Casa de Virgem, 20:35pm
*— Marido... Há algo que quero lhe perguntar.*
*— Pois pergunte.*
*—... Você não me ama mais?*
*— O que disse? Mas, que tipo de pergunta é essa, Síbila?*
*— Do tipo simples, que requer uma resposta prática. Apenas diga: sim ou não.*
*— Pelo quê me toma, esposa? Perdeu o juízo? Ou está sendo influenciada por um gênio ruim?*
*— Não há gênios, tampouco falta-me o juízo, Ralej Kumar Rajiv, mas falo de evidências!*
*— E que evidências são essas, posso saber?*
*— Você não me procura mais, há semanas, marido.*
*— Mas que absurdo, Síbila! Claro que eu te amo minha lótus.*
*— Então você não me deseja mais. É isso!... Não sente mais desejo por mim, não quer mais fazer amor comigo mesmo ainda me amando!*
*— Que isso, Síbila?*
*— Sim! Pela generosa Lakshimi, é como maan** me alertara! O desejo do homem é dizimado pela convivência!*
— Por... Buda! Será que é isso? Mas, Mu e eu ainda nem...
Era perceptível o assombro nos contornos do belo rosto do cavaleiro de Virgem, que de olhos arregalados e cravados na tela da televisão sentia-se representado nas palavras de Síbila, vivendo o mesmo drama, desejando Mu de corpo e alma, muito mais corpo que alma nos últimos dias, e sendo sempre rechaçado de alguma forma.
Eram tantas investidas suas seguidas de recusas e saídas pela tangente do ariano, que Shaka já começava a se questionar se Mu não o desejava mais.
Nervoso e pensativo jogou logo três sementes de pistache para dentro da boca sem nem descascá-las antes, mas introspectivo que estava, triturou aquela maçaroca dura com os dentes e engoliu fazendo uma careta.
*— Síbila, meu amor, minha lótus, você está fazendo falso juízo de seu marido. Eu apenas ando trabalhando muito, ando cansado, e... Eu estava esperando o momento ideal para...*
— SHA, SOU EU, ESTOU ENTRANDO! ESTÁ NO QUARTO?
A voz aveludada, porém potente, de Mu inundou todo o ambiente encobrindo o som da televisão.
Num sobressalto, Shaka, que esperava ansiosamente pela conclusão que Ralej daria aquele dilema, saltou da cama tendo o cuidado de não derrubar sobre os lençóis as cascas das sementes de pistache que estava depositando na barra de sua túnica. Com cuidado, fez uma trouxinha e as jogou numa lixeira ao lado do criado-mudo antes de ir abrir a porta.
Áries já aguardava do outro lado com um sorriso vibrante e uma pequena maleta nas mãos.
— Oi Mu. — o virginiano cumprimentou o namorado com um sorriso amistoso e um beijo cheio de saudades, afinal, não se viam desde a noite anterior — Achei que vinha mais cedo. Estava te esperando para o jantar. — disse enquanto puxava o lemuriano pela mão para dentro do cômodo.
— Ah, pois é... Eu precisei terminar uma peça antes de apagar a fornalha da forja, ou teria que começar tudo do zero amanhã. Me desculpe. — omitiu o fato de que a peça em questão era uma joia que pretendia dar de presente ao loiro no dia da cerimônia de casamento — E como foi a missão? Correu tudo bem?
— Sim. — respondeu Shaka referindo-se à missão que o Grande Mestre havia lhe incumbindo poucos dias antes — Creio que outro levante dos cavaleiros negros contra o Santuário não será realizado tão cedo. Pelo menos não agora que seu contingente foi reduzido consideravelmente.
— Shaka, você não matou todo mundo, né? — Mu deteve seus passos parando no meio do aposento.
— Eu? Claro que não, Mu. Até porque eu não mato ninguém, quem mata é o karma que cada criatura carrega sobre sua própria existência. Quer pistache? — respondeu Shaka, cujo semblante permanecia sereno como um lago em dia sem ventos.
— Hum... Sei... Quero. — enfiou a mão na vasilha cheia de sementinhas que o loiro lhe oferecia apanhando um bom bocado delas.
— Depois, quem sou eu para julgar que eles estão errados? Se até eu mesmo me nego a seguir determinadas ordens do crápula do Gêmeos. Eu não o reconheço como Patriarca, como posso condenar quem faz o mesmo? Mas, também não posso permitir que criem uma milícia e deleguem suas leis à população daquela maldita ilha porque estão passando fome. Que vão trabalhar! — foi até o aparelho de televisão e abaixou o volume no manual.
— Estão passando aperto sem receber o soldo do Santuário. — Mu completou enquanto descascava umas sementes e as jogava na boca.
— Exatamente. Mas isso não lhes dá o direito de escravizar os civis.
— Eu só temo que todo esse problema da crise do pós-guerra fria que assola o nosso mundo hoje acabe por fortalecer esses grupos de renegados também, como os cavaleiros negros. Não vê o que se tornou a Vory v Zakone?
— Essa crise vai durar mais um tempo, mas ela vai passar, Mu, e até lá não vai sobrar muitos mais cavaleiros renegados para se filiarem a quaisquer grupos. Eles estão perdidos. Eu posso ler suas almas.
— Shaka. — o Santo de Áries repreendeu o namorado franzindo a testa.
— Já disse que não sou eu quem mata, é o karma que se cumpre quando chega a hora deles!
— Ok, senhor Karma. Então acho que eu também cheguei em boa hora. — jogou as cascas das sementes na mesma lixeira do lado do criado-mudo e foi até a cama.
— É mesmo? Por que?
— Hoje fiz compras para o Templo das Bacantes e como passei o dia no centro da cidade, comprei uns óleos aromáticos e essências balsâmicas. — colocou a maleta sobre a cama e a abriu, retirando um dos fracos de vidro — Eu sabia que essa missão que Saga te enviou seria cansativa e estressante. — rogou ser a desculpa perfeita — Então já vim preparado para... Para te fazer uma massagem relaxante.
Na verdade, Mu havia lido em um periódico todos os rituais que compunham uma tradicional cerimônia indiana de bodas, desde a preparação da noiva uma semana antes, onde entravam vários tratamentos de beleza e estética, mas como Shaka não era sua noiva e sim seu noivo, não teria o por que seguir tudo aquilo, porém, a ideia veio a calhar, uma vez que usaria a desculpa de algumas massagens e banhos relaxantes para evitar os amassos que o obrigariam a sair correndo para debaixo de uma ducha bem gelada.
— Massagem... Relaxante? — Shaka ergueu uma sobrancelha enquanto via Mu tirar o outro frasco da maleta.
— Sim! Eu sei o quanto essas missões fora do Santuário devem ser estressantes, Sha, por isso hoje eu vim aqui para... Para te ajudar a relaxar. — arrependeu-se imediatamente após ter dito aquilo.
— Ah é? Veio só para me ajudar a relaxar?
A voz grave e serena de Shaka soou mais próxima do ouvido do ariano do que ele imaginava, e sem que pudesse impedir sentiu todo seu corpo se arrepiar ao singelo toque dos lábios do loiro em seu pescoço.
— É... Foi... Para isso... Que... Vim...
Mu fechou os olhos puxando o ar para os pulmões. Estava tenso, e também excitado!
Shaka já havia colado seu corpo ao de Áries lhe dando um abraço pelas costas enquanto lhe afagava delicadamente os cabelos lavanda e esfregava a lateral de seu rosto ao dele.
— Eu pensei... Que talvez pudéssemos relaxar de outra forma. — disse o virginiano depositando outro beijo no pescoço alvo do ariano.
