Templo das Bacantes, 00h23min.

A música alta e frenética que vinha do andar de baixo invadia os quartos dando o tom erótico e pândego característico do lugar, fazendo vibrar ainda mais ânimos exaltados, corpos excitados e desejos em chamas!

No ar um predominante cheiro de cigarro, perfume barato e sexo impregnava paredes e corpos ávidos por luxúria.

No luxuoso corredor à meia luz onde ficavam os quartos das bacantes, Misty de Lagarto acompanhava um homem jovem de cabelos encaracolados com quem acabara de fazer um programa quando ao passar pelo quarto de Mônica notou a porta entreaberta.

Estranhou o fato, pois segundo as normas da casa as portas deveriam sempre estar fechadas, dentro ou fora do expediente, uma vez que os quartos eram também a moradia das garotas, e muitos clientes eram figuras conhecidas da mídia ou do meio político, sendo assim, o sigilo era fundamental.

Misty se acercou do local pensando inicialmente em apenas puxar a porta pela maçaneta e a encostar, mas assim que notou a luz apagada e o breu que engolia a alcova, supôs que algo não estava certo.

Lagarto então fez um sinal para o cliente que acompanhava pedindo para que ele seguisse em frente, e assim o rapaz o fez, rumando sozinho para a escadaria que dava acesso ao andar de baixo do Templo de Baco.

Assim que se viu sozinho ali, Misty encostou um dos ombros na porta e lentamente a empurrou, embrenhando-se no quarto escuro com extrema cautela, visto que começava a sentir um odor singular que pairava no ar. Era uma fetidez ferrosa, corrosiva, que adentrava suas narinas o fazendo franzir o nariz e arquear os lábios para baixo, enquanto tateava a parede ao lado do batente à procura do interruptor para acender a lâmpada.

Quando finalmente encontrou o que procurava, levantou a pequena alavanca e assim que a luz iluminou o aposento sentiu-se ser lançado para dentro de um filme de horror.

Ensaiou um grito de pavor, mas seu raciocínio perspicaz e malicioso agiram mais rápido que sua emoção o fazendo levar ambas as mãos à boca para abafar o bramido.

O peito do cavaleiro de Prata subia e descia num ritmo frenético, enquanto os olhos azuis de pálpebras trêmulas corriam o cadáver contorcido no chão sobre uma poça enorme de sangue fétido enegrecido.

— Mas... Que merda... Aconteceu aqui?... — balbuciou ao retirar as mãos do rosto e pousa-las agora sobre o peito —... Por todas as almas torturadas do Submundo!

O olhos injetados analisavam o cenário funesto que circundava o corpo à procura de alguma evidência que elucidasse aquela visão tão ilógica, mas nem era preciso, visto que dado o estado em que se encontrava a pobre da garota concluiu que apenas uma pessoa ali seria capaz de algo do tipo.

— Hum... Afrodite! Você matou a puta dele, sua bicha má! Hihihihihi — soltou um risinho sínico abafado pelas mãos que novamente cobriam a boca — Não queria estar na sua pele quando Saga souber disso, Escamosa, Hã-hã!... Saga!... Pelos deuses!

De súbito, porém, Lagarto engoliu o riso e assumindo um semblante sério tratou de sair daquele quarto o mais rápido possível. Com as mãos ainda trêmulas fechou a porta atrás de si e decidido a ir chamar Gêmeos em seu quarto apertou o passo corredor adentro, mas parou assim que se viu em frente à porta do quarto de Afrodite de Peixes.

Misty então se certificou de que não havia ninguém ali no corredor além de si mesmo e, pé ante pé, aproximou-se da porta até tocar a madeira com uma das mãos e fechar os olhos, concentrando-se.

Não era nada fácil detectar o Cosmo de alguém que não queria ser encontrado.

Poucos segundos depois os abriu novamente numa expressão de susto!

— Eu sabia que estava ai, Camus! — sussurrou para si mesmo, angustiado — Seu viado descuidado. Você me dá muito trabalho, viu, princesinha!... Merda! Não posso chamar o Saga com você ai dentro do quarto da Peixosa! — resmungava com o rosto contorcido em uma ira súbita incompreensível.

Alheios ao espião atrás da porta, dentro do quarto Camus e Afrodite travavam uma batalha silenciosa de olhares.

Era a segunda vez que Aquário entrava naquele quarto pela porta da frente, e mesmo com o ânimo fortalecido, tanto pela ameaça de Dimitri, quanto pela morte da prostituta, ver o homem que o fez sentir pela primeira vez, na cama com outro homem, embolado em lençóis e com o batom todo borrado lhe doeu uma vez mais no coração e na alma.

— Você... — Afrodite quebrou o silêncio tenso que pairava sobre eles com um sussurro —... Pela deusa, o que você faz aqui?

— Eu... — respondeu o aquariano de forma inexata, mas logo recobrou o juízo que teimava em lhe abandonar a cada vez que estava de frente com aquele homem — Temos que conversar. Agora!

— Estou em horário de trabalho, não está vendo? — justificou de forma vã.

— Serei breve. Non se preocupe. — dando as costas ao pisciano, Camus caminhou em direção ao closet — Diga a seu cliente que o recompensará depois por esse... contratempo. Você é ótimo nisso, non é?

Abriu a porta do closet e entrou sem nada mais dizer, aguardando o pisciano no centro de braços cruzados.

Aflito, Peixes tratou logo de acatar a ordem do francês e desceu da cama devagar.

Ter Camus ali em seu quarto em pleno horário de expediente e com a casa cheia lhe deixava tenso e agoniado, mas sabia que Mônica era a razão da visita inesperada do ruivo. Sendo assim, sem alimentar nenhuma ilusão, cobriu o deputado macedônio por inteiro com o lençol, sem se importar com os grunhidos e remelexos em protesto e rapidamente foi até o closet.

Ao entrar, Afrodite fechou a porta atrás de si e encostou-se a ela, mantendo ambas as mãos atrás das costas, enquanto encarava os olhos avelãs de Camus com um ar sedutor.

Dit moi, mon cher roux! Qu'est ce que tu faire ici! (Diga, meu querido ruivo. O que faz aqui?) — sorriu de forma voluptuosa, carregando no sotaque francês que tanto havia treinado para agradar ao aquariano quando ainda estavam juntos.

De súbito, Camus sentiu-se ser arrancado de modo brusco da zona de conforto que estabelecera para si mesmo, ali, para poder ter aquela conversa, ao ver o pisciano vestido apenas com aquela infame calcinha de rendas. O tecido era quase do tom de sua pele e o volume na frente fazia a renda esticar e se aderir perfeitamente ao contorno do membro de Afrodite, lhe causando certo frisson.

Somado a isso, as palavras ditas em francês de forma tão lânguida acionaram um gatilho perigoso dentro da mente de Camus, e como se essa libidinagem de repente fosse a única força que ditasse as vontades do corpo, Camus sem pensar duas vezes avançou contra Afrodite, o agarrou pelos ombros e usando seu próprio corpo o prendeu contra a madeira da porta.

Por alguns segundos, Aquário se esquecera do motivo que o levou a estar ali, pois tudo que queria naquele momento era sentir o calor daquele corpo contra o seu uma vez mais.

Peixes, que não esperava por aquela reação, sentiu como se seu coração fosse saltar pela boca, tamanho o susto e receio de ser novamente agredido pelo outro, mas quando percebeu as mãos fortes que lhe apertavam, o corpo viril que imprimia pressão sobre o seu e o calor abrasador da pele alva que jogava na lama a fama de homem frio que Camus ostentava, soube que toda sua inquietação naquele momento na verdade era tesão.

Sim, seu coração batia frenético, suas pernas tremiam, sua respiração estava ofegante, mas não de medo e sim de excitação e saudade!

Os fios dos cabelos ruivos agora entravam na boca arfante do pisciano, uma vez que Camus, como se tivesse tomado pelo gênio da luxúria esfregava seu rosto ao de Afrodite, aspirando o perfume único de seus cabelos de forma voraz, matando uma saudade que lhe consumia por dentro há meses.

As respirações ruidosas confundiam-se num dialogo singular, enquanto as mãos corriam ávidas pelos corpos que, aflitos, se friccionavam de modo desesperado.

Camus desceu uma das mãos até o quadril de Peixes contornando o elástico da calcinha de rendas que ele usava com as pontas dos dedos, até agarrar com força o tecido delicado e dar um puxão para cima, fazendo a peça se enterrar entra as nádegas do pisciano.

Afrodite soltou um gemido acompanhado de um riso safado e na mesma hora Camus lhe deu uma mordida no queixo, o interrogando enquanto esfregava o nariz em seu pescoço.

— Estava tentando me matar, Peixes?

— Hum? — o sueco apenas murmurou.

— O veneno... Nos lábios da prostituta...

— Que veneno?... Hum... Não sei do que você está falando, Camy. — Afrodite buscava os lábios do aquariano numa ânsia incontida por matar a saudade do beijo mais quente e delicioso que já provara na vida.

— Ah, non sabe? — disse o francês, prestes a tocar com os seus os lábios frementes do outro, mas antes que sucumbisse mais uma vez aos encantos do cavaleiro de Peixes, Camus soltou a peça intima que mantinha entre os dedos e correndo a mão rapidamente por suas costas agarrou em seus cabelos e deu um puxão forte para trás, fazendo o outro abrir os olhos de subido e o encarar assustado — Pois eu acho que você sabe sim!

— Aiii! O que está fazendo? — Peixes ralhou ao sentir o puxão.

