Templo de Baco, 07:00am
As pesadas galochas escuras de grossa borracha pisavam o carpete do quarto iluminado deixando rastros de terra e um dejeto cinzento qualquer.
Em torno do cadáver contorcido no chão um homem corpulento, estatura avantajada, abdômen levemente inchado, espessa barba em tons de cobre e terracota, dono uma careca lustrosa, galgava alguns passos analisando o tamanho do estrago.
Vestia um traje simples, composto por calça e camisa, fora de qualquer suspeitas não fosse pelas grossas luvas de borracha que lhe vestiam quase até os cotovelos, a máscara protetora que cobria parcialmente seu rosto grave de meia idade, e o largo, comprido e manchado de toda a sorte de imundices avental de couro marrom, o qual quase lhe tocava o bico das galochas.
— Hum... — pigarreou ao se agachar ao lado do corpo e esfregar com os dedos uma mancha no chão — O tapete não vai dar para salvar não. Está perdido.
Um pouco mais afastado, uma figura belíssima, que contrastava completamente com aquele cenário horrendo observava o homem, atento. Cobria o rosto com um lenço negro da cor do vestido de couro de saia curtíssima que ainda não havia tido tempo de trocar, pois já se podia sentir o cheiro do corpo em decomposição.
— Ah, que se dane esse tapete matim*. Acha que alguém aqui liga para tapete? Enrola ela nele e dá um sumiço nos dois... Só quero mesmo que me conserve a cabeça... Quero dar de presente a um amigo. Ela era uma enxerida, mas era uma mulher muito bonita. — disse com certo pesar o algoz de Mônica.
O homem corpulento então apoiou ambas as mãos nos joelhos e soltando um grunhido de fastio levantou-se. Voltou a caminhar em torno do cadáver com suas galochas encardidas deixando pegadas sebosas por onde pisava, seguindo diretamente até o contratante.
Parou em frente a Afrodite, retirou a máscara que lhe protegia nariz e boca e quando o bigode e barba espessos tremelicaram a voz pigarrosa sentenciou:
— É um 933. Morte por envenenamento. Uma remoção completa, sem deixar vestígios no local do crime, mais decapitação e desova. — coçou o queixo entre os pelos engordurados da barba enquanto olhava para o pisciano com um semblante sério — Com o valor que você me pagou eu só tiro a vadia daqui e enterro numa vala comum, como indigente.
— O que? — o sueco exclamou surpreso, retirando o lenço que lhe cobria parte do rosto — Alôca! Se fosse para enterrar a amapôa* numa vala comum eu mesmo fazia isso, Alice! Saga mandou desovar, riscar do mapa a existência dessa pobre demônia. Que Hades a tenha em bom lugar!
— Com a mixaria que me pagou? Qual o seu problema? É uma desova de risco. A puta virou praticamente um pudim de toxinas letais. Junta os outros produtos químicos que terei que usar para transformá-la na mulher invisível e apagar ela do mapa, já pensou no tanto de química que vou inalar? Não. Meu serviço, meu preço.
— Puxa vida, mas quanta honestidade! — conclamou o pisciano de forma cínica e sarcástica, depois contorceu seu belo rosto numa expressão colérica — OPORTUNISTA!
O homem riu de modo desdenhoso.
Era o que dentro da máfia grega se chamava por Açougueiro, ou o encarregado de limpar as cenas dos crimes, portanto seus serviços eram imprescindíveis. Dado o fato, poderia pedir o preço que lhe desse na telha que seria pago.
— Não, gracinha. Não sou oportunista. Eu tenho meu preço, você não tem o seu? — indagou tocando o queixo do pisciano com os dedos que ainda estavam protegidos pela grossa luva de borracha, mas levou um safanão ao fazê-lo.
— Auto lá! Sem por a mão. — repreendeu com desprezo.
— Se não quiser se livrar da puta você mesmo, podemos negociar outra forma de pagamento. — correu os olhos de cima a baixo pelo corpo esguio e bem trabalhado do pisciano, prendendo-se por um tempo nas coxas nuas roliças para só depois voltar a encarar os olhos azuis do outro de forma lasciva.
Afrodite engoliu a seco, nervoso, tanto pela proposta quanto pelo modo como o homem o olhava. Apenas a vaga ideia de deitar-se com aquela criatura repulsiva lhe causava mal-estar, então apelou pela única saída que julgou possível, retirou do dedo um anel de ouro e rubi que usava naquela noite e o ofereceu ao Açougueiro como complemento do valor que ele pedia.
— Toma, mondrongo*. — puxou a mão do homem e colocou a joia na palma emborrachada — Isso paga o seu trabalho honesto? Eu tenho outros no quarto também. Pegue todos se quiser, mas tira logo essa morta daqui antes que o Saga apareça.
Um tanto quanto surpreso, o homem tomou o anel entre os dedos e passou a analisá-lo. Era certo de que se tratava de uma bela peça, bem feita, porém estava longe de ser tão valiosa quanto o pisciano pregava.
Na verdade, as únicas joias que realmente tinham valor inestimável eram as que Camus lhe dera, e que ele mesmo depois destruíra.
— Hum... — bronqueou — Essa pedra é fosca, e o ouro não é maciço. Tá achando que me engana, Afrodite? Esse anel não vale tanto assim.
— Tá de truque?* E desde quando você entende de joias, ô comensal do além?
— Deixa de frescura. Tô quebrando essa para você, bonitinho. — conforme avançava na direção do pisciano, esse recuava, até bater as costas na parede ao lado da porta e parar ali, cara a cara com o Açougueiro — Meia hora no seu quarto. Nem precisa tirar esse vestidinho de biscate, vai ser rápido. Meia hora e desovo sua puta... Sem deixar rastros.
No Santuário de Atena.
Era pouco mais de sete da manhã, quando na primeira casa zodiacal Mu tomava notas em um pequeno caderninho de espirais brancas.
Já havia preenchido para mais de quinze folhas com lembretes, cerimoniais a serem pesquisados na biblioteca do Santuário, ou até mesmo na da cidade de Atenas, e inúmeros desenhos de ourivesaria, quando notara que já havia amanhecido devido um modesto raio de sol que cruzara a janela de seu escritório atingindo em cheio o rosto delicado de traços exóticos.
O Santo de Áries não havia pregado os olhos naquela noite.
Também pudera, após a epifania que tivera em Virgem era bem capaz de passar dias sem sentir sono, visto que toda sua energia ariana, agora em plena ebulição, estava direcionada para a execução de seu plano.
Mas para isso precisava de ajuda, e não qualquer uma. Felizmente seu melhor amigo era tão ousado quanto seu plano e mal podia esperar para dividir sua felicidade com ele.
Foi com o coração pleno em ansiedade e uma disposição de quem parecia ter dormido o sono dos justos a noite toda, que Mu fechou o caderninho de notas, o guardou em um das gavetas de sua escrivaninha e apressado rumou para a cozinha onde preparou um café forte.
Após beber o café, passou em seu quarto, trocou a camisa e sem mais delongas teleportou-se para o décimo segundo templo, para a casa de Afrodite de Peixes.
Usou o teleporte para evitar passar por Virgem, pois tudo que faria a partir daquele dia teria que ser mantido em segredo absoluto para Shaka.
No entanto, para a surpresa do ariano, Afrodite não estava em Peixes, o que julgou ser bem incomum, visto que os cavaleiros eram instruídos a não deixarem seus postos por tempos muito prolongados e que, por isso, o amigo nunca dormia no bordel após encerrado o expediente.
Ainda que confuso com o fato, porém sem se deixar abater, Mu sem demora tornou a usar seu teleporte, agora para o Templo de Baco, já que era certo que Afrodite estaria por lá.
Quando surgiu à frente da antiga edificação, o ariano notou, porém, que algo ali não estava certo, pois seus olhos muvianos enxergavam uma aura funesta que pairava densa por sobre o local.
Seguiu em frente, cruzando a enorme porta de entrada, dando pela falta da equipe de servos que cuidavam da limpeza.
Franziu a testa pensativo, unindo os pontinhos lemurianos, mas julgou que o silêncio que tomava o lugar se dava apenas por ainda ser demasiadamente cedo.
Continuou seguindo o caminho, cruzando o salão e chegando às escadarias que levavam ao segundo andar.
Depois de caminhar até metade do corredor, Mu parou em frente à porta do quarto de Peixes, mas no exato momento em que erguia o braço e fechava a mão para tocar a madeira se fazendo anunciar a porta se abriu e de dentro a figura infausta do Açougueiro da desgastada máfia grega se desenhou diante de seus olhos.
O robusto homem de feição rude, tez corada e fronte ainda suada, nada disse ao encarar o lemuriano. Inerte, ele simplesmente esperava que o outro lhe desse passagem enquanto abotoava as calças e terminava de levantar o zíper.
E assim Mu o fez, dando um passo para o lado.
O Açougueiro então cruzou a porta e da mesma maneira, calado e introspécto, deu as costas ao ariano, seguindo pelo corredor enquanto vestia o longo e imundo avental de couro que trazia sobre um dos ombros.
Áries o acompanhou com os olhos, completamente transtornado com a visão daquela figura assustadora, ainda mais o vendo sair do quarto de Afrodite naquela hora da manhã, e daquela maneira.
Aquilo, na verdade, estava sendo um choque de realidade para o lemuriano, pois apesar de saber que ali era um bordel comandado por organizações criminosas, jamais tinha de fato presenciado suas ações. Tudo aquilo era tão fora de sua realidade que imediatamente lembrou-se de seu mestre, Shion, e de como ele o havia alertado sobre os perigos e leviandade que cercavam o Santuário e o Mundo.
