Templo de Baco, 09:23am

— "Saga..."

O Santo de Gêmeos jamais sentira os pés tão frios.

O odor forte e corrosivo da maresia lhe queimava as narinas como nunca antes.

O mar, o som poderoso das ondas se quebrando contra o rochedo, o lodo sob seus joelhos feridos... Tudo naquele lugar minava suas forças fazendo crescer o torpor em sua alma.

— "Saga..."

Ouvia o chamado insistente, mas não se encorajava a responder, pois, diferente de um simples clamor, a voz funesta que o invocava em um sussurro aspirado, ao mesmo tempo lhe oprimia, tolhendo sua vontade.

— "Saga... Saga..."

Esticou os braços e agarrou nas grades milenares corroídas pela maresia. Suas unhas impregnadas de ferrugem e lodo.

À sua frente o mar.

— "Saga?"

A dor crescia, e com ela o medo de perder a si mesmo ou de descobrir ser aquela "Coisa" sua verdadeira essência.

— "Saga?"

Talvez devesse parar de lutar.

Sim.

Se desistisse, a dor não mais lhe castigaria.

Talvez Ele fosse o único capaz de pôr ordem no caos que se tornara sua vida. Ele era mais poderoso, mais corajoso...

Mas, e ela?

Se deixasse Ele livre, se desse um fim à sua dor, o que seria dela?

Geisty...

— Ei, Saga? Você está ai?

De súbito, a voz aspirada e gutural que lhe invocava de forma opressora transfigurou-se em uma doce voz conhecida, cordial e amiga, o tirando de sua divagação.

Piscando algumas vezes, viu desaparecer as paredes de rochas lodosas do Cabo Sunion, e seus pés, novamente aquecidos e devidamente calçados, pisavam o aconchegante carpete de seu escritório no Templo de Baco.

O odor corrosivo da maresia fora exorcizado pelo perfume agradável das rosas que Afrodite sempre dispunha em alguns vasos de porcelana grega ali, e o som das ondas se quebrando nas rochas fora afugentado completamente por toques insistentes que ouvia na porta.

Esfregou o rosto pálido e ainda confuso nervosamente. Respirou fundo. Seu coração inquieto no peito lhe causava falta de ar e uma tensão desmedida.

Estava de volta, pelo menos por enquanto.

Lentamente desfez a postura em que estava e virou o rosto para a porta.

— Entre... Mu.

Enquanto ouvia a porta se abrir, Gêmeos caminhou até sua escrivaninha e puxou a cadeira para se sentar, só então olhou para o rosto delicado do Santo de Áries que fechava a porta atrás de si e agora se aproximava com um semblante questionador.

— Está tudo bem? Estou te chamando há algum tempo já... Como você não respondia resolvi bater.

— Eu estou... Bem. — respondeu o geminiano pausadamente, esfregando os olhos no intuito de firmar a visão que lhe parecia meio embaçada.

— Tem certeza? — questionou Áries, pois enxergava na aura do Patriarca uma sombra funesta que antes nunca havia notado, incomodando-se com aquilo — Talvez... Eu deva voltar outra hora?

— Não. Já disse que estou bem, Mu... Sente-se, por favor. — replicou Saga, indicando a cadeira à frente de sua escrivaninha.

— * "O que a cria escrota daquele velho babaca quer aqui? Mande ele embora!".

A pergunta repentina, feita diretamente à mente de Saga, lhe fez arregalar os olhos em surpresa.

Uma gota espessa de suor escorreu por sua têmpora e rapidamente fora enxugada pelos dedos trêmulos do cavaleiro, que encarava o ariano com a tensão de quem perguntava se ele também havia ouvido aquela voz.

— O que você quer aqui, Mu? — entrelaçou os dedos das mãos, esperando o outro se pronunciar.

— Bem... — Áries sentia que algo ruim afligia o geminiano, mas ao mesmo tempo sentia a aura de Saga firme, forte, denotando sua vontade de vencer qualquer adversidade que, por acaso, viesse a assolar sua alma — Eu tenho um assunto um pouco urgente para tratar com você, mas talvez não seja o melhor momento... Só que... A verdade é que não tenho mais tempo para esperar, e tem que ser agora. Saga, eu preciso de um abono e uma semana de férias adiantadas.

Gêmeos ergueu uma das sobrancelhas, surpreso com o pedido do ariano.

— Você quer férias? Mas não completou nem o primeiro semestre de trabalho. — disse o grego para um lemuriano já tenso, porém pleno em alegria.

— Eu sei. — respondeu o outro com um sorriso.

— Seu trabalho é exemplar e não tenho do que me queixar, mas sair assim, agora? Vai fazer falta. — o fitava firme, com o brilho no olhar do ariano lhe atiçando a curiosidade — Para quando quer os dias?

— Para daqui uma semana. A contar de hoje. Mas, não se preocupe, já adiantei todo o trabalho e deixarei tudo encaminhado. Quando voltar, posso fazer algumas horas extras para colocar em dia o que ficou para trás...

— Você está sobrecarregado, Mu? É o trabalho na forja?

— Não. Bem, você sabe que o Shaka e eu estamos namorando, não sabe?

— Hum... Sei, desde o dia em que ele fez aquele escândalo aqui na frente do meu estabelecimento. — resmungou, olhando para o cavaleiro com indisfarçada reprovação.

— Na verdade, bem antes desse dia. — Áries riu descontraído, porém ainda sentindo a sombra pesada que oprimia a aura do Patriarca — Bom, daqui há uma semana é aniversário do Shaka, e eu quero fazer uma viagem com ele, para a Índia! Seria, tipo, um presente.

Mu tentava sair pela tangente para não ter de revelar o motivo real da viagem, pois quanto menos gente soubesse menos chances havia de seu plano dar errado.

— Então você quer viajar com o namorado? Hum... Dois cavaleiros ausentes... — pareceu não gostar da ideia.

— Sim... Mas é importante. Não pediria se não fosse. Além do mais, o Shaka pode se teleportar caso for preciso sua presença no Santuário por motivo de algum contratempo, depois, os trabalhos na forja já estão todos encaminhados, e o trabalho burocrático daqui consigo ajeitar de maneira a não prejudicar a casa se eu me ausentar apenas por uma semana.

Saga ficou pensativo por um tempo.

Mu era o único funcionário que nunca lhe dera trabalho algum, pelo contrário, fazia até mais do que lhe era pedido, e se ele estava ali solicitando uma folga um bom motivo realmente deveria ter.

— Pois bem, hoje me sinto especialmente bondoso. — sorriu em resposta o grego — Pode tirar os dias que precisa, e ainda te dou um bônus de salário, não pelo altruísmo em manter aquele monge irritante bem longe do meu bordel, mas sim por você ser um cavaleiro e funcionário exemplar, que não me causa problemas.

— Obrigado, Saga.

— "Que patético!"

Novamente a voz se pronunciou na mente de Gêmeos, que olhando inerte para Áries, enquanto a ouvia ecoar emaranhada em seus pensamentos, inclinou-se para frente e com um semblante perverso perguntou:

— * E eu espero que continue mantendo Shaka bem longe daqui, de mim, e dos meus negócios... Agora vejamos... Quem fica por cima? Quem é a mulherda relação?

Mu estranhou tanto a pergunta, quanto a entonação da voz do grego e seu semblante, que de uma hora para outra havia assumido um tom jocoso, debochado.

— Desculpa? — questionou confuso.

— * Isso se vocês já treparam, né. Você e aquele monge maldito sempre foram tão certinhos... Tão apegados às suas tradições idiotas... Argh... — bateu na mesa fazendo uma careta de dor, depois limpou o suor que brotava da testa com a palma da mão.

Saga lutava contra Ele. A voz, a sombra, a presença... O que havia de pior em si mesmo e ansiava por libertar-se.