— Achou que ia me matar envenenando a boca da vadia, seu idiota? Pois saiba que eu non beijo prostitutas. Você foi o primeiro e o último, seu cretino!

— Oh! Está me acusando de tentar mata-lo, monsieur picolé de vinagre? Por que eu faria uma coisa dessas a uma pessoa tão gentil, tão... Boa para mim? Que provas você tem contra mim? — provocou o pisciano, então flexionou uma das pernas e enlaçou a cintura do aquariano para colar seu corpo ao dele ainda mais.

— Mônica. — Camus respondeu ao pé do ouvido do pisciano, deixando que a ponta de seu nariz brincasse com a pele arrepiada do outro, enquanto projetava o quadril para frente friccionando sua ereção proeminente contra a dele — Sei que foi você. Conheço seu modo sórdido de matar, Afrodite.

— Será? Olha, Camus, não se esqueça de que tem muita mulher rancorosa por aqui. Qualquer uma pode querer puxar o tapete da outra, sabe como são essas vadias.

Non. Eu sei como VOCÊ é. — empurrou a perna do sueco para baixo e num gesto absurdamente rápido agarrou em ambos os punhos do cavaleiro e girou seu corpo, o colocando de costas para si e de frente para a porta, enquanto mantinha seus braços presos e o imobilizava pressionando seu corpo contra o dele — Você é traiçoeiro, pérfido!

— A-Aiii... Isso Camus, me aperta!... Seu mafioso malvado! — provocada o pisciano jogando a cabeça para trás e roçando seus lábios no pescoço do francês — Humm... Você gosta disso, né princesa? Você gosta de me pegar assim, né? Eu sei que gosta... E sei também que gosta que papa te pegue do mesmo jeito, Camus. — empurrando o quadril para trás, friccionava suas nádegas contra o membro rijo do aquariano o provocando.

— Cala a boca, idiota... — sussurrou o francês ao mordiscar um dos ombros nus de Afrodite, dividido entre a raiva e o desejo urgente que sentia aquele cavaleiro —... Você me fez um grande favor, seu safado, mas se pensou que conseguiria me matar, estava muito enganado, Peixes.

— O que? Acha mesmo que eu tentei te matar, Camus? — o pisciano arregalou os olhos e ficou inerte de súbito.

— Eu sou imune a toxinas e venenos! Esqueceu-se das aulas sobre nossos poderes? Meu cosmo congelaria seu veneno assim que ele entrasse em contato com meu sangue. Mesmo assim, eu acabo com você se tentar novamente.

— Tomou água de chuca*, ô Camus? Eu não quero te matar, tá boa Santa? Pelo amor de Dadá, de onde você tirou isso? — dizia aflito — E quer saber? Me solta. Anda, me solta agora, Aquário! — ordenou em voz alta enquanto se debatia.

— Ah, non queria me matar? Com aquela quantidade absurda de veneno que você usou contra a vadia? Uma civil simplesmente? — dizia entre dentes, enquanto continha o outro que lutava para se livrar — A quem você acha que engana, seu cretino?

— Ela sabia. — disse em baixo tom, parando de se remexer.

— O que? Sabia o que?

— A vadia sabia de você... Você deu pinta*, deu bandeira*, seu viado amador!

Camus ficou em silêncio, chocado com o que ouvira.

Soltou lentamente os punhos de Afrodite e deu um passo para trás, enquanto olhava estarrecido para o outro que agora se virava de frente para si.

— Como... Como assim, ela sabia?

— Senta lá, né Claudia!* — Peixes olhou para ele com desdém, meio irritado com a postura sempre agressiva do outro — Como ela sabia? Ela era uma puta profissional, Camus, por Dadá! Você acha que quando você fazia* ela a demônia não percebia?

— Eu non... Non entendi. — a confusão era visível nos olhos do ruivo, pois o sueco tinha um modo tão peculiar de falar que Camus tinha certa dificuldade em entender.

— Quando você trepava com ela, Camus... Mulher nota essas coisas... Você é sempre tão esperto e me dá logo esse vacilo de pegar sempre a mesma puta? Ah, tá boa?... Você é o que é e não adiante tentar não ser o que é sendo o que não é.

Peixes franziu as sobrancelhas e piscou algumas vezes de modo ligeiro, raciocinando sobre o que havia acabado de dizer, enquanto olhava para Aquário que o fitava com um semblante confuso.

Pardon?

— Alice, acorda! — continuou, esticando o braço e estalando os dedos na frente do rosto de Aquário — Camus, você é gay! Tem que aceitar isso. Você acha que não, mas agora que se descobriu, você age como gay... Nossa, e como age bem! — suspirou, mas logo recobrou o foco — A verdade é que sim, eu matei a Mônica, mas foi para... Para proteger você... Você deu pinta demais e ela descobriu seu segredinho, e quando ela me disse eu nem pensei duas vezes... Não deveria, porque agora eu me ferrei todo e você me agradece querendo me dar outro coió.*

— Dieu! Eu non... Non posso acreditar que... Como? Como ela pode?... Eu non fiz nada de diferente... Será que... — dizia aflito, mas logo se lembrara das noites de porre em que ficava horas e mais horas bebendo e olhando Afrodite de longe com Mônica ao seu lado — Como eu pude ser tão descuidado? — o aquariano esfregava o rosto de maneira nervosa não acreditando no que ouvia.

Mônica havia descoberto seu segredo e Afrodite, justo ele, agira em sua defesa.

Estava confuso, com um turbilhão de sentimentos e pensamentos se digladiando em sua cabeça, não bastava a ameaça de Dimitri, agora descobria que estivera correndo um risco ainda maior e não sabia.

Percebendo a aflição do francês, Afrodite aproximou-se dele e tomando certo cuidado tocou em seu rosto, fazendo uma carícia afetuosa.

— Você não tem culpa de nada, Camus. — olhou para o ruivo com um olhar doce, porém melancólico — Nem foi descuidado... Isso não é algo que conseguimos reprimir o tempo todo, a vida toda... Eu... Queria tanto que você e eu... Que nós...

— Por favor, non. — Camus pediu ao segurar a mão que Afrodite mantinha em seu rosto e afasta-la de si, mas a mantendo entre seus dedos. Estava assustado com aquela revelação, e também consigo mesmo. Será que não seria mesmo mais capaz de esconder sua sexualidade pelo resto da vida como tinha em mente quando terminou seu caso com o pisciano? — Saga vai saber que foi você. Non foi inteligente ao usar seu próprio veneno.

— Eu sei, mas não me restava alternativa. Quando ela falou de você eu... Eu fiz o que tinha que ser feito. Eu me entendo com Saga, não se preocupe. Ele só vai me fazer trepar com mais meio mundo para pagar o prejuízo de não termos Mônica, afinal, você pagava muito bem por ela.

Camus olhou para ele com certo pesar, então soltou a mão do sueco com muito custo, já que no fundo desejava mesmo era agarra-lo por inteiro para nunca mais solta-lo, e desabotoou o casaco enfiando a mão no bolso interno que ficava dentro do forro.

De lá retirou um maço grosso de notas de dinheiro vivo e o ofereceu a Afrodite.

— Pegue. — disse em baixo tom de voz.

— Para que isso? — olhou para o dinheiro na mão do outro.

— Dê ao Saga quando ele vier tirar satisfações com você. Diga que foi o... O homem que está na sua cama quem lhe deu de gorjeta. Creio que com esse dinheiro Saga possa pagar ao Milo para que ele traga outra garota para substituir a Mônica e você... Você non terá que aumentar o número de programas por noite para pagar esse prejuízo.

Afrodite apanhou o dinheiro meio receoso, mas de certo modo aliviado por Camus, mesmo a seu modo, o estar ajudando — "O safado resolve tudo com acué*! — pensou e então viu Camus dar um passo ao lado e pegar na maçaneta na porta para abri-la e deixar o closet.

Peixes o impediu segurando em sua mão.

— Não vá... Por favor. — suplicou num sussurro.

Camus sentiu todo seu corpo estremecer e seu ânimo vacilar diante daquele pedido.

Olhou para o lado e seus olhos encontraram os do pisciano. Ambos pediam perdão de forma muda, implorando por toques, carícias, beijos e palavras há tempos presas na garganta.

— Eu... Non posso ficar... — lamentou quase num pranto o aquariano.

— Que não pode ficar aqui, eu sei, mas... Não estou te pedindo para ficar aqui, Camus, mas... Para ficar comigo...

Do lado de fora do quarto do Santo de Peixes, Misty de Lagarto andava de um lado para o outro em frente à porta. Esfregava as mãos num gesto nervoso, visivelmente angustiado com a demora do francês em sair dali.

— Anda com isso, Camus. Não vai me fraquejar agora. — balbuciou para si mesmo até que parou e encarou um ponto qualquer na parede — Pela deusa! Será que ele matou a Escamosa?... Não... Merda...

De repente uma das portas se abriram e de dentro de um dos quartos saíram um homem e uma das bacantes, Karina, a bela jovem loira que viera da Turquia.

Era a deixa que Misty esperava para agir sem levantar suspeitas para si.

Esperou até Karina e seu cliente passarem por si e então segurou no punho da moça.

— O senhor pode seguir para o salão sozinho, por favor? Eu preciso muito falar com ela. — disse o Lagarto para o homem que vinha junto com a garota, e assim que ele se afastou, Misty puxou a loira para mais perto de si.

— Ei, o que foi, Misty? — ela perguntou desconfiada, dado o semblante aflito do outro — O que está fazendo sozinho aqui no corredor? Sabe que não podemos ficar aqui em dia de expediente.

