dinheiro! E não é você quem vai nos atrapalhar. — dizia séria — Então, não se meta entre nós, Afrodite.
— V-Você... Você está enganada, demônio... Ele... Ele não... — Peixes estava tão nervoso e chocado que gaguejava, tentando encontrar uma saída para si e também para Camus, pois estava bem claro ali que o segredo do ruivo estava mais que ameaçado.
Foi quando a bacante lhe deu o xeque mate!
— Acha que sou idiota, Afrodite? Pois eu não sou. O mafioso machão é meu cliente e não vou perdê-lo para você! — encostou o dedo indicador no peito do pisciano, que deu um pequeno passo para trás, completamente atônito — Eu já saquei qual é a dele e ele já sacou a minha. Se é para você que ele olha, mas foi a mim que escolheu, você que fique na sua. Conforme-se. Agora, com sua licença. Meu cliente VIP me espera.
Quando Mônica lhe deu as costas fazendo menção em voltar para o salão, Afrodite só conseguia pensar que ela era uma ameaça em potencial para Camus, e que, inclusive, assim como dissera ali, poderia ter comentado com qualquer outra bacante, amazona ou cavaleiro acerca da sexualidade do francês, e diante dessa constatação fez a única coisa que lhe restava fazer para proteger o segredo de quem amava, segurou a prostituta pelo braço e com um tranco forte a puxou de volta para onde estavam.
Acionando uma mínima parcela de seu poderoso Cosmo, o Santo de Peixes empurrou a garota contra a coluna que ficava ao lado da cabine de som, segurou sua cabeça com ambas as mãos, imprimindo força ao ato, e tomou os lábios da bacante num beijo profundo e truculento.
A ação fora muito rápida, e quando Mônica, de olhos arregalados em surpresa, pensou em afastá-lo de si espalmando ambas as mãos no peito largo do cavaleiro, ele tomou à dianteira e afastou-se por conta própria, antes mesmo de ser empurrado, dando-lhe as costas e abandonando o local às pressas, deixando a bacante completamente aturdida diante daquele ato inesperado e inexplicável.
— Mas que... merda foi essa?... — disse ela se desencostando do pilar para acompanhar os passos de Peixes com os olhos, o vendo se misturar às pessoas no salão — Bicha maluca!... Será que está afim de mim? — limpou o cantinho da boca e também deixou o local, caminhando em direção à mesa onde Camus costumava ficar.
Chegando lá, pousou a mão no ombro do francês, que interrompeu o que dizia a Andreas para olhar para ela.
— E então? Está tudo bem? — Camus perguntou, pois da maneira como viu Afrodite arrastá-la para longe de si já imaginava que ele pudesse estar tramando algo.
— Sim senhor. Está tudo bem. — ela sorriu, ainda sentindo o peito ofegar por conta do susto — Quando quiser já podemos subir. — disse, ainda acompanhando Peixes com os olhos.
Aquário olhou na direção em que ela olhava e viu quando Afrodite se aproximou de uma mesa onde estava um dos clientes cativos da casa, um deputado macedônio de alta estirpe.
O sueco parecia ter pressa, pois nem esperou o homem terminar seu drink já o apanhou pela mão e apressado o conduziu até as escadarias que levavam aos quartos, puxando a barra da saia do vestido enquanto andava.
Camus soltou um suspiro pesaroso. Era muito difícil para ele ver o pisciano com outros homens, mas estava decidido a não mais negligenciar seus deveres por conta de seu envolvimento com Peixes.
Sendo assim, bebeu o último gole de licor que havia em sua taça, afastou a cadeira e pediu licença a Andreas. Teria que conversar com Mônica, encerrar os programas que fazia com ela e dar andamento aos planos que havia traçado para recuperar a confiança de Dimitri e garantir a segurança de Natássia, sua única família de verdade.
— Vamos subir. — disse, abraçando a cintura da bacante e a conduzindo para as escadarias.
Quando subiam cruzaram com outro casal que vinha descendo as escadas.