— Outra... Forma? — gemeu praticamente as palavras, sentido o membro excitado do namorado começar a pressionar suas nádegas, então apartou-se de Shaka com um movimento brusco, dando um passo para o lado e já passando a mão nos frascos de óleos aromáticos — Ah, Sha... Acho... Eu acho que massagem... Massagem relaxa mais a tensão.
Shaka fechou os olhos e levou ambas as mãos ao rosto esfregando algumas vezes até puxar toda a farta franja para cima da testa e soltá-la junto com uma lufada de ar de cansaço.
— Mu de Áries, eu não estou tenso... E há algo que quero lhe perguntar. — abriu os olhos encarando os olhos verdes do lemuriano que o olhavam quase em desespero.
— Pois... Pergunte.
— Você... Você não me deseja mais?
— O que? Mas, que tipo de pergunta é essa, Shaka?
— Do tipo simples, que requer uma resposta prática. Apenas diga: sim ou não.
— Por todos os deuses! — fazia-se indignado, porém sabia o quanto era legítima e compreensível a pergunta do indiano — O que te faz pensar uma... Uma coisa dessas?
— Evidências! Mu, desde que eu te disse que abri mão de meu voto de castidade para ficar com você, para a gente poder viver um... um relacionamento normal, você tem me evitado.
— Quem, eu? Não!
— Como não? O que aconteceu? Agora que estamos livres você não quer mais? Você foge de mim Mu, não tente negar... E eu cansei!
Mu arregalou os olhos assustado.
— Como é? C-cansou? Como assim?
— Sempre fomos muito honestos um com o outro, então eu exijo que me diga o que está acontecendo, Mu de Áries?
Mu estava em uma situação delicada. Sabia que se continuasse agindo da mesma maneira poderia colocar tudo a perder, por isso decidiu que já que ocultar não estava funcionando o melhor a se fazer era contar a verdade de uma vez por todas, ou pelo menos parte dela.
— Está bem. — o lemuriano fechou os olhos e suspirou, depois caminhou até a penteadeira onde deixou os frascos com os óleos aromáticos e ao voltar sentou-se na beirada da cama — Venha aqui, Shaka. — esticou o braço e segurou na mão do namorado, o puxando para sentar-se a seu lado — Eu sei que eu venho tomando atitudes estranhas meu amor, e peço que me perdoe por isso. — disse num tom brando e sereno, segurando ternamente na mão do loiro.
— Hum... Então você admite. — Shaka resmungou.
— Sim. Acontece que quando me disse que tinha aberto mão de seu voto sagrado para ficar comigo, eu percebi o quanto eu te amo, Shaka! — encarou os olhos azuis celeste que agora prestavam atenção redobrada a si — Amo muito mais do que eu poderia imaginar um dia amar alguém, e não pude ignorar a grandiosidade do significado do seu ato.
Áries fez uma breve pausa e então tocou o rosto do namorado lhe fazendo uma carícia.
— No dia que você chegou para mim e me disse que estava decidido a abrir mão de seu voto de castidade por mim, eu entendi que nossa união é muito mais do que simples atração, e que eu não queria apenas fazer sexo com você Shaka de Virgem, mas queria, e ainda quero, fazer amor com o homem que é o dono do meu coração. Foi por isso que durante todos esses dias eu lhe planejei uma surpresa!
— Uma... Surpresa? — questionou o loiro confuso.
— Exato. — o ariano sorriu e enquanto fechava os olhos brevemente para se concentrar por alguns segundos, um catálogo de viagens se materializou na palma da mão que tinha livre, então Mu abriu os olhos e o entregou ao companheiro — Pegue.
— O que é isso? — Shaka tomou o papel que continha imagens de hotéis e locais turísticos da Índia, o examinando.
— Em poucos dias será seu aniversário e eu conversei com Saga e consegui alguns dias de folga. — sorriu animado o ariano, esperando que aquela revelação já fosse o suficiente para aquietar o namorado — Tomei a liberdade de planejar uma viagem de presente para você. No dia do seu aniversário, você e eu iremos para sua terra natal, meu amor, e podemos passar alguns dias, só nós dois.
Shaka levantou os olhos do papel e novamente encarou as íris verdes de Mu.
Só Buda era quem sabia o tanto de possíveis causas traçadas pela mente do virginiano para justificar as negativas de Mu em consumar seu amor, algumas delas bem cabulosas, mas nenhuma sequer chegara perto da verdadeira causa!
— Uma... Viagem? — disse surpreso, piscando algumas vezes como se tentasse retomar o tino, então olhou para o catálogo novamente — "E eu achando que só eu era metódico nesse lugar. Imagine que para fazer sexo ele ia querer ir para tão longe! Buda, Mu realmente é o amor da minha vida... Sim eu sei que não deveria ter um amor terreno... Ah, ok..." — pensou, depois ergueu os olhos do papel e encarou os olhos do ariano com um sorriso no rosto — Uma viagem para a Índia! No meu aniversário!
— Eu queria lhe fazer uma surpresa, porque queria que fosse especial, mas sabe que sou péssimo mentiroso, e desde que nos conhecemos nunca conseguimos esconder nada um do outro. Bem, esse era o motivo de tantas recusas. — Mu então trouxe o rosto de Shaka para próximo do seu e sussurrou próximo a seus lábios —Shaka, nunca mais diga a besteira de que eu não o desejo... Só os deuses sabem o quanto eu quero você.
— Puxa, Mu... Eu nem sei o que dizer, eu...
— Não diga nada então. — Áries retirou o guia das mãos do loiro para ter sua total atenção, então lhe beijou o pescoço de forma sensual, subindo para o queixo e maxilar, enquanto sussurrava — Você não sai de meus pensamentos, Shaka... Todos os dias... Todas as horas... Perdi a conta do tanto de banhos frios que tive que tomar para acalmar o meu desejo, e das tantas noites mal dormidas em que fiquei sonhando em ter você junto de mim...
Shaka sentia seu corpo responder de imediato aos toques do amado. Seu rosto queimava como fogo, suas mãos suavam, seu peito era uma serenata composta por percussionistas, e seu baixo ventre formigava contraindo-se deliciosamente a medida que os beijos se intensificavam.
— Então... Para que esperar tanto... Mu? — grunhiu, e logo fora calado pelos lábios do ariano que tomaram os seus num beijo intenso, febril e caloroso.
As línguas se exploravam enquanto os corpos diminuam a distância que ainda os separava abraçando-se ternamente, até que Mu segurou Shaka pelos ombros e o fez deitar-se de costas na cama.
Sem o mínimo de pudor, algo tão raro vindo do Santo de Áries, o lemuriano deitou-se sobre o namorado deixando que ele sentisse o quão excitado estava, friccionando seu membro rijo contra o de Shaka, enquanto voltava a beijá-lo.
— Eu desejo você, meu amor... Nunca duvide disso. — mordiscou de leve o queixo de Virgem lhe tirando um gemido rouco.
— Ahh... Eu... Não duvido... Mu... Não duvido... — sussurrou o loiro ao sentir Mu pressionar o quadril ainda mais contra o seu, forçando o contado, então um calor insuportável tomou conta de seu corpo e percebeu que se não parasse ali jamais conseguiria voltar daquele ponto em que estavam e estragaria todo o presente que o namorado lhe preparara — Espere... Mu...
— Hum? — resmungou o ariano enquanto enfiava as mãos por debaixo da camiseta de algodão que Shaka vestia e a puxava para cima para atacar seus mamilos rosados com beijos molhados — Hum... o que foi, Sha?