— Eu sei, querida, mas... Hoje o expediente é extraordinário! Eu... Eu nem sei como te dizer uma coisa dessas. — dizia o francesinho em uma de suas melhores atuações, enquanto se abanava com as palmas das mãos e fingia um pranto aflito, tremendo os lábios e gaguejando — Eu... eu Deus, eu...

— Pelo amor de Deus, bicha, fala logo. Está me deixando aflita! — Karina pediu alterada.

— É que não sei como dizer isso... Saga precisa saber... Saga tem que ajudar ela... Mas acho que não dá mais tempo...

— Ajudar quem? — insistiu a moça, agora segurando Misty pelos ombros, caindo naquela atuação digna de Oscar — Se acalme, Misty, você está muito nervoso. O que aconteceu?

— Mônica...

— Mônica? O que tem a Mônica?

— Mônica... Ela... Ela... Eu acho que ela está... m-morta...

— O QUE? — Karina quase gritou, arregalando os olhos assustada.

— Eu acho... Eu... Fui ao quarto dela e... Ela está esquisita, ela estava caída no chão... Eu ia chamar o Saga, mas eu... Eu tenho medo dele...

— Pelo amor de Deus, uma garota precisando de ajuda e você ai com frescura!

Nem bem tinha terminado a bronca que dava em Lagarto, Karina correu para o quarto de Mônica sendo observada pelo cavaleiro de Prata que tinha poucos segundos apenas para agir.

— Hihihihihi, isso, vadia, vá ver o presunto. E chame o Saga para mim, por obséquio. — murmurou para si mesmo, então agarrou a maçaneta da porta do quarto de Afrodite e a abriu sem mais delongas, adentrando o cômodo todo atarantado.

Ao correr os olhos por todo o recinto e não encontrar nem Peixes nem Aquário por ali, mas apenas um volume sobre a cama que se remexia debaixo dos lençóis, Misty não teve dúvidas e chamou por Camus num bramido cuidadoso, sem elevar demasiadamente o tom de voz.

— Camus! Está ai?... Ei, Camus!

Dentro do closet, Peixes ainda segurava na mão de Aquário aguardando ansiosamente pela resposta do francês a seu pedido.

— Por favor... Diga que fica... Fica comigo, Camus...

Afrodite implorava ao se aproximar do aquariano e lhe tocar o rosto novamente fazendo uma caricia, enquanto seus olhos aquamarines marejados reforçavam a suplica.

Completamente cativo por aquele olhar impetrante, inerte Camus ansiava com toda sua alma por dizer sim e acabar de uma vez por todas com aquele sofrimento que o consumia há meses, mas quando achou que finalmente teria a coragem necessária, sua voz fora silenciada por outra que se sobressaiu exatamente no momento em que ensaiava a resposta.

— Camus, onde você está? Saga está vindo para cá! Onde você está?

A voz vinha de fora do closet e fora reconhecida de imediato por Afrodite, quebrando totalmente o clima entre ele e o francês.

Fora como tomar um banho de água fria.

— Mas é... — o pisciano piscou confuso, ainda encarando os olhos avelãs que o fitavam angustiados —... É a Lagartixa Cascuda! — seu rosto se contorceu em ira no mesmo instante — Aqui? O que ela faz aqui, aquela... aquela...

Arrête de flipper, Aphrodite! (Não pira, Afrodite!) — Camus pediu em tom apreensivo, então segurou o pisciano pelos ombros o impedindo de abrir a porta do closet — Escute. Saga non pode me ver aqui... Afrodite... Precisa entender que... Non... Non posso ficar... — Camus dizia aflito, mas agora com a razão lhe guiando e não mais as emoções — Eu vou sair e non nos falaremos novamente. É o melhor a se fazer... Para nós dois... Nunca daria certo.

O ruivo então abriu a porta de uma vez e saiu sem olhar para traz, pois se encarasse o olhar do pisciano uma vez mais desistiria até da própria vida por ele.

Nada disposto a permitir que Misty lhe roubasse o amor de sua vida, Afrodite logo saiu atrás do aquariano, mas quando pensou em enxotar o cavaleiro de Prata de seu quarto a pontapés, um grito agudo, esganiçado e pleno de terror irrompeu pelo corredor chamando a atenção de todos ali.

— É Karina! — Misty sussurrou enquanto corria até Aquário e pegava em sua mão — Tem que sair daqui, Camus. Ela acabou de ver Mônica e está indo chamar o Grande Mestre. Anda. Vamos sair daqui.

Aquário não relutou.

Dando alguns passos para trás, despediu-se de Afrodite com um último olhar antes de lhe dar as costas e acompanhar Misty para fora do quarto.

Em silêncio e desesperado, o Santo de Peixes os viu sair juntos sentindo-se desabar por dentro.

Frustrado e furioso, Peixes correu até a porta e a fechou com um chute violento. Encostou-se à madeira e deslizou até o chão.

Estava prestes a se entregar ao choro quando lembrou-se que não teria tempo para sofrer por Camus naquela noite, já que logo Saga estaria ali para cortar sua cabeça.

— Ai, merda! O suíno na cama! — resmungou num sobressalto, então levantou-se as pressas e correu até o homem preso no leito.

Enquanto isso, no quarto de Saga de Gêmeos os lábios ávidos e marcados pelo suave sabor do vinho tinto se provavam numa dança luxuriosa, enquanto mãos afoitas delineavam ambos os corpos quentes sobre a cama.

A urgência da amazona por aquele cavaleiro a fizera segurar firme na gola de sua camisa e com um só puxão abrir todos os botões de uma única vez, fazendo alguns saltarem da peça e rolarem pelos lençóis. Fato que nem sequer fora notado por ambos.

Foi sem notar também que Geisty perdera grande parte de suas peças de lingerie, as quais Saga, afoito pelo corpo quente e sensual de sua amazona, retirara em questão de segundos, enquanto a beijava e tateava com um anseio ímpar.

Quando ambos estavam apenas com a parte inferior das peças íntimas e finalmente podiam provar o sublime contato pele com pele, Saga deitou-se sobre a amazona e lentamente a cobria de beijos cálidos, sem pressa, degustando aquela compleição delicada que tanto o encantava.

Os gemidos de Geisty lhe soavam como deliciosas notas musicais que instigavam seus sentidos e norteavam suas ações, e assim, delirante com o corpo que se contorcia em êxtase ante suas carícias, ele trilhava um caminho de beijos até chegar entre as penas de sua amada.

Calmamente desceu a lingerie que ela usava até retirá-la e deixar Geisty nua por completo, então começou a matar a sede por aquele corpo que tanto desejava provando a intimidade da amada com sua boca quente e habilidosa.

— Humm... Saga... — Geisty gemia baixinho.

Os pés apoiados sobre as costas do cavaleiro contorciam-se refletindo o prazer que sentia, enquanto com os dedos das mãos apertava os travesseiros que tinha sob a cabeça.

— Hummm... Saga...

Os gemidos intensificavam-se no mesmo ritmo que os estímulos.

— SAGA!

De repente, um grito!

Gêmeos ergueu a cabeça de supetão e olhou para a amazona por entre as pernas dela.

— Shiii... Não grita, querida.— porém notou que Geisty o olhava com um semblante de espanto — O que foi?

— Mas não fui eu que gritei! — Geisty respondeu num sussurro.

Poucos segundos de silêncio de fizeram então até que novamente ouviram o chamado.

— SAGA! SENHOR SAGA, POR FAVOR! PELO AMOR DE DEUS!

Os gritos dessa vez vieram acompanhados de batidas frenéticas na porta.

— Mas que merda de puteiro dos infernos! — ralhou enquanto saia do meio das pernas de Geisty — O que será que está acontecendo agora nesse pedaço amaldiçoado do Cocito? Acho bom Hades estar invadindo essa merda com toda sua legião de Espectros, porque se for por outro motivo eu mato um hoje!

Enquanto descia da cama e apressadamente ia apanhar o hobby no cabideiro, Geisty deitava a cabeça no travesseiro e esfregava seu rosto ainda corado em excitação.

Ma que cazzo! Isso não é vida... — resmungou em seguida se levantando da cama para enrolar-se ao lençol e correr até o banheiro. Não podia ser vista ali.

Quando Saga abriu a porta, deparou-se com Karina aos prantos.

A bacante tremia, e estava pálida como se tivesse visto um fantasma. A maquiagem toda borrada e o semblante visivelmente terrificado.

— Karina!... — exclamou o grego — O que houve?

— M-Mônica...

— O que tem a Mônica? Por que está chorando?

— Mo... Morta... Mônica... Está morta!... Coberta de sangue... Toda torcida... Horrível, horrível!

Outra crise nervosa fez a delicada bacante sérvia cair em um choro convulso e Saga nem esperou por mais explicações. A deixou ali mesmo e seguiu às pressas para o quarto de Mônica, onde Misty, Rebeca, Natacha e Marin já se amontoavam em frente à porta aberta. Todos com os rostos assustadíssimos e aos prantos, com exceção de Marin, que tentava acalmar as garotas.

Saga passou por todos calado.

Entrou no quarto da bacante e fechou a porta atrás de si.

O cheiro forte e tóxico do sangue impregnava todo o aposento.

Gêmeos se aproximou do corpo que jazia no chão e nem foi preciso toda sua experiência como cavaleiro para saber o que havia acontecido ali.

— Muito bem... O que tem a me dizer sobre essa merda? Por que Afrodite matou essa garota?

A pergunta fora direcionada à figura sentada na poltrona ao fundo do aposento que fumava um cigarro tranquilamente.