O Santo de Áries por natureza era um homem duro, um guerreiro habituado a lidar com a morte.
Muitos foram os que perderam a vida ao tentar chegar em sua torre em Jamiel, sucumbindo por suas próprias mãos, as quais em poucos anos já haviam criado um vale de ossos como aviso.
Todavia, a situação ali era bem diferente.
O Santuário ligara-se a duas poderosas máfias, e não havia honra alguma no crime.
A visão pérfida do Açougueiro deixando o quarto de seu amigo lhe causou tremendo incomodo, além de lhe deixar claro o quão baixo o Santuário de Atena havia chegado.
Foi com um extremo desassossego que Mu entrou no quarto de Peixes fechando a porta atrás de si, e o que encontrou lá dentro lhe causou outro choque.
— Pelos deuses! O que aconteceu aqui? — murmurou atarantado, enquanto corria os olhos verdes arregalados em espanto por toda aquela destruição.
O quarto de Afrodite parecia ter sido alvo de um furacão! A única coisa de pé era uma poltrona com o estofado todo rasgado.
Não vendo Peixes ali, Mu galgou alguns passos em meio aos destroços no chão, verificou o closet, e não o encontrando foi até o banheiro, onde finalmente viu o pisciano no chão abraçado ao vaso sanitário.
— Dido! — exclamou ao correr até ele, se agachar a seu lado e gentilmente lhe tomar as madeixas azuladas nas mãos, as levantando para que não caíssem dentro da latrina — Por Atena! O que houve com você?
Mu já estava mais que acostumado a ver o amigo usando roupas femininas, como o vestido de couro que usava, mas era extremamente raro vê-lo tão abatido e aos prantos como estava.
Quando percebeu Áries ali ao seu lado segurando seus cabelos, Afrodite arregalou os olhos e encarou seu rosto em silêncio.
Toda a tensão da noite passada, o beijo da morte que dera em Mônica, a retaliação que sofrera de Saga e Geisty, a nova rejeição de Camus, o beijo, que acreditava ter visto entre o aquariano e Misty de Lagarto e, por fim, o programa que tivera que fazer com aquele homem horrendo vieram à tona e uma ânsia desmensurada o levou a tentar por para fora tudo que sentia lhe revirar por dentro.
Porém, ao ver Mu ali, Afrodite largou o vaso sanitário e num impulso puramente instintivo abraçou o amigo, imprimindo força ao gesto.
— Mu! — disse em alto e bom tom, estranhamente experimentando uma sensação de alívio — Ah, Mu! Me leva para Jamiel, Mu? Não aguento mais viver aqui. Meu amigo, Mu!
O cavaleiro de Áries preocupou-se ainda mais diante de todo aquele pranto, mas faria de tudo para confortá-lo primeiramente, para depois tentar entender o que estava acontecendo. Por isso, não mais o questionou, sentou-se a seu lado e apenas abraçou o pisciano com força, deixando que ele se sentisse seguro com sua presença ali.
— Shii... Dido, se acalme. Eu estou aqui. — dizia ao acariciar os cabelos do outro — Eu acho que você odiaria Jamiel. — sorriu tentando descontrai-lo — É uma terra árida no alto das montanhas e dificilmente suas rosas cresceriam lá.
Afrodite afastou-se um pouco, apenas para olhar para o rosto do ariano, que lhe presenteava com um sorriso meigo e acolhedor.
— Do jeito que as coisas andam, nem aqui elas vão crescer mais, porque eu vou morrer. — lamentou-se choroso, depois puxou um tanto de papel higiênico e assoou o nariz, uma, duas, três vezes.
— Não fala bobagens. — retrucou Áries, lhe entregando outro tanto de papel higiênico.
— O que faz aqui essa hora da manhã? — questionou o pisciano.
— Ah... Para ser sincero, eu nem me lembrei de olhar as horas. Estou meio perdido no tempo... — Mu riu de si mesmo, pois estava tão eufórico que de fato não se deu conta de que era tão cedo — Eu tomei uma decisão e vim dividi-la com você, porque para dar certo preciso de sua ajuda... Mas, agora isso pode esperar. Você é mais importante, Dido. Quero saber o que houve. Seu quarto está destruído e você está cada dia mais triste. Está magro, abatido... E estou sentindo sua aura mais triste do que jamais senti. Estou preocupado. O que aconteceu? Por favor me conte. Deixe-me ajudá-lo.
— É a minha vida, Mu. — falou pesaroso o sueco, sentindo necessidade em desabafar — Está tudo desmoronando... Essa noite foi um inferno aqui. A Mônica... Ela morreu, e a demônia emporcalhou todo o quarto, e o Saga, aquele ingrato do pau torto, colocou a culpa em mim, mas não fui eu! Fui eu... Mas não, entende?
— A Mônica... Morreu? — surpreendeu-se o lemuriano.
— Sim... Mas foi o meu batom. — baixou os olhos evitando o olhar do amigo, já que sentia-se mal em mentir — Saga me mandou limpar o quarto e dar um jeito no corpo... Mas aquele pudim de Absinto não me deu um centavo para pagar o ocó* que limpa a sujeira. Que ódio dele... E agora todos acham que eu sou um assassino covardão, eu sei que acham... Mas, eu não sou isso, Mu... Depois, a maldita da Lagartixa Cascuda conseguiu mais uma vez me jogar no chão.
— Você e o Misty brigaram de novo?
— Não... Quer dizer, sim... — ao lembrar-se do banho de água fria que dera em Camus e Lagarto, Afrodite desatou a chorar novamente e continuou sua lamúria aos soluços — Por que ela tem sempre que tirar o que é meu? Agora eles vão ficar juntos, ele vai dar joias para ela, vai tirar férias em Bora Bora com ela, usar as calcinhas dela, enquanto eu... Eu vou ficar aqui sozinho, nesse quarto nojento cheirando a suíno até Atena ter piedade de mim e resolver voltar.
Mu sentiu seu peito apertar.
Apesar de ter conhecimento do quão sérias e verídicas eram as queixas, através das palavras veladas do amigo, o lemuriano sabia que no fundo toda aquela tristeza era fruto de um coração partido. Afrodite estava sofrendo por amor, e apesar de já ter suas desconfianças acerca da identidade da pessoa que havia roubado o coração do pisciano, Áries manteve-se calado.
— Dido, vamos lá para minha casa? Você precisa sair daqui, tomar um banho, está todo sujo. Depois eu te ajudo a dar um jeito nessa bagunça.
— O que? Ir pra sua casa? N-Não! — balançou a cabeça negativamente com veemência — Eu não quero causar mais problemas para você e o loirudo. Não se preocupe comigo. As Rosas Piranhas trituram todo esse lixo em segundos, inclusive essa porcalhada alofenta* que esses suínos deixam aqui. Melhor assim, Mu. Quero esse quarto vazio, como eu estou agora... — suspirou.
— Tudo bem, mas então vou te levar para outro lugar. Precisa sair um pouco daqui.
Sem aviso prévio, o Santo de Áries abraçou novamente o pisciano e quando Afrodite se dera conta o cenário claustrofóbico de seu banheiro no quarto do Templo de Baco fora substituído, como num passe de mágica, para a encantadora paisagem da praia grega que ficava nas imediações do Santuário.
Na mesma posição em que estavam sentados no chão ao lado do vaso sanitário, agora a areia fofa e aquecida pelo sol matutino sustentava seus corpos. Logo à frente, a orla agitada e a imensidão do mar azul lhes recepcionavam com seu bailado cadenciado e seu canto hipnótico.
O Santo de Peixes piscou algumas vezes estreitando os olhos que ainda se adaptavam à claridade demasiada, enquanto um sorriso, ainda que tímido, se desenhou em seus lábios ao sentir a brisa suave e o perfume da maresia lhes acariciarem delicadamente a face gentil.
— Obrigado, Mu. — Afrodite disse de olhos fechados, aspirando o doce aroma do mar que tanto lhe aprazia.
Fazia meses que praticamente morava no Templo das Bacantes, mais precisamente naquele quarto, só indo para a casa de Peixes dormir poucas horas e logo despertar para cuidar de suas rosas, já que até o treinamento diário não conseguia mais tempo para cumprir. Os negócios de Saga lhe tomavam todo o tempo disponível.
Durante o dia tinha que colocar ordem nas bacantes, rechaçar brigas, reprimir picuinhas, inspecionar as novatas, delegar as tarefas... A noite passava praticamente toda enfiado naquele quarto, fazendo programas com os homens que Gêmeos encaminhava para si, os quais quase sempre eram figuras muito influentes no cenário político e empresarial, além de casados e com algum fetiche sádico ou tara sexual sórdida.
Por isso, ver-se livre, de repente, daquele lugar, e com aquele mar tão lindo à sua frente lhe fez muito bem. Conseguiu ao menos parar de chorar e respirar aliviado.
— Agora que estamos em território neutro, pode me contar o que está acontecendo.
Áries ajeitou-se ao lado do sueco, cruzando as pernas. Transbordava de ansiedade para lhe contar acerca de sua descoberta na noite anterior e também dos planos que se seguiram depois dela, mas sabia que não era o momento ideal.