— Sim... Somos muito apegados à nossa cultura natal. Ele a dele, e eu à minha e a tudo que meu mestre me ensinou. — Mu estreitava o olhar analisando ao mesmo tempo o semblante e a aura do geminiano, os quais oscilavam numa velocidade impressionante, então se decidindo por contar a verdade — Por isso mesmo que... Eu decidi me casar com Shaka.

— Casar! — de pronto Gêmeos ergueu a cabeça. O tom zombeteiro agora adquiria um ar curioso e surpreso — Você disse, casar?

— Sim, disse. — respondeu Áries controlando o desconforto — Essa viagem terá esse fim, mas será uma cerimônia particular, reservada somente a mim e a ele. E também quero pedir-lhe que faça segredo, pois é uma surpresa minha para o Shaka.

Um silêncio repentino se fez entre os dois cavaleiros.

Era de se supor que aquela notícia seria recebia com certa surpresa pelo geminiano, mas fora muito além disso. Saga, de repente, se pegou admirado, e invejando Mu de certa forma.

Tudo que fizera, os caminhos tortos e muitas vezes escusos que trilhara para poder salvar Geisty e tê-la ao seu lado finalmente, agora pareciam ter sido completamente em vão. Estava há semanas sem ao menos falar direito com a amazona, enquanto bastaram apenas alguns meses, desde que Mu voltara a morar no Santuário, para que já se juntasse em matrimônio com Shaka.

A vida era bem injusta consigo.

— Saga? — chamou o ariano ao perceber o Patriarca novamente divagando, perdido sabe-se lá em que pensamentos — Tem certeza de que está tudo bem? Se precisar de ajuda...

— Não preciso de nada, Mu. Estou bem. — respondeu Gêmeos ofegante, cansado físico e emocionalmente daquela luta interna sem fim, travada consigo mesmo — Parabéns aos noivos! E fique tranquilo, não direi nada a ninguém.

Abaixando a cabeça, olhou para as gavetas de sua escrivaninha e abriu uma delas, tirando de dentro um caixa retangular de aço trancada à chave, a qual apanhou no bolso de seu paletó.

Ao abri-la, revelou um generoso maço de notas de dólar.

Apanhou um bom punhado delas e as estendeu para Áries.

— Imagino que uma cerimônia de casamento na Índia e uma estadia de uma semana não seja algo muito barato. Pegue. Esse é seu abono, e parte do meu presente de casamento. Eu lhe desejaria felicidades, se não conhecesse bem aquele monge, por isso eu lhe desejo, boa sorte! — sorriu descontraído, conseguindo calar momentaneamente a voz opressora.

— Obrigado. — o lemuriano aceitou o presente de bom grado, até porque, de fato, uma cerimônia de casamento não era algo simples de se bancar — Mas, ainda tem um último detalhe.

— Mais um? Então vamos, lá, diga. — o grego trancou a caixa novamente e a guardou de volta na gaveta.

— Preciso que libere o Afrodite do trabalho também... Por uns, dois ou três dias, não mais que isso.

— Afrodite? — arregalou os olhos em choque — Mas, pela frieira do pé amaldiçoado do sujo do Hades, por que o Afrodite? – fazia uma careta meneando a cabeça.

— Porque não posso fazer tudo sozinho, né Saga! Dido vai me ajudar a organizar tudo. Na verdade ele já está me ajudando com a escolha de local, hotel, decoração, as vestes cerimoniais... Eu pago os dias de trabalho que ele ficar fora.

— Você não sabe o tamanho da encrenca em que se meteu colocando Afrodite em seus planos! — falou meio abalado — Tudo bem, pode levá-lo. Será bom para ele, inclusive. Afrodite tem andando tão triste que talvez seja bom para ele respirar outros ares. E não vou descontar nada, não se preocupe, mas... Que Atena tenha piedade de você, porque com aquele lá por perto tudo pode acontecer.

Mu riu das palavras do Grande Mestre, sentindo que sua alegria devido à notícia de suas bodas era de fato genuína, porém a sombra que ainda esmagava sua aura ainda estava lá, insistente e perniciosa.

Queria muito entender o significado daquilo, mas sabia que certamente tinha a ver com o mal que seu mestre, Shion, há muito lhe havia mencionado, e do qual também lhe alertara a sempre ficar longe, pois era bem provável ser essa sombra o verdadeiro mal previsto pelo antigo Patriarca e não o Santo de Gêmeos propriamente dito.

Ficaria bem mais atento de agora em diante.

Não fosse ter apenas uma semana para dar conta de todos os preparativos do casamento, decerto que iria insistir com Saga até encontrar um modo de ajuda-lo.

Desobedeceria a seu mestre, pois sentia que Gêmeos estava deveras perturbado e não admitia precisar de ajuda, por isso decidiu que assim que volta-se de sua lua de mel passaria a tentar entender melhor o que era aquela sombra, ou quem era.

— Obrigado, Saga. Por tudo, e... Se precisar de algo...

— Não preciso de nada, Áries. Está tudo perfeitamente bem, obrigado.

Com uma sutil mesura, Mu, que já estava de pé, despediu-se do geminiano e deixou a sala, levando consigo o dinheiro o qual guardou preso ao cinto em sua cintura.

Quando seguia para seu escritório para dar início a mais um dia de trabalho, Mu avistou Afrodite no palco, junto com Shina, Karina, Rebeca e Marin.

Enquanto as moças ensaiavam alguns passos ainda não perfeitamente decorados, o Santo de Peixes dava uma última passada no som, já que também iria se apresentar naquela noite cantando uma canção típica italiana, pois a casa receberia membros ilustres da poderosa Camorra, a máfia nascida na Nápoles do século XIX.

Cantar não era a especialidade de Afrodite, e também não lhe agradava tanto, porém tinha que admitir que desde criança sua voz encantava aos colegas e tutores por ser naturalmente afinada, harmoniosa e potente, e como os italianos apreciavam em demasia suas canções tradicionais, Saga pediu a Peixes que os agradasse com uma bela melodia de vossas terras.

Não que Gêmeos estivesse interessado em ser um bom anfitrião, mas simplesmente porque "puxar saco" de mafioso era uma manobra considerada das mais inteligentes, e Saga tinha muito interesse em fechar com a Camorra uma parceria no negócio fraudulento da importação de carne, já que assim gastaria bem menos com a verba destinada à alimentação dos aprendizes, soldados e funcionários do Santuário.

Mu se aproximou do palco e esperou até que Peixes terminasse de passar o som, então quando o viu ajeitar o microfone no pedestal lhe fez um sinal discreto.

Afrodite desceu do palco e a seu modo todo serelepe caminhou até Mu, enquanto prendia os longos cabelos num rabo de cavalo alto e guardava o papel com a letra da música escolhida no bolso da calça jeans.

— Huumm... Você hoje está com uma cara ótima! Não me diga que fez a lôca e deixou o Shaka apagar tua vela!* — disse sorrindo para o ariano, enquanto lhe apoiava um dos cotovelos em seu ombro.

— Não... Se é o que eu estou pensando, mas... Quase. — respondeu Áries rindo — Está cada dia mais difícil de... De você sabe o quê.

— Vocês dois são dois malucos, mas malucos do bem.

— Está muito ocupado, Dido? Eu preciso lhe dizer como foi minha conversa com Saga.

— Não. Podemos conversar, mas não aqui. — olhou ao redor e viu Misty de Lagarto deixando a cozinha e seguindo para o palco onde estavam as bacantes. Como sempre, o francesinho tinha sua postura firme, seguia em frente, mas encarava o pisciano com os cantos dos olhos — Lagartixas têm ouvidos aguçados... Venha, vamos subir.