Geisty era conduzida pelo Chanceler espanhol a quem passara a atender com certa frequência, sempre usando suas ilusões e dando ao homem a melhor noite de sexo de sua vida, quando deu de cara com Camus acompanhado por Mônica.
A amazona fez questão de desviar de seu caminho, torcendo o nariz em desagrado por ter tido o infortúnio de cruzar com Aquário ali, e praticamente empurrando o espanhol para cima do ruivo, que não se abalou nem um pouco e seguiu subindo as escadas.
Camus estava firme em seu intento e ver Geisty ali acompanhada daquele homem, cumprindo o acordo com a Vory, só lhe deu mais confiança e determinação para seguir com o planejado.
Tomaria as rédeas novamente de sua vida.
Ao chegarem ao salão, o chanceler espanhol puxou Geisty pela cintura colando seus corpos.
— **Você nunca me decepciona, minha gostosa! — deu uma risada sonora, fazendo seu hálito alcoólico ser sentido pela morena e em seguida impregnando-lhe a bochecha com um beijo babento — **É cara, mas vale cada peseta!
— Oh, sim... Claro! De certo! — Geisty respondia qualquer coisa sem fazer a mínima ideia do que o homem dizia, enquanto esboçava um sorriso amarelo.
Durante o tempo em que caminhavam pelo salão, ele meio trôpego por estar embriagado, ela segurando o decote do vestido tomara que caia bordado em lantejoulas, a amazona corria os olhos ligeiros pelo recinto à procura de algo em específico, o qual encontrou sem muito esforço sentado à uma mesa no centro do hall, rodeado por um grupo de cervejeiros belgas.
Geisty deixou escapar um sorriso largo e bem sincero dessa vez, e quando seus olhos cruzaram com os de Saga, deu-lhe uma ligeira piscadinha que de pronto fora retribuída com extrema discrição.
Saga soltou um suspiro de alívio e inquietação ao vê-la ali no salão, linda como sempre, e naquele vestido vermelho iluminado pelas luzes coloridas de tons quentes que predominavam na casa, ainda mais desejável! Ao olhar para o sorriso espontâneo da morena, desligou-se por alguns instantes daquele falatório chato, mergulhando em uma atmosfera apaixonada.
Contudo, Gêmeos não teve grandes chances de flertar à distância com sua amazona, visto que cada vez que desviava sua atenção dos cervejeiros logo era convocado de volta ao debate e inundado por um turbilhão de informações acerca de malte, lúpulo, fermentação, tipos de filtragem e tantas outras questões que pareciam ser extremamente interessantes para os homens, mas que para ele não tinham a menor relevância.
O grego não estava nada interessado em discutir sobre cerveja, nem gostava de bebê-las, queria mesmo era estar com a sua amazona, e para isso contava os minutos ansioso na expectativa de encontrar-se com ela, pois, não por acaso, aquele era o melhor momento de seu dia.
Por isso mesmo Saga realizava todas as suas tarefas diárias com o pensamento preso ao final de sua noite, aguardando o momento que entrasse no quarto que mantinha ali e trancasse a porta à chave. Ali ele era livre, de preocupações, de responsabilidades... Ali ele só tinha uma obrigação a cumprir: ser o mais feliz possível ao lado de sua amada naquelas curtas horas em que podiam estar juntos.
Era aguardando ansiosamente por aquele momento que Gêmeos observava resignado a amazona acompanhar o Chanceler até a mesa onde estava sua comitiva.
Sem conseguir ouvir o que era conversado por eles, via Geisty de pé ao lado da mesa com um sorriso discreto e olhar vago ainda apoiando o cliente bêbado, o qual fazia uma clara propaganda da jovem correndo uma das mãos pelas curvas de seu corpo, depois parando sobre as nádegas onde deu um apertão generoso.
Saga acompanhava tudo de longe com o coração acelerado e o ânimo amargurado.