— Dido... Eu não sou bobo. Somos amigos. Ou melhor, estou certo de que você é meu melhor amigo, já que o Shaka subiu de cargo, né? — riu descontraído — Reconheço alguém apaixonado. Eu mesmo sou um... Olha, não precisa me dizer quem é ele, porque se não disse até agora deve ter seus motivos, então podemos chamá-lo de Fulano, e eu sei que Fulano por algum motivo está te fazendo sofrer. Quer me contar para que eu possa ajudá-lo, ou pelo menos consolá-lo? — puxou o cavaleiro para que se deitasse na areia com a cabeça em seu colo.
— Mu, eu não sei falar dessas coisas...
— Tente.
— O Fulano é um tipo desprezível... E ele já se arrumou com outro... E o que eu sinto por ele logo passa. É como dor de barriga. Te incomoda, mas depois que você... É, bem... é isso!
— Afrodite. — o ariano insistia.
— Sabe, Mu... Eu demorei para entender que gostava dele, porque eu nunca gostei assim de ninguém, mas ai ele se contaminou com fluídos de réptil e deve estar todo nojentão agora. Não quero outro suinão me arruinando a vida. Estou com muito nojo dele, exú sardento, cabeça de fogo das entranhas do Submundo, picolé de ingratidão... — bufou raivoso — Estou com nojo de mim também... Ontem alguém morreu por minha causa... Quer dizer, por causa do meu batom. — corrigiu rapidamente — Eu não sei fazer nada direito, Mu. Tudo que faço dá errado. Eu sou todo errado... Eu sou tão errado que estou na praia de vestido de couro! — começou a chorar novamente — Santa Cher deve estar se coçando de desgosto de mim, Mu!
Áries tentava com muito custo entender o que o amigo falava. Réptil e Lagartixa deveria ser Misty. Mônica morrera e pelo jeito tinha dedo do pisciano na história, mas julgou melhor não tocar no assunto, depois procuraria se inteirar do que havia acontecido. E o exú sardento, o cabeça de fogo das entranhas do Submundo e picolé de ingratidão só podia ser uma pessoa naquele Santuário.
— "Minha deusa! É mesmo o Camus!" — Mu pensou arregalando os olhos em silêncio.
O Santo de Áries havia matado a charada.
Afrodite se apaixonara por Camus. Não sabia se foi antes ou depois que ele o salvou dos russos meses atrás, mas deviam ter ficado juntos por algum tempo e então se separaram.
Por algum outro motivo que desconhecia, Peixes matou a bacante com quem Aquário sempre fazia programas, e por isso Camus se envolvera com... Misty de Lagarto?
Não.
Definitivamente Aquário ter algum envolvimento com Misty não fazia o menor sentido para Mu, uma vez que, mesmo vendo o francês poucas vezes no Santuário, Áries pode ler em sua aura a mesma tristeza que acometia a de Afrodite, ainda que Camus de tudo fizesse para demonstrar que estava bem.
Naquele momento, o ariano só conseguia sentir muita pena dos dois.
Sabia o quanto Camus estava envolvido com a máfia russa, e sabia o quanto ele era um homem frio, calado, distante e sério. Para Camus, envolver-se com alguém como Afrodite, gay, garoto de programas e um completo maluco assumido, era um tremendo choque de personalidades.— "Minha deusa! O Camus... O Camus é realmente gay? Que bomba! Como vai ser isso minha deusa? Coitados, estão lascados, os dois!" — pensou o ariano engolindo em seco.
— Você não é todo errado, Dido. — piscou algumas vezes o lemuriano tentando retomar o foco da conversa — Às vezes, o que acontece é pura falha de comunicação. Veja eu e Shaka. Tivemos aquela briga horrível por pura falta de diálogo. Nós dois nos amamos, mas não estávamos nos entendendo até colocar as cartas na mesa e deixar tudo às claras. Talvez seja isso que esteja faltando para você e o Fulano se entenderem.
— Como? Não há diálogo, Mu. Não conseguimos conversar sem que ele me ofenda ou me bata, ou sem que eu o ofenda... — admitiu por fim — Parece que há uma energia ruim entre a gente. É o cafuçu da Lagartixa Cascuda! Filhote do Aqueronte!
— Mas, se então não há diálogo, certamente há gestos. Mesmo não dizendo, o Fulano nunca demonstrou gostar de você também? Se sim, isso está me parecendo um caso de amor onde alguma coisa se quebrou, mas que possivelmente há de se ter um jeito de consertar.
— Ah, sim. Ele demonstrou sim. Aquendando os cinco dedos na minha cara. — resmungou emburrado o pisciano, mas enquanto Mu continuava a lhe dizer que o quão era importante o diálogo entre eles para que tudo se resolvesse, um filme se passava na cabeça confusa de Afrodite.
Nele, Camus era o protagonista sublime.
Via o ruivo sorrindo para si com seu mais sincero sorriso como sempre fazia momentos antes de lhe pegar no colo e lhe encher de beijos.
Nesse mesmo filme, Aquário lhe colocava joias de valor inestimável, lhe chamava de ma belle rose e lhe entregava uma rosa de gelo eterno enquanto beijava sua boca como ninguém beijara antes.
Peixes fechou os olhos deixando cair uma lágrima solitária.
— Eu não queria amar ninguém, Mu. — lamentou choroso — Eu escolhi passar a minha vida apenas me divertindo... Mas... Eu nem consigo mais me divertir. Está sendo tão difícil trabalhar no Templo, se é que me entende... Todas as noites... Todos aqueles suínos nojentos... Quando me deito com eles eu fecho os olhos e é no Fulano que eu penso, sabe... Para tentar fazer daquele momento o menos ruim possível... O que eu faço para voltar a ser quem eu era, Mu? Eu sou tão idiota... Eu disse a ele que gosto dele, mas ele já tinha me dito o que pensa de mim. Para ele eu sou mais desprezível que aquela nena* de cachorro ali na areia. — apontou para um montinho de fezes de cachorro sobre a areia.
— Você quer mesmo voltar a ser o que era? — questionou Mu com sua voz e postura condolente.
— Sim! — soluçou novamente em meio ao choro.
— Primeiro tem que parar de dizer, e também de acreditar, que é uma pessoa ruim, porque você não é. Se fosse uma pessoa tão desprezível quanto diz, o Fulano não teria se apaixonado por você. Quem se apaixona por um cocô de cachorro?
— ELE! — ergueu a cabeça exaltado — Ele agora ama a Lagartixa.
— Deixa de ser bobo. Você diz ter dificuldade para falar sobre sentimentos, mesmo sendo uma pessoa alegre e extrovertida. Já pensou que o Fulano também possa ter? — considerando suas suspeitas acerca da identidade do Fulano, Mu resolveu arriscar a falar indiretamente sobre ele.
Nessa hora, Peixes olhou para o ariano sem quase nem piscar, prestando atenção no que ele dizia.
— Já pensou que ele possa ser tímido, ou inseguro, até mesmo reservado... E que para se entregar ao amor que sente por você seja um enorme desafio para ele? Você tem a mim e no que for possível sempre vou te aconselhar a dar uma chance para o amor, mas... E ele?... Será que ele tem alguém para aconselhá-lo? Dido, amor e ódio são sentimentos que andam lado a lado, mas que não devemos confundi-los nunca. Quando briguei com Shaka eu lhe disse coisas que o feriram muito, escolhi atingi-lo em seu elo mais fraco, mas porque eu estava com raiva. Nada do que eu disse é de fato o que penso dele. Isso pode ter acontecido também com o Fulano. Ele te ofendeu na hora da raiva, mas nada do que te disse é o que ele de fato pensa de você.
— Nossa, Mu! Você entende tanto do amor! — piscou os olhos que até então estavam vidrados no ariano — Você que é cabaço entende muito mais que eu, que já sou rodado. Alôca!... Aliás, ainda é? Ou Shaka já liberou o tesourinho do céu?
— Afroditeeee! — Mu corou na hora e percebendo o embaraço do amigo, Peixes sentou-se à sua frente e o puxando para junto de si lhe deu um beijo estalado na bochecha.
— Você é lindo, sabia? Em todos os sentidos. Shaka pode ser, talvez, o cavaleiro mais poderoso desse Santuário, mas eu sou o mais sorrateiro. — disse estreitando os olhos — Eu mato esse loirudo se ele te fizer sofrer desse jeito, como o Fulano está fazendo comigo... Sabe... Acho que mesmo que ele me amasse de verdade e ficasse comigo, nunca poderia me assumir, como ele mesmo me disse tantas vezes. Não quer nem ser visto perto de mim! Eu que sou um tonto que achei que pedindo para ele ficar ele ficaria... É melhor eu esquecer... É isso. — levantou-se com um salto, enxugando o rosto com as palmas das mãos — Eu vou esquecer o que sinto pelo Fulano, Mu. Eu posso fazer isso! — apressado, desceu o zíper do vestido de couro e retirou a peça diante dos olhos surpresos de Mu, ficando apenas com a lingerie que tinha por baixo.
— Ei... Tem que ficar pelado para tentar esquecer o Fulano? — brincou Áries.
— Não faz a Katya*! Anda! Vamos dar um mergulho! — puxou o ariano pelas mãos o ajudando a se levantar — Quero pedir ao mar para que lave de mim esse ebó que o populacho chama de amor!
Aos risos, Mu retirava a camisa, os sapatos e as meias, os deixando junto do vestido preto inapropriado de Afrodite, e quando o sueco, que havia saído correndo à sua frente estava quase alcançando a margem, Áries se teleportou para junto dele e juntos mergulharam cortando as ondas.
Longos minutos depois, quando já estavam cansados de pular, jogar água um no outro e flutuarem na superfície embalados pelo cadenciado balanço das águas, voltaram para a praia onde se sentaram à margem, lado a lado, com os dedos dos pés enterrados na areia molhada.