— Acho que essa é uma pergunta que você deveria fazer diretamente a ele, non?

Camus esperava o geminiano ali, pois sabia que ele o tinha visto subir com a bacante como sempre fazia quando vinha visitar seu bordel.

— Cavaleiro de Aquário... — imprimiu vigor à sua voz —... Não teste a minha paciência. É preciso eu lembra-lo de que eu sou o Grande Mestre, portanto o seu superior? O que se supõe que quem faça as perguntas aqui seja eu e não você?

Non. Non é preciso, Grande Mestre. — o francês respondeu de forma ríspida.

— Ótimo... Você então subiu com Mônica e ela foi morta por seu companheiro de armas em que circunstancias? Poderia me esclarecer o que aconteceu precisamente?

Camus deu um suspiro cansado e acendeu mais um cigarro.

— Subimos. Mal entramos no quarto a garota passou mal e morreu. Foi rápido. Eu nem cheguei a tocá-la.

Saga olhava para o ruivo tentando avaliar algum sinal de mentira, mas a expressão de Camus era fria como mármore.

— Muito bem. E quanto a Afrodite? — Gêmeos questionou estreitando os olhos — Então todo mundo sabe que vocês dois tem um histórico de incompatibilidade de gênios, para não dizer que se odeiam, ele então mata sua puta predileta enquanto ela está no quarto com você e não tem nada a relatar? Acha que ele tentou mata-lo?

Non. — respondeu simplesmente o ruivo — O cavaleiro de Peixes e eu temos nossas diferenças sim, mas non acredito que ele tenha tentado me matar usando a prostituta. Ou seja, non acredito que esse "ataque" tenha sido contra mim. Até porque todo cavaleiro de Ouro sabe que os cavaleiros de gelo são imunes à técnicas que fazem uso de venenos. Se Peixes intencionasse de fato em me matar teria usado outra de suas técnicas. — afirmou com propriedade — Agora, se o seu puto tinha algum motivo para dar cabo da vida dessa garota, isso já non me diz respeito. O que quer que tenha acontecido entre ela e ele non é problema meu.

— Está certo. — Saga disse correndo os olhos no cadáver ao chão e depois voltando a encarar Camus — Pois então a partir de agora essa merda passa a ser problema seu sim, Aquário. — parecia furioso — Como você mesmo disse, nós cavaleiros sabemos que você é imune às toxinas do cavaleiro de Peixes, mas os russos não.

— E irão deduzir que o seu puto tentou me matar usando a prostituta. — Camus completou o raciocínio do geminiano, já se levantando da poltrona e apagando o cigarro — E irão querer retaliação.

— Isso se eles chegarem a saber o que aconteceu aqui nesta noite. — postulou Saga.

Oui. Entendo aonde quer chegar.

— Que bom. Te desígnio essa missão a partir de agora, cavaleiro de Aquário. A morte dessa mulher é um problema interno do Santuário. Eu me encarrego do cavaleiro de Peixes, e você, como meu subordinado, não permitirá que esse ocorrido chegue aos ouvidos da Vory. Dê o seu jeito, se vira, invente uma história para o desaparecimento repentino dessa bacante... E desde já lhe aviso que não o quero interferindo nesse caso. Esqueça. Entendeu, Camus?

Oui. — o ruivo respondeu sério, com um semblante nada amigável. Embora estivesse aliviado com aquela missão tão oportuna, já que Dimitri se alegraria em saber que não fora mais visto com a prostituta por quem achava que estivesse apaixonado, precisava demonstrar o contrário a Saga — Sempre cumpro as missões que me são dadas, Grande Mestre, é meu dever como cavaleiro. Agora, se me der licença, eu preciso começar a limpar a barra do seu puto.

Levantando as pernas quando passou por cima do corpo de Mônica, Camus se dirigia à porta de saída quando Saga elevou seu tom de voz.

— Eu espero ser essa a última vez que tenho que olhar para sua cara quando tiver que resolver alguma merda que aconteceu em meu estabelecimento, Camus de Aquário. — o geminiano caminhou até ele até parar em sua frente e o encarar nos olhos — Não queira medir forças comigo, cavaleiro. Isso não é nada inteligente.

O olhar feroz de Gêmeos provava que suas palavras não eram blefes e Camus sabia bem disso, por isso mesmo não retrucou, manteve-se calado e esperou que Saga deixasse o quarto antes de si.

Assim que o geminiano saiu, Aquário soltou um suspiro temeroso.

Não temia por si, na verdade as ameaças de Gêmeos em nada o desconcertavam.

Temia por Afrodite, mas nada poderia fazer.

Deixou o aposento de Mônica pouco depois de Saga sair passando pelas bacantes que se amontoavam ali em desespero, e antes de seguir o corredor fez um sinal para Misty com os olhos e um sutil aceno de cabeça, indicando que o seguisse discretamente.

No quarto de Afrodite, o cavaleiro guardião da última casa zodiacal tinha pressa.

Todo agitado, Peixes desamarrava o deputado macedônio jogando mordaça e algemas para os ares, mas quando abria os cadeados das tornoseleiras que mantinham os pés do homem presos, este o agarrou pelos cabelos e chacoalhando sua cabeça o jogou no chão.

— Seu viado de merda! — gritou furioso o homem, pois além de não ter recebido os serviços pelos quais havia pago quase tinha sufocado debaixo daquele maldito lençol — Eu acabo com você, sua bicha!

O deputado pulou da cama já com as mãos fechadas, pronto para desferir um soco contra o rosto do pisciano, mas esse agiu mais rápido e o segurou pela mão.

— Nem pense em fazer isso, suinão! — alertou com vigor na voz, e liberando suas toxinas paralisou o homem ao soprar uma lufada de ar em seu rosto — Presta bastante atenção no que vou te dizer, porque eu vou falar só uma vez. — levantou-se do chão e foi apanhar as roupas que estavam espalhadas em torno da cama — Eu vou te dar duas escolhas. Opção um: Você vai dizer ao Saga, se ele te perguntar, que teve a melhor trepada da sua vida e que me deu essa grana extra. — ergueu o maço de dinheiro que trazia na mão desde que Camus lhe entregara, depois colocou sobre a cama as roupas do deputado que recolhera — Opção dois: Você pode dizer a verdade, se quiser, porque eu não sou uma pessoa opressora... Mas, amanhã sua mulher e seus filhos receberão um lindo buque de rosas vermelhas, acompanhado por fotos bem quentes... Aquelas que você tanto gosta de tirar enquanto trepa comigo aqui... Ah! As rosas vermelhas são do meu jardim particular!

Sublimando suas toxinas, Afrodite liberou o político da paralisia e caminhou até a penteadeira, onde deixou o maço de dinheiro e apanhou o vestido de couro que usava anteriormente.

— Anda. Vista-se rápido e boa escolha!

Trêmulo, o homem passou a mão em suas roupas e começou a se vestir apressado, e nesse exato momento a porta do quarto se abria num tranco forte anunciando a chegada de Saga de Gêmeos.

Assustado, o macedônio ficou inerte ao olhar para a figura parada na porta.

Saga tinha os olhos que cintilavam um brilho carmim intermitente e o rosto numa sinistra expressão de ira.

— Saia. — Gêmeos disse em baixo tom, encarando o político ao lado da cama.

— Eeeei! Pela coroa de Dadá! Que susto! — Afrodite protestou ao olhar para ele, fingindo surpresa, enquanto tentava fechar o zíper lateral do vestido — O que faz aqui, Saguinha?

— Mandei você sair.

A passos lentos, Saga agora caminhava para o centro do quarto sem desviar os olhos do pisciano.

— Não pode tocar os meus clientes do quarto, chefe. Espere a sua vez, meu bem.

Aquela provocação era o que faltava para que o geminiano perdesse de vez a compostura que ainda tentava manter desde que deixara o quarto de Mônica e avançasse para cima de Afrodite com toda sua fúria, o agarrando pelo pescoço e o empurrando contra a penteadeira.

Ao presenciar a cena, o deputado macedônio não pensou duas vezes, apanhou os sapatos, o casaco e a gravata, os quais não tivera tempo de vestir e correu para fora do quarto extremamente alarmado.

Não voltaria aquela zona tão cedo!

No quarto de Peixes, Gêmeos projetava seu corpo contra o de Afrodite, ainda o segurando pelo pescoço.

— Que merda você tem nessa sua cabeça, Peixes? Está tentando se vingar por eu ter tirado suas regalias? Por isso está querendo boicotar a porra da minha zona? — rosnava ensandecido.

— O... que?... Não sei do que... Argh... Você está falando... — segurava nos punhos do geminiano imprimindo força para que ele o soltasse — Perdeu o pino que estava frouxo nesse teu miolo mole?

— POR QUE VOCÊ MATOU A MINHA BACANTE? — o cavaleiro gritou a plenos pulmões.

— Que?

— Não minta para mim, Peixes. Você matou a mulher.

— Quem? — piscou rapidamente algumas vezes — Matei quem?... Argh... Do que... Você está falando?... Aloca! Exagerou no Baygon* de novo, né Saga?

— Mônica. — disse trincando os dentes, sentindo uma leve pontada de dor na cabeça.

Com um tranco violento colocou o pisciano sentado sobre o balcão da penteadeira, derrubando tudo que estava ali por cima.

— Aiii... O que... Tem a Mônica?

— Afrodite de Peixes, não me tira do sério! Não é preciso ser um cavaleiro de Ouro para saber que a mulher morreu envenenada... E ambos sabemos quem se utiliza de venenos aqui.

— O Milo!

— Eu te mato, Peixes. Eu juro.