Sabia que era necessário sobreviver a tudo aquilo para que pudessem ficar juntos, pelo menos por enquanto, mas a cada dia que se passava estava se tornando cada vez mais doloroso vê-la nos braços de outro homem.
Engolia seu desagrado, no entendo, já que não havia outra saída para eles.
Na mesa do Chanceler, Geisty o ajudava finalmente a sentar-se, enquanto os quatro homens que ali estavam acompanhados cada um de uma bacante, riam debochados das investidas que o velho dava na amazona, fosse afundando o rosto em seu decote, ou correndo as mãos em seu corpo.
Tentando manter a cabeça fria, coisa que era uma tarefa hercúlea para Geisty, ela deu um sorrisinho sem graça e segurando a cabeça do cliente com ambas as mãos, disse de modo firme, encerrando o atendimento.
— **Boa noite, Senhor Mallorca.
— **Mallorca não, minha preciosa... Para você é Frederico!
— Como quiser... Frederico! — Geisty respondeu de forma amigável, em grego mesmo, já se aprumando para deixar o local dando as costas a todos e finalmente desfazendo o sorriso falso que mantinha no rosto.
Estava também ansiosa para que aquela noite acabasse logo, pois além do cliente ser um chato pegajoso ela mesma se contorcia em saudades de Saga. Não aguentava mais esperar para desfrutar dos beijos deliciosos de seu cavaleiro e sentir seu corpo forte junto ao seu, colados, suados, em mais uma noite tórrida de amor, até o amanhecer os trazer de volta à realidade.
Rogava para que logo Saga conseguisse se ver livre da influência da Vory e toda aquela encenação não ser mais necessária. Era apenas por amor a ele que ela se sujeitava aquilo.
Foi pensando que todo aquele sacrifício era passageiro, que Geisty caminhou animada até o bar onde encostou-se ao balcão e fez um sinal a Aldebaran, que de pronto veio atendê-la com o costumeiro sorriso aberto no rosto.
— Boa noite Geisty! O que vai ser? — perguntou animado o taurino, enquanto secava uma coqueteleira com um pano colorido.
— Boa noite, Deba! Hoje vou de Chianti, uma garrafa, por favor. — solicitou sorridente, contagiada pela alegria extravagante do Santo de Touro.
— Minha Nossa Senhora Aparecida, heim!... Uma garrafa? Você está com sede hoje! — o brasileiro brincou, logo indo buscar o pedido — Toma, vai lá vai. Vai matar essa sede toda, mulher. — riu ao pousar a garrafa no balcão à frente dela — Italiano é tudo exagerado mesmo, tô pra ver igual.
— Obrigada Deba, vou matar sim! Boa noite!
A moça cruzava o salão enquanto olhava discretamente para a mesa onde Saga estava com os cervejeiros belgas.
Gêmeos a acompanhava com olhos atentos e quando a viu se dirigir para as escadarias, Geisty lhe sorriu e moveu os lábios desenhando uma palavra.
— Quatro.
Logo ela subiu as escadas e Saga voltou sua atenção aos homens sentados à mesa consigo. — "Quatro minutos! Tenho quatro minutos!" — pensou sorrindo, repetindo mentalmente a ordem da morena. Então colocou a mente para trabalhar rápido, já que precisava de uma desculpa convincente para encerrar a negociação com os belgas que queriam inserir seus produtos na Grécia burlando a alfândega, e para isso tinha apenas quatro minutos.
— Bem senhores, eu creio que não haverá problemas. — disse já afastando sua cadeira e abrindo o blazer para de dentro do bolso interno retirar um cartão de visita, o qual ofereceu ao homem com quem negociava — Esse telefone é do meu encarregado desse serviço. A entrada e saída de drogas legais e ilegais pelo nosso principal porto é por conta dele. Mas, para livrá-los das taxas ele irá lhes pedir algumas informações, além de garantias extras, se é que endentem bem. — deu um sorriso firme — Seu nome é Aldebaran e podem confiar nele, ele trabalha diretamente para mim.
Gêmeos então levantou-se, sendo seguido pelos homens que fizeram o mesmo.
