O dia transcorreu quente e lento, como muitos na Grécia.
Para alguns ele se arrastou nublado e tumultuoso, com ares de tempestade que estava prestes a chegar, para outros, que como Mu de Áries o viram passar luminoso, guardava um gostoso aroma de expectativa!
Mas esse definitivamente não era o caso de Afrodite de Peixes, que mesmo após o banho de mar junto a Mu, e mais outros três que tomara em casa, ainda sentia o fedor pútrido do corpo da bacante entrando em estado de decomposição misturado ao odor catinguento do Açougueiro, o qual parecia estar encalacrado em sua pele.
Tratava-se mais de uma memória olfativa do que vestígios propriamente ditos, mas Afrodite não se prenderia a esses detalhes técnicos em seu atual estado emocional.
Desanimado, o sueco havia passado a maior parte do dia em seu jardim, entre as rosas que por refletirem seu ânimo já não eram tão belas e nem guardavam o viço de outrora.
Ao notar que o sol já se escondia nas colinas a oeste, agilizou a poda que fazia em uma das diversas roseiras que cultivava ali e retornou à parte interna de seu Templo.
Logo teria que voltar ao Templo de Baco.
Quisera ele nunca ter pisado naquele lugar. Nunca ter aceitado a proposta de Saga de Gêmeos... Nunca ter deixado a porta de seu quarto aberta na noite de estreia para que Camus de Aquário pudesse errar o caminho e entrar.
Se soubesse o rumo que sua vida tomaria a partir daquela noite...
Mas, não era a primeira vez que a vida lhe dava uma lição dolorosa e, dado sua personalidade tão peculiar e temperamento forte, não seria a última!
Sendo assim, e também porque não era de seu feitio se acovardar diante das consequências de seus atos impensados, arrumou-se para mais uma jornada de trabalho duro no Templo das Bacantes.
Se tivesse sorte, Camus não apareceria tão cedo no bordel e ele conseguiria, enfim, minar aquela paixão corrosiva que o consumia aos poucos.
A menos que...
— A menos que o desgraçado do picolé açoitador agora venha para ver a Lagartixa Cascuda! — bradou em voz alta, enquanto dava um laço nos cadarços do coturno que calçava — Era só o que me faltava.
De súbito, a tristeza que sentia transformou-se em raiva, mágoa, rancor... Foi transbordando esses sentimentos, os quais eram visivelmente notados nos belos contornos de seu rosto, que abotoava apressado a calça jeans para depois vestir uma camiseta qualquer e descer as escadarias intermináveis das doze casas soltando fogo pelas ventas.
Ao chegar à porta de entrada, estranhou ver ali apenas Shura, que com um cigarro apagado entre os lábios revistava um grupo de jovens executivos que acabara de chegar.
Afrodite esperou que todos entrassem para aproximar-se do capricorniano e cumprimentá-lo com um abraço.
— Por que está sozinho? Onde está o carcamano? — inquiriu curioso o pisciano.
— Perdendo a cabeça dele por ai, como sempre. — respondeu o espanhol deslizando o cigarro apagado para o outro canto da boca — Será que é por isso que ele é tão obcecado por cabeças? Por que é isso o que mais lhe falta?
— Quer ser mais claro, meu amor? Não tô para charadas hoje.
— Máscara deu uma surra no agente da alfândega que ia receber o suborno para liberar o carregamento de armas vindas da Rússia. Agora o cara está na UTI e as armas embarreiradas no porto de Pireus. Saga e Aiolia foram para lá tentar liberar a carga e certamente impedir o maluco de afundar aquele cais.
— Pelo olho remelento das Greias! Começamos bem a noite!... Saga hoje deve estar uó!
— Exato! — concordou o capricorniano retirando o cigarro da boca e aproximando-se do sueco — Veja se não apronta nada e nem passa ninguém para o outro mundo. Não provoca o Patriarca, ou vai acabar sobrando para você.
— Como se eu não soubesse disso, né Santa? Mas, valeu pelo alerta.
Com uma piscadinha marota para o espanhol, Afrodite se afastou adentrando o salão, onde já podia notar um pequeno movimento de clientes e bacantes.
Viu quando Karina e Rebeca desciam as escadas para juntarem-se às outras e caminhou até elas.
— Karina com K, hoje eu gostaria que você... — dizia ao aproximar-se delas quando foi interrompido pela loira.
— Me dê licença, meu cliente acabou de chegar.
Sem dar chance ao pisciano de dizer o que pretendia, Karina afastou-se rapidamente indo direto para onde estavam Shina e Marin, ao lado do palco.
— Credo, o que deu nela? — questionou Peixes ao acompanhá-la com os olhos, mas quando voltou seu rosto à Rebeca, a quem achava estar ainda ao seu lado, esta já havia tomado a direção oposta de Karina e ido se juntar a alguns clientes que acabavam de chegar.
Afrodite ficou calado, tentando entender o que havia acontecido, quando percebeu que todas as meninas de alguma forma o estavam olhando atravessado e evitavam o contato visual quando percebiam que ele as olhava.
Cismado, tomou o rumo do bar e ao passar pelo lado de um dos grupinhos de bacantes que se formava no meio do salão pode ouvir o burburinho de seus cochichos.
Aquilo o desceu mal, grosso, amargo, indigesto.
Era certo de que elas o estavam evitando, e sabia que bem ou mal elas tinham suas razões para tal.
Seguiu o caminho que fazia de cabeça baixa decidido a deixá-las em paz. Deveriam estar com medo de si, receio...
Ao chegar ao balcão do bar, sentou-se em um dos banquinhos e deixou escapar um suspiro. Ter que estar naquele lugar todas as noites, ter de deitar-se com todo tipo de homem e ainda amargurar a presença de Camus quase sempre ali que mal lhe dirigia o olhar já lhe era extremamente penoso, e pelo visto agora teria também de conviver com a hostilidade das meninas e das amazonas.
Parecia que seu infortúnio não tinha fim.
Foi só quando Aldebaran estalou os dedos diante de seus olhos que Afrodite despertou daquele transe molesto.
— Tá no mundo da lua para variar, Afrodite? Acorde viado! — riu o taurino.
— Ah... Antes estivesse. Qualquer lugar seria melhor do que estar aqui. — fez um muxoxo e apoiou os cotovelos no balcão — Mas já que estou aqui, me conta qual o babado da noite.
— Nada de novo pra te contar... Só notícia velha. — estranhamente também respondia sem o habitual sorriso no rosto — Ó, o homi ligou. E hoje ele tá com o Satanás no couro.
— Hum... Já estou sabendo.
— Me mandou te falar para segurar as pontas enquanto ele não chega, mas que não é pra tu matar ninguém... Nem por fogo do puteiro dele que quando ele chegar quer encontrar tudo de pé.
— Credo, vocês tão achando que sou o que? Ah, tá boa? — franziu a testa em irritação.
— Ó, foram palavras dele, não falei nada com a minha boca, só estou passando o recado. E ai? Vai querer abrir a noite com o que?
— Arsênico! E uma carreira de padê* com Estricnina. — apoiou o queixo nas mãos desanimado — A pior parte de ter de passar por um momento ruim na via é ter de passá-lo são!... Manda ai aquele suco de morango com chantilly com muito açúcar, por favor, Touro Chifrudo, que hoje eu tô precisado de algo forte!
— É pra já!
Assim que Aldebaran lhe deu as costas, outra figura, bem menos robusta e nada amistosa, sentou-se no banco ao lado de Afrodite.
— Não pense que aquele banho de ontem vai passar ileso, Escamosa. — falou Misty, que já fazia um sinal para que Touro lhe trouxesse uma dose de whisky — Você interrompeu um beijo delicioso, cúmplice e o primeiro de muitos! Vai ter troco.
Peixes sentiu seu sangue ferver ao ouvi-lo falar do beijo e na mesma hora a cena de Camus e Misty debaixo de sua janela fora retomada em sua mente.
Um misto de raiva e tristeza logo o fez descer do banquinho e se colocar de pé frente ao cavaleiro de Prata. Queria esganá-lo, arrancar seus cabelos, enfiar uma Rosa Sangrenta em seu peito e deixar que se esvaísse por completo até a morte... Mas, tirar Misty de seu caminho não traria Camus de volta para si, uma vez que o próprio decidira sair de sua vida por escolha.
— Você não o ama. — disse o pisciano em voz baixa, encarando os olhos do francesinho com veemência, que o encarava de volta com desdém — Por que está fazendo isso? Seu problema é comigo, não envolva ele, seu desgraçado, ou eu acabo com você, larva das fossas do Aqueronte, exú de ventosas! Eu juro que...
— AFRODITE!
O grito de Aldebaran chamou a atenção do pisciano, que ao virar-se para ele viu, pela visão periférica, Saga adentrar o salão.