Peixes pegou na mão de Áries e apressado conduziu Mu até a escadaria, subindo ligeiro enquanto eram seguidos pelo olhar insidioso do cavaleiro de Prata.

Ao entrarem no aposento, rapidamente Afrodite passou a chave na porta.

— Pronto, estamos seguros aqui. — virou-se para o ariano lhe dando um sorriso sincero, porém ainda carregado em melancolia.

— Vejo que ainda está muito triste. Não tem mais falado com o Fulano desde o dia em que a Mônica morreu? — questionou Áries preocupado.

Era tão difícil para o lemuriano estar vivendo um momento de plena felicidade quando seus amigos claramente viviam o oposto, mas sentia que ainda nada podia fazer para reverter aquele quadro, a não ser estar ali, presente.

— Não. — o pisciano baixou a cabeça desanimado, depois caminhou até a cama e sentou-se à beirada — Eu acho que ele já me esqueceu... Deve ser outro que me odeia, como a puta da Geisssty, a Lagartixa Cascuda, a cobra da Shina e o fantasma da Mônica. Todos aqui me odeiam.

— Não diga isso... — disse Mu, trazendo uma das poltronas até perto de si com sua telecinese para sentar-se em frente a Afrodite.

Sentiu por diversas vezes a aura de Camus em festa quando este estava perto do pisciano e não podia crer que um sentimento daquela magnitude pudesse desaparecer apenas por vontade própria. Não. Camus podia ser um homem famoso por sua racionalidade e prática, mas era ainda assim um ser humano e um apaixonado convicto!

— Eu tenho quase certeza de que está errado, Dido. O Fulano logo te dá um sinal de vida.

— Pois se for para me dar sinal acompanhado de desgosto, é melhor que não dê... Mas, não viemos falar dele, né Alice? Viemos falar de quê?

— Olha só! — Áries tirou o maço de dólares do cinto e mostrou ao pisciano, que arregalou os olhos surpreendido.

— Santa Cher! Para que todo esse acué*? Não me diga que está comprando um programa comigo! Para você eu faço de graça.

— Deixa de ser bobo. — o ariano riu da brincadeira, mas logo voltou a ficar sério — Saga me deu esse dinheiro, mais um abono salarial e uma semana de férias para o casamento e a lua de mel.

— Pela coroa de Dadá! Tá brincando! Já estou achando admirável você ter conseguido falar com o ocó*, porque nos últimos dias ele tá uó, mal dá pra respirar perto dele. E ainda te deu todas essas regalias? Tô sépian!

— É, de fato ele está bem esquisito. Não gostei nada do que vi em sua aura, mas, Dido, eu não posso pensar nisso agora. Tenho apenas uma semana para preparar tudo o que falta e estou enlouquecendo. É muita coisa, muitos detalhes.

— Calma, Santa. Está tudo encaminhado e eu vou te ajudar.

— Saga liberou você por dois ou três dias. Acha que tudo bem?

— Claro! Pelas minhas contas, no dia do seu casamento, semana que vem, eu teria um programa com aquele senador ateniense que deu o golpe nas merendas escolares, que é meu cliente fixo, vem toda semana, sabe? — Mu afirmou com a cabeça — Só que acredita que o cara morreu semana passada? E parece que não foi assassinato não.

— Morreu de morte natural?

— Sim. Hipotermia. Enquanto ele molhava o jardim da mansão dele.

— Hipotermia? Aqui na Grécia? — Mu franziu a testa com um olhar no mínimo descrente.

— Pois é, colega.

— Puxa! Essa água que ele molhava o jardim deveria estar bem gelada, não é não? — segurou o riso, pois o momento exigia-lhe seriedade.

— Bem capaz, mas deve ser mais comum do que a gente imagina, porque, sabe aquele meu cliente suíno, que também vinha toda semana, o deputado macedônio? Que estava aqui no dia da morte da quenga da Mônica e nunca mais voltou?

— Sei, o que tem ele? — perguntou curioso o ariano.

— Também morreu, da mesma causa. Hipotermia... Ele foi encontrado na cozinha da casa dele com a geladeira aberta... Deve ter dado algum problema no termostato.

— Ah! Sim! Sem dúvida, Dido! Sem dúvida foi o termostato! — de olhos arregalados Mu concordava, já imaginando o que possivelmente causara a hipotermia naqueles dois homens cuja única coisa que tinham em comum, além da política, era que frequentavam a cama do cavaleiro de Peixes.

— Mas, nem sei por que me lembrei disso agora. Voltemos ao que interessa. Como está a nossa "noiva"? — perguntou o pisciano com um sorriso.

— A beira de um ataque de nervos! — respondeu o ariano com um riso ansioso, pois quem estava mais propenso a ter um colapso nervoso era mesmo ele — Está tão complicado segurar o tesão... Digo, de ambas as partes, minha e dele também. Shaka não está entendendo essa minha relutância em transar com ele e o tempo todo ele, meio que, me ataca.

— Um monge a beira de um ataque de nervos e com um furor sexual desenfreado... O mundo está mesmo mudado! — Afrodite riu — Você tá lascado.

— Eu sei, mas, só tenho que segurar mais uma semana. Uma semana apenas! Mas, Shaka já está ficando desconfiado de que eu não o desejo mais e tem jogado baixo... As vezes eu tenho cada ideia torta também que por Atena! — esfregou o rosto nervosamente — Ontem eu quase coloquei tudo a perder... Só os deuses sabem a força que tive de fazer para não cometer uma loucura com aquele loirão. Ele me agarrou na cozinha e, nossa Dido, nunca senti tanta vontade de rasgar aquela túnica dele e tomá-lo ali mesmo, em cima da mesa... Ele estava tão lindo, tão sensual. Aquela pele dele cheirando a sândalo, os cabelos ainda molhados do banho, a boca quente... Quando vi já estava sem camisa com ele me mordendo o peito de um jeito tão gostoso... Ai ele foi descendo, descendo...

— Você quer parar? Está me deixando com tesão! — disse Afrodite cruzando as pernas para disfarçar uma ereção que se pronunciava, enquanto abanava o rosto chacoalhando ambas as mãos — Ai, minha deusa!

— Tesão? Você não imagina como eu fiquei! Precisei trocar de cueca depois. — Mu levou um dos punhos à testa esfregando a atadura que o envolvia numas gotículas de suor que ali se formavam — Olhar para ele todo excitado como estava, corado, ofegante... Ver nos olhos dele o desejo que estava sentindo naquele momento, como esfregava seu rosto no meu... Sabe, no meu... — apontou para o meio das pernas — Por cima da calça, e... Cara, estava me deixando louco!

— Por Dadá, que monge safado! — Afrodite estava até vesgo de imaginar a cena — E Buda não atrapalhou vocês dessa vez, Mu? Digo, ele não surgiu no meio da cozinha dizendo: Oh, Shaka, não deves colocar a tua boca sagrada na piroca mundana deste homem! — dizia projetando uma voz grave enquanto enchia as bochechas de ar.

Mu deu uma gargalhada.

— Não. Buda não apareceu. Quem acabou com a nossa alegria fui eu mesmo, ou não teria mais casamento, né?... Deuses! Eu estava prestes a eu mesmo arrancar aquele monte de pano que ele usa e... Sabe, eu, eu senti vontade de fazer o que ele estava fazendo, só que enfiar o... O...

— O PAU! — Peixes gritou, como se tivesse descoberto ganhar na loteria.

— Isso... Dele na minha boca. Não sei por que, mas eu queria, só que...

— Só que o quê?

— O que faz com os dentes? Não machuca?

Afrodite quase caiu da cama.