— Foi um prazer negociar com vocês. Acho que iniciamos aqui uma promissora parceria! — estendeu a mão e cumprimentou um por um — Se me dão licença, tenho outros negócios a fechar ainda essa noite. Por favor, aproveitem a casa.
Discretamente, Gêmeos deixou a mesa, passou no bar, pediu uma dose de whisky, a qual matou em um só gole, deu algumas voltas pelo salão e quando julgou pertinente dirigiu-se à escadaria lateral do salão e subiu ao segundo andar do Templo, caminhando a passos largos até seu quarto.
Ao entrar e fechar a porta à chave já sentiu o doce perfume da amazona que pairava por todo o cômodo, então, em meio à penumbra viu Geisty de pé sobre o colchão, encostada na parede da cabeceira da cama.
Estava linda, em um corpete rendado púrpura e lingerie da mesma cor, segurando uma garrafa do vinho que ela mais gostava.
— Está três minutos atrasado, cavaleiro! — a voz sensual acariciou os ouvidos do geminiano, que sentia seu coração chegar a falhar uma batida, tamanha sua excitação e ansiedade.
A cada dia que passava aquela mulher mexia mais ainda consigo.
— Hum, acho que sei como posso me redimir dessa falha. — brincou, sem tirar os olhos dela enquanto caminhava até a cama sendo acompanhado pelas orbes violetas que cintilavam em luxúria.
— Claro que sabe! — Geisty sorriu, ajoelhando-se sobre o colchão de frente para Saga, praticamente colando seu corpo ao dele — Trouxe vinho para nós.
— Sim... Eu percebi. Mas, faltam as taças, não? — respondeu o cavaleiro tendo sua mente instigada por mil fantasias a se realizarem com ela.
— Não... Não falta nada! — disse a amazona com propriedade e então sorveu um gole da bebida pelo gargalo e aproximou seu rosto ao do grego — Hoje o seu cálice serão os meus lábios, cavaleiro.
Dito aquilo, Geisty tomou a boca de Saga num beijo exaltado, pleno de paixão e desejo, com sabor de vinho, e tal qual uma brasa ateada em um palheiro, logo estavam entregues uma vez mais às carícias ousadas e toques intrépidos que os arrebatavam, apressados em saciar a necessidade que sentiam um do outro.
Enquanto isso, no quarto de Afrodite de Peixes.
— Pela perna manca de Hefésto... Já era para ter acontecido alguma coisa! — murmurou o pisciano, enquanto agitado andava de um lado para o outro dentro do quarto trajando apenas uma calcinha rendada nude rosê que se confundia com o tom de sua pele — Só falta aquela vaca encruada ainda conseguir dar para ele!
Estava visivelmente aflito, roía a pontinha da unha do dedo mindinho e usava seu Cosmo para monitorar o de Camus, que estava no quarto ao lado que pertencia à Mônica. Ao mínimo sinal de oscilação no Cosmo gelado do francês, Afrodite saberia que seu plano havia se concluído.
Porém, algo ali teimava em tirar-lhe de sua apoquentada vigília. O deputado macedônio!
O homem estava algemado à cama, mãos e pés, estirado nu sobre o colchão e silenciado por uma mordaça branca de couro. Grunhia palavras ininteligíveis, explicitamente zangado.
Não era por menos, pagara por um programa casual, sexo corriqueiro, e estava sendo submetido a uma excêntrica sessão de sadomasoquismo sem a ter solicitado.
A zanga do deputado, no entendo, não era maior que a de Afrodite, que impaciente, tanto com a situação no quarto ao lado, quanto com o homem em sua cama, correu até ele e lhe deu um tapa no rosto, por cima da mordaça.