— O seu suco de açúcar com morango está pronto. — disse o brasileiro ao lhe estender o copo com a bebida enfeitada com chantilly e lhe fazer um sinal com a cabeça — Melhor ir circulando que o hómi chegou. Vai, circula, circula!
Peixes apanhou o copo e ainda com os olhos cravados no Santo de Prata, os quais faiscavam em ira, achou melhor seguir a deixa que Touro lhe dera e deixou o local embrenhando-se entre os presentes que já enchiam o salão.
No bar, Saga encostava-se ao balcão enquanto dava as últimas instruções, por celular, para seus homens que haviam ficado no Porto de Pireus acompanhando Máscara da Morte e Aiolia com o deslocamento da carga, enfim, liberada.
Dispensando a cordialidade quando encerrou a chamada e guardou o aparelho no bolso do casaco, o geminiano fez um sinal para Aldebaran dando um tapa leve no balcão.
— Um absinto... Duplo! — rogou agastado, enquanto olhava torto para Misty que havia se levantado e deixado o local assim que o viu se aproximar.
De pronto o taurino atendeu ao pedido colocando um copo à sua frente sobre a peça e indo buscar a bebida.
— Boa noite, né! — disse ao retornar e encher o copo com a dose generosa — Aqui.
Gêmeos tentava a todo custo conter a raiva que lhe tomava naquela noite. A máfia grega sob seu comando ia de mal a pior, e já não lhe bastava uma prostituta morta, agora tinha um agente da alfândega em coma na UTI do Hospital de Atenas.
Parecia que tudo fugia ao seu controle, os negócios, as dívidas do Santuário, seus cavaleiros, sua namorada e até si mesmo!
— Boa noite que nada... Espero que ao menos ela termine sem mais contratempos, pois já começou mal! — resmungou encarando o brasileiro — Afrodite já chegou?
— Já. Tá bem ali. — apontou para o sueco que havia se sentado a uma mesa onde já estavam dois empresários gregos do ramo esportivo com quem tinha um programa agendado, mas como tinha destruído seus móveis, inclusive a cama, Afrodite tentava convencê-los a adiar, rogando aos deuses que aceitassem, pois tudo o que queria naquela noite era ficar sozinho, curtindo sua dor de cotovelo com seu suco de morango.
— E está tudo inteiro por aqui? — indagou correndo os olhos rapidamente pelo salão.
— Sim.
— Ótimo. Vou subir para colocar uma roupa mais leve. Se alguém perguntar por mim, mande esperar, não quero ser incomodado... — sorveu o resto da bebida e bateu o copo contra o balcão — E avisa a Afrodite e a Máscara da Morte, assim que o idiota chegar, que os quero trabalhando hoje, MUITO, pois seus débitos comigo só aumentam, mas que não quero ter o desprazer de olhar para vossas caras.
Sem mais nada dizer, Saga deixou o bar cruzando o salão apressado em direção às escadarias que levavam ao segundo andar.
Aldebaran o acompanhou com os olhos, que pareciam duas jabuticabas, arregalados.
— Eita porra! Eu bem sabia que hoje esse hómi vinha com o Satanás no couro! — deu uma risada descontraída e foi atender ao próximo cliente que pedia uma marguerita.
Poucos minutos após ter subido, Gêmeos deixou seu quarto trajando um sóbrio e elegante terno azul marinho.
Andava pelo corredor com a mente fervilhando em pensamentos desconexos e com os olhos cravados na porta de um quarto em específico.
Detendo um pouco seus passos, certificou-se de que não havia ninguém ali, nem que era observado, e então parou em frente aos aposentos da amazona de Serpente, sentido o Cosmo dela através da porta, onde deu dois toques ligeiros, mas sem obter resposta.
Respirou fundo em contrariedade e tornou a bater, em seguida aproximando o rosto à madeira.
— Geisty?
Na maioria das vezes, o geminiano batia à porta da namorada antes do início do expediente, com a desculpa, para os outros funcionários, de acompanhar a joia da casa até o salão, mas sempre acabava entrando no quarto e matando a saudade que sentia da amada com beijos longos e apaixonados antes de descerem, guardando o melhor da noite para o fim do expediente, quando poderiam ficar juntos e entregarem-se por completo um ao outro.
Mas dessa vez Geisty não veio lhe abrir a porta.
Dentro do quarto, a amazona olhava para seu reflexo no espelho da penteadeira, enquanto sentada na cadeira ouvia os toques e sussurros do namorado.
Não respondeu.
Era como se seu reflexo a mantivesse presa em uma espécie de transe, onde ela procurava na Geisty que via dentro do espelho, penteada e maquiada, amargurada e corroída pelo ciúme, a destemida amazona de outrora.
Ao ouvir novamente a voz do geminiano abafada pela madeira, Geisty respirou fundo e sentiu uma pontada dolorida no peito.
Não se sentia capaz de abrir aquela porta e trocar beijos saudosos e apaixonados com o namorado, o reflexo no espelho a enleava, fazendo sua mente perturbada retomar os últimos acontecimentos.
Tomou folego e então respondeu, encarando o reflexo de seus próprios olhos, o tom de voz elevado e sem transmitir emoção:
— Ainda não estou pronta. Quando terminar eu desço sozinha.
Aquelas palavras carregavam um duplo sentido, e por isso a amazona baixou o olhar mirando as próprias mãos sobre o colo que apertavam o tecido fino do vestido que usava naquela noite.
Havia repelido Saga, e isso lhe doía tanto quanto a desconfiança que ainda lhe perturbava a mente e lhe consumia o espírito. Mas simplesmente não conseguia agir de outra forma.
Do outro lado da porta, no corredor, as palavras da amazona acertaram a Gêmeos tal qual um tapa que se toma por surpresa.
Afastou-se lentamente da madeira irritado, ao mesmo tempo em que sentia uma fisgada longa e dolorosa nas têmporas. — "Ah, que se foda, Geisty! Meu dia já foi um caralho para eu ainda ter que aturar isso." — pensou enquanto retomava o caminho para a escadaria.
Desceu enfim para o salão, tentaria aliviar o estresse com absinto e rogava a todo o Panteão grego para que naquela noite não ocorresse nenhum problema e que tudo seguisse na paz de Atena, ou ele mataria um.
Casa de Áries, 18:30pm
Uma semana havia se passado desde a morte, nada acidental, de Mônica, a bacante sérvia, e da decisão ousada de Mu de Áries em desposar Shaka de Virgem numa cerimônia tipicamente indiana.
Em teoria tudo estava correndo como planejado.
Mu havia pesquisado em diversos livros, artigos que minuciavam todo o cerimonial, do começo ao fim, e tomado notas precisas de tudo que teria que providenciar. Pronto o esquema completo da cerimônia, também já havia escolhido o Templo Budista onde o casamento seria realizado, acertado com Afrodite o dia, que seria no aniversário de Shaka, já bem próximo, e agora estava na Forja derretendo ouro que tinha trazido do tesouro lemuriano muito bem escondido em Jamiel, para fazer as alianças e um presente ao amado.
Tinha acabado de acender a fornalha quando recebeu uma visita inesperada, porém extremamente aprazível.
— Shaka! — arregalou os olhos ao ver a belíssima figura loira parada na entrada de sua forja e tratou logo de enfiar aquele tanto de ouro em uma caixa de ferro e guardar junto a algumas peças de armaduras danificadas que estavam embaixo do balcão — Que surpresa boa!
Sorria para o virginiano enquanto batia as mãos enegrecidas pelo pó do carvão mineral no grosso avental de couro que usava. Em seguida o retirou e pendurou em gancho preso à parede.
Limpou o quanto deu as mãos em um chumaço de estopa, ao passo que via Shaka se aproximar trazendo consigo uma vasilha coberta com um guardanapo branco.
— Está muito ocupado? — perguntou Virgem ao chegar até o ariano e lhe cumprimentar com um selinho demorado nos lábios.
— Não. Para você nunca, Sha! — abraçou o outro sem se importar com o suor que brotava de seu corpo devido à alta temperatura daquele lugar.
Shaka encostou seu rosto ao do namorado sentindo a pele quente e úmida. Aspirou profundamente o odor viril que exalava do lemuriano deixando escapar um sorriso tímido.
Há tempos que já havia se decidido em abandonar seu voto de castidade e viver plenamente seu amor terreno com cavaleiro de Áries, mas as coisas estavam sendo mais complicadas do que imaginava.
Era Mu agora que sempre se esquivava toda vez que resolvia ousar um pouco mais nas carícias que trocavam, o levando, muitas vezes, a se questionar se fazia algo de errado, ou se Áries não se excitava mais com seus toques, e até mesmo se o amado já não estava mais tão empolgado como antes em ter um relacionamento consigo.
Podia conhecer de cabo a rabo os oito estágios para a iluminação, os Yamas, Pratyaharas, todos os Sutras e até o segredo do Cosmo. Podia tornar-se o homem mais poderoso do planeta, tornar-se um deus, mas não podia saber o que se passava na cabeça de seu namorado, e era justamente isso que o tirava do tino, que o deixava inseguro e transtornado.