— Meu... Aniversário... É daqui quatro dias. Acho que... — respirou fundo para não perder a coragem — Acho que podemos esperar até lá.
Mu ergueu a cabeça e olhou para os olhos azuis do amado que cintilavam. — "Atena seja louvada! Essa foi por pouco!" — pensou, enquanto deixava livre um suspiro de alívio que para Shaka soou como frustração.
— Sim, amor. Podemos esperar até lá... Acho. Aceita a massagem? — perguntou fanfarrão, sem entender porque torturava daquela maneira o namorado e a si mesmo. Contudo, saber que estaria fazendo tudo conforme seu mestre lhe ensinara uma vida toda lhe confortava nessas horas em que não compreendia suas próprias ações.
— Sem dúvida! — respondeu Virgem categórico.
A partir daquela noite, quaisquer dúvidas ou inseguranças ficariam mesmo apenas na ficção do enredo da novela.
Templo de Baco, 21:45pm
Felizmente era Terça-Feira, dia em que o bordel não abria e seus funcionários tinham a noite de folga.
Porém, uma noite de descanso não parecia ser suficiente para curar toda a exaustão física e psicológica que abatia a amazona de Serpente.
Deitada em sua cama, os olhos pregados no lustre que pendia do centro do teto, Geisty divagava acerca dos últimos acontecimentos, desde a morte trágica de Mônica, até sua briga com Saga, a implicância com Afrodite e, por fim, a mudança repentina no comportamento do Cavaleiro de Gêmeos, a qual culminou em seu segundo encontro íntimo com o Cavaleiro de Escorpião.
Fechou os olhos e respirou fundo, mas ao mergulhar nos próprios pensamentos, buscando organizá-los, sua própria consciência confusa e entorpecida pela mágoa lhe fez relembrar a noite anterior, a obrigando a vivenciar novamente tanto o olhar opressivo e truculento de Saga sobre si quanto as cenas eróticas e sons luxuriosos que havia orquestrado junto a Milo de Escorpião.
Tinha sido tão vulgar nos braços daquele cavaleiro... Traindo seus próprios sentimentos, e tomada pelo remorso e a tristeza entregou-se a um choro sofrido que mais parecia um lamento.
Mas, se para uns aquele dia começara de mal a pior, para outros finalmente o raiar do sol no horizonte voltara a fazer algum sentido.
Camus deixara o templo de Peixes pouco antes do meio dia, mas ao em vez de descer para Aquário, o francês subiu as escadarias com certa pressa. Queria encontrar o Patriarca antes de ele descer para o Templo de Baco, pois sabia que assim que colocasse os pés naquele lugar a desobediência de Afrodite logo chegaria a seus ouvidos e o pisciano seria punido por mais aquela afronta.
Aquário não permitiria que ninguém mais, muito menos Saga, maltratasse Afrodite, mesmo sabendo que o sueco era atirador profissional de tiro no próprio pé.
Também não sabia ainda como faria para tirá-lo da prostituição forçada sem levantar suspeitas, mas quanto a isso já começava a engendrar um plano.
No momento, tinha que livrar o amado do castigo por não ter cantado a famigerada música italiana para agradar aos convidados e isso foi relativamente fácil.
Camus solicitou uma audiência e pessoalmente relatou a Saga de Gêmeos todos os pormenores da negociação feita na noite anterior com a Camorra, a qual fora um sucesso.
Aquário não apenas conseguira convencer o porta voz da máfia napolitana a fornecer a carne contrabandeada por um preço abaixo do esperado por Gêmeos, como conseguira dois novos investidores para o Templo das Bacantes. Com isso a casa cresceria e os lucros em consequência aumentariam.
O Grande Mestre se mostrou muito satisfeito, mesmo que sua fisionomia não fosse das melhores naquela manhã, e certamente o fato de Afrodite ter "errado" a música não teria a menor relevância.
Findado seu relato, Camus desceu para Aquário fazendo um esforço sobre-humano para não escapulir para a cama convidativa da décima segunda casa zodiacal.
Ficaria mais alguns dias no Santuário antes de voltar para Moscou, pois, apaixonado como estava, só pensava em aproveitar mais da companhia de seu peixinho.
O sol já se punha no horizonte quando Saga de Gêmeos ensaiava uma nova tentativa de descer ao Templo de Baco.
Haviam sido muitas durante todo o dia, mas toda vez que achava que conseguiria Ele o impedia.
A voz dentro de sua mente falava mais alto que sua vontade, calando até mesmo seu instinto.
O conflito interno violento que se iniciara alguns dias antes e que elegera um vitorioso na noite anterior, quando não conseguiu impedi-lo de permitir que Escorpião subisse para o quarto com sua amazona, parecia ter minado a última reserva de força de vontade de Saga de Gêmeos.
Sua ruína podia ser percebida pelo número de garrafas vazias espalhadas pelo aposento do Patriarca e também pelos estilhaços do enorme espelho de seu closet, os quais agora acarpetavam o chão.
Contudo, Saga não deixara de lutar, nem por um instante.
Sua manobra de embebedar-se para conter a voz tirana que lhe sussurrava à mente não parecia mais tão eficaz como antes, mas ele não desistiria jamais de tentar.
Estava bêbado, com uma cefaleia crônica e aguda, além da resseca alcoólica e moral.
Olhava para seu reflexo multiplicado pelos trincos no espelho, e este lhe devolvia um sorriso debochado.
— Desista, Saga. Desista. — a voz grotesca saia da boca trêmula de lábios pálidos — Quando vai entender que precisa de mim? É mais fácil você simplesmente admitir que perdeu dessa vez.
O grego então se levantou e com certa urgência caminhou trôpego até o lavabo, onde abriu a torneira e apressou-se em jogar um tanto de água em seu rosto quente.
— "Quantas vezes você vai precisar lavar a cara nesse lavatório para entender que não vai conseguir me afastar assim?" — agora a voz falava diretamente à sua mente, enquanto ele esfregava os olhos molhados e rangia os dentes — "Também não adianta se embebedar. Não seja tão patético."
— D-desgraçado... — a boca febril murmurou o lamento, a voz agora tonificada, porém tomada em sofrimento — Não vai me prender nesse maldito Templo... Preciso... Preciso falar com ela. Preciso ir até ela...
Gêmeos tentava driblar a dor, a ansiedade, a angustia e a embriaguez, mas a cada passo que avançava seu corpo involuntariamente o obrigava a retroceder, não respondendo a seus próprios comandos.
— Ah! A vadia de estimação! — novamente sua voz mudara, assumindo o tom gutural que tanto lhe oprimia — Quer falar com ela? Por acaso já se perguntou se a piranha vai querer falar com você depois de tê-la vendido ao frouxo do Escorpião?
— Ela vai... — o monólogo se estendia, enquanto o geminiano, de pé no centro do quarto, arfava e encolhia-se até sentar-se em uma poltrona apertando as têmporas doloridas — Eu sei que ao menos me ouvir ela vai... Eu... Confio nela... Ela está tão triste... Atena...
— Você é um bosta mesmo. Covarde. Fraco! — gritou a última palavra — É exatamente por isso que não vou deixar você sair daqui. Não tem de ir atrás daquela puta. Não iremos conseguir o poder que merecemos se tudo o que você faz é pensar naquela maldita vadia. — os dentes trincavam ruidosamente, arrancando uma risada escandalosa de seu lado maligno — Eu agora vou tomar as decisões por nós dois, você já provou sua inabilidade.
— Não! Eu... Eu não vou permitir!... Eu... não posso... permitir.
