Índia, 16:35pm
Em um grande espelho d´água, no centro de um belíssimo jardim ornamental rodeado por muito verde e figuras sagradas do panteão hindu esculpidas em madeira e pedra sabão, as flores de lótus nadavam graciosas sobre a água límpida.
No entorno do lago havia um antiguíssimo templo erguido no século XI. Um dos primeiros feitos em arquitetura Dravidiana e que abraçava duas das principais religiões praticadas naquela região: o hinduísmo e o budismo.
Todo esculpido em arenito vermelho e pedras maciças, ele começou como um pequeno santuário, mas com o passar dos séculos e sua importância local logo se transformou em um grande complexo, abrigando um mosteiro e até pequenas pousadas em uma de suas dependências para quem quisesse viver a experiência de passar uma noite em terreno sagrado.
Muito procurado pelo turismo religioso, está localizado na cidade sagrada de Madurai, segunda maior do Estado de Tamil Nadu, ao sul da Índia, mas naquele dia especialmente ele não havia recebido ainda nenhum visitante, além do decorador e promoter responsável pela cerimônia de casamento que seria realizada logo mais, às dezoito horas.
Afrodite estava eufórico!
Passara semanas inteiras anotando em seu caderninho todos os detalhes daquele dia, as instruções que Mu lhe dera, os elementos ritualísticos que não poderiam faltar e todos os pormenores da cerimônia. Assim, enquanto acertava os últimos detalhes, fosse dando uma arrumada na decoração tomando instruções do monge e do sacerdote que realizaria o casamento, ele ia riscando de sua lista item por item para certificar-se de que não havia esquecido nada.
Sempre vestido de maneira muito sóbria, não abria mão dos óculos escuros nem do boné que lhe mantinha os longos cabelos presos para cima para não chamar a atenção dos locais, tampouco do monge e do sacerdote com quem acertara a realização do matrimônio dias atrás.
Não fora tarefa muito fácil convencê-los a selar a união de dois estrangeiros ali, mas um telefonema para Moscou e um depósito bancário feito ainda naquela semana resolvera o problema.
Camus, além de Saga de Gêmeos, era o único cavaleiro a ter conhecimento da união de Shaka e Mu. Afrodite havia lhe contado nos dias em que o francês estivera na Grécia, e mesmo achando um pouco estranho, visto que sua homofobia era tão enraizada que mesmo assumindo-se gay e amando outro homem ainda não conseguia deixar de estranhar um matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, Camus se colocou à disposição de Afrodite no que fosse preciso para realizar o sonho dos dois irmãos de armas.
Não podia felicitá-los, já que o enlace era em segredo para Shaka e sua relação com Afrodite era completamente às escondidas, mas presenteou o pisciano com um conjunto tão lindo quanto caro de joias indianas para que ele pudesse usar na cerimônia, além de "doar" uma grande quantia em dinheiro ao monge e ao sacerdote para que aceitassem casar uma moça órfã indiana praticante do hinduísmo com seu amado noivo tibetano budista numa cerimônia ecumênica.
Como a noiva não tinha família e o noivo era estrangeiro a festa seria realizada no templo e os convidados seriam os próprios moradores dos povoados vizinhos, os quais se alegraram de pronto e começaram semanas antes a preparar as festividades.
Muito do que seria oferecido na festa, como os comes e bebes e os músicos, Mu já havia pago com o bônus que Saga lhe concedera, mas a alegria do povoado era tamanha, já que um casamento ecumênico naquele templo tão antigo era algo bem incomum de acontecer, que muitas famílias reuniram-se para preparar petiscos típicos da região e decorar o local da cerimônia com flores e motivos da cultura local.
No final do dia, todos estavam em polvorosa para a hora da celebração, apenas esperando que os portões do templo se abrissem.
Essa era a deixa para o começo do ritual.
Era pouco mais de dezessete horas quando Afrodite, já instalado em um dos quartos fornecidos pelo mosteiro que havia dentro do templo, acertava os últimos detalhes de seu traje e lia as instruções que Mu havia lhe deixado sobre o criado-mudo.
— Dadá, que complicado! — resmungou para si mesmo dando uma coçadinha atrás da orelha — O que a gente não faz para um amigo perder o cabaço! Alôca!
Deixando escapar um suspiro de ansiedade e nervosismo, até porque tudo poderia estar perfeito, mas a reação de Shaka ao descobrir toda aquela armação era o que sentenciaria o sucesso ou o fracasso daquele plano ousado, Afrodite correu até o frigobar para pegar a oferenda que Mu lhe pedira para providenciar, a qual faria parte do ritual de matrimônio e caberia a ele entregar a Shaka.
— Ah, está tudo pronto! — pegou os dois pequenos potes de porcelana decorada e voltou para o quarto, os colocando sobre a penteadeira dentro de uma caixinha de madeira — Vamos à maquiagem! — sentou-se na banqueta e animado olhou para seu reflexo no espelho — Atena! Que tudo dê certo!
Rogou à deusa de sua devoção pelo amigo, torcendo para que no quarto ao lado Shaka não surtasse quando Mu lhe pedisse para vestir um sári.
O cavaleiro de Virgem e o cavaleiro de Áries chegaram à Índia ainda pela manhã.
Mu, com a desculpa de que não queria perder um só minuto de suas "férias" ao lado do amado, teleportou as bagagens de ambos para o local onde disse a Shaka já que havia reservado previamente a hospedagem.
Assim, logo que chegaram à cidade de Madurai entraram em um café para fazer o dejejum e iniciar os passeios do dia. Andavam lado a lado, mas mantendo uma distância pronunciada para não chamar a atenção dos locais, uma vez que o homossexualismo na Índia era severamente repreendido, além de proibido pelo Código Penal indiano, considerado crime passível de punição com dez anos de prisão em regime fechado(1).
O tempo todo Mu dizia a Shaka que sonhava em conhecer a mais antiga das cidades indianas daquele estado, a conhecida como "Atenas do Oriente", às margens do rio sagrado Vaigai. Era sim uma desculpa para estar ali, no local onde escolhera se unir em matrimonio ao virginiano, mas o Santo de Áries também nutria um fascínio sem igual pela cultura do oriente e, sendo assim, uniu o útil ao agradável, enquanto explorava ao lado de Shaka as belezas e mazelas daquele lugar santo.
Após um leve almoço, foram visitar o famoso templo de Meenakshi Amman, ponto turístico de Madurai. Um antigo e suntuoso templo hindu dedicado à deusa Parvati e ao seu consorte Shiva.
Passaram quase duas horas visitando as quatorze torres que compunham o complexo todo, maravilhados com a arquitetura rebuscada e figuras coloridas. Shaka, apesar de muito familiarizado com sua cultura, surpreendeu-se com a riqueza de detalhes, com a fé dos peregrinos que ali estavam, e mantinha-se concentrado na exploração do local.
Já Mu, enquanto tirava fotos e mais fotos com sua nova câmera Polaroid, não deixava de consultar o relógio em seu pulso a cada minuto.
Levava consigo um lencinho no bolso com o qual enxugava a testa suada pelo nervosismo. Era bom ser a Índia uma terra bem quente, assim sua inquietação passava despercebida pelo amado.
E quando faltava exatamente duas horas para o início da tão esperada cerimônia de seu casamento tomou coragem e deu início à segunda etapa do plano, e a que exigiria toda sua bravura!
— Sha... Estou um pouco cansado. Será que podíamos ir para o hotel? — disse o lemuriano sentindo as palmas das mãos e os dedos gelados.
Shaka, que lia um manuscrito esculpido na parede ao lado de uma imagem do deus Shiva, voltou sua atenção a Mu de imediato.
— Claro. — sorriu de forma singela — Temos a semana toda não é mesmo? Vamos. Onde fica o hotel?
— Deixa essas pessoas se afastarem um pouco que assim que for seguro eu teleporto a gente para lá. É aqui perto. — respondeu o ariano devolvendo o sorriso enquanto apontava para alguns peregrinos que acendiam velas próximo de onde estavam.
Assim que julgou seguro, Mu teleportou a ambos para o quarto que reservara no templo onde seria realizada a cerimônia de seu casamento.
Era um cômodo muito simples, rústico, com despretensiosos móveis de alvenaria, um grande armário no canto do recinto, dois banheiros pequenos e uma cama de casal forrada com uma colcha alaranjada e bordada com motivos da cultura indiana.
Foi justamente nela, na cama, que Shaka cravou seus belos olhos azuis celestes assim que apareceram ali.
— É aqui? — perguntou o virginiano agora analisando o restante do lugar. Não esperava por algo luxuoso, mas pelo menos um pouco maior — "Ah, mas para quê espaço? Se vamos passar a maior parte do tempo nesta cama?" — pensou, repreendendo em seguida a si mesmo levando à mão cabeça e dando uma coçadinha na nuca.
— Não gostou, amor? Eu sei, é bem simples, mas não iremos ficar muito tempo nesse quarto. — disse Mu tentando controlar a respiração acelerada e o coração aos pulos para poder ir até o amado e enfim lhe dar um beijo longo e apaixonado — Deuses... Eu já não aguentava mais ficar perto de você e não poder te tocar.