Shaka andava tão apreensivo e confuso que muitas das vezes em que ia meditar, simplesmente não conseguia se concentrar e acabava procurando nos livros as respostas que não encontrava em seu espirito evoluído, uma vez que, podia até ser uma pessoa detentora de uma alma ancestral e sábia, mais ainda era um garoto de dezoito anos com um corpo humano em plena formação e que crescera sozinho, na companhia apenas de sua amiga fiel, a televisão.
— É claro, pois sabe que sempre te trago algo para comer. — brincou o virginiano ao dar um passo para trás e lhe estender a vasilha que trazia — Fiz samosas. Têm de legumes e de soja.
— Que delícia! Eu estava tão entretido que me esqueci de comer. — o ariano puxou o pano de prato que cobria as apetitosas iguarias já sentindo a saliva lhe brotar na boca — Puxa, eu adoro esses bolinhos que você faz. Obrigado, Sha.
— Eu sei.
Shaka lhe sorriu de volta enquanto o via caminhar apressado até o sofá carcomido que de tão velho parecia um apêndice da parede escura de pedra. Nele Mu se sentou à vontade e logo levou uma das samosas à boca, fechando os olhos ao saboreá-la.
— Hummmm... Nossa... Estão divinas! — falava com a boca cheia.
Enquanto o Santo de Áries se fartava das samosas, Shaka caminhava distraidamente pela forja. Estranhamente aquele lugar lhe exercia uma certa atração que ele era incapaz de definir.
— Eu sempre gostei de cozinhar... Até porque não me agrada comer nada fora da minha casa. — confessou o loiro.
O cheiro do material carburante que se consumia na fornalha, o calor do fogo lhe sapecando levemente o rosto, já que não estava acostumado a uma temperatura tão alta e sentia a pele arder levemente, o brilho dos metais pendurados nas paredes, ou dispostos sobre o grande balcão central, o qual era intensificado pelo reflexo do fogo... Tudo ali lhe causava um embevecimento inexplicável.
— Ah, mas um dia vou cozinhar para você lá em Jamiel. Tem que conhecer minha cozinha! É totalmente diferente da sua... E também não cozinho como você, ainda não me acostumei com os utensílios ocidentais, mas lá eu me virava bem. — dizia distraído o ariano entre uma mastigada e outra.
Foi quando Shaka encostou-se ao balcão, próximo à fornalha, que notou um calhamaço de folhas rabiscadas a grafite que estava disposto ao lado de uma suntuosa caixa de madeira talhada, que por estar aberta pode ver o conteúdo, um grande número do que pareciam ser gemas preciosas, dado seu brilho intenso.
— Vou adorar conhecer Jamiel... — respondeu, estreitando os olhos para as pedras que cintilavam refletindo o fogo na fornalha.
De início achou estranho, já que as armaduras dos soldados de Atena não ostentavam gemas preciosas, mas isso não lhe chamou mais atenção do que alguns desenhos de arabescos e outras formas indefinidas que viu esboçados nos papéis ao lado da caixa.
Curioso, apanhou alguns deles para olhar melhor.
— Está fazendo joias, Mu?
A voz de Shaka fazendo aquela pergunta chamou imediatamente a atenção de Mu, que a tinha totalmente focada nas deliciosas iguarias indianas.
Ao erguer a cabeça, em assombro viu o amado com os desenhos das joias e alianças de casamento que pretendia fazer para a cerimônia e só não deu um grito o mandando largar o papel de pronto, porque tinha uma samosa quase inteira na boca.
Mu não tinha tempo para pensar em nada. Se não agisse rápido, Shaka descobriria seu plano e sua tão sonhada surpresa cairia por terra.
Por isso mesmo que, num gesto ligeiro, levantou-se do sofá, desistindo de abocanhar a samosa a colocando de volta na vasilha para deixar ali sobre o estofado mesmo, e correu até onde Shaka estava, o pegando de surpresa ao agarrá-lo pela cintura e puxá-lo para trás, para em seguida girar seu corpo de frente com o seu e usar seu próprio peso para prensá-lo contra o balcão.
Não esperou que Shaka o questiona-se, tomando a boca do loiro num beijo tórrido, lascivo e eufórico.
Ainda que surpreendido pela atitude inesperada do lemuriano, Virgem não demorou nada para corresponder aquele beijo tão entusiástico, tomando a boca de Mu com a mesma ânsia e impaciência.
Enquanto beijava Shaka, Áries aproveitou para lentamente retirar as folhas com os rabiscos que fizera da mão do namorado, as amassando levemente e jogando em baixo do balcão.
— Hum... Sha... Estava com tanta saudade de você... Um dia só sem te ver e eu já fico louco de saudades. — dizia enquanto beijava o pescoço de Virgem, aliviado por ter tirado o papel de suas mãos a tempo.
— Eu também estava, Mu. — confessou o indiano levando as mãos à tira de couro que prendia os cabelos lavanda do lemuriano para soltá-los — Mas, não me respondeu. Está fazendo joias? E esses desenhos? São de alguma armadura nova?
Mu nunca agradeceu tanto aos deuses por sua preguiça. Como artesão, desenhava muito bem, mas na ânsia em começar o trabalho de ourives, havia apenas esboçado alguns rabiscos mal feitos, pois a arte final estava toda em sua cabeça. As linhas no papel era apenas uma orientação básica.
— Ah... Não... — disse sentindo seu corpo se arrepiar todo aos toques do virginiano —... São... Sim, quer dizer, os desenhos são esboços de alguns aperfeiçoamentos que penso em fazer nas armaduras de prata das amazonas. Elas não precisam parecer tão rústicas, né?... Mulher adora se sentir bonita...
— Ah, sim... De fato. — disse Shaka esfregando seu rosto ao de Áries — E as pedras?
— As... pedras? — desceu o tecido da túnica que Virgem vestia até metade do braço para lhe distribuir beijos pelo ombro nu — As pedras... Elas... As pedras eram do meu Mestre. Trouxe de Jamiel... Talvez faça algo com elas no futuro. Algo como os colares que Síbila usa na novela. As joias indianas são muito lindas. Você gosta, Sha?
— Das joias indianas? Ah, sim, são muito bonitas sim. — respondeu mecanicamente, pois sentia seu baixo ventre se contrair em excitação a cada toque dos lábios de Mu em sua pele — As joias... As roupas... A cultura indiana é visualmente muito rica.
— Eu adoro, sabia, Sha? — sussurrou em seu ouvido, dando uma leve mordida.
— O que? — Shaka gemeu a pergunta.
— A cultura indiana... As joias... As roupas... É tudo lindo, como você. — Mu mordeu o queixo do namorado, dando-lhe um beijo em seguida. Era agora ou nunca — Você usaria um sári, Shaka?
Mu soltou a frase como quem não quer nada, enquanto alisava a coxa do amado por cima da túnica.
Precisava saber se Virgem achava ofensivo vestir-se de mulher, ou se jamais aceitaria tal proposta, porque, dependendo de sua resposta, o casamento daria errado antes mesmo de começar a forjar as alianças.
— Eu?
Shaka, que estava de olhos fechados se deliciando com as carícias do namorado, de súbito os abriu para encará-lo em espanto.
Aquela pergunta era tão estranha e inesperada que ele ficou imóvel por algum tempo, só voltando a si quando sentiu Mu segurar com ambas as mãos em sua cintura para levantá-lo do chão e colocá-lo sentado sobre o balcão.
— Sim... Você. Assim... Eu... — gaguejava meio atrapalhado —... A Síbila! Sim, a Síbila usa uns sáris tão lindos que me deixam louco de... De vontade de ver você em um deles... — mandou a primeira desculpa que lhe viera à mente, já sentindo suas mãos suarem, seu coração bater frenético e seu rosto aquecer rapidamente.
Estava com vergonha de ter feito aquela pergunta.
Onde estava com a cabeça, afinal, quando aceitou aquela ideia absurda de Afrodite de vestir Shaka de Virgem de noiva?
— É mesmo?... Mas... Por quê? — perguntou o virginiano confuso, uma vez que nem haviam começado sua vida sexual, nem eram um casal sexualmente ativo, e Mu já parecia ter fantasias bem estranhas — "Buda! Será que é isso que falta para ele conseguir dar o segundo passo? Me vestir de mulher?... Não estou preparado para isso... Definitivamente não estou!" — pensou um tanto aflito, porém não era o fato de vestir-se de mulher que afligia o cavaleiros de Virgem.
Shaka era muito bem resolvido consigo mesmo desde que se descobrira apaixonado por outro homem, e vestir um sári em absolutamente nada o abalaria. O que lhe preocupava agora era se de fato Mu estava certo de sua própria sexualidade, se tinha plena certeza de que era gay, ou se para conseguir transar consigo teria que vesti-lo de mulher.