A voz saiu espremida, enquanto o cavaleiro perdia totalmente o controle da própria mente assumindo uma expressão soturna.
Ergueu-se num solavanco e caminhou decidido até a entrada do décimo terceiro Templo, onde com um grito enérgico convocou os guardas que ali montavam vigilância constante e ordenou que fechassem as portas.
Até segunda ordem ninguém era autorizado a cruzar os portões do salão do Grande Mestre.
É dito que os dias felizes correm tão rápido quanto um raio cruza o céu tempestuoso e os tristes perduram botando peso às horas.
Dois dias haviam se passado e nada de Saga de Gêmeos dar às caras no Templo das Bacantes.
Muitos foram os cavaleiros que subiram até o décimo terceiro Templo à procura do Patriarca, ou apenas para averiguar se algo de grave lhe havia acontecido, e deram com a cara no porta, como foi o caso de Afrodite de Peixes.
No final do segundo dia consecutivo em que passara junto a Camus de Aquário, usando o truque de deixar todo seu Cosmo concentrado na casa zodiacal de um enquanto encontravam-se na do outro, Afrodite despediu-se do francês que regressou à Rússia.
Camus era muito solicitado em Moscou e várias das tarefas que lhe cabiam como segundo Vor da Vory v Zakone não podiam ser delegadas a outros membros. Sua presença era imprescindível.
Afrodite dentro de dois dias partiria para a Índia, onde ajudaria Mu a realizar seu sonho de se casar com Shaka, e enquanto o ariano preparava seu noivo e terminava de forjar as alianças de casamento, Peixes se encarregaria de deixar todo o resto da cerimônia engatilhado, e, se tudo corresse bem, ainda lhe sobraria um dia de folga do trabalho, o qual ele pretendia usar fazendo uma visita surpresa a Camus na Rússia antes de regressar à Grécia.
O Templo das Bacantes naquela noite estava com sua lotação máxima, porém as duas joias da casa não foram vistas no salão em nenhum momento.
Com a ausência e silêncio de Saga, Afrodite se permitiu a recusar os programas já previamente agendados.
Uma exorbitante quantia em dinheiro vivo deixada por Camus de Aquário antes de partir para a Rússia pagava todas as horas de trabalho do pisciano para que ele não precisasse atender nenhum suíno naquela semana. Logo, a casa não teria prejuízos com suas recusas.
Já Geisty recolhera-se em seu quarto desde a última noite em que vira o geminiano, saindo de lá apenas para roubar alguma comida na cozinha quando a fome vencia sua tristeza, ou para correr os olhos pelo salão, dia e noite, na esperança de Saga aparecer por lá.
Trancada, a bela amazona só conseguia pensar incessantemente como fora que chegara àquela situação, e saudosa dos poucos momentos de real alegria que havia passado ao lado de Gêmeos.
Foi numa dessas divagações, sentada à beira da cama enquanto ouvia a música abafada que vinha do salão, que uma lágrima de saudades escorreu na lateral de seu rosto magro, então fechou os olhos e admitindo a própria fraqueza deixou seu Cosmo elevar-se, gradualmente, até que quando os abriu novamente, projetada diante de si estava a imagem de Saga de Gêmeos, uma perfeita personificação do homem que era sua ruína e sua salvação.
Geisty estava muito magoada, ferida em seu orgulho, em sua honra, mas o amor que não conseguia deixar de sentir pelo Santo de Gêmeos, mesmo em vista a tanta provação, era maior que qualquer sentimento que asfixiava sua garganta naquela hora.
Sentia uma falta visceral dele, e se pôs a olhar para a ilusão à sua frente que a fitava firme nos olhos com um olhar sereno.
Tinha tanto a lhe dizer, tanto a se desculpar... Afinal, sabia que grande parte do descontrole do geminiano fora causado pelo seu próprio, e também por seu ciúme desmedido, quando tudo que Saga lhe pedira era sua confiança e uma mão amada que lhe puxasse para a luz quando as trevas o quisessem engolir.
Um soluço escapuliu de sua garganta quando o choro não pode mais ser contido, então a ilusão do Cavaleiro de Ouro à sua frente se esvaeceu até dissipar-se no ar por completo e desaparecer, dando lugar a outra figura, de porte menor, mais esguia e de carne e osso!
Geisty piscou os olhos em sobressalto, abafando um soluço em sua garganta.
— Mas, o que... — questionou franzindo as negras sobrancelhas por debaixo da franja farta que encobria sua testa, enquanto a figura a encarava sem sombra de vacilo — Quem disse que pode entrar assim no meu quarto?
— Se eu batesse na porta você iria abrir? — enquanto falava, virou-se ligeiramente para trás para fechar a porta, depois caminhou lentamente até o centro do aposento — Podíamos coletar as suas lágrimas e usar para lavar o chão do salão! Pela coroa de Dadá, até quando vai ficar trancada aqui chorando? Até virar uma múmia seca?
— E desde quando você se importa com outras pessoas, Afrodite? — apressou-se em enxugar as lágrimas com as palmas das mãos. Detestava ser vista chorando.
— É... Eu não me importo. Deve ser o meu signo, essa geléca. — respondeu o pisciano cruzando os braços e quebrando o quadril para o lado — Eu vim aqui, Súcubo de franja, quero dizer, nobre amazona de Prata, em paz. Só quero trocar uma ideia com você.
— Sai do meu quarto! Quero ficar sozinha... Se veio me dizer que tenho que descer para trabalhar, ainda não terminei de me arrumar... — respondeu em tom firme, não deixaria transparecer ao cavaleiro seu momento de fraqueza, por mais evidente que fosse.
— Ah para, Cláudia! Sozinha você já está, colega. Ou pior! Está sozinha consigo mesma, ou seja, em péssima companhia! — disse Afrodite ignorando o pedido da moça — Olha, Geisssty, não precisamos fingir que gostamos um do outro, tá boa? Mas, eu sei que você gosta do Saga e que ele gosta de você. O que estão fazendo é burrice e perda de tempo, vai por mim. Todo final de briga de casal que se ama é na cama!
A amazona engoliu em seco. Era óbvio que Peixes matara a charada há dias. A quem ela queria enganar?
— Ah, poupe-me Afrodite! O que você sabe sobre relacionamentos? — falou com ar desgastado, cruzando os braços.
— Nada! — falou sorrindo, já que de fato não sabia mesmo nada, considerando que seu relacionamento com Camus havia sido retomado há pouco menos de dois dias, porém, dois dias que já serviram para deixá-lo radiante de alegria, e era exatamente por isso que estava ali, passando por cima de toda mágoa e orgulho — Realmente relacionamentos não são o meu forte, mas sou muito bom observador, e nesses últimos dias tenho observado que você não está nada bem, e que Saga está ainda pior. — descruzou os braços e meteu as mãos nos bolsos da jaqueta de couro que usava — E nós dois sabemos muito bem do que ele precisa. Por mais que eu deteste admitir, ele estava melhor quando estava com você.
— Ele não me quer por perto... Já deixou isso bem claro quando... Quando permitiu Milo pagar por uma noite comigo. — baixou os olhos e fitou o carpete entristecida — Acabou.
Afrodite juntou os pés e suspirou profundamente.
— Olha, Geisssty, ninguém conhece o Saga melhor do que eu, e posso te dizer com toda a certeza que me cabe que aquele homem que tomou essa decisão não era ele, não era o Saga. — buscou os olhos da amazona os encarando com firmeza — Eu o conheci, anos atrás, e jamais esqueceria seu rosto, mesmo este sendo o mesmo do homem que mais admiro e respeito nessa vida. Apesar de dividirem o mesmo rosto eles são pessoas completamente diferentes... Eu tenho certeza que Saga lutou muito para impedir que isso acontecesse... Digo, o Milo... Saga tem esse problema, além do pau dele ser torto...