— Eu... também. — Virgem afastou seus lábios apenas para puxar o ar que já começava a lhe faltar e responder, e imediatamente retomou o beijo sedento de luxúria.
Ao final de longos minutos Mu afastou-se do loiro e caminhou apressadamente até a penteadeira.
Suas mãos tremiam e a boca começava a secar.
— Mas, disse que não ficaremos aqui por muito tempo? — perguntou Shaka, vendo o lemuriano apanhar um estojo de madeira.
— Não. — Mu respondeu aproximando-se do loiro — Ficaremos o tempo suficiente. Sente-se ai na beirada da cama, Sha. — indicou o local com o olhar, depois posicionou a banqueta da penteadeira em frente ao leito e sentou-se nela.
— Tempo suficiente para quê? — Shaka perguntou sentando-se onde Mu lhe indicara, já sentindo seu coração palpitar acelerado em ansiedade, prevendo a resposta — Por isso nossas bagagens não estão aqui?
— Exatamente. Elas já estão no lugar onde ficaremos em definitivo. — sorriu colocando o estojo no colo para abri-lo.
— Nossa, quanto mistério! — Shaka sorriu erguendo as sobrancelhas em espanto quando viu o conteúdo da caixa de madeira — Isso tudo faz parte do meu presente de aniversário é?
— Sim! Quero que hoje seja um dia inesquecível! Seja o nosso dia inesquecível. — apanhou um pequeno pote de vidro cheio com hena indiana na cor canela e um cone aplicador que facilitava o manuseio.
Mu encheu o cone com a tinta enquanto Shaka olhava para tudo aquilo muito confuso.
— Isso... Isso é hena? — perguntou surpreendido.
— É... Shaka, você... Você me deixa desenhar em suas mãos? — quase gaguejou tamanha sua apreensão — "Pelos deuses, por que ele me deixaria fazer isso? Que maldita ideia, Mu de Áries!" — pensava aflito enquanto esperava pela resposta.
Os olhos azuis celeste muito claros do virginiano cravaram-se nas íris verdes do lemuriano por longos segundos onde o silêncio se fez entre eles.
Aquela pergunta era tão inesperada que Shaka não sabia como respondê-la. Era um pedido simples, totalmente trivial, mas tão imprevisível que o pegara desprevenido, e nem no auge de toda sua sabedoria encontrou resposta adequada.
— Pintar... minhas mãos? Mas, por que quer pintar minhas mãos?
— Por que? — os lábios do ariano chegaram a tremer e Mu amaldiçoou o dia em que aquela infeliz ideia lhe passou pela cabeça. Era péssimo mentiroso e agora mal sabia como justificar seu pedido — Porque... Porque tem mãos lindas... Já o vi com esses desenhos antes e gostei muito... Apenas gostaria de marcar sua pele com desenhos que eu mesmo tenha feito.
"Marcar sua pele."
Shaka jamais imaginara que uma frase dita por Mu tão despretensiosamente fosse mexer tanto consigo.
Ao ouvi-la, um calor lhe desceu pela nuca tomando seu peito em sobressalto.
Quase sem ar, sentiu todos os seus pelos se eriçarem, enquanto o calor lhe descia para o baixo ventre e pernas tornando-se insustentável, assustando-se com o fato de seu corpo reagir daquela maneira tão intensa e imediata apenas por ouvir aquela frase.
— Ah... sim! Pode desenhar em minhas mãos, mas... Eu quero tomar um banho antes. — respondeu meio atrapalhando levantando-se da cama de supetão.
Mu não havia entendido bem o que motivara aquela reação repentina, mas agradeceu a todos os deuses por ele ter aceito seu pedido.
— Excelente! Então enquanto toma seu banho eu vou tomar um também para dar uma descansada. Esse dia foi puxado, né Sha? — disse o ariano levantando-se da banqueta e colocando o estojo sobre ela.
— Buda! E como foi! — Shaka respondeu já entrando no banheiro às pressas.
Não demoraram muito. Logo estavam frente a frente de volta ao quarto vestindo os roupões brancos que o "hotel" lhes havia fornecido. Na verdade fora Afrodite quem os deixara estrategicamente ali.
Sem mais rodeios, sentaram-se na disposição que estavam anteriormente, Shaka na beirada da cama e Mu na banqueta, e tomando a mão do namorado, Áries começou a traçar os desenhos em hena com certa pressa, porém com muito cuidado e dedicação, até porque suas mãos tremiam tanto devido ao nervosismo que se não tivesse muita concentração toda a pintura ficaria desastrosa.
Shaka olhava para os arabescos e flores minuciosamente delineados em sua pele e não podia deixar de questionar-se quando foi que Mu aprendera aquela técnica.
Além da pergunta óbvia: Por que tudo aquilo?
Se Mu queria estar sozinho com ele em um lugar tranquilo, longe das perturbações e problemas do Santuário para poderem consumar sua união dando o segundo passo no relacionamento, já estavam na Índia! Num local silencioso. Numa cidade sagrada. O que mais Áries precisaria para enfim poderem entregar-se um ao outro?
Terminadas as mãos, como quem não quer nada Mu puxou um dos pés do virginiano e o pousou no meio de suas pernas, e sem nem ao menos dar tempo de Shaka contestar iniciou os desenhos de arabescos e flores no pé do amado.
Virgem olhava para suas mãos analisando o trabalho do ariano. De fato estava muito bonito, todos os seus dedos estavam adornados, também punhos e parte do antebraço, mas ainda assim algo o incomodava.
— Sabia que essas tatuagens são ornamentos usados apenas pelas mulheres? — disse com voz serena.
Mu engoliu em seco. — "Meu Zeus! Imagina um sári então!" — pensou angustiado.
— Sim. Sabia sim, mas... Qual o problema? — respondeu lutando para disfarçar a inquietação e agora também o medo, pois percebia a aura do virginiano um pouco alterada — Não gostou, amor? Olha... Eu achei que ficaram lindos! — terminou o último retoque do arabesco que fechava a estampa do outro pé de Virgem — Você é tão exótico, Shaka. Eu gosto de vê-lo todo enfeitado.
— Falou o homem que tem cabelo lilás e duas pintas na testa. — Shaka riu descontraído — Sim, ficaram lindos. Você desenha muito bem, Mu. Enfim...
Apanhou o estojo de madeira do colo do ariano e o colocou no chão ao lado da cama, sendo observado por um aterrorizado lemuriano, pois o desafio final ainda estava por vir.
Shaka então se levantou e erguendo a barra do roupão abriu as pernas e sentou-se no colo de Mu, de frente para ele, enlaçando em seguida o pescoço do amado com os braços para tomar sua boca num beijo lascivo, pleno de desejo, o qual fora correspondido de imediato.
Mu corria as mãos pelo corpo esguio do namorado perguntando-se em que hora fora que tivera aquela ideia de jerico, mas tão perto de realizar seu sonho não podia desistir, e foi novamente clamando à Atena que o ajudasse naquele difícil momento que apartou beijo e encarou os olhos do namorado, aflito.
O que estava prestes a fazer poderia por tudo a perder, mas não havia outro jeito, não naquela altura do campeonato, aos quarenta e cinco do segundo tempo.
— Shaka... — chamou a atenção do loiro que distribuía beijos em seu pescoço.
— Hum?
— Lembra que um dia me disse que usaria um sári para mim?
Na mesma hora Shaka desgrudou seus lábios na pele quente de Mu e afastou-se para encarar seu rosto.
Nada disse, para completo desespero do ariano que sem obter resposta não viu outra alternativa senão seguir.
— Sei que pode parecer... Parecer loucura e até inoportuno, mas, é que estamos na Índia e... — vacilou por um instante, sentindo a aura do namorado reagir, não da maneira que esperava — "Mas que burrice, Atena! Que burrice!" — pensava já completamente arrependido de ter tido a ideia do casamento indiano e ter aceito a maluquice de Afrodite em vestir Shaka de noiva —... E eu comprei um sári para você.
Lentamente Virgem desceu do colo do namorado analisando a expressão aflita de seu belo rosto. Já havia notado seu nervosismo desde que chegaram da Grécia, mas julgou ser fruto da emoção que viviam juntos enquanto visitavam a cidade e os templos e da ansiedade pela primeira noite que enfim passariam juntos.
Então veio a conversa do sári, e novamente Shaka fora pego de surpresa.
— Você... Comprou um sári? — indagou, colocando-se de pé frente ao ariano.
Aterrorizado e exultante, Mu arrastou a banqueta para poder se levantar e colocou-se frente ao namorado, o olhando nos olhos.
— S-Sim, mas... Mas apenas porque você disse que usaria, caso eu lhe pedisse. — engoliu em seco, sentindo um nó na garganta.
Shaka o observou por alguns minutos quieto, então uma antiga cisma que nasceu quando Mu passou a fugir de suas investidas ou simplesmente evitar situações que poderiam acabar em sexo tomou forma novamente, o deixando extremamente angustiado.
Virgem temia que a rejeição de Áries fosse fruto de uma possível dúvida acerca da escolha que fizera em ficar consigo, afinal, Mu ainda era virgem apenas porque o impediu de fazer sexo com Marin de Águia. Se não interviesse o ariano certamente teria consumado o ato, uma vez que, a julgar pelas conversas que tiveram logo que Mu regressara à Grécia ele sequer pensava na possibilidade de uma união entre dois homens.