— Por quê?... Bom... — Mu engoliu em seco, se enfiando entre as pernas do loiro para abraçá-lo com ternura —... Primeiro porque você ficaria lindo... Depois, porque eu desejo vê-lo de todas as formas possíveis nessa vida, Sha. Quero muitos de você mesmo. — levantou o olhar para encarar as íris azuis celestes do virginiano — Porque só desejo você, Shaka. Só você... E porque... Bem... Acho que de tanto ver as novelas eu desenvolvi, sei lá, uma fantasia... Imagino você todo lindo em um sári igual ao da Síbila, dançando pra mim...
— Bom... — Shaka levou as mãos à nuca do amado arranhando de leve o couro cabeludo —... Eu, não sei... Mas... Bem, se é uma fantasia, por que não? Um dia, quem sabe, eu visto um só pra você. — sorriu, antes de puxar o ariano para um beijo apaixonado.
Mu estava em êxtase!
Seu coração batia tão forte que sentia o folego lhe faltar. Suas mãos tremiam tanto de euforia pelo sim de Shaka, quanto pela ansiedade em saber que a parte mais difícil do plano de casamento havia, enfim, dado certo.
Foi tomado por esse entusiasmo que lhe arrebatava completamente, que Mu intensificou o beijo correndo as mãos por debaixo da túnica de Virgem, mas quando deslizou os dedos por uma das coxas do namorado, sentiu grossos vergões, como estrias espessas na pele e ao apalpá-las percebeu que Shaka se contraíra, parecendo reagir em reflexo à dor.
Apartou o beijo rapidamente e levantou o tecido da túnica para olhar o que seus dedos haviam tocado.
Estreitou os olhos numa expressão de preocupação ao ver hematomas em torno do que pareciam aranhões profundos, já em processo de cicatrização.
— O que é isso? — questionou em sobressalto.
De imediato, o Santo de Virgem agarrou na barra da túnica e a puxou para baixo, cobrindo o ferimento sem mais demora.
— Não é nada. — disse ao cobrir o ombro que Mu havia desnudado e gentilmente segurar nos ombros do ariano o empurrando para trás para poder descer do balcão.
— Como não é nada, Sha? Onde você se feriu assim? Deixa-me ver?
— Mu eu só esbarrei num móvel, já disse que não é nada. Não se preocupe.
Visivelmente transtornado, Shaka puxou o ariano para um abraço e tratou logo de se despedir com um beijo rápido.
— Eu vou subir para minha casa. Está quase na hora da novela e vejo que está com a fornalha acesa e cheio de coisas para fazer. — disse já se distanciando de Mu, indo em direção à saída da forja — Se quiser subir mais tarde eu espero você para dormirmos juntos... Amo você, Mu. Até mais.
Antes que o lemuriano pudesse dizer algo, o namorado já havia desaparecido pelo corredor da casa se Áries, e Mu concluiu que se ele mentia mal, Shaka mentia ainda pior!
Áries percebera, com seus olhos muvianos, o vacilo na aura corporal de Virgem. Ficou cismado, refletindo por um tempo o que ele poderia estar escondendo de si e decidiu ficar atento.
Com um suspiro caminhou até o sofá e se pôs a comer as samosas que havia deixado ali, enquanto refletia.
Era certo que Shaka estava aflito, e a culpa era toda sua por primeiro querer uma posição dele e depois que o indiano se decidira agora ser ele, Mu, a criar obstáculos.
A aflição de Shaka poderia muito bem mesmo levá-lo a distrair-se ao ponto de se acidentar em casa, e isso deixava Mu muito angustiado. Porém, nada poderia fazer, por enquanto, para confortar o amado sem ter de revelar a surpresa do casamento, mas apenas rogar aos deuses que fizesse o tempo passar o mais depressa possível.
Um tanto quanto chateado, Mu largou os bolinhos e vestiu o avental grosso de couro para voltar ao trabalho. Teria que agilizar a produção e os preparativos para a cerimônia, mas também não podia deixar seu loiro sem atenção.
Teria que se dedicar somente a ele nas vésperas do casamento, a fim de acalmá-lo e prepará-lo.
Seria cansativo e exigiria muito de si, mas valeria à pena.
Templo de Baco, 23:40pm
Naquela noite a casa não estava totalmente lotada, o que era bem comum nas quartas-feiras, ainda mais em uma chuvosa e fria como aquela.
Apesar do mau tempo lá fora, dentro do salão a quentura dos ânimos instigados pelo álcool e pela libido à flor da pele envolvia a todos os presentes num mormaço lúbrico.
Como era de costume nas quartas-feiras, Marin e Shina faziam uma apresentação burlesca no palco. Envoltas em plumas, paetês e sensualidade pungente, as amazonas serpenteavam os corpos perfeitos e curvilíneos tirando suspiros e rumorejos exaltados da plateia, especialmente de um cliente vitalício que toda quarta-feira dava as caras por ali.
O prefeito Praxédes não perdia um só show das amazonas, porém aguardava outra bacante para o programa da noite. Ele só se deitava com as joias da casa!
Entre os homens que tinham cravados seus olhos injetados nas belas garotas também estava Aiolia, que fazia questão de não perder uma só apresentação da bela amazona ruiva, ainda que estar ali a vendo se exibir para outros lhe doesse fundo na alma.
Aliás, contentamento e alegria não era a palavra chave daquele lugar, jamais fora, e era a ausência exatamente desses sentimentos que se tornava visível no rosto perturbado de Saga de Gêmeos quando este, dentro do quarto da amazona de Serpente, e sua namorada, a ouviu dizer eu não desceria para trabalhar naquela noite.
— Como assim você não vai descer? — resmungou ao aproximar-se da cama onde ela estava deitada trajando um babydoll violeta — Hoje é quarta-feira. O prefeito já chegou há algum tempo, inclusive. Só está esperando você descer... — esfregou o rosto irritado — Olha, Geisty, eu sei que ainda está perturbada pelo que ocorreu semana passada com Mônica, mas até quando você vai me tratar assim e me culpar por isso?
— Até quando? — franziu as sobrancelhas perfeitas o encarando com zanga — Saga, reflita sobre a pergunta cretina que acaba de me fazer. Eu não estou perturbada apenas pela morte da Mônica... Não. Eu estou mesmo é indignada com sua postura acerca desse caso. Aquele outrozinho lá matou a garota, mas tem sangue dela em suas mãos também. A culpa também é sua.
Enquanto despejava acusações no namorado, mantinha o dedo em riste no ar.
— Geisty, por Hades, mas que absurdo, mulher! Eu não tenho nada a ver com a morte de Mônica.
— Tanto tem que mandou o outrozinho lá livrar-se dela sem deixar vestígios. Você acobertou Afrodite, Saga, como você sempre faz, por quê? Sim, porque a justificativa fuleira dele pode servir para quem é dotado de uma inteligência medíocre, mas não para mim... Batom envenenado?... Vocês são ridículos.
O geminiano sentiu o sangue ferver em suas veias e sem conseguir conter a raiva que naquele momento extravasava pela voz, bradou a encarando com um olhar frenético.
— Chega! Estou farto desse seu comportamento. Não vou mais engolir suas insinuações e acusações. Esse caso está encerrado e não quero mais ouvi-la falando dele... Depois, goste ou não, aceite ou não, você só poderia rebater o que ele disse com provas. Você as tem?
Geisty bufou de raiva, fremindo as mãos que agarravam um dos travesseiros.
— Você sabe que não.
— Sim, eu sei, assim como também nós dois sabemos que não é isso que está te deixando a semana toda arredia comigo. O que você "acha" que viu naquela noite no quarto de Afrodite foi apenas fruto da sua imaginação. Uma peça que esse seu ciúme louco te pregou. Se você não acredita, eu só lamento, porque se nem tudo que fiz para ter você aqui, viva e comigo, te convence eu não sei mais o que fazer. Não houve nada naquela noite entre mim e Peixes.
Geisty se mantinha calada, de braços cruzados e devolvendo a mesma expressão facial inalterada e de insatisfação para o grego, que percebendo que não alcançara grandes êxitos em suas explicações respirou resignado, enquanto esfregava com força o supercílio direito.
— Encerre esse assunto, por favor, pois temos outro de maior urgência... O prefeito está lá embaixo... Aguardando você... Temos um acordo, Geisty! A apresentação de Marin e Shina logo vai terminar e ele vai me perguntar onde está a joia dele dessa noite... E eu respondo o que?
— O que você quiser. Não posso atendê-lo hoje. Não estou me sentindo bem... Estou com cólicas e dor de cabeça. Eu entrei naqueles dias...
Saga sentiu todo seu corpo enrijecer.
Pousou a mão no queixo encarando a amazona perplexo, parecendo não acreditar no que ela acabara de lhe dizer, ou na pachorra da resposta dada!