— Ah, por Atena! — resmungou a amazona soltando uma bufada de ar.
— Ah, ok, abafa o lance do pau... Então, aceita o fato de que você ama uma pessoa doente e que ela também te ama, e que se você não fizer nada o Coiso vai tomar conta de vez do Saga... Isso se já não tomou!
— O... Coiso? — balbuciou, olhando atenta para o pisciano, avaliando cada palavra dita.
— Sim! O Coiso, o exú que vive dentro dele, aquela oferenda carregada de coisa ruim! — Peixes não era católico, mas sua crença pagã não o impediu de benzer-se com um sinal da cruz por garantia — Dadá, Atena, Santa Cher e todas as divindades da buaty olimpiana tenham compaixão de nós se isso acontecer!... Você pode dar adeus às suas regalias. Ilusões com clientes? Ah-hã, nunca mais! A boa vida com o patrão, os chameguinhos, franjinha no cabelo... Dê adeus a tudo isso se o Coiso não for embora.
— Mas, como eu? — perguntou confusa.
— Olha, eu sei que posso parecer, em um primeiro momento, a pessoa menos confiável para te dar conselhos...
— Em todos os momentos certamente você é a pessoa menos confiável, Afrodite.
— Tá bom, megera, aquenda essa matraca que quero te ajudar, tá boa? Eu sei que não sou um exemplo de virtude, mas coração eu tenho! — espalmou ambas as mãos no peito, num gesto dramático — Eu acho que você pode trazê-lo de volta. Aiolos conseguiu uma vez, ele era o único ombro amigo do Saga quando... Quando as coisas ficaram tensas demais... Deixa de ser tão macha e orgulhosa e vá busca-lo! Saga se trancou no décimo terceiro Templo e ninguém consegue acesso a ele, mas eu sei que você vai conseguir entrar.
— Mas, como vou enfrentar o... o Coiso? Ele... ele já deixou claro que não me quer perto do Saga... Pela deusa! É tão estranho mencioná-lo como se fossem duas pessoas distintas... E depois, eu não sei... Não sei se quero fazer isso. — tinha uma expressão confusa enquanto emaranhava os dedos entre os cabelos e coçava o couro cabeludo nervosamente.
— Se não fizer, a coisa vai ficar feia pro teu lado e pro meu. Quer saber? O edi* de todo mundo vai estar na reta.
Afrodite deu as costas à amazona e sem dizer mais nada deixou o quarto.
Sabia o tamanho da carga que havia colocado sobre os ombros de Geisty, mas também sabia que a única pessoa naquele Santuário que a podia carregar era ela, e não a deixaria carregar sozinha.
Caso Serpente decidisse subir as doze casas numa missão de resgate a Saga de Gêmeos, Peixes estaria lá, oculto pelas colunas.
Seria seu guarda-costas!
Geisty deixou que o sueco saísse sem também nada dizer. Jamais admitiria para ele, mas os seus conselhos em muito a fizeram refletir.
Sua história com Saga começara de maneira torta, ambos foram enganados, ludibriados, separados e parecia que essas arapucas não teriam fim.
— Atena, minha deusa... O que devo fazer? Será que Shion estava certo? Sempre fez de tudo para me manter afastada dele porque Saga seria minha ruina?... O que devo fazer? — rogava em um murmúrio com as mãos unidas junto aos lábios em uma prece simples, porém sincera, à sua deusa de devoção.
Estava magoada, ferida em seu orgulho de mulher.
Deveria abrir mão de Saga, afinal os caminhos que a levavam até ele sempre foram sinuosos, ou deveria lutar por ele, por seu amor?
Se ao menos pudesse desabafar com alguém... Alguém que estivesse imune a toda aquela corrupção.
ॐ ॐ ॐ
Casa de Virgem, 09:22am do dia seguinte.
Shaka havia acordado excepcionalmente animado naquela manhã.
No dia seguinte sairia em viagem com Mu para a Índia e mal podia conter a própria ansiedade.
Desde que Áries revelara a surpresa, o seu presente de aniversário, Shaka passou a respirar mais aliviado, abandonando a insegurança que por vezes o corroía.
Os últimos dias tinham sido bem tranquilos para o casal. Já que estavam decididos que dariam o segundo passo para sua união na viagem que fariam, não passaram dos beijos, abraços, massagens e chamegos.
Também assistiram muita televisão!
Naquela manhã, porém, Shaka não cumprira seu ritual de meditar em jejum antes de preparar o chai.
Diferente de como sempre fazia, o virginiano tomou seu banho matinal, vestiu-se com uma de suas túnicas ritualísticas, molhou o jardim, alimentou os pássaros que visitavam sempre seu Templo pela manhã, preparou o chai e se dirigiu para a entrada da casa de Virgem.
Sua espera não foi longa, pois poucos minutos depois de se colocar ao topo da escadaria já pode ver a silhueta esguia que vinha ao longe, a qual ao aproximar-se lentamente parou ao pé dos degraus de mármore olhando para si.
Manteve sua postura altiva. Os olhos fechados como de costume.
— Boa dia, amazona. Eu a estava esperando. Acabei de passar o chai. — disse com voz serena, estendendo o braço para o lado e fazendo uma sutil mesura a convidando para entrar.
Geisty espantou-se ao ouvir aquilo, já que nem ela mesma tinha tanta certeza assim do que estava fazendo ali.
— Eu... — atrapalhou-se de início, arregalando os olhos em sobressalto, então respirou fundo e retomou o foco — Bom dia, cavaleiro de Virgem... Como sabia que eu... Bom, deixa pra lá.
Geisty subiu as escadas ainda em assombro.
Se tudo que era dito acerca de Shaka de Virgem fazia mesmo jus à sua fama de homem sábio e divino, então estava no lugar certo!
Juntos cruzaram a passagem que levava até a parte interna do Templo, o cavaleiro na frente e a amazona o acompanhando, atenta a tudo à sua volta, mas principalmente a ele.
Shaka lhe parecia diferente de tudo e de todos com quem já tivera contato naquele lugar e em tantas outras partes do mundo.
Não sabia definir se eram as histórias que ouvira desde criança, sobre ele ser um homem iluminado destinado a se tornar um deus, que o tornavam tão misterioso, ou se de fato ali, em sua presença, algo tão raro, ela podia sentir por si mesma todo mistério que circundava aquele cavaleiro.
Logo chegaram à cozinha, onde Shaka lhe entregou um copo com chai e lhe pediu para que o acompanhasse até sua sala de meditação.
No caminho, Geisty novamente se surpreendeu com a simplicidade e organização do lugar, além do agradável aroma que pairava no ar, um misto de cravo com canela e sutis toques de sândalo.
E o silêncio! Ah, o silêncio!
Como sentia saudades de poder ouvir o som do vento balançando as folhas das árvores, o canto dos pássaros, o som da água correndo, sinos de vento...
No Templo de Baco eram raros os momentos de silêncio, pois quando não era a música frenética que rasgava noite e madrugada, de dia tinham as conversas das bacantes, gritos, brigas, enceradeiras polindo o piso...
O Templo de Virgem era realmente um lugar de paz e harmonia.
Perdida nessas sensações, o copinho de chai seguro nas mãos unidas, fora trazida de volta à realidade pela voz mansa do guardião daquela casa.
— Venha amazona, vamos conversar um pouco.