— Dadá, me abana! Mu! — encarava com os olhos arregalados o ariano todo envergonhado a sua frente — Pelas três bocarras dos Cérbero!... Ok... Calma, vamos lá. Boquete é uma coisa que você aperfeiçoa com a prática. Com o tempo você vai ver que os dentes não atrapalham em nada e que até a ânsia, que você vai sentir nas primeiras vezes, passa a ser prazerosa. É como chupar sorvete de palito. Você enfia o sorvete todo na boca, mas não morde e, se morder, é devagarzinho. Pode cobrir os dentes com os lábios se quiser, assim ó... — demonstrou para Mu fazendo um "O" com a boca — Aí você chupa o pau todo como se suga um canudinho, só que é um canudão! E mexe a língua desse jeito... — novamente fazia uma demonstração, agora serpenteando a língua projetada para fora da boca — Se tocar na sua garganta segura o máximo que conseguir. Não há quem não pire com isso. Vai por mim! E o resto é você quem vai descobrir!

— Puxa... — foi a única palavra que Mu conseguiu proferir depois daquela "aula" teórica tão ilustrativa.

— Você é um bravo guerreiro que provavelmente tem um coágulo na cabeça também. Onde já se viu parar um amasso desse, minha deusa! — suspirou metendo uma das mãos entre as pernas para ajeitar o membro incômodo depois daquele relato tão erótico — Bom, se tudo der certo, semana que vem vocês estão casadinhos e ai podem trepar à vontade. Ah... Vai ser o casamento do ano! Desses que sai até em revista de fofocas! — dizia o sueco olhando para o teto e já idealizando o evento — O loirudo vai ser uma noiva linda! Será que as noivas indianas também jogam o buquê para trás? Ele poderia jogar e eu poderia pegar, né? Alôca! Quem iria querer casar comigo? Talvez o dono daquele montinho de merda na areia da praia!

— Não! Está maluco? — alertou Mu — Não terá nem buquê, nem imprensa, nada! Os únicos convidados são as próprias pessoas que habitam o templo, porque festa indiana tem que ter volume, mas nenhum conhecido nosso pode ir. Dido, tem que ser uma cerimônia bem discreta. Shaka é orgulhoso e já vai estar super incomodado de estar vestido em um sári que eu sei, conheço ele. Até você terá que ir disfarçado de início.

— Sem problema. Eu vou de indiana também para dar uma forcinha ao seu loirudo. — piscou para Mu, todo animado.

— Nada pode dar errado, Dido. — Áries esfregava as mãos, tenso — Já me sinto culpado de deixar o Shaka tão inseguro, tão confuso... Eu sinto na aura dele que ele não está bem. Se alguma coisa der errado...

— Ei, chuta esse ebó de mau agouro pro Universo, linda! — Afrodite bateu palmas algumas vezes, esticando os braços para cima em seguida, chamando a atenção do ariano, depois se levantou da cama e indo até ele, o puxou pelas mãos — Nada vai dar errado, Mu. Nada! Fica tranquilo, e relaxe. Termine as joias e alianças e deixe que da festa e da decoração eu cuido... Vocês vão ser muito felizes. Me dá até uma magoazinha de cabocla de vocês.

— Que os deuses te ouçam, Dido. — sorriu o lemuriano, puxando o amigo para um abraço — Obrigado, por tudo. E saiba que você também será, muito feliz... Eu torço muito por você e o... Fulano. Mesmo que demore, eu sei que ele gosta de você.

— Sabe? — Peixes se afastou para olhar o rosto de Mu, que tentou disfarçar.

— Ah... Sei, oras... Você é lindo, é um cavaleiro poderoso, é talentoso, você entende tudo de... De sexo... Quem não se apaixonaria por você?

— Hum… Alguém a quem eu tenha partido o coração primeiro. Alguém a quem eu tenha feito tão mal que não há maneira de voltar atrás. — suspirou resignado, então afastou-se do ariano e caminhou até a porta, a destrancando — Mas, isso é passado, e se tem uma coisa que eu aprendi na minha vida é que o passado deve ser esquecido, ou a gente se machuca mais a cada dia. Venha, acho melhor descermos ou as moscas varejeiras desse lugar podem ir zunir no ouvido do seu namorado que você está no meu quarto há horas. Se precisar de algo é só me chamar.

Desceram juntos para o térreo e finalmente Mu se dirigiu a seu escritório, a fim de iniciar os trabalhos daquele dia, já pensando que não seria uma semana fácil, e Afrodite subiu para a casa de Peixes.

Teria uma noite longa, chata e cansativa.

Um atendimento logo no começo do expediente, um dos mafiosos da Camorra que haviam reservado um horário consigo, e depois teria que entreter os demais cantando uma canção popular de Nápoles.

— Argh. Ainda morro de desgosto antes mesmo que aconteça a Guerra Santa! — resmungou enquanto subia as escadas do Santuário.

O Santo de Peixes só não sabia que as emoções daquela noite mudaria, novamente, o curso de sua vida!

Templo de Baco, 23:15pm

No salão, a comitiva italiana tomava seus acentos na grande mesa que lhes fora reservada estrategicamente de frente para o palco, onde Marin e Yumi faziam um strip tease carregado de sensualidade, para delírio e sofrimento de Aiolia, que do balcão do bar olhava para a amazona ruiva ao mesmo tempo a cobiçando e amaldiçoando os olhares felinos sobre ela.

Ao lado da mesa dos membros da Camorra estava, estratégica posicionada, a mesa reservada aos membros da Vory v Zakone, que haviam chegado poucos minutos antes e já degustavam suas vodcas e coquetéis.

O fato de aquela ser uma casa de shows e prostíbulo não impediu alguns membros de levarem suas esposas e namoradas, visto que elas tinham conhecimento de que a prostituição era um dos negócios mais rentáveis da máfia e que seus companheiros muitas vezes viviam dela. Ao contrário, era de bom grado levar uma acompanhante respeitável a uma negociação como aquela.

E aquela, definitivamente, não era uma noite comum.

Reunir ambas as máfias mais poderosas do planeta sob seu teto era uma manobra muito bem arquitetada por Saga de Gêmeos, que usava todas as armas que tinha para fortalecer os laços da máfia grega com outras organizações criminosas que operavam na Europa a fim de minar, gradativamente, a influência financeira da Vory sobre o Santuário, e, inteligente e estrategista como era, Gêmeos tratou de chamar os russos e encarregar Camus de Aquário de firmar os tratados com os italianos.

Sim, Camus podia ser um Vor poderoso e fiel dentro da Vory v Zakone, mas ainda era um cavaleiro de ouro e subordinado do Grande Mestre.

Se Saga firmasse uma parceria com outra organização criminosa pelas costas da máfia russa, poderia ser acusado de conspiração e traição, mas se Camus fizesse isso, com a desculpa de estar beneficiando a Vory, nem ele, nem Saga, teriam nada a perder, e o aquariano não tinha porque negar auxílio a Gêmeos, já que nunca fora sua intenção manter o Santuário sob domínio russo.

A corrupção da Vory v Zakone já estava impregnada nas colunas do Santuário grego muito antes de Camus receber sua armadura sagrada!

Sendo assim, quando ninguém esperava, o cavaleiro de Aquário adentrava o salão naquela noite, após três semanas sem dar as caras naquele lugar, e não estava sozinho.

Como mandava a etiqueta em encontros como aqueles, uma linda mulher o acompanhava.

Durante todo o tempo que esteve ausente, em Moscou, fosse reorganizando sua vida, ou enfiando a cara no trabalho para esquecê-la, Camus havia encarregado Andreas, seu braço direito, de acompanhar os socialites russos às visitas feitas ao bordel grego.