— Então, vai me matar de curiosidade ou vai me dizer qual foi a tal descoberta que te fez ir me procurar no bordel tão cedo? — perguntou o pisciano enquanto torcia as longas madeixas azuis piscinas para retirar o excesso de água.
— Eu acho que descobri o que me trava na hora... Bem... Na hora do sexo. — respondeu Mu meio sem jeito.
— Ai pela coroa de lantejoulas de Dadá, não me diga que os dois são passivas! — exasperou-se o pisciano ao encarar o amigo.
— O que? N-Não... Não é isso não, bobo. Bem... Eu pelo menos acho que não... Enfim, eu vou te contar, mas tem que me prometer que por enquanto vai guardar segredo.
— Querido, guardar segredo é comigo mesmo. Seria capaz até de matar para preservar um segredo! — arqueou as sobrancelhas ao ver que Mu o encarou com um semblante surpreso — Alôca! — riu para distrair o outro.
— Bem... Dido, eu vou me casar com o Shaka.
Afrodite cessou o riso de imediato.
— Como é que é? — perguntou após alguns segundos maturando o que acabara de ouvir.
— Eu vou me casar com o Shaka. — repetiu o lemuriano — Eu decidi. Eu amo o Shaka. É com ele que quero passar minha vida e dividir os meus sonhos. É o rosto dele que quero ver antes de fechar os olhos para dormir e depois ao acordar. E é isso, é o casamento, o compromisso, o que está faltando para... Você sabe.
— Vai se casar só para conseguir comer o Shaka?
— Não! Claro que não, seu tonto. — Áries riu nervoso — Shaka já se decidiu, ontem até estava querendo, mas o problema agora é comigo. Dido, Shion me disse que quando encontrasse a pessoa certa para mim, a pessoa que eu amasse, deveria respeitá-la e firmar um compromisso com ela. Meu Mestre me ensinou que o casamento é a comunhão que abençoa os casais e que deve ser respeitado acima de tudo. Eu só não imaginava que a pessoa certa para mim seria um homem, por isso não pensei em casamento antes, mas somente agora. Quando vamos tentar transar, eu sinto que eu estou fazendo um mal a ele, algo desonroso. Eu fui educado para casar, Dido, ter uma família, tudo certinho e é isso que vou fazer.
— Tô sépian!* — exclamou o pisciano com ambas as mãos espalmadas sobre o peito — Mas... Mu, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é proibido aqui na Grécia e...
— Quem disse que vou me casar aqui na Grécia? — interrompeu o ariano de modo matreiro — Eu vou me casar na Índia!
— Pior ainda, Alice! Na Índia é proibido até ser gay. Alôca!
— Eu sei, mas até lá eu penso em um jeito. Só sei que vou me casar na Índia, em uma cerimônia tradicional, num Templo Budista e com tudo que Shaka tem direito, festa, música, rituais... Como nos filmes e novelas que ele tanto gosta.
— Shaka vê novela? — Peixes surpreendeu-se novamente.
— Ah... Esqueça essa parte. Dido, eu vou dar a ele o casamento dos sonhos, vou legitimar nossa união perante a religião dele, cumprir a promessa que fiz a meu Mestre de constituir uma família, e ser feliz ao lado do homem que eu amo para o resto da minha vida.
— Mu... — olhou para o lemuriano com os olhos azuis marejados e sem que Áries esperasse, o sueco o puxou pelos ombros lhe dando um forte abraço — Isso é a coisa mais romântica e linda que já ouvi na minha vida! — apartou-se dele e então olhou no rosto do amigo, visivelmente emocionado — Você é um homem incrível, e Shaka um homem iluminado de fato, por ser amado por alguém como você. Parabéns, meu amigo. Shaka deve estar muito feliz.
— Ele não sabe. — disse um tanto sem graça.
— Não? Que babado é esse?
— Vou fazer uma surpresa para ele. Shaka adora os casamentos das novelas que ele assiste. Quero lhe dar um casamento típico indiano.
— Mas, Mu... Vocês são homens. Nenhum Templo Budista indiano vai aceitar casar dois homens, meu amor... A menos que... — mordeu o dedo mindinho enquanto encarava o mar à sua frente, pensativo.
— A menos que o quê? — Mu perguntou ansioso, afinal ainda não tinha pensado como resolveria esse problema.
— A menos que um de vocês seja a noiva! Eureca! — deu um tapa no ombro do ariano deixando livre um largo sorriso — É isso. Nenhum monge nesse planeta aceitaria casar dois homens, mas um homem e uma mulher não será o menor problema.
— Você acha que...
— Sim! Mas é claro! — arregalou os olhos eufórico — Shaka é um lindo garoto de dezoito anos apenas, e que com a minha experiência se transformará facinho em uma linda noiva indiana. Só temos que pensar em como convencê-lo a vestir um Sari sem irmos parar em um dos seis infernos do Samsara lá, e essa é a sua missão!
Surpreso, Mu olhava para o amigo calado.
O plano era ousado, um tanto quanto inconsequente, já que estava arriscando perderem seus seis sentidos caso Virgem não aceitasse a ideia de se vestir de mulher, mas realmente não tinha muita escolha.
— Ah... E melhor não convidar ninguém, Mu. Que seja uma cerimônia particular, somente entre vocês, pois se a gente conseguir mesmo vestir o Buda de noiva, ele pode se sentir desconfortável se alguém daqui do Santuário o visse. E, poxa, é o casamento dele, e o seu, é o dia inesquecível de vocês... Ah, o amor!
Cruzando os braços atrás da cabeça, Afrodite deitou-se sobre a areia, e olhando para o céu distraía-se com os formatos engraçados das nuvens.
Havia uma grande nuvem cinzenta e disforme no horizonte que vez ou outra emanava uns relâmpagos — "Hum... Aquela ali parece o Camus. Pronta para vir aqui me chicotear e acabar com meu dia!" — pensava ensimesmado.
— Tem razão Dido... Não vou chamar ninguém, mas vou avisar ao Saga. Afinal, quero uns dias para minha lua de mel né. — disse o ariano, então limpou a garganta e um tanto quanto envergonhado continuou — Falando nisso... Na lua de mel, eu queria... Bem... Umas dicas suas quanto a... Sabe... A noite de núpcias, porque... Dido, eu confesso que não sei ao certo o que fazer. Na verdade, eu tenho muito medo de machucar o Shaka, porque você sabe, mulher é diferente, a Biologia já se encarregou de tornar os encaixes fáceis, mas...
— Sei... Você quer saber como comer o loirudo gostoso e tornar a noite de núpcias inesquecível! — disse o pisciano na lata.
— S-sim. — confessou o ariano, mais vermelho que um tomate maduro.
— Primeiro, sim, os deuses moldaram dois sexos e deram à Biologia o cargo de delegar suas funções, mas os deuses também nos deram o livre arbítrio e com ele a gente deu um jeito de burlar as leis da Biologia.
Mu olhou para o pisciano deitado sobre a areia que falava enquanto olhava fixo o firmamento.
— A nossa rosinha... Vamos chamar o edi* assim para você se sentir mais à vontade, tudo bem?
— Ah... Sim, tudo bem.
— Bom, a nossa rosinha de fato não foi feita para receber nada dentro dela, porém, tudo na Natureza é adaptável! Pensando nisso foi que o homem criou a indústria farmacêutica e com ela os incríveis lubrificantes! — olhou para Mu com um semblante sério — Nunca, em hipótese alguma, esqueça-se dos lubrificantes!
— Ah... Não. Não esquecerei. — Mu respondia completamente envergonhado, mas prestando atenção e fazendo notas mentais.
— Ótimo! Pois bem... — voltou a encarar as nuvens no céu — No futuro vocês irão descobrir outras formas de lubrificar a rosinha, mas por enquanto o gel é sua única opção!... Mas, esteja certo de que lubrificar apenas não basta. A rosinha é um órgão muito delicado e temperamental, não pode forçá-la de uma vez senão vai despetalar toda ela...
— Credo! Não quero fazer isso com ele!
— Por isso... Além da rosinha você tem que tratar muito bem o dono dela. Tem que deixar seu parceiro com muito tesão, relaxado... Então você prepara ele penetrando primeiro com seus dedinhos, fazendo uma preliminar bem gostosa, sem pressa, para conhecer o corpo dele e como ele reage a cada toque seu...
— Hum... Isso parece bom!
— Isso é ótimo! Quando você sentir que ele está seguro, que está afim e relaxado, querendo sentir você dentro dele, ai sim você coloca seu pau. Muita atenção, nessa hora! — deu um tapa na barriga de Mu que se assustou, o fazendo se curvar para frente e encará-lo com atenção redobrada.
— Coloca esse bilau devagar. Ainda mais se tratando do Shaka, que é virgem. Puxa é redundante falar isso!... Enfim, você terá que ser muito paciente, Mu, porque ele sentirá dor, mas apenas no começo.
— É isso que me preocupa. Eu também sou virgem. — Mu não diria a Afrodite, mas não era um homem "pequeno" e sua inexperiência poderia piorar ainda mais a situação.