Naquela noite, ainda que bêbado, sentiu o quanto o namorado ficou excitado com o corpo e os toques da amazona de Prata, o quanto ele desejou unir-se a ela.
Além disso, tanto ele quanto Mu nunca se mostraram assumidamente gays antes de descobrirem-se apaixonados. Tinha completa certeza de que se escolhesse viver uma vida terrena ela seria ao lado do lemuriano, já que nunca sentira desejo por outra pessoa que não ele, mas e Mu?
E se Mu não fosse gay?
Tinha certeza do amor dele por si, o sentia em sua alma e coração, mas o corpo masculino é completamente diferente do feminino, e era isso que poderia estar perturbando o namorado.
E se Mu para conseguir fazer sexo consigo precisasse vesti-lo de mulher?
Talvez assim se sentisse menos incomodado?
— Eu disse, mas... Eu achei que... — balbuciou um tanto quanto confuso, afinal não via problema algum em usar vestes femininas, uma vez que homem e mulher para si eram criaturas de igual valor, mas nunca imaginou que justamente na sua primeira vez com Mu teria de estar caracterizado.
Queria poder ser ele mesmo. Nem deus, nem homem, nem nada. Apenas Shaka, um homem que trocou a liberdade karmica pelos elos terrenos do amor.
Notando o nervosismo nas feições coradas do virginiano e também na alteração repentina de sua aura, Mu percebeu que não podia mais levar aquilo a diante, ou não teria mais volta. Shaka tinha toda a razão de estar confuso e tinha que dar um basta naquilo e lhe contar a verdade.
Por isso, correu até o armário no fundo do cômodo e de dentro dele retirou o sári que havia preparado para o virginiano, o levando até a cama para estendê-lo sobre o colchão.
Shaka apenas o acompanhava com os olhos azuis estupefatos, tanto pela visível apreensão do lemuriano quanto pelo surpreendente luxo que compunha o traje sobre o leito.
Não era um simples sári, mas uma suntuosa veste riquíssima em detalhes e cores, onde predominavam o vermelho e o dourado.
O choli, a blusa curta usada por baixo para cobrir o busto, feito em pura seda indiana, era todo bordado em linhas recobertas de ouro e pedrarias. A ghaghra, saia anágua e o pallu, tecido fino todo decorado que é enrolado no corpo que cai pelo ombro, eram de um tom de vermelho fechado quase bordô, deslumbrantemente bordados em tons de pérola e dourado.
Virgem corria os olhos por cada pequeno detalhe experimentando uma nova sensação.
Aquele não era um simples sári, conhecia muito bem cada detalhe rico de sua cultura natal e sabia que aquele traje era uma típica veste matrimonial.
Um sári de noiva!
Boquiaberto e em choque, Shaka procurava um sentido naquilo tudo, mas parece que toda sua sabedoria nata de nada lhe servia quando o assunto era pessoal e envolvia suas paixões humanas, como medo, dúvida, desejo, raiva, insegurança...
De repente, um puxão lhe trouxe de volta à realidade.
Mu segurou em ambos os braços do virginiano girando seu corpo até ficarem cara a cara, poucos centímetros os separando, então os olhos verdes aflitos encaram os azuis atônitos para uma última sentença.
— Shaka, você confia em mim? — indagou, com voz trêmula e rouca.
Virgem mal respirava, tamanha sua apreensão.
— Eu...
— Por favor, preciso saber.
As mãos do ariano em torno de seus braços estavam geladas como nunca.
— Sim... Eu confio em você, Mu, mas...
— Preciso que use esse sári, é muito importante, e eu vou te dizer o porquê, mas... — quase engasgou, mas continuou firme — Mas antes eu vou sair para buscar uma coisa e quando eu voltar eu te conto tudo... Seria muito bom se você já estivesse pronto.
— Mas, pronto para quê? — já começava a se desesperar, achando que estava louco, pois começava a deduzir o óbvio, mesmo que o óbvio lhe parecesse uma completa maluquice.
Mu então soltou os braços de Shaka e caminhou lentamente de costas sem tirar os olhos do virginiano lhe apontou o dedo indicador.
— Pronto para mim! Para nós! — sorriu aflito, já quase sofrendo um colapso nervoso — Porque hoje é o nosso dia, Shaka de Virgem! Luz... Da minha vida!
Sem dizer mais nada, Mu abriu a porta e deixou o aposento a fechando em seguida, mal conseguindo respirar.
Ali o Santo de Áries entregou toda sua sorte à Atena. Era tudo ou nada.
Dentro do quarto Shaka ainda olhava para a porta fechada sem esboçar qualquer reação.
O que fora aquilo afinal?
Com um semblante desorientado, o Santo de Virgem virou novamente para a cama onde estava estendido o sári e olhou minuciosamente para cada detalhe.
O coração batia acelerado dentro do peito, as mãos formigavam levemente.
Fechou os olhos e balançou a cabeça incrédulo.
Foi quando ouviu três toques na porta.
Provavelmente era Mu que retornava e não importava o quanto confiasse no amado agora o colocaria contra a parede e o faria dizer o que significava tudo aquilo.
Suspirou. Estava ficando farto. Então, dirigiu-se a passos largos até a porta, agarrou a maçaneta e com um tranco a abriu, mas nada o preparara para a figura que via ali, parada bem à sua frente.
— Alôca! Por Dadá, você ainda está assim?
Afrodite seguia com o plano e estava ali para descer junto com Shaka e Mu para o local onde seria realizada a cerimônia, mas ao ver o virginiano ainda de roupão e cabelos presos num coque alto, com a mão que tinha livre, já que a outra trazia uma caixinha de madeira envernizada, o pegou pelo punho e adentrou o quarto arrastando o loiro consigo.
— Você pode se atrasar, mas nem tanto né, santa? AH! Olha esses desenhos! — puxou a mão o virginiano próximo de seu rosto para ver os detalhes dos desenhos em hena — Que arraso!
Na mesma hora, com um puxão Shaka se livrou das mãos de Peixes e com um olhar incrédulo o encarou. Não podia acreditar do que seus olhos lhe mostravam.
O guardião da décima segunda casa estava irreconhecível.
Vestido em um sári belíssimo e luxuoso em tons de azul piscina, azul turquesa e violeta, tinha os antebraços praticamente cobertos por pulseiras coloridas e também suas mãos estavam tatuadas com hena.
Compondo o figurino riquíssimo, Afrodite ostentava um colar suntuoso de ouro branco e rubis indianos, o qual fazia par com brincos no mesmo design e um adorno de cabeça com gotas de pedras preciosas, presentes de Camus, que se mesclavam aos cachos de seus cabelos em tom único. Na testa um bindi de cristal descia da franja repartida até o centro de suas sobrancelhas perfeitamente delineadas.
Os olhos eram um espetáculo à parte, duas esferas aquamarines envoltas em kajal negro pronunciado, à moda das mulheres indianas.
— Buda! Eu não estou acreditando! — exclamou Virgem arregalando os olhos — Peixes!... O que... O que você faz aqui? — perguntou o encarando como se visse uma aparição sobrenatural.
— Não seria melhor você começar a se perguntar o que você faz aqui, meu amor? — Afrodite lhe deu uma piscadinha que veio acompanhada de um doce e amigável sorriso, então colocou a caixinha envernizada sobre a penteadeira e caminhou até Shaka, mas antes que pudesse dizer qualquer outra palavra o quarto fora invadido por um barulho que vinha de fora, ao longe, e que aos poucos se fazia mais presente.
Conforme o som ganhava forma elevando seu volume eles puderam perceber que se tratava de música!
Um silêncio potente então se fez entre Peixes e Virgem, que enquanto eram surpreendidos pela algazarra que se aproximava ao som, agora claramente perceptível, de pakhawajs, tablas, tampuras e sitares, instrumentos típicos indianos, se entreolhavam concentradíssimos.
Afrodite então abriu um largo sorriso e seus olhos brilharam.
Shaka olhava para o pisciano ainda mais confuso e assustado, até que, percebendo a aflição do irmão de armas, o qual podia até ser um guerreiro dono de um poder incomensurável e uma quase divindade, mas ainda assim era um garoto de dezoito anos apaixonado e assustado com o rumo novo que sua vida estava tomando, Afrodite esticou os braços e tomou ambas as mãos de Virgem nas suas.
— Eles chegaram! Você precisa decidir logo. — disse com um sorriso largo no belo rosto.
— Eles... Quem?
Shaka perguntou extremamente nervoso, quase num sussurro, então o pisciano lhe puxou para a janela que dava de frente para o jardim ornamental e abriu apenas uma pequena fresta.
— Veja. Veja porque está aqui. — disse, o sorriso indelével denunciava sua alegria.
Diferente de Mu, em momento algum Afrodite temeu que Shaka não fosse aceitar usar aquele sári, pois para Peixes o amor transcendia sexo, gênero, convenções e qualquer outra questão moral imposta pelo homem.
Por isso, enquanto Shaka posicionava seu rosto na pequena fresta aberta na janela, o pisciano já dava pulinhos de alegria ao seu lado, ansioso para o início da cerimônia.