— Por todas as almas congeladas na porra do inferno do Cocito... Eu não estou ouvindo isso.
— Ora, por que o espanto, Saga? — colocou o travesseiro atrás das costas e se encostou esticando as pernas — Eu fiquei menstruada, como toda mulher. Não posso atendê-lo. É isso.
— E O QUE ISSO TEM A VER SE VOCÊ USA ILUSÃO, MULHER? — perdeu a compostura e disse aos berros, mas logo se deu conta do erro e diminuiu o tom de voz da mesma hora — Isso é algum tipo de piada?... Você toma pílula de uso contínuo que eu sei e... E mesmo que estivesse menstruada isso não seria empecilho... Quer me enlouquecer?
— Para você ver, né Saga. O meu psicológico está tão abalado que tem afetado até meu físico. Pois é... Fiquei menstruada e não vou atender o porco hoje. Como disse estou com cólicas, dor de cabeça e isso atrapalha minha concentração na hora de projetar ilusões. Eu não vou descer. E também não adianta mandá-lo subir. Eu vou continuar aqui, deitada, descansando, com a minha bolsa de água quente e minha garrafa de Chianti.
O geminiano estava a um passo de perder o controle sobre si. Corria nervosamente os dedos entre os fios azulados de seus cabelos quase os arrancando do couro cabeludo com puxões esporádicos.
Não queria perder a cabeça com a namorada, mas estava sendo quase impossível segurar as pontas depois de sua mudança inexplicável após os incidentes da semana anterior.
— Geisty... — respirou fundo, procurando manter a calma, pois sabia que se a perdesse de vez seria o prenúncio de uma catástrofe — Eu não preciso te explicar pela enésima vez todos os nossos problemas financeiros. O Santuário não tem verba suficiente para se manter sozinho. Precisamos desse empreendimento para tentar sair da lama, e aquele filho de uma vaca lá fora é o responsável por permitir que esta zona funcione. — apontava para a porta com o dedo indicador — Mas, ele deu o preço dele. Só eu sei o ódio que tenho daquele infeliz, mas tudo isso aqui depende dele. Eu não fico nada satisfeito de saber que minha namorada é o objeto de cobiça daquele traste... Mas é isso, Geisty, ou eu terei de exonerar o exército de Atena inteiro por falta de verba para mantê-lo e deixar que os russos arranquem seu couro... Então, Geisty, minha querida, colabore... O pulha do Praxédes veio aqui hoje porque temos um acordo com ele. Ou é isso, ou o Templo fecha.
— Mande Afrodite atendê-lo!
— Geisty... Afrodite o atendeu semana passada... — Saga rosnou a encarando.
— O homem não quer uma joia? Manda o teu puto ir atender o porco careca, porque eu já disse que não vou.
Gêmeos sentiu seu raciocínio lhe fugir naquele momento.
A situação toda lhe parecia tão absurda que demorou alguns segundos para retomar a linha de pensamento perdida. A reação veio de forma impulsiva.
— Puta que me pariu... Caralho! — desabafou chutando a cadeira que ficava próxima à penteadeira a fazendo rolar pelo chão — Tudo isso por conta de ciúme, Geisty? Você enlouqueceu de vez mulher? Olha o que temos em jogo...
— Eu sei o que está em jogo, Saga, e já que você também sabe é melhor não insistir, pois não vou me levantar dessa cama para nada, já te disse. Mande o Afrodite atender o velho, ele é puto igual a qualquer outro aqui, com o diferencial de ser também uma joia. Vai me obrigar e defender o seu puto mais uma vez?
Sem nada dizer, Saga ainda encarou a morena por alguns segundos em um misto de raiva e descontentamento.
— Não demore a tomar uma decisão. — disse com ar irônico a amazona, e com o frescor de quem havia ganhado aquela batalha — A música que as meninas estavam apresentando já acabou.
Com um último olhar furioso direcionado a ela, Gêmeos lhe deu as costas caminhando em direção à porta e dando uma batida forte quando a cruzou para deixar o quarto.
Não podia crer no que tinha acabado de acontecer, tampouco naquela nova discussão com a amada, que a cada dia se mostrava mais instável.
Sem saber o que fazer, pensou em dizer a Praxédes que o compensaria com outra garota e que não cobraria pelo programa. Pensou até mesmo em pedir a Afrodite que lhe quebrasse o galho, já que Peixes agora tinha outra dívida enorme consigo por ter destruído seu quarto e o obrigado a gastar com móveis novos.
Era nisso que pensava quando por sorte, ou não, avistou o pisciano ao final do corredor acompanhando até à escadaria o cliente com quem havia acabado de fazer um programa.
Fez um sinal sonoro chamando sua atenção.
Afrodite então pediu ao homem que descesse sozinho e foi ao encontro de Saga, o qual o esperava em frente à porta do quarto de Geisty com uma expressão nada amistosa no rosto.
— Fala. O que foi? Por que está com essa cara? — perguntou o pisciano cruzando os braços.
— Você vai atender o prefeito hoje. — disse Gêmeos sem rodeios, tirando de Afrodite uma expressão de espanto.
— Como é que é? — indagou abalado o pisciano já descruzando os braços — O meu coágulo deve ter descido para um dos meus ouvidos e eu não ouvi direito o que você disse, miolo mole. Quer que eu atenda o peruquento hoje? HOJE?
— Sim... Afrodite eu sei que...
— Tá loca, Santa? Esqueceu do rodízio? Eu atendi o suíno semana passada, o que significa que hoje ele é todinho daquele exú de franja da sua vadia preferida, meu bem.
— Eu sei, Afrodite, mas Geisty não está disposta hoje... Ela está... Naqueles dias.
— Que dia?
— Naqueles dias... Menstruada, Afrodite. Ela está menstruada, por isso não está disposta e não pode... Bem... Não pode.
— Ah, ela não está disposta? Meu bem, eu também NUNCA estou disposto, e atendo todos os seus suínos, todas as noites, mesmo não estando disposto, seis dias por semana, mesmo não estando disposto, tá boa linda? — gritava encarando os olhos jades irritadiços de Saga.
— Afrodite abaixe seu tom de voz, eu não...
— Abaixo é a pomba gira aqui mesmo se aquela quenga não atender o peruquento hoje! Estou de saco cheio dessa vaca! A semana toda ela tem colocado todos contra mim, essa mosca varejeira de franja. — espalmou as mãos no peito largo do geminiano o empurrando para tomar passagem e em seguida agarrar a maçaneta da porta e abri-la com um solavanco — Sai da frente! CADÊ A VADIA?
Aturdido ainda com a reação inesperada de Peixes em invadir o quarto da amazona daquela forma, Saga vinha logo atrás irritado quando viu Geisty se sentar na cama em sobressalto.
— AFRODITE! SAIA JÁ DESSE QUARTO! — gritou o geminiano — Você conhece as regras, Peixes!
No mesmo instante que percebeu o Santo de Peixes dentro de seu quarto, o rosto de Geisty se contorceu em uma careta de raiva.
— EEEI! Ma que... Que porra é essa? — gritou a amazona.
— Eu te viro do avesso, demônio de franja! — caminhava apressado até a cama.
— Pode dando meia volta e saindo já do meu quarto, JÁ! Não dei permissão para que você entrasse aqui, ainda mais igual a uma égua desvairada, sua bicha abusada. Passa fora, anda! — falava com o dedo estendido no ar apontando para a porta.
— Cria de swing em canil municipal. Você está fazendo isso de propósito, odiosa! Eu sei que está... E eu posso provar!
Sem intimidar-se, tanto com a presença de Saga ali, quanto com os gritos histéricos da morena, Afrodite correu até a cama e a agarrou pelos tornozelos, puxando-a pelas pernas até trazê-la bem próximo a si, então curvou seu tronco para baixo e aspirou com vigor o odor do corpo da amazona. Seu olfato, muito mais aguçado que de humanos normais, acabou com a farsa.
— Como imaginei! — soltou os tornozelos de Geisty reassumindo sua postura, enquanto a olhava tomado em ira — É mentira dela.
— O que? VÁ PARA O INFERNO! – gritava ainda confusa com ação do cavaleiro.
Rapidamente a amazona deu um salto da cama se pondo de pé, e elevando seu Cosmo deu um empurrão vigoroso no pisciano, que cambaleou para trás quase indo ao chão.
— Nunca mais toque em mim! — seus olhos cintilavam uma faísca púrpura intensa, enquanto a voz rouca e o rosto transfigurado em cólera, muito diferente da expressão assustada de antes, denunciavam sua ira — Quem você pensa que é para invadir minha privacidade?
— E quem você pensa que é para achar que me engana, exú de franja? Essa biscate não está de chico coisa nenhuma, Saga. — apontou para ela extremamente irritado — Você vai atender o peruquento sim, piranha, nem que para isso eu te agarre por essa sua crina mais seca que o Saara e te jogue em cima dele.