— Que nada. É só você não ser um suinão sem jeito, grosseiro, bruto e apressado. Não pense apenas no seu prazer... Quando ele sentir dor você o encha de beijinhos, diminua o ritmo, deixe ele se acostumar, e então quando ele estiver louco de tesão, ai sim, você mete com vontade que ele vai delirar! Ai se joga, pintosa! Fala uns palavrões no ouvido dele, dê uns tapas na cara dele, chama ele de sujo... ALÔCAAA!... — caiu na risada, rolando na areia — Ah... Não. Não faça isso! Nem pense em bater na cara dele e chamá-lo de sujo que é capaz dele tirar seus seis sentidos!... Algo pode dar errado? Sempre pode! E vai dar errado algumas vezes. Lembra do que aconteceu comigo e o Saga? Então, mas com cuidado vocês vão acertar. Vocês se amam, Mu, o resto é consequência disso.
Completamente corado, Mu ouvia a tudo com muito atenção e admiração, devido a maneira simples e natural com que o pisciano falava de um assunto que para si sempre fora um tabu.
— Obrigado, Dido. Não sei o que faria sem você. Não me sinto à vontade em conversar sobre essas coisas com o Sha e penso que ele deve ter as mesmas dúvidas que eu, mas ninguém para conversar. Queria poder conseguir falar disso com ele sem morrer de vergonha. Shion nunca falou de sexo comigo. Descobri o que era orgasmo quando tive um sonho erótico, e acordei assustado ainda! — riu de si mesmo.
— Não pense nisso, Mu. Shaka está milênios à nossa frente no quesito sabedoria. Com certeza ele vai achar um jeito de sanar as dúvidas dele.
Mu concordou com a cabeça e ficou algum tempo em silêncio, até que com um longo suspiro resolveu também abrir seu coração ao amigo e lhe confessar suas dúvidas mais íntimas.
— E se tudo isso for uma loucura minha, Dido? — disse baixinho olhando para os próprios pés — E se ele não quiser casar? E se eu interpretei errado essa minha epifania que me disse que o casamento nos daria a segurança que está nos faltando? E se ele ficar bravo e me dar um pé na bunda? Eu vou querer morrer!
— Ei! Esse não é você. Exorciza esse exú dai, Mu! Que insegurança é essa? Confie no seu taco, bonito! — esticou as pernas e voltou a olhar para o céu.
A maldita Nuvem-Camus já estava quase sobre eles, com toda sua cor cinza fúnebre e seus relâmpagos frenéticos.
— Shaka é pirado em você. — concluiu o pisciano meio desanimado — Eu que o diga! O soco que ele me deu no nariz foi um soco de homem apaixonado! Quem me dera o Fulano quebrar o nariz de alguém por mim! É, a vida é assim, Mu. Uns ganham beijos, abraços, festas surpresas de casamento, enquanto outros ganham cintadas nas costas! — fez uma careta feia olhando para a nuvem.
— Não fale assim. — Mu acariciou os cabelos do amigo gentilmente — Eu sei que o Fulano deve estar confuso, mas se ele ama você de verdade ele vai dar um jeito. Onde há amor, há esperança. E se realmente ele está com a Lagartixa, espante ela! Você não é Afrodite de Peixes? Pois então, mostre ao Fulano o que você tem de mais forte e belo, que é o seu coração. Talvez ainda não tenha mostrado isso de fato a ele.
Peixes encarou mais uma vez o lemuriano, refletindo sobre o que ele havia dito. Realmente não havia mostrado seu coração a Camus, não como gostaria, nem como deveria. Mas, talvez não restasse mais tempo nem chances de fazê-lo.
Foi quando Afrodite pensou em contar a Mu que Camus era o Fulano, e pedir-lhe que assim como o iria ajudar a se casar com Shaka, ele o ajudasse a reconquistar o aquariano, que uma onda forte os pegou de surpresa, dando um caldo em ambos e os fazendo rolar na areia.
— Puxa vida! Deve ter areia até no meu... Na minha rosinha! — brincou o Santo de Áries aos risos enquanto se levantava cuspindo a areia que entrara em sua boca.
Afrodite vinha logo atrás puxando a calcinha para cima, pois a onda sorrateira o tinha deixado quase nu.
Às gargalhadas, os dois amigos voltaram ao local onde haviam deixado suas roupas e mesmo sujos de areia se vestiram para deixar o local, pois logo se iniciaria o expediente matutino do Templo das Bacantes e Mu tinha muito trabalho pela frente.
— Obrigado por tudo, Mu. Estar aqui hoje, nessa praia e ter a honra de ajudá-lo a realizar o seu desejo de casar com o Buda me fez muito bem. — disse ao puxar o amigo para outro abraço, recordando-se na noite terrível que tivera na véspera.
— Quer ajuda com aquele entulho todo no seu quarto do Templo? — ofereceu o ariano.
— Não. Como disse, as Rosas Piranhas reduzirão tudo a pó, depois é só varrê-lo para baixo do tapete. — assegurou melancólico, pois sabia que não teria dinheiro para repor os móveis e os itens destruídos, e que Saga o faria trabalhar em dobro para pagá-los — Vamos? Quero ir para minha casa e cuidar das minhas rosas. Ando tendo pouco tempo para elas.
— Vamos.
Templo de Baco
Por volta das dez da manhã, o sol invadiu sorrateiro o quarto que Saga de Gêmeos ocupava no Templo de Baco, através da janela que havia sido esquecida aberta durante a noite. Ao sentir a luz acalorada tocar-lhe o rosto, o geminiano se remexeu sobre os lençóis, incomodado, até que abriu os olhos e resignado sentou-se à beirada da cama, sentindo sua cabeça latejar devido uma leve ressaca.
— Mas que... Merda. — esfregou a testa já arrependido de ter bebido tanto, uma vez que sabia que teria diversos problemas para resolver logo pela manhã.
Sem mais poder esperar ou mesmo adiar seus compromissos, Gêmeos se levantou e a passos lentos caminhou até o bar que havia ali em seu quarto. Serviu-se de uma dose de whisky, a qual virou toda em um único gole, e seguiu desmotivado até o banheiro, ansiando para que um banho frio tirasse aquela ressaca de seu corpo.
Enquanto isso, no andar de baixo, na grande cozinha onde era servido o café da manhã, como de costume as bacantes estavam reunidas fazendo seu dejejum. Um clima tenso pairava sobre todos, ainda mais que a presença fúnebre e assustadora do Açougueiro fora vista algumas vezes trançando pelo salão munido de baldes, escovões e toda a sorte de instrumentos para lá de estranhos.
Encostadas junto ao armário de louças, Geisty, Shina e Marin conversavam aos sussurros sobre o ocorrido à Monica na noite anterior, e Serpente não tinha o menor receio de expor sua opinião, estando mesmo indignada quanto ao caso.
Nessa hora, Misty de Lagarto chegava à cozinha para também tomar seu café da manhã e assim que percebeu as amazonas afastadas das outras garotas discretamente se aproximou para ouvir a conversa sussurrada, indo até um dos armários fingindo estar à procura de algo qualquer.
Contudo, sua tentativa não passou despercebida aos olhos verdes e atentos de Shina, que com um leve toque no braço de Geisty lhe chamou a atenção a fazendo se calar.
Ao perceber que as três lhe olhavam incisivas, Lagarto fez o que fazia de melhor, dissimulou:
— Bom dia, moças! Sabem onde está o pote de doce de leite? Não o acho em lugar nenhum... — falava enquanto abria gavetas e portas.
Shina revirou os olhos em impaciência.
— Menos Misty, já deu para ver que você está sondando.
— Eu? Sondando? Vocês? Se enxerga, Shina! — fez-se de desentendido — Eu tenho coisa melhor para me ocupar, querida. Depois, seja lá o que vocês estiverem tramando, eu tô fora. Não quero mais problemas na minha vida, mesmo porque esse lugar já é cheio deles. Já basta o que aconteceu ontem...
— É exatamente disso que estamos falando. — rebateu Geisty, colocando-se à frente do cavaleiro de Prata ficando a poucos centímetros — Agora, se eu fosse você, me preocuparia mais com tudo isso sim, principalmente porque o teu rabo pode estar na reta. Afinal, Afrodite te detesta, não é mesmo? Ou estou enganada?
— É reciproco, meu bem. Eu também detesto aquela bicha peixosa. Estamos quites. — deu de ombros o francês.
— Ah, deixa de ser ridículo Misty! — o rosto da bela morena contorceu-se — Já que está aqui, eu acho melhor você participar da conversa, porque a coisa é muito séria.
Lagarto espirou pausado, encarando a morena de forma firme e depois olhando para Águia e Ofiúco que aguardavam uma postura de sua parte.
— Ok. Fala. O que estão pensando em fazer?
— Como eu dizia à elas, não estamos seguros. Se Afrodite teve a coragem...
— Coragem não, covardia, né mana? — interrompeu Misty, pondo mais lenha à fogueira.
— Sim! A covardia de fazer algo contra Mônica, uma civil e pobre coitada que não lhe representava nenhum risco, o que não poderá fazer contra nós, que somos um obstáculo considerável? — Geisty falava em baixo tom de voz, porém enérgico.
Marin, que estava ao lado de Serpente, retrucou.
— Não acho que Afrodite pretenda algo contra nós... Que benefício ele teria em nos eliminar? Talvez seja melhor falarmos com ele, ou com Saga, para tentar entender o que de fato aconteceu. — disse Águia.
— Ah, por favor, Marin! — retrucou a morena gesticulando nervosamente a mão no ar — Ontem ficou claro que se dependermos de Saga para bater de frente com Afrodite morreremos como moscas. Precisamos nos organizar, para protegermos a nós e às garotas, que estão completamente vulneráveis aquele calhorda. Essa é nossa função como amazonas de Atena, proteger os mais fracos e não tirarmos proveito deles pela nossa força, como Afrodite fez na noite passada.