— Eu seeeeei!... Eu sei que me mata, eu só não sei quem matou a... Mônica... E... Espera! — arregalou os olhos fingindo surpresa — Você tá falando que ela tá mor... Por Atena! A Mônica está morta?

Nessa hora, a raiva de Saga era tamanha que reunindo a pouca razão que conseguia manter em si, soltou o pescoço do pisciano e se afastou minimamente dele.

Esfregando o rosto, Saga suspirou exausto. A pontada de dor agora lhe parecia tomar todo seu cérebro, irradiando rapidamente para as têmporas e fronte o deixando absurdamente apreensivo.

— Vamos lá, Afrodite... Eu vou perguntar só mais uma vez. Por que caralho do inferno gelado do Cocito você matou a puta do Aquário?... Você estava tentando matar ele? Por que se for isso, além de ser muita burrice, eu... Eu não sei mais o que fazer com você. Vou te considerar um caso perdido!

— Eu? Se eu tentei matar o cabeça de fósforo aceso? Sagaaa! — colocou ambas as mãos sobre o peito enquanto fingia um semblante de espanto arregalando os olhos e abrindo a boca — Aquenda! — ficou serio novamente — Deixa eu entender. A Mônica está morta. Você disse que ela foi envenenada?... Por Atena e todos seus oitenta e oito cavaleiros! — cobriu a boca com as mãos.

Saga olhava para ele incrédulo.

— Deuses. Como eu tenho vontade de te matar! — sussurrou encarando o sueco.

— Que tragédia! Atena! Que tragédia! — Peixes chacoalhava a cabeça negativamente fingindo lamentar o passamento da bacante, mas de súbito voltou a olhar para Gêmeos arregalando os olhos aquamarines — Pela legião de Espectros que eu hei de chutar as bundas na Guerra Santa, será que...

— Será que o que, Peixes? Por todo o Olimpo. Será que o que?

— Eu bem falei para aquela burra ficar longe dos meus batons! — disse levando uma das mãos à testa, dando umas batidinhas — Você acredita que eu a peguei aqui duas vezes mexendo nas minhas coisas?... Será que? Mas... Ela está morta mesmo? Não está só colocada*?

Enquanto Saga agarrava com unhas, dentes e vontade ávida toda a paciência que ainda lhe restava, do lado de fora do quarto, pelo corredor à meia luz, passos apressados caminhavam em direção ao quarto da bacante assassinada, onde agora uma pequena multidão de jovens garotas assustadas se reunia.

Geisty de Serpente havia esperado alguns minutos desde que Saga saíra do quarto daquela forma intempestiva, então vestira suas roupas, muito a contra gosto, diga-se de passagem, ajeitou os cabelos bagunçados e certificando-se de que todas as atenções estavam voltadas para o final do corredor, deixou o aposento do geminiano para sondar acerca do que afinal havia acontecido de tão grave que deixara Karina naquele estado aterrorizado.

No entanto, ao passar pelo quarto de Afrodite e notar a porta aberta, correu os olhos para dentro do cômodo e enxergou uma cena que pronto fez gelar seu peito e lhe faltar o ar.

Ma que... Merda é... — balbuciou com voz trêmula ao ver Saga que de costas parecia abraçado a Afrodite, já que as pernas abertas no pisciano estavam praticamente em torno de sua cintura, uma vez que estava sentado sobre o balcão da penteadeira.

O coração de Geisty quase parou naquele momento.

Engoliu a seco um grito que se formou em sua garganta na mesma hora em que outro bramido se fez ouvir a chamando pelo nome.

— GEISTY! GEISTY!

Desviando os olhos da cena dentro do quarto, Geisty olhou para a pessoa que a chamava no final do corredor ainda um tanto quanto absorta.

Era Marin, que acenava para si em sobressalto.

Piscando algumas vezes, a amazona de cabelos negros seguiu até a Águia caminhando lentamente, e meio que desorientada voltou ao passado, mais precisamente no momento em que flagrara Gêmeos e Peixes fazendo sexo na escadaria do lado de fora daquele Templo.

O ciúme doentio que tentava mascarar em seu coração e atitudes voltou a alimentar sua vontade com força audaz, mas assim que se embrenhou naquele aglomerado de moças atemorizadas e adentrou o quarto de Mônica, sendo recepcionada por uma fetidez corrosiva que lhe adentrou pelas narinas quase a fazendo desmaiar, Geisty recobrou a razão.

— Por... Atena! — articulou palavras trêmulas, embargadas por um assombro ímpar ao ver o corpo no chão, levando a mão instintivamente à boca.

Os olhos violetas cintilavam, pasmos, perturbados. As mãos tremiam, assim como todo seu corpo.

— Tudo indica que foi envenenada. — Marin se aproximou falando em tom ameno — As meninas estão apavoradas... Me perguntaram se foi Afrodite. Acha que ele seria capaz?

— Tire todas daqui, Marin. — de repente a voz de Geisty adquirira um tom ácido — Essas meninas não estão seguras aqui... Não enquanto... Esse...

Súbito, a amazona de Serpente deu meia volta, pegou na mão de Águia e puxando a ruiva consigo deixou aquele quarto fétido para juntar-se às outras bacantes no corredor.

— Todas para seus quartos! — ordenou vigorosamente — Agora! Andem! Quero todas em seus quartos, portas trancadas até segunda ordem! Marin, desça, avise Shina que deve estar se apresentando no palco, e discretamente junte as outras garotas. Temos que protege-las até que Saga possa garantir a segurança delas... E a nossa, não é mesmo? — concluiu com um sorriso irônico — Fique atenta a quem está com cliente no quarto e assim que saírem mande-as voltarem e encerrar o expediente. Caso seja preciso, defenda-se com tudo.

Rapidamente, enquanto Marin conduzia as garotas para seus quartos, tomada por uma ira passional e desmedida, Geisty correu até o quarto de Afrodite, espalmou uma das mãos na porta, e com um empurrão forte a escancarou, adentrando recinto feito um bólido.

O ruído repentino chamou imediatamente a atenção de Gêmeos, que virou-se para ver o que o tinha provocado, mas nem bem teve tempo de processar o que via que uma amazona enfurecida já se lançava sobre si com as garras distendidas mirando o pisciano sobre a penteadeira.

— SEU DESGRAÇADO! — Geisty gritou ao desferir um golpe contra o Santo de Peixes, que por pouco não fora atingido porque baixou a cabeça no exato momento em que ela arranhava as garras no espelho — BICHA MALDITA, EU MATO VOCÊ, AFRODITE!

— SUA LOUCAAA! — Peixes gritou ao erguer a cabeça e olhar para ela, e num reflexo ligeiro pulou da penteadeira, agarrou o cabideiro cheio de roupas e o lançou contra a amazona.

A arma de madeira cheia de peças de roupas e acessórios somente não atingiu o alvo porque havia alguém em seu caminho. Saga de Gêmeos.

— Ge... Gesty! Ficou louca, mulher?... Pa... Pare com isso!

O grego de repente se viu em meio a lingeries, camisolas, casacos, cintos, boás de plumas e toda a sorte de acessórios, enquanto tentava segurar a amazona enlouquecida pelos ombros.

— POR QUE VOCÊ MATOU A GAROTA, SEU ASSASSINO? ELA ERA UMA CIVIL! — Geisty tentava se desvencilhar de Saga ao mesmo tempo em que lutava para acertar o pisciano que se protegia atrás do grego, o qual era usado como escudo recebendo os vários arranhões que não alcançavam o alvo — SEU SUJO! COVARDE!

— Você é louca! Exú de franja! — Peixes gritava dando tapas na cabeça da amazona — Sai do meu quarto, mosca varejeira. Xô! Tira essa biscate daqui Saga, ou eu não respondo por mim!

— Eu vou te esganar Afrodite! — a amazona falava entre dentes, se poiando no corpo do geminiano para tomar impulso e alcançar o pisciano, mas sempre sendo contida pelo namorado.

— CHEGA! PAREM OS DOIS!

Acendendo seu Cosmo, o Santo de Gêmeos se livrou da tranqueirada que Afrodite jogara em cima de si as arremessando para longe com uma rajada de Cosmo energia, em seguida agarrou a amazona pela cintura e a afastou do cavaleiro.

— Ele matou a Mônica! Foi ele! Só pode ter sido ele! Quem mais poderia fazer aquilo com ela? COVARDE! — Geisty gritava se debatendo nos braços do grego.

— JÁ DISSE QUE CHEGA! GEISTY! — outro grito acompanhado de um chacoalhão fez a morena enfim se calar — Vocês... Estão... Me enlouquecendo.

Gêmeos alternava os olhares, ora para a amazona, ora para o cavaleiro.

Dentro de si uma luta ferrenha se iniciava, na qual ele esforçava-se, testando seus próprios limites, para manter a sanidade diante aquela loucura toda.

— Não! Ela está te enlouquecendo! — Afrodite acusou apontando o dedo para a garota — Só você que não percebe.

— Cala sua boca, seu ordinário, patife! — retrucou a amazona furiosa, movida por raiva, medo, rancor e ciúmes!

— Eu estou no meu quarto, cala a sua boca você, demônio de franja! Eu não admito que entrem aqui, me batam e acusam sem provas... Ah, quer saber? Vão os dois pro caralho! — deu alguns passos até a penteadeira e abaixando apanhou do chão o maço de notas que Camus havia lhe dado, o enfiando dentro do bolso do hobby que Saga usava — Eu já disse que se a puta morreu envenenada, e com as minhas toxinas como vocês estão dizendo, é porque ela mexeu nas minhas coisas. Eu avisei.