Naquela noite, porém, a pedido, ou melhor, sob a ordem do Grande Mestre, Camus viera pessoalmente como representante direto da Vory v Zakone supervisionar as negociações que Saga firmaria com a Camorra, assim Gêmeos poderia fechar acordo com os italianos tranquilamente sem parecer que estava traindo os russos, quando indiretamente estava, mas sabia que Camus, dentro do pouco poder que tinha sendo subordinado a Dimitri, limparia sua barra.

Ao cruzar o salão e caminhar em direção à mesa, inconscientemente Aquário percorreu seus olhos avelãs por todo o local.

Seu coração batia forte no peito, não de apreensão por não encontrar quem procurava, mas de alívio justamente por esse motivo.

No entanto, seu desafogo durou pouco, pois quando olhou para frente e viu Andreas lhe acenar, ao fundo, descendo as escadarias que levavam aos quartos, eis que surgia a imagem que tanto lutou para apagar de sua mente.

Afrodite descia na companhia de um dos italianos que vieram na comitiva mafiosa, mas parou assim que viu o francês no meio do salão.

Agarrado ao corrimão de ouro, o pisciano imediatamente sentiu o ar lhe faltar e os dedos das mãos formigarem. O salão lhe pareceu girar de súbito, e tonteando piscou algumas vezes focando a imagem do ruivo ao longe, que olhava para si. O suor brotou em sua testa na mesma hora que o peito comprimiu seu coração, que de tão acelerado lhe fazia sentir a boca seca a cabeça doer.

Camus estava ali.

Depois de semanas sem dar o mínimo sinal de vida. E acompanhado de uma mulher!

Lindíssima, por sinal, e a qual o francês abraçava de maneira muito delicada e íntima.

Aquário de repente se viu inerte no meio do salão, mas, ao contrário de Peixes, ele nada sentia além de um entorpecimento inexplicável, até que uma voz muito conhecida e uma mão grande e pesada lhe apertando um dos ombros o trouxera de volta à Terra.

— Camus! Meu amigão! Quanto tempo, cara! E essa princesa linda, quem é?

O aquariano piscou os olhos e virando o rosto para o lado deu de cara com a figura sempre muito exuberante e sedutora de Milo de Escorpião, que de modo nada discreto, como não era mesmo de seu feitio, corria os olhos de cima a baixo pela silhueta esguia e delicada de Natassia.

— Como vai, Milo? Estou ótimo. — com um sorriso que mais parecia uma carranca de alguma figura do folclore oriental, o francês puxou a bailarina pela cintura colando o corpo dela ao seu, numa clara demonstração de posse — A princesa não é para o seu bico.

**Ora! Por que não? Sou sim! Me apresenta seu amigo, ele é um gato! — retrucou Natassia em russo, rindo de modo sapeca e brincando com o irmão, mas verdadeiramente impressionada com o cavaleiro de Escorpião, devolvendo o mesmo olhar cobiçoso enquanto media cada pedacinho do corpo, que a seu ver, era bem forte e viril.

— Relaxa, Camus. — disse Milo dando um tapinha nas costas do aquariano — Hoje eu já escolhi a gata com quem eu vou miar a noite inteira.

Dito isso, e com uma piscadinha para Natassia, Escorpião os deixou ali e seguiu cruzando as mesas, enquanto Camus e a irmã finalmente tomavam seus acentos junto aos russos e italianos.

O francês sempre evitando olhar para Afrodite, que prestes a ter um ataque de ansiedade, pânico, pelanca, ou o que quer que fosse ali, bem no meio da escadaria, deu meia volta e subiu os degraus correndo, trancando-se em seu quarto para tentar se acalmar minimamente até a hora em que teria que se apresentar no palco cantando O Sole Mio para os suínos italianos.

Só não contava que Camus estaria na plateia, acompanhado de uma mulher que parecia muito íntima a ele.

Enquanto Afrodite pirava, Camus tentava enganar a si mesmo, Milo passeava pelo salão numa beca irreconhecível arrancando suspiros das mulheres e instigando a vontade reprimida de alguns homens, trancado em seu escritório, Saga de Gêmeos tinha um mini surto histérico.

— Inferno! INFERNO!

Chutou duas garrafas vazias de Absinto que estavam jogadas no chão sobre o carpete, enquanto trôpego procurava por uma terceira que pensava ter trazido consigo quando se trancou ali.

— Podia jurar que tinha mais uma. CARALHO!

Outro chute, agora em uma poltrona, virando-a de pernas pro ar.

— * "Covarde de merda! Você é um bosta. Absinto? Contra mim?"... Cale a... boca...

Os mesmos lábios diziam aquelas palavras e a mesma garganta produzia aquela voz, porém em entonações e timbres distintos, que mal pareciam pertencer à mesma pessoa.

— * "Não me faça rir, seu bosta!" ... Cale... * "Desça lá e acabe com todos os cretinos. Não precisa deles, não precisa de ninguém!"... Cale a boca... * "Temos o poder de rasgar o céu, seu covarde de merda. Mate todos! Mate a vagabunda!"... CALE A BOCAAAA! CALE A BOCA! CHEGAAA!

O grito de desespero do cavaleiro de Gêmeos fora abafado pela música alta que vinha do salão.

Nas últimas duas semanas o clima tenso que pairava no bordel após a morte da bacante, somado à última briga que envolveu Afrodite e Geisty, distanciando ainda mais os três, contribuiu, e muito, para que as oscilações de humor do geminiano ganhassem força.

Saga se mostrava cada vez mais confuso, irritado, triste, permitindo assim, que o mal que habitava dentro de si ganhasse terreno a cada dia.

Por esse motivo, por não conseguir mais controlar Ele em tempo integral, Gêmeos se manteve afastado da amada, para preservá-la e para preservar a si mesmo, pois a amazona também lhe parecia um tanto quanto descompensada ultimamente.

Geisty, porém, sentia como se uma sombra ruim pairasse sobre o geminiano, e algo muito além da vontade de ambos os impedissem de se reaproximarem, os deixando cada dia mais distantes.

Sabia que essa sombra era o mal que o cavaleiro lhe havia alertado, mas sem poder conversar com ele, não sabia como lidar com aquele assunto, sentindo-se impotente.

Toda a situação deixava a amazona cada vez mais introspectiva, buscando solidão.

Mas Geisty só podia se dar ao luxo de estar sozinha quando finalmente o expediente se encerrava e as portas do Templo das Bacantes se fechavam. Era nesse momento que se pegava pensando de forma nostálgica no amado, do contrário, mesmo que apenas de corpo presente, era rodeada por pessoas das quais não tinha o mínimo interesse.

Assim, em uma das mesas mais ao centro, ocupadas por sócios de uma mesma empresa eslovena que estavam ali naquela noite especial, Geisty acompanhava uma partida de um jogo de cartas típico do país deles, cujo prêmio ao vencedor seria a honra de um programa com a joia da casa, pago pelos perdedores.

Geisty acompanhava os ânimos eufóricos com o olhar vago e a mente escrevendo uma conversa ensaiada que pretendia ter com o geminiano, ou pelo menos tentaria, já que nos últimos dias sempre fazia o mesmo exercício mental e no fim da noite acabava se acovardando frente ao semblante taciturno do grego.

Foi justamente quando pensava nele que Geisty viu Gêmeos cruzar o salão parecendo ter pressa.

Como nos últimos dias, Saga tinha uma expressão carrancuda e preocupada, o olhar severo deixava claro que não estava aberto a conversas, mas naquela noite além da rispidez os olhos do cavaleiro também pareciam exalar outros dois sentimentos: ódio e desespero!

Mesmo de longe, a amazona pode sentir o peso esmagador daquele olhar.

Engoliu em seco, acompanhando-o até chegar ao bar e fazer um sinal ligeiro a Aldebaran.

— Me dê uma garrafa de Absinto. Depressa. — fez o pedido e levou as mãos ao rosto o esfregando freneticamente.