Marin engoliu em seco. Era nítido que Geisty estava exaltada, bem mais do que deveria e não estava gostando nada do rumo que aquela conversa ganhava. O melhor e mais seguro que podia fazer no momento era acompanhar de perto os planos que a amiga traçava. Sendo assim, preferiu se calar, mas estaria em alerta caso precisasse acalmar os ânimos agitados.
— E como vamos fazer isso, gênia? Afrodite é uma bicha cretina com ovas de peixe no lugar do cérebro, mas é um cavaleiro de Ouro. Não podemos medir forças com ele. — perguntou Misty.
— Como vamos fazer isso? Nos unindo, gênio! — respondeu a amazona de Prata — Mesmo Afrodite sendo um cavaleiro de Ouro, nós somos quatro Pratas. Juntos criaremos uma resistência! Mesmo que não tenhamos o apoio de Saga, duvido que ele vá deixar que o puto descontrolado dele mate parte da patente prateada do exército de Atena a troco de intrigas pessoais.
— Geisty, você está exagerando! — novamente Marin se interpôs, recebendo de volta um olhar firme da amazona, que respirou ruidosa franzindo o cenho em contrariedade — Isso não é uma guerra para termos de erguer um levante! Você me parece perturbada demais com essa história.
Shina, que havia visto Saga deixar o quarto da amazona na calada da noite e que já imaginava que todo aquele ódio da amiga contra o Santo de Peixes ia muito além de apenas represália ou senso de justiça, achou melhor dar aquela discussão por encerrada, antes que o próprio temperamento passional da amiga a entregasse.
— Exagerando ou não, se Afrodite tem mesmo culpa ou não, isso não vem ao caso agora. — falou Ofiúco ao se colocar entre elas — Mônica está morta, todos sabemos que foram as toxinas de Peixes que a mataram, porém não sabemos em quais circunstâncias. Por isso, eu concordo com Geisty, temos sim que proteger as garotas e a nós mesmos, mas também acho que precisamos esperar, ou até mesmo cobrar, uma posição de Saga, e não agir por conta própria. Afrodite é um cavaleiro muito poderoso e não acho bom provocar a ira dele.
— Que seja. — respondeu Geisty com desdém — Provavelmente Saga irá se pronunciar. Não sei mais o que esperar dele. — disse essa frase baixando o olhar e com voz baixa, numa constatação feita a si mesma, depois voltou a encarar os colegas de Prata — Será a partir da posição do Grande Mestre que tomaremos a nossa. — concluiu de forma firme para deixar em seguida a rodinha que se formara pelos quatro prateados.
Pegando uma das maçãs que haviam na fruteira ao centro da mesa, deu uma mordida na fruta com raiva enquanto sua mente fervilhava em ideias.
Não tardou para que a previsão da amazona se cumprisse.
Cinco minutos depois, Saga descia as escadas e atravessava o salão com um semblante fechado e olhar taciturno.
Definitivamente aquele não estava sendo um de seus melhores dias.
Ao chegar à cozinha, correu os olhos rapidamente pelo local dando um bom dia seco a todos. Recebeu de volta olhares amedrontados que vinham das garotas estrangeiras, as quais ainda estavam muito perturbadas com a morte da colega sérvia.
No entanto, nenhum daqueles olhares lhe era mais desconfortável do que o da própria namorada, a qual lhe encarava de forma ríspida e questionadora.
— Quero que estejam no salão assim que terminarem seu dejejum. As estarei aguardando lá. — disse de forma objetiva, em tom grave e decidido, e logo após deixou o recinto, sendo acompanhado pelo olhar analítico de Geisty.
No salão, Gêmeos sentou-se em um dos sofás vermelhos que ficavam fixos a uma das grandes paredes de espelhos, soltando um suspiro cansado. Era muito mais um desgaste emocional que sentia do que físico.
Todos os seus esforços pareciam em vão naquele momento. Sentia que tudo escapava ao seu controle de forma desvairada, e que todos os planos que havia traçado tão meticulosamente se desfaziam como poeira levada pelo vento.
Não conseguia enxergar como havia errado tanto nas suas escolhas. Afrodite estava levando seu empreendimento para o fundo do poço, e Geisty, a menina dos seus sonhos, a quem havia se agarrado com unhas e dentes como sua boia de salvação da loucura que o consumia de dentro para fora, se mostrara na noite anterior tão louca quanto si próprio.
O geminiano se perguntava se havia sido ele que a enlouquecera ou ela sempre fora assim e a paixão o cegara a tal ponto de não conseguir enxerga-la.
O fato era que os problemas se multiplicavam sem parecer haver solução.
Poucos minutos depois, após se agruparem na cozinha, as bacantes seguiram até o salão.
Aquelas que ainda não haviam descido foram chamadas de pronto e já se juntavam às outras, até que todos estavam dispostos frente ao Santo de Gêmeos.
— Bem. — deu inicio à conversa o grego — Creio que seja do conhecimento de todos o incidente da última noite. Infelizmente perdemos Mônica, por um triste acaso, o qual, diga-se de passagem, foi ocasionado por ela mesma.
Nesse momento, o som discreto de um pigarrear foi ouvido em meio à massa de garotas que olhavam assustadas para Saga, fazendo interromper-se e encarar a amazona de Serpente de forma grave, dando-lhe um recado silencioso para que não o atrapalhasse novamente.
— Eu conversei com o cavaleiro de Peixes e, infelizmente, a morte de Mônica se deu por uma trágica fatalidade. — novamente encarou Geisty de forma ríspida, pois já percebia a namorada cruzando os braços e inflando o peito, visivelmente irada com suas palavras — Como lhes foi alertado quando chegaram aqui, e creio que tenha sido o próprio cavaleiro de Peixes quem lhes fizera esse alerta, vocês não devem, em hipótese alguma, acessar os quartos de suas, e de seus, colegas. Não é permitida a entrada nos aposentos que não lhes pertencem, a não ser que o dono dos mesmos os convide.
As meninas se entreolhavam apreensivas, recordando-se de que de fato Afrodite as tinha feito esse alerta logo que chegaram para trabalhar ali.
— Mônica não respeitou essa regra. — continuava o geminiano — Infelizmente ela entrou no quarto do cavaleiro de Peixes e fez uso de um de seus batons.
Nessa hora um buchicho se soergueu.
Uma dúzia de vozes sussurradas exaltava-se ao mesmo tempo, acabando com o silêncio e o clima tenso que pairava sobre elas. Mãos trêmulas iam até os rostos surpresos, bocas se entreabriam em espanto e olhos arregalados encaravam umas às outras.
Em contrapartida, Shina olhava para Marin de modo impassível, enquanto Geisty sentia a garganta lhe estrangular, tamanha sua indignação e vontade de acabar com aquela farsa, pois mesmo que não tivesse provas contra o pisciano, algo lhe dizia que a morte da bacante não havia sido uma mera fatalidade.
— Não sei se é do conhecimento de todas, porém creio que seja da maioria, que nós, cavaleiros, possuímos habilidades especiais, além da compreensão humana, e que uma das habilidades de Afrodite é a criação, manipulação, e inoculação de toxinas e venenos letais, por isso recomendamos tanto que fiquem sempre longe de seus produtos de uso pessoal.
Assustada, Karina levou a mão à boca tentando conter a exclamação muda que lhe escapou.
— Por causa do Cosmo do cavaleiro de Peixes, e de seu treinamento rígido desde criança, ele é imune aos venenos e toxinas que constituem sua fisiologia, tendo de coibir seu Cosmo quando está em contato com outras pessoas para não os contaminar, porém essas substâncias altamente letais podem ficar acumuladas em seus objetos de uso pessoal, já que ele está quase sempre sozinho quando faz uso deles e, portanto, não teria que anular seu Cosmo. Assim sendo, ele acredita, e eu também, afinal Afrodite não teria razão nenhuma para matar Mônica, que o batom que ela usou estava altamente contaminado por suas toxinas naturais.
Gêmeos então respirou fundo e deu uma breve pausa para que as moças pudessem absorver aquela informação, então prosseguiu em tom mais severo.
— Sendo assim, eu reafirmo. Não são permitidas as invasões aos quartos. Caso não seja respeitada essa ordem as punições serão severas. O mesmo vale para casos de furtos. Sei que muitas de vocês vieram para cá refugiadas. Milo me disse que a maioria de vocês trabalhava em bordeis em regime de escravidão, sem ver a cor do dinheiro, que ia direto para seus aliciadores. Aqui vocês são livres. Recebem metade do valor dos programas e podem sair a hora que quiserem e gastarem seu dinheiro como quiserem, mas precisam respeitar as normas da casa. E mais um detalhe, o que acontece aqui, se mantém aqui. Nada do que aconteceu ontem deverá ser comentado com qualquer um dos frequentadores da casa e muito menos lá fora. Não posso garantir a segurança de vocês se não colaborarem. Espero ter sido bem claro dessa vez. Agora, se me permitem, tenho outros problemas a resolver...
Ao se levantar e passar pelas garotas que lhe abriam passagem, Saga procurou discretamente o rosto de Geisty, para talvez tentar trocar algumas poucas palavras com a namorada, acreditando que ela já estivesse com a cabeça mais fria.
Mas percebera o ledo engano ao fitar o par de olhos violetas que lhe encaravam com rispidez.
No mesmo instante o geminiano desistiu de seu intento e seguiu para a porta de saída do Templo deixando o local.