— Experimente tentar me tirar daqui ou sequer me tocar para você ver o que te acontece. Eu arranco a tua mão fora! — ameaçou já distendendo as garras de ambas as mãos, enquanto caminhava em direção a Afrodite pronta para qualquer ataque.
Ao lado deles Saga mal piscava.
Diante de seus olhos mais uma briga entre aqueles dois se desenhava, quando uma dor aguda o atingiu em cheio na cabeça. Lutava contra ela com todas as suas forças, pois sabia que se não interpelasse, amazona e cavaleiro iriam acabar se agredindo e Geisty, totalmente descontrolada quando o assunto era o pisciano, acabaria saindo no prejuízo.
— NEM SE ATREVAM A COMEÇAR OUTRA BRIGA! — berrou Gêmeos ao se enfiar no meio dos dois — Se começarem com essa merda de novo quem vai arrancar crina, digo, cabelo e mão aqui serei eu! — enquanto segurava com força a amazona pelo braço, espalmou a outra mão no peito de Afrodite e o empurrou para longe dela — Sai daqui Afrodite. É uma ordem.
— Você não escutou o que eu falei, Saga? — rebateu o pisciano que estava decidido a não deixar por menos mais aquela pirraça — ESSA VAGABUNDA ESTÁ MENTINDO!
— Cala a sua boca! Quem é você para falar de mentira. Assassino! — cuspiu as palavras fazendo menção em avançar novamente contra o cavaleiro, mas foi impedida por Saga, que a segurou com mais firmeza.
— Eu arranco sua língua e faço um broche, varejeira de encruzilhada. Até quando vai deixar esse cafuçu* fazer a lôca aqui dentro e passar a mão na cabeça dela, Saga? Ela tá de chico coisa nenhuma. Ela tá fazendo isso para me provocar.
— Geisty... Olha para mim. — Saga tentava mandar um recado velado à amada, esperando fervorosamente que ela entendesse, já que ambos sabiam que Afrodite estava certo, mas não podiam dizer a verdade — Você... Mentiu? Você... Pode atender o prefeito hoje? — encarava fundo os olhos violetas faiscantes.
Aturdida, a morena desvencilhou o foco de Afrodite e então olhou para Saga com os olhos firmes, petrificados, enquanto tentava responder a pergunta que lhe era feita.
— Não! — com um safanão se livrou das mãos do geminiano e deu um passo para trás, tentando ganhar espaço — Esse babaca quer saber mais da minha vida do que eu mesma... Se decida, Saga.
— GEISTY! — voltou a tomá-la pelo braço agora a trazendo bem próximo a si, de modo a poder falar rente ao seu ouvido para que apenas ela ouvisse — Não torne as coisas mais difíceis...
A amazona de Serpente encarou uma vez mais as íris cintilantes do geminiano.
Alguns segundos de silêncio absoluto se fizeram, nos quais Saga tinha a esperança de ter vencido aquela batalha.
Ledo engano.
— Não! — respondeu a morena em voz alta e pausada, observando o olhar do namorado tomar nuances perigosas — Não vou atender o prefeito.
— Mas que... INFERNO! — Gêmeos soltou um brado gutural — Por que está fazendo isso? Você pode atender aquele verme sem problema algum, com ou sem menstruação, usando suas ilusões como sempre fez desde o começo, nós dois sabemos muito bem disso!
Nesse momento a amazona engoliu em seco.
Temerosa e assustada desviou os olhos para Afrodite, esperando que o pisciano não tivesse percebido o deslize do geminiano, mas esse, que antes bufava e sacudia o corpo endiabrado devido à discussão, agora estava estático diante deles, o rosto pálido, a boca entreaberta e os olhos arregalados como se tivesse descoberto o mais surpreendente dos segredos.
— Saga... Cala essa boca... — ordenou a amazona.
— Você poderia aliviar a carga de preocupação que levo nas costas... — continuou o grego que tinha ignorado o alerta da namorada devido seu estado alterado — O que te propus foi tão simples. Iludia esses cretinos desses clientes, tirávamos uma boa grana deles, levantamos o Santuário... Ninguém mais iria tocar em você, mas não. NÃO!... Vocês só me enlouquecem.
— Pela deusa, cala a boca! — sussurrou mais uma vez com a voz temerosa e os olhos arregalados cravados na figura de Afrodite, que tremia tanto que era possível perceber as mechas de sua franja tremelicarem em contato com sua testa.
— Eu só queria ter o mínimo de paz para tentar sair dessa lama que Shion nos colocou... Sim, porque a culpa disso tudo não é minha... Não é... Argh... Minha cabeça. — Saga soltou o braço da amazona com um empurrão, sentia muita dor na fronte, tanta que o ar parecia lhe faltar e a visão começava a ficar turva — Que te custava iludir mais uma vez esse otário desse prefeito? Ele saia daqui satisfeito e me dava mais um mês de alvará...
Ao retomar minimamente o folego e a lucidez, Gêmeos olhou para o rosto da namorada e a percebeu em assombro, só então tomou consciência de que não estavam a sós ali. Na mesma hora olhou para trás e se deparou com o rosto pálido e os olhos marejados do Santo de Peixes.
— A... Afrodite... — intentou dizer algo o grego, mas já era tarde demais.
— Não... Não fale mais nada, porque tudo que você disser será inútil para justificar essa... Essa...
O pisciano enxugou uma lágrima quente que deslizava em seu rosto enquanto fitava o Santo de Gêmeos com desprezo, em seguida correu os olhos para a figura pálida de Geisty logo atrás do cavaleiro.
Sua cabeça girava e sentia-se tonto a ponto de ter náuseas e contorcer o rosto em reflexo à ânsia. No peito, seu coração parecia um vulcão em erupção, o sentindo pulsar frenético até dentro da cabeça.
Saber que Geisty nunca havia feito programas com nenhum daqueles homens com quem subia todas as noites para o quarto tinha sido um duro golpe para o pisciano.
Não que estivesse ignorando por completo todo o sofrimento daquela amazona, tudo que ela passara, primeiro nas mãos de Kanon, depois da máfia, Camus, e até mesmo de Saga em sua fase mais obscura, até chegar ali. Contudo, sentiu-se traído pelo geminiano, a quem tinha em mais alto grau de confiança e adoração, pois inicialmente era ele o seu sócio naquele bordel, era ele a ser tratado com regalias, e era ele que não seria obrigado a se prostituir de verdade.
Se tinha ainda alguma dúvida de que Geisty e Saga tinham um caso, muito mais que isso, uma sociedade secreta, agora ela tinha sido totalmente sanada.
Podia até ter sentido raiva de Saga e o culpado por ter retirado suas regalias naquele negócio, afinal ninguém melhor conhecia Afrodite de Peixes que si mesmo. Sabia perfeitamente que era o maior culpado por todos os seus infortúnios. Perdera Camus porque não soube lidar com o que sentia por ele, perdera suas regalias porque desobedecera às regras, perdera a confiança de Saga causando brigas, e ainda matara uma pessoa inocente... Sim, Afrodite sabia melhor que ninguém que não era preciso alguém para lhe ferrar a vida, já que ele mesmo se encarregava disso com primor.
Mas não dessa vez. Dessa vez, sentiu-se traído, enganado, humilhado, usado, pela pessoa que mais confiava.
— Então era isso que você pretendia quando teve essa brilhante ideia de abrir um puteiro? Usar todo mundo só para poder foder com essa ai?
— Não tire conclusões precipitadas Peixes! Eu fiz o que era preciso para nos manter financeiramente. Sem contar que o que eu faço da minha vida particular não diz respeito a ninguém. Acho que já deixei isso claro.
Geisty apenas ouvia as acusações calada, desviando o olhar da figura do pisciano, extremamente envergonhada.
— Não... Realmente o que você faz da sua vida, Saga, não é da conta de ninguém, muito menos da minha... — as lágrimas desciam pelo rosto delicado do Santo de Peixes, que agora além do espanto transfigurava-se em ira — Mas, não quando o que você faz da porra da sua vida interfere diretamente NA MINHA, SAGA! — berrou a última frase, totalmente fora de si — Ou você acha que é com extrema alegria e satisfação que me deito todas as noites com os seus digníssimos clientes de luxo, por que VOCÊ ME OBRIGA?
— Você cavou isso para si, Peixes. Eu havia lhe dado total liberdade de escolha e você, como sempre, traiu minha confiança, arrumando problema com os russos.
— Ah, por Dadá, cala essa sua boca. — gritou em choque — Você e essa puta de franja se merecem mesmo... Você, sua vaca... — apontou para Geisty que agora o encarava não menos agastada com a verdade nua e crua que lhe era jogada na cara — Acha que sou um viado promíscuo e que provavelmente esteja adorando trepar com todos esses suínos, né, sua desgraçada. Sim, porque do contrário não fingiria estar de chico apenas pelo capricho de me fazer atender o prefeito de novo!... Você é cruel.