Eram tantos problemas que remoinhavam em sua cabeça, que sentia estar à beira de um ataque de nervos, do seu limite, e tudo o que mais lamentava era não ter a amada ao seu lado naquele momento.

Sentia seu juízo vacilar e temia que pudesse perder as rédeas de sua sanidade, agora tão frágil, diante de qualquer pequeno contratempo naquela noite.

E eis que o contratempo viera até ele, na forma de um belo escorpiano de cabelos loiros, olhos tão azuis quanto um céu de primavera e vestido, extraordinariamente bem, dentro de uma elegante calça escura de alfaiataria, camisa social branca e jaqueta de couro, ao melhor estilo transgressor rock´n roll, porém sem abrir mão de um acessório que fazia parte intrínseca de sua personalidade: um grosso e pomposo cordão de ouro com o símbolo de seu signo do zodíaco.

— Fala chefe! — disse Milo ao sentar-se no banquinho ao lado de Saga, enquanto do balcão, Aldebaran já o recepcionava com seu sorriso amistoso — Boa noite Deba! Como vão as coisas?

— Boa noite cara, quanto tempo, heim! Pensei que não viesse mais ver os pobres. — disse o taurino.

— Ficou louco? Eu não deixo isso aqui não. — respondeu Milo sorrindo — Vim curtir a minha folga, gastar minha suada mixaria e também um extra que ganhei por ai.

— Vendeu mais alguma música? — perguntou Touro.

— Vendi. Vendi duas na verdade, e ganhei um dinheiro bom, o que significa que hoje eu vim de patrão!

— É, tô percebendo... Mas aqui só basta o dinheiro cara, pode vir até pelado, o importante é a grana. Vai de que hoje?

— Uma caipirinha no capricho!

— Tá certo. Tenho que descer até a adega para pegar um Absinto pro chefe e assim que voltar faço aquela para você. Com cachaça consagrada e tudo! Guenta ai, chefe, eu já volto com seu goró. — deu um tapinha no balcão onde Saga permanecia calado ao lado de Milo.

— Sem problema, Touro. Hoje eu tenho a noite toda! — respondeu o escorpiano ao olhar para o lado cruzar seu olhar com o de Saga.

Estranhou algo em seu semblante, porém sabia que Gêmeos não lhe topava muito, aliás, não lhe topava nada!

Milo havia andado afastado de tudo e de todos ali, justamente devido ao excesso de missões externas que o Grande Mestre lhe incumbia.

Saga poderia, obviamente, mandar outros cavaleiros em tais missões como sempre fizera, convocando Shaka ou Aiolia como de costume, mas o Grande Mestre propositalmente mandava Milo, pois assim o deixava afastado do bordel, e de Geisty.

Contudo, Milo havia encontrado tempo entre uma missão e outra para fazer alguns bicos e levantar dinheiro, fosse tratando da travessia de imigrantes que fugiam das zonas de guerra ou vendendo as músicas que compunha à grandes gravadoras, e agora retornava com uma gorda quantia recheando os seus bolsos.

Além de conseguir pagar o que devia a Camus, tinha certeza que o que restara daria para comprar uma noite com a joia da casa.

Durante os meses que se estenderam e que estivera fora, o Santo de Escorpião deitou-se em muitas camas, e experimentou o calor e o sabor de muitos corpos, mas estranhamente sentia falta de um em específico.

Milo não era um homem dado a paixões arrebatadoras, tampouco romances ensaiados. Era um jovem prático, astuto, fogoso e desapegado, mas mesmo quando levantava-se do leito de uma das mais belas mulheres que já havia feito sexo em sua vida, surpreendia-se pensando, revivendo a única noite que passara com Geisty de Serpente.

Não que nutrisse algum sentimento especial pela amazona, mas também nunca em sua vida havia sentido saudades de quem quer que fosse.

Saudades.

Era isso que Milo supreendentemente sentia de Geisty. Uma saudade singela, que era mais uma vontade de estar com ela novamente, sentir seu cheiro, sua pele, ouvir sua voz, já que Saga nunca sequer o deixou se aproximar dela novamente.

Sabia que a amazona estava ali contra sua vontade, para pagar a dívida de Kanon e que nada podia fazer para ajudá-la estando ele mesmo envolvido com a máfia até o pescoço, mas queria vê-la, sentia necessidade de ouvi-la, de estar com ela, de matar essa saudade que descobriu de súbito lhe deixando mais intrigado do que deveria estar de fato.

Queria estar com Geisty, nem que por poucas horas, minutos... Nem que por uma quantia obscena de dinheiro vivo! E quando uma vontade se fixava na mente de um escorpiano, essa se tornava lei, difícil de afastar sem antes ser realizada.

Por isso mesmo que sem rodeios virou-se para Gêmeos e disse na lata:

— Chefe, hoje eu quero subir com a Geistynha, e dinheiro não vai ser problema dessa vez, já vim preparado para pagar o valor, que provavelmente vai sofrer ação da inflação a partir de agora, mas eu estou preparado.

Puxou do bolso da calça um maço grosso de notas de dólar preso a um elástico e o estendeu ao cavaleiro de Gêmeos.

— Vamos lá... Quanto é?

As mãos do Santo de Gêmeos crispavam sobre o balcão.

— * "Quanto você tem ai, Escorpião?" — a voz do grego soou quase como um rosnado, entre um ranger de dentes e um arquejo ansioso, então o cavaleiro, que se mantinha de cabeça baixa e olhar fixo ao balcão, girou o pescoço e encarou o escorpiano de modo frívolo.

— É... É bem mais do que pediu meses atrás. — Milo estranhou tanto a voz quanto o olhar de Gêmeos. Erguendo uma sobrancelha e franzindo a testa reparou uma faísca vermelha lampejar pelas íris jades do outro, lhe causando um frio na espinha, porém não esmoreceu — Aliás, muito mais do que pediu meses atrás. Quase o triplo da quantia.

Saga então voltou a baixar a cabeça, e como num ato de desespero cobriu o rosto com ambas as mãos.

Tremia, muito, enquanto algumas mechas de seu cabelo volumoso ganhava nuances de um negro profundo.

— Não... Não pode... Não... Não faça isso... — grunhiu as palavras em agonia, a voz agora suave e entrecortada.

— Não? — perguntou Milo, já começando a ficar irritado — Por que não? Por que fica embaçando pra eu subir com a Geistynha? Qual é o seu problema? Então está mais que claro que não é dinheiro o problema. E se não é, qual é então? Anda, Saga, qual é?

Com um soco no balcão do bar, tão forte que chamou a atenção dos presentes mais próximos, Saga novamente olhou para Milo e avançou sobre ele.

Estava prestes a acabar com aquele tormento de uma vez por todas, mas parou assim que viu seu rosto a centímetros do rosto do escorpiano.

Após alguns segundos o encarando sem conseguir dizer nada, finalmente o conflito que se dava dentro da mente do Santo de Gêmeos teve um fim, e um vencedor!

— * "Pode subir."

Os lábios trêmulos deram a sentença ainda que relutantes.

A voz gutural mais parecia o ronco de uma fera enjaulada.

— O... que? Você disse que...

— * "Eu disse que você pode subir com a vadia, Milo de Escorpião."

Um sorriso sádico formou-se no canto da boca fremente, enquanto uma gota espessa de suor lhe correu pela têmpora, desenhando a linha do maxilar e terminando por gotejar no colarinho da camisa.

No momento em que Saga pegava das mãos de Escorpião o maço de dinheiro, Aldebaran chegava da adega com a garrafa de Absinto, e sem entender via Gêmeos, suando em bicas e visivelmente perturbado, erguer o braço e fazer um sinal para Geisty, a chamando para vir até eles no bar.