O indiano não conseguia deixar de pensar no quanto àquela mulher parecia triste.
Lentamente caminhou até ela e lhe estendeu a mão a conduzindo até sua sala de meditação, um espaço grande onde havia apenas um pequeno altar budista, no qual estavam dispostas algumas velas, flores, frutos e uma réplica menor da flor de lótus dourada que ficava no saguão da sexta casa zodiacal.
Logo à frente duas esteiras de sisal já estavam postas no chão lado a lado.
— Aqui é minha zendô, uma sala confinada para a prática da meditação. Sente-se. — apontou uma das esteiras para ela enquanto sentava-se na outra cruzando as pernas e juntando as duas mãos sobre seu colo — Geisty. A amazona exilada da Ilha Fantasma... E a namorada do Cavaleiro de Gêmeo. Estou certo? — perguntou, atento à reação da garota.
Serpente arregalou os olhos encarnado o rosto sereno do indiano aturdida, porém logo tomou consciência de que não poderia esconder nada do mais sábio dos cavaleiros.
— Não fique espantada. Não é preciso ser sensitivo para saber que você e Gêmeos têm um... Um relacionamento. Eu vi você na sacada do quarto dele junto a ele quando estive na frente daquele antro de perdição.
— Sim... — sorriu timidamente — Bem, eu acho que ainda sou... Namorada, ou não... Não sei. Na verdade tenho tantas dúvidas!... Me desculpe por estar aqui perturbando sua paz, cavaleiro de Virgem... E-eu realmente nem sei por que vim até aqui lhe incomodar com os meus problemas, eu... Eu nem devia mesmo ter vindo, mas...
— Mas você veio.
— S-sim... Pois é... eu precisava conversar com alguém... Com alguém de confiança, e que não esteja contaminado por toda essa... Essa podridão...
A amazona falava com a voz ligeiramente trêmula, atropelando as palavras, então finalmente deu um gole no chai para molhar a boca seca pelo nervosismo, mas arrependeu-se de imediato, já que a bebida à base de gengibre, cardamomo e pimenta do reino era extremamente forte e quase a fez se engasgar. Aproveitou que Shaka se inclinava para apanhar um pequeno sino dourado sobre o altar ao lado de onde estavam para discretamente colocar o copo no chão e livrar-se daquela coisa ruim.
— Sinto uma grande tristeza envolvendo sua alma. — disse o Santo de Virgem — Por isso, eu te pergunto, amazona: Podem o corpo e a mente impuros serem transformados em corpo e mente puros? Ou são inteiramente separados?
A amazona sentiu um aperto no peito. Sabia que ele falava de Saga e de uma possível redenção que talvez jamais aconteceria.
O cavaleiro havia atingido em cheio o ponto que a sufocava, causando toda aquela guerra interna em sua alma.
— Eu... Eu não sei.
— Todos os Budas eram seres como nós que após trilharem o Caminho tornaram-se seres iluminados. O Budismo não afirma que haja uma pessoa que desde sua origem esteja livre de falhas e que possua todas as boas qualidades. Sendo assim, Geisty, quais, na sua concepção, foram as suas maiores falhas? A resignação? O descontrole? A paixão? Por que está aqui? E elas podem ser redimidas?
Geisty olhava para o virginiano quase que hipnotizada.
Suas palavras lhe transmitiam uma paz assustadora e sua imagem era como a luz que seus olhos tanto procuraram.
Jamais em sua vida havia sentido uma sensação acolhedora e reconfortante como aquela, e sem esforço as palavras que sempre lhe foram tão difíceis de serem ditas lhe saltaram pela boca com a facilidade de um sorriso sincero.
— Minhas falhas, elas foram tantas... E aconteceram como que por efeito dominó... Não consigo numerar a todas, mas sei quando começaram e onde terminaram... Começaram no momento em que me permiti amar como todas as outras mulheres o fazem, e deixei que esse sentimento me consumisse, sendo maior que qualquer julgamento que pudesse fazer em sã consciência. — os olhos marejaram com a constatação feita por si mesma — Estou aqui porque sou uma fraude... Uma fortaleza feita de areia.
— Reconhecer o que te trouxe aqui já é um importante passo para reparar os erros do passado que a impedem de proceder como se deve no presente. — disse Shaka estendendo a mão para ela. — Segure a minha mão e feche seus olhos.
De mãos dadas, uma aura dourada envolveu a ambos, então Shaka tocou o sino dourado três vezes.
— Esse som marca o início do zanzen, nossa sessão de meditação. Quando terminarmos eu o tocarei uma vez apenas. — disse o cavaleiro de Virgem colocando o sino onde estava — Concentre-se na minha voz... No som do ar entrando nos seus pulmões... Não desperdice esse único e inigualável momento de sua vida, o qual jamais voltará... Concentre-se... Geisty de Serpente, é só quando cessamos a guerra que encontramos a verdade... Ommmmmmm bhūr bhuva svar tat savitur varenyam bhargo devasya dhīmahi dhiyo yo nah prachodayāt
Enquanto Shaka entoava um mantra, o odor do incenso de sândalo se espalhava pelo ambiente invadindo o olfato de Geisty e criando um clima místico de introspecção e reflexão. Em poucos minutos ambos estavam em estado de transe.
A voz de Shaka agora era a única lei do universo que regia a vontade da amazona de Serpente.
— Assim como uma lótus nasce da lama, mas não se contamina com ela, a sabedoria também se torna imune ao caos. Eleve seu Cosmo, aguce sua concentração, busque dentro de você o que te aflige e com isso terá a resposta para enfrentar os seus medos, ou a resignação que é preciso para aceitar o seu Karma!
Conduzida pelo mantra que era entoado incessantemente por Vigem, Geisty agora vivenciava um turbilhão de imagens e sons desconexos, até que a vibração do Cosmo de Shaka, somada ao som de sua voz aos poucos a norteava, ajudando a amazona a chegar exatamente no ponto em que queria.
Então todo o caos se fez inerte, e no meio do vazio que se formou surgiu diante de si a imagem de Saga de Gêmeos.
E aquela imagem lhe causou uma sublime sensação de conforto, mas este fora efêmero, pois pouco depois a face de Gêmeos se transfigurava e novamente o olhar tirano e desdenhoso de sua porção maligna a oprimia, a feria, físico e moralmente.
Como podia amar um homem com duas faces?
Não podia.
Não amava.
Amava apenas um. Saga.
Logo a imagem se desfez e no lugar de Gêmeos o rosto de Milo de Escorpião agora lhe sorria com luxúria.
Sentimentos de traição e rancor mesclaram-se a um doce desejo de vingança, e por isso a amazona se entregou ao Escorpião sem reservas, porém quando a luz da razão voltou a iluminar sua mente sentiu-se baixa, suja, perdida.
Era tão vil quanto havia julgado Saga, ou pior, uma vez que era dona de suas vontades e ele não.
Afastou rapidamente a lembrança, com vergonha de si mesma por estar na presença de Shaka partilhando de todas aquelas experiências tão íntimas. No entanto, diferente do que imaginava a voz do virginiano lhe veio em consolo e não em repreensão.
— Não está aqui para julgar, tampouco para ser julgada... Está aqui para entender, de uma vez por todas, o que te leva a querer insistir em um amor tão conturbado.
A mente da amazona então vivenciou o dia em que esteve na Ilha de Santorini junto a Gêmeos, onde viu a si mesma prometendo ao amado ser seu farol, a luz que o guiaria para a margem quando o mar escuro e revolto o quisesse engolir.