— Cala essa sua boca, seu suinão! Está me tirando a concentração com todo esse grunhido! — encarou o macedônio com vigor, apontando-lhe o dedo indicador contra o rosto contorcido em ira e indignação — Eu estou de saco cheio de você, sabia? Você vem toda semana aqui torrar minha paciência me obrigando a usar as casqueiras* uó* que você me manda. Eu não gosto de você, tá meu bem! E se não quiser acordar amanhã com a boca cheia de formiga, vai ficar quietinho aí! — deu três tapinhas no rosto suado do deputado — Se o leitão colaborar, quem sabe ganha um boquete. E hoje é só o que tem!
Deu as costas ao homem e sem a menor cerimônia caminhou até o pequeno bar que havia em seu quarto, onde abriu uma latinha de soda e rapidamente refrescou a garganta dando um gole generoso.
Não se continha em ansiedade!
No quarto ao lado, Mônica retirava o vestido exibindo um belo conjunto de lingerie rendada que conferia uma sensualidade ímpar a seu corpo curvilíneo, enquanto aguardava Camus terminar o cigarro que acendera assim que entrou no cômodo.
O francês estava sentado em uma poltrona em frente à cama, tinha o olhar perdido em algum ponto sem importância, pernas cruzadas e vez ou outra assoprava a fumaça de seus pulmões com certo pesar.
Nunca era fácil para Camus estar ali, no quarto daquela mulher. Assim como não era fácil estar naquele bordel após romper com Peixes.
A cada vez que via Afrodite seu coração doía, de mágoa, tristeza, saudade... Pelo menos naquela noite sentia certo alívio em pensar que encerraria aquela farsa com Mônica. Ter que fazer sexo com a bacante lhe era tão torturante quanto as noites que passava longe do pisciano.
Por isso mesmo foi que apagou o cigarro no cinzeiro em formato de coração, descruzou as pernas e inclinando o tronco para frente apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando para a bacante que vinha em sua direção.
Já ciente de que o cavaleiro não apreciava nenhum tipo de contato que não apenas o necessário para o ato sexual, a bacante ajoelhou-se à frente dele e pousou ambas as mãos em seus joelhos delicadamente.
— O senhor prefere ficar sentado hoje enquanto eu lhe chupo? — perguntou, buscando os olhos avelãs sempre severos e misteriosos, ao mesmo tempo em que deslizava as mãos pelas laterais das coxas fortes de Camus.
— Non. — Aquário respondeu de forma insípida, e na mesma hora segurou nos pulsos da garota retirando as mãos que o tocavam — Na verdade, hoje estou aqui por outro motivo.
Ao soltar os punhos de Mônica, Camus se levantou da poltrona e estendeu a mão a ela para lhe puxar para cima, então enfiou a mão dentro do casaco que usava e de lá tirou sua carteira, de onde apanhou um talão de cheques e uma caneta.
— Estou pondo fim aos nossos encontros. — disse abrindo o talão.
— Como é? Mas... Por quê? — a bacante perguntou surpresa, jamais esperava por aquilo.
— Eu non lhe devo satisfação. Assim como foi discreta e disciplinada durante esse tempo todo que solicitei seus serviços, espero que continue o sendo também agora, que os estou dispensando. — disse sem imprimir emoção alguma à voz — Deixarei uma quantia generosa para que non seja prejudicada. Mas, creio que non será, já que é uma bela mulher e extremamente profissional.
— Foi Afrodite, não foi?
Camus preenchia o cheque quando de súbito parou, desviando os olhos do talão para encarar o rosto da bacante, sentindo seu coração acelerar ao ouvir o nome do pisciano ser dito por ela.
— P-Pardon?
— Foi algo que ele disse sobre mim? Algo... — o encarava inconformada, já que perder aquele cliente era perder sua galinha dos ovos de ouro.
— Mon Dieu, que tamanho absurdo!... Já disse que non lhe devo satisfação.
— Eu não fui convincente? É isso? Mas eu... Eu posso melhorar! — falou, esfregando as mãos contra o peito — Não precisa me foder, eu sei... Eu sei que o senhor não... Não... curte... — correu uma das mãos pelo pescoço, arranhando a própria garganta com as unhas enquanto abria a boca para puxar o ar para dentro dos pulmões com certa dificuldade.