— E isso ai me dá quantas horas com a gata? — perguntou um animado Escorpião, apesar de estar estranhando bastante aquela mudança repentina do grego.

— * "Foda a vagabunda quantas horas você quiser, Escorpião. Não me interessa, ela é uma puta, é para isso que está aqui."

No bar, Aldebaran ouvia aquilo atônito e confuso.

Os olhos arregalados abriram-se ainda mais quando viram Gêmeos esticar o braço e apanhar a garrafa de suas mãos. Seu semblante parecia diferente de tudo que já havia visto antes.

Touro já tinha presenciado Saga com raiva, com dor, ansioso, nervoso, triste, alegre... Mas nunca, nunca antes vira aquela expressão taciturna e funesta nas feições do amigo.

— Chefe, você está bem? — perguntou o brasileiro sutilmente.

— * "E por que não estaria, cavaleiro de Touro? Por que porra eu não estaria bem?" — grunhiu a resposta que veio acompanhada de outro sorriso sádico, depois guardou o maço de dólares no bolso do paletó.

Exatamente nesse momento, Shina, que havia ido ao bar para apanhar um drink para um dos italianos a quem acompanhava naquela noite, tinha presenciado exatamente o final da negociação e agora encarava Gêmeos com uma expressão de espanto e assombro.

A amazona de Ofiúco já havia percebido há tempos o clima de romance que rolava entre Serpente e o Grande Mestre, além de ter conhecimento dos sentimentos da amiga por ele, e ouvir aquilo lhe deixou extremamente confusa e apreensiva.

Por isso mesmo, de forma discreta e reservada, Shina aproximou-se do cavaleiro e o pegando pelo braço atreveu-se a questioná-lo acerca daquela decisão.

— Saga! Você... Você acabou de vender a Geisty ao Milo? Por que você...

Porém, ele não lhe permitiu terminar.

— * "Se acha que eu tenho que dar alguma satisfação à puta, está muito enganada, amazona. Quem aqui tem que dar satisfação é você." — a encarou nos olhos de forma ferina, ameaçadora — "Agora você vai voltar àquela mesa onde aqueles cretinos italianos estão e vai lhes dar uma satisfação. Vai dizer a eles que eu precisei me ausentar, mas que o imbecil do Aquário fará as negociações previstas em meu nome."

— Saga...

— * "Você entendeu, amazona?" — novamente a interrompeu.

Um pouco mais afastado deles, Milo aguardava Geisty, que vinha cruzando o salão receosa. Via à sua frente um escorpiano sorridente, um taurino com cara de quem viu assombração e, mais ao lado, Shina com Saga conversando aos sussurros.

Aquele cenário era no mínimo insólito.

Acercou-se do balcão, ao lado oposto de onde Saga estava a conversar com Shina, e cumprimentou Milo com um sorriso indiferente.

— Boa noite, Milo. — disse a garota com certo espanto.

Escorpião correu os olhos por ela a medindo dos pés a cabeça, como sempre admirado por sua beleza tão peculiar.

— Boa noite, gata. Hoje eu vim especialmente para te ver.

— Que bom, Milo. — outro sorriso desalentado, ainda que até para ela era impossível não se tocar com a beleza daquele cavaleiro e inconscientemente também corria os olhos por todo seu corpo, se perdendo por alguns segundos em sua contemplação — Está elegante hoje! Hum... Está diferente!

— Eu sabia que ia gostar. — o grego sorriu animado — Hoje eu vim mesmo só para te agradar. Já acertei com o chefe. Quando quiser a gente pode subir.

Aquela notícia fez o sorriso apagado morrer de vez no rosto da amazona.

Repentinamente, um gosto amargo subiu pela garganta de Geisty e seu coração falhou uma batida.

— O... que? — disse meio que gaguejando, sentindo as patelas balançarem quase a fazendo perder o equilíbrio.

— Sim, gata! Dessa vez o chefe não embarreirou a nossa diversão! Eu estava com muitas saudades de você.

Sem acreditar no que ouvia do cavaleiro, Geisty sentia a cabeça girar e o peito lhe comprimir, então, inconformada, pediu licença ao escorpiano e caminhou alguns passos até onde Saga estava conversando com Shina.

Ofiúco já se afastava lentamente, visivelmente confusa e transtornada, enquanto Gêmeos segurava nas mãos uma garrafa fechada de Absinto e parecia encarar a mesa onde os mafiosos estavam.

— Saga...

A voz embargada, pelo espanto e pela tristeza, da amazona chamou a atenção do grego, que apenas girou o pescoço para seu lado e a olhou com indiferença. Indiferença que foi sentida pela amazona, fazendo sua alma balançar frente à pressão que exerceu sobre si, mas sem desistir em meio ao seu nervosismo.

— Saga... Você permitiu que o Milo comprasse um atendimento comigo? — perguntou, ainda com a vã esperança de tudo não passar de um mal entendido, mas ao olhar para os olhos do amado Geisty não o reconheceu, não como o seu Saga, seu amado cavaleiro, mas sim como a criatura que a trancafiou no Cabo Sunion a deixando dias à mingua.

— * "Sim, eu permiti... Eu... Permiti..." — a voz grotesca e entrecortada parecia denunciar um conflito maior, que agora tornava a se desenrolar dentro da mente do cavaleiro no exato momento em que ele olhou para o rosto amado de sua amazona.

Geisty olhava perplexa para ele. Sentia seu peito ser esmagado de forma tão intensa que o ar lhe faltava e o calor se esvaia. Parecia que o chão havia se aberto sob seus pés e agora estava em queda livre.

Aquela confirmação era tão surpreendente para si, que qualquer argumento que sua mente pudesse tecer não faria jus ao que estava sentindo.

— Eu não posso usar as ilusões contra um cavaleiro de ouro... Você... Você sabe bem disso Saga... Por quê? — sussurrava em aflição, para não ser ouvida por ninguém mais a não ser ele.

— * "Nunca mais me afronte, amazona. Precisa lembrar quem eu sou e quem é que manda nessa merda de lugar. Não suporto seus fricotes histéricos." — disse o geminiano, que cravou seu olhar injetado de forma assustadora e muito diferente da habitual sobre a morena.

Geisty por sua vez, não pode reprimir um novo sentimento de traição que lhe brotava no peito, lhe aquecendo a face e estrangulando sua garganta a deixando por alguns segundos inerte.

Conteve com os dedos de unhas esmaltadas em púrpura uma lágrima amarga que saltou para fora dos olhos. Estava desesperada, mas mesmo nessa hora seu instinto forte e orgulho nato falaram mais alto e não lhe permitiram se entregar. Tomando folego e acertando sua postura firme de sempre.

Provaria ao geminiano que também era forte, e dona das rédeas dos próprios sentimentos.

— Como quiser... Saga! É você quem manda, não? — disse, trincando os dentes e lançando um olhar pleno em raiva para o geminiano, em seguida deu-lhe as costas e erguendo um dos braços fez um sinal a Touro no bar — Uma garrafa de champanhe, por favor, Aldebaran!

Voltou a olhar para Saga uma última vez antes de deixar o salão.

— Diga aos seus clientes eslovenos para estender a partida de cartas até o ano que vem, ou para escolher outra puta, porque hoje eu não desço mais para este salão. Escorpião é um cliente especial e merece toda minha atenção! Se é que me entende...

Aquelas palavras atingiram Saga como um punhal certeiro cravado no peito.

Em um silêncio taciturno, Gêmeos acompanhou a amazona com o olhar a vendo apanhar a garrafa de champanhe, pegar na mão de Milo e conduzi-lo pelo salão até às escadarias, subindo sem olhar para trás.

Seu corpo todo fremia de forma acentuada.

Saga lutava contra Ele, na ânsia de impedir a tempo de que Escorpião tomasse sua amazona.