— Peixes já CHEGA! Saia desse quarto. — gritou o geminiano indo em direção a ele.
— Não se atreva a relar em mim ou eu te enfio uma Rosa Sangrenta na garganta! — ameaçou entre soluços enquanto ativava seu Cosmo — Eu... Eu simplesmente não estou acreditando que enquanto você, Saga, me obriga a trepar com aqueles sujos, que me tratam como lixo, sim, porque nem pelo meu nome eles se dignam a me chamar... Eu tenho que ouvi-los sussurrar no meu ouvido coisas como "viadinho", "bichinha", "putinha", enquanto me machucam e FICAR QUIETO!... Ao passo que você manda essa dai usar ilusões para ser só você a foder com ela, seu cretino do pau torto... Vocês são dois odiosos... — enxugou mais uma fez as lágrimas, agora encarando a amazona severamente — Mas, saiba que ela não usa ilusões somente com os seus suínos sujos não, Saga... Ah, não!...
Geisty, que assistia a tudo absorta, num misto de raiva e constrangimento, ao ouvir aquilo sentiu seus joelhos tremerem e o ar lhe faltar. Permaneceu calada, pois não havia o que ser dito ou mesmo retrucar à indignação do pisciano naquele momento, uma vez que ela própria sabia que muito era sacrificado pelo bem estar dela é do relacionamento que mantinha com Gêmeos.
Lançou um olhar queixoso e ameaçador para Peixes, mas que não foi o suficiente para impedi-lo de prosseguir.
— Ela usa consigo mesma, sabia? E nas ilusões mais caprichadas dela, naquelas em que ela projeta seus desejos mais íntimos, não é você que está lá, seu babaca... É o seu irmão! É o Kanon! É com ele que ela se "diverte" sozinha!
A voz morrera ainda na garganta da amazona que olhava vidrada para Afrodite, enquanto sentia seu sangue gelar dentro das veias. Em desespero e com a voz trêmula tentou rebater a acusação.
— Não... Não é nada disso... Você está mentindo...
— EU VI! Eu vi com esses dois olhos que já viram muita coisa errada na vida, meu bem! — apontava para os próprios olhos encharcados de lágrimas.
— Seu... INTRIGUEIRO! — berrou a amazona ao se virar para o geminiano, mas naquela hora seu raciocínio fugira por completo — Saga, não é nada disso... Eu...
— Calem a boca os dois, por todos os deuses, calem a boca... — a voz do geminiano soou baixa, inexpressiva e lúgubre.
O rosto, antes contrariado e enérgico, agora se mantinha insípido.
A revelação de Afrodite, tanto acerca das ilusões que a amada projetara pensando em Kanon, quanto acerca do sofrimento que era para o pisciano prostituir-se a seu mando, atingiram em cheio o cavaleiro de Gêmeos, de forma profunda e direta.
Eram tantos problemas sem solução aparente em sua mente que o geminiano não conseguia raciocinar. De uma hora para outra tudo pelo que lutara estava desmoronando diante de seus olhos e ele estava completamente impotente.
Os sacrifícios, de si mesmo e de todos, para manter o Santuário, a batalha incessante para conquistar e proteger Geisty da perigosa máfia russa, e até a amizade de longa data por Afrodite, tudo parecia escorrer por seus dedos sem que ele pudesse agarrar.
Era tanta pressão que sentia como se seu cérebro estivesse sendo esmagado, o coração ricocheteando no peito e a garganta lhe esganando cruelmente.
Aquela sensação de derrota rapidamente minou suas forças.
Com muito custo apenas conseguiu engolir a saliva que lhe desceu rasgando as amigdalas e vacilante olhou para o cavaleiro de Peixes.
— Por favor...
Afrodite o encarou dando uma fungada ruidosa.
Esperava ouvir uma palavra de apoio, esperava que ele amenizasse seu fardo, porém sabia, desde que aceitara embarcar naquela viagem sem volta, que uma vez nas mãos da máfia até o mais nobre dos corações se endurece... Porém ainda tinha esperanças.
— Não conte a ninguém o que descobriu... — pediu o geminiano baixando os olhos — Muita coisa depende do seu silêncio... E vá para sua casa. Vá para onde você quiser, só saia da minha frente.
Peixes baixou os olhos encarando os próprios pés. Eram esperanças vãs, de fato.
Sim, muita coisa, muitas vidas, um montante de reputações de figuras ilustres, Camus de Aquário...
Tudo dependia de seu silêncio. Até mesmo sua própria dor deveria ser silenciada ou ele mesmo pagaria por ela.
E foi assim, em silêncio absoluto que o Santo de Peixes deixou o quarto.
Devastado por mais aquele golpe, Afrodite desceu as escadas lentamente e depois de hesitar por alguns minutos, enquanto olhava a figura deplorável do prefeito bonachão que alisava com esganação as coxas de uma das bacantes, cruzou o salão cabisbaixo e deixou o Templo de Baco.
Quando subia as escadarias das doze casas do zodíaco, ao cruzar a de Leão ouviu ao longe um burburinho, acompanhado pelo som de risadas que ecoavam na noite silenciosa.
Ao começar a galgar os degraus da casa de Virgem, enfim pode ver de onde as risadas vinham.
Na entrada do sexto Templo, Shaka e Mu estavam deitados lado a lado sobre uma confortável manta indiana toda bordada em dourado. Apontavam para o céu e descontraídos conversavam algo qualquer que de início Afrodite não soube do que se tratar.
Bem provável que falassem das constelações que ilustravam o firmamento, enquanto faziam um lanche ou tomavam alguma coisa, já que ao lado deles havia duas xícaras de porcelana, aparentemente vazias.
Shaka foi o primeiro a perceber a presença do pisciano ali, encerrando seu riso e fechado os olhos para logo em seguida sentar-se e virar o rosto em sua direção.
Mu ao ver o namorado atento, olhou para baixo e viu Peixes ali, o rosto corado, olhos levemente inchados e vermelhos e um semblante tão melancólico que de imediato o deixou muito preocupado.
— Me desculpem atrapalhar vocês. Eu só vou passar para ir para minha casa. Nem precisam se levantar. — Afrodite falava tentando disfarçar o embargo na voz.
— Dido, aconteceu alguma coisa? Você está com uma cara...
— Na... Não... Não aconteceu nada, Mu... — levou rapidamente a mão ao rosto enxugando uma lágrima atrevida que escapara de seu olho.
— Como não? Por que está chorando?
— Não estou chorando... É um cisco...
Mu então se levantou e foi até ele, sendo observado atentamente por Shaka que analisava a cena calado.
— Foi o Fulano? Ele está lá no bordel e vocês brigaram de novo? — o ariano sussurrou ao ouvido de Peixes ao aproximar-se dele.
— Não... Não o vejo mais desde... — baixou a cabeça para tentar esconder outra lágrima, respondendo também aos sussurros — Desde que ele me mandou esquecê-lo de vez... Que nós nunca daríamos certo.
— Então o que foi? Por que está tão triste assim? — mais um sussurro, porém esse não passou ileso.
— Por que estão cochichando?
A voz de Shaka em alto e bom tom fez Afrodite arregalar os olhos e olhar para o virginiano assustado, ao passo que Mu o segurou pelos ombros o conduzindo até o topo da escadaria.
— Não estamos cochichando, amor. Dido está muito nervoso, só perguntei a ele se ele queria conversar. Vem, senta aqui um pouco. Se acalma.
— E está nervoso por quê? — perguntou Virgem sem o mínimo decoro.
— Shaka! Isso é jeito?
— Deixa, Mu, não tem problema. — tranquilizou Afrodite — Eu estou nervoso porque descobri uma charufinácea daquelas, Buda! Das bem cabeludas. Mais cabeluda que você, tá boa?
— Descobriu uma o que? — questionou Shaka.
— Uma traição! Uma cachorrada! Mas, não posso contar. Nem sobre tortura vão me forçar a contar. Nem que me enfiem pregos debaixo das unhas e me obriguem a trepar com Shina eu vou contar... E não leiam minha mente! Deixem meu coágulo em paz. — dizia aos soluços, seu corpo dando solavancos.
— Por Buda! Que linguajar chulo!
Mu lançou um olhar de repreensão para o amado, dando a entender que não era hora para julgamentos.
— Ei, se acalma. Ninguém vai te obrigar a falar nada que não queira, não é, Shaka? — inquiriu com um sinal para o loiro.
— Hum... Eu não tenho interesse em saber de nada que venha daquele antro de devassidão... — postulou Virgem ao recolher a manta do chão e as xícaras — Eu vou fazer um chá de camomila com hortelã para você. Ajuda a acalmar e também te ajudará a dormir. Enquanto isso, engole esse choro, que chorar em frente à minha casa não é nada auspicioso.
Dando meia volta, Shaka entrou em seu Templo deixando Mu perplexo a observá-lo.