E quando o Santo de Virgem olhou para fora, sem ser percebido por nenhuma das pessoas que tomavam o local, o mundo parou à sua volta.
Foi como se todo o Universo de súbito fosse do tamanho daquele pequeno saguão no centro do belo jardim de lótus no espelho d´água.
A gravidade deixasse de existir e seus pés não mais tivessem que sustentar o peso do corpo.
A vida, um milagre impreciso.
Do lado de fora, uma pequena multidão tomava o jardim e as dependências externas daquele templo em procissão.
Enquanto caminhavam dançavam alegres, balançando as vestes coloridas ao som da música que era produzida pelo cordão de homens, muito bem vestidos, que vinham mais à frente.
Mulheres e crianças tinham grandes cestos de bambu nos braços de onde retiravam pétalas de flores e jogavam para o ar.
No meio delas, envolto por um cordão de jovens alegres e festivos, o cavaleiro de Áries vinha montado em um cavalo branco todo adornado em fitas coloridas.
Mu estava belíssimo!
Vestia um traje cerimonial masculino em tons marfim, dourado e vermelho. Os cabelos presos desciam pelas costas largas juntamente com o tecido que pendia do bandini, um turbante típico das vestes do noivo. Este era vermelho, bordado em dourado e possuía um kalgi, o broche de ouro e pedras preciosas, em formato de carneiro, joia que o próprio Mu fizera para a ocasião.
Em torno do pescoço trazia uma estola longa, laranja, ornamentada em dourado e bronze, a qual teria participação ativa na cerimônia, uma vez que o noivo deve amarrá-la ao sári da noiva, numa representação, entre tantas, de que o casamento é uma união indissolúvel.
Naquela hora, olhando para Mu pela pequena fresta, Shaka enfim teve certeza de que seu delírio não fora tão absurdo quando viu o namorado retirar um sári de noiva de dentro daquele armário.
— Por... Buda! — fechou a janela de supetão e encostou a testa na madeira fechado os olhos.
Do lado de fora, Mu, que talvez fosse o único a ter os olhos fixos naquela janela, sentiu um nó na garganta, então, enquanto um grupo de crianças fazia festa em torno de seu cavalo, ele desceu, apanhou uma caixa que trazia presa à sela do animal e o entregou a um homem que ficaria responsável por ele.
Apressado, foi pedir ao sacerdote e ao monge que realizariam a cerimônia que o esperassem ir buscar sua noiva.
Enquanto isso, no quarto, Afrodite, agora nervoso, acercava-se de Shaka que em silêncio mantinha-se na mesma posição, com a testa grudada na madeira da janela.
— Loirudo... E ai? Não vai dizer nada? Desaquenda a cara dessa janela pelo amor de Dadá, está me deixando agoniado! — disse sôfrego e alterado — É o vestido? Olha, a ideia não foi do Mu, foi minha! Mu queria casar com você na Índia, mas sabe como isso seria impossível, né santa? Nem aqui, nem em nenhum outro lugar... Se tiver que quebrar a cara de alguém, quebre a minha, de novo, mas...
De repente, o falatório de Peixes foi interrompido quando Shaka desencostou a testa da janela e olhou para si.
O olhar do cavaleiro de Virgem era algo tão denso e desconcertante que Afrodite se calou no ato, ficando apenas a observá-lo como se estivesse paralisado.
— É claro que a ideia foi sua, Peixes. — disse com voz serena, e pela primeira vez permitiu que alguém o visse com os olhos marejados e sorrindo.
— Olha, loirudo, se não quiser usar o vestido, tudo bem, mas...
— Quem liga para vestido diante da grandiosidade de todo o resto? — deu as costas a Afrodite e caminhou até a cama.
— Shaka... — balbuciou o pisciano o seguindo.
— Toda grande caminhada começa com um simples passo! ॐ — seu semblante era plácido como um pôr do sol de primavera, e nos lábios trazia um sorriso pleno de satisfação e alegria.
Shaka então curvou levemente o tronco e apanhou a anágua de sobre a cama, a erguendo na frente dos olhos.
— A vida é uma pergunta a ser respondida, Afrodite. É um mistério a ser vivido a cada dia. ॐ Sempre achamos que estamos preparados para ela, mas nunca estamos. O que nos irá preparar para as surpresas da vida são nossas certezas. — analisou o bordado da veste sentindo o Cosmo de Mu em cada pedaço de linha, cada pedra colocada estrategicamente ali, então fechou os olhos emocionado — E eu tenho certeza de que quero passar o tempo que me foi dado aqui na Terra ao lado do Mu. Que importa o traje que cobre nosso corpo? Se é masculino ou feminino? A alma, o amor, não possuem gênero, tampouco obedecem à convenções. — nessa hora Virgem riu, imaginando o quanto seu amado ariano sofrera todos esses dias temendo que ele não aceitasse usar aquele sári, ou pior, ficasse ofendido.
— Olha! Tô sépian! — Afrodite suspirou aliviado ao ouvir aquilo — Quem diria que somos parecidos nesse quesito? Alôca! — riu, em alto e bom tom — Mas, a noiva pode atrasar, mas nem tanto né!
— Vou precisar de ajuda para entrar dentro desse... Desse monte de pano! — olhou para Afrodite o analisando de cima a baixo, agora de modo criterioso — E vejo que você entende bem disso. Aliás, por que está vestido assim?
— Porque sou irmã do noivo, meu bem! — apressou-se em apanhar o choli e já prepará-lo para vestir no virginiano — Somos filhos de um magnata tibetano e eu sou a caçula. Mu é o filho mais velho que se apaixonou por uma doce órfã mestiça, você, no caso. Nossa família é budista e você é hindu, por isso a união de vocês será feita por um sacerdote Brâmane e por um monge budista numa cerimônia ecumênica. Isso se o Mu não morrer antes, porque vou te falar viu, loirudo, nunca vi esse menino tão nervoso como nas últimas semanas... Anda, tira esse roupão que eu te ajudo a vestir o sári. As moças do vilarejo me ensinaram. Eu estou aqui desde ontem, sabia?
— Por todas as lótus que nasceram das pegadas de Sidarta! — o Santo de Virgem arregalou os olhos, já se apressando em abrir o roupão com certo acanhamento, mas não tinha tempo para pudores. Do lado de fora a música já era alta o suficiente para saber que todos já aguardavam a chegada da noiva — Vocês são malucos!... E como eu não previ uma coisa como essa?
— Meu amor, não foi você mesmo quem disse que a vida é imprecisa? Ergue os braços. — enfiou a blusa em Shaka com pressa, já fechando o zíper lateral e virando-se para a cama para apanhar a anágua — Você sempre soube como lidar com a sua morte, Shaka, mas você escolheu viver, então agora se joga, santa! Enfia as pernas aqui.
Sem muita dificuldade, e numa euforia desmedida, Peixes enrolou o sári no corpo de Virgem como se devia e correndo até a penteadeira apanhou um lápis kajal negro, o qual havia trazido de seu quarto dentro da caixinha de madeira onde estavam as oferendas.
— Dê graças à Atena que sou um homem prevenido! — disse voltando até o virginiano que agora soltava os cabelos apressado.
— O que é isso? — perguntou enquanto penteava os longos fios dourados com os dedos mesmo.
— Já viu alguma noiva indiana de cara limpa? Anda, deixa eu delinear seus olhos. Você é uma órfã pobre que não tem onde cair morta, mas sua cunhada é uma mulher muito generosa. — segurou no queixo do virginiano o fazendo ficar parado enquanto corria a ponta do kajal na linha inferior de seus olhos — Olha para cima... Isso... Nossa você tem olhos lindos... É uma heresia mantê-los fechados por tanto tempo... Principalmente na hora do sexo! Vou te dar uma dica: Não se trepa de olho fechado, nunca! O legal é poder ver o...
— PEIXES, POR BUDA! — de repente um grito, e Afrodite, assustado, borrou o traço que fazia no outro olho de Shaka, o deixando com uma linha alongada que ia até próximo da orelha — Estava demorando, né? Dispenso suas dicas.
— Cruzes! Me desculpa. Só estava dando uma dica. Não me deixa broxa, ok? Foi sem querer. — disse já corrigindo o borrão.
Nessa hora ouviram um toque na porta, e antes que pudessem responder a maçaneta girou e ela se abriu revelando a bela e altiva figura de Mu de Áries, que trazia uma caixa na mão e uma expressão aflita no rosto.
Suava frio, ainda mais depois de ter visto a janela se fechar quando se aproximava do templo. Estava com verdadeiro pânico de o namorado ter se ofendido de alguma forma depois que soube o por que de fato estavam ali, e de ter visto aquele séquito o seguindo.
Temeu que Shaka lhe dissesse não, ou coisa ainda pior! A julgar pela confusão que sentiu emanar da aura do amado, Mu temia ter criado um conflito que os levaria a uma separação, afinal queria enfiar o poderoso Santo de Virgem num vestido de noiva.
No entanto, assim que cruzou o batente, avançou um passo para dentro do cômodo e bateu os olhos em Virgem, o medo se transfigurou em emoção em questão de segundos, e foi como se todo seu corpo fosse tomado por uma descarga elétrica.