Geisty acompanhou todo o trajeto do grego. Contraia os lábios em raiva, tanto pela postura condescendente do namorado, que novamente acobertava Afrodite, quanto por não poder expressar sua insatisfação.
Ao perceber Karina passar por si para voltar ao quarto, a amazona de Serpente a deteve segurando em seu braço, fazendo a jovem loira a olhar curiosa.
— Não acredito que Mônica tenha invadido o quarto de Afrodite. — sussurrou enquanto via as outras meninas se afastarem — Porém, não sei também por qual motivo aquele covarde deu cabo dela.
— Sabe para onde a levaram, Geisty? — perguntou Karina em baixo tom, visivelmente abalada — Mais cedo vi um homem grande, estranho e sujo carregando um tapete enrolado escada à baixo... Será que... Ao menos teremos uma sepultura para lhe prestar alguma homenagem?
Naquela hora, Geisty abandonou toda a marra que consumia seu ser e olhou para a loira à sua frente. Sentiu pena dela, de todas ali, que de um jeito ou de outro, por bem ou por mal, serviam a um proposito que era justamente o de salvar a sua vida, mesmo que para isso, sem terem consciência, arriscavam as delas. Sentindo os olhos se aquecerem, os fechou tentando conter a emoção e meneou a cabeça em negação, sem coragem de encarar o olhar aflito de Karina.
— Eu creio que não, minha querida. — Geisty disse com pesar, pois sabia melhor que ninguém como se moviam todas as peças que compunham uma organização criminosa poderosa como a máfia grega e a russa, devido seu envolvimento com Kanon — Karina, nenhuma de vocês civis estão seguras. Se não querem acabar como a pobre da Mônica, sufocando no próprio sangue, fiquem atentas, não confiem em Afrodite e a qualquer sinal de perigo me avisem. A mim, à Shina, Marin ou Misty. Nós podemos proteger vocês... Dê esse recado às outras meninas. — disse por fim soltando a moça que a fitava em assombro.
Geisty então seguiu resoluta para o campo das amazonas, sendo seguida por Marin e Shina.
A rotina de treinamentos das amazonas naquela manhã foi silenciosa e intensa como nunca.
Moscou, Rússia.
Camus havia voltado para sua mansão na capital russa logo que o sol raiara.
Enquanto cruzava os céus em seu jato particular, o Santo de Aquário já fazia contato com Dimitri Yurievich Volkov marcando um almoço, resignado a retomar a confiança plena que o "pai" da Vory v Zakone tinha em si, bem como o curso de sua própria vida, perdido quando envolvera-se com o Santo de Peixes.
Exatamente no horário marcado, foi com o espírito abatido que o francês estacionara o seu Cadillac One blindado em frente à propriedade luxuosa do Vor para apanhá-lo e juntos seguirem a um dos restaurantes financiados pela máfia russa.
Lá, enquanto saboreavam uma tradicional Borshch, sopa de beterrabas com carnes, como entrada, Camus assegurava a Dimitri que havia resolvido todas as questões que ainda o prendiam na Grécia, e que agora pouco iria para lá, dedicando-se totalmente à Vory.
Aquário também assumira a morte de Mônica como uma ação sua, para que nada desviasse novamente seu foco.
Como esperado, Dimitri ficara extremamente satisfeito e Camus ganhara mais alguns pontos consigo, além de muito prestigio por, em teoria, ter assassinado a prostituta por quem se apaixonara, tudo em nome da "família"!
Como um mentiroso nato, foi com um sorriso satisfeito e um abraço filial que Camus retribuiu os cumprimentos do Vor, mantendo-se indiferente enquanto Dimitri elogiava sua competência e obstinação.
Ao final do almoço, o Santo de Aquário conduziu o "pai" de volta para sua casa e como lhe havia assegurado, enquanto comiam e tratavam de negócios, fora pessoalmente receber, e testar, a pureza do carregamento de cocaína e heroína que havia chegado pelas fronteiras orientais.
Provada a qualidade da droga, que deveria ser condizente ao preço pago pela Vory, Camus encarregou Andreas, seu braço direito, e Miroslav, um rapaz russo que já estava na "família" há alguns anos, mas que só agora subira de cargo, de tratarem do transporte da droga para os galpões da máfia, onde ela seria distribuída.
Tudo nos conformes, assim que se viu com o resto da tarde livre Aquário fez uma nova ligação e agora seguia dirigindo seu Cadillac pelas ruas de Moscou à caminho de uma floricultura que ficava nas imediações do Parque Gorky, onde se localizava um dos maiores rinques de patinação no gelo da capital russa.
Estacionou o carro, comprou as flores, um gigantesco buquê de tulipas brancas com camélias rosadas, e caminhou até a pista, onde de longe já via a razão de estar ali, conformado em seguir sua vida trancando para sempre em seu coração o amor que sentia pelo cavaleiro de Peixes.
Amor esse que dedicaria todo a ela.
Natassia.
Ao longe podia vê-la rodopiando graciosa sobre o tapete de gelo. Linda, com seus cabelos dourados como um campo de trigo que é banhado pelo sol a girar em torno de seus braços cobertos pelo grosso tecido de lã do agasalho que usava.
Ali estava a mulher que detinha todo o amor e dedicação incondicional do sisudo cavaleiro do gelo.
Olhando para ela enquanto se aproximava da borda do rinque, Camus sentiu vontade de sorrir, mas uma sensação de estrangulamento lhe sufocava a garganta e um aperto no peito o impedia de sentir-se plenamente feliz ao olhar para ela.
Sentia culpa, muita culpa, por tê-la colocado em situação de risco, por não ter conseguido deixá-la fora da máfia, por não tê-la visto dançar após sua recuperação de uma cirurgia no tornozelo.
Havia falhado com Natassia.
Estava perdido nesses pensamentos quando sua presença fora notada, não apenas pela bela bailarina, mas por muitos que estavam ali se divertindo naquele rinque, afinal era muito difícil não se notar a figura incomum de um homem belo e elegante, de longos cabelos ruivos, que segurava um enorme buque de flores nos braços e que trajava apenas uma camisa de manga comprida e calça social enquanto todos vestiam pesados agasalhos, gorros, luvas e cachecóis.
— Camus! — um sorriso adornou os lábios da bela patinadora que deslizou imediatamente até à borda para encontrá-lo, acenando enquanto patinava.
Não contento a alegria, tampouco a saudade, Natassia abriu os braços ao chegar até o francês e o recebeu com um abraço apertado, dando um beijo estalado em seu rosto.
— Natassia, ma cherie! — a saudou o ruivo, retribuindo o abraço e sentindo o peito aquecer-se — *Pardon, eu deveria ter estado lá ontem, na sua apresentação... Mas, aconteceram tantas coisas... Eu nem estava no país.
Camus então se afastou estendendo o buquê para ela, em seguida ativou seu Cosmo criando uma lâmina fina de gelo sob seus pés, a fim de que pudesse patinar no rinque junto da bailarina.
— *Não se explique, meu querido. — respondeu a loira sorrindo, enquanto aproximava as flores de seu rosto delicado aspirando o perfume — *Você estava lá sim. Em meu coração. Depois, foi apenas mais uma apresentação como tantas outras. Mas, você anda trabalhando demais. Isso sim me preocupa.
Deslizando poucos metros para o lado, Natassia pousou o buquê na margem do rinque, onde já estavam sua mochila com as roupas das aulas de balé e um pesado casado de lã. Em seguida, voltou até Camus e o tomando pelas mãos o puxou para deslizar consigo para o centro da pista de gelo.
— *Venha. Concede-me a honra dessa dança, monsieur? — sorria ao conduzi-lo.
— Oui.
Foi tudo o que Camus respondeu ao segurar-lhe a cintura e correrem juntos pelo rinque.
Estava feliz por vê-la, mas não estava em paz.
A ameaça de Dimitri ainda era muito viva em sua mente.
Enquanto rodopiava com Natassia desenhando sulcos no chão de gelo com seus patins improvisados, Camus refletia sobre as palavras que Afrodite havia lhe dito na noite anterior, sobre ele não conseguir viver escondendo quem realmente era o tempo todo.
Mas, Peixes estava errado. Tinha que estar!
Teria que esconder sim, reprimir como sempre fez, pois disso dependia a integridade de Natassia, a sua, e até mesmo a do Santo de Peixes.
Precisava mais do que nunca esconder seus sentimentos e fingir que nada mudara dentro de si, ou poderia não ter outro bode expiatório como Mônica para levar a culpa de suas irresponsabilidades.
Quando se deu conta estava parado com Natassia de frente para si olhando diretamente em seus olhos. Distraído, nem tinha notado que ela o levara para longe de todos os outros patinadores, em uma parte mais isolada do rinque.
— *Camus... O que está acontecendo?
— *Nada... Só estou cansado, ma cherie. Como você disse, eu tenho trabalhado demais, apenas isso. — desconversou enquanto buscava afastar da mente toda aquela avalanche de pensamentos, lembranças e emoções.
— *Eu conheço você. — Natassia o abraçou pela cintura juntando seus corpos, e então pousou a cabeça sobre o peito forte do cavaleiro — *Pode enganar a Vory, pode ludibriar Dimitri, pode até mentir para si mesmo... — erguendo novamente a cabeça buscou os olhos avelãs do ruivo, os encarando com firmeza — Mas não enganar a mim...
— *Que bobagem, Natassia. — tentou distrai-la sorrindo e deslizando a ambos como num bailado — *Non estou escondendo nada de você.