— É MENTIRA! — gritou Geisty.

— Não. Não é truque, odiosa de franja. Eu avisei, assim como avisei a todas. Não mexam nas minhas coisas, principalmente nos batons... — olhou para Saga e notando algo assustadoramente familiar em seu semblante perturbado, engoliu seco e achou melhor dar aquela discussão por encerrada — Esse acué* extra é a gorjeta que o suíno macedônio me deixou hoje, chefe. Pegue, e peça ao Milo para trazer outra garota. Da minha parte, o que posso adiantar é que manterei meus produtos de uso pessoal trancados a sete chaves. Mas apenas isso.

Farto de tudo aquilo e com uma dor na cabeça que parecia lhe rachar o crânio, Saga olhou fixamente para Afrodite por alguns segundos com tanta intensidade que o pisciano sentiu seus pelos do corpo se eriçarem.

Os olhos do geminiano adquiriam gradativamente um tom avermelhado que se misturava intermitentemente com o jade de suas íris, enquanto seus cabelos azuis aos poucos ganhava nuances de negro.

Peixes engoliu seco quando Gêmeos de repente lhe sorriu com sarcasmo.

— Peixinho tolo. Até pode enganar a ele, mas não a mim.

A voz em um tom mais grave que o comum chamou a atenção de Geisty que erguendo a cabeça olhou para o rosto do grego, confusa e aturdida.

— Não estou enganando ninguém... Se a Mônica morreu, foi ela mesma que procurou isso. — Afrodite respondeu apreensivo.

— Pois bem, é bom que saiba que vai ter de lidar com a limpeza daquele quarto e com o valor daquela puta. Aquário pagava muito bem para fode-la. E já que foram seus "batons" que fizeram isso, você vai arcar com toda essa despesa. Até o final da noite quero aquela puta desovada, sem deixar rastros.

— Ok, Santa. Se a quantia que te dei não for suficiente, depois a gente negocia uns outros suínos cheios da grana e eu tiro deles até a alma se você quiser, mas agora saiam do meu quarto. Os dois.

Sem mais nada dizer, Gêmeos caminhou resoluto até a porta trazendo a amazona consigo.

Geisty agora deixara a raiva que sentia minutos antes ser sobrepujada por um temor repentino que viera quando olhara para o rosto do amado e não o reconhecera.

No lugar da face branda, doce e amada de Saga, aquela outra face que tanto a assustava tomava forma aos poucos.

A amazona não imaginava que iria "encontra-lo" tão cedo!

Enquanto isso, no andar de baixo do Templo das Bacantes, Camus cruzava o salão diligente.

Havia passado em sua mesa e pedido a Andreas que monitorasse os figurões russos que trouxera ao bordel naquela noite e depois os acompanhassem ao hotel onde estavam hospedados, justificando ter sentido um leve mal estar e que por isso subiria para sua casa no Santuário.

Andreas, como de praxe, não contestou a ordem, e depois que se despediram Aquário lhe deu as costas e correndo rapidamente os olhos pelo salão avistou Misty que vinha descendo as escadarias.

Quando seus olhares se cruzaram, o ruivo discretamente olhou para a saída lateral do Templo e se embrenhando entre as mesas e frequentadores rumou para lá à espera do cavaleiro de Prata, que não se demorou a chegar.

Misty sabia como ninguém a arte de se esgueirar entre a multidão e tornar-se invisível. Para ele era tão fácil passar despercebido até mesmo para olhos atentos, que em poucos minutos estava aparecendo no corredor estreito de pedra onde Camus o aguardava fumando um cigarro.

— Você se arriscou demais hoje! Tem que ser mais cauteloso. — a voz séria logo se desfez em um sorriso amistoso — A Escamosa te disse por que matou a pobre da vadia?

Non. — Camus liberou a fumaça dos pulmões com uma bufada ruidosa. Mentiu, como era de se esperar — Mas, non o chamei aqui para falar de Mônica ou de Afrodite.

— Hum... Não? E me chamou por que então? — acercando-se do aquariano, Misty esticou o braço e com as pontas dos dedos alisou a gola do casaco que ele vestia.

— O que está fazendo? Non toque em mim.

— Eiii! Calma, ruivo. Só ia pedir um cigarro. — o loiro riu, jogando uma mecha de cabelo para trás dos ombros — Seu bobo. Não precisa ficar na defensiva comigo.

— Por que vocês têm que conversar tocando nas pessoas? — o aquariano resmungava enquanto buscava o maço de cigarros dentro do bolso para oferecer um a Misty.

— Vocês quem? — indagou o cavaleiro de Prata.

— Vocês... Bichas... — Camus ficou desconfortável com o que ele mesmo havia dito e esfregando a testa se apressou em dizer o motivo pelo qual havia chamado o cavaleiro ali — Enfim, olha, Lagarto, eu non tenho tempo para ficar aqui de papo com você. Então, vamos direto ao assunto.

— Hum... — Misty apanhou o isqueiro, acendeu o cigarro e ao tragar a fumaça olhou para Camus e lhe lançou um risinho malicioso — Sou todo seu. Diga.

— Primeiro, devo dizer que de fato tem se mostrado... Um... Um bom amigo. Se non tivesse me alertado hoje lá em cima tudo estaria perdido.

— Sim. Você estava quase caindo na lábia da Peixosa novamente, não é, Camus?

Non... Afrodite para mim é passado. Agora mais que nunca precisa ser. — pensava em Natassia acima de tudo — Non te chamei aqui para falar dele, mas para falar de... De nós.

Misty arregalou os olhos. Enfim o dia que tanto esperava com paciência e perseverança chegara.

— De nós? — piscou algumas vezes fingindo surpresa — Oh! Agora você me surpreendeu!

Non é isso que deve estar pensando. — assegurou o aquariano ao apagar a bituca de cigarro com a sola do sapato — Sobre aquela noite em que... Em que eu bebi um pouco além da conta... Você se lembra?

— E como iria esquecer? — Misty sorriu, e esse gesto acompanhado da afirmativa apenas fez o coração de Camus acelerar ainda mais.

— Aquela noite você me ajudou a subir até meu Templo...

— Sim.

— E depois... Me lembro de você tirando meus sapatos e... Depois...

— Depois? — jogava com o francês, deliciando-se com aquele jogo perigoso.

Oui e depois? Eu non me lembro de mais nada.

— Ah, mas era de se esperar que não lembrasse mesmo, Camus. Você bebeu muito.

— Mas, a gente... Você... E eu... Nós...

— A gente transou.

Misty sentenciara, com uma tranquilidade que não apenas espantava o ruivo, mas também o irritava.

Camus olhou para ele estarrecido.

Seu maior temor enfim deixara o campo do possível para entrar no do concreto.

Tinha feito sexo com Misty de Lagarto, simplesmente o maior inimigo de Afrodite.

Tinha estado com outro homem na cama.

Pelo menos era no que acreditava.

Mon Dieu! — sussurrou aflito. A face pálida e as mãos trêmulas denunciavam seu nervosismo — Isso non pode estar acontecendo!... Isso... é um pesadelo!

— Ei! Para que tanta frescura, Camus? Foi apenas sexo. — jogou a bituca de cigarro no chão e deu um passo à frente, ficando bem próximo ao aquariano que de tão alarmado não o repreendeu como de costume — Somos amigos, e amigos também transam... Sexo casual...

Non...

Oui! — sorriu, esticando o braço para apoiar uma das mãos na parede de pedra atrás do francês. Seu braço em paralelo ao rosto de Camus — Você quis. Me pediu.

Non pode ser! Non é verdade.

— Sim, é sim, e qual é o problema? — dizia com naturalidade e calma invejáveis — Eu sei que deve estar assustado, porque o Afrodite transou com você e te tocou o terror. Te cobrou mundos e fundos, e depois de machucou, te magoou... Mas eu não, Camus. Eu não quero nada de você. Não me deve nada. Quero apenas sua amizade... A gente se divertiu muito, você ficou tão feliz... — sorriu de maneira terna e de tal modo convincente que era incapaz de levantar qualquer suspeita. — Camus relaxa! Aconteceu... Mas já disse que pode confiar em mim. Ninguém saberá.

Camus por sua vez, parecia paralisado.

A ideia de ter feito sexo com Misty e nem sequer se lembrar lhe era aterrorizante.

Em seu intimo, Aquário se indagava se agora sairia mundo a fora transando com tudo que é homem que encontrasse pela frente. Se agora que tinha se descoberto gay, seria um libertino e devasso como Afrodite... Como acreditava que Afrodite era.

Mon Dieu! Aie pitié de moi! (Meu Deus! Tenha piedade de mim!) — clamou enquanto seus olhos encaravam os de Misty em sobressalto.

Alguns poucos metros acima do local onde Camus e Misty conversavam, em uma reta imaginária traçada em um perfeito paralelo vertical, ficava a janela do quarto de Afrodite de Peixes.

Dentro do aposento o guardião da décima segunda casa zodiacal intentava aplacar a ira que os acontecimentos indigestos daquela noite lhe causavam arremessando toda a sorte de objetos contra a porta de entrada, poucos segundos após Saga de Gêmeos deixar o local levando consigo a furiosa amazona de Serpente.

— Eu não vou limpar nada! — voou um par de sapatos contra a porta — Você que mexa esse fubá*, pinto torto! Que ódio de você! — o cabideiro foi o próximo — E também não vou mais trepar com nenhum dos seus suínos nojentos! Tá ouvindo?