— "Eu... falhei." — disse diretamente à mente de Shaka, pois estavam conectados — "Falhei com ele, falhei com a minha promessa. Eu o lancei nas trevas que ele tanto temia cair... Eu fiz isso com ele."
— "Quantas vezes você falhou? Quantas desde que Gêmeos lhe conferiu esse fardo?"
Não houve resposta.
— "Ser a bússola de alguém, sua pedra fundamental, a luz que norteia a razão quando tudo forem trevas é um fardo imenso para se carregar sozinha, amazona. Nem mesmo Gêmeos é capaz... Mas, talvez juntos vocês possam. Desistirá antes mesmo de tentar?"
— "Eu sou uma amazona. Não me é permitido falhar."
— "Quem estipulou isso? Não foi Atena."
— "Mestre Shion."
Shaka franziu a testa, surpreso em ouvir aquilo, então partilhando das lembranças da amazona de Prata o cavaleiro viu a imagem do antigo Patriarca. Não aquela que guardava em suas lembranças, mas uma totalmente diferente da qual se recordava.
Shion, na mente de Geisty, parecia-lhe mais severo, dono de um olhar duro e autoritário.
Sua voz bradava ordens para uma pequena menina, Serpente em sua tenra infância, das quais ela pouco compreendia dada a barreira do idioma e o teor das palavras.
Chorava muito, quase inconsolável, encolhida e extremamente amedrontada, pois a figura do lemuriano lhe causava terror.
Quando o medo era grande demais, a menina corria os olhos pelo salão à procura de uma figura que lhe transmitia conforto e afeto. Era Mu de Áries, que não passava de um menino tal como ela, mas cujo tratamento era diferenciado.
Mu então lhe devolvia um olhar sereno, e como se quisesse dizer para não ter medo lhe presenteava com um sorriso. Era tudo que podia fazer, já que Shion tratava os aprendizes a cavaleiro muito diferente do modo como tratava as aprendizes à amazona.
Geisty não compreendia o abismo que os separava, mas sabia que ele existia e que jamais conseguiria transpassá-lo.
Shaka ficou surpreso com aquilo.
Para Virgem, Shion sempre fora um exemplo de justiça e honra, mas antes que pudesse vasculhar mais a fundo ouviu a voz da amazona falar diretamente à sua mente.
— "Não repeti as ordens do Patriarca... Me envolvi com Kanon e por isso fui exilada, porque amei... Tudo poderia ter sido evitado se eu simplesmente seguisse as ordens de Shion."
— "E quais eram elas?"
— "Amazonas não foram feitas para amar. Esse é um privilégio das outras mulheres. Amazonas são moldadas para a guerra, e tão somente isso."
— "Eu detesto contestar a sabedoria do antigo Patriarca, mas devo dizer que ele estava errado. Todo ser humano foi feito para amar, Geisty, ou ao menos ter o direito de escolher amar, ou não amar, mas jamais ser privado disso. O que mais Shion lhe dizia?" — questionou, elevando seu Cosmo e a induzindo a mergulhar mais a fundo em suas lembranças, pois ficara deveras curioso com aquela faceta do antigo Grande Mestre que até então lhe era desconhecida.
Geisty então reviveu em poucos segundos toda sua infância no Santuário, e junto a essa lembrança veio um sentimento amargo, o qual era seu pior medo: a solidão.
Seu maior medo era ficar sozinha.
Shaka então sentiu que precisava ir além. Algo na mente daquela mulher estava selado, como se alguém tivesse manipulado suas lembranças, apagado algumas memórias e inserido outras no lugar.
O cavaleiro de Virgem então elevou ainda mais seu Cosmo, forçando Geisty a regredir mais a fundo, pois não apenas sentia que as respostas que ela procurava estavam perdidas nessa área obscura de sua mente, como percebia que fora minuciosamente manipulada.
Geisty então entrou em um transe mais profundo, conduzida pelo poder do Santo de Virgem, até que toda sensação física desaparecesse por completo.
Era como se levitasse, suspensa no ar.
De repente ouviu um zumbido, um som muito alto em uma frequência incômoda que lhe feria os tímpanos e atordoando seus sentidos.
Na sequência sentiu um odor ferroso lhe invadir o olfato, causando um enjoo terrível.
Atordoada, tentava em vão afastar o peso que lhe dificultava a respiração, enquanto se remexia sentindo ásperos grãos arranharem a pele fina de seu corpo delicado.
Continuou fazendo força, porém não havia meios de conseguir levantar o peso que lhe prendia junto ao chão.
Em desespero olhou para trás e viu o que parecia ser um corpo.
Era de uma mulher com longos cabelos negros que lhe caia sobre a testa tapando o rosto tão conhecido.
Em desespero por ajuda, correu os olhos para outro ângulo e viu, caído há alguns passos, um homem de porte físico avantajado que trajava uma armadura parcialmente destruída.
Pelo pouco de memória que lhe restara a reconheceu como sendo a de sua própria constelação, Serpente.
***— Papai!... Papai! — gritou, ainda presa ao chão — Me ajude! Não quero ficar sozinha... Não me deixa sozinha! Ajude a mamãe!
Em meio ao pavor que vivia naquele momento, viu quando uma pessoa muito alta se aproximou de si e parou a seu lado. Calçava um par de sandálias gregas e vestia um longo manto azul escuro.
Um grito de pavor se formou em sua garganta, mas emudeceu-se quando os olhos lilases do homem alto fixaram-se aos seus.
Ele então retirou o corpo da mulher que a prendia contra o chão e a pegou no colo.
Havia acontecido um massacre, e ela era a única sobrevivente.
— "Talvez você não devesse mesmo estar aqui, amazona. Mas, os desígnios do Universo são mistérios que não podemos compreender... Respire fundo, eu vou trazê-la de volta." — disse Virgem com sua voz serena, porém muito confuso com aquilo tudo que vira, afinal, Shion promovera um massacre que culminara na morte dos pais daquela amazona, mas, por quê?
Qual teria sido o julgamento do Grande Mestre?
Shaka tocou a alma da amazona com seu Cosmo e a conduziu para o presente, mas toda aquela viagem transcendental tinha exigido demais da garota, que aturdida e fraca tombou o corpo para frente sendo amparada pelo cavaleiro que a segurou em seus braços.
Quando abriu os olhos, Geisty sentiu um líquido quente e espesso escorrer de seu nariz, e quando levou a mão até ele notou ser sangue.
— Foi você... Quem me puxou de volta? — disse endireitando a postura, enquanto Shaka lhe oferecia um lenço para estancar o sangue.
— Sim, mas precisei fazer isso antes que você sofresse ainda mais, pois... Algo me diz que não era para estarmos lá.
— Não? Mas... Por quê?
— Há uma Cosmo energia ativa em suas lembranças que a impedem de saber exatamente o que ocorreu nessa passagem de sua vida... Talvez não fosse para você saber, nem eu, nem ninguém.
— Meus pais... Não me lembrava deles terem morrido dessa maneira... Minha... minha deusa!... — uma lágrima escorreu de seu rosto confuso e sofrido — Quem dera tivesse deixado esse horror enterrado na minha memória... Shion... ele...
— Não sabemos. Shion tanto pode ter manipulado suas lembranças para poupá-la quanto para... — o virginiano calou-se de súbito, ele mesmo contestando seus próprios questionamentos.
— Para o quê, Shaka?
— Para encobrir um ato desumano, uma falha, ou um acidente, quem sabe?
Resignada, a amazona dobrou o lenço sujo de sangue e o devolveu ao cavaleiro. Então respirou fundo, enxugou os olhos com as palmas das mãos trêmulas e o encarou com firmeza.