Seus joelhos fraquejaram, os olhos quase saltaram das orbes, o peito escachou a couraça do medo que envolvia seu coração, libertando toda a emoção contida e, paralisado, Mu olhou para seu amado.
Shaka brilhava!
Exatamente como da primeira vez que o vira no Santuário ainda criança.
Ao redor do corpo do virginiano Mu podia ver sua aura em festa.
Seus olhos então se cruzaram e por segundos ficaram perdidos um no outro, cada qual com seu pensamento.
Áries soltou um suspiro, deixando o ar finalmente entrar dentro de si quando Shaka lhe presenteou com seu mais belo sorriso enquanto balançava a cabeça sutilmente ao modo indiano, hábito enraizado desde a infância e do qual Mu já estava mais do que familiarizado.
Shaka estava lhe dizendo sim.
Ainda sentindo seu corpo todo fremir, agora com bem menos intensidade, o ariano caminhou até Virgem correndo os olhos por toda sua figura. Era um pouco estranho ver o namorado dentro daquele traje feminino, mas não podia negar que ele estava deslumbrante.
Deixou a caixa que trazia sobre a cama e se pôs frente ao amado.
— Shaka... — sussurrou o Santo de Áries, que tinha os olhos úmidos pela emoção — Me perdoe por tudo isso, todo esse mistério. Pelos dias que sai correndo da sexta casa e deixei você cismado e também por fazê-lo vestir esse traje, foi ideia do Dido, eu fiquei tão nervoso, mas eu concordei, porque era o único jeito de...
— Shii... — o virginiano ergueu a mão tatuada e tocou com ternura o rosto do lemuriano — Ei, se acalme, respire! Está tudo bem... Mas, não seria mais fácil ter simplesmente me pedido em casamento, Mu? Um jantar e um par de alianças já bastariam. — riu da situação toda em si.
— Bem... Sim, mas não era o suficiente para mim. — devolveu a carícia afagando os cabelos ainda bagunçados do amado — Shion me ensinou que a união entre duas pessoas que se amam é algo sagrado e eterno. Não me bastava apenas um jantar, uma troca de alianças e promessa falada. Você, Shaka de Virgem, é o sol que ilumina meus dias, a luz da minha vida! Você merece o meu melhor, sempre mereceu, como amigo, como namorado e agora como marido. Você abriu mão de seu voto por mim, e eu jamais iria privá-lo das honras do casamento apenas porque você é homem. Minha consciência não me permitiria tratá-lo apenas como meu amante, quando você é a razão do meu viver.
— Mu! — balbuciou o indiano, emocionado.
— Sempre foi você, Shaka. Até quando estava longe, exilado, sua lembrança me fez companhia e me confortou quando a saudade me machucava. Por isso, eu tinha o dever de honrar esse sentimento com tudo o que merecemos... Eu sei que foi um plano ousado, atrapalhado e até meio maluco. Eu estive aqui pessoalmente, nesse templo, por diversas vezes tentando convencer os sacerdotes a me casar com minha amada noiva mestiça, e se tivesse lhe dito que Afrodite deu a ideia de te vestir de noiva você certamente não aceitaria.
— Bem provável que não. — Virgem sorriu, agora encarando o pisciano.
— Hum... Não vejo babado* nenhum em ocó* usar axô* de amapô* e nem o inverso, tá boa? Até xocoto* tá liberado. — explicou-se o Santo de Peixes.
— O que ele disse? — inquiriu Shaka erguendo uma das sobrancelhas.
— Não faço a mínima ideia. — respondeu Mu que agora era todo sorrisos, então apanhou a caixa de cima da cama e voltou a olhar para Shaka — Só sei que precisamos nos apressar. O vilarejo inteiro nos aguarda e ainda falta um detalhe!
— Tenho até medo de perguntar qual seria o detalhe que falta. — disse o loiro rindo da própria situação.
— Shaka, eu fiz isso para você. — abriu a caixa, e fora como se tivesse aberto um baú de tesouros.
O brilho dourado das joias que forjara para a ocasião era ainda mais intenso, pois o ouro fora moldado na forja lemuriana e continha todo o amor de Mu e também seu poderoso Cosmo.
O rosto de Virgem fora banhado por aquele fulgor áureo que refletia em suas íris azuis enquanto ele olhava para as joias na caixa, então Shaka se lembrou do dia em que vira os desenhos das joias na forja de Mu.
— Por Buda. Então eram para isso os desenhos!
— Aquenda essas joias! Atena me abana! — exclamou Afrodite que se prontificou a segurar a caixa para Mu.
— Eu sou um estrangeiro muito rico. Não podia deixar de cobrir de ouro a minha amada noiva. — deu uma piscadinha travessa e apanhou primeiro o colar — Usei o ouro que Shion me deixou como herança e as forjei para esse momento. Todas levam nossos símbolos, Áries e Virgem, e sentirá seu Cosmo reagir a elas, pois uni o Pó de Estrelas ao ouro, por isso elas cintilam como nenhuma outra.
Uma a uma, quase de forma ritual, Mu ia colocando em Shaka as joias que forjara.
Primeiro um suntuoso colar que lhe tampava o pomo de adão e quase todo o peito, depois os enormes brincos de pressão e as tradicionais pulseiras vermelhas, muitas delas, em ambos os braços.
— Shaka, precisei fazer uma peça a mais. — apanhou dentro da caixa a joia em questão — Bom... você não se parece em nada com uma mulher. Por isso, para que não sejamos descobertos, lhe fiz essa peça.
A preocupação de Mu era legítima, pois apesar de muito jovem e de seu corpo ainda estar em plena formação, Shaka tinha um rosto com traços bem masculinos, e isso poderia chamar mais a atenção do que deveria, por isso Áries lhe forjou uma máscara que lhe cobriria a face do nariz até pouco abaixo do queixo, como o véu das odaliscas, porém feito em ouro com estreitas correntes trançadas umas às outras formando uma belíssima malha dourada.
Dessa forma, todo o destaque ficaria para os olhos de Virgem.
Cuidadosamente o Santo de Áries prendeu a joia no rosto do amado, que naquela altura do campeonato tudo que queria era a benção de Buda para unir-se a Mu para o resto da vida, e por isso aceitou de bom grado até que Afrodite lhe fizesse uma trança nos cabelos.
— Ainda bem que não é preciso aquendar a neca*, né? — dizia o pisciano apressando-se a finalizar a trança — Eu li em uma revista como faz, e pelas bolas de Urano, deve doer!
— Não é preciso fazer o quê? — Shaka perguntou confuso, mas Mu foi mais rápido o pegando pela mão e o puxando até o armário.
— Não liga para ele não. Dido tem um dialeto próprio. Falta o véu. — abriu a porta e pegou um véu de tecido transparente vermelho todo bordado em dourado — Nas minhas visitas para acertar a cerimônia, eu disse que minha noiva era muito tímida e os instrui a não obrigarem você a dizer nada. Portanto, pode repetir os votos em voz baixa. — jogou o véu sobre a cabeça de Shaka que o ajudou o ajeitando sobre os ombros, o deixando cair por cima do sári até a altura dos joelhos.
Por fim, Áries buscou uma joia para a cabeça e a colocou sobre o véu de Shaka. Graciosas correntes enfeitadas com pequenas pedras preciosas caiam por sobre o tecido, enquanto um pingente maior descia pela testa do virginiano até o meio de suas sobrancelhas, onde ele costumava marcar com o tradicional bindi hindu.
Mu então se afastou e contemplou a visão do seu amado pronto.
Não era bem o que tinha em mente quando decidiu se casar com Shaka. Se pudesse escolher, se o mundo em que viviam fosse um lugar onde o amor reinasse sobre a intolerância e o preconceito, não seria preciso nada daquilo. Unir-se-iam em matrimônio sob a benção de sua religião como vieram ao mundo, como dois homens que se amavam, porém a realidade atual não os aceitava.
Mas, nem assim Shaka e Mu maldiziam o mundo pelo qual juraram lutar para manter em paz.
Acreditavam que um dia todos os seres teriam o direito de amar sem temer. Mas enquanto esse dia não chegasse nada e nem ninguém os impediria de realizar seus sonhos.
Assim, antes de deixarem o quarto, os dois cavaleiros se entreolharam por alguns instantes, emocionados, até que Afrodite aproximou-se deles e pegou na mão de cada um, alternando o olhar, ora para um, ora para outro.
— Vocês estão incríveis, e eu me sinto lisonjeado de ter sido escolhido para dividir essa felicidade com vocês, meus amigos. E que o que Buda unirá, ocó* nenhum nessa Terra seja capaz de separar!
— Amithaba! (2)— responderam em uníssono os noivos.
Ao chegarem ao saguão onde as pessoas do vilarejo os aguardavam em meio à música e dança, houve uma salva de palmas e muitas outras manifestações que recepcionavam os noivos.
Como pedia os rituais, enquanto um círculo de gente se formava entre eles, Afrodite entregou à Shaka a caixinha de madeira com as oferendas que ficaram a seu encargo, iogurte e mel, os quais a noiva deveria entregar ao noivo como indicativo de sua pureza e doçura.
O Santo de Virgem então abriu a caixa e dentro dela viu dois potes de porcelana, um claramente continha o mel, mas o outro lhe deixou confuso.