Num rompante de raiva que beirava a loucura, correu até a cama, agarrou os lençóis e aos berros, urros, rosnados e maldizeres rasgava tudo numa velocidade e fúria insanas.

Suas mãos dilaceravam com fastio o que o pensamento não podia destruir.

Camus, Saga, Geisty, os homens com quem se deitava à força, a ingratidão do francês... Quisera poder fazer com eles o que fazia com os travesseiros!

— Não suporto o cheiro deles! Não suporto! — travesseiros, colchão, almofadas, tudo era destruído em segundos — O alófi* desses suínos desgraçados não sai do meu nariz... Das minhas roupas, das minhas coisas... De mim! Eu vou tacar fogo em tudo para tirar o cheiro de chiqueiro que eles deixam aqui.

Um amontoado de espuma despedaçada crescia ao entorno do leito, e quando não restou mais nada a ser destruído ali, Afrodite correu até um grande vaso sueco que decorava o bar, o agarrou com ambas as mãos e vendo a janela aberta se apressou em ir até ela atirar o vaso para fora.

Estava enlouquecido de raiva, sim, mas não perdera totalmente o tino, pois o vaso estava cheio de água por causa das rosas que sempre arranjava nele e não molharia seu carpete branco importando da Turquia.

Mas, quando Peixes chegou à janela e se precipitou minimamente para frente, apoiado ao batente de madeira, viu a silhueta de duas pessoas lá embaixo.

Baixou os braços e adiou o arremesso para ver de quem se tratava, já que aquela parte do Templo de Baco era restrita e muito pouco utilizada, porém qual não foi sua surpresa, e por que não dizer, espanto, ao descobrir que quem estava ali, muito mais próximos do que deveriam, eram ninguém mais ninguém menos que Camus de Aquário e Misty de Lagarto!

— Pelos trezentos braços e cento e cinquenta cabeças ocas dos três Hecatônquiros juntos! — murmurou com os olhos atracados no casal lá embaixo.

Afrodite desmoronou.

Estático, segurando o vaso sueco levantado no ar, ele via Misty que parecia pressionar Camus contra a parede de pedra.

Do alto os enxergava por um ângulo onde podia jurar que estavam se beijando, já que não via seus rostos, mas apenas o alto das cabeças e os corpos muito juntos.

Pálido, trêmulo, arfante, a boca entreaberta, os olhos se enchendo de lágrimas.

O ruivo o trocara na mesma noite em que matara uma pessoa para proteger um segredo tão frágil quanto sua história de amor com Aquário.

Camus estava beijando Misty.

Pelo menos acreditava que sim.

Contudo, só o fato de estarem ali, numa área restrita, juntos, sozinhos, colados um ao outro, já era motivo suficiente para fazer o pisciano perder de vez a cabeça.

Respirou fundo, retirou as rosas do vaso as jogando no chão, segurou firme na porcelana sueca e sem pensar duas vezes despejou toda a água armazenada nele em cima do casal embaixo de sua janela, dando também, e agora de forma literal, um banho de água fria em Misty e Camus.

— AAAAH! MAS O QUE? — Lagarto deu um grito.

Camus, que poucos segundos antes do banho gelado ainda estava em uma espécie de transe induzido, despertara de imediato cerrando os olhos e abafando um grito de susto.

— Mas que merde... — resmungou antes de olhar para cima e ver Peixes na janela a encará-los com os olhos banhados em lágrimas, então se calou novamente.

— Afrodite! Sua bicha nojenta! Ficou louco de vez? — Misty chacoalhava as mãos e gritava com uma voz tão grave que surpreendera até mesmo ao ruivo — Vai me pagar por isso, Escamosa!... Olha meu cabelo! Minha escova já era! Desgraçada!

— Voltem para a encruzilhada, seus exús do rabo quente! — Peixes gritou para eles aos prantos, entre soluços convulsos e voz gaguejada — Vá lamber a sola do pé do Hades, Camus... Seu... Seu, seu viado enrustido... Picolé de ingratidão!

Antes de fechar a janela com uma batida feroz, Afrodite ainda olhou uma última vez para os olhos furiosos de Aquário que o encaravam incrédulos e então recolheu-se mergulhando em sua dor.

Passaria o resto da noite chorando, encolhido sobre os cacos, tanto dos objetos que destruíra, quanto os de sua história com Camus.

Lá em baixo, encharcado Aquário olhava para cima ainda encarando a janela, agora fechada.

Aquela noite certamente entraria para o hall das piores noites de sua vida.

Baixando a cabeça, Camus desviou os olhos da janela para olhar para Misty que torcia os cabelos ensopados à sua frente enquanto amaldiçoava o cavaleiro de Peixes. Uma melancolia repentinamente tomou conta de todo seu ser. Camus estava em seu limite.

— Lagarto... — chamou a atenção do loiro em voz baixa. Estava abatido, exausto de tudo aquilo.

— Não se preocupe, Camus. Essa patifaria daquela bicha invejosa mau caráter não vai ficar por isso mesmo não. Eu acabo com ele! — ralhou o francesinho — Se quiser, podemos continuar essa conversa no meu quarto. Te empresto uma camisa seca e podemos entrar pelos fundos.

Non! — respondeu de pronto e com certa pressa, enquanto descolava alguns fios de cabelo grudados em seu rosto — Lagarto, preciso que saiba que o que aconteceu entre... Entre nós naquela noite tem que ser esquecido. Aquela noite simplesmente non existiu... Se preza tanto assim por minha amizade, vai esquecer que transamos. Eu non me lembro, então para mim será como se nunca tivesse acontecido.

Misty abandonou os cabelos molhados que torcia e soltou um suspiro pesado — "Que maldito desgraçado!" — pensou. Já esperava por aquela reação, mas mesmo assim não podia evitar uma irritação que só vinha crescendo a cada dia.

Maldizendo em pensamento o pisciano que lhe roubara aquele momento único em que tomaria proveito da fragilidade do ruivo, já que imaginava estar a um passo de beijar de fato Camus, Lagarto dissimulou mais uma vez um sorriso falso fingindo concordar plenamente com sua decisão.

— Está bem, querido, se você quer assim eu já até esqueci. Mas... Camus, você está bem? — destilava mais uma vez seu veneno — Estou preocupado com você.

— Estou bem. — respondeu retirando o maço de cigarros do bolso e verificando que estava completamente encharcado o recolocou no lugar desanimado.

— Não me parece. Não quer conversar? Sei que Afrodite passou dos limites hoje com você.

— Non. Eu quero ficar sozinho. — disse em voz baixa e pesarosa — Boa noite, Misty.

Sem nem esperar a resposta de Lagarto, Camus lhe deu as costas e deixou o local, sendo observado por um cavaleiro de Prata que sorria vitorioso.

— Continue assim, Peixosa, e você me dará essa vitória de mão beijada! Hihihihihi... Bicha burra!

Bufando de raiva, Misty cruzou o salão em direção a seu quarto. Meses esperando por aquela oportunidade e tudo fora perdido por culpa de Afrodite. Porém, não se deixaria abalar. Estava firme em seu intento. Um passo de cada vez e teria tudo o que almejava. Era preciso apenas ter um pouco mais de paciência.

Já em Aquário, Camus retirava aquela roupa ensopada com movimentos lentos e o ânimo destruído.

Aquela noite havia, mais uma vez, saído de seu controle. A ligação de Dimitri, a ameaça velada que o Vor fizera a Natassia, a morte da prostituta daquela maneira horrenda, o tal informante da máfia que andava o espionando, o pedido de Afrodite, e até o deputado macedônio, por quem passara de repente a nutrir um ódio insano apenas por tê-lo visto na cama do cavaleiro de Peixes, por fim aquele banho de água fria... Não. Não teria tempo para perder com as dores do coração.

Estava decidido a retomar o controle de sua vida.

Enquanto isso, no quarto de Geisty de Serpente, os ânimos também não eram dos melhores.

Com um empurrão, o cavaleiro de Gêmeos forçou a entrada da amazona e fechou a porta atrás de si com uma batida, olhando para ela em seguida que furiosa o encarava do centro do aposento.

— O que pensa que está fazendo amazona? — a questionou em voz baixa, porém firme e autoritária — O que foi aquilo no quarto do cavaleiro de Peixes? Você enlouqueceu? Que autoridade você acha que possui para invadir os aposentos de Afrodite e confronta-lo ignorando a minha presença ali, me afrontando?

Geisty fitava os olhos do namorado com os seus próprios faiscantes. Em sua mente a cena que vira há pouco se repetia e o ciúme a corroía por dentro a impedindo de sequer ponderar se de fato Saga estava em seu juízo perfeito.

Todavia, ela mesma não estava no seu!

— Mônica está morta! — disse de forma intempestiva, rangendo os dentes — Uma civil. Morta covardemente por um cavaleiro de Ouro!

— Eu sei. Eu vi. — respondeu o grego com naturalidade ímpar, sentindo a dor que lhe afligia momentos antes aos poucos se amenizar, já que fazia um esforço tremendo para não perder o controlo justamente na presença da amada — E lamento por isso. Mas, não se meta nessa merda dessa história.

— Sim... Você sabe. Você viu, e tratou logo de tomar uma providência séria, não é mesmo Saga? Correndo na mesma hora para o quarto do seu puto favorito. Indo interroga-lo pessoalmente, não é mesmo?

A amazona passara meses numa luta ferrenha para controlar seu ciúme desmedido, e justamente quando mais precisava ter o comando absoluto de suas emoções, sempre tão intensas, fora que o perdeu.

Saga arregalou os olhos e arqueou as sobrancelhas em surpresa.

— Como é?