— Deuses!... Por que ele é assim? Desculpa Dido, é o jeito dele.
— Não se preocupe, Mu, até funcionou! — fungou uma última vez limpando o nariz na manga da camiseta — Olha, parei de chorar!
— Não quer mesmo contar o que houve? — insistiu o ariano.
— Não. Eu sei que posso confiar em você, mas... Eu sou tão idiota que a pessoa que me pediu segredo também sabe que pode confiar em mim e por isso eu não vou contar nada... — baixou a cabeça entristecido — Mesmo que ela não mereça.
— Eu te entendo... E respeito... Mas, Dido, não vai aguentar levar sozinho tudo isso. Não do jeito que está levando. Eu estou aqui, eu sou seu amigo.
— Eu sei, Mu. Se não fosse você acho que já teria surtado. — sorriu tímido para o lemuriano — A verdade é que... Se o Fulano estivesse comigo, se ele... Se ele gostasse de mim, cuidasse de mim, como você gosta e cuida do Buda, eu acho que me sentiria mais forte...
Entristecido em ver o amigo daquele jeito, Mu sentou-se a seu lado, abriu os braços e o abraçou com ternura, apertando o corpo trêmulo de Afrodite contra seus baços, no intuito de passar-lhe segurança, conforto e confiança.
Três sentimentos que sofreram um impacto, porém, diretamente no cavaleiro de Virgem, o qual os sentiu balançar quando voltando da cozinha com o chá de camomila que havia feito para o sueco viu Áries abraçado a ele daquela forma tão entregue.
Na mesma hora Shaka sentiu sua segurança e conforto novamente vacilarem.
Talvez se estivesse plenamente certo de que Mu sentia desejo por si tanto quanto o amava, esse abalo em suas estruturas não teria acontecido, mas há semanas o namorado lhe rejeitava toda vez que insinuava uma aproximação mais íntima e não entendia o que o levava a rejeitá-lo daquela maneira.
Mesmo em toda sua sabedoria, achou que talvez Afrodite fosse a resposta.
Peixes era experiente no sexo, ele, Shaka, não.
— Buda, mas que ideia torta! — resmungou para si mesmo ao se chocar com aquele pensamento.
O resmungo do virginiano chamou a atenção dos dois cavaleiros sentados nos degraus, e imediatamente Mu se desvencilhou de Afrodite já se pondo de pé.
— Já voltou, Sha! Que ótimo! Dá aqui o chá. — esticou os braços apanhando a xícara das mãos do indiano e a entregando a Peixes — Toma Dido, bebe tudo que os chás do meu namorado são milagrosos! Depois vá para sua casa e tente dormir.
Peixes tomou a xícara em suas mãos e sem dizer mais nada bebeu o chá lentamente, saboreando toda aquela simplicidade da combinação de hortelã com camomila como se fosse o mais sofisticado dos elixires, já que para ele aquela infusão tão simples tinha sabor de conforto, carinho e apoio.
— Obrigado, Buda. — disse ao se levantar e estender a xícara a Virgem — E obrigado, Mu... Vocês sãos bons amigos. Você até que é legal também, Shaka... Bem... Boa noite.
Despediu-se com um aceno e cruzou a sexta Casa, deixando para trás um ariano preocupado e um virginiano bem desconfiado.
No quarto de Geisty, no Templo de Baco.
— Saga, não é nada disso que esse intrigueiro tentou insinuar...
A amazona ia continuar, mas foi interrompida pelo geminiano que saiu de sua quase catatonia para encará-la.
— É o que então, Geisty?. Fale! — bradou exasperado, calando a moça que lhe devolvia um olhar surpreso — Vamos, só estamos nós dois aqui agora. Pode falar tudo o que você tiver para me dizer, porque sou todo ouvidos. Ninguém irá lhe interromper e eu estou morto de curiosidade para saber o quanto sou feito de corno pela lembrança do meu irmão... Pode começar a falar.
Um silêncio incômodo se fez no ambiente, enquanto o cavaleiro encarava ansioso a amazona, a qual sentia ser esmagada por aquela pressão.
Com os lábios trêmulos e voz embargada tentava explicar o que a princípio era inexplicável.
— Saga, o que Afrodite diz ter visto, aconteceu há muito tempo.
— Quanto tempo?
— Logo depois de termos nos beijado e eu ter pego você e ele transando na escada.
— De novo isso... — falava enquanto esfregava o rosto com as duas mãos, cansado.
— Saga eu fiquei sem chão naquele dia... E me senti mais sozinha do que jamais estive... Eu estava desiludida, pelas próprias expectativas que eu mesma havia criado nem sei por qual motivo, então fui até os fundos do Templo tentar espairecer pegando sol e ali... Ai, sozinha, refleti sobre como tudo na minha vida havia desmoronado e como deveria recolher os caquinhos que restaram para tentar reconstruir como podia... — sem conseguir conter o choro duas lágrimas desceram quentes pelo seu rosto — Naquela hora, a única coisa que eu queria era ter qualquer lembrança boa, a qual eu pudesse me agarrar para não desistir de viver... Então eu me lembrei da praia da Ilha Fantasma ao entardecer. Lembrei-me do quanto eu gostava de ver o sol se pondo no horizonte e projetei aquela memória para o meu redor. Aquilo era uma lembrança de um momento feliz que eu vivi, e me deixei mergulhar nela e ser levada até o ponto onde Afrodite viu... Projetei na minha ilusão Kanon no mar, me acenando para mergulharmos juntos, até que ele saia da água, vinha na minha direção e tentava me levantar da cadeira em que eu estava recostada tomando sol.
Uma pausa se fez e ainda chorando Geisty se abraçava a si mesma aos soluços.
— Eu só queria relembrar algo feliz que vivi, e aquele foi um dos poucos momentos de felicidade que tive. Que não me senti tão sozinha. Tão... Descartável. Foi isso que Afrodite diz ter visto. E foi a única vez que fiz isso... Nós não estávamos juntos ainda, Saga, e eu ainda não sabia a respeito de tudo que Kanon armara para nós dois... Não faça um mau julgamento de mim.
O geminiano se mantinha calado, corria as mãos pelos cabelos em um gesto angustiado, afastando os fios soltos de seu rosto e pousando as mãos com os dedos cruzados na nuca, enquanto soltava uma lufada de ar.
— Não posso controlar seus pensamentos, Geisty. Não tenho esse direito. Eles são somente seus. Mas, isso não diminui o vazio que me causou...
Lentamente deu alguns passos em direção à porta, mas foi interrompido pela amazona, que o deteve com um toque delicado no braço.
— Saga, por favor, não sai assim...
— Eu preciso ficar sozinho Geisty... Hoje eu quero ficar sozinho... Preciso pensar. Quero descansar. — falando isso afastou com cuidado a mão da amazona – E, por favor, que não se repita o que ocorreu hoje, há muito em jogo para você jogar tudo para o ar.
Ao cruzar a porta, Gêmeos ainda pôde ouvir a voz da namorada em um sussurro.
— Me desculpa.
Sem olhar para trás, o grego fechou a porta atrás de si e desceu para o salão, indo direto à mesa do prefeito. Sem rodeios o avisava que naquela noite nenhuma das joias da casa estaria à sua disposição, mas que seria recompensado de outra maneira.
Sem esperar que Praxédes formula-se suas reclamações, Saga deu-lhe às costas e saiu pelos fundos do Templo de Baco rumo ao Santuário.
Ao que subia as escadas, se deteve na entrada do templo de Gêmeos, a sua primeira e verdadeira casa.
Devagar adentrou o ambiente e acendeu as luzes olhando tudo à sua volta.
Como sempre fizera, buscava em seu Templo o conforto nos momentos de maior aflição, então se dirigiu até o pequeno bar que havia no canto da sala e pegou uma antiga garrafa de Absinto, dando um gole direto no gargalo na ânsia de calar a voz nefasta que lhe sussurrava na mente coisas quase incompreensíveis.
Exaurido, caminhou até o espaçoso sofá e se deixou cair sentado, enquanto afrouxava a gravata dando mais um gole generoso na bebida que lhe descia queimando.
Ao fitar o vazio, revivia aquele turbilhão de informações que haviam sido cuspidas em sua cara naquela noite.
Uma sensação de fracasso o consumiu ao perceber que tudo a sua volta se perdia.
Tomado por esse sentimento, deixou o choro escapar-lhe em um soluço, enquanto lágrimas grossas e abundantes lhe desciam pelo rosto cansado.
Ali, no Templo de Gêmeos, o seu refúgio, ele podia se permitir chorar, e entre um gole e outro de Absinto, angustiado murmurou ao silêncio daquela morada:
— Nem mesmo depois de morto você me dá paz, Kanon...
Dicionário Afroditesco
Cafuçu – indivíduo bruto, selvagem, sem modos, grosseiro; pessoa invejosa ; inveja
Padê – cocaína