Olhou para Afrodite em sobressalto, as correntes da joia que cobria parcialmente seu rosto tilintando quando ele sutilmente balançou a cabeça fazendo uma pergunta muda, ao modo indiano.
Sem entender o gesto de Shaka, Afrodite continuou a mirar o cavaleiro sem esboçar reação, até que Mu, sabendo que o pisciano não entendia aquela linguagem gestual tão típica do virginiano interveio olhando para dentro da caixa que o loiro tinha nas mãos.
— Mas que... Que merda cor de rosa é essa dentro do outro pote? — sussurrou enquanto franzia a testa, encucado, e depois encarou Afrodite — Era para arranjar iogurte, Dido. O que você botou aqui?
— Ué, é Danoninho. — respondeu também com um sussurro o Santo de Peixes.
— Buda! Era só o que me faltava! — murmurou Shaka fechando os olhos para não perder a compostura.
— Da-Danoninho? — resmungou Mu quase rangendo os dentes — Danoninho? Pelos deuses, era para ser iogurte!
— E Danoninho não é iogurte, santa? — insistiu o sueco — É tudo ajeum*, tá boa?
— Não, não é! Iogurte tem um significado cultural milenar. Danoninho é QUEIJO!
— Dá na mesma. E o Danoninho tá fresquinho. Purinho como sua noiva.
— Se meu casamento não der certo por causa desse... Desse... Ah, Atena! — Áries esfregou o rosto aflito.
— Ah, por Buda, vamos logo com isso. — disse Shaka que agora era todo ansiedade, então entregou a caixa a Mu que suspirou resignado.
De posse da oferenda, o Santo de Áries seguiu com os ritos e conduziu sua "noiva" até o cavalo, o qual os aguardava em frente ao jardim ornamental. Ambos montaram no animal e juntos conduziram a procissão festiva até o local onde estava montado o altar em que seria realizada a cerimônia.
Todo o caminho por onde passavam era enfeitado graciosamente com flores, ornamentos típicos da região e tendas com tecidos de seda em tons corais.
Mu sentia o peito explodir em felicidade, enquanto abraçava Shaka com um dos braços e acenava com a outra mão para os convidados.
Já o virginiano encontrava-se em transe ainda, não acreditando no que se passava consigo. Era como se estivesse vivendo um dos capítulos de suas amadas novelas.
Afrodite vinha logo atrás dos noivos esbanjando simpatia e alegria, fosse batendo palmas junto das mulheres e homens que compunham o cortejo nupcial, tirando fotos com a máquina Polaroid de Mu, ou fazendo chover, literalmente, pétalas de rosas por sobre a multidão.
Vez ou outra pensava em Camus e no quão bom seria tê-lo ali a seu lado celebrando a felicidade dos amigos, e sonhando, quem sabe um dia, poder viver aquela emoção junto ao ruivo.
Porém, o Santo de Peixes sabia que era um desejo fantasioso, utópico, mas, assim como aceitou dedicar sua vida a lutar para alcançar a paz na Terra, quem sabe um dia poderia viver em paz também o seu amor pelo Santo de Aquário.
Logo chegaram ao altar, o qual estava todo decorado por rosas, velas acesas, flores locais, e onde um monge budista e um sacerdote Brâmane os aguardava ao lado de uma fogueira apagada.
Os noivos desceram do cavalo e seguiram a pé por um caminho onde se estendia um tapete vermelho.
Ambos estavam descalços e caminhavam lado a lado, sem tocarem as mãos. O que não se podia dizer de seus Cosmos, os quais ressoavam em sincronia e se abraçavam.
A poucos passos de onde estava a fogueira e duas grandes almofadas dispostas no chão forrado por tecido e flores, ambos pararam e Mu buscou discretamente com os olhos o amigo pisciano entre a multidão. Era a hora de ele agir novamente.
Atento ao sinal de Mu, Afrodite aproximou-se do casal e tomou uma das mãos de Shaka nas suas, depois olhou para os cerimonialistas e por fim para o amigo ariano, lhe tomando uma das mãos também para, por fim, juntar as duas.
— Eu lhe entrego o seu grande amor adornado em ouro! (3) — disse concentrado para não errar um só fonema daquela frase que passou a semana decorando, então soltou as mãos de ambos, as quais permaneceram unidas, e afastou-se para assistir à cerimônia junto dos convidados.
Os ritos deram início com o sacerdote acendendo a fogueira cerimonial e o monge uma vela vermelha.
Em seguida, enquanto o Brâmane fazia uma oração ritualística e o budista recitava o Sutra, tocando um pequeno sino em cada final de estrofe, Mu colocava o Mangalasutra, ainda que meio atrapalhado devido à emoção,em torno do pescoço de Shaka, colar que na cultura indiana representa a aliança de compromisso.
Findadas as orações, o sacerdote ofereceu uma bacia de prata para a "noiva", e conhecedor de sua cultura como ninguém, Virgem já sabia o que teria de fazer.
Por isso, ajoelhou-se aos pés de Mu, que acabava de sentar-se sobre uma das almofadas, e apanhou a caixa que Afrodite lhe entregara no início dos rituais. Não fosse estar tão envolvido e emocionado com aquele momento, teria caído na risada ao pegar o frasco com Danoninho e despejar o conteúdo cor de rosa nos pés do ariano dentro da bacia.
Mu respirou fundo, num misto de decepção e uma tremenda vontade de gargalhar.
Ter os pés lavados com Danoninho era no mínimo inusitado.
Shaka ergueu a cabeça e seus olhos encontraram os do monge e do sacerdote numa expressão severa e curiosa, analisando com certa reprovação o que a "noiva" havia jogado nos pés de seu pretendente, e antes que aquilo pudesse se tornar um problema, rapidamente Virgem apanhou um jarro com água que havia sido deixado ali ao lado da bacia e enxaguou os pés do lemuriano.
Passou rapidamente para o rito seguinte mergulhando seu dedo indicador no frasco com mel e o levando aos lábios de Mu, o qual fechou os olhos e aproveitou o momento para beijar sutilmente a ponta dos dedos de Shaka.
Os convidados suspiravam e sussurravam entre si a paixão que exalava do casal, pois mesmo com todo o recato da "noiva" era possível notar o amor contido na troca de olhares entre eles.
Muitos outros rituais se seguiram, felizmente sem mais contratempos, então finalmente o sacerdote uniu a barra do sári de Virgem à estola que Áries trazia nos ombros com um nó apertado e lhes ofertou colares de flores brancas e vermelhas.
Deram sete voltas em torno da fogueira e depois beberam saquê em três xícaras, parte dos ritos budistas. Esse também pedia que todos os convidados se dessem as mãos, e assim as pessoas fizeram, desejando seus melhores votos ao casal.
Ao final, o sacerdote entregou uma pasta feita a partir de açafrão e mercúrio, a qual possuía uma coloração vermelha intensa, para o Santo de Áries.
Sorrindo, Mu olhou nos olhos de Shaka e com o coração aos pulos de alegria sujou as pontas dos dedos na pasta e a aplicou na divisão do cabelo do amado, lhe dando um beijo na testa logo após.
Nem podiam acreditar. Estavam oficialmente casados.
Após a cerimônia os noivos se deram as mãos, entrelaçando os dedos em uma carícia discreta, e caminharam juntos até onde seria servido o jantar. Sentaram-se nas almofadas, ainda unidos pelo nó nas roupas, e as festividades se deram início com um enorme banquete e muita música.
Mu então abraçou Shaka o trazendo próximo ao peito, enquanto juntos observavam à sua frente as pessoas festejando, comendo, dançando e as crianças brincando com Afrodite, que a toda hora era abordado por uma mulher querendo lhe tocar os cabelos de cor exótica ou a pele muito clara.
Shaka ainda parecia não acreditar. Era a festa de seu casamento!
Quando poderia imaginar que viveria um dia como aquele!
Então Mu olhou para o marido e o viu de olhos fechados.
— Tudo bem? — perguntou lhe fazendo uma carícia no ombro.
— Sim. — Shaka respondeu e então lhe sorriu com os olhos, agora abertos — Estou apenas agradecendo.
— Está feliz? — inquiriu sorrindo o ariano.
— Sabe, Mu de Áries... Você é maluco. Mas, me deu o dia mais feliz da minha vida... Me sinto... Diferente!
— Eu também. — pegou uma das mãos de Virgem e a levando até seu rosto a beijou — Me sinto em paz. E sim, sou maluco... Mas, maluco por você, Shaka de Virgem... Eu nunca lhe disse, mas eu espero o dia de meu casamento desde muito jovem.
— Eu não sabia que isso era tão importante para você. — o loiro disse em voz baixa.
— É sim. Mestre Shion me disse, quando eu ainda era criança, que viu parte do meu futuro em suas visões proféticas, entre elas que eu me tornaria cavaleiro e que estava predestinado a me casar muito jovem, pois ele via uma pessoa nessa era fortemente ligada a mim.
— Certamente ele jamais imaginou que essa pessoa seria eu. — Shaka balbuciou um tanto quanto confuso, pois desde crianças tanto ele quanto Mu já tinham seu destino como certo, não sabendo em que hora foram pegos pelas surpresas que a vida prepara para os humanos.