Porém Ele também lutava.

O mal dentro de si sabia exatamente como enfraquecer o Santo de Gêmeos e o atingiu em seu ponto mais frágil.

— Por que está fazendo isso? Por que? — murmurou para si mesmo, literalmente — * "Porque essa vagabunda fez de você um maricas... Não precisamos dela." ... Eu preciso... dela... Eu preciso...

— Chefe? Está tudo bem? Tá falando sozinho?

A voz de Misty de Lagarto despertou o geminiano o fazendo perceber que não podia mais ficar um minuto sequer ali, ou correria o risco de cometer uma loucura, a qual certamente resultaria no fim de seu disfarce frente à máfia e na ruína de todos seus planos, além de algumas mortes que serviriam para expiar a fúria que crescida dentro de si.

Sem dignar-se a responder ao cavaleiro de Prata, Gêmeos deu meia volta e deixou o salão pela saída lateral, subindo as pressas ao Templo do Grande Mestre.

Em seu quarto, transtornado, em completa confusão e tomado por um desespero excruciante, o cavaleiro abriu ligeiro a garrafa de Absinto e às goladas tentava aplacar o furor de sua alma.

— * "Não adianta. Não vai conseguir." — a voz grotesca proferiu ao que finalmente a garrafa foi afastada dos lábios trêmulos — "Não seja dramático. Eu fiz isso pelo seu bem. Ainda vai me agradecer!... O amor é uma fraqueza. Te deixa vulnerável, débil... covarde. Eu sou o único de nós dois que tem a coragem de fazer o que é preciso. Eu te fiz um bem." — continuou, agora em tom de escárnio.

— Desgraçado... Eu nunca quis isso... Eu... Nunca iria feri-la dessa forma... Eu não vou jogar tudo para o alto. Eu a amo! — a garganta embargada deixava a voz melancólica proferir sua vontade genuína.

— * "Isso porque você é fraco. Um merda de um fracote. Por isso mesmo eu fiz isso por você. Esse sentimento tolo é só seu, não meu. E logo ela vai te odiar."

— Mentira... É mentira... Você não quer sentir, mas você sente, eu sei. Admita!... Você sente! — Saga agora sorria, novamente derramando goles da forte bebida garganta abaixo.

— * "Eu só sinto ódio. E é apenas isso que deve sentir também se quer tomar o poder..."

— Eu não quero... Ela está lá com ele agora, maldito... Porque você permitiu... E não me diga que também não dói em você, porque eu sei que dói... Sim, desgraçado, eu sei que você não suporta dividir nada com ninguém, nem mesmo comigo!... Você se deu um belo tiro no pé. — falava com a voz embargada e lágrimas nos olhos.

— * "Está enganado."

— Você não vai me separar dela... Você não vai me vencer... — rosnou de frente ao grande espelho que havia na porta do closet, a qual estava aberta.

— * "Eu já venci!... Saga."

Seu reflexo então lhe sorriu de forma endiabrada, o fazendo chutar a porta e fechar aquele closet num rompante de fúria.

Quisera Gêmeos que assim também pudesse trancar Ele lá dentro para sempre!

No Templo de Baco, no quarto da amazona de Serpente, Geisty encarava a taça de champanhe em sua mão ser preenchida pelo líquido espumante que Milo lhe servia.

Queria chorar gritar, berrar, quebrar tudo a sua volta até que sobrasse apenas pó, mas não podia e não tinha escolha. Seu orgulho ferido a fez relembrar a primeira vez que subira com Milo, seu primeiro "cliente".

E ali estava o escorpiano novamente. Sorridente, com o mesmo jeito sedutor.

Bebeu todo o conteúdo da taça em poucas goladas e pediu ao escorpiano que colocasse mais.

Milo assim o fez, e depois de colocar a garrafa sobre um dos móveis do quarto da amazona, abraçou a morena pelas costas a aconchegando em seu corpo, aspirando profundamente o perfume único de seus cabelos negros.

— Hum... Que saudades desse cheiro! — sussurrou o grego ao ouvindo da amazona — Fiquei tanto tempo fora que quase me esqueci dele, mas ainda me lembro bem da última vez que nos vimos. Você estava linda com aquela fantasia de coelhinha, minha gatinha.

A fala rente à orelha, o calor do corpo másculo colado ao seu, o toque sutil dos lábios quentes em seus ombros e pescoço... Milo, em sua totalidade, era uma figura humanamente impossível de ser ignorada.

Geisty sentia sua pele toda se arrepiar em resposta, surpreendida consigo mesma devido àquela reação de seu corpo.

— "Poderosa Ártemis!" — pensou ao deixar escapar um suspiro contido quando sentiu os braços de Milo apertarem mais seu corpo e então tentou aliviar a tensão virando o champanhe goela abaixo, de uma só vez.

— Nossa, você está com sede! — Milo disse com um sorriso já retirando a jaqueta de couro.

— Um pouco... Me admira você ter gostado daquela roupa ridícula de coelho... Era desconfortável. — tentava demonstrar indiferença na voz.

— Pois estava maravilhosa. — deu outro beijo molhado no pescoço da amazona ao se reaproximar — Como agora. Está linda nesse vestidinho dourado. Apesar de que... Eu prefiro mesmo é você sem nada!

Geisty ficava cada vez mais perplexa consigo mesma.

Como podia estar acontecendo aquilo?

Como podia estar novamente caindo nas graças daquele escorpiano?

Não se reconhecia.

Estava com raiva, muita raiva, e muito magoada.

— Está tensa, gatinha. — Milo deslizou as mãos pelos braços de pelos eriçados da morena — Que tal fazermos como da outra vez? Eu te faço uma massagem para você relaxar... A gente conversa, fala umas bobagens... Sabe que não tenho pressa.

Geisty não respondeu, uma vez que lutava contra si mesma.

Não queria responder aos toques do cavaleiro de Escorpião, mas parecia impossível.

Existia química entre eles, e parecia que o maldito sabia exatamente o que fazer para deixá-la em brasa.

Sendo assim, sabendo que mesmo negando, lutando ou não, o resultado seria o mesmo, já que Milo só iria embora quando tivesse o que queria, Geisty respirou fundo e se virou de frente para o grego, envolvendo o pescoço dele com os braços.

— Sem massagens hoje. Você me quer e pagou muito caro por isso, não é mesmo? Então você me terá.

Afastando a lembrança dolorosa que Saga agora lhe causava mais uma vez, Geisty tomou os lábios de Milo em um beijo intenso, com gosto de orgulho, desalento, mágoa, ira e luxúria.

As horas passaram lentas.

O sol estava prestes a despontar no horizonte.

No quarto de Geisty, entre os lençóis violetas, Milo dormia como veio ao mundo, num misto de cansaço e satisfação.

Ao seu lado, a amazona de Serpente olhava para o teto de madeira com um olhar perdido e contemplativo, enquanto lágrimas abundantes banhavam seu belo rosto bronzeado.

Em sua mente um sentimento confuso de culpa.

Sentia-se mal, pois para seu completo horror havia gostado!

Havia aproveitado cada minuto ao lado do escorpiano sem precisar fingir um único suspiro, um só gemido.

— Minha poderosa Afrodite, o que foi isso? — murmurou baixinho, olhando para as coxas firmes e tão bem torneadas do Escorpião — Eu não deveria ter gostado disso... Eu amo o Saga!... Saga...

Apesar da mágoa e da raiva, Geisty estava preocupada com o namorado, pois sabia que a tormenta que habitava sua alma estava apenas se formando.

* A voz do mau que reside dentro de Saga e que começa a falar em seu lugar.

** Traduzido do russo.

Dicionário Afroditesco

Acué – dinheiro

Apagar a vela – fazer sexo

Ocó – homem heterossexual