Mônica tentava argumentar com o aquariano, mas subitamente um mal estar repentino lhe atrapalhava o raciocínio.
—... Eu posso... posso apenas chupar...
Camus estranhou aquelas palavras e o modo angustiado como eram ditas, mas a súbita mudança no comportamento da prostituta desviou sua atenção do que ela dizia.
Mônica agora levava as mãos ao rosto o esfregando freneticamente. Arfava, gemia e hiperventilava, como se estivesse muito cansada.
— Você... Está bem? — Camus perguntou arqueando uma das sobrancelhas.
— Eu... Não eu... Eu... Está queimando... Queimando!... Meu... Deus...
Levando as mãos ao peito, tentando mais uma vez puxar o ar para dentro dos pulmões, mas parecia sufocada, e quando ergueu o rosto e olhou para Camus o francês notou suas pupilas estranhamente dilatadas, mas antes que pudesse intervir de alguma forma, a moça sofreu uma fortíssima contração e caiu de joelhos ao solo, acometida por uma crise violenta de tosse.
Mônica agora contorcia-se no chão tossindo de forma desvairada e convulsa, sentindo como se todo o interior de seu corpo fosse uma grande chama que a queimava de dentro para fora, peito, abdome, olhos, boca, nariz... Somando a isso, seus músculos se contraíram violentamente a fazendo perder o controle dos próprios movimentos, sofrendo espasmos horrendos sobre o tapete felpudo de seu quarto.
Completamente atônito, Camus assistia ao torpor repentino da moça ainda tentando entender o que acontecia para poder ajuda-la, mas dada sua experiência já desconfiava que Mônica tinha sido vítima de envenenamento. Porém, quem teria interesse em matar a bacante, uma simples prostituta? E por quê? Seria mais um aviso que Dimitri lhe mandava, ou...
— Merde! — balbuciou, ajoelhando-se ao lado dela para segura-la pelos ombros e virá-la de lado, pois uma espuma branca sanguinolenta agora jorrava volumosa de seus lábios.
Mesmo apoiada pelo aquariano, Mônica afogava-se em seu próprio sangue, o qual era expelido pela boca e narinas, e em completo desespero a garota se contorcia e se estapeava como se estivesse sendo mordida por centenas de insetos.
Em meio ao torpor aflitivo que lhe tomava, ela buscava os olhos de Camus e tentava lhe pedir ajuda, mas nada saia de sua boca além de arquejos e jatos de sangue, dos quais Camus tratou logo de desviar-se para não lhe sujar a roupa, e quando viu os lábios enegrecidos da bacante o aquariano finalmente se deu conta do que de fato acontecia ali.
— Afrodite! — balbuciou incrédulo.
Os olhos de Mônica agora tudo procuravam e nada mais enxergavam.
Tudo se tornara um borrão, cegos pela toxina poderosa que agora tomava conta de todo seu organismo e fazia sangue escapar pelos poros, mucosas e tecidos.
Camus, que nunca fora um homem dado à compaixões, naquela hora, e diante da agonia sem precedentes da prostituta, usou seu Cosmo para aliviar seu sofrimento tocando a testa da garota com a ponta do dedo indicador.
O frio intenso do cavaleiro de Aquário logo penetrou no corpo da bacante lhe trazendo certo alívio, mesmo que em seus últimos segundos de vida.
O fogo que a consumia por dentro agora tinha sido aplacado e Mônica finalmente sentiu-se nadar em um oceano gelado.
— O-Obrigada... Senhor Camus... — sussurrou em meio a engasgos provocados pelo sangue enegrecido que tomava sua garganta.
Atordoado e até sentindo-se um pouco zonzo, Aquário se levantou lentamente e ficou alguns segundos olhando para corpo todo torcido que jazia inerte no chão. Mônica tinha os olhos arregalados, embaçados e banhados em sangue. A pele cianótica vertia o líquido vital pelos poros e o semblante do cadáver era de dar frio na espinha até dos mafiosos mais violentos do planeta, como ele.