— Certamente que não. Mas, desde que as estrelas lhe fizeram essa profecia, Shion passou a me preparar para esse dia e me ensinou desde cedo como ser um bom marido.
Ao ouvir aquilo, Shaka piscou os olhos pensativo. — "E eu? Será que serei um bom marido?" — pensou, um pouco inseguro. Afinal, diferente de Mu ele não tinha familiaridade alguma com assunto, não fora educado para casar, sequer sabia como seria dividir a vida terrena com alguém, tampouco que se uniria em matrimônio logo escolhesse abrir mão de seus votos. Estava mergulhando de cabeça naquela experiência, mas com a plena certeza de que era fizera a escolha certa.
Logo a voz do amado despertou Virgem de suas divagações.
— Mestre Shion, e muito menos eu, imaginávamos que me casaria justamente com o meu melhor amigo. — Mu sorriu ao fazer a confissão.
— Acho que ele ficaria um pouco chocado. — Shaka sorriu de volta, por debaixo da malha de ouro que cobria seu rosto.
— Sem dúvida! — Mu suspirou em seguida — Mas, quando começamos a namorar, e quando finalmente você se decidiu entre sua missão e a viver comigo, eu imediatamente percebi que era você a pessoa que meu mestre viu em meu futuro. Desde pequenos que temos uma ligação única e especial. Apenas demorei a perceber... Ah! Eu esqueci o principal!
O Santo de Áries então levou a mão ao bolso da túnica e dele tirou uma caixinha de metal.
— Feliz aniversário, luz da minha vida. — ao abri-la, um par de alianças cintilaram aos olhos do cavaleiro de Virgem, que os arregalou em surpresa.
Cada uma tinha o símbolo de suas constelações.
— Mu!... Isso são...
Mu então pegou a mão esquerda de Shaka, a qual tremia levemente diante aquela nova emoção, e depositou em seu dedo anelar a aliança que continha o símbolo de Áries.
— São nossas alianças. Também as forjei em ouro e Pó de Estrelas. Além disso, coloquei meu Cosmo nelas. Poderá senti-lo sempre que tocá-lo com o seu.
— São lindas! — Shaka exclamou sentindo o Cosmo do ariano tocar o seu através da aliança em seu dedo — E são tão... vivas!
Mu então ofereceu a outra para que Shaka a pegasse, e Virgem imediatamente o fez, a colocando no dedo anelar do lemuriano.
— Você não cansa de me surpreender? — encarou os olhos verdes animados — Que todos saibam que pertencemos um ao outro. Que eu o amo e amarei até o fim de meus dias, e até depois da morte.
Abraçaram-se novamente, emocionados, vivendo juntos aquele momento que seria inesquecível, mas logo foram interrompidos por ninguém menos que o cavaleiro de Peixes trajando sua sagrada armadura de ouro, com direito a elmo, capa e uma rosa vermelha entre os lábios.
— Mas... Mas que diabo é isso? — Mu esbravejou quase engasgando — "O que você está fazendo trajando a armadura aqui, Dido? Por todos os deuses! Ficou maluco?" — perguntou diretamente à mente do pisciano.
— Diabo não homem vil! Eu vim reclamar a honra de tua noiva! — a voz era bem mais grave que o de costume, e agora Afrodite apontava para Mu segurando entre os dedos a rosa que tinha presa nos lábios — Eu vos desafio para um duelo de vida e morte, onde o vencedor terá a honra de deflorar esta virgem.
Shaka levou a mão à testa baixando a cabeça e fechando os olhos.
— Buda! Mais essa agora. — murmurou baixinho, depois discretamente ergueu o braço e deu um croque na cabeça de Mu, assustando o ariano que rapidamente olhou para si — Que história é essa de duelo, Mu de Áries? Por todos os dedos da mão de Buda, esse baiacu beijoqueiro está de ARMADURA! Aqui! O que falta você me aprontar ainda?
— Ai!... Eu juro que esse doido entendeu tudo errado. — conversavam aos sussurros para não chamar atenção dos convidados, que deslumbrados com a figura do invasor naquela armadura imponente que reluzia como um tesouro precioso só tinham olhos para Afrodite — A tradição manda que o noivo defenda a honra da noiva através de um duelo, e era para esse maluco apenas trocar de roupa e me desafiar com uma espada de mentira. Eu jamais ia imaginar que ele ia aparecer aqui de armadura... Eu vou matar ele.
— É melhor matar mesmo, ou você vai perder o direito às núpcias. — disse Shaka, não se segurando e deixando escapar um riso por debaixo da máscara de ouro.
— Jamais! — Mu riu junto com o virginiano e na mesma hora levantou-se da almofada, desfez o nó que o mantinha amarrado ao sári de Virgem e foi ao encontro de Afrodite.
Em torno do cavaleiro de Ouro, um circulo de pessoas em polvorosa já se formava, ansiosas e tementes pelo embate, então Mu se colocou frente a frente ao amigo sueco e tentando conter o riso disse em alto e bom tom:
— Eu aceito o duelo! Sórdido demônio! Defenderei a honra de quem amo. Não tocarás em um fio de cabelo do meu loirudo! — como falavam em grego e não eram compreendidos por ninguém, brincavam um com o outro de forma descontraída, divertindo-se com aquela encenação.
Mu então invocou sua armadura sagrada e na mesma hora ela cobriu seu corpo levando as pessoas que assistiam ao delírio, já que imaginavam tudo aquilo fazer parte de uma grande encenação tão perfeita que sentiam estar presenciando, ao vivo, uma cena de ação Bollywoodiana.
— Estejais preparado, e conformado, em perderes tua bela noiva para mim. Oh, carneiro das pintas na testa! Rosas Diabólicas Reais!
Centenas de rosas vermelhas surgiram no cenário, para deslumbre dos expectadores, que erguiam as mãos em festa tencionando tocá-las, enquanto elas bailavam no ar como por magia.
Não possuíam nenhum veneno, apenas um perfume suave e agradável que abraçava a todos com mimo, e num comando do Santo de Peixes elas circularam o corpo do oponente formando um roseiral, deixando Mu literalmente imobilizado por galhos sem espinhos e pétalas de delicioso aroma.
— Ficais plantado aí pela eternidade. Óh, lemuriano extinto! — gritou Afrodite apontando o dedo para Áries — Eu tomarei seu noivo loirudo esta noite!
— Somente por cima do meu cadáver! — rebateu o ariano — És um cavaleiro ou um jardineiro?
Com um gesto rápido e uma ínfima parcela de seu Cosmo, Mu se livrou das rosas rodopiando no ar. Sua capa branca balançava tal qual uma flâmula imponente, e as pessoas aplaudiam a vantagem do noivo contra o usurpador.
Usando telecinese, Mu levitou algumas pedras que ornamentavam o grande jardim do templo e as arremessou contra Afrodite sabendo que ele não teria dificuldade alguma em desviar ou mesmo as destruir.
— Não irás me acertar, óh carneiro furioso das colinas! — dizia o sueco saltando entre as pedras sem esbarrar em nenhuma — Não adianta resistires. Eu irei te derrotar e tomarei a sua joia mais preciosa!
Do altar, Shaka observava aquela patifaria até que se divertindo, não fossem as crianças, as quais assustadas com a possibilidade de a noiva ser roubada pelo malvado vilão que a queria desposar no lugar do marido lhe puxavam a barra do sári ou o véu, aflitas.
— Buda, me dê paciência! — rogava, pedindo calma às crianças na língua mãe delas.
No duelo, Afrodite agora contra atacava.
— Dar-te-ei o golpe de misericórdia! Óh cavaleiro sem cavalo! — bradou, e saltou sobre Mu o empurrando contra uma coluna de arenito vermelho, atracado a seu pescoço fingindo apertá-lo — Estais perdido, carneiro roxo! Essa noite é tua prova de fogo! — riu ao dizer aquilo, pois sabia o quanto Mu esperara pelo momento.
— Você não presta, Dido! — o ariano riu de volta, então, enquanto as pessoas em volta olhavam para eles assustadas, cobrindo os rostos apreensivos com as mãos, temerosas do destino funesto que se desenhava para a pobre noiva, Mu usou novamente sua telecinese para levitar o corpo do pisciano há metros do chão.
— Óh! Óh! Céus! Que feitiçaria é essa que atinge meu corpo? — encenava fazendo caras e bocas, obrigando Mu a jurar que lhe daria uma surra de verdade por fazê-lo passar por aquilo.
— Jamais tocarás em meu loirudo, óh peixe fora d´água! Ele é meu, perante os deuses, e essa noite é unicamente nossa, minha e dele. Desapareça! — gritou e na mesma hora deu uma piscadinha para Afrodite em agradecimento, recebendo de volta um beijo jogado ao vento por parte do sueco.
O Santo de Áries teleportou o amigo pisciano para o quarto que havia reservado para ele ali no templo, e diante do sumiço do vilão que queria acabar com as núpcias dos recém-casados as pessoas aplaudiam, gritavam, pulavam de alegria e dançavam em celebração à vitória do noivo.
Aclamado, Mu caminhou de volta ao altar e estendeu a mão a Shaka, que a aceitou levantando-se da almofada.
— Meu herói! — disse o virginiano e ambos caíram na risada.