— *Hum... Então me diga... Quem é ela? — inquiriu com um sorriso sapeca.
— Pardon? — Camus parou de girar, ficando imóvel ao arregalar os olhos em surpresa devido à pergunta.
— *Não se faça de desentendido. Você está apaixonado, Camus! — Natassia continuava sorrindo, agora também do embaraço do ruivo diante daquela pergunta, o que só comprovava suas suspeitas.
Nunca havia visto o cavaleiro distante daquela forma, com o olhar tão perdido.
Camus tinha apenas vinte anos e o conhecia melhor do que ninguém. Sabia que algo muito profundo o estava afetando, e olhando dentro de seus olhos reconheceu o brilho daqueles que sofrem por amor.
— *Non diga você bobagens. Sabe que em minha vida non há espaço para essas tolices sentimentais. — o ruivo disse continuando a deslizar devagar, agora de mãos dadas a ela, indo um pouco mais a frente para que não tivesse que encarar seus olhos azuis.
Natassia não rebateu, o seguindo alguns instantes em silêncio, pensativa.
Algo perturbava Camus, e isso estava tão claro quanto os raios do sol. Ele podia parecer um cristal sólido de gelo aos olhos de todos com quem convivia, mas sempre fora capaz de enxergar as dores de sua alma quando firmava seus olhos aos dele.
Foi então que uma curiosidade ousada se formou na mente da bailarina.
Lentamente ela parou, puxou o cavaleiro pela mão o obrigando a parar e colocou-se novamente à sua frente, encarando seu rosto taciturno.
— *Camus... — era como se o mar azul do olhar dela pudesse penetrar a alma do aquariano.
— *Diga, Natassia.
Um segundo tenso se passou e quando Natassia abriu novamente os lábios, o que ela disse atingiu Camus em cheiro.
—... *Quem é ele?
— *O... O que?
De olhos arregalados e ofegante, Camus ficou tão aturdido com a pergunta que desequilibrou-se e só não foi ao chão porque Natassia o havia amparado, lhe ajudando a recuperar o equilíbrio.
— *Non sei do que está falando, Natassia! Ficou louca?
— *Camus, por favor! Eu mais do que ninguém conheço a angustia no olhar de um coração que é proibido de amar! — sussurrava próximo ao rosto corado e aos lábios ofegantes do francês — *Sabe bem disso... Há meses o vi radiante, e vibrei em silêncio por você, e agora... Tudo que vejo é dor e aflição. O que aconteceu? Não me diga que Dimitri...
— *Non lhe digo nada, Natassia. Simplesmente porque non há nada a ser dito. — soltou as mãos da bailarina fazendo menção em lhe dar as costas para deixar o local. Não queria, e não podia, tocar naquele assunto — *Você como sempre está fantasiando. Essa sua cabecinha sonhadora ainda irá te colocar em risco. Esqueça esse assunto, por Dieu!
Em um gesto rápido, Natassia agarrou no punho do aquariano e o impediu de seguir, fazendo Camus virar-se novamente de frente para si.
— *Eu esqueço! — disse de forma enérgica — *Não é isso que resta a nós, mulheres, dentro da "família"? Eu esqueço, Camus, mas e você. Será que conseguirá esquecer também?
Camus estreitou os olhos, aturdido com o modo exaltado com que a loira lhe falava.
— *Até quando acha que vai conseguir viver sozinho? Escondendo-se até de si mesmo?
— *Eu cheguei até aqui, non? Do mesmo jeito, Natassia.
— *A vida não é como no Bolshoi, Camus, onde vestimos um personagem e vivemos seus dramas apenas enquanto o espetáculo existe no palco. Depois nos despimos dele e voltamos a ser quem somos... Mas você não, Camus, meu querido... Você vestiu o personagem, o Vor sangue frio, vazio de sentimentos, duro, seco e não mais se despiu dele... Até que um dia olhei para seu rosto e depois de tantos anos vendo seu personagem eu finalmente vi você, o Camus, meu amado irmão. O menino alegre e gentil que cantava para eu dançar, que ensaiava os passos do balé comigo...
— *Non... Natassia... Non faça isso, s´il vous plait...
— *Você voltou a ser o Camus, alegre e descontraído da infância, mesmo com todo o sofrimento que passamos... Algo, ou alguém, conseguiu te trazer de volta depois de tantos anos, meu irmão... Por favor... Não feche seu coração para isso... Para ele!
— Nat...Natassia... — aturdido o aquariano sentia seu coração aos pulos.
Sua irmã parecia lhe conhecer até mais do que ele gostaria.
Sem conseguir negar, mas também sem conseguir confirmar o que ela dizia, o cavaleiro olhou em volta verificando se não havia ninguém por perto e rapidamente puxou Natassia até um banco que ficava à beira do rinque, onde se sentou ao lado dela.
— *Non sabe o que diz minha irmã. — falava em tom muito baixo, finalmente abrindo um pouco seu coração. Talvez Natassia fosse a única pessoa com quem pudesse verdadeiramente contar — *Fui fraco... Inconsequente... Non pensei em ninguém além de mim... Eu errei, Natassia... Fiz coisas que non deveria e coloquei a todos em perigo. Você, nossa família... Até mesmo... ele.
Não querendo interromper um momento tão raro como aquele, a loira apenas estendeu a mão e segurou firme nos dedos gelados do irmão mais novo, lhe dando forças para continuar.
— *E... Eu non sei como consertar... Tudo que eu faço só piora a situação.
Camus então ergueu o rosto e olhou diretamente para a irmã, deixando transpassar toda sua dor e pesar.
— *Um Vornon pode amar, Natassia... Non como eu amo. Non quem eu amo.
— *Claro que pode Camus. — disse a loira entusiasmada — Não aqui, nesse país, e jamais dentro da "família", mas, por Deus meu irmão, você é tão poderoso... Vá embora, fuja para bem longe. Não deve nada a eles. Camus.
— *Mas devo tudo a ele, a meu Mestre. Tudo que tenho e tudo que sou. Eu fiz uma promessa a meu Mestre quando ele me salvou da morte, Natassia. Non vou desonrá-lo. — dizia Camus muito sério, mas logo seu semblante se tornou muito mais soturno, e por que não também temeroso — *E mesmo que non tivesse dado minha palavra, sabe que ninguém sai da "família". A Vory v Zacone non aceita desonra ou desertores, seus cargos são vitalícios. Por isso tatuamos as estelas no nosso peito... Mesmo que eu quisesse, que de alguma forma esse seu delírio fosse real e eu... Eu estivesse, sabe... Amando em segredo, eu nada posso fazer Natassia... Dimitri estava ontem em sua apresentação. Ele me ligou durante o seu solo. Você sabe que isso significa. Non é somente a minha vida e a... A dele que estão em risco. — Camus então apanhou a mão da irmã entre as suas e beijou-lhe os dedos — *Se eu cometer algum erro não irão me perdoar e todos a quem amo irão pagar... todos! Jamais me perdoaria se algo ocorresse a vocês!
Introspectivos, mergulhados naquele momento tão tenso e melancólico, em silêncio os irmãos se entreolhavam percebendo a angustia no olhar um do outro, quando uma balburdia que se formava um pouco mais à frente de onde estavam lhes chamou a atenção.
Rapidamente os olhos azuis cintilantes da bailaria e os avelãs profundos do cavaleiro se direcionaram atentos para um grupo de policiais que tentava deter um casal de patinadores.
Munidos de cassetetes e um palavreado chulo, os homens da lei a fazia se cumprir enquanto davam coronhadas na cabeça da dupla, que aos gritos exaltados procuravam se defender, ao mesmo tempo em que uma pequena multidão já se erguia ao entorno deles encorajando a ação dos policiais, apoiando a prisão do casal.
Eram dois garotos. De não mais que vinte anos cada um.
O crime?
Ousaram burlar as leis do país e patinavam de mãos dadas, aos risos e olhares cumplices, até que sua audácia e ousadia juvenil despertou a ira de uns poucos que não queriam dividir o rinque com eles, considerados anomalias, a escória russa que manchava a honra da nação.
Foi somente quando finalmente os policiais conseguiram algemar o casal de namorados gays e já os arrastava para a viatura, sob uma pequena multidão os ovacionando, que Camus conseguiu então desviar seus olhos perplexos daquela cena, baixando a cabeça e olhando entristecido para suas mãos que seguravam as de Natassia.
— *Por favor, Natassia. Nunca mais toque nesse assunto, eu lhe peço. — implorou com voz embargada.
Natassia, que havia presenciado toda a cena com o mesmo espanto no olhar e aflição na alma que o acometia o irmão, enxugou uma lágrima que sorrateira deslizara por seu rosto atribulado.
— *Está bem, me perdoe. Não o perturbarei mais com isso.
— *É melhor assim. — respondeu o aquariano se levantando e trazendo a irmã consigo — *Vamos embora.
Seguiram abraçados até a borda do rinque, onde recolheram seus pertences e juntos foram para a mansão do aquariano saborear um jantar que estava sendo preparado com primor para a bailarina.
*Traduzido do russo
Dicionário Afroditesco
Alofenta – fedorenta
Amapôa – mulher
Cafuçu – invejoso
Edi – ânus
Matim – pequeno, chinfrim
Mondrongo – mulambo, mal vestido, de aparência feia, ruim, rude.
Fazer a Katya – fingir-se de cega, de desentendida.
Nena – cocô
Ocó – homem
Tô sépian! – expressão de espanto ou de admiração maior que Tô bege, Tô passada.
Truque – mentira, lábia.