— Independente do que tenha de fato acontecido, Shion está morto. Que Hades tenha aquele velho amargo em bom lugar... Não tenho tempo para sofrer pelos meus pais agora, Shaka, nem para tentar recobrar alguma lembrança que possa me dizer o que de fato aconteceu a eles. Preciso ajudar Saga, ele precisa de mim, é nele, no presente, que tenho que pensar... Mesmo que meu presente seja esse... esse caos.
Shaka suspirou fundo e sorriu.
— Era exatamente isso que eu queria ouvir. Você veio aqui atrás de respostas, mas ninguém pode nos dar respostas a não ser nós mesmos, Geisty, e você acabou de fazer isso.
Geisty olhou para ele confusa.
— O Cavaleiro de Gêmeos é um homem corrupto, que usurpou o trono, matou o Patriarca e espalhou a corrupção nesse solo sagrado. Saga é a decadência desse Santuário, e o amor dele não enaltece... Porém, tudo pode ser transformado, pois a Natureza não é imutável, assim como a vontade do homem também não é... O amor forte, o amor intenso, excessivo, pode produzir efeitos contrários. Como a luz, que se for forte em demasia cega ao em vez de mostrar os caminhos. Tudo nessa existência deve ter seu ponto de equilíbrio. O amor une os extremos mais distantes, mas também pode separar os que estão mais unidos... Tudo que é em excesso, Geisty, produz efeito contrário, até sua passionalidade, pois talvez seja ela quem irá domar o Cavaleiro de Gêmeos. O que de certo modo será bom para ele, uma vez que Saga jamais encontrará paz em água calmas!
— Shaka... você acha que...
— Você também não encontrará. Sua natureza e a natureza de Gêmeos são selvagens, só encontram ordem no caos. Se não lutar contra sua natureza, talvez você consiga encontrar certo alento. — Shaka então pegou o sino dourado e deu um toque, finalizando a sessão.
Geisty ficou alguns segundos perdida na pureza e serenidade da expressão do virginiano, compreendendo, por fim, o que de fato deveria fazer.
Com delicadeza, curvou-se para frente e pegou em uma das mãos de Shaka depositando um beijo terno em seus dedos enquanto uma lágrima solitária escapava de seu olho.
— Obrigada, Cavaleiro de Virgem. São legítimas todas as histórias que são ditas sobre você... — lhe dirigiu um olhar de gratidão — Eu já sei o que fazer, e nunca mais terei dúvidas de que o caminho que escolhi seguir é o que me fará feliz, não importa o quão tortuosa seja a trilha.
Shaka lhe sorriu de volta, ainda de olhos fechados.
Geisty se levantou e seguiu pelo mesmo caminho que viera até a parte de fora do Templo, onde deu de cara com Mu de Áries que vinha subindo para almoçar com o namorado.
Cumprimentaram-se ligeiramente, pois a amazona tinha pressa, e quando Mu entrou na sexta casa, Serpente subiu para a casa seguinte, rogando aos deuses que nenhum cavaleiro lhe impedisse a passagem até o Templo do Patriarca.
Do lado de dentro da casa de Virgem, Mu galgava os cômodos à procura de Shaka, mas trazendo consigo uma pulga atrás da orelha.
— Sha? Está na zendô? — perguntou quando cruzava o corredor, finalmente vendo o loiro ao adentrar a sala — O que a Geisty fazia aqui?
— Ela estava apenas de passagem. — apagou as velas do altar e recolheu as esteiras, as guardando juntas debaixo de uma bancada de mármore, depois caminhou até Mu e lhe deu um selinho nos lábios — Vamos ter que improvisar algo para comer. Não tive tempo de preparar nada.
— Hum... De passagem? — Áries cruzou os braços preocupado — Não me diga que ela veio aqui para tomar chai apenas? — apontou o copo cheio da bebida que Geisty havia deixado no chão — A maluca foi lá falar com o Saga, né?
Virgem apenas balançou a cabeça afirmativamente, à moda tão característica dos indianos, e bastou isso para que Mu soubesse que ele estava dizendo que sim.
— Isso não está certo, Shaka. Saga anda muito estranho. Sua aura está pesada, confusa, ela pode estar correndo perigo.
— E quem não está correndo perigo nessa vida, Mu? Desde que nasce o homem já está fadado aos perigos da existência.
— Shaka, pode parar. Não se faça de desentendido... Não é disso que estou falando. Talvez fosse melhor eu subir e...
— Não! Acredite, ela precisa fazer isso sozinha... E algo me diz que aquela amazona vai conseguir um feito muito maior do que esperamos, do que ela e até o próprio Gêmeos esperam. — omitiu a visão que partilhara com Geisty, onde Shion parecia ter orquestrado um massacre que dizimara a família da amazona.
Não tinha certeza da legitimidade das visões. Poderiam ser elas projeções fantasiosas da mente da amazona, então achou melhor investigar antes de partilhar com Mu. Depois, estavam há poucas horas de partir em viagem e não aborreceria o namorado com um assunto tão delicado.
— Olha lá, heim...
— Confie em mim, Mu... — acercou-se do ariano e o prendeu em seus braços, para em seguida lhe dar um beijo bem atrás da orelha, deixando toda a pele do amado arrepiada — Eu nunca estou errado.
— Hum... Convencido... — disse o lemuriano sentindo seus ombros e pernas tremelicarem. Finalmente o casamento seria no dia seguinte, porque se tivesse que resistir aos beijos e provocações de Shaka por mais dois dias ia sucumbir e sofrer um colapso qualquer — Vem cá, senhor sabe tudo, já arrumou suas malas? Partimos amanhã de manhã.
— Sim. Já está tudo pronto. — o loiro afastou-se minimamente apenas para pegar na mão do ariano e conduzi-lo até a cozinha — Tem certeza que deixar o Santuário por tantos dias não será perigoso?
— Tenho. Depois, Aldebaran e Aiolia vão ficar em tempo integral aqui. Touro me disse que manda um chamado pelo Cosmo caso haja alguma emergência. Milo está na Grécia essa semana que ficaremos fora, também o Máscara, Shura, Afrodite... Vai ficar tudo bem, Sha. Merecemos uns dias só para nós.
— Eu não vejo a hora! — Shaka sorriu, depois foi até a dispensa e voltou com um pacote de macarrão nas mãos — Vai uma pasta com bolinho de carne de soja?
— Demorou! Estou com fome.
— Você está sempre com fome. — disse o virginiano descontraído.
Mu sorriu e se pôs a ajudar o namorado no que ele precisasse.
Não conseguia ficar parado, pois estava às vésperas do próprio casamento e o outro noivo sequer sabia. Sua cabeça estava a mil, além do medo e da insegurança que cresciam a cada minuto, uma vez que tudo podia dar muito certo, como também podia dar muito errado.
Shaka era um homem muito sério e recatado e sua reação frente um plano tão audacioso e ousado era imprevisível.
Teria que esforçar-se para manter a calma, visto que já havia forjado todas as joias, as alianças já estavam prontas e Afrodite já havia lhe avisado que o templo na Índia já estava todo preparado.
Só lhe restava agora rezar.
Faria uma prece aos deuses para que tudo desse certo, e que seu noivo ao em vez de esfolá-lo vivo quando descobrisse a verdade por trás daquela viagem partilha-se daquele sonho consigo, felicitando-se igualmente por unir-se a si para todo o sempre.
* Conversa entre os personagens da novela, Ralej e Síbila
** Maan = mãe, em hindi
*** traduzido do italiano
Dicionário Afroditesco
*edi = ânus