— Acho que já podemos deixar nossa festa. — falou Mu.
— Era tudo que eu queria ouvir! — Shaka respondeu de pronto.
Mu então fez um sinal de agradecimento a todos e pediu que as festividades continuassem noite a fora sem eles. Em seguida abraçou Shaka, colando seu corpo ao dele, e envolvendo a ambos em sua capa pristina usou seu teleporte, desaparecendo bem diante dos olhos de todos, que acreditaram ser mais um truque Bollywoodiano.
No quarto do templo, Afrodite, que já tinha liberado sua armadura para que regressasse à Grécia, à décima segunda casa, tomou um banho caprichado e terminava de guardar as coisas que trouxera em uma mochila.
Estava radiante de felicidade pelos amigos, e por ter tido a honra de participar de uma cerimônia tão linda e significativa.
Depois de presenciar tanto amor, paixão e entrega entre aqueles dois cavaleiros, era sua vez de cuidar de seu coração.
Vestiu-se com a mesma roupa que chegou ali, calça jeans, botas estilo coturno e camiseta branca, amarrou o cabelo num rabo de cavalo, colocou a mochila nas costas e sentou-se na beirada da cama fechando os olhos e acendendo seu Cosmo.
Precisava se concentrar.
Poucos minutos depois abriu os olhos sorridente.
— Te achei!
Deixou o quarto às pressas, então despediu-se de algumas pessoas, encheu aquele templo com roseiras suntuosas e foi dar uma volta em um mercado indiano que havia perto dali.
Depois de achar o que queria, usou a velocidade da luz e poucos minutos depois estava na Rússia, mais precisamente no centro de Moscou.
Jamiel, 20:45pm
No alto do Himalaia, à borda de um precipício, o vento gélido castigava o pagode milenar composto por cinco andares erguidos em rochas maciças, mas não era o suficientemente forte para apagar o fogo das inúmeras tochas que iluminavam a base octogonal da construção.
Dali de fora, em meio à escuridão, era possível ver a torre viva por dentro. Os diversos lampiões espalhados pelos andares e a lareira no último piso faziam do pagode um farol naquele infindo mar rochoso, enquanto o vento que soprava forte agitava as centenas de bandeirinhas coloridas que pendiam desde o cume da torre até o chão, presas por dezenas de cordas de sisal, produzindo um ruído intenso.
Em frente ao pagode, poucos metros apenas de distância, as figuras resplandecentes de Áries e Virgem surgiram abraçadas, envoltas na capa do guardião da primeira casa zodiacal, a qual Mu usava para proteger Shaka das baixas temperaturas que castigavam o lugar.
Juntos eles olhavam para a torre no pico do penhasco, imune ao vento e ao frio, tão sólida quanto a lenda que a envolvia.
— Não é possível! Aqui é... — Shaka murmurou, começando a sentir o frio intenso e a emoção de conhecer o lendário templo lemuriano arrepiar sua pele.
— Jamiel. — respondeu Mu com semblante sereno — Sei que te prometi uma viagem à Índia, mas agora você é parte do meu mundo e esse também é meu mundo. Achei que gostaria de conhecê-lo.
O Santo de Virgem não era capaz de tirar os olhos daquela construção.
Passara anos imaginando como ela seria, onde ficava precisamente, como Mu vivia ali e o que fazia em seu dia a dia completamente sozinho.
Jamiel era um verdadeiro mistério para os moradores do Santuário, um lugar de exílio. Nada sabiam dele além do fato de que existia.
E assim também era para Shaka, que correndo os olhos pelos pisos iluminados sentiu seu Cosmo reagir com a torre, pois ela lhe parecia viva, uma vez que a cosmo energia do cavaleiro de Áries lhe corria pelas paredes de rocha e madeira como seiva que nutre o tronco. Era como se todo o local fosse envolto a uma energia mágica.
— Então... Aqui é Jamiel! — disse surpreendido, enquanto esticava um dos braços para tocar o tecido amarelo ocre de uma bandeirinha que tremelicava perto de si — Nem em meus delírios imaginei que um dia pisaria nessa torre!... Tudo aconteceu tão rápido! Prova de que quando somos certos do que queremos não é preciso esperar.
— Exato! Eu também jamais imaginei trazê-lo aqui, Shaka. Ainda mais como meu marido!... Esse local é sagrado para mim, para minha raça. Tão sagrado a nós quanto proibido para os forasteiros. — dizia o ariano abraçando com força o amado — E esse lugar agora também te pertence. — tocou outra bandeirinha que tiritava ao vento.
Cada um dos pequenos lábaros de tecido de algodão verdes, vermelhos, azuis, amarelos ou brancos continham uma prece escrita em tibetano e eram oferecidas ao vento para que ele levasse as orações à longas distâncias, propagando a vontade de quem as escreveu mundo à fora.
— Em cada bandeira há um pedido meu em forma de oração, pedindo por nossa felicidade. Que ela seja duradoura e nosso amor tão forte quanto esse vento que recita meu desejo.
— Eles serão! — Shaka lhe respondeu com um abraço forte — É com nossos desejos sinceros que fazemos o nosso mundo.
Mu então olhou para o amado e lhe sorriu.
— Não temos portas em Jamiel. Vou levá-lo para dentro, pois mesmo com nossos Cosmos ativos está muito frio aqui fora.
No instante seguinte ambos estavam dentro da torre, no último piso.
Era o quarto de Mu, que assim que se viu ali se desfez de sua armadura sagrada, a qual retornou ao Templo de Áries.
O lemuriano passou então a observar Virgem, que admirado corria os olhos por cada detalhe daquele lugar icônico.
O cômodo era amplo, mas sem nenhum tipo de luxo.
As paredes eram de um tom acinzentado e os móveis de alvenaria.
Havia amplas janelas, que na ocasião estavam cobertas por cortinas de um tecido fino, uma grande cama no centro, a qual se encontrava toda recoberta por grossas mantas de lã de carneiro e mais ao fundo uma lareira que aquecia o ambiente o deixando aconchegante.
No chão de pedra, coberto por um amplo tapete de couro de iaque costurado em várias partes, havia várias velas acesas, incensos e dezenas de pétalas de flor de lótus espalhadas. No ar um suave aroma de lavanda perfumava todo o cômodo, mesclando-se à olência da madeira se consumindo no fogo da lareira.
Shaka sentia-se num ambiente onírico, apesar da rusticidade. Aliás, este era todo o charme do local.
Tocou com a ponta dos dedos tatuados de hena um grosso casaco de couro forrado em lã de ovelha que levava adornos típicos das vestimentas tibetanas, que estava pendurado em um cabideiro de madeira escura ao lado da uma das janelas, então virou-se para Mu e lentamente retirou a máscara de ouro que cobria parcialmente seu rosto.
Áries o observava, atento a cada gesto.
Shaka então desprendeu o véu que lhe encobria cabeça e corpo e o deixou deslizar até o chão. Soltou os cabelos dourados produzindo um tilintar gracioso conforme mexia as pulseiras em seus braços, então caminhou até Mu. Os olhos azuis celeste contornados em kajal negro mergulhando profundamente nas íris verdes do lemuriano.
— Eu estou feliz de estar aqui. Não poderia ter escolhido lugar melhor. — sussurrou com o semblante tranquilo, apesar da ansiedade que já voltava a lhe tomar os sentidos.
— Eu também estou feliz. — Mu respondeu levando a mão à testa do virginiano e lhe fazendo uma carícia sobre o Sindoor, a tinta vermelha no couro cabeludo que marcava Shaka como seu para todo o sempre — Dessa vez, não haverá mais desculpas nem contratempos.
— Eu amo você, Mu de Áries. — disse pegando a mão do ariano e lhe beijando a palma suavemente.
— Eu amo você, Shaka de Virgem... — acariciou os lábios do indiano com as pontas dos dedos — E eu não vou mais fugir.
Os olhos se fecharam ao mesmo tempo em que os lábios se tocaram vagarosamente.
Não tinham pressa. Não tinham dúvida, e também não tinham experiência, mas tinham uma imensa vontade de amar, de viver, e como disse Buda uma vez: "Toda grande caminhada começa com um simples passo!"
Índice
* Dicionário Afroditesco
Ajeum = comida
Amapô = mulher
Aquendar a neca = esconder o pênis para se passar por mulher
Axô = roupa, vestimenta
Babado = problema
Neca = pênis
Ocó = homem heterossexual
Xocoto = calcinha, lingerie, qualquer roupa de baixo feminina
(1) Em vigor desde 1860 a Seção 377 do Código Penal Indiano considera crime qualquer tipo de relação homossexual (em particular a sodomia), com punições de até 10 anos de prisão para quem manter relações homossexuais. Em julho de 2009 o Alto Tribunal anula esta seção do código penal por considerá-la uma "violação dos direitos fundamentais" da Constituição. Tal decisão foi criticada por grupos religiosos, que apresentaram recurso ao Supremo Tribunal do país, que em 2013 restituiu a Seção 377[1][2] por considerar que "cabe ao parlamento legislar sobre o tema", surpreendendo ativistas da causa LGBT não apenas na Índia, mas em todo o mundo.
(2) Amithaba =Amém, que assim seja.
(3)traduzido do hindi