— Isso mesmo que você ouviu! — bradou em voz alta.

— Fala baixo, mulher! Quer que nos descubram? — Saga aproximou-se mais dela, e irritado apertou as têmporas com os dedos numa tentativa de aliviar as pontadas que ainda sentia na cabeça.

— Falar baixo? Por que tenho que falar baixo? Ah! Sim! — gesticulava enquanto falava, bem a seu modo exuberantemente italiano — Ninguém pode nos ouvir, não é?... Mas todos podem ver você se atracando com o viado desfrutado do Afrodite. E eu vi, Saga! Eu vi!... Você me disse que Afrodite tinha sido um erro, que não estava em seu juízo perfeito quando trepou com ele, mas é só eu virar as costas um minuto, em todos esses malditos meses aqui nesse inferno de lugar, que vocês já estão juntos de conversinhas, e...

— Não, Geisty! Não... — o grego tentava segurar nas mãos inquietas dela numa tentativa de fazê-la voltar a si, mas era praticamente impossível — Não seja louca. Você não viu nada, porque não existe nada. Fui ao quarto do Peixes, porque ele...

— Porque ele é seu puto predileto! — gritou, o encarando com fúria.

— Porque eu precisava saber da boca dele porque ele matou a infeliz da garota! — gritou também em resposta o geminiano.

— Não... Não foi por isso, Saga. — abaixando o tom de voz, Geisty agora olhava para o namorado com um semblante melancólico — Você correu para o Afrodite desesperado em saber se ele estava bem. Para se certificar de que nenhum russo pudesse, por acaso, descobrir a covardia que ele fez contra uma garota inocente... Ao em vez de você estar lá, junto das garotas que VOCÊ trouxe para cá, com a promessa de proteção e guarida, lhes amparando já que estavam assustadas... Mas, não. Você deu as costas a todo mundo e correu para o seu puto de luxo, porém a otária aqui chegou para atrapalhar os pombinhos.

— Pelos deuses, Geisty, do que você está falando?

— Do que eu estou falando? — enfureceu-se novamente — Eu estou falando, Saga, da sua cretinice. Uma mulher é morta debaixo do seu nariz, dentro da porra da sua zona, e você faz o que? Larga o corpo dela lá, as colegas dela assustadas aos prantos, e se enfia no quarto do seu AMANTE!

— GEISTY!

— É isso mesmo, Saga! Você pouco se importa com essas garotas, mas com seu putinho de luxo nada pode acontecer! Ele é intocável!... Ah, não! Estou enganada! Você pode tocar nele, né Saga? Deu até uns amassos! Matou as saudades? — estreitou os olhos e aproximou seu rosto ao do grego que incrédulo parecia até ter perdido a voz — Enquanto fica zelando apenas pelo viado do Afrodite, as suas outras funcionárias correm perigo... E eu... A palhaça aqui então você se lembra que existe apenas nos fins das suas noites.

— Geisty... Você não está bem. — proferiu de modo firme, tocando nos ombros da amazona para tentar acalma-la, sem entender de fato como a discussão sobra a morte da prostituta havia se transformado em uma discussão conjugal.

— NÃO! Não estou mesmo, Saga. — deu um chacoalhão se livrando das mãos do namorado — Figlio di una cagna!* Não minta para mim! — fora de si a amazona o questionava enquanto o agarrava pela lapela do roupão o sacudindo.

— Geisty, se controle! — agora foi a vez de Saga elevar seu tom de voz.

— Ficou com tanto ódio por eu ter atrapalhado o momento de vocês que se descontrolou e pensou em deixa-lo aparecer, não é mesmo? — ousou em mencionar o mau que afligia o geminiano — Fez de propósito, para me punir por tê-lo atrapalhado.

— Pare! — Saga segurou nos punhos da amazona livrando-se daquele agarrão — Será possível que perdeu sua sanidade? Preste atenção nos absurdos que você está dizendo, mulher!... Eu não fiz nada disso. Eu fui ao quarto de Afrodite...

— CALA A BOCA! Cala a boca... Não pronuncie esse nome na minha presença. Não pronuncie essa merda de nome no meu quarto!

Saga olhava inconformado para o rosto transtornado em ódio da amazona. Seria Geisty louca? Uma faceta secreta da qual apenas agora tomava conhecimento?

No passado Shion lhe dissera que a amazona de Serpente carregava uma maldição, mas nunca lhe fora totalmente claro. Começava a acreditar que a tal maldição pudesse ser esse ciúme que cegava sua mente.

Enquanto olhava até meio que assustado para a garota que andava de um lado para outro, tal qual uma onça faminta presa em uma gaiola, suspirou cansado e ensaiou uma nova tentativa de tentar traze-la de volta à realidade.

— Geisty... Você está enganada, querida. Tente recobrar sua razão. Eu fui ao quarto daquele cavaleiro, justamente porque ele matou uma mulher inocente e eu queria ouvir da boca dele qual seria a explicação que me daria. Se você viu algo que lhe parecesse por algum motivo suspeito... Isso é apenas fruto do seu ciúme.

— Ah é? Não estava então atracado com ele em cima daquela merda de penteadeira?

— Sim, estava. Mas, não como você imagina, e sim porque estava tentando esganá-lo... Você está ficando paranoica.

— É mesmo? Estou paranoica? — disse ao se aproximar rapidamente do geminiano e aspirar ruidosamente o perfume impregnado em seu roupão — Você estar fedendo a Afrodite não é um delírio paranoico, Saga.

— Eu já disse que tentei esganá-lo, Geisty, mas que inferno, mulher. Pelos deuses, não faça isso! Quantas vezes mais eu preciso dizer a você o quanto é importante para mim? O quanto movi mundos e fundos para salvar sua vida e depois para conseguir traze-la para perto de mim. Primeiro Shion, depois Kanon, Dimitri, Camus... Eu teria enfrentado tudo isso se quisesse Afrodite e não você?

— Sim... Sou tão importante que você me enfiou em um bordel...

— Geisty... Por favor...

— Ouça bem, Saga. Não vou permitir que seu puto de luxo aterrorize as bacantes. Nem as amazonas, muito menos as civis.

— Geisty, ele não fará isso. Ele disse que foi um acidente, que...

— Claro, e você acreditou.

— Por Hades! Que motivo Afrodite teria para matar Mônica?

— Já disse que não quero que fale esse nome perto de mim...

— Está bem... Olha. Nossa noite foi desastrosa, eu sinto muito pelo que aconteceu à Mônica, mas Geisty, querida, podemos lidar com tudo isso.

— Ela... Não tinha família... Mônica era sozinha no mundo... — Serpente agora deixava a euforia para entregar-se a uma tristeza real e dolorida — Essas meninas são tão frágeis.

— Acredite. Estão melhor e mais seguras aqui do que onde estavam... Vamos esquecer todo esse mal entendido e aproveitar o nosso tempo. Podemos tomar um banho juntos e depois dormir aqui mesmo.

— Não. — a resposta veio de forma enfática calando o cavaleiro no mesmo instante em que olhara surpreso para a morena — Hoje eu quero ficar sozinha. E por gentileza... — disse andando decidida até a porta abrindo uma pequena fresta — Saia do meu quarto, Saga. Quero me recolher.

Impressionado com a postura e a atitude da amazona, Gêmeos aprumou o corpo, ajeitou o roupão que estava um pouco desalinhado e se dirigiu até ela.

Enquanto cruzava em silêncio a porta ainda ouviu um último aviso.

— Saiba que isso não vai sair barato. — alertou a amazona — Nem para você, muito menos para aquele viado cretino! — disse olhando firme para o cavaleiro que lhe devolvia um semblante curioso — Boa noite, Gêmeos.

Falou ela por fim, empurrando a porta que se fechou sozinha.

No corredor, Saga olhava aturdido para a madeira.

Sentiu raiva daquela ameaça e na mesma hora uma pontada de dor nas têmporas o levou a fechar os olhos e apertar as pálpebras com força.

Experimentava uma gana demasiada por retornar ao quarto e reiniciar aquela discussão descabida, agora de forma mais ativa, colocando a amazona em seu devido lugar, mas conteve-se.

Sabia que aquele anseio não pertencia a si, mas sim ao desejo de seu lado obscuro, então seguiu para seu quarto, não menos irritado, no entanto.

Caminhou poucos passos quando, à sua frente, notou ser observado pelos olhos verdes curiosos de Shina, a qual o havia visto sair do quarto de Geisty.

Saga continuou seu trajeto e ao passar pela amazona deteve seus passos para lhe dizer em tom de voz baixo, porém firme.

— Você não viu nada.

Retomou a caminhada sendo acompanhado pelo olhar da jovem, até entrar em seu quarto e bater a porta ruidosamente.

Ansiava para que o Absinto o ajudasse a digerir aquela noite fatídica.

Shina por sua vez, ao passar pela porta do quarto de Geisty deixou escapar um riso descontraído, enquanto balançava a cabeça negativamente.

— Não adianta, você não aprende mesmo... Idiota!

Dicionário Afroditesto

Acué – dinheiro.

Alófi – mau cheiro, fedor.

Baygon – bebida alcóolica forte.

Chuca – lavagem retal.

Coió – surra.

Colocada – drogada.

Dar pinta, Dar bandeira – fazer algo que deixa claro sua homossexualidade.

Fazer – transar.

Mexer o fubá – se virar. "Mexa esse fubá sozinho = Se vira!"

Senta lá, Claudia! – expressão usada com pessoas que não entendem o óbvio, que enchem muito o saco, ou que você quer mandar à merda.

*Figlio di una cagna! – filho de uma cadela.