O veneno que a matou fora tão forte que todo o corpo da bacante estava rijo, e debaixo dela se formava uma pequena poça de sangue.
Aquário afastou-se sublimando seu Cosmo para não deixar nenhum vestígio. Apanhou a carteira no chão, guardou no bolso do casaco e ainda trêmulo e atormentado passou as mãos pelo cabelo soltando uma bufada de ar.
— O que foi que você fez, Afrodite? O que foi que você fez?
No quarto ao lado, assim que Peixes sentiu o Cosmo de Aquário se manifestar, rapidamente colocou a latinha de soda sobre o balcão do bar e então correu até sua penteadeira, onde se olhando no espelho enfiou os dedos dentro das densas madeixas azuis de seus cabelos bagunçando os fios com certa pressa.
— Tchau, Mônica! — disse rindo para seu próprio reflexo, depois apanhou um batom coral e o deslizou pelos lábios de forma displicente — Me deve um favor, Camus... Essa vadia nunca te daria uma calcinha decente para vestir, princesse du papa!
Guardou o batom e esfregando as costas das mãos nos lábios borrou a pintura. Em seguida correu para a cama e praticamente saltou sobre o corpo do deputado macedônio que ali estava, debruçando-se sobre ele até quase colar seus rostos, para depois segurar em seu queixo e o fazer olhar em seus olhos.
— Presta atenção, suinão. É bem provável que Saga logo entre aqui feito um Java porco raivoso. Você não vai dizer nada, entendeu? Nada!... Ou quem vai ser a mulherzinha cafona dessa vez vai ser você... Nada de truque comigo, ou eu mato você, sua mulher, seu cachorro e até as samambaias do teu banheiro!
O homem grunhiu assustado, fazendo um sinal afirmativo com a cabeça, e diante do acordo Afrodite puxou o lençol e cobriu a ambos, dos pés à cabeça.
Sabia que logo a morte de Mônica chegaria aos ouvidos de Saga e que ele seria o primeiro a estar na lista de suspeitos. No entanto, já tinha uma carta na manga que o livraria da culpa mascarando o assassinato como crime doloso.
Era exatamente nisso que pensava, na história que diria a Saga quando ouviu a maçaneta da porta de seu quarto girar.
Na mesma hora começou a gemer em volume alto, fingindo estar fazendo sexo com o deputado sob o lençol.
— Oh, yes! Aaahhh deputado... Aaahhh assim... Mais forte... Eu gosto bem forte... Isso...
— Excusez-moi, Afrodite de Peixes!
A voz dura e grave de Camus chegou aos ouvidos de Afrodite fazendo todo seu sangue enregelar em segundos.
Imediatamente ele calou os gemidos e cessou os movimentos obscenos que fazia sob o lençol fingindo estar em pleno ato sexual.
Ficou estático, sem nem respirar — "Camy? Pelo olho furado de Polifemo, que inferno ele faz aqui?" — pensou assustadíssimo e como que para confirmar o que seus ouvidos lhe diziam, puxou o lençol com um movimento brusco, descobrindo apenas sua cabeça.
Foi quando seus olhos espantados viram a última pessoa que esperava ver ali, Camus de Aquário, de pé no meio do quarto, olhando para si com um semblante severo e inquisidor.
Dicionário Afroditesco
Alofi – cheiro ruim, fedor.
Banheiron – banheiro festivo, com diversas finalidades, entre elas o uso de drogas, conversas e sexo.
Casqueiras – tranqueiras, roupas velhas ou de extremo mau gosto.
Gaydar – radar natural para detecção de homossexuais.
Uó - alguma coisa muito ruim. Abreviação da expressão: "iss do borogodó", que significa "é o cúmulo", "é péssimo".
*Traduzido do russo
**Traduzido do espanhol
*Vor – como são chamados os líderes máximos da máfia russa conhecida como Vory v Zakone. Vor é o Senhor absoluto da porra toda, o "pai", o chefe!
